sábado, 30 de dezembro de 2017

Minha pró de costura

O ano de 2017 não foi um  bom ano par mim, aliás, acho que para a grande maioria dos brasileiros, entretanto não posso dizer que não aconteceram coisas interessantes: a primeira delas  foi a decisão que tomei de aprender corte e costura. Podem rir! Mas fui aprender mesmo, e nisto já tenho mais de seis meses no curso.  Quem quiser ver a produção pode entrar no blog e ir no botão costuras  e vai ver as minhas obras de arte. Duvidam! Não duvidem não, é real, tudo que está ali foi eu quem fez, seja bem feito ou mal feito, é made by mera, estou pensando já em Mera`s  collection, que tal! Kkkkkkkkk;

A calça, umas das primeiras produções
Pois é, por força desta decisão conheci uma pessoa que, e ela não imagina quanto, me deixou de queixo caído, por me dar conta que ainda existem pessoas como ela, quando a gente não mais acredita em muita coisa, em bondade, em generosidade, em responsabilidade, enfim, quando a gente está tão escaldada das peças da vida, armadas e fomentadas por outrem, não pensa jamais que encontrará uma alma boa. Eu encontrei: não só eu, mas, também, todas as pessoas que fazem o corte e costura com ela. Estou falando de uma AUXILIADORA, não uma auxiliadora qualquer, mas a nossa DORA, Maria Auxiliadora Lima, salvo engano, digo salvo engano, porque a mim não interessa o seu sobrenome, o que me interessa é a DORA, a nossa pró.

Disposta, paciente, responsável, sincera, atenta, generosa, pronta para ajudar sempre, aliás, com este nome, - AUXILIADORA, ia fazer mesmo o que, senão auxiliar, dar, ensinar, mostrar?

Vejo o carinho com que as suas alunas lhe tratam, o que significa que não é só na minha turma que ela é da maneira que estou falando. As suas alunas a idolatram mesmo. Eu achava muito engraçado quando alguma delas me dizia “eu já tenho oito anos” aqui com a Dora, e eu, pensando comigo mesma, achava que  a pessoa que me disse isto fosse  burra, tivesse alguma dificuldade motora, sei lá o que, ou melhor, fosse igual a mim, pois, mesmo tentando e fazendo de qualquer maneira as peças, eu continuo não tendo o menor dom para a costura, nenhum mesmo, ando cheia de furos de alfinetes, agulhas, xingo a máquina, corto tecido que não é para cortar, se vou desmanchar alguma costura termino cortando o pano, enfim, não sou nenhuma virtuosa em corte e costura, mas passar oito anos para mim era mesmo uma derrota total.  Nada disto! É que não se vai ali para aprender corte costura, vai-se ali para aprender a vida, pois enquanto ali estamos esquecemos mesmo de problemas, certo que eles retornam logo após cruzarmos o umbral da porta, mas naquele espaço pequenito, cercados de máquinas de todos os lados, temos a sensação que a vida é melhor, que podemos ajudar os outros, que podemos dar força a quem precisa, que podemos ser solidários.


Acho, que mesmo a pessoa mais prepotente do mundo, ao adentrar naquela porta, tem de descer do salto para encontrar a humildade, amor, generosidade, porque é isto que naquele espaço reina. Brincamos, sim brincamos, somos palhaços das nossas próprias histórias, nos tornamos parceiras, irmãs, amigas. Conferimos as nossas próprias mudanças, aprendemos a nos auxiliar, quebramos a frieza de alguns, enfim, aprendemos a ser melhores, tudo isto porque somos auxiliadas por nossa grande AUXILIADORA. Obrigada Dora, continue com a sua missão de AUXILIAR., Este meu agradecimento, tenha certeza, é coletivo, acho que cada uma das suas “costuretes”queria te dizer isto, eu, a mais ousada, a mais sacaninha, a mais desbocada, sem qualquer procuração, tomo a ousadia de dizer isto. Um beijo imenso.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Garcia D´Ávila IV

