terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pós visita ao analista

Chegou a casa visivelmente mal humorada. Não conseguia entender por que se tinha permitido passar por uma cena daquelas; então pagara quase a metade de um salário mínimo para falar duas palavras com um híbrido e acabar o tempo sem que nada de, minimamente, esclarecedor, ou com alguma possibilidade de sê-lo, acontecesse.
Vinha no carro e, de vez em quando, como para se acreditar que aquilo ocorrera mesmo, se olhava pelo retrovisor e via a sua cara de tacho e de besta com toda aquela situação, perdera uma hora do seu dia, perdera dinheiro, ficara mal humorada, perdera inclusive o horário de chegar a casa, um tempo precioso para corrigir algumas provas, estas sim importantes, porque sua obrigação, que fora atrasada por aquele acontecimento que não se repetiria.
Decidira isto dirigindo o carro e, olhando o mar à sua esquerda, pensava: quem tem um marzão deste precisa de porra de analista para que? Ela sempre pensara assim, se os problemas a atormentavam em demasia ela largava tudo e ia caminhar na praia, se não estivesse em local de praia procurava um rio, como fez muitas vezes em Portugal, quando ia sentar à frente do Tejo e deixava que os pensamentos fluíssem, que as lágrimas rolassem até se dar por confortada e mais leve.
Quando abriu a porta de casa, porém, o seu mau humor retornou com força. Viu-se mesmo diante da inusitada situação: cheia de provas para corrigir, planos de aula por fazer, processos a sentenciar e perde tempo com aquela sessão inútil, com uma pessoa hibrida, que, pode até ser muito boa, mas que para ela não passou de mais um para lhe tirar um dinheirinho.
Foi direito para o escritório, o computador ficara ligado, a tela azul lhe demonstrava isto. Que droga, o bicho deve estar quentinho, tomara que não tenha nenhum problema. Ao lado do computador, em cima da mesa, jaziam processos e provas, um dos processos, o primeiro, aberto em uma página qualquer.
Pensa: Vou tomar banho, colocar uma roupa confortável, fazer algo para comer, e só vou levantar quando acabar todos estes processos. É isto que vou fazer, até porque ocupando a minha mente esqueço este dia horroroso que vai ficar para a minha história como um marco da minha imbecilidade. Nunca fora pela cabeça dos outros em nada, errado ou certo, mais errado de que certo, decidiu sempre só que fazer da, e na, sua vida, mesmo quando estava sob a dependência dos pais fora assim, fazia com que eles pensassem que ela tinha acordado com eles, mas se pudesse e tivesse a chance, fazia como bem entendesse atitude que lhe foi facilitada, muitas vezes, por viver afastada dos pais durante muito tempo, enquanto estudava em colégio interno.
Lembrando desta faceta da sua vida, o internato, falou consigo própria: por que não comecei a conversa com o hibrido exatamente neste ponto? Será que alguns problemas de rejeição que tenho é proveniente disto? Rejeição? Palavra forte. Quer saber, este pensamento não vai me levar a nada e eu tenho de me concentrar para trabalhar, amanhã tenho de devolver todos estes processos decididos e se ficar pensando em coisas que não vão me levar a nada, não os resolvo e prejudico uma porção de gente, que está esperando pelas decisões, alguns, atribuindo a estas a própria subsistência, o futuro, os sonhos e aos alunos, que, também, de uma maneira ou de outra, dependem de saber o resultado das suas provas.
Será que é o peso da responsabilidade sobre a vida dos outros que está me deixando assim: carrancunda, intransigente, melancólica, às vezes muito triste.  Idiota, se você sabe de todos os seus “senões” para que foi para esta maldita sessão? Então se você reconhece que está mesmo com problemas pessoais e de relacionamento por força, exatamente, destes problemas, para que diabo foi procurar alguém que, possivelmente, em um determinado momento, iria identificar estes problemas como se você nunca se tivesse observado a si mesma, e como se não soubesse as causas de todos eles.
Diabos! Não conseguia desviar o pensamento daquela sessão. Para começar a trabalhar ia tomar um banho, fazer uma comida rápida, e começar a decidir, só ia levantar quando tudo estivesse acabado.
Tirou a roupa e foi para o banheiro, embaixo do chuveiro deixando a água escorrer pelo corpo, ela olhava o espaço que era tão seu, tão privado, tão ela. Ela tinha escolhido tudo, o revestimento, a madeira do armário, o blindex, o vaso, as toalhas, enfim, aquele era um espaço todo seu, embora ela dividisse com o companheiro, mas bem que ela podia colocar na porta o seu nome que ninguém ia estranhar, exatamente pela personalização do banheiro.  Do Box, deixando a água escorrer pelo corpo, ela olhava tudo; tudo muito escolhido, muitas idas e vindas às casas de materiais de construção, muitas revistas de decoração, enfim, aquilo ali fora criado por ela e ela gostava do resultado e da segurança que aquele banheiro lhe dava. A orquídea em cima da bancada da pia parecia feliz, as suas flores lindas e lilases estavam vivas e felizes. Lilás, lá vem a merda da parede da sala de recepção do analista.  Caracas! Será que não vou me livrar disto?  Terminou o banho mais rápido por força desta intromissão daquela sala no seu momento tão privado no seu banheiro. Enxugou-se, enrolou-se na toalha e foi para a cozinha, tirou os peitos de frango da geladeira, colocou água no fogo, ia fazer macarrão e peito de frango grelhado, e já estava quase na hora do Marcos chegar.
