quinta-feira, 1 de julho de 2010

EISBEIN MIT SAUERKRAUT


Em dezembro de 2008 foi a Berlim, Alemanha. Estava eufórica, afinal, depois de mais de 25 anos ia comer, outra vez, um autêntico e saboroso EISBEIN. Não sabem o que é isso? Digo-vos: É uma típica comida alemã feita com joelho de porco cozido acompanhado com o legitimo chucrute, aqueles repolho cortado bem fininho e bem avinagrado, delicioso e com um condimento chamado “zimbro”.
No avião já ia imaginando como seria aquele encontro com o prato que comeu pela primeira vez em um restaurante típico alemão, mas no Brasil, em uma estrada que liga Santa Catarina ao Rio Grande do Sul. Achou uma maravilha, mas nunca mais encontrou tal prato em lugar nenhum por onde passou, também, morando na Bahia, se encontrasse qualquer coisa parecida, certamente, estaria temperado com azeite de dendê, àquela época.
Pensava que, se em Santa Catarina achou uma maravilha, imagine o que seria mesmo esta comida no seu local originário!
Chegou a Berlim, embora sabendo que teria, obrigatoriamente, de pagar as suas contas, ficou surpresa que alguém lhe fosse buscar no aeroporto e tivesse de ela pagar o táxi. A surpresa era pelo fato de que, apesar de acompanhado de alguém que ela conhecia muito, era um homem alemão que estava ali, embora de nome estranho e que mais parecia um advérbio de lugar, esperava que, ao menos por educação, senão um mínimo cavalheirismo, ele pagasse a conta do taxi.
Logo que chegou, ainda no caminho, falou com a amiga que queria comer um EISBEIN e salsichas brancas com mostarda, nada que não fosse tipicamente alemão. Viu que a amiga disse ao cidadão o seu desejo.
Deixou as coisas no hotel que lhe foi reservado, que ficava numa praça com árvores cobertas de neve. Pelo hotel, pelo quarto com banheiro do lado de fora, até pela própria diária, já notou que estava tratando com uma pessoa dali, embora com o advérbio sugestionando outro lugar mais próximo, que parecia ser um pouco seguro em relação a dinheiro.
Bagagens acomodadas, chave do quarto na mão: irritação pelo fato de saber que para fazer xixi à noite, o que já é um hábito, que assim se tornou em razão da idade, teria de sair do quarto, atravessar o corredor, para alcançar a casa de banho, correndo o risco, inclusive, de congelar o líquido. Não fosse o próprio inconveniente em si da travessia quase atlântica, todo um protocolo para a passagem de um lado para outro: olhar se tinha alguém, vestir a roupa toda, e o pior de tudo, enfrentar o frio, sim porque o quarto ficava quentinho, mas, nem o corredor e nem a casa de banho acompanhavam a mesma temperatura. Nesse momento ela ainda não sabia da dificuldade maior que seria o banho. Pense em alguém tomar banho e ter de vestir toda a roupa dentro do banheiro, porque não poderia atravessar o corredor de toalhas, ou de robe, ou de qualquer outra porra, a não ser a roupa toda e com agasalho.
O fato é que assim foi, mas o EISBEIN ainda era um desejo e, também, estar em Berlim com uma grande amiga, superava tudo isto. Seguiram para um restaurante escolhido pelo de lá. Um restaurante bem típico, lindo, cheio de, evidentemente, alemães, taciturnos, tristes, que se incomodavam com as risadas dela e da amiga, já olhadas diferentemente. O de lá estava meio envergonhado, mas se fazia de duro, afinal estava tentando agradar, desagradando, ambas as mulheres, a dele, que ele pensava que era, e a amiga dela. Olhou o cardápio, nada de Eisbein. Tinha de comer e pediu outra coisa, o mais parecido, carne de porco. Muitos chopes, muitas risadas e conta dividida.
Como já chegou tarde, a hora agora, depois do jantar, era a de dormir, e ela seguiu para o hotel. Um frio de lascar, mas com a certeza de que no dia seguinte comeria o EISBEIN.
O dia amanheceu feio e frio. A única surpresa e beleza foi ver mesmo a neve cair. Flocos enormes que, logo logo, cobriram todo o parque, os telhados das casas, o balcão do seu quarto. Telefonaram-lhe dizendo que iam lhe buscar para o café da manhã. O advérbio de lugar apareceu e ela o acompanhou. A neve já virando quase gelo no chão, deixava tudo escorregando. Ela, de botas, tentava se equilibrar, o que era difícil, pois  tremia de frio mesmo com todo o agasalho possível. De botas não conseguia se equilibrar e escorregava no gelo, mas seguiu o cidadão alemão, entusiasmada com a diferença e com o pouco cavalheirismo do de lá, que sequer lhe dera o braço salvador, também, com aquela finura de pessoa, não era mesmo aconselhável a ajuda, pois, certamente, o advérbio de lugar não conseguiria sustentar um adjetivo daquele porte. As ruas brancas cobertas pela neve; os carros parados todos cheios de neve no teto; os parques brancos, enfim, tudo branco e cinzento era uma novidade e suplantava tudo.
