segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Parabéns "Espanha"

Hoje, meu pai – AURENTINO MARTINEZ GARCIA, se vivo estivesse, faria 93 anos.  Não sei se queria isto, até porque ele, como hoje minha mãe, teria uma vida inútil, sofrida, dolorida. Ele morreu de câncer na laringe  há 30 anos atrás, quando tinha 63 anos. Minha mãe, oito anos mais nova que ele, ficou viúva aos 54 anos e, pasmem! Nunca mais se interessou por alguém, pelo menos que nós, os seus filhos, tivessemos tido notícia.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Hoje sou

Sou uma escritora que escreve para não leitores. Engraçado não é? Como ser escritora sem ter leitores. Uma escritora sem leitores não é uma escritora, é um zero esquerda, mas eu continuo escrevendo, inúmeros textos, dissertações, teses, livros sérios e científicos, romances eróticos, contos vários, artigos científicos, enfim, sou efetivamente uma escritora.
Mas para que escrever? Pergunto-me sempre, entretanto a tela branca do computador no "Word" é convidativa, a solidão também, junto os dois e escrevo. Escrevo sobre tudo, tudo o que você puder imaginar pode virar um texto, Ah sim, ainda tenho mania de corrigir textos dos outros, imagine só, eu corrigindo texto do alheio, o interessante é que quem pede a correção confia, literalmente, no meu taco. Taco, a palavra me veio e eu já desvirtuo todo o meu pensamento, e fico a me perguntar o que me sugere “taco”?  Pensamentos vários; um instrumento qualquer de um jogo que também não sei o nome; um pedaço de alguma coisa; um pedaço de madeira; um cacete. Ah! Eu sabia que ia parar aí, sim porque há muito que não vejo um taco, para este fim mesmo que todos estão pensando, aliás, não tenho taco de nada, nem de carinho, nem de amor, nem de atenção, e nem do que bem gosto, aliás, do que todos que são saudáveis gostam: de sexo, não tenho nem um taco e nem um “taco” de sexo, os tacos parecem que estão com medo, ou talvez, uma aversão imensa a mim; como o mundo está passando por uma revolução sexual, talvez eu esteja sendo mais apreciada por aquelas que não têm taco, mas tem a aparência real de tê-los. Prefiro os que têm taco e não disfarçam, aliás, acho que se hoje vir um taco tenho uma sincope, talvez seja por isso que eles não aparecem, pois o dono do taco não vai estar disposto a levar uma sexagenária para o hospital apenas e tão somente porque foi apresentada ao seu taco. Efetivamente tenho de concordar que estou num beco sem saída: ver ou não ver um taco, pegar ou não pegar em um, saber ou não como usar adequadamente o taco? Questões que me deixam boquiaberta exatamente por saber que estou mesmo com estas questões na minha cabeça. Eu que escrevo sobre tantas coisas, boas ou más, mas escrevo, agora fico com esta ideia fixa de “tacos” na cabeça. Será que não tenho uma coisa melhor para pensar? Claro que não, a resposta é automática, não tem coisa melhor que um bom taco para se dar algumas tacadas. O pensamento começa a me excitar um pouco e fico pensando qual taco seria adequado para esta manhã solitária de segunda feira, em que já vi duas receitas na televisão, imaginem só: alguém que necessita de um taco vendo pela televisão receitas: uma de pão e outra de maionese, quanto pior, ambas “light”! quando o que quero mesmo é saber de coisas “heavy”, pelo menos no aspecto da alimentação, em todos os sentidos. Quero comer coisas solidas que preencham os espaços, que sejam sentidas.  Quero, na verdade, em determinado aspecto, me sentir entupida, esta á a palavra, entupida no exato sentido de toda preenchida, sem espaços sobrando. Tudo completamente acoplado. Há como queria isto! Entretanto, estou é vendo maionese de linhaça, vejam só a que ponto cheguei.  Disfarço, e para desviar o pensamento do foco “taco”, mudo de canal outra vez, agora é uma moça bem bonita que fala de história do Brasil, fala de pintura e escultura no período colonial, ela está no museu da Inconfidência numa daquelas cidades históricas de Minas Gerais, Ouro Preto, patrimônio histórico cultural da humanidade.  Quero prestar atenção, mas não consigo porque quero acabar este texto, embora não saiba qual será o seu final, porque se não houve um motivo sequer para um começo, como saber um final. Lembro-me: o começo existe, estou questionando a minha condição de escritora sem leitores. Bom se sou uma escritora sem leitores, e se ninguém  vai ler esta zorra”, porque tenho de me preocupar com um fim? Aliás, não tenho que me preocupar com nada: nem principio, nem meio, nem  fim, portanto vou continuar a escrever até achar que devo parar. Mudei de canal  outra vez, aliás este comando é outro aliado dos solitários, como funciona meu Deus, você fica trocando de canal como se ali fosse aparecer uma cura para a sua solidão, para o seu desespero, para sua excitação. Paro num telejornal, há uma greve no Galeão, os funcionários que são responsáveis pelo Raio X das bagagem estão parados. Acho a noticia interessante e fico imaginando se fosse possível se fazer um Raio X dos pensamentos.  Sorrio,  e penso: “quantos problemas iam acontecer”. Já pensou você ser flagrado com os seus pensamentos mas mesquinhos sem poder fazer nada para escondê-los? E os pensamentos  eróticos, aqueles que você tem quando vê uma pessoa que lhe chama atenção, que desperta a sua libido, puta merda! Ia ser um verdadeiro caos: muito pior do que o que está acontecendo agora no aeroporto, que só envolve bagagens, coisas materiais: imagino mulher batendo em homem, mulher batendo em mulher, homem batendo em homem, homem batendo em mulher, um Deus nos acuda, gente morrendo, enfim, ia mesmo ser muito engraçado. Mudo outra vez o canal, agora  vejo um cara careca  falando de esporte, e ele diz que hoje é aniversário, ou sei lá o que, de uma madre paulina, que dizia, bom como ele coloca o verbo no passado, é possível que seja aniversário de morte:  “a luta é o caminho para a vitória”,  concordo com a madre, mesmo não sabendo quem ela é ou foi, mesmo achando estranho que ela tenha sido lembrada em um jornal que fala de esporte, vá ver que é porque a frase tem duas palavras que são bem utilizadas no esporte: “vitória e luta”, mas,  alienada disto,  aproveito a deixa e vou lutando, ou seja, escrevendo, baboseiras ou não, vou escrevendo, esta é a minha forma de lutar para conseguir a vitória, que é ser lida por você leitor, a quem agradeço se estiver, neste momento, lendo este texto de uma escritora, que, agora, com a sua leitura deixa de ser uma anônima para,  vitoriosamente, se saber uma UMA VERDADEIRA ESCRITORA.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Perambulando por Veneza

