quinta-feira, 21 de agosto de 2014

FOGUEIRA DAS VAIDADES

Há alguns anos atrás, não me lembro bem quando, minha mãe me deu um livro - A FOGUEIRA DAS VAIDADES, Tom Wolf. Ela lia muito, e, como sabia que eu tinha herdado esta sua qualidade de grande leitora, sempre me obsequiou com livros. Não me lembro bem da história, mas sei que a personagem principal, um homem de negócios, muito bem sucedido, se vê envolvido em um acidente em alguma Rua do Bronx e daí para frente sua vida muda completamente, é preso em uma cela, e enquanto aguarda uma possível soltura, afinal ele era milionário, em que ele está sentado no chão frio, penso que molhado,  ele  sente a pressão dos gases e queria que eles lhe deixassem em paz, mas não o fazia por vergonha, humilhação, enfim, uma situação triste para quem sempre fora o sinônimo do poder, da vaidade, da riqueza.A partir disto a história retrata a vida deste cidadão e toda a trajetória da sua  queda e todos os conflitos disto resultantes
.
Não sei se minha mãe deu-me aquele livro porque gostou da história, ou porque via em mim algum potencial de tornar-me uma destas pessoas vaidosas, que adoram, ou tem como principio, humilhar os demais. A vaidade dessas pessoas é tamanha que esquecem que são humanos. Julgam-se Deuses, inatacáveis, inalcançáveis, onipotentes.  À época, eu já tinha sido aprovada em um concurso, tomado posse no cargo e, talvez ela, que se orgulhava em demasia desta sua filha, quis me mostrar algo, que a mim passou despercebido, não porque não tenha entendido a mensagem do texto, ou até mesmo o que minha mãe quis me mostrar, mas porque nunca tive mesmo nenhuma tendência à prepotência, por mais estranho que possa parecer a alguns olhos desavisados e desconhecidos de mim.
As pessoas confundem a seriedade, e muitas vezes uma timidez, com prepotência. Outro dia alguém me disse (isto parece até letra de musica brega) que tinha medo de mim. Que quando eu passava pela rua tesa, sem sequer olhar para os lados, quase correndo de tão depressa que andava, tinha medo.
Imagine! Eu conseguir amedontrar pessoas. Também ouvi isto de alguns funcionários meus, que tinham medo de mim, do meu olhar, aliás, ainda consigo isto: quando olho para alguém com o meu olhão brilhando, vejo a reação das pessoas, chegam até calar o que estão falando. O meu marido me dizia, e ainda me diz, que “não adianta nada você me olhar assim”, de tanto que incomodo com o meu olhar censor.  Quanto aos funcionários que trabalharam comigo ao longo do tempo, se é que tinham mesmo medo, a estratégia funcionou e bem, porque não tenho queixas deles, sempre trabalharam direito e sempre me respeitaram muito, e eu a eles, mas se algo dava errado realmente eu demonstrava toda a minha insatisfação. Cheguei mesmo a solicitar transferências de alguns deles, eles bem sabem os motivos, não porque eu tenha sido intransigente, carrasca, ou coisas do gênero Aliás, coisas que pouco me interessavam ou interessam, o que quis, nos meus anos de serviços prestados ao público, foi fazer com que este público fosse respeitado nos seus direitos de cidadão.
Todavia, há situações em que você dá de cara com poderosos, com pessoas que como diria minha velha mãe “tem o rei na barriga”. Seria ótima que estas pessoas pudessem defecar o próprio rei, certamente cagariam ouro, não do rei ser humano, mas do rei empáfia, do rei dourado que expõe as suas riquezas para intimidar o mais humilde. Bom o fato é que profissionalmente estive, por algum tempo, na própria fogueira das vaidades. As pessoas que, como eu, exerceram ou exercem o cargo que ocupei, na sua grande maioria “tem o rei na barriga”, em alguns casos, são o próprio rei. A história recente deste país está ai para comprovar o que digo.  O rei abdicou, mas deixou marcas indeléveis no nosso Judiciário, tudo por conta de uma soberba, de um complexo, de uma falta de humildade.
