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terça-feira, 7 de outubro de 2014

A depiladora sedutora

Lembrei-me dela; não sei por que hoje, mas o fato é que me lembrei dela, talvez por estar passando creme no corpo, pois ela tinha mania de cremes.
Era baixinha, feinha. Andava bem arrumada bem verdade, mas nada de especial, até porque o físico não ajudava, e, por outro lado, estava sempre com o jaleco branco por força d atividade que exercia.
Era depiladora. Tanto trabalhava, na época, com depilação à cera, como com pelo método eletrólise, que não recomendo a ninguém, miséria que dói. Fica tudo bem lisinho, mas dói e muito, e é um processo demorado.  Exatamente pela demora é que eu estive com ela, naquela minúscula sala de depilação, muitas vezes durante quase um ano.
Fiz a depilação numa área mais de que sensível, a dor era, algumas vezes, insuportável, mas eu agüentava firme, queria me livrar dos aparelhos de barbear que me deixavam bastante empolada.  O salão ficava num shopping Center de uma cidade do interior, e eu sempre marcava a depilação lá pelo final da tarde, por força do trabalho, aliás, minha depilação virou quase um assunto nacional, porque quando eu deixava a sala eu estava vermelha feito um pimentão, zangada, e doída.  O juiz que eu conhecia e que freqüentava o shopping com a família, mulher e filhos e era uma pessoa que eu bem gostava, já ficava me esperando, numa das mesas da praça de alimentação, porque assim que eu acabava a miserável da sessão de tortura eu ia tomar uma, para ver se a dor aliviava e a mulher dele e os filhos me perguntavam: Qual foi a banda hoje? Sim porque eu dividi a minha “virilha” em várias bandas, banda A, Banda B, banda C, esta última  é mesmo na zona  onde vocês estão a imaginar.
Vestir a calcinha depois desta “audiência” era mais uma etapa do processo de tortura. A pele ficava irritada, vermelha, cheia de "hipoglos". Vejam bem, como eu ficava cheirosa depois que cumpria a pena imposta pelo Santo Oficio, pois eu só fazia isto porque era quase que obrigada a estar sem pêlos pubianos, para agradar ao gosto do parceiro. Lógico que penso ser mais interessante, mais higiênico até, embora esteja cientificamente comprovado que tais pêlos, se estão ali colocados, tem a sua função, que é a própria proteção, mas os menos informados acham que é falta de higiene. Evidente que não deixaria que alguém fizesse tranças em tais pêlos, mas podia apenas rebaixá-los, mas arrancá-los pela raiz como estava fazendo era, efetivamente, uma autoflagelação.
Bom, mas a introdução foi para familiarizar vocês com a minha depiladora e para que vocês possam entender a estória como ela deve ser entendida.
Nestas sessões que duravam, aproximadamente, uma hora e meia falávamos de tudo; ela fazia tudo para me descontrair, para que a dor fosse aliviada, e  me contava muitas coisas suas e de pessoas que nunca vi nada vida, e que, com certeza, jamais conheceria, mas eram estórias engraçadas e eu ficava ali tentando me esquecer da dor.
Um dia ela me chega e me diz que tinha encontrado um namorado estrangeiro, ou melhor, tinha conhecido um gringo no Pelourinho, naquelas terças da benção, e que eles tinham marcado para se encontrar no sábado. Ela morava em um apartamento na Barroquinha, bem no centro da cidade, ainda se podia morar ali sem problemas há uns 20 a 23 anos atrás e me disse que ia dar um jeito de levar o diabo do homem para a casa dela depois da farra. A moça gostava, e bem, de sexo, ao menos era o que demonstrava ao falar no assunto. Quando ela falava sobre isto chegava a mudar a voz, a sua respiração ficava ofegante, eu até ficava com medo dela errar a mão e meter aquela droga daquela agulha fina que dá choque em lugar diferente das bandas já delimitadas.
O fato é que ela falava do gringo e do que faria com ele, se ele fosse dormir com ela, o que realmente aconteceu. É lógico que não me contou tudo, mas me deu uma aula de sedução e alguns poucos detalhes.
Na terça feira seguinte ao sábado em que ela ia tentar levar o “gringo” à sua casa, ela me contou o que tinha feito:
“Fui encontrar com ele lá pelas cinco da tarde. Fui para o Pelourinho, porque ele não conhece muito a cidade, embora preferisse que ele fosse logo lá a casa, mas não deu para explicar direito onde era. Fiquei no Pelourinho com ele até umas onze da noite. Aí ele queria ir para o hotel, mas eu disse a ele que queria que ele me levasse em casa, depois ele pegava um táxi e ele iria para o hotel(isto tudo meio na mímica, eu não sabia falar inglês e nem ele português).

