Está em casa, há convidados, não
era bem uma festa, mas havia pessoas em sua casa. Um jantar? Não, aquilo não
parecia um jantar, apenas uma reunião de amigos com canapés, drinks e uma boa
conversa. Todos pareciam felizes. A
conversa se desenrolava sobre muitos assuntos, inclusive o preferido de muitos
deles, a critica aos discursos pronunciados no Congresso Nacional (Câmara dos
Deputados e Senado). Gostavam de criticar e sorrir das bobagens,
Contar estórias e histórias; ficção e realidade se misturando para fazer rir, chorar, viver.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
sábado, 28 de março de 2015
Será possível?
O dia não amanheceu nem melhor,
nem pior, que os outros. Não posso sair para andar, estou proibida de tomar sol,
e, mesmo com o protetor solar, não vou arriscar.
O que faço para compensar este
intervalo de uma hora da minha caminhada matinal, que ocorre, sempre, entre 06h15min/06h30min
e 07h15min/07h30min? Ler ou escrever: sempre estas opções são as primeiras que
aparecem. Tenho de fazer isto para não pensar muito, não rememorar os
problemas, eles não se afastam, se impõem de uma maneira tal, que parece que já
estão mesmo incrustados no meu ser.
quinta-feira, 26 de março de 2015
A Privataria Tucana- Amaury Ribeiro Jr
Recomendação de leitura
Livro - A Privataria Tucana
Amaury Ribeiro Jr
SP ,Geração Editorial, 2011, Coleção História
Agora
Parece que este país vive sob o signo da
corrupção. É esta a constatação que fazemos com a leitura oportuna da obra de
Amaury, porque por ela e, através dela, constatamos, exatamente, que a corrupção, o ganho fácil, a lesão ao
patrimônio público, o financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro sujo, lavados em paraísos fiscais, é
uma constante no país
quinta-feira, 19 de março de 2015
Resenha livro BOCA DO INFERNO - Ana Miranda
Resenha -Boca do Inferno
Ana Miranda
São Paulo -Cia das Letras, 3a.ed, 1989
Acabo de ler o romance histórico
de Ana Miranda – Boca do Inferno. A referência ao Boca do Inferno é realmente à
Gregório de Matos, o nosso poeta do período colonial, que com os seus versos satirizava
a sociedade baiana.
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segunda-feira, 9 de março de 2015
Um presente vivo
Talvez tenha recebido um presente pelo dia da
mulher, só podia ser isto., ou quem sabe um coelho da páscoa antecipado. Todavia, não podia desembrulhar o presente,
muito menos usá-lo, gozá-lo então, impossível. Mas, o presente estava ali, todo
embrulhadinho, num belo papel em que predominava o azul. O presente era vivo,
vivinho, se movia diante de si, procurava lhe envolver, parecia ter braços
pernas, um corpo inteiro. Tinha uma boca, e que boca, tudo isto ali, mas ela
não podia, ao menos não devia, deixar que o presente se desembrulhasse. Era
melhor ficar dentro do pacote. O que seria aquilo? Parecia gente, mas uma
pessoa não poderia vim embrulhada, sufocaria de certeza. Custou a crer que tinha recebido mesmo um
presente. Quem se lembrara dela assim no dia da mulher ao ponto de lhe mandar
um tão lindo pacote?
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
DESENCONTRO MARCADO II
Acordara cedo, mas o frio intenso
fez com que ela permanecesse na cama, leu mais umas páginas de Saramago em O Memorial
do Convento, entretanto não queria sair de casa tão tarde, tinha um compromisso
e, antes dele, teria que ir à Faculdade pegar os quatro exemplares da
dissertação e tese para levar ao Arquivo Histórico do Ultramar e à Sociedade de
Geografia, o problema é que o Arquivo Histórico só abre uma hora da tarde e ela
queria entregar os exemplares exatamente neste horário, porque pretendia estar
na Merendinha do Arco às 13h30min, afinal o encontro estava marcado e não seria
ela a falhar.
Tomou coragem e as dez estava
completamente pronta, decidiu que iria pegar um taxi, assim adiantaria mais as
coisas. Chegou à faculdade e, felizmente, os exemplares estavam prontos. Colocou tudo em uma sacola e dirigiu-se ao
metro, preferindo ir até o Campo Grande e lá pegar a linha verde. Olhou o relógio:
sim, chegaria a tempo na Sociedade de Geografia e depois, logo ali na Praça da
Figueira tomaria o quinze e iria até o Arquivo Histórico e depois voltaria para
o Rossio para o encontro marcado.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Poder e posse
O dia está lindo, há sol, o céu
azul, o verde das árvores. Sentada na cama observa tudo isto pela janela do
quarto “da Gatucha” é assim que a amiga trata este cômodo da casa. É engraçado
como personaliza-se algo: seja um espaço, seja uma coisa, seja até mesmo uma
pessoa, pois quando personaliza-se também dá-se, ou toma-se posse, seja atribuindo-a
a si próprio seja a outrem, por exemplo: o quarto da Gatucha; o quarto é dela,
não é de Maria e nem de João, é dela e ela é que tem a posse dele, no caso do
quarto em questão, ela tem apenas uma posse temporária, completamente justa, exerce-a de vez em quando,
mas tem uma posse.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Uma nova tentativa - Continuação da análise
Já acordou de “calundu”; então insistia
naquela história de analista, mesmo tendo a certeza que não daria certo, insistia;
devia ser o desejo de participar do mundo dos “ins”. Agora, ao menos, tinha a
consciência que seria analisada por uma mulher, pois até mesmo o sobrenome já
era sugestivo do sexo. LARANJEIRA. Um laranjeiro, certamente, não daria frutos,
seria uma árvore estéril. Bom, o certo é que tinha consulta marcada às 15h00min
com a Doutora Laranjeira.
Arrumou-se toda, parecia que ia a
uma festa. Por que isto? Perguntou para si mesma, então você vai ao analista,
que é uma mulher, e se emperiquita toda desta maneira?
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
ENCONTRO NÃO MARCADO
Estava, mais uma vez, em Lisboa
e, portanto, não lhe custava nada tentar um contato com o Madeira. Já vinha
pensando nisto no avião e, assim que colocara os pés no solo português, ainda
dentro do aeroporto da Portela, decidiu que tentaria contatá-lo.
- Será mesmo que ele ainda lembra-se
de mim? Tanto tempo se passara desde o último contacto, quando ela decidira que
seria mesmo o último. No seu consciente, no seu racional, sabia que era melhor
não tentar nada, mas o diabinho interior, com os seus tridentes futucando ali e
aqui já decidira por si. Sim, ela ia entrar em contato, só não o fazia naquele
momento porque estava sem rede no tele móvel e ansiosa pelas malas que não
apareciam na esteira. Já se passara quase quarenta minutos do desembarque ela não
via as malas.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Ainda a visita ao analista
Como foi a visita ao analista?
Gostou? Ela bem que já esperava a pergunta, mas, ainda assim, ficou para lá de
irritada. “Que merda, os “ins” acham que
esta é mesmo uma solução para os problemas que eles vêem em mim. Acho que não
vou responder nada”
-Diga lá mulher, como foi a
sessão, vocês gostou?
-Quer que eu fale a verdade?
-Claro
-Uma merda, não sei como vocês
conseguem achar que aquilo é bom. Fiquei lá com cara de tacho olhando uma
pessoa que nunca vi antes a esperar que eu falasse do que não quero. Não
entendo como vocês têm a capacidade de falar de si a um desconhecido frio,
distante, até mesmo seco.
-O que você queria? Uma mãe que
lhe colocasse no colo e alisasse seus cabelos e perdoasse os seus erros?