Quase três meses se foram e ela parece ainda passear pelos Becos  de Veneza, se perdendo  entre eles  a todas as vezes que sai do hotel para ir para qualquer lugar. Era até engraçado: a noite no quarto do Hotel  Bela Veneza, onde ficou hospedada, ficava  fazendo, mentalmente, o caminho faria dia seguinte: sairia do hotel viraria à esquerda, novamente à esquerda e pegaria o caminho para a Praça São Marcos, simples assim. Qual  o que!  No outro
dia, simplesmente,  se perdia, mas não se importava,  não tinha compromissos maiores e queria andar mesmo por Veneza, queria, entretanto, afastar-se do borburinho dos turistas.  Ponte dos Suspiros, Praça São Marcos, Gôndolas, A Ponte Rialto, etc., não ela não queria bem isto. Para chegar ao hotel, caso tomasse um dos vaporetos de qualquer lugar, teria de passar por quase todos estes lugares, portanto, não queria isto,  mas era inevitável, se se perdesse nos  becos de Veneza, ia dar no grande canal, na Praça São Marcos, enfim.
Um dia saiu andando margeando, onde podia, o grande canal, e  depois, não sabe mesmo onde,  entrou à esquerda, deu numa rua imensa, larga, diferente das demais por onde tinha andando até agora, quase todas becos que só comportavam, em alguns locais, uma pessoa indo outra vindo. Nessa rua larga havia diversas casas lindas e muitos restaurantes, diferentes dos restaurantes que margeiam o grande canal, parecia que aquele espaço  era frequentado, efetivamente, pelos venezianos. Pequenos mercados, padarias, frutas vendidas nas calçadas. Parou, comprou uvas e ameixas, continuava andando e chupando, ou melhor, comendo as uvas, que eram verdes, doces e enormes.
Andou muito e viu um jardim à direita, entrou nele e, atravessando-o
todo, foi, novamente, parar  no grande canal, mas em uma parte em que a laguna se abre completamente e você visualiza, de uma  outra maneira, o centro de Veneza, que está longe,  ela vê e a silhueta  da Igreja, do Campanário, algumas torres que não identifica, nota que  andou muito, eu esta bem distante mesmo do centro, não sabe onde está, mas sabe que  voltando pela  margem do canal, ou  atravessando novamente o jardim, vai chegar, outra vez, no centro. Não tem qualquer medo, parece saber perfeitamente tudo.
Fica ali admirando tudo, anda mais para frente, chega até um lugar que não pode mais  andar para lugar nenhum, porque é só agua. Dá na marina, há uma igreja  do outro lado e  ela atravessa a ponte e chega na Igreja, está praticamente sozinha, não vê qualquer pessoa por perto. Chega  á Igreja e entra,  como sempre,  reza e faz um pedido: ainda acredita no que sempre lhe disseram: “quando se vai pela primeira vez em uma igreja se faz um pedido”. Ela sempre o faz, mas como pede uma coisa diferente em cada uma que vai, e depois não se lembra a quem e o que foi pedido, nunca soube se eles foram atendidos pelo santo certo. Independentemente disto, de ver realizados os seus pedidos, continua pedindo.
A Igreja parece dourada, os raios do sol fazem com que tudo por perto pareça dourado, até ela mesma, que tirando uma foto parece estar muito bronzeada,  dourada mesmo,  as árvores ajudam, pois as folhas estão castanhas, quase  douradas também.  Vai até a ponta  da marina, olha tudo, e tem de voltar, porque por ali não há mais caminho de terra a percorrer. Atravessa uma ponte e  passa por um conjunto  de casas, como se fosse um conjunto habitacional. Prédios baixo, portas e janelas hermeticamente fechadas, pensa para si “Nem com tamanho sol  eles abrem as janelas”, sempre  observava isto em Portugal, parece que a Europa toda é assim mesmo. Uma porta se abre,  sai uma senhora pequenina, com vestes escuras, uma andar cansado. Uma outra porta abre-se, agora é um casal de idosos que sae  dali e segue, de braços dados, para a caminhada de final da tarde.
Há folhas no chão. No jardim há flores e estátuas,  ela segue sem muitas preocupações, segue a trilha do  caminho, que não sabe onde vai dar, mas  tem a intuição de que sairá bem próximo ao  jardim em eu tinha entrado antes, e depois de  uns quinze minutos, efetivamente, chega ao tal jardim, de um outro lado, mas é o mesmo jardim. 
Agora há muitas pessoas, crianças brincam, velhos passeiam.  Cachorros em guias passeiam com os seus donos, alguns fazem cooper. Ela  continua a sua caminhada olhando tudo, observando, apenas isto. Não conversa com ninguém, pois, como  sempre está só. Ela já não se incomoda tanto de estar só, aliás, para fazer aquele caminho, daquela  maneira, precisava estar só, pois com certeza ninguém lhe acompanharia naquela caminhada sem destino.
Mas o dia vai se escondendo, o sol  reflete nas águas do canal, que ganham vários tons, desde  prata até o amarelo, confundindo-se com o próprio raio de sol. Ela tira várias fotos, que ficam lindas mesmo. É a Veneza encantada que vê, sente, aprecia.
Anda vagarosamente, vê casais sentados nas muretas, sente inveja dos beijos ardentes, dos amassos, dos agrados, dos olhares. Chora, queria estar ali de uma forma diferente, talvez dando esses mesmos abraços, trocando as mesmas carícias, enfim, mas não é possível, então continua   sua caminhada de volta ao hotel, por  caminhos outros, pensando tão somente em uma coisa: está a realizar um sonho  de muito tempo, que é de conhecer Veneza, e, de uma maneira ou de outra, amanhã vai ter a companhia de alguém ,com quem idealizou fazer esta viagem  enquanto no auge do romance de ambos.
Continua caminhando, há muita gente na rua e ela percebe que
está se aproximando do centro nevrálgico de Veneza, ou seja, está perto, pertíssimo, do hotel, mas antes de chegar nele, uma parada, para tomar um bom vinho, sozinha, em uma mesa qualquer de uma terraza qualquer em Veneza. É o que faz.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Quatro horas de um dia qualquer de novembro

De repente os seus encontram olhos diferentes dos que já havia  visto naquelas paragens. Sim, era um novo olhar, penetrante, ousado, sensual. Ela não conseguiu desviar os seus olhos, ficou ali meio paralisada olhando fixamente para aqueles olhos que nem piscavam, mas ela conseguiu sair  dali, deu as costas e voltou para o salão de danças onde estava, entretanto, sabia  que  aquele olhar  ia segui-la,  então resolveu que o melhor seria ir embora.  Dirigiu-se para o maleteiro, mas ai já era tarde,  o olhar estava de frente para si, e a atração dele era tão forte que ela não conseguiu  desviar  nem mesmo o seu corpo do do dono daquele olhar, que, num gesto  a chamou para dançar. Ela, a principio, disse que não, mas a sua mão já estava sendo guiada para a pista de dança.  Não se lembra da música, mas era uma música lenta e, ao que parecia, o dono do olhar não tinha o mesmo domínio do olhar nos pés, lhe deu algumas pisadas nos apenas três minutos que dançaram, mas nos três minutos ela pode sentir  que a mão era forte, o corpo era musculoso, e que o cidadão estava visivelmente  nervoso.
Ele mesmo, que tinha feito o convite para uma dança, agora desistia dela tremendo, e lhe disse: “Eu não sei dançar, só  lhe chamei porque  percebi que você iria embora e eu não poderia  deixar que isto acontecesse.”
Ela  sorriu e saiu da pista em direção ao maleteiro.
“Posso lhe pagar uma bebida?”
“Não, já estou indo embora”, respondeu sem sequer levantar os olhos, pois sabia que, se o fizesse, iria ficar ali, tomar a bebida, conversar, rodopiar pelo salão mesmo com os pés pisados; pressentia que aquela companhia lhe faria bem.
“Vá lá, é só uma bebida!”
 Lá se foram os dois para o balcão do improvisado bar que era  armado  nos dias de bailes.
“O que você bebe?”
“O que você estava bebendo”?
“Uma imperial, mas  notei que você bebe whisky “
“É verdade, prefiro beber whisky”
Whisky servido e ele a convida para sentar em uma das mesas do hall. Ela o segue sem falar nada.
Sentam-se e ela pergunta: “É a primeira vez que você em aqui não é?”
“Sim, sim, é a primeira vez: vim a Lisboa para encontrar uns amigos para a nossa comemoração anual natalina, e como vai ser mais tarde, resolvi  dar uma andada para ver Lisboa e, de repente, passando  aqui pelo  Cais Sodré, ouvi o som da música e  seguindo-o  vim parar aqui.”
“É, notei que você nunca  tinha vindo aqui antes, aqui as pessoas são quase sempre as mesmas, e quando aparece uma cara diferente a gente nota.”
Um silêncio, e ele comenta:  “Vi a si logo que entrei, estavas a dançar  com uma menina, fiquei parado olhando por algum tempo a sincronização  dos passos e gestos das  duas.”
“Foi mesmo?  Não notei.  Danço com ela sempre que venho aqui, ela gosta de dançar, dança bem, mas parece que tem algum problema mental e  fica dançando sozinha; quando estou por perto ela sempre vem dançar comigo e eu  dou algumas rodadas com ela, mas tenho de sair logo porque, caso contrário, ela se gruda em mim e eu tenho de ficar todo o tempo ali, bem perto do palco e dos pais dela dançando”.
“Ah, ela não é sua filha? Achei que era, embora sem entender como uma pessoa tão bonita  podia ser mãe de uma  menina  tão diferente de si, e casada com um pessoa tão estranha como o homem que estava por perto de vocês”
‘Kkkkkkkkkkkkk”! Ela não conteve o riso, realmente, só um estranho  poderia ter uma ideia desta, não que não pudesse ter uma filha, mas ser casada com o pai daquela menina era demais para ela, o homem pequeno, feio, mal vestido, com cara de cigano, enfim, nunca  passaria pela sua cabeça tamanha temeridade.
Ele sorria, enquanto ela gargalhava sem conseguir controlar-se.  O copo dele estava vazio e ele perguntou-lhe se queria beber mais, ela disse que não, que iria embora, mas ele a convidou para tomar um copo em outro lugar. Ela foi pegar as suas coisas e ambos saíram da Ribeira como se já se conhecessem há anos, sorrindo, conversando, alegres.
Era um sábado pela tarde, Lisboa, taciturna no seu inverno, estava  toda nublada, as pessoas  agasalhadas passavam por eles que caminhavam pelas ruas sem qualquer destino, apenas  andavam. De repente ambos pararam, ali na  Praça  do Paço Municipal, e sem nada dizerem um ao outro estavam se olhando fixamente e o inevitável  aconteceu, os dois estavam em plena  praça beijando-se loucamente.
Aquilo era meio inusitado para ela, mas ela não conseguia afastar-se dele, que mostrava toda a sua voracidade nos lábios úmidos que se agigantaram quando encontraram os seus. Sim aquele homem sabia beijar, e estava despertando nela reações há muito adormecidas.
Rua das Portas de Santo Antão-Lisboa
De mãos dadas continuaram o caminho, sem destino, apenas andavam, Rua Augusta, Rossio, Portas de Santo Antão; pararam em frente  à Casa do Alentejo,  subiram as escadas, e ele a convidou para mais um drink, agora eles tomariam vinho. O restaurante estava cheio e eles ficaram  nos corredores imensos  aguardando uma mesa, mas enquanto o faziam entraram numa sacada e ali, em frente  a muitos, beijaram-se muito, era impossível para ela controlar-se e controlar a volúpia daquele homem, que lhe mostrava  com o corpo o que ela pensava não ser mais capaz de despertar em alguém, o desejo, o tesão.
Tomaram uma garrafa de vinho, e foi assim que conheceu o "Cartuxa", vinho que recomenda a todos, até ao mais exigente enologo.
A demora fez com que eles desistissem  do jantar e pagaram o vinho e saíram dali, para se abancarem em outro restaurante, um  mais moderno, logo depois do Valentino  ali nos Restauradores. Beberam mais duas garrafas de vinho e já estavam bem altos quando dali saíram  e ela, visivelmente embriagada, lhe disse que iria embora, que pegaria um  taxi para ir para casa, Ele, talvez achando que  ia ser convidado para acompanha-la, ficou  olhando-a, e ela  concluiu: e você vai encontrar seus amigos  para a comemoração.
Despediram-se, sem troca de telefones, endereços, nada,  apenas  uma  única indicação: O seu nome era Zé e era do Alentejo
Em quatro horas, um começo e o fim de uma estória que poderia ter sido linda.
De qualquer maneira agradece a este ilustre desconhecido que conseguiu, durante quatro horas, fazê-la esquecer do passado, viver o presente, e sequer pensar no futuro. 


