quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

DESENCONTRO MARCADO II

Acordara cedo, mas o frio intenso fez com que ela permanecesse na cama, leu mais umas páginas de Saramago em O Memorial do Convento, entretanto não queria sair de casa tão tarde, tinha um compromisso e, antes dele, teria que ir à Faculdade pegar os quatro exemplares da dissertação e tese para levar ao Arquivo Histórico do Ultramar e à Sociedade de Geografia, o problema é que o Arquivo Histórico só abre uma hora da tarde e ela queria entregar os exemplares exatamente neste horário, porque pretendia estar na Merendinha do Arco às 13h30min, afinal o encontro estava marcado e não seria ela a falhar.
Tomou coragem e as dez estava completamente pronta, decidiu que iria pegar um taxi, assim adiantaria mais as coisas. Chegou à faculdade e, felizmente, os exemplares estavam prontos.  Colocou tudo em uma sacola e dirigiu-se ao metro, preferindo ir até o Campo Grande e lá pegar a linha verde. Olhou o relógio: sim, chegaria a tempo na Sociedade de Geografia e depois, logo ali na Praça da Figueira tomaria o quinze e iria até o Arquivo Histórico e depois voltaria para o Rossio para o encontro marcado.
Não queria falhar nem chegar atrasada, aquele encontro estava marcado e confirmado com um dos protagonistas desde a terça feira anterior quando conheceu todos os, agora, “personas gratas." Queria mesmo ter com eles, afinal a terça feira anterior tinha sido muito boa, tivera momentos agradabilissimos ao lado de quatro ilustres desconhecidos que a fizeram rir muito.
Quatro senhores portugueses, cada um com um estilo próprio que permitiram que ela entrasse na “tertúlia” deles, sendo que tudo começara por causa de uma jarra de vinho que ficou em sua mesa, porque a deles, com quatro pratos, não dava para mais nada e Felipe lhe pedira para deixar o vaso ali, claro e evidente que ela não se importou, afinal estava sozinha e não lhe custava nada permitir isto, no entanto, a jarra fora colocada muito na ponta da mesa e ela percebia que, se o senhor que estava bem junto a ela se descuidasse ela, e ele próprio, tomariam um belo banho de vinho; assim resolveu puxar o vaso de vinho mais para dentro, e foi aí que tudo começou.
Os senhores pensaram que estavam incomodando e pediram imensas desculpas, ela disse que não tinha o menor problema.  Pronto! Senha dada, e um boa e entretida conversa começou. Um deles, o mais falante e que se intitulou “porta voz” do grupo, lhe explicou que eles eram amigos de há muito e que, todas as terças feiras, se encontravam e iam almoçar em algum restaurante e que costumavam ir muito à Merendinha do Arco. Ela achou mais de que interessante este particular, e comentou com eles que gostaria muito de ter amigos assim. Quatro pessoas bem diferentes; um senhor alto, grande bem diferente da maioria dos portugueses, este estava sentando bem à sua frente, ao que parecia aquele cidadão, quando jovem, deve ter sido bem namorador, pois ele ainda tinha um charme especial, mas ela notou que ele tinha algum problema de audição.  Um outro moreno com os cabelos pretos entremeados de fios brancos era também uma pessoa interessante, calado, com um sorriso maroto, ficava na dele, sem falar muito, mas observando tudo e sorrindo quando a estória era boa. Não sabe dizer muito bem a característica dos outros dois, isto porque eles estavam sentados no mesmo lado que ela, e ficava difícil ver-lhes a face, mas sabe que o que estava sentado junto à parede era meio calvo e o outro tinha umas sobrancelhas bem grossas, este era o falante mesmo, foi ele que lhe falou das tertúlias, que elogiou o vinho que ela estava tomando, um “Cartuxa”, enfim, ele realmente era o porta voz do grupo. A principio, o senhor das sobrancelhas grossas que estava literalmente ao seu lado, achou que ela era italiana, depois constatou que ela era brasileiríssima e que já conhecia bem Portugal. Através do Felipe, ficou sabendo da profissão dela, o que lhe valeu, daquele momento em diante, o “Dra”, ela virou a doutora para lá, a doutora para cá, bem ao estilo português, em que as pessoas dão mesmo muito valor, não só ao cargo, como ao título.
Ficaram sabendo que ela esteve em Portugal por muito tempo, que fizera o mestrado e o doutorado lá, das coisas que gostava de fazer em Lisboa, enfim, ali estava mesmo um começo de um bom conhecimento para todos os cinco, que se divertiram muito, sorriram bastante, mas era chegada a hora de ir embora. Ela pediu os nomes e os e-mails deles e lhes disse que tinha um blog. O mais falante ficou com o seu e-mail para dar para os demais e, para darem continuidade ao conhecimento, marcaram uma nova tertúlia, já agora com a sua participação, que aconteceria ali na terça feira próxima, e por isso mesmo é que ela, naquele dia saíra de casa com todos os compromissos quase que cronometrados. Ela não queria perder, de maneira alguma aquele encontro, que, inclusive, fora confirmado pelo “porta voz oficial” do grupo, através de e-mail.
Fez tudo que tinha de fazer e dirigiu-se para o restaurante, por volta das 13:35 ou 13:40. Entrou no restaurante, que estava lotado. Ela conseguiu lugar porque duas pessoas, que ela também conhecera ali na semana anterior, levantaram-se e foram tomar o cafezinho no balcão para lhe dar lugar. Ficou olhando para todos para ver se reconhecia entre as pessoas os seus quatro novos conhecidos, mas não havia ninguém parecido com qualquer deles, foi aí que ficou sabendo, através de Felipe, que eles lá estiveram, lhe aguardaram, mas, como não havia mesas disponíveis, decidiram ir a outro restaurante.

Chateada, porque realmente queria rir outra vez, ter um bom momento de descontração, e, além disto, conhecer mais daquelas pessoas e de Portugal, sim porque eles, com certeza, iam lhe dar muitas preciosas informações de Lisboa e do país, pois nada melhor de que um natural da terra, com um bom nível intelectual, e que viveu o Portugal antes de 1974. Sim, com certeza, eles teriam muitas informações. Além das informações históricas que eles lhe passariam, não por alguém lhes ter dito, mas porque viveram o momento, foram contemporâneos daqueles fatos eles também lhe dariam muitas dicas culturais, pois aqueles senhores deviam gostar de fado, aliás o que foi  confirmado pelo “porta voz” do grupo  e certamente saberiam onde  ouvir um bom fado regado a um bom vinho e naquele dia já se poderia começar uma conversa a este respeito. Por outro lado, chateou-se mais ainda, porque no dia seguinte ela embarcaria para o Brasil e só Deus para saber quando retornará a Portugal, embora ela tenha planos de ir em setembro/outubro, caso a economia brasileira permita. Como se toda esta chateação não fosse suficiente, o destino aprontou mais uma vez, pois lhe proporcionou, novamente e em Lisboa, outro DESENCONTRO MARCADO, com a única diferença, é que  neste  ela saberia identificar os parceiros.