Marcos gostava muito de macarrão ao alho e óleo com manjericão, e ela, quando não tinha muito tempo para fazer nada, sempre escolhia o menu mais fácil e rápido. Ia deixar tudo no ponto, quando ele chegasse, e enquanto tomava banho ela grelharia o frango e faria o macarrão.
Saiu da cozinha voltou ao quarto passou creme no corpo, salpicou perfume pelas partes e em lugares estratégicos do corpo, sabia que ia ser cheirada e não custava nada agradar o outro, vestiu uma roupa folgada, mas transparente e sensual, e foi sentar-se no escritório para os seus afazeres.
A primeira decisão já estava quase pronta, ela tinha parado na análise das provas, mas estava mesmo no final, assim este processo foi muito rápido, não passou nem dez minutos para acabar a sentença.  Fechou o primeiro e partiu para o segundo, que não era complicada, apenas horas extras e reflexos, tirou de letra, como o fez com mais uns cinco, todos com pouco período de relação de trabalho e com muito poucos pedidos.
As 20h30min ouve o motor do carro de Marcos, ela conseguia identificar o som do carro e parecia saber todos os movimentos desde a hora que ele saia do carro para abrir o portão da garagem até chegar dentro de casa. Ela sorriu: realmente, conviver tanto tempo com alguém faz isto, você sabe da habitualidade, das manias, do cotidiano da pessoa, isto enquanto ela está em casa, pois quando sai pelo portão da casa pela manhã, ali acabam as habitualidades e começam outras habitualidades das quais ela não participa, e, aliás, nem poderia, e nem deveria saber da existência delas.
Ouve Marcos dizer “vá para lá Brick”, não pule em cima de mim. Levanta-se e vai até a sala, a tempo de ver Marcos quase correndo do cachorro que insiste em pular nele. Dá-lhe um beijo fraternal; depois de tanto tempo de convivência a efusividade do encontro só dá mesmo para um beijo fraternal. Eles não eram irmãos ainda, mas o relacionamento parecia caminhar a passos largos para isto.  Talvez este também fosse mais um problema para discutir com o analista. Porra, que analista nenhum, se eu já identifico o problema, eu posso muito bem procurar a solução.
Fala com Marcos e enquanto este vai tomar um banho, ela vai para a cozinha preparar o jantar. O banho de Marcos é demorado, ele tem todo um protocolo: fica embaixo da água quente por muito tempo, fala sozinho, gesticula, é até engraçado vê-lo tomando banho, embora ela faça isto muito poucas vezes, já fez mais, até já dividiu o Box e muitas coisas outras ali, mas agora é melhor que cada um tenha a sua privacidade enquanto faz coisas que gosta, e coisas tão íntimas, quanto é tomar um belo e bom banho.
Quando Marcos sai do banheiro a mesa já está pronta. Há uma garrafa de vinho aberta, as taças, água, os dois pratos. As panelas não saíram do fogão, que ficava próximo à mesa da cozinha, só eles dois para o jantar e ela não tinha tanto tempo de ficar botando comidas em pratinhos para ficar bonitinho.  Marcos já vem de pijamas, senta-se serve o vinho e começam a comer. Não falam muito, apenas o que era necessário, algum comentário a respeito do vinho, o que ele adorava, pois se julga um exímio conhecedor. Ela sempre sorri, ele até conhece um pouco, mas nada que faça dele um enólogo. Eles têm sempre em casa vinhos: os preferidos portugueses (alentejanos), africanos do sul, argentinos, chilenos, espanhóis.  Comem, depois retiram os pratos da mesa, no que ele a ajuda, tomam o resto do vinho na sala da televisão.
A rotina igual, daqui a pouco Marcos estará roncando, mas se ela desligar a televisão ele vai balançar o pé e dizer que esta vendo o programa. Ela já sabe e deixa lá, volta para o escritório, logo após tirar os pratos da mesa e colocar na pia, pega a ultima taça de vinho e volta para o escritório, precisa fazer mais alguns processos e corrigir, ao menos, umas vinte provas. É o que faz. Chega à sala de televisão dá um beijo na testa de Marcos e vai se fechar no escritório.
No escritório lembra que não falou com Marcos da sua visita ao analista. Também para que não é?  Ele ia dizer que ela tava maluca mesmo, que não via motivo algum para ela procurar um analista.
Hoje, especialmente hoje, ela concorda com Marcos.
Amanhã será outro dia, vamos ver como acordo em relação a esta história do divã.

Boa noite.