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Desalento

Os dias passaram a ser muito previsíveis e normais, e ela não gostava nada disto. Gostava do movimento, da vida, das mudanças. Não queria mudanças radicais, aliás, nunca gostou delas, mas gostava das mudanças que iam acontecendo no dia a dia, no passar do tempo, no decorrer da vida. As mudanças realmente precisam existir, mas nada de radicalismos, de inversão do curso, de retomadas. Todavia, ela que gostava tanto de esperar o dia seguinte com novas  coisas,  com mínimas mudanças, mas que significavam tanto, agora estava tão somente esperando: esperando talvez o que não viesse.
Deixou de se cuidar, pelos menos na sua aparência externa, já não pintava os cabelos que demonstravam todo o seu passar de anos, agora sem grandes esperanças de um novo momento, um novo acontecimento, uma nova vida.  Os dias  eram divididos entre as leituras, que já não a satisfaziam mais, a televisão, as suas plantas, que, também  em solidariedade a si, já não se mostravam tão viçosas, como eram há algum tempo atrás.
Fora obrigada a cortar a goiabeira, podar as palhas do coqueiro, os galhos da pitangueira. O coqueiro, o mais solidário de todos, resolveu não mais produzir, os seus rebentos caem antes mesmo de se tornarem coquinhos. A pitangueira pegou uma doença, as folhas começaram a ficar pretas e os frutos secam antes mesmo de alcançar um tamanho ideal, não amadurecem, secam apenas, numa demonstração que a planta esta ressentida.
O jasmim, que fora plantado com tanta esperança de, não só perfumar o ambiente,  como, também, de resguardar a privacidade  do chuveirão, onde ela toma o seu delicioso banho sem  ser alcançada pelos olhos curiosos dos vizinhos, agora resolveu  secar, no emaranhado  dos seus  finos caules está se perdendo e perdendo a sua função.
Sim, tudo está triste na casa. A terra, apesar de receber a seiva todos os dias,  seca numa rapidez, mostrando toda a sua aridez, aridez que se confunde com a aridez  daquela que cuida dela. A grama, outrora verde, muito verdinha, aparece queimada aqui e ali,  montinhos de barro que parecem passados na peneira, se mostram em alguns  cantos, são as formigas querendo devorar o que ainda pode ser devorado. Os “venenos” colocados não são suficientes para matar as danadas, que, diferentemente dela, insistem em fazer os dias diferentes: a cada momento um deslocamento, um outro buraco aparece, mais uma  planta devorada, mas um caminho sendo  aberto por maravilhosas trilhadeiras.  Ela está atenta, mas sem a coragem de  mover-se para mudar o rumo de tudo isto, parecia que  queria, juntamente com o que  “deu vida”, desaparecer de uma vez por todas.  Era inútil malhar em ferro frio, as coisas estavam, ou melhor, saíram do seu controle, em todos os aspectos: finanças, emoção, amor,  tudo parecia  querer contrariar uma existência  que sempre foi  preenchida por lutas, vitórias, esperança, mudanças, realizações.
O que mais fazer? Parece que tudo está acabado. Até o colchão da cama  onde algum hóspede
dorme está contra sí, imagine que o derradeiro se queixou de dores na coluna causada por aquele inimigo, que sabia perfeitamente que se desse uma bela noite ao hóspede ele seria capaz de voltar.
Fica associando essas coisas e vê quão a sua vida tornou-se inútil. Não tem  expectativas, acabaram-se os sonhos, não consegue  mesmo nem sonhar, uma coisa que adorava fazer, porque uma grande parte dos seus sonhos de olhos abertos, aqueles que  eram possíveis, foram realizados.  Chora muito; tenta, com as lágrimas, afastar  o que  são pesadelos agora, os sonhos que sabe, não realizará mais, acabaram-se as ilusões, sua alma está em completa  amorfia. A vida nova de alguns, que vieram sem ser chamados, quer se meter na sua  violentamente, e ela está  vendo tudo acontecer sem  reação, a não ser a pior delas,  a que se reflete no seu próprio eu, que mais desgastado fá-la  mais dura, mais arredia, mais triste, mais solitária, mais descrente.
Muitas traições, muitas decepções, muitas separações, muitas distâncias e ela, que  gostava tanto de sorrir, de fazer alguém feliz, de ser feliz por isso mesmo, por poder fazer  o outro feliz, está  ali, sozinha diante dos seus livros com pó,  de vidros embaçados, de um ventilador que não ventila, de uma vida que se está indo embora com a sua dor, que ela não quer dividir com ninguém, pois se não pode dividir felicidade, também não vai  incomodar ninguém com a sua  desesperança,  a sua infelicidade, o seu não viver.
Entretanto, há uma tênue esperança de sobrevivência, e ela vai se agarrar a isto; e, quem sabe: mais uma vez possa florescer  e com ela as suas plantas, as suas árvores, os seus sonhos. Sabe que tem que se agarrar a esta esperança, e é o que tentará fazer,  e o que efetivamente fará, porque  sua capacidade de regeneração é incrível, ela sabe disto, mesmo quando o ser humano lhe magoa tanto numa vingança  miserável própria daqueles que não tem qualquer princípio ou nobreza de alma.
É! Pensava que já tinha passado tudo na vida, de bom e de ruim, mas depois dos últimos acontecimentos, aos quais não deu causa, só sofre as consequências, nota que apesar da monotonia de seus dias, do pouco movimento  que faz para mudar as suas coisas, outrem o faz por ela, da pior maneira possível, mas o faz, deixando, cada dia mais, marcas indeléveis, que  nenhum bálsamo pode curar, apenas a deixarão dependente dele, que pode não estar disponível quando ela, efetivamente, precisar.
Duas amigas - Reflorescimento

Ela é, apesar de tudo, grande e sabe perdoar, e o faz agora, em relação àqueles que tanto  a tem magoado, com ações, omissões, desrespeito, descaso. Sabe que um dia perceberão  o erro  que estão cometendo, talvez tarde para eles, que já não terão  mais tempo de, nem mesmo, aceitarem este perdão.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um pé cá, outro lá

