sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Uma Pré-saudade


Ando pelas tuas calçadas. Cada passo uma descoberta, um encanto. Uma pré-saudade. Sim, uma pré-saudade, porque sei que vou tê-la. A percepção de que breve tenho de ir-me me dá a nostalgia da saudade. Consigo me vir sentada em casa, na minha rede tão nordestina, a recordar cada passo desta caminhada que hoje faço. Saudade, palavra boa e ruim. Sentimento dicotômico. Bom: porque se temos saudade, é porque vivenciamos alguma coisa muito boa; ruim: porque não estamos vivenciando o momento, ele passou, e só ficou a lembrança dele.
O tempo avança, não nos deixa quietos e parados na mesma estação, ele passa e nos deixa as marcas, sejam elas de alegrias, sejam de tristezas; ambas não se apagam.: as primeiras viram saudades, as segundas amarguras, lembranças dolorosas que apesar de querermos esquecer, elas se incrustaram no nosso eu e não deixa que as esqueçamos.
Por um lado isto é bom, porque se as esquecemos, n os precavemos para os novos acontecimentos, encontros, e não vamos nos deixar machucar tanto, mas tem o lado ruim, que é o de reviver a dor: entretanto não podemos, simplesmente, apaga-las  da memória, porque apagando-as, também apagaremos os resultados bons das nossas vivências.
Tudo o que passamos de bom e de ruim nos moldam. Se bom, nos faz crescer.  Cada dia um novo aprendizado e a certeza de que a vida é luta: vitória ou derrota. Nem sempre uma e nem sempre a outra. A dicotomia em nossas vidas é constante. As derrotas nos fazem crescer até mais que as vitórias, porque com as derrotas  temos de nos levantar e lutar outra vez para que uma nova vitória chegue, e, quando ela chega, e chega muitas vezes, a gente é que não se dá conta disto, ela traz alegria, felicidade, realização. Efêmeras elas até podem ser, mas que vão deixar saudades, como esta que agora experimento: uma pré saudade que sei, terá lugar para o resto da minha vida, como vem sendo até agora.
Gente, parece que viro poeta, filosofa, escritora, viro de tudo um pouco quando falo do meu querido Portugal e das minhas extraordinárias ruas de Lisboa, estas que me dão tanta pré´saudade quando caminho por elas.
Não procuro por nada em Lisboa, apenas ando pelas suas calçadas portuguesas, com suas pedras brilhante. Sempre acho que vou escorregar pois brilham tanto que parece que tem muita cera nelas. Não é necessário procurar lugar nenhum em Lisboa, porque sempre, para que direção você vá você vai encontrar algo que vai admirar, lhe encantar, lhe encher os olhos.
É um encanto a cidade, uma luz fantástica no verão. Um sol morno no inverno.  Não me importo com o frio, parece que com ele gosto até mais de Portugal, pois adoro andar de botas e cheia de casaco de frio. Kkkkk acho-me linda e elegante com essas roupas. Nada me impede de passear em Lisboa e em Portugal no geral, nem mesmo a chuva aborrecida,  em alguns períodos, me tira da rua e dos meus passeios pela cidade. E olhe que não gosto de guarda chuva, carinhosamente chamado de “chapéu de chuva” pelos portugueses.
Se chove demais, entro em alguma tasca e já e um bom motivo para tomar um vinho. Se o restaurante ou a tasca fica em alguma posição estratégica em Lisboa e dar para ver o Tejo, aí um copo vira vários, uma garrafa, duas: você é quem faz o limite.
Tão bom sentar em algum restaurante,seja em Alcântara, seja em Belém, até mesmo no cais do Sodré e, através dos vidros, ainda que embaçados, ver a Ponte Vinte e cinco de abril, o Cristo redentor do outro lado do Tejo, os navios que passam em direção ao porto ou dele saindo. É realmente para se ter saudade.
Vou ficando por aqui, com a minha pré saudade. Acabo de chegar ao Cais Sodré, onde vou pegar o barco para ir almoçar lá no Restaurante o Farol, de onde posso ver Lisboa inteirinha à minha frente. Sei que vou chorar, mas as lagrimas voltarão ao meu corpo, porque certamente estarei comendo uma ameijoa à bulhão pato, e elas caíram no caldo e eu vou fazer com que elas voltem para mim como alimento, para que eu as guarde e possa chorar de saudades quando retornar ao Brasil  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