Entretanto, não foi só profissionalmente que me deparei com esta fogueira de vaidades. Sempre gostei de estudar, estudar, ler, conhecer, saber; para mim deveria ser uma coisa inerente a todos. Todo mundo devia gostar de aprender. Fico puta da vida quando ouço alguém dizer que não gosta de ler, aliás, o nosso ultimo presidente, em uma entrevista, disse não gostar de ler, que era preguiçoso para ler. Ainda que tenha sido, também, preguiçoso para ler, ele não deveria declarar isto em público; pessoas malformadas e desavisadas podem assimilar isto da pior maneira possível, afinal, se eu posso ser presidente de uma República (ainda que das bananas) sem ler, sem estudar, sem formação alguma, por que vou me preocupar em me educar, em conhecer, em, ao menos, ter a curiosidade do saber. Num país como o nosso, em que hoje ricos são os jogadores de futebol, os cantores de bandas de pagode, os cantores de música sertaneja, e que pasmem, carregam em si uma fogueira de vaidades tamanho família, definitivamente, o conhecer, o ler, o estudar não é mesmo prioridade e nem faz parte do eu de cada um.
Bom, mas voltando as vaidades. Aposentei-me e voltei a estudar, aliás, nunca parei a bem verdade, pois, enquanto trabalhava fiz especialização, cursos de língua (inglês, francês, italiano, espanhol) não falo nada, arranho tudo, mas a vontade não faltou, a licenciatura em história, diversos cursos de aperfeiçoamento, reciclagem, o nome que quiserem dar às atualizações do saber.  Fiz tudo isto discretamente, embora, para alguns que tiveram conhecimento disto, tenha sido uma maluquice fazer a licenciatura em história, quando, como bela. em direito que era, poderia fazer uma especialização, um mestrado, um doutorado, enfim.  Não, eu queria fazer história, e fiz.  Na Faculdade, a impressão que tinha é que era uma paria, porque a fogueira da vaidade de outros, fizeram com que os meus pares, os discentes, me colocassem dentro desta fogueira.  Tive muitos poucos colegas que se aproximaram de mim, penso que somente a Val e Neyde (que sempre chamei de Laidejane) é que conseguiram entender que não fui eu quem fez a opção de ser diferente, ou de querer participar do caldeirão das vaidades. Certo que tinha de me portar como autoridade que era dentro da cidade, mas isto não significava que eu queria me colocar em algum altar, em algum pedestal, que eu queria marcar alguma diferença, mas a verdade é que eu não tinha mesmo tempo de me preocupar com isto, e consegui me formar em História.  Aposentei-me, como já disse, tive problemas pessoais, e resolvi me afastar de tudo, mas um afastamento que me desse algum resultado, tanto emocional, como culturalmente, então resolvi fazer o mestrado em História em outro país. Menino, que horror!
 È bom que se diga que antes eu já tinha passado por uma experiência na área de Direito, em uma universidade também do exterior.  Tenho a impressão que o pessoal da área de direito tem “mais reis nas barrigas” de que em outras áreas.   Então eu não via aquelas criaturas a recém saídas da graduação se portarem como grandes juristas, filósofos, etc. Eu fiquei humilhada do meu pobre saber, como era diminuta em relação a eles e aos professores! Ali a fogueira das vaidades se apresentava com toda a sua trepidação. A miserável faiscava desde a sua base até o seu cume, eu nem era, sequer, uma  das fagulhas que se desprendiam e apagavam no ar.  Não gostei do ambiente, das pessoas, de nada. Vi cenas que até hoje me incomodam, cenas que partiram de uma cidadã que faz parte do Tribunal Constitucional do país em que estudei, mas isto não vem ao caso, a vaidade é uma nota comum a todos que participam, não só daquele tribunal, que, aliás, quem ocupa o cargo, o faz por indicação, é temporário até, não se faz concurso e nem é alcançado através de promoção dentro de uma carreira organizada, mas isto, ao que parece, até potencializa a vaidade, como de qualquer outro tribunal ou de instituições outras.
A experiência em direito, entretanto, não me fez arrefecer a vontade de saber e eu fui mesmo fazer o Mestrado em História.