Agora eu estava realmente preocupada: Então este homem ia aparecer aqui em casa a qualquer hora?  Pensei em muitas situações: Já pensou eu no banheiro tomando banho com a plateia olhando! E fazendo as minhas necessidades? E se eu arrumasse um namorado e tivesse  numa hora de intimidade, aí ia mesmo ser uma droga. Ah seu Garcia, por favor, desapareça!
O pensamento racional era este, desapareça o Garcia D´Ávila, mas, no íntimo o que eu queria, com todo o medo possível, era que ele me contasse toda a sua história mesmo, não só a dele, mas dos seus pares na época e de seus descendentes . A minha curiosidade  ia além do meu receio de tantas e tantas coisas que poderiam ocorrer, inclusive a de ser tachada de louca pelos meus vizinhos  quando  me ouvissem falando sozinha.
Eu estava sempre em sobressalto agora, acordava todos os dias pensando na possibilidade do Sr da Torre aparecer: tomava banho correndo, trocava de roupa agoniada, realmente preocupada com o que poderia acontecer se aquele garanhão me pegasse em uma situação favorável aos seus desejos sexuais. Já me via em momentos de Dona Flor e seus dois maridos.
Todavia, apesar de todas as preocupações, eu queria  continuar conversando  com ele, entretanto ele sumiu, passaram-se uns três meses sem que ele aparecesse. Evitei de ir no Castelo e depois de tanto tempo relaxei, parecia que o  Sr da Torre me esquecera.
Apesar disto eu continuava a ler sobre ele e seus descendentes.
Me enganei, ele não me esqueceu, muito pelo contrário, quando apareceu depois destes três meses, disse-me que todos os dias vinha aqui em casa, que ficava quieto escondido, pois queria saber da minha vida, dos meus hábitos, de como  eu sobrevivia, enfim, ele estava me vigiando.
Bom, fazer o que não é, já que ele apareceu, e eu cheia de curiosidade sobre a vida daquele homem, perguntei:
Igreja de Monte Serrat atualmente
Sr Garcia, tenho uma curiosidade, veja se podes me explicar: Qual o motivo do Sr. Construir a Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat?
Vista  da Baía de Todos os Santos da Ponta de Humaitá
- Sabes disto!  O Thomé de Souza ordenou-me a construção de um Igreja em Itapagipe. Conheces aquele sitio?
- Sim, senhor! Até morei lá em um período da minha vida.
- O que! Morastes lá? Tu invades as minhas terras sempre, não sei porque não faço nada contigo, porque moras na minha terra, aqui em Arembepe, pois estes terrenos são meus, até lá para as bandas de Sergipe Del Rey, tudo é meu, não pagas foro, e agora me diz que já morou  Itapagipe!
- É difícil explicar, mas se alguém tinha de te pagar foro, este alguém deveria ser o meu pai, seu xará.
-Xará, o que é isto, o que significa este nome?
- Significa que o meu pai também é Garcia, não D´Ávila, mas Martinez Garcia?
- Martinez Garcia, de onde ele veio, este nome é ibérico.
-Sim senhor, meu pai era espanhol. Bom, mas isto não tem a menor importância, mas me fale da Igreja.
