quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um pé cá, outro lá

Caminhando, como sempre, sozinha, pelas ruas de Istambul extasiava-se com cada detalhe, com cada descoberta, com a história vista, em alguns momentos, apenas nos livros. Uma mulher de burca, daquelas que de tão radicais tinha tela na parte dos olhos, passa por si. Outras deixavam aparecer, exclusivamente, os olhos. Uma delas, particularmente, lhe chamou atenção: é que essa usava óculos, cujas hastes desapareciam por dentro do pano que emoldurava um rosto sem expressão, porque escondido atrás daquele pano preto.
Pensava como isto ainda podia ser possível, mulheres cobertas de pé a cabeça, todas de preto, num escaldante sol de agosto. Concomitantemente ao questionamento, ela lembrava que aquela era a demonstração mais pura da cultura de um povo, e que ela não tinha que questionar nada disto. Eles viviam assim, aceitavam-se assim, acreditavam naquilo; não só acreditavam, mas respeitavam. Para eles ali estava a sua crença, a sua fé, a sua política inclusive, tudo na normalidade. Os ocidentais, como ela, é que procuravam, com mil e uma justificativas injustificáveis, questionar os costumes, desrespeitar tradições, interferir na vida e na religião de povos que, à sua maneira, eram e são felizes.
Uma burca alta vem em sua direção. O pano preto tem um balanço diferente. Ela que pensava que todas as burcas eram iguais, notava agora que não era bem assim. E, mais e mais, o pano preto  vinha em sua direção. A altura de quem o transportava chamava atenção e, talvez por isso mesmo, ela tenha notado os detalhes: O pano da burca parecia de seda, lógico que outra seda diferente da que estava habituada a ver.  Nas laterais do pano notou uma fina linha que lhe pareceu ser, em princípio, dourada, mas não era, era uma tira de um pano preto mais brilhante, que fazia a divisão entre a frente e a parte detrás da burca. Acompanhava atentamente o movimento do pano, para tentar descobrir, ali, algum traço de feminilidade, algum detalhe que pudesse dar uma noção do que estava ali por baixo daquele pano preto. Não conseguiu, mas, como efetivamente procurava detalhes deu de cara com um que lhe chamou mesmo a atenção: os pés!  Os pés da jovem que estava por baixo daquele pano estavam pintados.  Todo ele, desde o calcanhar à ponta dos dedos.  Aqueles pés pintados lhe fizeram lembrar que, em alguma novela, que tratava da cultura indiana, a mulher devia ser recém-casada, porque para os orientais a pintura dos pés da noiva era forte traço cultural. Não só os pés estavam pintados, também as mãos mostravam os desenhos feitos com hena, trabalhos minuciosos de quem sabe o que e para quem estava fazendo, tudo parecia, na verdade, uma luva com bordados cuidadosos.
Descobriu quão era ignorante em relação à cultura dos turcos, a não ser aquilo que era passado na televisão, nos noticiários que sempre associavam a religião islâmica ao terror, à destruição, à fome, à morte.  Entretanto, ela sabia que não era assim, e que não tinha ido à Istambul apenas porque, depois da novela das oito, a cidade virou febre para brasileiros.  Não, para ela não era isto, para ela Istambul era a própria história: Constantinopla, Império Otomano, Mesquitas, o Patriarcado de Constantinopla, Anatólia, Ásia Menor. Não, efetivamente não era assim. O Mar Negro, o Estreito de Bósforo, a ligação entre dois continentes, O mar de Mármara dividindo as duas partes de Istambul – a europeia da asiática. Istambul era mesmo muito mais que apenas uma novela da rede Globo.
Sim, aqueles pés pintados de rena lhe trouxeram a Istambul dos grandes momentos históricos, da importância do Império Otomano, do grande eixo civilizador que ali se estabeleceu e que, ainda hoje, como o será sempre, fará ligação de culturas. A cidade é completamente cosmopolita, se encontra de tudo e todos em Istambul. Russos, Ucranianos, Croatas, árabes de todas as partes: europeus, asiático, africanos.
Navios, montes deles, parados no Mar de Mármara: um cemitério de
navios.Numa reportagem televisiva soube que os armadores abandonam ali os navios que já não mais navegam, seja pela velhice, seja pelas dívidas, enfim: motivos diversos geram o abandono. É uma pena, porque aqueles pontos negros, maioria deles, na água maculam a beleza do Mar de Mármara, do Bósforo, do intenso azul das águas.
