quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Compensando o desencontro marcado

gaivotas no Tejo
Depois daquela informação, de que era ela a senhora que estava na mesma mesa com ele, parece que ficam petrificados, ambos calados na frente da tela, onde só o branco do silêncio de ambos se fazia presente. Nenhum dos dois conseguia escrever nada, ao que parece aquele desencontro foi mesmo terrível para ambos. Não desconectavam, mas não diziam nada, e esta espera estava sendo angustiante para ela, que, sem qualquer aviso, desligou o computador e foi dormir.
Deitada, quase chorando, se perguntava: Por que isto aconteceu?  Então aquele homem que, da tela fez-se real, de uma maneira que ela quase idealizou, escapuliu assim das suas mãos!
Ela custava a crer que tudo isto tivesse acontecido. E agora, pensava ela. O que vai acontecer? Será que ele não vai mais dizer nada? Por que ficou tão calado?  Será que ele não gostou do que viu?  Será que esperava mais ação da minha parte?  Será que não agradei em nada?  Agora ele já sabia como ela era, portanto, podia dizer algo, comentar alguma coisa. E ele resolvia adotar o silêncio.
Custou mesmo a dormir, mas foi vencida pelo sono e pelo cansaço.
Dia seguinte e nada, chamou por ele diversas vezes, mas ele não apareceu. Dois, três, quatro, cinco seis dias, um mês e nada. Ela não sabia o telefone, o endereço, nada, apenas um apelido, e mais nada. Que bobeira, pensava ela: por que, depois de tanto tempo, eles nem sabiam o próprio nome e nem um telefone? E se tivesse acontecido alguma coisa, como ela ia saber?  Bom, mas não há nada que o tempo não cure, e ela já estava aceitando o fato de que não mais se encontrariam, seja virtual ou realmente, mas aí, um dia, sem qualquer esperança, só ela mesmo que assim pensava, ele apareceu no local de sempre. Ela quase teve um troço, suas pernas tremiam, as mãos trêmulas quase não conseguem responder  ao cumprimento.
Maputo
-Olá, peço desculpas, mas estive fora durante todo o mês, fui fazer um trabalho na África, na Ilha de Moçambique, e fiquei  quase todo o tempo sem acesso à net. Cheguei hoje pela manhã e aguardava ansioso que  aparecesses.
Ela quase desconecta, pois não acreditava naquilo, mas diz Oi e começa a falar como se nada tivesse acontecido, inclusive aquele interregno.
- Olá, então fostes a Moçambique?  Eu já estive lá, mas só fui a Maputo, gostava muito de ter conhecido a Ilha de Moçambique, mas não tive tempo.
- Tu fostes  a Moçambique?
- Sim fui, fui fazer a pesquisa do doutorado.
- Doutorado.
- Sim, doutorado.   Fiz o doutorado em História, na especialidade História da África.
- Não acredito! É mesmo verdade?
- Sim, tão real quanto a tua viagem à Ilha de Moçambique.
- Podíamos ter ido à mesma época, ao menos arriscaríamos a nos encontrar no avião ou até mesmo em Maputo, pois passei uns cinco dias por lá, antes de voltar para Lisboa.
- Fostes à Feira Popular e ao Mercado do Peixe?
Igreja de Sto Antonio-Maputo
-Claro que fui; então eu ia a Maputo e ia deixar de ir nesses sítios. Lá ia eu perder aqueles camarões daquele tamanho.  Claro que não. Fui ao outro lado também e comi uns camarões num restaurante na praia que agora me fugiu   o nome, sei que era de um cidadão que esteve algum tempo em Lisboa, embora fosse indiano de Goa
- É mesmo, eu também fui lá, e sem gostar muito de camarão, comi também.
Apesar dele já ter dado a chance da conversa sobre o desencontro de quase dois meses atrás, ela não se arriscava a falar nada, perguntar nada, e continuava naquela conversa de Maputo, de comida, da cerveja Laurentina, da pobreza da cidade, enfim.
Mas aí o inevitável acontece.- Tu és uma mulher interessantíssima! Fiquei encantado ao saber que aquela mulher com quem partilhei uma mesa, ao menos por dez minutos, eras tu. Não sabes quanto me maldisse naquele dia. Fiquei tão aborrecido com a minha idiotice, pois eu deveria ter perguntado se eras tu, que não tive coragem de conversar contigo naquela noite, quanto pior, quando decidi já estava na hora de pegar o vôo para Moçambique.  Naquele dia eu ia falar-te  sobre tudo isto, da minha viagem, do meu trabalho, do tempo, enfim, ia dizer-te  tudo que estava acontecendo. Marquei naquele dia exatamente por este motivo, pois não queria ir embora sem ver –te, conhecer-te pessoalmente,  saber como eras,  e deu naquilo e eu não conseguia me perdoar. Passei todo o tempo pensando como deixei-te escapar de mim..
-  Ela sorriu, afinal  ambos tiveram o mesmo pensamento e disse: pois é, quando aquele homem pediu para sentar na minha mesa, fiquei torcendo para que fosses tu, acredite, era bem assim que eu te idealizava.  Quis tanto perguntar, mas tu estavas tão sério, tão preocupado, que eu desisti, até porque pensei: se fosse ele, ele diria alguma coisa, daria alguma pista, enfim.
- Ficamos esperando um pelo outro não foi?
- Sim, foi.  Mas depois da tua ausência, de tanto ver a tela branca quando te chamava, achei mesmo que tua decepção tinha sido grande e que tu não querias mesmo mais falar comigo.
-Tás doida ou o que? Então achas que eu desistiria assim tão facilmente. Eu fiquei piurso comigo mesmo e com a viagem, com o avião, com o computador, com tudo que me impediu de dizer -te que eu não ia desistir de nós.
 Ela já estava ficando emocionada, “Não ia desistir de nós”. Isto lhe pareceu uma coisa de querer bem, de vontade de estar com outro, mas ela não disse nada, tinha receio de demonstrar sua emoção, e a sua vontade de dizer: que tal amanhã, ou ainda hoje mesmo? afinal só eram 10h30min da noite, e a noite em Lisboa mal começara, podiam marcar algo e ir dançar, tomar um drink, sabe-se lá mais o que.
- Tenho que entregar o relatório de viagem amanhã pela manha, lá pelas dez, e depois tenho várias reuniões durante todo o dia, caso contrário ia chamar-te para uns copos agora, se  concordasses claro.
Ela já estava explodindo! Queria mesmo ver aquele homem, queria olhar mais para ele, ver direito a cor dos seus olhos, as suas mãos, a sua boca, ela tinha ficado muito impressionada, e tinha aquela droga daquele relatório. Fazer o que? Guardar a ansiedade e foi o que fez e já estava quase dando boa noite e tchau quando ele:
Ei,  ainda estás ai?
-Claro que estou.
- Amanhã, lá pelas sete, estás livre? Podemos nos ver?
- Claro que sim, não perderia isto por nada.
Rua de Lisboa
-Então fica marcado, amanhã as sete e um quarto, lá mesmo naquele bar no Caes do Sodré.
- Tens certeza que queres lá mesmo? Aquilo já não nos deu muita sorte uma vez.
-Sim lá, porque quero apagar este mês que passou, vamos fazer de conta que nada aconteceu e que, este vai ser o nosso primeiro encontro marcado.
- Ok, estarei lá, até amanhã. 

Foi deitar-se, não antes de pensar na sua imbecilidade. Por que não pedi um telefone? Por que não perguntei seu nome real? E se acontecer algo amanhã, como farei, vou ter que esperar as 10:30 da noite. Bom mais amanhã será outro dia, ou  melhor  O DIA