DAMIANA - Uma lembrança


Conheci Damiana quando eu era ainda criança. Criança mesmo, acho que não tinha quatro anos de idade. Damiana era uma negra imensa, devia ter um metro e oitenta, sua pele não era negra, era mais para o pardo. Ela tinha aquelas manchas marrons na pele, que dava para ser notadas.
Damiana tinha o cabelo enorme, mas somente uma vez o vi solto, isto porque nas artes de criança, desavisadamente, entrei no seu quarto. O cabelo era cheio e enorme.  Isto aconteceu quando eu já tinha bem uns oito anos.
Quando Damiana entrou na minha vida eu era uma criança mesmo e ela já me parecia ser uma velha, não que fosse mesmo, possivelmente era teria uns trinta e cinco anos, acho eu, pois sequer posso avaliar a idade dela,
Ela sempre estava limpíssima e de avental, os cabelos presos em dois cocós um de cada lado. O cabelo era repartido no meio em uma precisão sem igual, a gente conseguia seguir aquela linha divisória entre um lado e outro, da testa até a nuca, parecia mais uma cicatriz.
Não me lembro de ver Damiana sorrir, sei que ela usava dentadura, mas não me recordo mesmo de vê-la sorrindo. Via a sua vida costumeira. Limpar casa, lavar roupa (na mão), encerar o chão, limpar cozinha, banheiros, etc.  Ela vivia na casa de umas tias minhas ali no Canela. Se bem me lembro ela dormia na parte do subsolo da casa, para o quintal, onde existia e frutas, que ela, Damiana, cuidava.
Nunca vi ninguém procurando Damiana, ninguém da sua família. Nunca soube de onde veio, quem eram seus pais, enfim, nunca soube nada dela, a não ser que ela fazia parte da casa, quase que como um objeto móvel e que obedecia ordens e sabia cumprir as suas obrigações, sem nunca reclamar, sem falar, quase sem ouvir.
Sei que ela gostava de minha mãe, talvez porque tinham uma coisa em comum, eram pobres e conversavam quando se viam. Aliás minha mãe fazia questão de ir vê-la no seu quarto se ela não estivesse decorando algum lugar da casa esperando a ordem de alguém.
Da última vez que a vi ela já estava com cabelos brancos, mas continuava na labuta, depois não tive mais notícias, a não ser que ela tinha morrido.
Hoje me pergunto: Quem era aquela mulher? De onde veio? Quais os seus anseios? Quais os seus sonhos? Será que teve, algum dia, um namorado? Será que queria ter filhos? Enfim, fico a me perguntar se Damiana um dia foi feliz, ou se para ela a felicidade era aquela vida.
Queria saber da sua história, mas hoje, infelizmente, não há ninguém para contá-la. Meus tios, a quem ela servia, todos eles, já faleceram.  
Será que um dia Damiana mostrou o seu corpo a alguém.  Eu achava que ela não tinha peito, porque sempre a vi de vestido de um tipo que cobria tudo, aliás não sei como ela conseguia trabalhar com aquela roupa, sempre vestido cinturados, de mangas, algumas vezes com o detalhe de um rolo na gola. O comprimento do vestido fazia a gente pensar que ela não tinha coxa, sempre no meio da perna.
Será que Damiana conheceu o mar? Algum dia ela foi à praia?  Será que saia de casa aos domingos pela tarde? Será que tinha folgas? Como poder conceber alguém que não conheça o mar? Todavia, acho que ela não o conheceu
Realmente hoje, e só hoje, é que vi a inutilidade da vida de uma pessoa, que apenas serviu a outrem durante toda a sua vida. Quando digo inutilidade de vida, falo da vida pessoal, do seu querer, dos seus sonhos. Talvez por não os ter, ou por não poder realizá-los, é que Damiana era taciturna, quieta, de fala mansa.
Espero Damiana, que hoje, onde você estiver, esteja feliz e que a sua v ida seja bem diferente daquela que conheci.