Caminhando, como sempre, sozinha, pelas ruas de Istambul extasiava-se com cada detalhe, com cada descoberta, com a história vista, em alguns momentos, apenas nos livros. Uma mulher de burca, daquelas que de tão radicais tinha tela na parte dos olhos, passa por si. Outras deixavam aparecer, exclusivamente, os olhos. Uma delas, particularmente, lhe chamou atenção: é que essa usava óculos, cujas hastes desapareciam por dentro do pano que emoldurava um rosto sem expressão, porque escondido atrás daquele pano preto.
Pensava como isto ainda podia ser possível, mulheres cobertas de pé a cabeça, todas de preto, num escaldante sol de agosto. Concomitantemente ao questionamento, ela lembrava que aquela era a demonstração mais pura da cultura de um povo, e que ela não tinha que questionar nada disto. Eles viviam assim, aceitavam-se assim, acreditavam naquilo; não só acreditavam, mas respeitavam. Para eles ali estava a sua crença, a sua fé, a sua política inclusive, tudo na normalidade. Os ocidentais, como ela, é que procuravam, com mil e uma justificativas injustificáveis, questionar os costumes, desrespeitar tradições, interferir na vida e na religião de povos que, à sua maneira, eram e são felizes.
Uma burca alta vem em sua direção. O pano preto tem um balanço diferente. Ela que pensava que todas as burcas eram iguais, notava agora que não era bem assim. E, mais e mais, o pano preto  vinha em sua direção. A altura de quem o transportava chamava atenção e, talvez por isso mesmo, ela tenha notado os detalhes: O pano da burca parecia de seda, lógico que outra seda diferente da que estava habituada a ver.  Nas laterais do pano notou uma fina linha que lhe pareceu ser, em princípio, dourada, mas não era, era uma tira de um pano preto mais brilhante, que fazia a divisão entre a frente e a parte detrás da burca. Acompanhava atentamente o movimento do pano, para tentar descobrir, ali, algum traço de feminilidade, algum detalhe que pudesse dar uma noção do que estava ali por baixo daquele pano preto. Não conseguiu, mas, como efetivamente procurava detalhes deu de cara com um que lhe chamou mesmo a atenção: os pés!  Os pés da jovem que estava por baixo daquele pano estavam pintados.  Todo ele, desde o calcanhar à ponta dos dedos.  Aqueles pés pintados lhe fizeram lembrar que, em alguma novela, que tratava da cultura indiana, a mulher devia ser recém-casada, porque para os orientais a pintura dos pés da noiva era forte traço cultural. Não só os pés estavam pintados, também as mãos mostravam os desenhos feitos com hena, trabalhos minuciosos de quem sabe o que e para quem estava fazendo, tudo parecia, na verdade, uma luva com bordados cuidadosos.
Descobriu quão era ignorante em relação à cultura dos turcos, a não ser aquilo que era passado na televisão, nos noticiários que sempre associavam a religião islâmica ao terror, à destruição, à fome, à morte.  Entretanto, ela sabia que não era assim, e que não tinha ido à Istambul apenas porque, depois da novela das oito, a cidade virou febre para brasileiros.  Não, para ela não era isto, para ela Istambul era a própria história: Constantinopla, Império Otomano, Mesquitas, o Patriarcado de Constantinopla, Anatólia, Ásia Menor. Não, efetivamente não era assim. O Mar Negro, o Estreito de Bósforo, a ligação entre dois continentes, O mar de Mármara dividindo as duas partes de Istambul – a europeia da asiática. Istambul era mesmo muito mais que apenas uma novela da rede Globo.
Sim, aqueles pés pintados de rena lhe trouxeram a Istambul dos grandes momentos históricos, da importância do Império Otomano, do grande eixo civilizador que ali se estabeleceu e que, ainda hoje, como o será sempre, fará ligação de culturas. A cidade é completamente cosmopolita, se encontra de tudo e todos em Istambul. Russos, Ucranianos, Croatas, árabes de todas as partes: europeus, asiático, africanos.
Navios, montes deles, parados no Mar de Mármara: um cemitério de
navios.Numa reportagem televisiva soube que os armadores abandonam ali os navios que já não mais navegam, seja pela velhice, seja pelas dívidas, enfim: motivos diversos geram o abandono. É uma pena, porque aqueles pontos negros, maioria deles, na água maculam a beleza do Mar de Mármara, do Bósforo, do intenso azul das águas.
Constantinopla: fica remoendo a história, procurando lembrar-se do que esta cidade representou no passado, lembra-se das aulas de história e da professora a falar da importância da Anatólia. Em sua cabeça vem Bizâncio, como já foi chamada, a hoje Istambul. Toma um susto ao recordar que ali foi sede do Império Romano do Oriente, portanto, um berço da cristandade, hoje um mundo muçulmano, que se mostra em qualquer direção que tome, mas ainda há o cristianismo, apesar dos ritos diversos, vez que a Igreja é ortodoxa, o rito é bizantino. A Basílica de Santa Sofia (Aya Sofyia) foi construída por Justiniano entre os anos 527 e 565 e permanece lá ate hoje, para quem quiser ver, como aconteceu consigo, que, após enfrentar quilômetros de fila quase intermináveis ela se deu conta da grandeza que foi e que é, ainda hoje, tudo aquilo. Hoje a Igreja é uma mesquita, continua, pois, um local religioso, mas a diferença do credo que ali se processa é que, efetivamente, marca esta grande e imensa diversidade. O nome Alexandre lhe vem, e ela, ainda que faça esforço, não lembra o motivo, de repente recorda: foi Alexandre – O Grande que tomou a região da Anatólia do domínio dos persas.
As Mesquitas de sucedem, cada um queria mostrar mais poder que
outro, elas demonstram o poder, a pujança a riqueza da época. Os grandes tapetes que cobrem todo o chão, onde as pessoas andam descalças, exalam um cheiro forte, acre, que invade as suas narinas. É o chulé coletivo, pois todos pisam naquele tapete que já vive, naturalmente, úmido e conserva a sua umidade com o suor dos pés de tantos que pisam ali, resultado, demonstra, com um pouco de crueldade até, o seu agradecimento, evaporando os odores dos que lhe pisam.
Entretanto, o que mais lhe impressiona mesmo são as águas do Bósforo
e a travessia nos barcos que fazem a ligação entre os diversos bairros e, mais ainda, com o outro continente. Em, em questão de dez minutos ou menos, se sai da Europa e se entra na Ásia. Aquele que souber, exatamente, onde o Bósforo divide os dois continentes, pode colocar um pé de um lado, e o outro do outro, e pode se dar ao luxo de dizer que pisou, ao mesmo tempo, em dois continentes. Isto lhe dá uma sensação de poder, de grandeza, imenso.
A região de Sultanahamet, corruptela de “sultão Ahmed”, que conquistou Constantinopla para os turcos, é onde ela ficou hospedada, ali estão grandes monumentos, grandes belezas arquitetônicas, enfim está um pouco do coração de Istambul.
 A Mesquita Azul ( Sultanahamet Camil) está bem ali, logo em frente a “Aya Sofya";  do outro lado da praça, está a Grande Cisterna, descendo mais um pouco se alcança  o Grande Bazar.  Se dobrar a esquina da  Aya Sofia  alcança o palácio Topkapi, enfim, o bairro transpira cultura, saber, conhecimento, história.
Todavia existe muito e muito mais para se vir, apreciar, comer, viver Istambul, e tudo vai ser dividido em partes, paulatinamente contado, comentado, a fim de que ninguém se canse, e todos curtam, um pouco, desta maravilha da natureza, da história, da vida, que é Istambul, o Bósforo, o Mar de Mármara.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Currais aeroportuários