  -Como sabes eu recebi uma sesmaria em Tapagipe, e foi lá que comecei a criação de gado, com as duas vacas que recebi do Governo, mas eu não fiquei somente nisto, porque comecei a visualizar o futuro. Os colonos precisavam de casas e precisavam de material para construí-las, então resolvi fazer olarias para vender tijolos para a construção, deu tudo certo, e fiz mais de três lá em Tapagipe[1]. Mas o Governo precisava de mais proteção para as naus e para proteger a própria entrada da baía, então tivemos de construir um forte.
- O forte de Monte Serrat
-Não, não foi este o nome dado a ele.
E qual foi então?
-São Felipe
E a Igreja, como ela surgiu?
- Á Igreja .
-Mandei construir e depois doei aos beneditinos.
- Dizem que não foi o senhor que construiu a igreja e que também não foi o senhor quem doou a Capela aos beneditinos, e sim um Governador de nome Francisco de Souza.
- Quem disse isto? então no meu testamento em 1609 eu fiz a doação aos beneditinos, como forma de recompensa, no acordo que fizemos para que fossem devolvidas as minhas terras doadas pela Mecia.[2] E quem é este Francisco de Souza, Não o conheci, em 1609 quem era o Governador era Diogo do Menezes.
- Notei que o Sr Garcia D´Ávila estava ficando muito irritado com esta conversa, tentei mudar de assunto rápido, mas ele estava indignado mesmo.
- Estes beneditinos são mesmo impossíveis, eles fizeram com que eu saísse da minha casa para me livrar deles, das constantes investidas para que eu doasse as minhas terras, me obrigaram de todas as maneiras a ceder diante das suas insistências, fui para a Misericórdia e lá refiz o testamento tirando deles o que eles me obrigaram a doar, mas tive de negociar muito, pois eles gostam muito de dinheiro e de terras e querem as minhas.
-Ah Sr Garcia, esqueci de vos dizer que estive em São Pedro de Rates.
- O que, como lá chegastes? Em que navio embarcastes? Como consegues estas coisas, vos que sois uma mulher?
-Oh Sr, Garcia, gostaria muito de poder explicar ao senhor, mas é co0pletamente impossível dizer ao senhor como lá estive, o senhor não acreditaria e, mais uma vez, me chamaria de bruxa e me entregaria à Inquisição, se isto fosse possível.
- Mas como estivestes em Rates?
- Fui para Portugal e de Lisboa fui até Póvoa do Varzim e, consequentemente, e por causa do senhor, fui até São Pedro de Rates, tirei até algumas fotos.
-Tirastes o que? Fotos? O que é isto?
Outra vez estou em apuros para explicar ao Sr Garcia  as coisas, e já estava me desesperando, quando, de repente, ele disse-me
- Tenho de ir-me, hoje tenho de estar na Câmara, pois sabes que sou Vereador não sabes?
- Sim senhor Garcia, eu sei, mas gostaria muito de saber dos vossos estaleiros em Tatuapara, o senhor era mesmo um grande empreendedor.
-Como eu era? Estou aqui, eu sou um grande isto ai que falastes
Meu Deus! Tenho de aprender z falar com este homem, mesmo sabendo  que ele é uma alma penada, tenho de tomar cuidado com as palavras, ele fica irritado muito facilmente e eu não sei qual seria sua reação.
De repente ele levanta-se e diz: Tenho de ir-me, outro dia falamos sobre os estaleiros. Vou à Câmara, tenho reunião hoje, e. como sempre, ele partiu como chegou: evaporando-se no ar.  