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Pós visita ao analista
Chegou a casa visivelmente mal
humorada. Não conseguia entender por que se tinha permitido passar por uma cena
daquelas; então pagara quase a metade de um salário mínimo para falar duas
palavras com um híbrido e acabar o tempo sem que nada de, minimamente,
esclarecedor, ou com alguma possibilidade de sê-lo, acontecesse.
Vinha no carro e, de vez em
quando, como para se acreditar que aquilo ocorrera mesmo, se olhava pelo
retrovisor e via a sua cara de tacho e de besta com toda aquela situação,
perdera uma hora do seu dia, perdera dinheiro, ficara mal humorada, perdera
inclusive o horário de chegar a casa, um tempo precioso para corrigir algumas
provas, estas sim importantes, porque sua obrigação, que fora atrasada por
aquele acontecimento que não se repetiria.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
A primeira sessão de análise
Não gosto de falar sobre mim, às
vezes, nem comigo mesma, mas foi inevitável. Todos os meus amigos, os mais íntimos
claros, e até alguns que pensavam que eram amigos, me mandavam procurar uma
ajuda. Eu não entendia bem porque e ficava me perguntando. Será que sou tão difícil
assim? Será que tenho tantos problemas que não consigo entender nada? Será que
os meus problemas se refletem nas minhas relações com as pessoas até ao ponto de
ter que fazer algum tipo de terapia? Não, não achava isto, e também não achava
que uma pessoa estranha pudesse me ajudar e o faria apenas ouvindo-me falar.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Resenha - Os Mazombos e o Pai Sumé do Peabiru
RESENHA
Os Mazombos e o Pai Sumé do Peabiru
Autor – Antonio Gusmão
Editora – Qualidade Editorial Ltda, 2013
Segundo FERREIRA DA CUNHA(2006) o
escritor do romance histórico tem a preocupação de trabalhar com as fontes e,
por isso mesmo, de acordo com este autor, este gênero literário encontra uma
grande receptividade seja pelas massas de cultura média, seja por parte das
elites acadêmicas. Para ele “ao
aventuroso, romanesco, pitoresco ou exótico da sua dimensão lúdica se junta
honesto estudo, que não raro se nos desvenda nos alicerces e andaimes”.
Partindo desta assertiva de Ferreira da
Cunha, comecei a ler este livro, achando, em principio que
este romance podia ser classificado como tal; não é, apesar dos inúmeros fatos reais e
históricos que nele se contem, a exemplo dos Bandeirantes, do Caminho de São Tomé, da invasão
dos holandeses, e muitos outros acontecimentos que podem ser comprovados “cientificamente”
porque história é uma ciência, e o que ela pode comprovar, portanto, é cientifico.
Era assim
O dia começa cedo; as tarefas distribuídas, limpeza da casa para as mulheres e os serviços outros, olhem só, o da cozinha para os homens. Era assim: os meninos tinham de ajudar a moer a carne ou qualquer outra coisa na velha máquina de “moer”, que a gente dizia ser de “passar carne”. A máquina era atarrachada em um dos lados da mesa, sendo que sempre que isto ocorria, alguém tinha de ficar sentado do outro lado da mesa, para que com o movimento e a força aplicada de quem estava no moedor, desse o equilibrio necessário para ela não virar. A máquina era pequenina, mas poderosa, machucou, muitas vezes, os dedos da criançada, que para acelar o processo enfiavam as mãos para empurrar o que estava sendo moido e o resultado era unha roxa, ponta do dedo machucada, enfim, mas ninguém morreu por este motivo. Era o nosso processador manual.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O regulamento do trabalho indígena de 1899 e sua aplicação na Guiné no ano 1900-1901
1 – A
CONFERÊNCIA DE BERLIM
Com a Conferência de Berlim 1885 toda a política colonial
foi remodelada. O principio dos direitos históricos, baseado na descoberta, na posse
da terra e no reconhecimento por parte de outras nações, passa por uma completa
reforma. Agora, as colônias precisavam ser efetivamente ocupadas e esta
ocupação tinha que produzir resultados, resultados estes que teriam de revelar
um desenvolvimento e integração dos nativos.
Parece-nos evidente que a Conferência de Berlim, fez
nascer um direito colonial internacional, surgindo, exatamente desta
Conferência, uma medida de caráter internacional para a proibição do tráfico de
escravos; todavia a sua origem, a sua força motriz, estava no estabelecimento
de regras para o comércio na África. O interesse econômico era o mote, a base
da reunião. A delimitação de fronteiras era essencial para as pretensões das
potências colonizadoras. A liberdade de comércio era fundamental para os
interesses econômicos das grandes nações colonizadoras.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Uma homenagem
Querido amigo,
Amanhã, dia sete de novembro, será
um dia bem importante para mim por diversos motivos: primeiro porque minha neta
completa um ano de vida, a quem eu desejo muita felicidade junto a todos que a
amam, segundo porque o dia me faz
lembrar de uma pessoa muito importante na minha vida, o meu ex sogro, Sr.
Adauto Gomes a quem agradeço por todos os motivos que ele mesmo, onde estiver, sabe.
O terceiro motivo, que me perdoem os dois primeiros: você. Você meu querido e
inesquecível amigo. O dia será especial para nós dois; para nós dois, para sua
esposa e para o seu rival, porque amanhã
estou lançando um livro em sua homenagem e, para homenageá-lo,
logicamente, não poderia esquecer, de
maneira nenhuma, de falar da sua esposa
– Lisboa e do seu, por mim e por ela, adorado rival: o Tejo.
Você sabe quantas vezes escrevi
sobre e de você; sobre seus costumes,
sua cultura, seus recantos e encantos. Quantas vezes falei da sua adorável
esposa, e quantas e quantas vezes me
inspirei no Tejo para falar de você.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
MEU AMOR LUSO
Mais um sonho realizado!
Experiências vividas, observações, indicações de e sobre Portugal, Uma coletânea que lhe ajudará a descobrir, conhecer e amar este maravilhoso país que é Portugal e o seu grande companheiro, o Tejo.
O livro é digital e pode ser adquirido através do site da Cia do e-book, bem como das livrarias cultura, amazon e outras.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Igrejas pelo MUndo
Resenha - Descaminho no Caminho Real
RESENHA
Livro –
Descaminho no Caminho Real – Fé e Sexo no Caminho de Santiago
Autora – Adla Zanit
Editora – Cia do
E-book
Tenho lido muitos livros sobre o
Caminho de Santiago, uns bons, outros regulares, uns mais reais, outros bem
irreais. Os autores sempre falam das suas experiências durante a caminhada e como
esta caminhada os ajudaram a encontrar soluções para muitos problemas pessoais,
mudanças espirituais, enfim.
Em todos os livros que li, e o
fiz porque, quem sabe um dia, se o corpo permitir, realize o sonho de fazer
esta Caminhada, certamente não por força da fé, mas por força da curiosidade,
porque gostava de entender o que leva as pessoas a realizar esta peregrinação,
o que acontece durante ela, e porque eles se sentem tão diferentes quando completam
a caminhada, o que mais me intrigava era a acomodação, a dormida nos alberques, Além desta curiosidade, queria conhecer todos os lugares pelos
quais passam os peregrinos, uma maneira, acho eu, bem criativa de conhecer o
interior da Espanha (uma parte da Navarra e a outra da Galícia.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Saudades de Lisboa
Estou com uma saudade imensa de Lisboa, e não só dela, de Portugal como um
todo. O ano vai-se embora e, depois de dez anos, este é o primeiro em que não
vou a Portugal, que já está muito diferente desde a última vez que lá estive,
em outubro de 2013.