Sinto-me uma vaca, talvez uma judia na fila para as câmaras de gás. Sinto-me apeada, há uma longa fila,
Alfama - Lisboa
muita confusão, pessoas aborrecidas, olhos apavorados. Há só uma fila para todos os voos da TAP. A confusão reina, todos estão apreensivos, agoniados, insatisfeitos. O que levou a TAP a resolver por este tipo de “check in”, onde todos ficam em uma única fila, não interessando a que continente se destine? Africanos, indianos, russos, polacos, holandeses, brasileiros. Voos para Varsóvia, Maputo, Luanda, Luxemburgo, Holanda, Brasil (Rio, São Paulo, Brasília, Salvador): as chamadas são para os mais diversos lugares.
 Estou irritada e confusa, não ouço direito. Pessoas reclamam das duas longas filas. Alguns ficaram quase uma hora na fila errada, pois em toda esta confusão há duas filas, muito mal delineadas: uma para quem vai só entregar a bagagem e outra para o check in completo.  As Cias áreas, como todas as demais empresas, visando apenas lucros, querem, ou melhor, estão tentando, substituir gente por máquinas, mas, neste particular, é impossível, porque de nada adianta você fazer o “check in” eletrônico. Se se tem bagagem de porão: o tiro sai pela culatra. As reclamações são inúmeras, mas não surtem efeitos, entretanto, o pior, o pior mesmo, é o curral: aquele caminho entre duas fitas em que seguimos, um atrás do outro,  e que me dá uma péssima sensação, quanto pior quando os funcionários da companhia aérea resolvem passar pelas filas gritando: passageiros do voo tal; rápido à frente: parecem os guardas nazistas que comandavam as filas dos pobres judeus para a morte.
Mesquita em Istambul
Essa minha última viagem realmente conseguiu me tirar do sério nos aeroportos. Em Istambul, depois de passar umas duas horas na fila, feito vaca de presépio seguindo os demais passageiros, que como eu, tinham de submeter àquele martírio, ao chegar ao guiché, sou informada que tenho de ter um visto e que ele é pago. Sabe o que aconteceu? Tive de voltar tudo, entrar na fila para pagar o tal do visto, que me custou 15 euros e, depois, entrar na fila outra vez seguindo aquela multidão de pessoas diferentes, que apenas queriam conhecer Istambul. Confesso que, mesmo com todo o desejo de conhecer Bizâncio, tive vontade de voltar. Não sei se o problema não seria maior, porque, pelo visto, teria de comprar uma nova passagem, porque fazer uma troca naquelas circunstâncias seria quase impossível.
Bom o fato é que em todas as filas eu só me lembrava dos judeus sendo encaminhados para as câmaras de gás. O pior de tudo é que, como sempre, os próprios funcionários, sejam da companhia área, sejam do governo, agem como se fossem as maiores autoridades do mundo, tratam mal as pessoas, são ignorantes, parecem estar a fazer um grande favor àquela multidão que, indignada, embora sem muita coisa a fazer, se submete.
Na TAP o problema ainda fica pior com os brasileiros, vi algumas coisas que me deixaram boquiaberta.  Bem que havia patrícios deles revoltados, que grosseiros como os demais, disseram muitas liberdades aos funcionários da empresa, o que de nada adiantou, as explicações eram ridículas. Ao menos, neste particular, vi tratamento igual, embora para eles a revolta tenha sido bem maior: então ser iguais aos subdesenvolvidos? Que coisa mais absurda!!!
Cheguei ao aeroporto antes das 07h30min, e olhe que o meu voo era às 10h50min, acho eu, se não 10h50min era 10h40min, por ai.  Entrei na fila e só sai dela às 09h00min. Depois tive que enfrentar outra fila, a daquela maldita fiscalização de bagagem de mão. É incrível como os terceirizados das empresas de segurança assimilam a falta de educação. Se bem que isto não é privilégio, apenas dos funcionários dos aeroportos portugueses, quando digo portugueses, é porque também na Madeira vi algumas cenas para lá de desagradáveis.
Funchal- Ilha da Madeira
A gente tem de tirar cinto, sapato de salto, botas, agora invocaram com o relógio. Quando fui para a Madeira, mandaram tirar o relógio, eu não consigo tirar o meu com a pressa que eles querem e digo que não vou tirar. Alguém me diz que vai apitar quando passar pelo detector de metais, por incrível que pareça, não apita. Volto para trás e dou risada.  Antes disto tomei uma bronca de uma “filha da puta”, porque trazia os meus “gosméticos” em um saco que está fechado com um zíper.  Não entendi o que a mulher fez, pois grosseiramente e falando uma porção de coisas em tom muito grosseiro, tirou todos de dentro deste saco, que já acompanha a mala, e colocou em um saco plástico que é vedado com um fecho muito mais fácil de abrir. Fico puta dentro das calças a olhar para aquela imbecil. Somos tratados, todos, não só eu, como marginais, aquilo não pode ser considerado de outra maneira, parecem nos dizer “Vocês são marginais, somente depois de passarem por aqui é que, talvez, passem a cidadãos, antes, são todos suspeitos.” Realmente não gosto do tratamento. A palavra, por favor, não existe no vocabulário das “grandes autoridades aeroportuárias”, é isto que eles pensam que são, autoridades. Garanto que não sabem nem mesmo escrever o nome direito. Tudo fica pior quando as pessoas não sabem falar a língua deles, aí é que a coisa pega mesmo.  Em alguns lugares faço tudo como um autômato, pois não entendo porra nenhuma que eles falam, a exemplo da Turquia, em que você para entrar no aeroporto, ou melhor, para adentrar ao local onde ficam os guichês e os portões de embarque, já passa a bagagem de porão por uma esteira, resultado: filas intermináveis. Agora entendo a razão do funcionário do hotel dizer-me que teria de sair do hotel umas quatro horas antes do voo. Além da fila da bagagem ainda tive de enfrentar a fila do “check in” e a da emigração, quando tudo isto acabou era mesmo a hora de embarcar, sem direito a mais nada.
Corfu - Grécia
Gosto efetivamente de viajar, mas sinceramente, estas coisas estão me deixando cansada. Lembro que a primeira vez que vi este curral foi quando estive nos Estados Unidos e olhe que lá se vão uns bons vinte e tantos anos. Já me senti humilhada, mas agora as coisas pioraram muito.
Voltando á “bicha de Lisboa” é assim que eles chamam fila por lá: um senhor alto, muito alto, se desequilibrou, foi se apoiar naquela fita verde, ou preta, sei lá, e cai, cai para trás com todo o seu peso e bate cabeça no chão, fico aflita, quero ajudar, felizmente outros mais fortes de que conseguem levantá-lo. Ele diz que está tudo ok.  Não acredito que quem toma aquela porrada na cabeça, fique bem, mas ele tá dizendo. À minha frente, um casalzinho vai para Maputo, olho os sacos que estão no carrinho, cheio de sucos, água, comida. Dou risada, marinheiros de primeira viagem que são, certamente, não sabem que lhes vão tomar tudo quando passarem pelos fiscalizadores da bagagem alheia.
Um outro casal com quatro filhos vão para Luanda.  Os meninos estão impecáveis, arrumados, mas a senhora é mesmo uma Angolana, as vestes demonstram, tudo muito colorido e espalhafatoso, e ele gosta de falar alto, fala ao “celular” (telemóvel para eles) contando a miséria que está a “bicha”. Todos olham para ela, porque todos participam da sua conversa com alguém que não se sabe quem é. Tive vontade, em algum momento, de responder às suas perguntas.
Igreja  em Melides - Alentejo - Pt
Tento pensar em outra coisa, divagar, sair dali um pouco, a “bicha” não anda. Olho para a pessoa que está na fila paralela à minha, mas na direção oposta, nossos olhares se cruzam; o cabelo baixinho, sobrancelhas grossas, camisa listrada, calça jeans com fundo baixo, têm um relógio enorme no braço.  Fico olhando de soslaio porque acho estranha a figura.  Ar feminino para ser macho e ar masculino para ser fêmea. Decido-me: é uma mulher que tenta mostrar a sua opção sexual. Tenho que desviar de todo o meu olhar, ela já notou que estou examinando-a. Penso: o que faz uma mulher querer esta transformação, querer ter esta aparência masculina? Sempre achei que, se fizesse uma opção por ser homossexual,  ia querer estar com uma senhora mulher, a que fosse mais feminina possível, e não com um arremedo de homem.
A voz de um funcionário me afasta destes pensamentos. Há uma ultima chamada para um voo, penso que para Amsterdão. (é assim que eles falam). As chamadas se repetem, vejo um grupo de velhos, mais de 50 pessoas, passarem à minha frente na “bicha”. Fico puta dentro das calças, mas o que vou fazer. A culpa é da TAP, não deles. A fila diminui um pouco, mas anda muito devagar. Finalmente chego ao “check in”, Vou colocar a mala na esteira  e a funcionária diz: não coloque agora. Não percebo, mas  não coloco a mala, sou obediente, aliás, tenho de ser. Com isto entendo perfeitamente a demora: demoram de tirar as malas das saídas que ficam nos diversos guichê, resultado: só se pode colocar a mala do passageiro seguinte quando a do anterior desaparecer na janelinha. Acreditem, é verdade: o processo durou quase 10 minutos, e eu ali com cara de tacho, botava a mala e a funcionária pedia para tirar, tirava, colocava de novo; a esteira, entretanto, não corria, para que as malas do passageiro anterior  saíssem pela janelinha. Tenho que dizer que uma das minhas malas tinha 30kg e a outra 27Kg e eu ali tirando e botando as miseráveis na esteira.
Entregue a bagagem, suada, furiosa, pois queria entrar cedo na área de embarque, vez que ia procurar o perfume que meu filho encomendou, vou para a “bicha” do exame das bagagens:  coloquei a bolsa, a mala de mão, já tinha, previamente, tirado o relógio, o casaco, o computador de dentro da mala. Passo sem maiores problemas e aí é que fico sacaneada, porque o saquinho em que trago os “gosméticos” é o mesmo usado que usei na viagem para a Madeira.
Passo ali; visto o casaco, coloco o computador outra vez na bolsa, nem coloco mais o relógio, o deixo no mesmo lugar. Só penso em colocá-lo quando chegar ao Brasil. O meu portão de embarque é o 42-B, mas antes de chegar nele, mas uma bicha: agora é a do controle de passaporte, que foi até rápida, não porque estivesse pequena, é que passei na de “cidadão europeu”, porque as destinadas a todas as outras nacionalidades estavam enormes.
Veneza
Depois de andar muito, chego ao portão de embarque. Sento-me afastada para aguardar a chamada e, infelizmente, lembro-me do que me aconteceu em Veneza, pois não é que, na hora do embarque, alguém me diz que a  minha viagem estava marcada para um mês depois, que a TAP errou ao marcar a volta e que eu, idiotamente, não percebi tal erro.  Resultado: uma bicha pequena, mas demorada, para comprar outro bilhete e embarcar  para Lisboa. A demora na fila resultou de problemas com o embarque de um cão. Acreditem se quiserem, um cão atrasou alguns passageiros e a sua dona estava indócil.
Ufa, digo eu, parece que agora o martírio acabou. Vejo a chamada na tabuleta e escuto a voz da funcionaria chamando para o embarque, mais uma bicha e eu tô livre, penso eu: Ledo engano. Acredite em Deus, tivemos de pegar o avião no pátio, e aí a merda: mais uma bicha para entrar no ônibus que nos levaria até a aeronave. Fui a última do primeiro ônibus. Fiquei bem à porta. Na minha frente, sentado, um homem bonito, olhos claros, cabelos brancos, um terno preto impecável, mas com um aviso discreto: sou padre, foi o que deduzi ao ver o crucifixo na lapela do paletó.  Desligo-me do padre, mas, quando o ônibus arranca quase caio e o padre ri e diz para me segurar. Olho para ele e penso: “sacana, então eu vou caindo e este puto da risada!” Bom, esqueço o assunto e dou a volta olímpica para chegar até a aeronave. Quando penso que tudo vai acabar, fico esperando, dentro do ônibus fechado, com todas aquelas pessoas respirando o mesmo ar, que liberem o avião.  O padre já se levantou e está junto de mim: pela ordem natural seria eu, ao menos naquela porta, a sair por primeiro, no que eu já tava muito feliz, porque a minha poltrona era a última, acredite se quiser, a última mesmo, 42G. Se eu saísse depois de todos, imagine só o tempo que levaria até chegar ao lugar certo, mas o padre estava agoniado, e penso que ele queria mesmo sair primeiro. Ele falou muito mal da TAP, concordei com  as suas argumentações. Os passageiros estavam indignados ali dentro, encolhidos, roubando o ar uns dos outros.  O padre cada vez mais falava e mostrava-se aborrecido, tanto que eu, muito cinicamente, lhe disse: “Padre, isto é para que nós cultivemos, ainda mais, a virtude da paciência”. Ele sorriu, todavia, quando a porta se abriu, efetivamente, ele foi o primeiro a sair. Graças a Deus a porta do meio foi aberta e por ali embarquei e, felizmente, além de passar sozinha pelo corredor, ainda tive o prazer de ser cumprimentada por um “hospedeiro” bonito, com um belho olhar, que me acompanhou até o meu lugar, mas este é outro assunto, que fica para uma próxima oportunidade. Quem vai viajar  nos próximos dias, prepare-se com uma boa dose de paciência. Vai precisar mesmo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