[1] Nesta ponta de Tapagipe estão umas olarias de Garcia D´Ávila e um curral de vacas do mesmo [...]  Gabriel Soares de  Souza. Tratado  Descritivo do Brasil , Segunda Parte Memorial e Declaração  das Grandezas da Bahia, pg 145.
[2] No testamento de Garcia D´Ávila, efetivamente há menção a esta doação, e ao acordo para a devolução das terras deixadas por Mecia, Livros Tombo do Mosteiro de São Bento, Livro II,.É mais verossímil a assertiva de que a Igreja foi construída mesmo pelo Garcia D´Ávila e também que ele fez a doação aos beneditinos, como se pode comprovar através do livro tombo II do Mosteiro de São Bento. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

O Sr da Torre - Continuação III

Voltei para casa com a sensação de que perdi uma grande oportunidade, que não tinha conseguido informações suficientes do Sr. Garcia D´Ávila, como por exemplo, o fato da denúncia de Isabel, sua filha, contra Mécia Rodrigues a sua falecida esposa.   Queria confirmar mesmo que a denúncia se deu porque a Sra. Mécia era cristã nova, ou seja; ela e seus pais vieram de Portugal exatamente pelo fato de serem judeus e, coercitivamente, se tornarem cristãos, por isso mesmo eram chamados de cristãos novos, judeus convertidos.
Estes judeus convertidos comprometiam-se a não observar mais as práticas judaicas, entretanto, Isabel denunciou a madrasta dizendo que a mesma, em casa, continuava observando tais práticas, de acordo com Isabel ela “presenciara dita Mécia Roriz(Rodrigues) três ou quatro vezes em dias diferentes mandar lançar azeite nas panelas da vaca e galinha, dizendo que, porque eram magras o fazia”. Estão vocês rindo! Não riam não, isto era considerado um costume judaico. Em outra passagem, Isabel informa que Mécia Rodrigues comia carne nos dias em que se deveria comer peixe. Salvo engano, nós ainda mantemos o hábito de comer peixe na sexta feira santa, tão lembrados?  Aliás, se bem me lembro, acho que também tínhamos  um costume de comer peixe às sextas feiras. Ainda na denúncia, Isabel informa que quando morreu um escravo de Mécia, esta mandou deitar fora toda a água da casa
Na mesma época em que Mécia foi denunciada, ou seja; na Primeira Visitação do Santo Oficio à Bahia, (1591) sob o comando de Heitor Furtado de Mendonça, foi denunciada a Sra.  Ana Roriz, cristã nova que veio com toda a sua família, marido e filhos para a Bahia estabelecendo-se em Matoim, onde eram proprietários de um engenho de açúcar próspero, o que, entretanto, não evitou que a matriarca da família fosse denunciada e mandada presa para Lisboa, A Sra. Ana Roriz foi presa aos oitenta anos de idade.
Bom, mas não quero falar de Ana Roriz, quem quiser saber mais a respeito desta família, pode encontrar todas as informações nos arquivos da Inquisição na Torre do Tombo, todos os documentos da visitação do Santo Oficio na Bahia estão digitalizados e podem ser acessados através do site da Torre do Tombo.[1]
Voltando à Isabel e a sua denúncia, que não gerou qualquer consequência. Também ia perguntar ao Sr. Garcia D´Avila se foi realmente verdade que ele teve um outro filho que o denunciara ao Santo Oficio, já que estávamos tão íntimos, era melhor obter esta confirmação diretamente da fonte original, a ter de procurar  fontes históricas, mas foi esta a opção que restou, e, de acordo com  CALMON(1983:31), [2] a denúncia existiu mesmo, na denúncia o filho bastardo de Garcia D´Avila, João Homem, declarou-se filho do Sr. da Torre e de uma senhora de nome Catarina Roriz o homem gostava deste apelido) ao visitador do Santo Oficio.  Não encontrei qualquer informação a respeito das consequências desta denúncia, entretanto no seu testamento o velho da Torre reconhece, indiretamente, o filho, deixando um legado para as duas filhas deste, ou seja, para as inclusive determinando ao neto Francisco, o seu herdeiro, que as recebessem em Tatuapara, na casa da Torre.
“Declaro e mando, que o possuidor do prazo acima dito, suas benfeitorias hirá dando cinquenta mil réis em cadahum anno, cinquenta mil réis, os quaes se depozitarão e entregarão na Caza da Santa Misericórdia desta cidade athé a quantia de cento e cincoenta mil réis para dote e casamento da filha mais velha de João Homem, que Deos tem; o qual dote a dita Caza entregará ao marido que com ella cazar, cazada a dita filha mais velha hira dando pela mesma ordem outra tanta que se depozitara na mesma forma para casamento da outra órfã segunda filha de João Homem para caz doutra órfã, segunda filha de dito João Homem[...], [...] depois de cazadas, querendo ellas com os ditos maridos, acomodar-se nas terras do dito prazo, as acomode como melhor lheparecer desorte que comodamente possao nella viver em suas vidas com rossas e creações ; eem quanto não se cazarem  o dito possuidor as recolherá  em Tatuapara[...] Livro II do Tombo do Mosteiro de São Bento, pp.283-284. [3]