domingo, 6 de maio de 2012

Propaganda Enganosa


Estava muito cansada; saíra da Faculdade de Direito onde estava pesquisando leis coloniais, um trabalho chato, desgastante, insípido para ela e para o seu nariz que odeia poeira. Saia dos arquivos completamente entupida, com dificuldade de respirar, nariz escorrendo e, muitas vezes, com dor de cabeça. Nesse dia resolveu não ir direto para casa, foi espairecer um pouco, mesmo com o peso das cópias de documentos que havia tirado na biblioteca.
Pegou o Metro na Cidade Universitária, saiu na estação do Marques de Pombal e desceu a Avenida da Liberdade, já eram quase 7 horas da noite, mas o dia, apesar de frio, ainda estava claro em Lisboa, veio descendo e procurando um espaço para comer, até àquela hora não havia comido nada. 
Praça do Comércio-Lisboa
Alcançou o Rossio e continuou em direção à Praça do Comércio. Nesse momento lembrou-se que ia haver a inauguração da árvore de natal da cidade de Lisboa, pensou que isso ia ser cedo e se dirigiu para o local, ficou embaixo das arcadas, do prédio secular de um dos muitos Ministérios que se abrigam no Terreiro do Paço. Estavam testando a iluminação e ela ainda viu algumas luzes da árvore formando renas, sinos, anjos, os símbolos do natal, em cores lindas, mas, de repente: tudo se apaga de vez. Uma pane no equipamento. Ainda bem que estava errada, porquanto não era o dia da inauguração, que ocorreria no dia seguinte.
Com a cabeça ainda doendo, desta vez já era mesmo por causa da fome, ela continuou andando. Pegou a rua que leva ao cais Sodré, tentou entrar em vários restaurantes, mas desistiu, estavam todos cheios de homens, ficou com vergonha, pois estava sozinha e sabia o que a sua entrada ia provocar. No Irish, então, um bar de irlandeses, pior ainda! Gringo para danar e ela seguiu, depois veio, a saber, qual era o motivo daquela invasão: O Benfica jogava com um time da Inglaterra.
Chegou até o Mercado da Ribeira pela parte dos fundos, e viu uns três homens saírem comentando que aquilo ali era um museu, que a pessoa menos velha ali já passava dos cinqüenta e muitos. Ouviu som de música e pensou em entrar, foi o que fez. Atravessou todo o mercado, que estava a fechar, e ainda tinha um forte cheiro de peixe e alcançou o hall de entrada onde ficam as escadas que dão acesso ao primeiro andar. O prédio do Mercado da Ribeira é lindo, visto pelo lado de fora chega a ser suntuoso, há uma cúpula maravilhosa. No hall de entrada há duas escadas bem largas e você pode subir por qualquer dos lados. Se subir pelo lado direito vai dar no espaço em que fica a loja de artesanato, livros e vinhos, e que vinhos! Do outro lado você dá no salão que tem um restaurante com comidas portuguesas, que não é típico, porque apesar de ser vir comida portuguesa, o faz no sistema "self service". No centro há um outro salão, e ali, naquele dia, havia uma festa, era dali que vinha o som. Chegou, olhou, mas não entrou, precisava comer alguma coisa mesmo.
Dirigiu-se, então, para a lanchonete que fica do lado direito e sentou-se ao balcão onde já estava uma senhora. Pediu uma água e um vinho do porto enquanto escolhia a sandie que ia comer, quando ouviu a senhora que estava ao seu lado dizer: "É muito grande, não vou conseguir comer sozinha!" Olhou para o lado e viu qual motivo do comentário. A sandie era mesmo enorme, nem mesmo a sua própria fome daria conta daquele pão imenso. Então, sem pensar muito, virou-se para a senhora e perguntou se queria dividir com ela que pagaria a metade. A senhora concordou e então começaram a conversar.
Ficou sabendo que aquela festa acontecia três ou quatro vezes na semana, eram bailes, segundo a senhora. As mulheres pagavam 2 euros para entrar e os homens pagavam 3. Que aos domingos o preço era maior. Que, normalmente, na quarta e quinta feiras, começava as 15 e acaba as 19 e, nos demais dias, começava as 16 e acabava as 20. Era uma sexta feira, portanto, naquele dia ainda podia ver alguma coisa, foi o que fez, acabou de comer a sandie no momento em que a música, que havia parado, recomeçou.