TUIM TUIM


Tuim tuim foi criado no bolso de minha mãe, escapara do ovocídio que cometíamos em nome da fome.
A ovorteira mor, que era minha mãe, e os seus ajudantes, eu e o meu irmão, catávamos os ovos das nossas poucas galinhas, que não tinham como exercer o ofício de chocar e criar os seus pintinhos. Deixávamos, quando muito, uns seis ovos serem chocados, que era a garantia de uma ninhada de ao menos, umas três galinhas novas que substituiriam as velhas, que certamente acabariam no nosso prato.
Tuim Tuim escapara, não porque fora escolhido entre os ovos que ficariam para a garantia da nossa sobrevivência, mas sim porque a sua genitora, sabiamente, escondera o ovo e os ovorteiros não conseguiram encontrá-lo. Resultado, um dia a galinha, que já estava mesmo com os dias contados, apareceu com o seu belo e dourado pintinho no nosso quintal.
Como os dias da mãe estavam contados e minha mãe, com algum espírito maternal que ainda nela existia, começou a gostar do bichinho, e para aliviar a dor da perda da mãe, que seria breve, andava com ele no bolso do velho robe que  usava em casa.
Tuim Tuim foi crescendo e, enquanto pinto, dava certinho naquele esconderijo que lhe fora dado, de vez em quando botava a cabeça para fora do bolso e nós ríamos muito. Ele era alimentado pelos nossos restos de pão, isto é: quando deixávamos cair alguma coisa. Milho coitado, nunca, aliás, a nossa galinhada lá de casa sobrevivia por milagre, porque a falta de milho era constante, tenho a impressão que minha mãe fazia alguma domesticação das aves, para que elas só sentissem fome duas vezes por semana.
O certo é que Tuim Tuim foi crescendo; frango, já mostrava que seria poderoso, que daria um belo macho, tinha uma crista muito vermelhinha, que sempre aparecia fora do bolso de minha mãe, que já não comportava o tamanho do frangote.
Quando saiu do bolso, Tuim Tuim andava no meio da casa, no meio de nós, parecia mais um cachorro de que um frango, pois nos seguia para todos os cantos. Se alguém que não conhecia aproximava-se de algum da casa ele se arrepiava todo e parecia que ia voar na pessoa. O bicho ia crescendo e a sua mania de proteção aumentando.
Tuim Tuim virou o belo galo com uma crista vermelha enorme, que balançava de um lado para outro no topo da sua cabeça de galo valente. A tonalidade das suas penas era linda, de um marron escuro acabava alourada nas pontas com mechas de preto, vermelho, misturando tudo, num arco-íris de cores fortes e viris, como ele era. Ativo, tomava conta de nós e das poucas galinhas que sobraram e que a gente via sumindo dia a dia.
Amávamos aquele galo, que dormia dentro de casa para não ser roubado, tínhamos medo que alguém apreciasse tanto a sua beleza e não resistisse.
Um dia, entretanto, acordamos e não achamos Tuim Tuim em lugar nenhum. Todos nós, meus irmãos e eu rodamos todo o nosso quintal, todos os cantos da casa, as casas dos vizinhos próximos, enfim, tudo o que estava ao nosso alcance. Minha mãe, calada, olhava o nosso desespero sem nada dizer, parecia que era indiferente á nossa angústia, mas se a olhássemos bem, poderíamos notar os seus olhos brilhando de uma maneira diferente, parecia que tinha água dentro deles, água que borbulhava e que não conseguia sair da panela formada pelo globo ocular.
Meio-dia desistimos de procurar Tuim Tuim e minha mãe nos chamou para almoçar. Nesta época éramos 4 (quatro irmãos em casa), a minha irmã mais velha já estava interna em Salvador e a minha irmã caçula estava prestes a nascer.
O PF, sim porque lá em casa o prato já vinha feito para cada um, minha mãe tinha de regrar a comida para que todos nos comêssemos igualitariamente e mais vezes; e aí a surpresa, quase esperada, misturada com a dor que se apossou de nós todos: nos nosso pratos as belas coxas de Tuim Tuim divididas em quatro pedaços ornamentavam o arroz. Deciframos de imediato o enigma do desaparecimento do Tuim Tuim e o dos olhos de minha mãe; para que não morrêssemos de fome ela teve de optar e matar o Tuim Tuim, que perdeu a vida, para a nossa sobrevivência. Comemos chorando, não tínhamos opção, numa mistura de dor e satisfação, porque Tuim Tuim soube ser grande até na sua morte, Deu um belo caldo, cheiroso e nutritivo, dando gosto a farinha, que virara pirão, quando misturada ao seu caldo. A sua carne macia derretia na nossa boca, ele virava um néctar, o néctar da nossa vida, pelo menos por uns quatro dias, tempo em que durou  o nosso processo de engolir a vida,  e de perenizar, quase, o Tuim Tuim em nós.