Fiquei pensando: volto outra vez a Casa da Torre?  As minhas entrevistas com o Sr. D´Ávila me deixavam aflita, embora a curiosidade da historiadora batesse forte, mas tinha que acabar com aquilo, até porque para ir ter com o dito senhor, eu precisava gastar dinheiro. Percebam bem: tinha de pegar meu carro, colocar gasolina, sair de Arembepe, dirigir até Praia do Forte, pagar a entrada, sim porque só tinha acesso às ruinas pagando a entrada, será que valia a pena tudo isto? Eu posso responder a esta pergunta, racionalmente valia muito a pensa, mas o meu emocional me dizia que tinha de acabar com esta história.
Bom tenho que decidir isto, mas, para minha surpresa, quando cheguei em casa, quem está sentado na minha sala? O Sr. Garcia D´Ávila, se não fosse um espirito e eu sabia disto, diria que em carne e osso. Tomei um grande e imenso susto. Meu deu ganas de perguntar-lhe como ele entrou na minha casa.
O desgraçado nem me deu tempo de recuperar-me: -   Sois casada? Quem é o vosso marido?  A quem ele paga o foro?
- Sr D´Ávila como me achou?
. Segui-te, simplesmente, foi difícil porque esta geringonça em que andas é muito rápida, mas meus cavalos são bons e cá estou.
- Sr D´Ávila o senhor não pode invadir assim a casa dos outros, faça o favor de retirar-se.
- Como? O que estas a dizer? Vais me expulsar da minha própria terra? Se alguém tem de sair daqui certamente  é a senhora. O homem estava vermelho de raiva. Eu já nervosa, tentando falar baixo, mas com uma vontade danada de gritar, corri para o quarto e me tranquei, como se isto fosse suficiente para afasta-lo, ledo engano!  O homem estava lá diante de mim parecia querer agarrar-me, me esganar.
-Não podes fugir de mim, não vês, não percebes?
Sr. Garcia o que o senhor quer de mim/
Quero saber o que sabes sobre a minha família, que termines o que começastes. Deixaste-me curioso, porque falas de coisas das quais não me lembro de ter passado ou acontecido.
-Claro senhor D´Ávila que não podes saber de coisas que aconteceram depois do seu passamento.
-Já vos disse que estou aqui, e que não houve qualquer passamento, mas não quero aborrecimentos consigo,s quero é que me contes mais, gosto da sua narrativa, mas daqui em diante teremos que marcar um dia, pois estas a me fazer perder muito empo e sou um homem muito ocupado, tenho que cuidar dos meus bens, do gado, dos escravos, do açúcar, das terras,  etc.´
Sr D´Ávila eu preciso comer, dormir, não podemos tratar disto em outra hora?
- Nem percebi que já está a escurecer. Não vai ascender as tochas e o azeite?  Onde estão os seus escravos para fazer isto?
-Em que ano o Sr está vivendo?
- Em 1592.
Pensem aí como seria difícil para mim explicar àquele senhor, acostumado a ser obedecido, o garanhão de Tatuapara,( pois o danado era mesmo um comedor, era um garanhão português, macho que demonstrava, em ações, esta qualidade tão cultivada pelos homens portugueses que aqui vieram, e penso que ainda cultivam orgulhosamente os hoje patrícios) transou bem, andou com as oficiais e reconhecidas pela sociedade da época, como também as extra oficiais, teve aventuras com mulheres brancas e com as índias,, teve a esposa Mécia, aliás, com quem casou obrigado, pois este seu casamento foi, como se dizia à época, na justiça. E  como diria minha mãe,  “quem puxa aos seus não degenera”, a  sua filha Isabel  andou adiantando o serviço e teve um casamento determinado pela Justiça ( foi deflorada pelo homem que se tornou o seu primeiro marido), Sim, voltando ao Sr D´Ávila, como eu poderia dizer a ele que o tempo havia mudado, que eu não tinha escravos, que a luz era elétrica, etc. então não expliquei nada, e lhe disse que mais tarde providenciaria tudo, que a luz do dia ainda era suficiente, mas que ele precisava  ir embora, que de lá de casa, Arembepe para a Torre, seu castelo, era longe e quando ele chegasse lá já seria noite alta.
Consegui convencer o homem que realmente montou no cavalo que estava apeado à porta lá de casa. Fui até a porta para vê-lo desaparecer, pedindo a Deus que ele não desse na telha de retornar e ainda preocupada com os vizinhos, que, certamente não iam entender nada, vendo-me a falar com alguém que só eu podia ver, falar, conversar.   
Quando tive a certeza de que não voltaria mesmo, passados duas horas ou mais que ele se tinha ido, peguei os livros e comecei a ler, afinal tinha de ficar afiada mesmo porque, com certeza, ele não ia desaparecer assim tão fácil da minha vida e agora eu estava perdida mesmo, pois ele poderia aparecer a qualquer momento e lá na minha casa. Este último pensamento me provocou calafrios, só faltava agora eu acordar com o homem da torre deitado ao meu lado.,.
Mas, o que descobri, será objeto de um novo capitulo. Kkkkkk, aguardem