A revitalização do Cais do Sodré, ou melhor, daquela região, deve estar
mesmo extraordinária. Vi ontem, entretanto, na SIC Internacional, uma reportagem
mostrando exatamente as consequências desta revitalização, e lembrei-me de uma
coisa interessantíssima: quando eu estava
em Lisboa e ia, fizesse sol ou chuva, aos Bailes da Ribeira, que não
incomodava ninguém, pelo menos ao meu sentir,
estes bailes foram suspensos algumas vezes porque um Juiz assim determinou atendendo pedidos de
moradores.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
A depiladora sedutora
Lembrei-me dela; não sei por que
hoje, mas o fato é que me lembrei dela, talvez por estar passando creme no
corpo, pois ela tinha mania de cremes.
Era baixinha, feinha. Andava bem arrumada
bem verdade, mas nada de especial, até porque o físico não ajudava, e, por
outro lado, estava sempre com o jaleco branco por força d atividade que
exercia.
Era depiladora. Tanto trabalhava,
na época, com depilação à cera, como com pelo método eletrólise, que não
recomendo a ninguém, miséria que dói. Fica tudo bem lisinho, mas dói e muito, e
é um processo demorado. Exatamente pela
demora é que eu estive com ela, naquela minúscula sala de depilação, muitas
vezes durante quase um ano.
Fiz a depilação numa área mais de
que sensível, a dor era, algumas vezes, insuportável, mas eu agüentava firme,
queria me livrar dos aparelhos de barbear que me deixavam bastante
empolada. O salão ficava num shopping Center
de uma cidade do interior, e eu sempre marcava a depilação lá pelo final da
tarde, por força do trabalho, aliás, minha depilação virou quase um assunto
nacional, porque quando eu deixava a sala eu estava vermelha feito um pimentão,
zangada, e doída. O juiz que eu conhecia
e que freqüentava o shopping com a família, mulher e filhos e era uma pessoa
que eu bem gostava, já ficava me esperando, numa das mesas da praça de
alimentação, porque assim que eu acabava a miserável da sessão de tortura eu ia
tomar uma, para ver se a dor aliviava e a mulher dele e os filhos me
perguntavam: Qual foi a banda hoje? Sim porque eu dividi a minha “virilha” em
várias bandas, banda A, Banda B, banda C, esta última é mesmo na zona onde vocês estão a imaginar.
Vestir a calcinha depois desta “audiência”
era mais uma etapa do processo de tortura. A pele ficava irritada, vermelha,
cheia de "hipoglos". Vejam bem, como eu ficava cheirosa depois que cumpria
a pena imposta pelo Santo Oficio, pois eu só fazia isto porque era quase que
obrigada a estar sem pêlos pubianos, para agradar ao gosto do parceiro. Lógico
que penso ser mais interessante, mais higiênico até, embora esteja
cientificamente comprovado que tais pêlos, se estão ali colocados, tem a sua
função, que é a própria proteção, mas os menos informados acham que é falta de
higiene. Evidente que não deixaria que alguém fizesse tranças em tais pêlos,
mas podia apenas rebaixá-los, mas arrancá-los pela raiz como estava fazendo
era, efetivamente, uma autoflagelação.
Bom, mas a introdução foi para
familiarizar vocês com a minha depiladora e para que vocês possam entender a
estória como ela deve ser entendida.
Nestas sessões que duravam,
aproximadamente, uma hora e meia falávamos de tudo; ela fazia tudo para me
descontrair, para que a dor fosse aliviada, e me contava muitas coisas suas e de pessoas que
nunca vi nada vida, e que, com certeza, jamais conheceria, mas eram estórias
engraçadas e eu ficava ali tentando me esquecer da dor.
Um dia ela me chega e me diz que
tinha encontrado um namorado estrangeiro, ou melhor, tinha conhecido um gringo
no Pelourinho, naquelas terças da benção, e que eles tinham marcado para se
encontrar no sábado. Ela morava em um apartamento na Barroquinha, bem no centro
da cidade, ainda se podia morar ali sem problemas há uns 20 a 23 anos atrás e me
disse que ia dar um jeito de levar o diabo do homem para a casa dela depois da
farra. A moça gostava, e bem, de sexo, ao menos era o que demonstrava ao falar
no assunto. Quando ela falava sobre isto chegava a mudar a voz, a sua respiração
ficava ofegante, eu até ficava com medo dela errar a mão e meter aquela droga
daquela agulha fina que dá choque em lugar diferente das bandas já delimitadas.
O fato é que ela falava do gringo
e do que faria com ele, se ele fosse dormir com ela, o que realmente aconteceu.
É lógico que não me contou tudo, mas me deu uma aula de sedução e alguns poucos
detalhes.
Na terça feira seguinte ao sábado
em que ela ia tentar levar o “gringo” à sua casa, ela me contou o que tinha
feito:
“Fui encontrar com ele lá pelas
cinco da tarde. Fui para o Pelourinho, porque ele não conhece muito a cidade,
embora preferisse que ele fosse logo lá a casa, mas não deu para explicar
direito onde era. Fiquei no Pelourinho com ele até umas onze da noite. Aí ele
queria ir para o hotel, mas eu disse a ele que queria que ele me levasse em
casa, depois ele pegava um táxi e ele iria para o hotel(isto tudo meio na mímica,
eu não sabia falar inglês e nem ele português).
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Como será o dia de uma camareira de hotel?
Deitada na rede na varanda do
bangalô do hotel onde estava hospedada olhava as camareiras no vaivém diário,
na lida cotidiana da limpeza dos quartos do hotel. De roupas de listrinhas, um
avental por sobre o vestido, que nada tinha de bonito, um saco amarrado pela
cintura, à touca da mesma cor da roupa, tênis e meia, elas empurravam os seus
carros por entre as alamedas construídas para isto, e para as passagens dos hóspedes
para os seus respectivos aposentos.
O hotel é lindo, não tão moderno,
porque fundado pelos idos de 70, por um visionário, que reconhecendo a beleza
natural daquela terra, construiu o seu sonho, e deu a oportunidade de que várias
pessoas realizassem os seus, inclusive os nativos da própria cidade que,
naquele empreendimento, viram nascer à esperança de dias melhores, numa região,
que até então era muito pouco conhecida por todos, não que não tivesse história
e potencial para sê-lo, mas a falta de recurso para a exploração do seu
potencial turístico deixava a desejar.
O fato é que ela estava, mais uma
vez, ali, fora antes, lá pelos idos de 80, mas ficou hospedada na casa de uma
amiga, em Palmeiras, um Município próximo, foi quando conheceu todas as grutas,
as cachoeiras que teve oportunidade, o Capão. Tudo evoluiu, e muito, as pessoas
que passaram a freqüentar a região mudaram, o perfil dos visitantes mudou de místicos
e “cultuadores de vida livre”, aí incluindo as drogas, passou a receber um outro tipo de público, um turismo ecológico,com mais um pouco de luxo, se é que assim se pode
dizer.
Bom mas não é disso que quer falar. Na sua rede ela olhava as camareiras e
começou a imaginar o que aquelas mulheres, no exercício das suas atividades,
presenciavam. De imediato lembrou-se do caso bombástico com o diretor do FMI. O
Frances que, segundo a camareira, agarrou-a a força dentro do seu apartamento
em um hotel em Nova York. Será que foi
mesmo verdade, pensa ela? Então um homem
com aquele status, com um nome a zelar, um representante de uns pais, um possível
candidato a primeiro ministro, ia dar uma bobeira desta? Não, não podia crer.
Todavia o fato é que o miserável
foi preso, com toda aquela parafernália que os americanos gostam, muito principalmente
quando o fato pode ser uma mina de lucros para a imprensa, um escândalo sem
proporções, um enlamear a vida de alguém.