Levantou-se e pagou a entrada. Surpreendeu-se: Muitas cadeiras de plástico branco enfileiradas. Deveria ter umas vinte filas de cadeiras. Nas laterais da sala também, circundando quase toda ela, e em fila única, havia cadeiras encostadas á parede. No espaço entre as cadeiras enfileiradas e um palco, um bom espaço para dançar. No palco havia três homens cantando e tocando: órgão e violão, um deles só fazia mesmo cantar. Alguns casais dançavam. Ela então se sentou na última fila de cadeiras, aquela mais próxima da entrada. Na verdade só queria ver aquilo. Algumas pessoas já lhe haviam falado dos bailes da Ribeira, mas ela não sabia, não tinha noção mesmo do que era.
Colocou a sacola com os livros em uma cadeira e sentou-se na outra e começou a olhar bem para tudo. Era uma observadora naquele momento, queria entender tudo, ver tudo. E era efetivamente uma surpresa mesmo. Casais de senhores dançavam ali, dançavam muito e bem. Afinidades nos pés e no corpo, rodopiavam, faziam passos diferentes, de quem aprendeu a dançar mesmo, embora ela não gostasse daquele tipo de dança, que parece que tem os passos contados, programados, apreciava quem sabia trabalhá-los. Outras pessoas, tanto mulheres como homens, estavam sentados nas cadeiras laterais e nas das filas. Ficou observando tudo e entendeu que as senhoras ficavam sentadas nas cadeiras a espera que um daqueles senhores a tirassem para dançar. Os senhores, por sua vez, ficavam ali olhando, escolhendo quem seria a próxima parceira. Aquilo tudo lhe recordou os bailes da adolescência. Achou engraçado, hilariante até, porque estava vendo isto em pleno século XXI, numa cidade europeia e entre pessoas com idade avançada, como se diz hoje, a terceira ou quarta idade.
Ficou ali quieta admirando tudo aquilo. A música tornou a parar e ela pensou que tudo já estava acabado, viu alguns casais saindo e outros a se dirigirem para o fundo do palco. Permaneceu no mesmo lugar até que a música voltou a tocar, mas notou que o baile estava terminando mesmo, porque muitas pessoas estavam deixando o local.
Como percebeu que se ficasse olhando na direção dos homens podia ser chamada para dançar, e não sendo este o seu objetivo, estava de cabeça baixa, mas não o suficiente para não ver um senhor caminhando para o final da sala em direção à saída. Um homem alto, moreno, de bigodes, com um casaco preto até os joelhos. Viu, achou-o diferente, porque não tinha a idade dos demais que já haviam passado por ela e saído. Baixou a vista, mas foi tarde demais, o homem parou na sua frente e lhe chamou para dançar, ela recusou, dizendo que estava cheia de coisas, mostrando a sacola cheia de cópias e livros. Ele não fez por menos: Isto não é problema, tirou o casaco e colocou por cima das coisas, inclusive da sua bolsa e disse: Vamos! Ninguém vai bulir em nada. Relutou um pouco, mas foi dançar.
O cidadão dançava bem e ela percebendo, disse logo: Olhe, eu gosto de dançar, mas não sou nenhuma dançarina, ao que o homem respondeu: eu ensino-te. Estranhou a colocação do pronome, mas estava em Lisboa, era assim mesmo.
Procurava dar a distância regulamentar entre ela e o cidadão, mas este cada vez mais a puxava para junto do corpo. A cada puxada para frente ela colocava mais e mais a bunda para trás, por algum tempo foi uma guerra de vai e vem. Ela queria que o homem notasse que não queria qualquer avanço, qualquer intimidade.
O cidadão, puxando-a mais uma vez para si, disse-lhe que a primeira coisa que ela tinha de aprender era colocar os braços, que deveriam ficar em volta do seu pescoço. Ela sorriu e continuou como estava dançando, da forma tradicional, uma mão no ombro do parceiro e a outra entrelaçada com a dele e com os braços esticados á direita do corpo. Todavia, ele colocou os braços dela em volta do pescoço dele e continuou dançando, era realmente um bom dançarino e tinha uma pegada diferente, sua mão direita ficava no meio das costas dela e a mão esquerda na cintura, de maneira tal que o movimento era controlado exatamente naquele sitio.
Lisboa vista do Tejo
Gostando de dançar como gostava foi deixando aquele desconhecido lhe levar, dançou uns vinte minutos e de repente o cara pergunta: Quer namorar comigo? A pergunta lhe pegou de surpresa e ela, afastando-se do homem, começou a rir muito, nem conseguia dançar, estava parada no meio do salão numa crise de riso incontrolável.
