quarta-feira, 13 de maio de 2015

O olhar de ver - recriando o tempo e o espaço

Tive que ir ao Banco do Brasil, que fica no Comércio. Deixei o carro no Shopping Bela Vista e peguei o metrô, a ideia era sair na estação da Lapa e descer andando para o comércio, mas, pelo adiantado da hora, resolvi pegar um ônibus para a Praça da Sé, e de lá descer o elevador, e foi o que fiz. Saio do elevador e ando pelo comércio, pois não consigo chamar diferente àquela parte da cidade, mas ando ali agora com os olhos de ver. Não quero mais olhar somente, quero olhar mesmo com os olhos de ver. Primeiramente ver o inevitável e o inegável, que é a Beleza da cidade
. Não há nada mais bonito e agradável de olhar, do alto da cidade alta, como o fiz antes de adentrar ao Elevador Lacerda, e como poderia ter feito na Praça da Sé ou até mesmo na Vitória ou  um pouco mais além, a nossa Baia de Todos os Santos. É extremamente reconfortante ao olhar, aos sentidos na sua totalidade. Mas, mais importante de que a constatação de tanta beleza, é olhar esta beleza e ver todas as coisas que a rodeiam. A visão da Baía de Todos os Santos me cativa [1] , ela é externa a mim, e isto me dá a justa noção do que vejo: Merleau-Ponty já dizia “que a visão nos cativa não apenas por ser uma jornada em direção às coisas externas, mas também por significar volta a uma realidade de origem, representada nos objetos percebidos à distância”.
Suspiro, inspiro, oxigeno bastante todo o meu aparelho oftálmico, abro imensamente os meus olhos de ver. Meu Deus: como a beleza de Salvador é imensa e como a história de toda ela é fascinante! Os meus olhos de ver me levam aos velhos e acabados telhados da cidade baixa, telhas quebradas, telhados completamente caídos, paredes derrubadas, madeiras carcomidas, picos resistentes que querem mostrar a imponência de outrora. Ah meus olhos de ver! Sinto tristeza por ver tanto descaso, por ver o nosso patrimônio histórico cultural se esvaindo sem que se faça nada, sem que as autoridades tomem uma atitude contra toda esta depredação. O que interessa se estes prédios são particulares?  Utilizem os meios legais: tombamento, obrigar os seus proprietários a conservá-los. Façam qualquer coisa, mas não permitam que séculos de história acabem desta maneira. Entretanto, mesmo constatando todo este descaso, ele não é capaz de tampar os meus olhos de ver, e eles são capazes, e têm sensibilidade, de reproduzir momentos de história, e eu me vejo andando pelas ruas da cidade baixa, por entre negros e comerciantes, estrangeiros, homens de negócio, carregadores negros descarregando barcos, com frutas, fumo, farinha, dentre tantas outras mercadorias. No cais inúmeras embarcações, agora elas andam em frotas, proteção contra a pirataria, contra as invasões, este porto já chegou a abrigar, em uma só vez, cem embarcações
O porto da cidade era o centro incontestável do comércio do Atlântico Sul, mas o sistema de navegação em frotas, que reunia até uma centena de navios, trazia na cidade, em certas épocas do ano, uma enorme população de marinheiros e de comerciantes que era necessário alimentar... e tratar quando era atacada pelas epidemias que, aliás, ajudava a espalhar”[2].
 As ruas estão cheias de sujeira lama, detritos, o cheiro é muito forte, o casario segue mostrando alguma imponência, os senhores fazem sobrados em que o térreo são as lojas e o primeiro andar lhes serve de moradia, ali estão estabelecidos os armazéns, os diversos serviços de ferreiros, aguadeiros, Casas da Fazenda e Alfândega.
A pequena ermida de Nossa Senhora da Conceição está ali, ainda não era a Igreja que se fez em Portugal e aqui se montou. Algumas ladeiras ligavam as duas partes da cidade: ladeira da Conceição, da Preguiça, Montanha e a do Taboão.
Há uma novidade, os biscainhos tinham licença para a pesca da baleia, e com isto a fartura do azeite que iluminaria as casas e permitia um convívio maior e estimularia a produção dos engenhos, afinal substituiria o azeite de oliva, que alimentava os candeeiros das casas, das oficinas. As ruas seriam iluminadas aclarando os perigos.[3] 
Lá em cima, a cidade Alta, onde o poder está instalado: os Ravascos (Bernardo e Antônio Vieira) desentendem-se com o Braço de Prata, alcunha do governador geral Antônio de Sousa Menezes(1682-1684)[4]. Os irmãos parecem estar em lados opostos; um, o padre, querendo que os índios não fossem escravizados, o secretario lutando, ativamente, para que a lei que proibia a escravidão indígena de 1609, fosse revogada e se admitisse o trabalho dos indígenas. Entre os três, os dois irmãos e o governador, Gregório de Matos satirizando, mui principalmente, o Braço de Prata. A cidade fervilha, o Alcaide Mor do Braço de Prata, seu aliado, foi vítima de uma emboscada e é morto, crime atribuído ao Ravasco, Bernardo, que é preso.[5]
A DESPEDIDA DO MAU GOVERNO QUE FEZ O GOVERNADOR DA BAHIA.