Constantinopla: fica remoendo a história, procurando lembrar-se do que esta cidade representou no passado, lembra-se das aulas de história e da professora a falar da importância da Anatólia. Em sua cabeça vem Bizâncio, como já foi chamada, a hoje Istambul. Toma um susto ao recordar que ali foi sede do Império Romano do Oriente, portanto, um berço da cristandade, hoje um mundo muçulmano, que se mostra em qualquer direção que tome, mas ainda há o cristianismo, apesar dos ritos diversos, vez que a Igreja é ortodoxa, o rito é bizantino. A Basílica de Santa Sofia (Aya Sofyia) foi construída por Justiniano entre os anos 527 e 565 e permanece lá ate hoje, para quem quiser ver, como aconteceu consigo, que, após enfrentar quilômetros de fila quase intermináveis ela se deu conta da grandeza que foi e que é, ainda hoje, tudo aquilo. Hoje a Igreja é uma mesquita, continua, pois, um local religioso, mas a diferença do credo que ali se processa é que, efetivamente, marca esta grande e imensa diversidade. O nome Alexandre lhe vem, e ela, ainda que faça esforço, não lembra o motivo, de repente recorda: foi Alexandre – O Grande que tomou a região da Anatólia do domínio dos persas.
As Mesquitas de sucedem, cada um queria mostrar mais poder que
outro, elas demonstram o poder, a pujança a riqueza da época. Os grandes tapetes que cobrem todo o chão, onde as pessoas andam descalças, exalam um cheiro forte, acre, que invade as suas narinas. É o chulé coletivo, pois todos pisam naquele tapete que já vive, naturalmente, úmido e conserva a sua umidade com o suor dos pés de tantos que pisam ali, resultado, demonstra, com um pouco de crueldade até, o seu agradecimento, evaporando os odores dos que lhe pisam.
Entretanto, o que mais lhe impressiona mesmo são as águas do Bósforo
e a travessia nos barcos que fazem a ligação entre os diversos bairros e, mais ainda, com o outro continente. Em, em questão de dez minutos ou menos, se sai da Europa e se entra na Ásia. Aquele que souber, exatamente, onde o Bósforo divide os dois continentes, pode colocar um pé de um lado, e o outro do outro, e pode se dar ao luxo de dizer que pisou, ao mesmo tempo, em dois continentes. Isto lhe dá uma sensação de poder, de grandeza, imenso.
A região de Sultanahamet, corruptela de “sultão Ahmed”, que conquistou Constantinopla para os turcos, é onde ela ficou hospedada, ali estão grandes monumentos, grandes belezas arquitetônicas, enfim está um pouco do coração de Istambul.
 A Mesquita Azul ( Sultanahamet Camil) está bem ali, logo em frente a “Aya Sofya";  do outro lado da praça, está a Grande Cisterna, descendo mais um pouco se alcança  o Grande Bazar.  Se dobrar a esquina da  Aya Sofia  alcança o palácio Topkapi, enfim, o bairro transpira cultura, saber, conhecimento, história.
Todavia existe muito e muito mais para se vir, apreciar, comer, viver Istambul, e tudo vai ser dividido em partes, paulatinamente contado, comentado, a fim de que ninguém se canse, e todos curtam, um pouco, desta maravilha da natureza, da história, da vida, que é Istambul, o Bósforo, o Mar de Mármara.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Currais aeroportuários

Sinto-me uma vaca, talvez uma judia na fila para as câmaras de gás. Sinto-me apeada, há uma longa fila,
Alfama - Lisboa
muita confusão, pessoas aborrecidas, olhos apavorados. Há só uma fila para todos os voos da TAP. A confusão reina, todos estão apreensivos, agoniados, insatisfeitos. O que levou a TAP a resolver por este tipo de “check in”, onde todos ficam em uma única fila, não interessando a que continente se destine? Africanos, indianos, russos, polacos, holandeses, brasileiros. Voos para Varsóvia, Maputo, Luanda, Luxemburgo, Holanda, Brasil (Rio, São Paulo, Brasília, Salvador): as chamadas são para os mais diversos lugares.