A pessoa, também sorrindo, ficava tentando pegar outra vez o seu corpo, mas não dava, ela desandava a rir de novo. Quando ela conseguiu se refazer e recomeçar a dançar a sério, já permitiu que o homem se achegasse mais, já não evitou as tentativas de aproximação do corpo. De repente ela começa a sentir um volume esquisito na altura certa, ali onde todos vocês estão pensando. Afastou-se, queria ter uma noção melhor, mas não dava para ser tão indiscreta.
Desacostumada de tudo, pois só dançava com o ex-companheiro, que de há muito, dançando com ela, não tinha mais este tipo de excitação. Queria se aproximar para sentir mesmo a novidade antiga, mas, ao mesmo tempo, queria evitar qualquer contato, ou melhor, que o cidadão achasse que ela estava a gostar. Todavia o português era um sacana mesmo, e em um dado momento da música que estavam a dançar, que por incrível que pareça era uma musica do Bruno e Marroni, "Quer casar comigo", o cidadão fez um passo diferente e no refrão da música, que repete umas quatro vezes o quer "quer, quer, quer, quer casar comigo, ser mais que bons amigos"...: ele dava uma parada, colocava a sua perna quase no meio da dela e fazia um movimento que era como se fosse uma ida e vinda ritmada ao som da música, fazia isto tanto do lado direito quanto do lado es querdo dando uma pancadinha com o seu corpo no dela na região que vocês sabem qual. Aí é que ela se assustou! O mesmo volume que ela tinha sentido de um lado, agora, com este movimento, ela sentiu do outro lado. Pirou! O que aconteceu? Que homem é este? A imaginação foi lá para casa do cacete, isto mesmo, do cacete, porque ela tava querendo entender mesmo como é que a pessoa colocava o cacete daquela maneira, em que se podia sentir de um lado e de outro.
Ficou intrigada e, discretamente, permitia-se uma esfregadinha mais intensa do parceiro dançarino, embora tentando ser bem discreta. O volume de um lado era mais duro e maior que do outro lado. Entendeu menos ainda!
Terminal ônibus no Parque Eduardo VII
A música parou novamente e ele a convidou para beber alguma coisa. Seguiram até o bar que ficava atrás do palco. Tentou olhar direito o cidadão, mas o casaco grande, que ele já tinha vestido outra vez, porque as coisas dela já estavam mais próximas, em uma das cadeiras laterais que permitiam a vigilância constante, impedia qualquer constatação.
Pediu licença, pegou a bolsa e foi até o banheiro: Abriu a bolsa, pegou o tele móvel "celular" e ligou:
- Alô, tudo bem: Só quero saber de uma coisa, e rápido: Em que lado você bota o pau?
- A pergunta pegou o irmão de surpresa: O que? Onde eu boto o que?
- Ela responde tranquilamente: É isto mesmo! Responda rápido, de que lado você bota o pau?
- Ele, a rir muito, responde: Do lado esquerdo doida!
O Tejo e Lisboa 
È bom que se diga que a ligação foi de Portugal para o Brasil
Saiu da casa de banho e foi ter com o cidadão que estava a conversar com outras pessoas, aproximou-se e disse-lhe que iria embora, ele pediu para ela ficar mais um pouco, pois o baile já estava a acabar e que aquele era o último intervalo.
Concordou e foi dançar outra vez, até porque, agora, ela iria tirar tudo a limpo, saber mesmo onde estava se encostando. Recomeçaram a dança, e de novo, as tentativas de aproximação se sucederam. Ela deixava uma hora, outra não, no jogo safado da sedução que todos conhecem, estava a gostar daquilo, relembrava-lhe a sua adolescência, quando nos bailes, os rapazes, quando acabavam de dançar, se afastavam com a mão no bolso para disfarçar o indisfarçável. Deu o espaço suficiente para sentir toda a movimentação corporal do senhor. De novo sentiu volumes em todos os dois lados, o do lado direito mais rijo. Aí não entendeu nada mesmo, mas ficou ali, permitindo a aproximação, aquela intimidade que não era para acontecer, todavia ela estava gostando mesmo daquilo. Havia ali um começo de um jogo de sedução ao qual ela já tinha se desacostumado e, naquele momento, percebeu que nem tudo acabara com o fim da sua relação. As sensações se renovam, o desejo aparece, a vontade volta, enfim, se redescobre a vida e a vontade de vivê-la intensamente. Teve esta certeza mesmo, aquele ilustre desconhecido estava lhe devolvendo a vontade de estar com alguém, de ser feliz, de partilhar amor.