domingo, 4 de agosto de 2013

De Arembepe ao Cabula - Um epopeia

Rapaz é mesmo uma epopeia! Se Homero fizesse esta viagem certamente escrevia outra Odisseia, mas, desta feita, contando as aventuras e uma heroína chamada “Esmeralda”, e, certamente,  não encontraria, de volta ,a Ítaca do seu herói.
Sai daqui as 06h00min da manhã. Como não sei andar direito por esta área da cidade e porque tinha mesmo de fazer uma prova, resolvi deixar o carro na casa de Glória e ir de transporte público. No primeiro dia optei pelo táxi. Deixei o carro no supermercado, ali no começo da estrada do coco, e peguei um táxi. Paguei na ida a bagatela de 60,00 (sessenta reais) o mesmo ocorrendo na volta. Isto me fez desistir desse meio, e no segundo dia e fui para casa de Glória: deixei o carro e peguei um ônibus as 06h30min. Felizmente o ônibus estava vazio e eu fui sentadinha, mas ele ia enchendo no decorrer do percurso. Quando cheguei à entrada do Costa Azul sai do ônibus e peguei um táxi, paguei 30,00(trinta reais). Na volta, depois de estar com os pés esfolados, porque andei em demasia por dentro do campus da Universidade, o que me deu uma grande saudade de Lisboa, porque o que fiz ali e que me tomou umas duas horas ou mais, eu faria em questão de minutos, e aí vi mesmo o que é a injustiça de europeus debocharem de Portugal considerando-o como um “terceiro mundo” dentro da comunidade. Não é não: Portugal oferece aos seus acadêmicos serviços, que se não perfeitos, são essenciais e ajudam a todos. Se de vez em quando as máquinas quebram, aceita-se, porque é normal. Aqui, passei trinta minutos esperando que uma moça, sozinha, com uma só copiadora, tirasse cópias para um rapaz, que estava dentro do cubículo onde ficava a máquina. O que fiz, perguntei se havia outra copiadora, me informaram que havia outra sim, e lá se foi Esmeralda, irritada, de sapato alto, segurando o vestido, apenasmente encadernar documentos, o que era exigido pela banca que examinaria a documentação. Chegando ao local indicado, e já entregando a documentação apenas para encadernar, vejo que a máquina, aquela que faz os furinhos no papel, estava com problemas, e olhe que só existia ela, a única.  O rapaz, completamente despreparado para este trabalho intelectual, estava nervoso. Felizmente, antes que ele conseguisse, manualmente, colocar a espiral nos furinhos, alguém chegou à copiadora para pedir que uma página fosse colocada no que já estava encadernado, e ai notei que esta tal página estava faltando nos meus papéis. Outra novela.  Tirar uma cópia da minha inscrição via internet. Rapaz andei naquele campus! Subi, desci, fui, voltei até que uma alma boa, usou o seu próprio instrumento de trabalho e conseguiu tirar a maldita cópia da inscrição.  Voltei à copiadora e o processo de encadernação durou, exatamente, uns 40 minutos. Nisto eu já estou angustiada, porque o pessoal queria que toda esta papelada fosse entregue 1 hora antes da tal prova, e eu lá vendo a hora passar, a me irritar, o estomago a dar sinais da insatisfação. De repente, sinto os pés a incomodar, olho o que esta acontecendo: a sandália, simplesmente, tinha arrancado a pele dos meus dedos dos pés, e eu não podia fazer nada, tinha que segurar a dor e a onda, e lá fui eu fazer a prova, doída, chateada com tudo, inclusive me perguntando que merda estava fazendo ali. Será que eu precisava mesmo passar por isto?
Bom, encadernado os documentos, lá me vou para a prova, tensa, nervosa, mas isto não interesse. Prova acabada e eu peguei, outra vez, um táxi para voltar para Itapuã, mais 35,00(trinta e cinco reais).  Já entro, pois, com dívida, caso passe na seleção.
No outro dia tinha de falar de mim. Não sabia quanto é difícil falar de si próprio para outras pessoas, mas quem tá na chuva tem de se molhar e lá fui eu. Desta vez resolvi ir de transporte público, tinha tempo e, portanto, sai da casa de Glória às 07h00min e fui para a estação de transbordo de Mussurunga, não depois de esperar, no final de linha da Praia do Flamengo, uns 30 minutos para que um dos ônibus parados no local saísse dali.  Chego a Mussurunga e vou procurar o ônibus que vai para o Cabula. Alguém me diz que é no numero 14, para onde sigo e pego uma fila imensa:  esperamos, todos ali, por uns 35 minutos pelo coletivo. Felizmente, quando ele chegou tive a oportunidade de ir sentada. Agora sim começa o périplo: To pensando que o caminho vai ser o mesmo feito pelos táxis. Ledo Engano!  O ônibus efetivamente subiu a ladeira que ia sair no Saboeiro, eu acho que é este o nome, e eu já radiante dizendo: Porra é tão rápido, se eu soubesse disto tinha vindo de coletivo desde o primeiro dia.  Idiota!!! O ônibus sobe a tal da ladeira, mas faz um caminho completamente diverso.  Fico olhando tudo aquilo e pergunto a alguém, este ônibus vai mesmo para a Universidade. Alguém responde vai sim, não se preocupe.  Preocupar!! Não, eu estava mesmo era desesperada. Eu tinha horário para estar no local e as horas passando e com elas o ônibus passando por lugares desconhecidos, feios, nunca vistos antes, se visto completamente remotos na minha mente, que arquivou, se o fez e perdeu o arquivo, talvez defensivamente para não me fazer lembrar que a pobreza, a miséria, já passou pela minha vida assustadoramente. Bom o fato é que eu seguia vendo aquilo ali num misto de surpresa, apavoração, nervoso, angústia, tudo misturado e junto, não me deixando identificar nada. Alguém diz: “Largo do Juliano Moreira”, me dou conta que eu podia até mesmo soltar ali e seguir direito para o Hospital, eu estava mesmo à beira de um colapso de nervos, e o lugar mais adequado para tratamento disto estava ali, bem pertinho de mim, O Hospital Juliano Moreira, que trata das enfermidades da mente e asila os portadores destas disfunções.
Felizmente, a passagem pelo local é rápida, mas isto não me deixa segura, pois fico pensando, se entrar um doido aqui neste ônibus, o que poderíamos fazer? Nada, e aí penso porque que não mudam este estabelecimento de lugar, por que não se coloca ele em lugar mais afastado da cidade. Alguém poderia argumentar que ficava muito afastado, mas o progresso, que, diga-se de passagem, não vejo na região, fez com que o local fosse demograficamente ocupado.
Pergunto outra vez a alguém: já esta perto da Universidade? Alguém responde: está sim, fica logo depois do Roberto Santos, E eu penso, porra nenhuma, depois do Roberto Santos há uns bons quilômetros ainda para se chegar, e com este engarrafamento vai ser uma tortura.  Chega o hospital Roberto Santos, eu continuo achando o caminho diferente. Descubro o que é: o táxi e meu carro passam pela rua direta, mas o coletivo entra na rua do hospital. Um verdadeiro caos: pense um ônibus fazendo uma curva onde é difícil até para um carro pequeno manobrar.  Já estava disposta a descer do veículo e ir, quem sabe, andando, mas os pés não me permitiriam isto, a pele arrancada insistia em me dar sinais do ocorrido.  Fico no ônibus que consegue fazer a tal da curva e pega a pista principal. Anda muito ainda e eu pergunto a uma senhora que esta junto de mim: Já esta perto da Universidade? E ela me diz: "é o próximo ponto". Peço desculpas por incomodá-la, ela diz que não tem problema, mas eu sei que tem, porque ela estava com o fone de ouvido e teve de tira~lo para me dar a informação.  Aliás, muitos no ônibus estão usando o tal aparelhinho, o símbolo da individualidade, cruel, ignorante, miserável.
Finalmente chego à Universidade, e me dirijo à sala onde vou apresentar um memorial, ou seja, falar da minha vida para pessoas que desconheço. Pensei que deveria apenas falar de coisas profissionais, e não dei muito atenção a coisas pessoais: Pois não é que tinha de falar de coisas tipo: se sou casada, se tenho filhos, mãe, irmãos, coisas que não entendo, mas continuo dizendo: "quem tá na chuva tem de se molhar".
Depois de esperar um pouco faço a tal apresentação, que em principio foi até tranquila.  Acaba tudo, agradeço a atenção da banca, formada de três mulheres, cada uma com um perfil, e mais uma vez vejo eu nunca vou conseguir ter um “arquétipo” esperado por todos; aquele de membro do Judiciário, mas isto não me afeta mais. Apenas dou risada das coisas.
Saio da Universidade e resolvo voltar para a estação Mussurunga e dai para Stela Maris.  Começo a esperar o ônibus da Estação Mussurunga, demora muito, quando chega, felizmente vazio, entro, pago e sento-me. 
Uns três quilômetros depois vem a informação: O ônibus quebrou. Puta merda! Falo para mim mesmo. O motorista insiste, o ônibus não sai do lugar, quebrou a porra da caixa de marcha. Saímos todos do ônibus, a cobradora, uma mulher capenga, liga para a empresa, para o setor manutenção.  Alguém brinca e ela grita para o motorista, que alguém, que não me lembro do nome, disse que ele vai sair de férias e quer levar o carro com ele, ambos sorriem, eu não acho nenhuma graça da brincadeira e da situação. Todos do lado de fora, 10, 15, 20 minutos; não passa nenhum outro estação Mussurunga. Desisto de esperar, isto depois de ouvir uma mulher querendo desfazer um plano de saúde, porque o anterior era de quarenta e ela passou para um de 30,00, mas a empresa diz que ela não pode se desligar com menos de um ano e que o valor de 40 vai ser descontado até que o prazo de complete. Tenho vontade de intervir, mas para dizer o que: Que eu estava ouvindo a conversa alheia? Fico quieta e não me pronuncio.
Resolvo que vou tomar outro ônibus para qualquer lugar, ou  então pego um táxi. O táxi não passa, os que passam estão lotados. Já me arrependo de não ter tomado um táxi no supermercado que fica próximo à Universidade. De repente uma luz:  um ônibus Cabula-Pituba via Boca do Rio. Penso: Salvação!  Pego o ônibus e vou até a Boca do Rio e lá pego um para Itapuã, é o que faço. Fico felicíssima quando, com poucos minutos, vejo o ônibus chegando à Paralela, começo a fazer o trajeto para a Boca do Rio, olho o relógio e ligo para Glória perguntando se ela quer almoçar comigo. Ela diz que sim e ai eu digo que é para ela me pegar em Itapuã. O ônibus segue o seu percurso e vejo-o fazer o retorno na Eduardo Magalhães, meu coração já dá pulos, daqui a pouco saio desta porra. O ônibus estava cheio, eu estava em pé, sentindo o cheiro do sovaco de um homem bem no meu nariz, sentindo a minha bunda sendo alisada pelo sei lá o que: bolsas, pernas, braços, enfim.   Aí a tragédia acontece.  O ônibus, ao invés de seguir direito para a Boca do Rio, entra na primeira à direita no Imbuí.  Gente do céu, que nunca pensei, sequer, que o Imbui fosse grande, que dirá tão grande.  O coletivo anda por ruas apertadas, muitos prédios, lojas. Andei, andei , andei, andei tanto que achava que estava indo diretamente para Itapuã. E aí, o que acontece? A zorra do ônibus sai no mesmo lugar. Eu não posso deixar de me expressar: “Cacete, ele volta para o mesmo lugar”. A mulher que esta ao meu lado, agora eu já estava sentada, me diz: Ele ainda vai andar muito, vai para o outro lado, acho que Fonte das Pedras, sei lá. Outro périplo, a zorra anda, anda, anda, e de repente volta, novamente, ao mesmo lugar, começamos tudo outra vez, vamos pela rua principal do Imbuí e pegamos a Boca do Rio, agora sim, vou chegar à Orla, mas aí outro engano: o ônibus vai por um caminho que não conheço e quando desemboco em algum lugar é no Centro de Convenções. Caralho! Penso, e agora, o que faço? Bom vou soltar no Supermercado, penso e é exatamente o que faço.  Num malabarismo retado, atravesso a rua e vou esperar um transporte para Itapuã, pego um ônibus para Lauro de Freitas e depois de uns 20 minutos, finalmente, chego à Itapuã e vou esperar Gloria.
Depois de tudo isto, mesmo sem muito dinheiro, temos que compensar todas estas aventuras desagradáveis, mesmo com um sentimento cruel na alma, por pensar que, a grande maioria faz isto todos os dias e eu, que apenas fiz desta vez, estou tão magoada, tão angustiada, tão revoltada.
Vou comer filet a parmegiana no Bela Nápoli do Shopping Litoral Norte, e, para lembrar de Lisboa, tomo um Monte Velho, pelo qual pago mais de cinco garrafas que conseguiria comprar, com o mesmo valor, em Portugal, 58,00 (cinquenta e oito) reais, em Lisboa, no supermercado, custa, apenas, 4,70 (euros). De qualquer maneira, momentaneamente, esqueci da dor no pé, das angústias, de tudo enfim, e brindei com Glória : Saúde!!!!!  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Navegando com o Marujo

Mais uma vez a emoção tomou conta de mim. Todo o meu corpo sentia aquela onda de sensações, que eu não sei muito bem explicar. Os pelos se eriçam, o coração aperta, as lágrimas rolam face abaixo. Não consigo controlar mesmo, chega mesmo a ser violento.
Os cânticos para os orixás continuavam, as preces eram feitas com muita fé. O babalorixá conduz a sessão.  Todos de branco, o símbolo da pureza; sentados de um e de outro lado da mesa, os guias ficam ali chamando pelas suas entidades.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Harém do Galdêncio

O galinheiro estava em alvoroço, o galo do pedaço estava apático, já não procurava mais as galinhas, que se insinuavam, enquanto ele fugia com evasivas idiotas.  A uma ele dizia que tinha que fazer ronda, defender o galinheiro de intrusos, a outra dizia que tinha que olhar os pintinhos recém chegados, a uma outra que ele tinha de fazer entrevistas com os frangos para saber quem poderia, no caso dele faltar, assumir o seu lugar, enfim, desculpas esfarrapadas, que as frenéticas galinhas não aceitavam e cacarejavam durante todo o dia, todas desesperadas e desconfiadas das saídas estratégicas do galo, que desaparecia no decorrer do dia sem que ninguém o localizasse nas proximidades.