 Estou irritada e confusa, não ouço direito. Pessoas reclamam das duas longas filas. Alguns ficaram quase uma hora na fila errada, pois em toda esta confusão há duas filas, muito mal delineadas: uma para quem vai só entregar a bagagem e outra para o check in completo.  As Cias áreas, como todas as demais empresas, visando apenas lucros, querem, ou melhor, estão tentando, substituir gente por máquinas, mas, neste particular, é impossível, porque de nada adianta você fazer o “check in” eletrônico. Se se tem bagagem de porão: o tiro sai pela culatra. As reclamações são inúmeras, mas não surtem efeitos, entretanto, o pior, o pior mesmo, é o curral: aquele caminho entre duas fitas em que seguimos, um atrás do outro,  e que me dá uma péssima sensação, quanto pior quando os funcionários da companhia aérea resolvem passar pelas filas gritando: passageiros do voo tal; rápido à frente: parecem os guardas nazistas que comandavam as filas dos pobres judeus para a morte.
Mesquita em Istambul
Essa minha última viagem realmente conseguiu me tirar do sério nos aeroportos. Em Istambul, depois de passar umas duas horas na fila, feito vaca de presépio seguindo os demais passageiros, que como eu, tinham de submeter àquele martírio, ao chegar ao guiché, sou informada que tenho de ter um visto e que ele é pago. Sabe o que aconteceu? Tive de voltar tudo, entrar na fila para pagar o tal do visto, que me custou 15 euros e, depois, entrar na fila outra vez seguindo aquela multidão de pessoas diferentes, que apenas queriam conhecer Istambul. Confesso que, mesmo com todo o desejo de conhecer Bizâncio, tive vontade de voltar. Não sei se o problema não seria maior, porque, pelo visto, teria de comprar uma nova passagem, porque fazer uma troca naquelas circunstâncias seria quase impossível.
Bom o fato é que em todas as filas eu só me lembrava dos judeus sendo encaminhados para as câmaras de gás. O pior de tudo é que, como sempre, os próprios funcionários, sejam da companhia área, sejam do governo, agem como se fossem as maiores autoridades do mundo, tratam mal as pessoas, são ignorantes, parecem estar a fazer um grande favor àquela multidão que, indignada, embora sem muita coisa a fazer, se submete.
Na TAP o problema ainda fica pior com os brasileiros, vi algumas coisas que me deixaram boquiaberta.  Bem que havia patrícios deles revoltados, que grosseiros como os demais, disseram muitas liberdades aos funcionários da empresa, o que de nada adiantou, as explicações eram ridículas. Ao menos, neste particular, vi tratamento igual, embora para eles a revolta tenha sido bem maior: então ser iguais aos subdesenvolvidos? Que coisa mais absurda!!!
Cheguei ao aeroporto antes das 07h30min, e olhe que o meu voo era às 10h50min, acho eu, se não 10h50min era 10h40min, por ai.  Entrei na fila e só sai dela às 09h00min. Depois tive que enfrentar outra fila, a daquela maldita fiscalização de bagagem de mão. É incrível como os terceirizados das empresas de segurança assimilam a falta de educação. Se bem que isto não é privilégio, apenas dos funcionários dos aeroportos portugueses, quando digo portugueses, é porque também na Madeira vi algumas cenas para lá de desagradáveis.
Funchal- Ilha da Madeira
A gente tem de tirar cinto, sapato de salto, botas, agora invocaram com o relógio. Quando fui para a Madeira, mandaram tirar o relógio, eu não consigo tirar o meu com a pressa que eles querem e digo que não vou tirar. Alguém me diz que vai apitar quando passar pelo detector de metais, por incrível que pareça, não apita. Volto para trás e dou risada.  Antes disto tomei uma bronca de uma “filha da puta”, porque trazia os meus “gosméticos” em um saco que está fechado com um zíper.  Não entendi o que a mulher fez, pois grosseiramente e falando uma porção de coisas em tom muito grosseiro, tirou todos de dentro deste saco, que já acompanha a mala, e colocou em um saco plástico que é vedado com um fecho muito mais fácil de abrir. Fico puta dentro das calças a olhar para aquela imbecil. Somos tratados, todos, não só eu, como marginais, aquilo não pode ser considerado de outra maneira, parecem nos dizer “Vocês são marginais, somente depois de passarem por aqui é que, talvez, passem a cidadãos, antes, são todos suspeitos.” Realmente não gosto do tratamento. A palavra, por favor, não existe no vocabulário das “grandes autoridades aeroportuárias”, é isto que eles pensam que são, autoridades. Garanto que não sabem nem mesmo escrever o nome direito. Tudo fica pior quando as pessoas não sabem falar a língua deles, aí é que a coisa pega mesmo.  Em alguns lugares faço tudo como um autômato, pois não entendo porra nenhuma que eles falam, a exemplo da Turquia, em que você para entrar no aeroporto, ou melhor, para adentrar ao local onde ficam os guichês e os portões de embarque, já passa a bagagem de porão por uma esteira, resultado: filas intermináveis. Agora entendo a razão do funcionário do hotel dizer-me que teria de sair do hotel umas quatro horas antes do voo. Além da fila da bagagem ainda tive de enfrentar a fila do “check in” e a da emigração, quando tudo isto acabou era mesmo a hora de embarcar, sem direito a mais nada.