O fato é que dançou mais algumas músicas com o português bigodudo e, quando finalmente acabou o baile, quando ele parou de dançar e se afastou dela para ir embora, ela o viu colocar a mão no bolso direito e de lá tirar a chave do carro, que tinha um chaveiro de corda roliço, com mais ou menos uns 10 cm. Desatou a rir. Ria e ria mais e o cara a olhar para ela sem nada entender e a lhe perguntar o que houve? Não dava para dizer.
Cais do Sodré -Lisboa
Saiu dali e foi para casa, ria todo o tempo, e, no dia seguinte, resolveu voltar à Ribeira, afinal era sábado e tinha baile e poderia com sorte encontrar o português bigodudo. Não deu outra, ele estava lá, mesmo casaco e, parecia que estava a sua espera, pois estava bem na porta de entrada e, antecipando-se, pagou a sua entrada. Entrou e ele já lhe pegou pela mão e se dirigiram a pista de dança, não antes de colocar a bolsa dela numa das cadeiras. Começaram a dançar e ela não se conteve: ria tanto que chegava a soluçar de tanto rir. Para amenizar a situação encostou-se bem nele e colocou o rosto no seu pescoço, como se para evitar que os outros percebessem que ela estava rindo tanto, como se o balanço do corpo não denunciasse isto.
O cidadão lhe perguntava o que ela tava sentindo e ela disse que lhe falaria quando parassem de dançar. Curioso, pediu ele que parassem logo, ela assentiu e foram até o bar. O problema agora era dizer, contar a história, o motivo do riso.
Tomou coragem e disse: Não sei como você vai perceber isto, mas é melhor contar logo e tirar qualquer dúvida a respeito do motivo do meu riso:
-Você se lembra que ontem deixei você aqui no bar e fui até o banheiro?
-Ele diz que sim.
-Pois é, continua ela: Naquela hora eu fui perguntar a meu irmão em que posição ele colocava o pênis no dia a dia.
O homem, pego de surpresa,  olhou para ela com uma cara indescritível: O que? De que estás a falare?
-É isto mesmo que você ouviu. Perguntei a meu irmão isto porque você estava fazendo uma "propaganda enganosa".
-Ele, entendendo menos ainda: - Eu estava a fazere o que?
- Ela repete: Propaganda enganosa, porque você colocou a chave do carro no bolso direito da calça e ela faz um volume imenso; só que você também tinha um volume do outro lado, e eu fui perguntar para saber mesmo, dos dois lados, qual era a "propaganda enganosa".
Agora foi a vez de ele rir! Ria tanto que muitos dos seus amigos chegaram junto de si para saber qual o motivo de tanta alegria e ele, quase a chorar de tanto rir, dizia que foi a piada que ela contara sobre a "propaganda enganosa".