[1] Digitarq.arquivos.pt
[2] CALMON Pedro. História da Casa da Torre – Uma Dinastia de Pioneiros, 3ª. Ed. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983
[3] Livro II Tombo do Mosteiro de São Bento, p 284 ( a grafia é a da época, como está no livro de tombo)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Casa da Torre II - Continuação

Confesso que sai do Castelo de Garcia D´Ávila ainda sem perceber direito o que tivera acontecido, no caminho vinha dirigindo o carro e querendo acreditar que tudo não passara de um sonho. Sonho! Tá doida! Você está dirigindo o seu carro, está indo para casa, e acha que foi sonho, se tivesse sonhado, neste momento estavas mortinha, estão já se viu dirigir dormindo, ainda mais em uma estrada.
O racional me dizia que fora real, que existiu mesmo aquela conversa, mas eu, por mais real que tivesse sido tudo aquilo, continuava incrédula.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Um rio na minha vida

Da minha cama, exatamente dela, vejo o Tejo, não preciso fazer qualquer esforço.  O Tejo está acabando, quero dizer, de onde o vejo neste momento, ele está encontrando o oceano para se mostrar mais e mais. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Diga, simplesmente, Não

“Eu lhe disse que era melhor ficar calada, mas você, como sempre, nunca segue os meus conselhos, tampouco faz caso das minhas ponderações.”
Estava evidente que isto ia acontecer, tantos anos se passaram, mas parece que nada mudou, embora ela saiba, mudou e muito, mas no relacionamento deles é como se o tempo tivesse parado.
As mesmas rusgas, as mesmas queixas, os mesmos problemas, tudo igual. Neste final de semana, entretanto, o que ela mais temia aconteceu. Um ponto de divergência enorme. Aquilo não era para ser lembrado, nem discutido, nada enfim. Para ela estava pacificado aquele entendimento, mas depois de tantos anos, o filme passou e ela não gostou do enredo, nem antes e nem agora.  Um enredo traumático, ruim de se ver. Sem a lógica necessária para um bom entendimento. Parecia um filme sem roteirista, continuista, etc., etc., até mesmo sem figurinista.
Estava espantada ao ver a reação dos espectadores, bem como dos próprios personagens. No fim do filme só o desgaste emocional da espera de um final, que já sabe, não virá tão cedo, há muita divergência entre os personagens principais, eles não se entendem em relação aos coadjuvantes, ao seu ver, um  mar de pessoas completamente desnecessárias, que nada lhe acrescem, pelo contrário, já lhe sugaram demais, arrancaram muitos ais de seu peito, já lhe deixaram sem chão, sem voz, sem alma até, por um grande período, aquele período em que os atos que lhe decepcionavam costumavam  atolar a sua alma de tal maneira, que era difícil sair. Era preciso, ou melhor: foi preciso muita coragem, tempo, e uma boa dose de auto estima.
Sim, ela passara tudo isto e saíra daquela morbidez que se impusera, embora coativamente, pois nunca desejou isto.  Fizeram tudo para que ela assim ficasse, uma imposição mesmo. Ela, desnorteada até, deixou que as coisas, os acontecimentos, a dor entrasse em   si. Demorou muito tempo, chorou, sofreu, enfim, mas conseguiu sair daquele desespero, no entanto ficou, como sempre, marcada e as marcas deixam mesmo feridas cicatrizadas, quase incuráveis, que podem, com um só gesto, uma só palavra, serem reabertas e, de novo, não com a intensidade de antes, pois o tempo faz isto, diminui a intensidade de tudo, seja do amor, seja do ódio, mas não apaga nada por completo.
Por que será que as pessoas não entendem a dor do outro?  Não sou adepta da “a dor é minha e não é de mais ninguém”. Sim, sei perfeitamente que a dor é nossa, pessoal, ninguém sofre a nossa dor e nem a sente, mas ela precisa ser respeitada. Você pode não compartilhar a dor, mas quem estar por perto de você, precisa entender a sua dor e evitar que ela se renove.
Quão mórbido é o prazer de alguém que renova a dor do alheio. Será que nunca sentiu nenhuma dor? Não falo aqui, por óbvio da dor física, embora ela possa ser consequência de uma dor interior mesmo, que fragiliza tanto o eu,  que o  corpo pode reagir a isto; falo da dor  da alma, esta que machuca tanto, tanto  que faz você esquecer de si próprio, porque ela é que passa a ser você, entra em todos os seus poros, circula em toda a sua  teia sanguínea, lhe consome por dentro.
Já passou diversas situações assim, de ficar tão debilitada interiormente que não tinha qualquer reação durante algum tempo.  Não sabe se ama tanto algumas pessoas que,  quando a decepção vem delas,  é maior do que pode assimilar! O fato é que por elas e por causa delas, tem tentado mudar, mas é difícil: quando pensa que esta curada de tudo, vem uma palavrinha, uma lembrança e tudo perdido: e o peito retoma uma frequência anterior.

