sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ainda a visita ao analista

Como foi a visita ao analista? Gostou? Ela bem que já esperava a pergunta, mas, ainda assim, ficou para lá de irritada.  “Que merda, os “ins” acham que esta é mesmo uma solução para os problemas que eles vêem em mim. Acho que não vou responder nada”
-Diga lá mulher, como foi a sessão, vocês gostou?
-Quer que eu fale a verdade?
-Claro
-Uma merda, não sei como vocês conseguem achar que aquilo é bom. Fiquei lá com cara de tacho olhando uma pessoa que nunca vi antes a esperar que eu falasse do que não quero. Não entendo como vocês têm a capacidade de falar de si a um desconhecido frio, distante, até mesmo seco.
-O que você queria? Uma mãe que lhe colocasse no colo e alisasse seus cabelos e perdoasse os seus erros?
-Qual é a sua cara, por que tá falando assim comigo?
-Estou apenas sendo real. O que você quer é isto mesmo, alguém que passe a mão pela sua cabeça, perdoe os seus erros, as suas culpas e fique tudo como está.
-Se não fosses a pessoa que és para mim mandar-te-ia para o inferno agora mesmo.
-Ia resolver o que você me mandar para o inferno? Nada, você continuaria com todos os seus problemas, com as suas culpas, repetindo os mesmos erros de sempre.
-Venha cá, para que mesmo eu tenho de ir ao analista, se você já está fazendo o papel dele?
-Não, não estou fazendo papel de analista nenhum, aliás, sequer tenho condição para isto, mas é preciso que alguém lhe diga coisas para que você desperte desta letargia que é a sua convivência com os seus “senões”.
-Olhe cara, vou trabalhar, tenho muitas coisas a fazer e não posso ficar aqui falando de coisas que não vão a lugar algum. Para seu conhecimento, não gostei, e nem vou voltar mais para outra sessão,
-Continuo achando que vocês esta tomando a decisão errada, mas isto é mesmo um problema seu, continue convivendo com os seus problemas, se enchendo, cada dia mais, de culpas, sem se libertar delas e você vai ver o que acontece daqui a algum tempo.
-Olhe se nos libertarmos de culpas, de medos, de angustia significa ficar como você, egoísta para cacete, desisto mesmo, não quero ficar assim, quero ser eu sempre, quero brigar, chorar, me aborrecer, tomar atitudes erradas, mas ter sentimentos, vibrar, sentir o sangue pulsar. Não quero ficar como você frio, distante, egoísta mesmo, pensando apenas em si próprio, como se a vida fosse você e você.
-E isto que você pensa de mim é?
- Não, não é o que penso, é o que vejo, aliás, que todos estes seus amigos, estes que lhe rodeiam, acham, mas não lhe dizem.
-Bom se eles acham isto, não posso fazer nada.
-Viu que você é mesmo um idiota. Então você tem amigos que lhe apontam mil e hum defeitos, falam de você, na verdade lhe malham muito e você diz apenas isto.
-Eles fazem a opção de estarem comigo. Eles pensam que são meus amigos, eu os aturo porque não posso descartá-los, são pessoas que tem de estar por perto, afinal posso precisar de alguma coisa a qualquer momento e eles podem ajudar. Por outro lado, é preciso sempre estar de olho nos “inimigos”, com eles por perto temos mais chance de controlá-los e derrotá-los, se necessário.
-Realmente, continuar conversando com você é a certeza de que não volto mais ao analista.  Não quero ser como você de maneira alguma.
- Deixe eu lhe dizer uma coisa, este fato de controlar inimigos, nada tem a ver com analistas, isto é ser inteligente, racional.
-E quem foi que disse que eu quero ser racional a este ponto?
-As pessoas irracionais tomam atitudes precipitadas, levadas pela emoção, que quase sempre dão errado. É preciso ser frio o bastante para saber como e quando tomar atitudes, responder, criticar, enfim, tudo tem de ser avaliado, medido.
-Olhe, quer saber, vamos esquecer esta coisa de análise. Se você gosta disto, ao ponto de ter se juntado a uma profissional da área, fique com ela e que Deus te proteja, mas eu tenho certeza que, até por isto mesmo, você é que vai ter problemas.
-Deixe de radicalismo bobo, você é uma mulher inteligente e vai pensar melhor em tudo isto e vai ter a certeza de que deve procurar ajuda para se fazer melhor de cabeça.
-Tá bom, beijos, tchau
Injuriada, mas de alguma maneira aliviada, desliga o telefone. Então ela teve a coragem de dizer àquele “pedante” algumas coisas que não só ela, mas muitas pessoas, achavam dele, aliás, aquele cara era quase uma unanimidade, todos que lhe rodeavam tinham queixas, mas ele tinha o poder e podia usá-lo, ou não usá-lo, e com isto prejudicar muitos. Era mesmo um calculista. Como diria a velha Dona Ivone, “não dava prego sem estopa” O que fosse feito hoje teria uma conseqüência amanhã, nada era feito amorosamente, tudo tinha uma finalidade, um objetivo esperado, calculado.

Então ela ia fazer análise para ficar daquela maneira?  De maneira alguma. Recomeçou os seus afazeres tentando esquecer a conversa e o analista hibrido. Uma coisa tinha certeza, lá, naquele consultório lilás, jamais voltaria e ponto final.