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jogada certeira

Os olhos se fixaram: ali, do outro lado, parecia surgir uma situação, um belo final de noite.

A plataforma onde a mesa estava situada era giratória, girava no sentido inverso de onde estava o alvo.

Olhos fixos, abertos, brilhantes, atentos, tudo isto acontecia, mas a conversa com a amiga seguia o seu rumo natural, nada de comentários outros que não estivessem ligados ao assunto que conversavam.

Era efetivamente um jogo, jogo que a amiga não sabia jogar, ou então, um dia soubera e perdera o treino. Limitava-se a rir, achar interessante aquela maneira de se conseguir o que se queria num pequeno espaço de tempo, de uma maneira educada, sedutora, sensual.

De repente a garçonete se aproxima da mesa e diz:

- Com licença senhoras, o Sr. Muhad quer vos oferecer um drink. Aceitam?

A amiga fica séria e surpresa, a outra não, parece já conhecer todo o desenrolar da ação.

-Ah! Ele quer pagar um drink? Claro que aceitamos. Falou pelas duas, até porque, se a pergunta fosse dirigida a si a resposta seria não.

A amiga começa a ficar um pouco incomodada com a situação, não esta habituada, perdera o ritmo daquele jogo; já não sabia como entrar nele, dar as cartas, receber os códigos, decifrá-los e aceitá-los.

O jogo exigia “parceria”; a estratégia dependia do “outro”, de como ele se comportasse, como respondia a ao jogo, pois, dependendo da resposta a estratégia podia, rapidamente, ser modificada, uma outra técnica seria utilizada.

A garçonete volta e diz:

- “Estou me sentindo num filme” e pergunta: O que as senhoras querem: Um espumante? Um licor?

Ela se apressa em responder: - Não, vamos continuar a tomar a mesma bebida, pode ser?

- Claro que sim.

Dois uísques são servidos.

Na mesa ao lado dois casais assistem a cena. Uma das mulheres, a que estava mais próxima da mesa, e ouvira toda a conversa, fala com os outros, mas o importante não é o falar, é mesmo a expressão: o olhar diz o que as palavras não poderiam descrever naquele momento. A reprovação era manifesta.

Bebem o uísque, o fariam da mesma maneira, sendo elas mesmas a pagar, este não era um problema.

-Um brinde! Ela sugere. Um olhar mais fixo; mais penetrante, um agradecimento.

De repente a amiga ouve:

-“Venha para cá você”. Entende o que esta acontecendo, fica a espera, mas nada acontece.

Todavia, agora as coisas não podiam continuar assim. A situação teria de ter alguma definição: mais olhares, mais algumas palavras, mais gestos.

- “Não, pode vim você” Eu não saio daqui.

De repente ela diz à amiga:

-Vou ao WC.

Ok, e a amiga percebe mais uma jogada, esta, com certeza, um cheque mate. Ela agora vai mostrar todo o seu poder. Passará em frente às pessoas, se exibirá. As pessoas podem avaliar o corpo, a roupa, o rosto, enfim, ela vai ser avaliada, avaliação que já tem aprovação antecipada.

A amiga, que sempre esteve de costas não sabia quem era a pessoa, ou melhor, as pessoas, mas virou-se para ver a outra andar e mostrar todo o seu potencial.

Sorri e continua de costas tomando o seu uísque. Diz para si mesma: - Bom é assim; você é que está fora da realidade, as coisas funcionam assim mesmo, é este o jogo. Aprenda a jogá-lo, você esta em frente a uma grande professora; aproveite.

Ela volta, bebe mais um pouco e diz:

- Ta demorando muito, vai dançar. Diz outras coisas que a amiga não entende e ato contínuo pede a conta para ir embora.

Evidente que isto é mais uma jogada, uma grande cartada, o tudo ou nada, aliás. Onde estavam era assim mesmo, tudo calculado, muitas jogadas. A intenção sempre era ganhar. Ali, os perdedores, apesar de muitos, sempre tinham o sonho da vitória, apostavam nele, mas viam estes sonhos se desfazerem pelos bolsos numa rapidez descomunal.

Pagam a conta e dirigem-se para a saída. Na porta, ainda do lado de dentro, uma parada, uma espera, e aí acontece:

Um homem grande, louro, de camisa de listras aparece de longe: olha na direção das duas, desaparece, volta.

Ela percebe e diz, vamos esperar só mais um pouco.

O homem reaparece e se dirige a elas.