Chegou à casa e teve de tirar as botas, embora sabendo que isto era necessário, não gostava da idéia. Tinha receio do chulé, afinal não estava acostumada a andar tanto tempo de meias, botas, umidade. Suas botas não eram adequadas a tanto frio. Sapatos tirados; à mesa. Teve de segurar o riso: à mesa “restos” de chouriços; de salsicha vermelha grossa; de queijo; fatias quase personalizadas de pão; um resto de manteiga, um restozinho de geléia, tudo no final mesmo, acompanhado de um resto de um queijo para lá de fedorento, café e leite, nada de abundância e nada que justificasse a sua presença em um café da manhã, que lhe estava sendo oferecido. Se fosse ao contrário, com a mania de brasileiro, aquela mesa, que somente foi coberta com uma toalha exatamente no local em que os três sentaram, ou seja, só de um lado, estaria quase completamente cheia de comida da maior qualidade: várias espécies de queijos, pães, presunto, sucos, ovos, etc. Etc. Etc. Os de cá realmente são  pobres, entretanto mais fartos e mais educados.
Acabado o lauto “breakfast!; que foi mesmo um break fast; pois, a parada foi mesmo rápida, afinal não havia material suficiente para prolongá-la. Acabado o "breakfast" uma saída de reconhecimento: mais uma surpresa! Não que ela não quisesse ou não estivesse preparada para pagar as suas contas, mas o de lá, antes mesmo de chegar ao ponto do ônibus, mandou que a amiga lhe pedisse o dinheiro correspondente à passagem. Deu o dinheiro, mas continuou achando estranho, afinal, a passagem era menos de dois euros; portanto, por uma simples cortesia, o de lá podia lhe ter oferecido o ticket.
Chega-se a uma estação, toma-se o metro,  desce-se em lugar que não se sabe, anda-se na rua. Nada de jeito, o de lá parecia não ter qualquer intimidade com a cidade. Fica-se até tarde na rua. Com o EISBEIN ainda na cabeça, ela lembra a amiga que quer comer isto. Novamente vê que ela diz ao de lá o que a sua amiga quer. Ele diz que vai levá-las a um restaurante ótimo em um lugar perto de onde estão. Seguem para o restaurante, ela já quase saboreando o joelho de porco.
Primeiro o de lá queria encontrar um restaurante do tempo em que ele era rapaz, achou ela, quando ele ainda fazia alguma farra, só que o restaurante já não existia mais, foi fechado, segundo informações dele próprio, depois de algumas perguntas aos patrícios.
Que jeito! Vamos a outro. Acabaram em uma pizzaria perto do hotel e da casa do de lá. Não fora os “italianos” que estavam no local, tanto os donos do estabelecimento, quanto os garçons e clientes, aquela seria uma noite inglória, mas com muito “chope” e muitos galanteios, dos quais o de lá não gostou nada, ficou muito boa e até divertida, pois era muito engraçado olhar a cara do advérbio de lugar: estava retado, mas cheio de vaidade por estar acompanhado de duas mulheres interessantes. As caras e bocas dos garçons pareciam querer dizer alguma coisa a respeito daquela figura, ao menos que ele não agüentava aquele tranco. Final da noite; conta dividida e nada de comida, seja ela italiana, alemã, francesa, apenas alguns petiscos e mais nada.
Dia seguinte era o último dia do ano. Nada de estranho, se não tivesse ficado em casa durante todo o dia esperando a hora de ir para a casa da mãe do de lá. Diferentemente dos brasileiros, come-se e bebe-se muito antes da meia-noite, deve ser para passar o ano com a barriga cheia. Uma grande virada de ano estava para acontecer: Ela, a amiga, o advérbio, a mãe dele, um substantivo feminino próprio com adjetivos de tamanho enormes, e um senhor que vivia com ela, algum objeto indireto, que, entusiasmado com a presença de tão “jovens brasileiras”, porque ali elas duas eram mesmo jovens, terminou por levantar da cadeira, abandonar a bengala, dançar com elas e, incrível, despertar os ciúmes da companheira. Pensem bem a situação! Meia noite: fogos de artifício, muitos mesmos, tomam os céus e a rua, tudo é olhado pela janela, até que ninguém mais suporta a fumaça, que, junto ao nevoeiro natural, faz com que nada mais se veja e, finalmente, tudo se acaba, sem músicas, sem os tradicionais abraços, sem grandes comemorações. Volta-se para casa com a sensação de que nada se passou, mas, para ela, na realidade, o que passou foi mais um ano sem comer EISBEIN na Alemanha.
