quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Quatro horas de um dia qualquer de novembro

De repente os seus encontram olhos diferentes dos que já havia  visto naquelas paragens. Sim, era um novo olhar, penetrante, ousado, sensual. Ela não conseguiu desviar os seus olhos, ficou ali meio paralisada olhando fixamente para aqueles olhos que nem piscavam, mas ela conseguiu sair  dali, deu as costas e voltou para o salão de danças onde estava, entretanto, sabia  que  aquele olhar  ia segui-la,  então resolveu que o melhor seria ir embora.  Dirigiu-se para o maleteiro, mas ai já era tarde,  o olhar estava de frente para si, e a atração dele era tão forte que ela não conseguiu  desviar  nem mesmo o seu corpo do do dono daquele olhar, que, num gesto  a chamou para dançar. Ela, a principio, disse que não, mas a sua mão já estava sendo guiada para a pista de dança.  Não se lembra da música, mas era uma música lenta e, ao que parecia, o dono do olhar não tinha o mesmo domínio do olhar nos pés, lhe deu algumas pisadas nos apenas três minutos que dançaram, mas nos três minutos ela pode sentir  que a mão era forte, o corpo era musculoso, e que o cidadão estava visivelmente  nervoso.
Ele mesmo, que tinha feito o convite para uma dança, agora desistia dela tremendo, e lhe disse: “Eu não sei dançar, só  lhe chamei porque  percebi que você iria embora e eu não poderia  deixar que isto acontecesse.”
Ela  sorriu e saiu da pista em direção ao maleteiro.
“Posso lhe pagar uma bebida?”
“Não, já estou indo embora”, respondeu sem sequer levantar os olhos, pois sabia que, se o fizesse, iria ficar ali, tomar a bebida, conversar, rodopiar pelo salão mesmo com os pés pisados; pressentia que aquela companhia lhe faria bem.
“Vá lá, é só uma bebida!”
 Lá se foram os dois para o balcão do improvisado bar que era  armado  nos dias de bailes.
“O que você bebe?”
“O que você estava bebendo”?
“Uma imperial, mas  notei que você bebe whisky “
“É verdade, prefiro beber whisky”
Whisky servido e ele a convida para sentar em uma das mesas do hall. Ela o segue sem falar nada.
Sentam-se e ela pergunta: “É a primeira vez que você em aqui não é?”
“Sim, sim, é a primeira vez: vim a Lisboa para encontrar uns amigos para a nossa comemoração anual natalina, e como vai ser mais tarde, resolvi  dar uma andada para ver Lisboa e, de repente, passando  aqui pelo  Cais Sodré, ouvi o som da música e  seguindo-o  vim parar aqui.”
“É, notei que você nunca  tinha vindo aqui antes, aqui as pessoas são quase sempre as mesmas, e quando aparece uma cara diferente a gente nota.”
Um silêncio, e ele comenta:  “Vi a si logo que entrei, estavas a dançar  com uma menina, fiquei parado olhando por algum tempo a sincronização  dos passos e gestos das  duas.”
“Foi mesmo?  Não notei.  Danço com ela sempre que venho aqui, ela gosta de dançar, dança bem, mas parece que tem algum problema mental e  fica dançando sozinha; quando estou por perto ela sempre vem dançar comigo e eu  dou algumas rodadas com ela, mas tenho de sair logo porque, caso contrário, ela se gruda em mim e eu tenho de ficar todo o tempo ali, bem perto do palco e dos pais dela dançando”.
“Ah, ela não é sua filha? Achei que era, embora sem entender como uma pessoa tão bonita  podia ser mãe de uma  menina  tão diferente de si, e casada com um pessoa tão estranha como o homem que estava por perto de vocês”
‘Kkkkkkkkkkkkk”! Ela não conteve o riso, realmente, só um estranho  poderia ter uma ideia desta, não que não pudesse ter uma filha, mas ser casada com o pai daquela menina era demais para ela, o homem pequeno, feio, mal vestido, com cara de cigano, enfim, nunca  passaria pela sua cabeça tamanha temeridade.
Ele sorria, enquanto ela gargalhava sem conseguir controlar-se.  O copo dele estava vazio e ele perguntou-lhe se queria beber mais, ela disse que não, que iria embora, mas ele a convidou para tomar um copo em outro lugar. Ela foi pegar as suas coisas e ambos saíram da Ribeira como se já se conhecessem há anos, sorrindo, conversando, alegres.
Era um sábado pela tarde, Lisboa, taciturna no seu inverno, estava  toda nublada, as pessoas  agasalhadas passavam por eles que caminhavam pelas ruas sem qualquer destino, apenas  andavam. De repente ambos pararam, ali na  Praça  do Paço Municipal, e sem nada dizerem um ao outro estavam se olhando fixamente e o inevitável  aconteceu, os dois estavam em plena  praça beijando-se loucamente.
Aquilo era meio inusitado para ela, mas ela não conseguia afastar-se dele, que mostrava toda a sua voracidade nos lábios úmidos que se agigantaram quando encontraram os seus. Sim aquele homem sabia beijar, e estava despertando nela reações há muito adormecidas.
Rua das Portas de Santo Antão-Lisboa
De mãos dadas continuaram o caminho, sem destino, apenas andavam, Rua Augusta, Rossio, Portas de Santo Antão; pararam em frente  à Casa do Alentejo,  subiram as escadas, e ele a convidou para mais um drink, agora eles tomariam vinho. O restaurante estava cheio e eles ficaram  nos corredores imensos  aguardando uma mesa, mas enquanto o faziam entraram numa sacada e ali, em frente  a muitos, beijaram-se muito, era impossível para ela controlar-se e controlar a volúpia daquele homem, que lhe mostrava  com o corpo o que ela pensava não ser mais capaz de despertar em alguém, o desejo, o tesão.
Tomaram uma garrafa de vinho, e foi assim que conheceu o "Cartuxa", vinho que recomenda a todos, até ao mais exigente enologo.
A demora fez com que eles desistissem  do jantar e pagaram o vinho e saíram dali, para se abancarem em outro restaurante, um  mais moderno, logo depois do Valentino  ali nos Restauradores. Beberam mais duas garrafas de vinho e já estavam bem altos quando dali saíram  e ela, visivelmente embriagada, lhe disse que iria embora, que pegaria um  taxi para ir para casa, Ele, talvez achando que  ia ser convidado para acompanha-la, ficou  olhando-a, e ela  concluiu: e você vai encontrar seus amigos  para a comemoração.
Despediram-se, sem troca de telefones, endereços, nada,  apenas  uma  única indicação: O seu nome era Zé e era do Alentejo
Em quatro horas, um começo e o fim de uma estória que poderia ter sido linda.
De qualquer maneira agradece a este ilustre desconhecido que conseguiu, durante quatro horas, fazê-la esquecer do passado, viver o presente, e sequer pensar no futuro. 