Corfu - Grécia
Gosto efetivamente de viajar, mas sinceramente, estas coisas estão me deixando cansada. Lembro que a primeira vez que vi este curral foi quando estive nos Estados Unidos e olhe que lá se vão uns bons vinte e tantos anos. Já me senti humilhada, mas agora as coisas pioraram muito.
Voltando á “bicha de Lisboa” é assim que eles chamam fila por lá: um senhor alto, muito alto, se desequilibrou, foi se apoiar naquela fita verde, ou preta, sei lá, e cai, cai para trás com todo o seu peso e bate cabeça no chão, fico aflita, quero ajudar, felizmente outros mais fortes de que conseguem levantá-lo. Ele diz que está tudo ok.  Não acredito que quem toma aquela porrada na cabeça, fique bem, mas ele tá dizendo. À minha frente, um casalzinho vai para Maputo, olho os sacos que estão no carrinho, cheio de sucos, água, comida. Dou risada, marinheiros de primeira viagem que são, certamente, não sabem que lhes vão tomar tudo quando passarem pelos fiscalizadores da bagagem alheia.
Um outro casal com quatro filhos vão para Luanda.  Os meninos estão impecáveis, arrumados, mas a senhora é mesmo uma Angolana, as vestes demonstram, tudo muito colorido e espalhafatoso, e ele gosta de falar alto, fala ao “celular” (telemóvel para eles) contando a miséria que está a “bicha”. Todos olham para ela, porque todos participam da sua conversa com alguém que não se sabe quem é. Tive vontade, em algum momento, de responder às suas perguntas.
Igreja  em Melides - Alentejo - Pt
Tento pensar em outra coisa, divagar, sair dali um pouco, a “bicha” não anda. Olho para a pessoa que está na fila paralela à minha, mas na direção oposta, nossos olhares se cruzam; o cabelo baixinho, sobrancelhas grossas, camisa listrada, calça jeans com fundo baixo, têm um relógio enorme no braço.  Fico olhando de soslaio porque acho estranha a figura.  Ar feminino para ser macho e ar masculino para ser fêmea. Decido-me: é uma mulher que tenta mostrar a sua opção sexual. Tenho que desviar de todo o meu olhar, ela já notou que estou examinando-a. Penso: o que faz uma mulher querer esta transformação, querer ter esta aparência masculina? Sempre achei que, se fizesse uma opção por ser homossexual,  ia querer estar com uma senhora mulher, a que fosse mais feminina possível, e não com um arremedo de homem.
A voz de um funcionário me afasta destes pensamentos. Há uma ultima chamada para um voo, penso que para Amsterdão. (é assim que eles falam). As chamadas se repetem, vejo um grupo de velhos, mais de 50 pessoas, passarem à minha frente na “bicha”. Fico puta dentro das calças, mas o que vou fazer. A culpa é da TAP, não deles. A fila diminui um pouco, mas anda muito devagar. Finalmente chego ao “check in”, Vou colocar a mala na esteira  e a funcionária diz: não coloque agora. Não percebo, mas  não coloco a mala, sou obediente, aliás, tenho de ser. Com isto entendo perfeitamente a demora: demoram de tirar as malas das saídas que ficam nos diversos guichê, resultado: só se pode colocar a mala do passageiro seguinte quando a do anterior desaparecer na janelinha. Acreditem, é verdade: o processo durou quase 10 minutos, e eu ali com cara de tacho, botava a mala e a funcionária pedia para tirar, tirava, colocava de novo; a esteira, entretanto, não corria, para que as malas do passageiro anterior  saíssem pela janelinha. Tenho que dizer que uma das minhas malas tinha 30kg e a outra 27Kg e eu ali tirando e botando as miseráveis na esteira.