 É difícil, mas não é impossível. Não se deixem pegar por qualquer dor, não sofram, não chorem. Afastem da sua vida aquilo que lhes causa qualquer dor, até mesmo um pequeno desconforto, porque ele evoluiu e pode lhe causar grandes sofrimentos, que podem ser evitados apenas com uma decisão:  “Não quero

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A casa da Torre

Saí de Arembepe e fui até praia do Forte, com o objetivo de visitar o Castelo Garcia D´Avila – Castelo da Torre. Já fiz isto outras vezes, no entanto, hoje estou indo com os meus olhos de ver, porque li muito sobre o clã, embora com leituras que trazem, apenas as glorias e conquistas desta família.
O fundador da casa da Torre chegou ao Brasil juntamente com Tomé de Sousa, o primeiro governador geral. Certamente não era um qualquer, tinha a sua origem, se não fidalga, bem próximo de quem a tinha, no caso o governador geral, que vinha com todos os poderes para nomeações para exercícios de cargos, doações de terras, afinal era o representante do rei nessas longínquas terras brasilienses.

Chego ao castelo que está em ruínas, dizem que o estão recuperando, mas a única coisa que vejo recuperada é a pequena igreja.  Sinto-me estranha ao adentrar às ruínas, parece-me que ouço pedidos de ajuda, gemidos, gritos, vozes alteradas. Ouço vozes de crianças, mulheres, homens que pedem clemência.
Me assusto, parece-me que estou num túnel o tempo, estou em um período distante do atual,  os calafrios  me deixam gelada, os pelos estão eriçados, vejo,  perplexa, um homem caminhando em minha direção.
Fixo meu olhar na figura que cada vez mais se aproxima, percebo que não é uma pessoa do nosso tempo, suas vestes, a barba, as armas, enfim, ninguém que estava por perto quando adentrei ao local estava assim trajado, e não poderia ser diferente, ninguém mais se vestia daquela maneira, parecia uma pessoa saída dos meus livros de história.
Olho para as pessoas que estão por perto, elas não parecem assustadas, continuam percorrendo as ruinas da casa da Torre como se nada estivesse acontecendo de diferente. A figura vem se chegando mais e mais, para diante de mim: quase tenho um ataque do coração quando com um português bem diferente e com as mãos para trás ouço: Que fazes aqui? Quem és?  Como adentrastes a esta casa? Susto após susto, congelada, não tenho como responder, até tento, mas a voz não sai e vejo as mãos do homem em minha direção, tento correr e não saio do lugar, tento gritar, mas nada, não sai som algum, as pessoas passam por detrás de mim, por trás do homem, e parecem não ver nada, vou dando de ré, até me encostar na parede de pedra, que ferve, pois o castelo em ruínas não tem teto e o sol  esquenta as pedras que chegam mesmo a queimar minhas costas. O homem continua a vim em minha direção.  Lembro-me então: É o Senhor Garcia D`Ávila, o homem mais rico da Bahia?  O Sr. Da casa da Torre?
“ Me conheces?”
Tomo as rédeas; parece que tenho uma iluminação divina e digo: Quem nesta terra Brasil não vos conhece senhor?  O Senhor dos sertões nordestinos, o criador de gado que alcançou terras longínquas, do curral de Itapoã às terras  dos quatro cantos do Brasil? O homem que criou um feudo por estas terras brazilis.
“Onde vives? Que fazes aqui? És muito diferente  das  mulheres e outras pessoas  que tem acesso à minha propriedade? És acaso filha de algum dos escravos? Não pareces, tens a pele clara, vestes-te de uma maneira muito diferente.
Senhor D´Avila: se eu explicasse o senhor não entenderia, mas conheço a si e a vossa família, posso contar a sua história e se tiver erros o senhor pode corrigir, tenhas a certeza que muito me ajudará.
O Sr. veio de Portugal em companhia de Tomé de Souza,  aliás, dizem as más línguas que o Sr é filho bastardo dele. É verdade?
Eu, filho Bastardo? Quem inventou uma história desta? Rapariga, queres a morte? Estas a brincar com fogo.
Não, longe de mim, mas o Sr sabe como são as futricas, pois o vulgo diz que o Sr é filho bastardo dele, e por isso mesmo é que veio junto com ele para estas terras, e que nunca se posicionou como filho porque, se assim fizesse, não poderia receber doações, sesmarias ou exercer cargos públicos, por ser isto proibido por lei. Os governadores não podiam colocar parentes em cargos e nem fazer doações de terras.