Bem verdade que eles também fazem miséria com os seus, lembrem-se de
Kennedy com a Marylin Monroe, do Clinton com a mulher do charuto, do Nixon com o
Watergate e tantos outros episódios, mas não me lembro de ter visto, em nenhum
destes casos, ninguém saindo algemado do hotel, ou de suas residências, aliás,
nem me lembro de eles terem sido punidos, a não ser pela opinião pública, assim
mesmo, nos dois primeiros casos, com uma ponta, até mesmo, de orgulho, afinal
eram governados por homens que gostavam de mulheres, machos que podiam
conquistar mais jovens, enfim. Há que se
dizer que, embora a traição fosse pública e notória, as duas mulheres destes
dois presidentes americanos optaram por ficarem ao lado deles, heróicas
mulheres, ou não queriam perder o status de primeiras damas?
O certo é que o homem foi preso, foi
parar numa prisão com direito a holofotes, imprensa internacional, manchetes
nos jornais. A latina, de simples
camareira virou noticia de jornal e queria uma indenização milionária, especulações
demonstraram que ela era useira e vezeira nisto, além de ligada às drogas. Mulher feia que nem justificava a tara do
ilustre hóspede, que só poderia estar sob o efeito ou de “drogas” ou de muito
álcool, a ponto de, com a visão turva, tentar pegar aquele e anti-tesão que era
a camareira, que já devia agradecer a Deus ser comida por alguém.
O fato é que, provado ou não, o
cara entrou pelo cano a baixo, é como se ele tivesse cagado ele mesmo e dado
uma descarga e viesse rolando pela canalização abaixo até chegar ao esgoto
geral. Perdeu o cargo, a moral, a dignidade, mas pasmem! A mulher dele
continuou ao seu lado, pagou uma fortuna pela liberdade do seu “amado”. Será?
Eu, pessoalmente, penso que não
aconteceu nada, mas vá lá saber das taras dos outros.
Lembrando deste fato ela deixou a
imaginação fluir e pensava: como estas moças encaram entrar num quarto e
encontrar um homem nú, um casal fazendo amor, um casal brigando, um homem
enrabando outro, uma mulher tendo relação sexual com outra? O que elas fazem? Como
reagiriam?
Vocês podem dizer: Elas são
treinadas para isto, a reação seria normal, pediriam desculpas e sairiam dos
apartamentos. Ha ha ha! Duvido, não tem treinamento certo para isto. Primeiro o susto pela própria situação. Se
não há qualquer aviso nos quartos de “Not disturb”, o que, aliás, se os hóspedes
não souberem falar inglês, nunca vão saber que “Not disturb” é não perturbe, as
camareiras podem entrar no quarto.
E se um hóspede se encantar com
alguma camareira, tem algumas que são bonitas sim. O que acontece? Será que se
a camareira se encantar ela vai dar um jeito de encontrar com o cara ou a cara fora
do hotel? Ou será dentro do hotel mesmo?
Será que se a diretoria do hotel descobrir ela vai ser despedida?
As interrogações são muitas, Que tal escrever um romance sobre isto?. Que acham vocês?
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Um agradecimento
Ela o conheceu num
período para lá de triste e amargurado.
Fora forçada a deixar sua casa, seu canto, sua família, seu país. Não agüentaria
ficar na sua cidade depois de tudo que lhe aconteceu. Efetivamente não foi a
primeira, e nem seria a última, a sofrer uma grande desilusão, que abalou todos
os seus alicerces. Seguiu magoada, triste, se agarrou a uma única, para ela,
chance, de esquecer, de perdoar, de perdoar-se por tantos equívocos, tantas mentiras. Queria se perdoar por ser tão imbecil, ela que
adorava dizer que os outros é que o eram, entretanto ela sentiu na pele o que é
ser imbecil, o que é acreditar num outro tão próximo, o que é deixar-se enganar
com tudo acontecendo na sua cara, à sua frente.
Como bem diz o ditado: “corno é o último a saber”.
Sim, precisava
ficar longe. Não se preocupou com todos lhe dizendo que devia ficar e enfrentar
tudo de frente. É engraçado como as pessoas acham que podem resolver a vida do
outro, parecem que conhecem você mais de que você mesmo, mas ela tinha, no
momento, uma única certeza: devia se afastar, se ficasse ela não suportaria, a
sua dor ia multiplicar-se. E lá se foi com as suas dores .
Bendita viagem,
bendita cidade, bendito rio,bendito país, bendita faculdade de letras e bendita
biblioteca da faculdade de direito, mais bendita ainda, a Sociedade de
Geografia, o Arquivo Histórico do Ultramar, a Biblioteca Nacional, com eles
dividiu dias e noites, uma solidão partilhada com estantes, livros, documentos
e muitos loucos, que iguais a ela, não
pelo mesmo motivo, fizeram a opção do conhecimento.
É solitário, é
sim, mas há dias de folgas desta solidão, há momentos de solidão partilhadas em outras
plagas, ela partilhou muitos com o rio, o rio que a viu chorar tantas e tantas
vezes, mas que lhe consolava de uma maneira incrível, lhe apaziguava a alma, e
foi ali, diante dele, que ela viu nascer, pela primeira vez, depois de tantos
anos, a esperança de esquecer o seu passado, como se isto fosse possível, de
encontrar um novo motivo para ser feliz.
Ela, até então,
não concebia felicidade sozinha, ela gostava de ter alguém ao seu lado, para
partilhar, para criar metas, para alcançar objetivos, para criar os filhos e
ver as suas vitórias, tudo aliado ao seu trabalho e à sua vontade de conhecer,
de saber, todavia tudo isto lhe foi tirado, em questão de cinco minutos sua
vida se transformou inteira, chegou mesmo a perder o respeito por si própria.
Não fora capaz, sequer, de lutar, ficara sem forças, despedaçada, mas o rio lhe
trouxe um alento. Um alento moreno, bigodudo, bonito, galanteador.
A partir daí sua
vida realmente transformou-se, não que fosse uma meta encontrar alguém ou estar
com alguém, mas estar com aquela pessoa era bom demais. Começou a despertar
outra vez; como disse uma vez um seu amigo, ela começou a, novamente, “ficar
viçosa”. Adorava se arrumar para ouvir a
pessoa lhe dizer que ela estava linda; gostava de andar de mãos dadas no
calçadão a beira do rio, gostava de ver o orgulho do bigodudo ao andar com ela pela rua, a apresentá-la aos amigos como “minha namorada”, gostava de sentir o
olhar voraz daquele homem quando ela estava chegando aos locais dos encontros
marcados. Ah como era bom a expectativa do encontro; virou uma adolescente,
tinha dúvidas iguais aos 15 anos, quando saia para encontrar algum novo
namorado, na incerteza se ele estaria ou não no local. Adorava ouvir dos amigos dele: “Fulano teve
muita sorte”.
Sim, gostava de
comer peixe em lugares recônditos, que somente eles, os da terra, conheciam;
nada de lugares turísticos, nada de luxo, apenas lugares maravilhosos, de gente
simples e de comida mais de que caseira. Ele lhe ensinou mesmo a comer peixe
grelhado, cozido a portuguesa, carne de porco alentejana, açorda, mão de vaca,
bacalhau a lagareiro com batatas ao murro, chanfrana, frango no churrasco e tantas outras coisas.
A cada encontro
uma novidade,um novo restaurante de bairro, a exemplo do Panças, um novo espaço
para dançar; sim dançar, ela adorava e achara o parceiro ideal para isto, ele
não só gostava de dançar como de vê-la dançar. Ficava extasiado quando tocava “La
Luna e El Toro” e ela dançava sua dança “espanhola”, que nunca aprendeu, mas
enganava bem; a dança espanhola, nela, era atávica. Aprendeu kizomba, alguns
poucos passitos, mas não envergonhava ninguém e dançava com ele muito e eram
felizes. Quando chegavam em algum baile
as pessoas diziam: Pronto chegou o casal mais bonito da festa”.