Entregue a bagagem, suada, furiosa, pois queria entrar cedo na área de embarque, vez que ia procurar o perfume que meu filho encomendou, vou para a “bicha” do exame das bagagens:  coloquei a bolsa, a mala de mão, já tinha, previamente, tirado o relógio, o casaco, o computador de dentro da mala. Passo sem maiores problemas e aí é que fico sacaneada, porque o saquinho em que trago os “gosméticos” é o mesmo usado que usei na viagem para a Madeira.
Passo ali; visto o casaco, coloco o computador outra vez na bolsa, nem coloco mais o relógio, o deixo no mesmo lugar. Só penso em colocá-lo quando chegar ao Brasil. O meu portão de embarque é o 42-B, mas antes de chegar nele, mas uma bicha: agora é a do controle de passaporte, que foi até rápida, não porque estivesse pequena, é que passei na de “cidadão europeu”, porque as destinadas a todas as outras nacionalidades estavam enormes.
Veneza
Depois de andar muito, chego ao portão de embarque. Sento-me afastada para aguardar a chamada e, infelizmente, lembro-me do que me aconteceu em Veneza, pois não é que, na hora do embarque, alguém me diz que a  minha viagem estava marcada para um mês depois, que a TAP errou ao marcar a volta e que eu, idiotamente, não percebi tal erro.  Resultado: uma bicha pequena, mas demorada, para comprar outro bilhete e embarcar  para Lisboa. A demora na fila resultou de problemas com o embarque de um cão. Acreditem se quiserem, um cão atrasou alguns passageiros e a sua dona estava indócil.
Ufa, digo eu, parece que agora o martírio acabou. Vejo a chamada na tabuleta e escuto a voz da funcionaria chamando para o embarque, mais uma bicha e eu tô livre, penso eu: Ledo engano. Acredite em Deus, tivemos de pegar o avião no pátio, e aí a merda: mais uma bicha para entrar no ônibus que nos levaria até a aeronave. Fui a última do primeiro ônibus. Fiquei bem à porta. Na minha frente, sentado, um homem bonito, olhos claros, cabelos brancos, um terno preto impecável, mas com um aviso discreto: sou padre, foi o que deduzi ao ver o crucifixo na lapela do paletó.  Desligo-me do padre, mas, quando o ônibus arranca quase caio e o padre ri e diz para me segurar. Olho para ele e penso: “sacana, então eu vou caindo e este puto da risada!” Bom, esqueço o assunto e dou a volta olímpica para chegar até a aeronave. Quando penso que tudo vai acabar, fico esperando, dentro do ônibus fechado, com todas aquelas pessoas respirando o mesmo ar, que liberem o avião.  O padre já se levantou e está junto de mim: pela ordem natural seria eu, ao menos naquela porta, a sair por primeiro, no que eu já tava muito feliz, porque a minha poltrona era a última, acredite se quiser, a última mesmo, 42G. Se eu saísse depois de todos, imagine só o tempo que levaria até chegar ao lugar certo, mas o padre estava agoniado, e penso que ele queria mesmo sair primeiro. Ele falou muito mal da TAP, concordei com  as suas argumentações. Os passageiros estavam indignados ali dentro, encolhidos, roubando o ar uns dos outros.  O padre cada vez mais falava e mostrava-se aborrecido, tanto que eu, muito cinicamente, lhe disse: “Padre, isto é para que nós cultivemos, ainda mais, a virtude da paciência”. Ele sorriu, todavia, quando a porta se abriu, efetivamente, ele foi o primeiro a sair. Graças a Deus a porta do meio foi aberta e por ali embarquei e, felizmente, além de passar sozinha pelo corredor, ainda tive o prazer de ser cumprimentada por um “hospedeiro” bonito, com um belho olhar, que me acompanhou até o meu lugar, mas este é outro assunto, que fica para uma próxima oportunidade. Quem vai viajar  nos próximos dias, prepare-se com uma boa dose de paciência. Vai precisar mesmo.