Dia seguinte, nada a fazer, ficar em casa do de lá. Que jeito! Fora a Berlim ver a amiga, portanto... O advérbio está extasiado: duas mulheres na sua casa, a dançar, beber, sorrir. Limitou-se a sentar no sofá e olhar a alegria das duas que bebiam, cantavam, sambavam, falavam, enfim.Pagava-se para saber o que ia na  mente daquele advérbio!!!!
Mais para lá de que para cá, já umas 9 horas da noite, ela seguiu para o hotel, desta vez, fez o caminho sozinha, afinal o de lá não era babá de ninguém.
Dois de janeiro lá se vão para o centro de Berlim um programa assaz interessante: fez uma visita à cidade em ônibus turístico. O melhor deste passeio é que o ônibus, salvo engano, não para em lugar nenhum, apenas passa e alguém, em inglês, lhe diz onde você está a passar no momento. Uma beleza! É um passeio longo até. Depois dele, pensa ela, ele vai levá-las ao restaurante para comer o EISBEIN, ou ainda, a um passeio de barco pelo rio, qualquer coisa interessante. Porra nenhum! Depois disso, casa.  Já desiludida, ela diz à amiga que então, já que não podia ser o Eisbein, queria comer um salsicha branca com mostarda, etc. Etc. Não sabe ela o que o de lá entendeu, mas o que comeu foi um cachorro quente em um local porco e sujo, dentro da estação do metro.
Já estava irritada, mas ainda tinha dois dias e tinha a perspectiva de, ao menos, comer chucrute em algum lugar mais tarde. Foram em um restaurante que ele as levou perto da casa. Um asilo de velhos e bêbados sem salsinhas brancas, pelos menos aparentes e que pudessem ser degustadas, sem chucrutes, embora com muita cerveja. Detalhe: contas divididas em todos os momentos.
Felizmente ela tinha comprado no mercado, e deixado no quarto: pão, presunto, queijo, sucos e foi esta a sua salvação.
Dia seguinte: Ainda uma tênue esperança, não era crível que ela iria embora sem comer sequer a salsicha branca com batata ou chucrute e mostarda.
Saíram, andaram pela cidade, e a noite foram a um restaurante. Nada de EISBEIN no cardápio. O advérbio disse logo que não ia comer, estava safo, pois, de pagar qualquer coisa, as duas dividiram um prato que no cardápio dizia “for two” com o preço de 17E€, ou seja: 8.50 para cada uma. O de lá que pediu a porra, nada disse, simplesmente falou com a garçonete e pronto. Mais cerveja, naquilo ele era bom, aliás, os três. O advérbio estava calado, nada dizia, aliás, estava de saco cheio de ouvir as duas falarem o tempo todo e sem ele saber o que era, só muito poucas vezes ambas falavam em inglês, por incompetência absoluta dela, que não falava bem a língua, em que os dois, sua amiga e ele, se comunicavam.
Comeram, beberam e pediram a conta. Surpresa! A conta deu uns 38,00€ e elas não entenderam o motivo desse valor. Pediram para que ele explicasse, o que, obviamente um advérbio não consegue, ele não conseguia nem indicar, imagine explicar. Ele não era uma conjunção, apenas um advérbio, seria pedir demais uma justificativa, uma explicação ligando as orações subordinadas. Quem conseguiu explicar a porra foi a garçonete sacana, que era portuguesa e, portanto, a todo o momento sabia do que estavam falando; e aí vem a lógica do europeu: O prato é para dois, mas cada um paga 17,00. Ela se retou e disse à mulher que, quando se diz que um prato é “for two”, it is “for two” in every where in the world, que aquilo era uma grande sacanagem, pois colocam o preço de 17 e isto termina por confundir as pessoas, confundir não, a intenção é nitidamente de enganar. Ficou puta dentro das calças, não só com a garçonete filha da puta, quanto com o advérbio, que tinha obrigação de dizer como era o sistema, mas coitado! Ele também não devia saber, porque, com certeza, aquele prato, de 17€ por pessoa, nunca fez parte do seu cardápio.
Voltaram para casa, ela, muito chateada, foi para o hotel, dia seguinte teria de retornar e, já agora, tinha a certeza absoluta que não ia comer nem EISBEIN, nem chucrute e nem a salsicha branca com mostarda.
Aeroporto, despedidas e a decepção. Chegou a Lisboa e foi à “Lusitânia”, uma cervejaria portuguesa, olhem o nome, lá servem EISBEIN, comeu pensando estar na Alemanha.
Volta ao Brasil e, pasmem! Há um restaurante, na beira da praia em Stela Maris, que serve EISBEIN, portanto, quando quiserem comer este típico prato alemão, não precisam ir até Berlim, não se acompanhem de alemão, seja ele advérbio, adjetivo, um grande substantivo próprio masculino: simplesmente vá até a Bahia, Salvador, na praia de Stela Maris, e “Guten Appetit”! Ah! Há salsichas de todos os tamanhos e cores, inclusive a branca que é servida com mostarda... Wellkommen!