Senhor Antão de Sousa de Menezes,
Quem sobe ao alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

A fortunilha, autora de entremezes
Transpõe em burro o herói que indigno cresce:
Desanda a roda, e logo homem parece,
Que é discreta a fortuna em seus reveses.

Homem sei eu que foi vossenhoria,
Quando o pisava da fortuna a roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.

Pois, alto! Vá descendo onde jazia,
Verá quanto melhor se lhe acomoda
Ser homem embaixo do que burro em cima
Ele não tem limites na sua sátira e critica a tudo e todos, a sociedade, mesmo sendo alvo de suas críticas, espera ansiosa os seus pronunciamentos e ele ataca:
DEFINE A SUA CIDADE

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

A vida segue, ainda que com todas estas embolias políticas. É necessário que o açúcar continue sendo
exportado e sustentando os senhores dos engenhos, que apesar de estabelecidos no Recôncavo, guardam as suas residências na cidade. O tabaco, o pau brasil, os negros, mercadorias que fazem ricos.
Negros esperam, aos montes, nos porões o momento dos leilões. Estão amontoados em lugares fétidos, úmidos, e com fome, aguardam os seus pobres destinos, são de diversas partes da África, tem costumes diversos e línguas diversas, ou seja, mesmo entre eles a diferença se impõe. 
O tempo passa e a história passa por minha visão apurada, acumulada de conhecimentos que se exteriorizam na reconstrução do tempo e espaço. Os holandeses invadem a Bahia, do Forte do Mar atiram contra nós, mas foram expulsos, felizmente ou infelizmente, passaram pouco tempo, o suficiente para fazerem o dique, o que favoreceu à cidade, impedindo qualquer invasão pelo continente, a esta invasão agradecemos a reforma do nosso forte do Mar.
Vou passando pelo Rua Portugal, outrora Rua das Princesas, me sinto quase como uma, embora, da antiga rua, pouca coisa esteja de pé. Alcanço a praça onde está a Associação Comercial, que será na verdade o meu ponto final, pois a agência do banco fica do outro lado oposto a este magnifico prédio. A imponência do prédio, a sua arquitetura, me fazem pensar e reviver um outro momento da história da Salvador colonial, à qual voltarei quando, em outro momento, andar pelas ruas desta bela e histórica cidade com os meus olhos ávidos, querendo ver mais e mais.          




[1] Citado por Laura de Mello e Souza in Inferno Atlântico –Demonologia e Colonização Séculos XVI-XVIII, SP. Cia das Letras, 1993, p.25
[2] AZEVEDO, Thales de. Povoamento da cidade do Salvador. Salvador, Itapoã, 1969 (Coleção Baiana), pp. 159-210, citado por Katia Mattoso. Bahia Opulenta, Uma Capital Portuguesa no Novo Mundo 1549.1763.p.8
[3] CALMON, Pedro. História do Brasil, Vol.II, Seculos XVI e XVII, RJ, 4ª.ed. Jose Olympio Editora, p.472
[4] Sobre os irmãos Ravasco, Braço de Prata e Gregório de Matos, ver: MIRANDA, Ana. Boca do Inferno SP Cia das Letras 1989.
[5] Ver  Pedro Puntoni – “Bernardo Vieira Ravasco, Secretario  do Estado do Brasil: poder e elite na Bahia do século XVII” in Modos de Governar Idéias e Práticas Políticas no Império Português, Séculos XVI a XIX, Org. Maria Fernanda Bicalho e Vera Lucia Amaral Ferlini, SP. Alameda, 2005, pp157-178