Sim, assim ela
viveu durante dois anos. Teve algumas
rusgas, sim teve, ele era ciumento, mas até isto ela gostava; se desacostumara
de ser querida, gostada, desejada, e aquela demonstração de ciúme lhe deixava
tremendamente orgulhosa. Era uma mulher desejada, querida, gostada. Aquele
homem fazia questão de estar com ela e se dar para ela. Era uma conjugação
perfeita dos verbos do amor, que sempre eram conjugados no presente e na
primeira pessoa do plural, nós queremos, nós gostamos, nós vivemos, nós amamos.
Todavia, ela não
podia estar todo o tempo fora do seu país, e numa destas idas para lá, numa época
de São João, aconteceu o que para ela era quase impossível: ele se foi, sem
aviso, sem choro e nem vela, foi-se: foi-se da mesma maneira que apareceu, nenhum
rastro deixou, sequer lhe deu a chance de dizer o quanto ele foi importante na
sua vida, o quanto ele modificou o seu querer, a sua forma de pensar, os seus
sonhos. Diz-lhe agora, após sete anos da sua partida.
Obrigada Sr.
bigodudo, por tudo. Saiba que você foi
mesmo muito, mas muito importante mesmo na vida desta mulher. Ela vai seguir
lembrando de você com carinho, e, todas as vezes que ouvir um fado, vai lembrar
do moreno da boca pequena, do bigode preto, e dos olhos mais negros e
penetrantes que já viu.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Poemas do meu filho - Fabio Martinez Barbosa
DISSABORES
Sofri pelas dores dos ex
amores
Por não ouvir conselhos
tenores
Por agir por impulsos
saltadores
Por não tentar por excesso
de rubores
Por
não atender os, as vezes, irremediáveis caminhos tentadores
Sofri, mas, o tempo curou!
Curou porque extraordinário e sabidamente sábio ´tempo
Não por acaso rima com
lento
Com tento, talento.
Faz um segundo parecer uma
vida, faz a vida passar num só momento
Faz a dor do amor parecer
mais que ferida
Faz novo amor ser infinito, claro e bento.
É o tempo!
Borracha das dores
Pintor da vida em cores
Palestrante das verdades
com, ou sem, dissabores!
ESPERANÇA
Queria, permanentemente,
voar no céu do meu pensar
Flutuar nas nuvens do meu
doce delirar
Sem jamais ter que parar
para observar
As tristezas da realidade que
teimam em me rodear
Queria só mãe, mar, sol,
praia e luar
Só parar pra pensar quando
o cd de Bob acabar
E fazer amor sem me
preocupar
Com as consequências de
dar amor, para quem só sabe tirar
Queria não me preocupar
com aquela conta para pagar
Ter dinheiro, não para ser
rico, mas, apenas pra não me estressar
Viver com humilde conforto
para não afrontar
Pois o certo mesmo é
dividir para somar
O que penso não sei se é sonho
Prefiro dizer que é meta
Sonho pode ser apenas
aquele filme noturno
Meta pode ter conquistada
Portanto, eu não queria; eu
quero, faço e espero tudo um dia acontecer
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
FOGUEIRA DAS VAIDADES
Há alguns anos atrás, não me
lembro bem quando, minha mãe me deu um livro - A FOGUEIRA DAS VAIDADES, Tom
Wolf. Ela lia muito, e, como sabia que eu tinha herdado esta sua qualidade de
grande leitora, sempre me obsequiou com livros. Não me lembro bem da história,
mas sei que a personagem principal, um homem de negócios, muito bem sucedido,
se vê envolvido em um acidente em alguma Rua do Bronx e daí para frente sua
vida muda completamente, é preso em uma cela, e enquanto aguarda uma possível
soltura, afinal ele era milionário, em que ele está sentado no chão frio, penso
que molhado, ele sente a pressão dos gases e queria que eles lhe deixassem
em paz, mas não o fazia por vergonha, humilhação, enfim, uma situação triste
para quem sempre fora o sinônimo do poder, da vaidade, da riqueza.A partir disto a história retrata a vida deste cidadão e toda a trajetória da sua queda e todos os conflitos disto resultantes
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
SONHOS! Eles se realizam
Era uma vez uma menina de olhos
cor de mel, cabelos castanhos claros que também terminavam na cor mel, nariz
fino, com profundas olheiras, que chamavam atenção. Suas olheiras fundas
contrastavam com a doce pureza do seu olhar, um olhar penetrante, que sempre
soube expressar o que lhe vinha na alma.
Teve uma infância, até os sete
anos, normal. Bonita que era, sempre foi paparicada, reverenciada até,
protegida por muitos que lhe admiravam a beleza, a vivacidade, a pureza
misturada com uma rebeldia, que em si, realmente, era nata.
A menina bonita cresceu, passou
algumas dificuldades, nada que não fosse transpassado, seja por força da
própria vida, seja pela intervenção de outrem, seja pelo seu próprio destino, o
fato é que a menina ultrapassou as adversidades, aliás, continua a
ultrapassá-las, bem ou mal, e segue
adiante.
Mas a menina não poupou os seus
sonhos, nos seus piores momentos, nunca, mas nunca mesmo deixou de sonhar.
Numa determinada época da
vida sonhou em ser aeromoça, mas, quando
foi candidatar-se ao cargo, não
pode inscrever-se, porque era menor, e a companhia à época, a VARIG, não permitiu; somente o faria se os pais autorizassem. Ela tinha a consciência plena de que os pais não o fariam, e, portanto, nem cogitou esta possibilidade: a de pedir aos pais esta autorização, embora lha deram para casar. Coisas da vida que o ser humano faz e que não condiz com atos outros. Todavia, esta primeira derrota não a desanimou, ela queria conhecer o mundo, queria viajar. Sempre gostou de história e achava que se fosse em lugares que apareciam nos seus livros, centros d poder do passado, ela viveria a história de uma maneira diferente. Seguiu sempre com este pensamento, fez direito, mas o sonho das viagens continuou, embora interrompido pelas responsabilidades que assumiu com a maternidade.
pode inscrever-se, porque era menor, e a companhia à época, a VARIG, não permitiu; somente o faria se os pais autorizassem. Ela tinha a consciência plena de que os pais não o fariam, e, portanto, nem cogitou esta possibilidade: a de pedir aos pais esta autorização, embora lha deram para casar. Coisas da vida que o ser humano faz e que não condiz com atos outros. Todavia, esta primeira derrota não a desanimou, ela queria conhecer o mundo, queria viajar. Sempre gostou de história e achava que se fosse em lugares que apareciam nos seus livros, centros d poder do passado, ela viveria a história de uma maneira diferente. Seguiu sempre com este pensamento, fez direito, mas o sonho das viagens continuou, embora interrompido pelas responsabilidades que assumiu com a maternidade.
Viajou pelo Brasil em algumas
oportunidades, mas ela queria sempre mais. Os seus sonhos foram crescendo à
medida que o seu poder aquisitivo melhorava. Nunca sonhou com o impossível,
talvez por isso mesmo, um a um, os sonhos foram se tornando realidade.
Entretanto, um dos seus grandes
sonhos estava se afastando dela. Sonhou com ele aos trinta, aos quarenta, aos
cinquenta, e, acreditem vocês, somente o realizou aos sessenta, mas nunca é
tarde, e por isso mesmo, ele foi realizando de uma maneira intensa.