É isto mesmo a língua do povo é assim, apenas somos da mesma região do reino, uma terrinha perto de Póvoa do Varzim, chamada São Pedro de Rates, no norte de Portugal.
-Bom se o senhor está dizendo, devo acreditar, quem sou eu para duvidar das palavras do Senhor da Torre? Sim, mas como foi que o sr. Conseguiu vim para o Brasil com Tomé de Souza? E como conseguiu ficar tão rico e ter tantas terras?
-É facto: vim com Tomé de Souza como criado do governador[1], e aqui fui por ele nomeado, logo na chegada, como Feitor da cidade e Almoxarife da Alfândega.[2] Depois, com a chegada do gado vacum à Salvador, passei a cuidar do gado em 1551. Recebi de Tomé de Souza, da sesmaria que lhe cabia, 14 léguas de terra, que ia de Itapoa até o Rio Real. Conheces  estas terras?
Sim, conheço, aliás moro bem perto delas
-Como? Com autorização de quem moras nas minhas terras?
Começo outra vez a ficar com medo do homem, ficou possesso com esta resposta.
-Calma Sr. D´Avila, posso explicar. Mas como eu ia explicar isto, o homem estava enfurecido.
Tive um insight e perguntei sobre a sua mulher, onde ela estava neste momento>  Senhor, onde está a senhora Francisca Rodrigues? E como está a sua filha Isabel D´Avila?
O homem recua. - Como sabes os nomes da minha mulher e da minha filha.
- Ah Senhor, sei muita coisa a vosso respeito, não só de si, como de toda a vossa família.
-Famíia, que família, sou só eu aqui, só tenho a a minha mulher e filha, a que família te referes?
-A toda a sua descendência, seus netos, bisnetos, genros, enfim, conheço tudo.
-Se sabes de tudo isto, és uma bruxa, vou te mandar para a fogueira.
-Por favor Sr. Garcia, deixe-me falar, o senhor vai gostar do que vai ouvir.
O homem se acalma, olha para mim num misto de curiosidade e incerteza, e pede para acompanha-lo, convidando-me a entrar na  casa.
Sigo-o quieta, doida para que ele vá embora, para que desapareça, mas ele vai falando e me mostrando a casa. Eu não vejo nada do que ele me apresenta, mas sinto que ele tem um imenso orgulho de dizer como fez isto e aquilo, por que fez a capela? Como construiu aquilo ali, por que escolheu aquele lugar?
Ele tem toda razão, onde planejou a construção da casa forte, o fez estrategicamente, de onde ele estava podia avistar qualquer embarcação que se aproximasse, que navegasse seja em direção, a Salvador, seja em direção ao norte, mais ainda, o gado podia pastar a vontade, terras não faltavam, índios a aprisionar também não, o porto lá embaixo era seguro. Realmente o Sr D´Avila era um estrategista de primeira, um comerciante maior ainda, tudo contribuía para o seu sucesso.
A mulher com quem o Garcia D ávila teve uma filha era uma índia, a quem ele tirou da casa paterna para com ele conviver, dando-lhe o nome cristão de Francisca Rodrigues, ou seja, a sua filha Isabel era uma “mameluca”, filha de português com índio.
Bom, estava quase chegando a hora de ir embora, a tarde já ia finda, mas o homem parecia não querer se ausentar da casa, falava e falava, reclamava com um, ajeitava uma outra coisa, gritava a mulher, enfim, mostrava todo o seu poder.
Eu precisava sair, tentava me despedir, mas ele nada, agora estava interessado no que eu falava sobre a sua família, sobre as suas posses, enfim, estava entusiasmado ouvindo alguém falar das suas glorias e do seu poder, todavia eu tinha de ir embora, e foi exatamente o que aconteceu, porque os funcionários da fundação me pediram para retirar-me, não antes de eu prometer ao Sr. Garcia D Ávila que voltaria um outro dia para falar mais sobre ele e sua descendência.
Bem, como o deixei  interessado,  com a pulga trás da orelha e morrendo de curiosidade, deixo também vocês, esta história é longa, envolve muitos nomes e fatos históricos, é uma história viva, que passarei a contar por etapas. Aguardem..



[1] De acordo com os jesuítas, segundo Pedro Calmon, (1983: 23) “Criado de Tomé de Sousa, escreveram os jesuítas, ou seja pessoa de sua criação, que é ser como de sua família”
[2] CALMON, Pedro. História da Casa da Torre – Uma Dinastia de Pioneiros, 3ª, ed. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983, pg23.