Num português bem enrolando diz:

- Meu nome é Paul e eu quero entregar isto da parte do meu amigo Muhad. Do you speak english?

Há um cartão e algo escrito em um guardanapo.

Ela recebe e pergunta:

- Why he didnt came? Tell him Im here waiting.

O homem vai, mas há uma pequena demora, certamente, a falta de coragem do outro em vim ter com ela.

Vira-se para a amiga e pede o telemóvel. Vai ligar para o número que esta no cartão, quando, de repente, o homem vem andando, se aproximando. Ao chegar junto dela fala algo que a amiga não entende, também não precisa entender nada. Os fatos e atos estão ali, a vista, nada precisa ser dito. Percebe quando ela diz que querem ir a algum lugar dançar, conversar. Ele pede que ela espere, tem de pagar a conta e falar com os amigos.

O homem é indiano e demonstra bem isto, a sua cor, o seu rosto, não deixam dúvidas.

Uma pequena demora que já a aborrece um pouco, ela não quer ficar ali na porta a espera. Lá vêm eles, eram três.

Um deles se aproxima e diz: - Meu nome é Tomas, sou o único que fala português aqui. Meu carro está ali no estacionamento, vamos pegá-lo.

Todos se encaminham para o parque do outro lado da rua.

Num misto de espanto, incertezas, pensamentos mis, a amiga segue a todos. Ela vira-se e lhe diz: Não seja grossa com a pessoa. Resposta automática. - Grossa não vou ser, vou tentar apenas ser educada, e mais nada.

Um dos homens diz: percebe que foi o Tomas:

- Eu vou para casa porque tenho três filhas para cuidar, mas o carro vai ficar com o Muhad e ele vai levá-las ao melhor lugar atualmente aqui, o “Urban Beach”.

A amiga não dizia nada, estava ali somente acompanhando o desenrolar dos fatos, não tinha quaisquer pretensões a nada e nem a ninguém. O carro é branco e é bonito, um bom carro, antes de deixarem o bairro onde estavam, deixam o Tomás em casa. A amiga percebe que não estão em companhia de qualquer um. O local onde o Tomás mora é de classe media é, enfim.

Seguem para o local de destino, atravessam quase toda a cidade, vão de um extremo a outro, embora isto não seja nenhuma grande viagem, tudo fica perto e pela hora, o trânsito estava livre. Muito próximo ao local aonde iam, há um retorno, que, se não feito, torna o caminho muito mais longo e aí:

- Onde esta o retorno? E o fogueteiro que estava ao lado do carro responde: - Logo em frente e você vira a esquerda no viaduto.

Ela, no mesmo instante que percebe que o Muhad entendeu tudo diz: - Que maravilha! Você já sabe falar português.

A jogada, mais uma vez deu certo. O homem sorri. A amiga vê isto pelo retrovisor. Ficou satisfeito com o comentário. Ela acertara, mais uma vez, no alvo, agora ele estava realmente em suas mãos. O tiro fora certeiro, aquele já não mais escapava.

Carro estacionado, rua cheia, música boa. “Barry White”, “Michel Boublé” a discussão não tem sentido, o que importa era a música boa que ambos gravaram em tempos diferentes.

Encaminham-se para o “Urban Beach”, infelizmente não podem entrar. A festa daquele dia é privada.

Muhad diz: - Im ashamed

Ambas se apressam em contornar a situação e dizer que não havia qualquer problema. “Dont worry”

Vão para outro espaço onde tocava a música de Michel Boublè, ou Barry White. Entram. O lugar é ótimo; a música boa.

Ela e o Muhad se entendem. A amiga se esforça para com o seu “little” inglês conversar com o Paul, que é mesmo muito divertido. Conversam, dançam. Sorriem, mas como nada vai passar disto e está a ficar tarde, despede-se e lhe diz: “Amanhã te vejo no aeroporto”. Paul, educado e inteligente, entendera perfeitamente que nada iria acontecer, também vai embora, leva-a até o taxi e pega outro.

Pronto, como sempre, está sozinha outra vez, segue de taxi para casa torcendo para que aquela jogadora, que lhe deu uma aula de sedução, e que parece não gosta de perder, seja uma vencedora, não só ali, mas em todos os momentos da vida. Ela sabe jogar, e quem assim faz, merece vencer sempre.