Pois é, a menina esteve em Veneza e na Grécia, dois destinos, dois sonhos acalentados
durante muito tempo, e o que parecia quase impossível, na companhia de quem
queria estar. Realizaria o sonho de qualquer maneira, sozinha ou não, mas tinha
a certeza que o faria, e fez, em grande estilo, ao menos para ela.
A Praça estava completamente
cheia de gente, o que impedia que tudo ali fosse visto como deveria ser, não
conseguia, sequer, tirar boas foto, as cabeças e a quantidade de máquinas competindo
não lhe faziam bem. Resolveu entrar no Palácio. Parava diante de tudo, das pinturas, das
esculturas, dos tapetes, dos mármores. Em momentos ficava imaginando como seria
a vida dentro daquele local.
Saiu dali, andou a não mais poder
por Veneza, um sonho, caro, mas um sonho realizado, e com a perspectiva de mais
um, este aconteceria nos próximos dias.
Sim, ela teve um belo
aniversário. Os seus sessenta anos, afinal, foram comemorados na Grécia.sexta-feira, 8 de agosto de 2014
SERÁ QUE PEQUEI?
Acordou no meio da noite, ou
melhor, no meio da madrugada. Já acorda irritada, porque sabe que, nos próximos
cinco dias, irá acordar neste horário até que o organismo volte a se acostumar
a acordar em outro horário, é sempre assim.
Mas aí ela se pergunta: “por que
diabos acordei 1.30 da manhã?" Está preocupada com o que? Não teve nenhum pesadelo;
não está com vontade de fazer xixi; não se lembra de ter feito nada errado
durante o dia; não machucou ninguém, então por que isto? Liga a televisão e vê
uma reportagem sobre o Rio Tietê e a sua nascente. Acreditem se quiserem: o
Tiete nasce limpo, como é óbvio. Onde ele nasce, num interior de São Paulo, a água
pode ser bebida sem qualquer problema, aliás, é o que faz o repórter, que
continuou fazendo a reportagem sem ter qualquer reação. Há uma comparação entre o Rio Tietê e o Rio
Reno que nasce na Suíça, que segue limpo por todo o seu curso, e que, de acordo
com a reportagem, é que abastece o país, e os suíços bebem cozinham, enfim
utilizam a água do Reno sem qualquer problema.
Ela imagina se alguém cai no Rio Tietê, e bebe, sem querer, um pouco
daquela água, bem ali naquele lugar onde os guindastes estavam tirando sujeira.
Ela pensa: “Eu morreria só de pavor de cair ali”, odeia águas sujas.
Muda de canal, o guindaste
tirando sujeira do Tietê não lhe agrada nem um pouco; para no Jô Soares e vê um
ator falando da sua vida, informando que ele foi interno num colégio em Minas.
Só pode ser isto! Internato, religião,
Deus, mandamentos. A associação só pode
ser esta, todavia a ficha cai e ela lembra que, pela tarde, ao chegar ao
Aeroporto de Guarulhos para uma conexão para sua terra, passou uma mulher com
um homem do lado e ela se viu cobiçando o cidadão.
Sim, o homem era lindo, um dos
espécimes que jamais será esquecido. Aquilo era uma visão extraordinária, mas
além deste sentido, muitas outras coisas foram despertadas. O sexo era uma delas, e ela ficou imaginando
como seria aquele cara na cama. Será que ele era delicado? Será que ele era
safado? Será que ele era bom de cama mesmo? Será que ele fazia sexo oral? De
que será que ele gostava em relação a sexo? Pense aí, alguém acorda no meio da
madrugada e fica se questionando se foi certo ou errado pensar no homem do
próximo na sua mais íntima “intimidade”. Deve tá louca. Não, não tá louca nada,
o homem era lindo, gostosão, como diriam todas as mulheres que o olhassem, aliás,
que o olharam naquele momento, e em todos os outros momentos em que ele aparecia
e podia ser apreciado tanto por homens quanto por mulheres. Aquele belo espécime
era de tirar fôlego, causar invejas, cobiça, desejos, pensamentos libidinosos.
Sim cobiça, e aí ela faz a
ligação com a entrevista do ator. Não tem certeza que o colégio interno do rapaz
era um colégio religioso, comandado por padres, possivelmente era, e aí é que
ela se lembra dos mandamentos da lei de Deus, hoje quase em completo desuso,
porque logo o primeiro deles já vem sendo desrespeitado há muito tempo: AMAR A
DEUS SOBRE TODAS AS COISAS. Muitos
poucos amam Deus sobre todas as coisas, hoje, o que vemos é a prioridade do
material, muito poucos estão preocupados em amar a Deus, pode ser que o papa
Francisco consiga reavivar este mandamento, mas não acredita, Já não lembra
qual o segundo, nem terceiro, enfim, não sabe nem todos e nem a ordem deles,
mas sabe que existe um que diz: NÃO COBIÇAR AS COISAS ALHEIAS e nem a mulher do
próximo. Cai na risada. Por que não cobiçar só a mulher do próximo? Então se pode cobiçar o homem do próximo ou
da próxima? "Kkkkkkkkkkkk discriminação da zorra." Não consegue parar
de rir, pois nunca tinha pensado nisto até o momento. Então ela não pecou, porque estava cobiçando
o homem da próxima, quer dizer, em principio homem, porque aquele Deus do Olímpio
poderia ser gay, e aí, a sua cobiça não teria qualquer motivo, porque pensa que
cobiça tem que ter um mínimo de possibilidade de ser possível, ou seja, o alvo
dela deve ser alcançado. Então você vai querer uma coisa que jamais alcançará:
o seu pensamento, início de qualquer ação, mesmo aquelas que a gente diz que
fez sem pensar (esta é uma das maiores mentiras do mundo), porque você pensa; você
não pondera este pensamento, mas você pensa e age, sem qualquer intervalo entre
pensamento e ação, mas pensar, pensa sim: é o primeiro ato de tudo. Então você começa uma idealização que nunca passará
disto? Ou seja, se o homem não fosse homem, de que adiantaria a sua cobiça? Ele
jamais olharia para ela, aliás, como não o fez. Bom mais ela poderia provocar que
ela fosse notada por ele: podia jogar sua mala discretamente na hora que ele
estivesse passando; podia levantar e se esbarrar nele e pedir desculpa
cretinamente; podia seguir o casal e ver qual a possibilidade de ser vista por
aquele cidadão, enfim, podia forçar uma situação; mas se fosse ele gay, no
máximo receberia um olhar de reprovação e de desprezo que só “gay” sabe dar
para uma mulher, ou para qualquer outro ser humano digno da sua reprovação.
Bom, mas se ela não estava pecando
porque não estava cobiçando a mulher do próximo, o que não tinha nenhuma intenção
ou tendência sexual para tanto, por que estava preocupada em ter cobiçado o
homem da próxima? Isto não estava na lei de Deus, que certamente não enquadrou
o ser humano no “NÃO COBIÇAR AS COISAS ALHEIAS, afinal o ser humano não pode
ser tomado como coisa, a não ser que aquele rapaz seja um escravo, pois os
escravos eram considerados coisas, faziam mesmo parte do patrimônio do seu
dono, eram vendidos em praça publica, eram leiloados, mudavam de dono, enfim,
eram mercadorias. Bom, aparentemente aquele cidadão maravilhoso não era nenhum
escravo, mas vá lá saber. E se ele fosse uma espécie de escravo por ser um
aproveitador, um gigolô, vivendo à custa da mulher que não era nenhuma menina,
era uma loura bem interessante, muito bem vestida, muito perua, mas nada que merecesse
aquele Deus do Olímpio como companheiro.
Pensa consigo mesma: “puta merda,
olhe quantas vezes você, em pensamento, já infringiu a lei de Deus e agora você
está julgando o próximo, ou a próxima, sem saber quem é a pessoa. Não sabe dos
seus costumes, dos seus problemas. E se aquela mulher fosse a mãe daquele rapaz?
