sábado, 7 de maio de 2011

Você sabe qual o coletivo de "muriçoca"?

Por que complicar o que é fácil? Vocês lembram-se da lista imensa de coletivos que a gente aprendia, ou ainda aprende, não sei,  se no primário, hoje ensino fundamental? Eu ainda lembro-me de alguns, porque no meu tempo de escola a gente tinha mesmo de decorar aquela imensa lista de coletivos:

Alcatéia - lobos

Manada – bois

Nuvem – gafanhotos

Constelação – de estrelas

Matilha - de cães

Vara – de porco

Tropa - de burros

Cáfila – de camelos

Conclave – de bispos, acho que cardeais para eleger o papa, sei lá.

Digam-me para que porra eu quero saber que uma porção de camelos enfileirados é uma “cáfila”, eu nem vivo no Oriente Médio, não moro no Katar, onde a troca da guarda é feita com os “guardas” montados em camelos. Também não vou ser trocada por uma “cáfila”.

E “Vara”, para que “diabos”eu quero saber que muito porco forma uma vara? Grossa, diga-se de passagem, imaginem uma vara feita de porcos! Palavra mais desapropriada para esta coletividade.

Conclave então que desuso! Os papas demoram tanto para morrer, que o coletivo é de uma inocuidade imensa, a tendência é desaparecer.

Bom, mas há um coletivo que abrange todos os outros e a gente não precisa ficar lembrando-se desses vocábulos criados para exprimir grandes quantidades de coisas iguais: pois é, eu sei de um que me foi ensinado pela minha colaboradora.

Um dia estava eu em casa, acho que vendo alguma coisa na televisão, e a minha colaborada chega á porta da sala e me diz:

- Dona Esmeralda, dentro do quarto lá do fundo tem um cardume de muriçocas:

- Como é que é? Tem um cardume de que?

E ela com toda a propriedade repete:

- Um cardume de muriçocas.

Tentei controlar o riso, não queria que ela percebesse que estava me “pipocando” de rir por dentro por causa daquele coletivo tão bem aplicado, que quando aprendi era equivalente a muitos “peixes”. Também não lhe dizer que o coletivo era de peixes e não deveria ser aplicado em relação à muriçocas, que, aliás, de coletivo tinha mesmo só a quantidade e as picadas, pois não aprendi na escola tal coletivo para estas pragas, que incomodam muito, talvez, quem tenha idealizado os coletivos nunca tenha tido contato com estes pernilongos malditos.

Naquele dia comecei a pensar nos coletivos; descobri que já tinha esquecido um monte deles, e tive de concordar que um “cardume” poderia substituir mesmo todas as grandes coletividades de qualquer coisa. Por que não? Além de tudo ter-se-ia a vantagem de não errar nunca, erraríamos somente uma vez e pronto, o erro viraria um sofisma e passaria a ser uma verdade real aceitável por todos que apenas diriam: vi um cardume de carangueijos, um cardume de “gajas”, enfim com a utilização do vocábulo “cardume” já se estaria dizendo que havia uma grande quantidade, todos entenderiam perfeitamente.

Bom, mas eu tive o privilégio de, em muitas oportunidades, ouvir este coletivo lá em casa. O que eu pensei ser um erro, que eu não saberia consertar, porque nunca soube mesmo, e até hoje não sei, talvez o mais próximo seja “nuvem”, qual o coletivo de muriçoca, passou a ser comum lá em casa, inclusive, eu própria comecei a usá-lo; seja a sério, seja na gozação.

Lá em casa muitos livros era um “cardume” de livro; bolas de natal que ficavam guardadas para a época própria eram referidas assim: -  Tem de comprar mais enfeites para a árvore de natal?

-  Não Dona Esmeralda, tem um cardume de bolas lá no armário.

Fiquei com o “cardume” na cabeça. E quando eu queria mesmo me referir a quantidades e usava esta palavra, vi que algumas pessoas me olhavam diferente, como se eu tivesse falando uma grande barbaridade. Lógico que ninguém se atrevia a consertar o erro, mas imagino quantas vezes não devo ter sido criticada por errar uma coisa tão boba. Afinal uma doutora Juíza não pode cometer um erro deste. Nunca me preocupei com isto e continuei, na gozação, ou não, porque as vezes me atrapalhava mesmo e dizia com muita propriedade, aquela que me foi transmitida por minha colaboradora: vi um cardume de gente na rua hoje, vi um cardume de pássaros, e assim por diante.

De tanto divulgar este fácil coletivo, ganhei adeptos, pois não é que em Lisboa o meu amigo Zé, a quem contei esta estória, me veio com esta: “Tem um cardume de pretos no Martin Muniz”!

Pois é, para quem esqueceu os coletivos dou um conselho: usem “CARDUME” para qualquer coisa em quantidade. É fácil e todo mundo vai entender o que você quer dizer.