sábado, 25 de maio de 2013

Notícia de um falecimento


O dia amanheceu calmo, mas ela tinha uma sensação estranha, um presságio de notícias ruins, e, infelizmente, às 10:00 da manhã, tudo se confirmou.
O telefone fixo toca, ela segue para onde fica o aparelho.  Vai sem querer ir, era como se tivesse a certeza que não ia receber uma boa notícia. Todavia, tem mãe, irmãos, filhos e netos.
- “Alô”.
- “Bom dia, quem fala”
- “A senhora ligou para quem”
- “Para a Sra.  Cornélia Semog “
- “É ela”
- “Sra. Cornélia fui encarregada de lhe passar uma notícia desagradável, e o faço eu porque a família está transtornada.”
Tomou um susto e, imediatamente, recordou do seu amanhecer e do pensamento que teve enquanto se dirigia ao local onde ficava o aparelho.
- “Sim, pois não, o que houve”? E na sua particular irreverência: “Quem morreu”?
- “A Sra. já sabe?”
- “Sabe de que minha senhora”?
- “A Senhora está perguntado quem morreu, sinal de que já deve saber de alguma coisa!”
- “Sra. o que: Qual é o seu nome? Diga logo o que aconteceu pois está me deixando nervosa.”.
- “Meu nome é Izolda com “z” e sou amiga da família”
- “Que família minha senhora, adiante logo o acontecimento”
- “Bem que me disseram que a senhora era um pouco esquentada”
- “Pqp: a senhora vai falar ou não, se isto for um trote a senhora vai se dar mal”
- “Vou falar sim, é que a informação não é nada boa”.
- “Vou desligar esta merda, e a senhora vá sacanear outra pessoa”
- “Já sacaneei hoje, se a senhora entende assim a comunicação que tenho a fazer, já sacaneei umas três pessoas”
- “Caracas, vou desligar mesmo! “
- “Dona Cornélia se a senhora soubesse a notícia que tenho para lhe dar, a senhora me tratava um pouco melhor, com mais educação, porque eu que não tenho nada com a estória, ´que fui solicitada para falar consigo”
- “Sra. sei lá o que, Izolda com “Z”, eu vou desligar, não tenho tempo a perder, se a senhora não quer cumprir a sua obrigação “moral” acho eu, o problema é seu. Certamente, se alguém morreu e eu tiver de saber, no momento certo saberei, portanto, como não lhe conheço, como não tenho a menor ideia de quem tenha morrido que faça parte da minha relação de amizade, e se fosse alguém da minha família eu já saberia, até porque eu seria eleita, à unanimidade, para pagar as despesas funerárias, não vou ficar aqui   falando com alguém que não tenho qualquer relacionamento, afinidade, conhecimento, enfim, não vou ficar falando com a senhora.”
Bate o telefone e vai fazer as coisas que tem de fazer, mas a porra do telefone toca outra vez.
- “Dona Izolda com z vá a merda”
- Cornélia, sou eu Cornidilia:   Quem é esta Izolda com “z” que lhe deixou tão irritada? Por que você está tão nervosa? Então você já sabe o que aconteceu não é?”
- “Pqp, outra vez!!!  Eu não sei de banana nenhuma e parece que não vou saber. A outra estava neste mesmo papo e por isso já atendi assim. Mas o que foi que houve mesmo, você vai dizer logo ou vai fazer rodeios para falar? Se for assim eu vou desligar o telefone porque vocês estão me fazendo ficar nervosa”.
- “Calma Cornélia, você só tem de respirar um pouco, ficar calma, pois a noticia é realmente ruim.”
- “Que cacete, que notícia ruim é esta que vem de cagado. Dizem que notícia ruim chega logo, mas esta parece que não quer ser noticiada, pelo menos para mim, pois, ao menos, duas pessoas diferentes já sabem”
- “É:  por isso que ninguém queria ligar para você, todos temendo a sua reação!”
- “Rapaz, vocês tão mesmo de sacanagem comigo! Que diabo aconteceu?”
- “Não fale o nome do demo; neste momento o melhor é falar em Deus”
- “Cornidilia, vou esquecer da nossa amizade e do elo que nos une e vou mandar você para aquele lugar.
- “Cornélia é mesmo difícil falar com você: todo mundo tem razão mesmo, você é grossa, ignorante, nem mesmo num momento deste, e para te dar uma notícia desta, a gente tem de abrir qualquer precedente para você, não vou falar nada, procure saber o que aconteceu sozinha.”
 Cornidilia desligou o telefone na sua cara e ela, que já estava espumando de raiva, de curiosidade e tensão, ficou sem saber o que tinha conhecido. Pensou em ligar para alguém, mas desistiu: uma terceira pessoa ia ligar se o caso fosse mesmo importante, ela saberia, se é mesmo que alguém tinha morrido, da notícia.
Outra vez o telefone toca, desta vez o celular; ela olha o número no visor, não reconhece aquele número. Os três algarismos do início demonstram que a ligação não é local.
- “Atendo, não atendo, atendo, não atendo”. Continua olhando para número sem tomar qualquer atitude”.  Decide não atender e vai preparar alguma coisa para comer, mas outra vez o telefone toca, agora os dois começam a tocar concomitantemente.”
- “É realmente alguém que eu devo conhecer bem morreu, pois não é possível que tanta gente ligue para mim em um dia de sábado, neste horário, em que a grande maioria que conheço já está se preparando para começar “os trabalhos””
Vai atender o celular. De novo o mesmo número que não conhece. Não atende. Vai para o fixo, há um número que também não conhece e que não é local. Fica olhando os dois telefones; no pensamento   faz “uni, dune, te etc., o escolhido foi você”. Dá risada, pois só neste momento é que percebe o que significava uni, dune, ter, que tanto usou na sua infância para escolher alguma coisa, (um dois e três) e este pensamento faz com que ela dê uma imensa gargalhada e é assim que atende ao celular.
- “Sra. Cornélia Semog”
- “Sim”
 - “O meu nome é Cornelson”
- “Como”?
- “Cornelson,  é estranho mas é este mesmo. Sou de Bombinhas, Santa Catarina, estou indo para a Cornuália e, alguns amigos comuns  mandaram que eu procurasse a senhora, para me dar algumas informações sobre o local”.
- “Sr. Cornelson,  acho que lhe informaram erroneamente, não conheço a Cornuália, a não ser  através de um livro que li há tempos atrás. “Catadores de Conchas” acho eu, penso que fica na Inglaterra, Irlanda, não sei bem, portanto, não lhe posso dar qualquer informação”.
- “Como a senhora não sabe! Estou aqui na minha mão com um artigo escrito por si, e amigos comuns me deram o seu telefone.”
- “Continuo achando que houve um grande engano, ou uma coincidência extrema, pois nunca escrevi nenhum artigo, nunca estive em lugar com este nome, enfim, acho que por força do meu nome, Cornélia, resolveram me enfiar uma Cornuália, que não conheço, não quero conhecer. Esta questão de "corno" é assim, todo mundo sabe e quer tirar um sarro.”
- “Bom, mas não é possível, porque dias atrás encontrei um nosso amigo comum, que infelizmente faleceu, e foi ele quem me deu o seu número”.
- “Quem faleceu meu senhor”,
- “AH a senhora ainda não sabe, não posso crer, ele falava tanto na senhora, ele que dizia que a senhora foi uma das pessoas mais dignas que ele conheceu, que ele admirava tanto. A Senhora que deveria ser a primeira a saber, ainda não sabe do falecimento dele”.
“Pqp! Realmente hoje não é o meu dia: Olhe aqui senhor não sei das quantas, vou desligar e tenha um péssimo dia e que a sua Cornuália se transforme mesmo em uma grande "corno" e como manda a tradição, que o senhor seja o último a saber, aliás, o senhor, decididamente, está indo para o lugar adequado”
Desliga o telefone e já não aguenta mais, a curiosidade o nervoso a agonia. O celular toca de novo.
- “Vá a merda”,
- “O que? Que é isto Cornélia? Bom mas parece que você já sabe.”
- “Sei de que?
- “Sua reação ao telefone já diz tudo”
- “Tudo o que?”
-“ Do seu nervoso, da sua aflição, da sua angústia, mas não se preocupe, tudo vai dar certo, nós estaremos  aqui, juntos com você”.
- “De que você está falando Cornalina?”
- “Dele, obviamente, estou falando dele”.
- “Dele quem?”
- “Do pai de seu filho”
Danou-se, pensou ela, que tinha três filhos de parceiros diferentes.
- “De que filho cacete?”
- “Do seu marido”. Ele vai ser sepultado daqui a pouco, acho que daqui há umas duas horas. Das diversas mulheres que ele teve só falta você, todos estão aqui comentando a sua ausência, tem até aposta se você vem ou não.  Você devia vim, o enterro em si ainda vai demorar e se você vier agora ainda vai ter tempo de ver as mulheres todas se entreolharem querendo uma matar a outra, cada uma no seu nincho com a família, quero dizer ela e os filhos, você sabe que são muitas, isto aqui está mesmo hilário, você devia vim. Tem gente aqui falando que ele teve toda razão em lhe deixar, uma pessoa que é tão rancorosa, tão ruim, que nem no momento deste vem prestar solidariedade, tinha mesmo de ser deixada”.
- “Como é que é! Quem morreu mesmo?
- “Você ainda não percebeu? Ele, o pai de seu filho”
- Olhe, quer saber, não sei de quem você tá falando, se você no disser o nome não vou saber qual dos pais de um dos meus filhos faleceu, portanto... Além do mais, nenhum dos meus filhos me disse nada até agora, bem improvável, pois, que estejamos falando de algum dos meus maridos.”
- “O mais mulherengo mulher! Pois só de ex, aqui, tem umas quatro, só falta mesmo você para completar a zorra”.
Desliga irritada o telefone. Fica pensando, qual deles faleceu, se foi um de seus maridos, porque o filho respectivo não ligou para dizer,ele sim, ou um dos tios, é que deveria lhe ligar para dar a notícia.
O celular toca outra vez, olha o número, e reconhece o telefone, seu coração acelera.
“Alô meu filho, eu já sei de tudo, você quer que eu vá com você para o enterro? Se quiser eu vou. Nesta hora vou esquecer o que aquele sacana fez comigo e você, vou passar por cima de tudo, vou apenas lembrar que ele é o seu pai vou te dar apoio.
“Como é minha mãe? Meu pai morreu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!