Se ela fosse a irmã? Se ela fosse apenas a sua agente?” Sim, porque aquele belo
espécime poderia ser um modelo.
Nesse momento lembra que o
mandamento correto é “NÃO DESEJAR A MULHER DO PRÓXIMO”; ri outra
vez e diz: “Realmente não pequei, pois eu não desejei porcaria de mulher do
próximo nenhuma, aliás, não tem qualquer vocação ou tendência para isto, o que desejei
e ainda desejo, é o HOMEM da próxima”.
Ri muito, e pensa “Pois não é que eu sigo, ainda que sem querer, os mandamentos
da lei de Deus”.
Lembra, então de mais um
mandamento: "AMAR O PRÓXIMO COMO A TI MESMO", e traduz: “Bom, continuo a não infringir
qualquer mandamento, pois Deus, ou melhor, quem elaborou a Tábua dos Dez Mandamentos,
só colocou tudo no masculino, e se é assim, ela entende que ela devia amar
aquele próximo, o rapaz, como se ela fosse”. Não gosta desta interpretação, pois
o amor por si devia ser maior do que o amor por qualquer outro, pois sempre
achou que se não se amasse muito não poderia amar ninguém, então, em primeiro
lugar ela, depois “o próximo” poderia ser muito amado, mas não tanto assim; kkkkkkkkkkk
se pega gargalhando, pois vê o ridículo da sua situação:” Então porra, alguém
acorda no meio da madrugada para ficar fazendo elucubrações a respeito das leis
de Deus, tá mesmo maluca. Isto não pode ser coisa de alguém normal; talvez, até
seja mesmo uma coisa para gente normal, para gente que pensa, que deseja, que
aprecia o belo e que tem a coragem de admiti-lo”. Será que existe mesmo este mandamento?
E então não há como não voltar aos
Mandamentos, que ela vai lembrando aos poucos, afinal estudou em colégio
interno e tem formação, ao menos por este particular, católica, embora sem o
seguimento peculiar; pois não é nem apostólica e nem romana, NÃO MENTIR. Sim,
ao admitir todas estas cobiças, todas estas invejas, todos estes desejos, todos
estes pensamentos ela não mente nem para si e nem para o próximo, portanto ela
é uma pessoa transparente, real, com todos os defeitos e virtudes inerentes ao
ser humano que sabe apreciar o belo e, por isso mesmo, querê-lo para si, aliás,
as 03h27min, no friozinho que está fazendo, o que ela queria mesmo era o homem da
próxima. Assim, com certeza, estas horas que passou acordada e escrevendo podiam
ter sido muito bem aproveitadas, e quem sabe ela pecaria, mais uma vez, ao
chamar o santo nome de Deus, não em vão, embora para alguns isto seja mesmo um
grande pecado, mas, para ela, seria sim o auge do agradecimento ao dizer, num
grande momento de emoção e prazer: AH MEU DEUS!
04:11, Arembepe 08.08.2014.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Compensando o desencontro marcado
| gaivotas no Tejo |
Depois daquela informação, de que
era ela a senhora que estava na mesma mesa com ele, parece que ficam
petrificados, ambos calados na frente da tela, onde só o branco do silêncio de
ambos se fazia presente. Nenhum dos dois conseguia escrever nada, ao que parece
aquele desencontro foi mesmo terrível para ambos. Não desconectavam, mas não
diziam nada, e esta espera estava sendo angustiante para ela, que, sem qualquer
aviso, desligou o computador e foi dormir.
Deitada, quase chorando, se
perguntava: Por que isto aconteceu?
Então aquele homem que, da tela fez-se real, de uma maneira que ela quase
idealizou, escapuliu assim das suas mãos!
Ela custava a crer que tudo isto tivesse
acontecido. E agora, pensava ela. O que vai acontecer? Será que ele não vai
mais dizer nada? Por que ficou tão calado?
Será que ele não gostou do que viu?
Será que esperava mais ação da minha parte? Será que não agradei em nada? Agora ele já sabia como ela era, portanto,
podia dizer algo, comentar alguma coisa. E ele resolvia adotar o silêncio.
Custou mesmo a dormir, mas foi
vencida pelo sono e pelo cansaço.
Dia seguinte e nada, chamou por
ele diversas vezes, mas ele não apareceu. Dois, três, quatro, cinco seis dias,
um mês e nada. Ela não sabia o telefone, o endereço, nada, apenas um apelido, e
mais nada. Que bobeira, pensava ela: por que, depois de tanto tempo, eles nem
sabiam o próprio nome e nem um telefone? E se tivesse acontecido alguma coisa,
como ela ia saber? Bom, mas não há nada
que o tempo não cure, e ela já estava aceitando o fato de que não mais se
encontrariam, seja virtual ou realmente, mas aí, um dia, sem qualquer esperança,
só ela mesmo que assim pensava, ele apareceu no local de sempre. Ela quase teve
um troço, suas pernas tremiam, as mãos trêmulas quase não conseguem
responder ao cumprimento.
| Maputo |
-Olá, peço desculpas, mas estive
fora durante todo o mês, fui fazer um trabalho na África, na Ilha de
Moçambique, e fiquei quase todo o tempo
sem acesso à net. Cheguei hoje pela manhã e aguardava ansioso que aparecesses.
Ela quase desconecta, pois não
acreditava naquilo, mas diz Oi e começa a falar como se nada tivesse
acontecido, inclusive aquele interregno.
- Olá, então fostes a
Moçambique? Eu já estive lá, mas só fui a
Maputo, gostava muito de ter conhecido a Ilha de Moçambique, mas não tive
tempo.
- Tu fostes a Moçambique?
- Sim fui, fui fazer a pesquisa
do doutorado.
- Doutorado.
- Sim, doutorado. Fiz o doutorado em História, na especialidade
História da África.
- Não acredito! É mesmo verdade?
- Sim, tão real quanto a tua
viagem à Ilha de Moçambique.
- Podíamos ter ido à mesma época,
ao menos arriscaríamos a nos encontrar no avião ou até mesmo em Maputo, pois
passei uns cinco dias por lá, antes de voltar para Lisboa.
- Fostes à Feira Popular e ao
Mercado do Peixe?
| Igreja de Sto Antonio-Maputo |
-Claro que fui; então eu ia a
Maputo e ia deixar de ir nesses sítios. Lá ia eu perder aqueles camarões daquele
tamanho. Claro que não. Fui ao outro
lado também e comi uns camarões num restaurante na praia que agora me
fugiu o nome, sei que era de um cidadão que esteve
algum tempo em Lisboa, embora fosse indiano de Goa
- É mesmo, eu também fui lá, e
sem gostar muito de camarão, comi também.
Apesar dele já ter dado a chance
da conversa sobre o desencontro de quase dois meses atrás, ela não se arriscava
a falar nada, perguntar nada, e continuava naquela conversa de Maputo, de
comida, da cerveja Laurentina, da pobreza da cidade, enfim.
Mas aí o inevitável acontece.- Tu és uma mulher interessantíssima!
Fiquei encantado ao saber que aquela mulher com quem partilhei uma mesa, ao
menos por dez minutos, eras tu. Não sabes quanto me maldisse naquele dia.
Fiquei tão aborrecido com a minha idiotice, pois eu deveria ter perguntado se eras
tu, que não tive coragem de conversar contigo naquela noite, quanto pior,
quando decidi já estava na hora de pegar o vôo para Moçambique. Naquele dia eu ia falar-te sobre tudo isto, da minha viagem, do meu
trabalho, do tempo, enfim, ia dizer-te tudo que estava acontecendo. Marquei naquele
dia exatamente por este motivo, pois não queria ir embora sem ver –te, conhecer-te
pessoalmente, saber como eras, e deu naquilo e eu não conseguia me perdoar.