Como de costume, tive de apresentar o meu currículo e todas as minhas outras credenciais para me candidatar ao mestrado, inclusive, o que eu achava mais importante, um projeto. Foi marcada uma entrevista, não sei bem para que, mas eu estava lá. A entrevista, para mim, pró forma, não acrescentou mais nada ao meu já lido currículo. Fui aceita e comecei o mestrado. Dia da apresentação, ou seja, o primeiro dia de aula, me colocaram em uma posição bem difícil: eu olhava as pessoas que estavam ali, alunos recém saídos do curso de graduação em História da África, africanos, franceses, mas todos  demonstravam o querer saber, alguns um pouco intimidados com os próprios professores já conhecidos. Eu não sentia absolutamente nada, a não ser a apreensão de estar retornando a uma sala de aula, quanto pior, em um mestrado, fora do meu país, sem saber muito que ia acontecer. Aí aconteceu o que eu realmente não estava esperando e para o que não estava preparada. Chegou a hora da minha apresentação aos demais. Levantei-me disse o meu nome, a minha origem, e me declarei funcionaria pública. Pra meu estranhamento, e penso que de todos, a doutora que era a coordenadora do mestrado e que fazia parte do colegiado, disse: “A Esmeralda é juíza no Brasil, e nos dá a honra de participar do nosso mestrado”. Fiquei vermelha, completamente sem graça. Se ela pensou que me fez algum favor, devia saber que não. A partir daí não tive como me aproximar de nenhum dos meus colegas, tanto que, o que não é nada comum, em oito anos, entre mestrado e doutorado, nunca consegui fazer qualquer amizade com um dos meus colegas. Ou seja, mais uma vez, me colocaram dentro do caldeirão das vaidades alheias.
Sou mestre e doutora em História. E aí? Qual a diferença?  Nada, continuo comendo, bebendo, e, embora com alguma dificuldade, fazendo as necessidades físicas; estou envelhecendo, esperando que a UFBA reconheça meus graus, pois se isto não acontecer não sou porra nenhuma neste país. Sou mãe, avó, tenho momentos de imensa angústia, de grande euforia, de dúvidas, de incertezas, de alegria, enfim, sou um ser humano que  gostaria muito de dar uma contribuição maior para a humanidade. Sim, eu gostaria muito de escrever, de ajudar pessoas, de contribuir para despertar nelas a vontade de querer conhecer, o primeiro caminho para o saber. Não se conhece nada se não se tem curiosidade, e não se sabe nada se não se conhece.
Queria, aliás, vou tentando, escrever o que penso, sem estar preocupada se alguém já disse isto ou aquilo. Quando a gente se preocupa com o que já disseram, vamos nos limitar a contestar ou repetir. Contestar para que? A não ser que a coisa atinja prejudicialmente uma grande parte de pessoas, porque se o seu falar, se a sua ação não prejudica, se as pessoas contestam apenas porque não lhe agrada o que você diz, não vale à pena, até porque temos que pensar que, quem falou elaborou o seu pensamento, estudou, fez uma tese sobre aquilo, olhe que eu estou falando de coisas importantes, de gente que estuda e que expõe as suas idéias. È tão bom criar o novo, sair do mesmo e criar opções sem repetir o que outrem já disse ou fez. Não importa que estejamos expostos às criticas dos vaidosos, não devemos nos intimidar diante disto. Eles vão criticar sempre, porque não querem perder a sua intangibilidade. Se aparece alguém com idéias diversas que podem desestabilizar o que já está constituído e, portanto, cômodo, tem-se é que tentar eliminá-lo, e na vida acadêmica, isto se faz através de um critica, muitas vezes sem qualquer sentido, em que as pessoas menosprezam o trabalho de alguém de uma maneira tão hostil, que a pessoa desiste se julgando muito ruim, quando na verdade o que está sendo exposto ali é tão somente o medo daqueles que não podem perder o seu status e que temem deixar a “fogueira das vaidades”.
Reconheço que existem coisas medíocres, aliás, que partem até mesmo destas pessoas que se julgam os donos do saber, sem dúvida alguma temos de saber separar o joio do trigo, mas tudo isto pode ser feito sem que a “vaidade” dos julgadores, lhes permita humilhar quem quer que seja. A crítica bem feita, bem ponderada nos faz crescer, ajustam, eliminam erros, enfim, faz o sujeito pensar, mas aquelas que partem tão somente dos que se sentem ameaçados nas suas vaidades não podem continuar alimentado as suas fogueiras interiores. Reajam, joguem água gelada, apaguem as fogueiras deles. Aprendam a aquecer as suas fornalhas interiores e não se deixem abater, mas cuidado, não permitam que as sua fornalhas interiores, efervescentes, borbulhantes, em plena ebulição tornem-se, exatamente, uma "fogueira de vaidades”.