Passei todo o tempo pensando como deixei-te escapar de mim..
- Ela sorriu, afinal ambos tiveram o mesmo pensamento e disse: pois
é, quando aquele homem pediu para sentar na minha mesa, fiquei torcendo para
que fosses tu, acredite, era bem assim que eu te idealizava. Quis tanto perguntar, mas tu estavas tão
sério, tão preocupado, que eu desisti, até porque pensei: se fosse ele, ele diria
alguma coisa, daria alguma pista, enfim.
- Ficamos esperando um pelo outro
não foi?
- Sim, foi. Mas depois da tua ausência, de tanto ver a
tela branca quando te chamava, achei mesmo que tua decepção tinha sido grande e
que tu não querias mesmo mais falar comigo.
-Tás doida ou o que? Então achas
que eu desistiria assim tão facilmente. Eu fiquei piurso comigo mesmo e com a
viagem, com o avião, com o computador, com tudo que me impediu de dizer -te que
eu não ia desistir de nós.
Ela já estava ficando emocionada, “Não ia
desistir de nós”. Isto lhe pareceu uma coisa de querer bem, de vontade de estar
com outro, mas ela não disse nada, tinha receio de demonstrar sua emoção, e a
sua vontade de dizer: que tal amanhã, ou ainda hoje mesmo? afinal só eram 10h30min
da noite, e a noite em Lisboa mal começara, podiam marcar algo e ir dançar,
tomar um drink, sabe-se lá mais o que.
- Tenho que entregar o relatório de
viagem amanhã pela manha, lá pelas dez, e depois tenho várias reuniões durante
todo o dia, caso contrário ia chamar-te para uns copos agora, se concordasses claro.
Ela já estava explodindo! Queria
mesmo ver aquele homem, queria olhar mais para ele, ver direito a cor dos seus
olhos, as suas mãos, a sua boca, ela tinha ficado muito impressionada, e tinha
aquela droga daquele relatório. Fazer o que? Guardar a ansiedade e foi o que
fez e já estava quase dando boa noite e tchau quando ele:
Ei, ainda estás ai?
-Claro que estou.
- Amanhã, lá pelas sete, estás
livre? Podemos nos ver?
- Claro que sim, não perderia
isto por nada.
| Rua de Lisboa |
-Então fica marcado, amanhã as
sete e um quarto, lá mesmo naquele bar no Caes do Sodré.
- Tens certeza que queres lá
mesmo? Aquilo já não nos deu muita sorte uma vez.
-Sim lá, porque quero apagar este
mês que passou, vamos fazer de conta que nada aconteceu e que, este vai ser o
nosso primeiro encontro marcado.
- Ok, estarei lá, até
amanhã.
Foi deitar-se, não antes de
pensar na sua imbecilidade. Por que não pedi um telefone? Por que não perguntei
seu nome real? E se acontecer algo amanhã, como farei, vou ter que esperar as
10:30 da noite. Bom mais amanhã será outro dia, ou melhor
O DIA
terça-feira, 5 de agosto de 2014
RABUGENTO
Quando ele está na porta da casa, assim
que abrimos o portão, ele entra correndo para os fundos, parece que vai
procurar algo ou alguém; me disseram que ele não gosta de gatos, e, portanto,
assim que entra vai verificar se tem algum no quintal.
Feito isso, ele sobe correndo as escadas
onde a aula vai começar. Ele é bem
educado, embora tenha dias que esteja sem pachorra alguma para mostrar esta boa
educação. Nesses dias deve acordar irritado e, não tem nenhuma vergonha de
demonstrar o seu mau humor, seja para nós, seja para os seus pares.
Quando está bem, faz questão absoluta
de cumprimentar a todos. Sempre estica a mãozinha e espera que a pessoa pegue
nela, ou o cumprimente de outra maneira, mas ele faz questão de demonstrar que
gosta, e muito de carinho, embora na rua não se comporte bem assim.
Na rua ele é um pouco diferente, diríamos
até que ele é agressivo. Não de todo do mal, mas ele é daqueles que não leva
desaforo para casa. Anda pelo centro da cidade todo, todos o conhecem. Ele está
sempre limpo, os cabelos negros brilhando. Tem um apelido engraçadíssimo, e só
depois de muito tempo é que vim entender o motivo- RABUGENTO, embora os mais
íntimos o chamem de Rabu.
Todos conhecem o Rabu e sabem
onde é sua casa. Ele vive no meio de atletas, e, por isso mesmo, faz IOGA. Ele é
perfeito no alongamento, aliás, penso que é a hora que ele mais gosta da aula,
ele se estica primeiro para frente, coloca as mãos para frente e joga todo o
corpo para trás, fica perfeito, todo alongado, penso que nunca terá problemas
de coluna. A mesma coisa ele faz com as
pernas, fica de quatro e estica todas as duas pernas bem para trás, e o corpo
fica quase numa paralela ao chão. È muito interessante vê-lo se esticar todo.
Passa todo o tempo da aula bem
junto a mestre, que é italiana e fala com ele em italiano. Quando ele tá muito inconveniente,
querendo incomodar a todos na aula, ela ralha com ele em italiano, às vezes ele
para, mas, outras vezes, penso que ele não quer que ela ralhe com ele em
italiano, e insiste em fazer as mesmas baboseiras, vai mexe com um, deita-se nos
pés de outro, impedindo que a pessoa possa fazer corretamente o exercício, no
que parece que ele se diverte; quando isto acontece, a mestre tem de levantar e
puxar ele para o seu lugar, que é, quase sempre, no canto da sala.
Ele não se concentra; se ouve algum
som diferente, seja na rua, seja na própria casa, ele sai disparado para saber
o que é: não interessa que altura da aula esteja, ele parece querer proteger a
casa e a sua mestra. Penso que ele acha
que é uma espécie de segurança.
Dizem que ele é muito
conquistador, não participo da sua intimidade para afirmá-lo, mas comenta-se que
tem muitos filhos espalhados pela cidade. Eu pessoalmente acho que ele é um “vagabundo”,
“moleque”, e que não sabe escolher direito as suas parceiras e faz filho em
quase todas elas, resultado: qualquer hora vai substituir os “santos” em
matéria de paternidade.
Pois é! Eu e Rabu temos encontro
marcado dois dias na semana. Bem verdade que eu não sou muito amante da sua
companhia, suporto-o, mas não tenho grande afinidade, mas ele parece não
perceber isto e, muitas vezes não só fica me esperando na porta, como vem ficar
ao meu lado quando sento no meu tapetinho para me preparar para a aula. Para me
livrar dele logo, cumprimento-o, pego a sua mão, ou, como ele é baixinho, aliso
a sua cabeça, mas ele é insistente, e a mestre tem que chamá-lo para que ele se
afaste, aí ele vai futucar outro, ou o Tristão, ou os outros alunos.
Quando a aula começa, depois que
ele se alonga, fica por ali, relaxando sempre, não faz toda a aula, deita-se e
fica ali relaxando, até que resolve, outra vez, cumprimentar a todos, porque
percebe que está finalizando a aula.
Pois é, eu penso que sou uma das
únicas pessoas privilegiadas que tem um cachorro como colega de IOGA, pois o
Rabugento é um vira lata brasileiro, baiano, arembepeiro, de pelo completamente
negro,que foi adotado pela professora de IOGA e que, pasmem! É poliglota, e
como tal, qualquer dia destes, vou ouvi-lo latir em alemão, ou italiano. Quem
faz alongamento na IOGA e atende à sua dona em italiano, penso que pode fazer
tudo, até latir em outro idioma. Será?
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