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Desalento

Os dias passaram a ser muito previsíveis e normais, e ela não gostava nada disto. Gostava do movimento, da vida, das mudanças. Não queria mudanças radicais, aliás, nunca gostou delas, mas gostava das mudanças que iam acontecendo no dia a dia, no passar do tempo, no decorrer da vida. As mudanças realmente precisam existir, mas nada de radicalismos, de inversão do curso, de retomadas. Todavia, ela que gostava tanto de esperar o dia seguinte com novas  coisas,  com mínimas mudanças, mas que significavam tanto, agora estava tão somente esperando: esperando talvez o que não viesse.
Deixou de se cuidar, pelos menos na sua aparência externa, já não pintava os cabelos que demonstravam todo o seu passar de anos, agora sem grandes esperanças de um novo momento, um novo acontecimento, uma nova vida.  Os dias  eram divididos entre as leituras, que já não a satisfaziam mais, a televisão, as suas plantas, que, também  em solidariedade a si, já não se mostravam tão viçosas, como eram há algum tempo atrás.
Fora obrigada a cortar a goiabeira, podar as palhas do coqueiro, os galhos da pitangueira. O coqueiro, o mais solidário de todos, resolveu não mais produzir, os seus rebentos caem antes mesmo de se tornarem coquinhos. A pitangueira pegou uma doença, as folhas começaram a ficar pretas e os frutos secam antes mesmo de alcançar um tamanho ideal, não amadurecem, secam apenas, numa demonstração que a planta esta ressentida.
O jasmim, que fora plantado com tanta esperança de, não só perfumar o ambiente,  como, também, de resguardar a privacidade  do chuveirão, onde ela toma o seu delicioso banho sem  ser alcançada pelos olhos curiosos dos vizinhos, agora resolveu  secar, no emaranhado  dos seus  finos caules está se perdendo e perdendo a sua função.
Sim, tudo está triste na casa. A terra, apesar de receber a seiva todos os dias,  seca numa rapidez, mostrando toda a sua aridez, aridez que se confunde com a aridez  daquela que cuida dela. A grama, outrora verde, muito verdinha, aparece queimada aqui e ali,  montinhos de barro que parecem passados na peneira, se mostram em alguns  cantos, são as formigas querendo devorar o que ainda pode ser devorado. Os “venenos” colocados não são suficientes para matar as danadas, que, diferentemente dela, insistem em fazer os dias diferentes: a cada momento um deslocamento, um outro buraco aparece, mais uma  planta devorada, mas um caminho sendo  aberto por maravilhosas trilhadeiras.  Ela está atenta, mas sem a coragem de  mover-se para mudar o rumo de tudo isto, parecia que  queria, juntamente com o que  “deu vida”, desaparecer de uma vez por todas.  Era inútil malhar em ferro frio, as coisas estavam, ou melhor, saíram do seu controle, em todos os aspectos: finanças, emoção, amor,  tudo parecia  querer contrariar uma existência  que sempre foi  preenchida por lutas, vitórias, esperança, mudanças, realizações.
O que mais fazer? Parece que tudo está acabado. Até o colchão da cama  onde algum hóspede
dorme está contra sí, imagine que o derradeiro se queixou de dores na coluna causada por aquele inimigo, que sabia perfeitamente que se desse uma bela noite ao hóspede ele seria capaz de voltar.
Fica associando essas coisas e vê quão a sua vida tornou-se inútil. Não tem  expectativas, acabaram-se os sonhos, não consegue  mesmo nem sonhar, uma coisa que adorava fazer, porque uma grande parte dos seus sonhos de olhos abertos, aqueles que  eram possíveis, foram realizados.  Chora muito; tenta, com as lágrimas, afastar  o que  são pesadelos agora, os sonhos que sabe, não realizará mais, acabaram-se as ilusões, sua alma está em completa  amorfia. A vida nova de alguns, que vieram sem ser chamados, quer se meter na sua  violentamente, e ela está  vendo tudo acontecer sem  reação, a não ser a pior delas,  a que se reflete no seu próprio eu, que mais desgastado fá-la  mais dura, mais arredia, mais triste, mais solitária, mais descrente.
Muitas traições, muitas decepções, muitas separações, muitas distâncias e ela, que  gostava tanto de sorrir, de fazer alguém feliz, de ser feliz por isso mesmo, por poder fazer  o outro feliz, está  ali, sozinha diante dos seus livros com pó,  de vidros embaçados, de um ventilador que não ventila, de uma vida que se está indo embora com a sua dor, que ela não quer dividir com ninguém, pois se não pode dividir felicidade, também não vai  incomodar ninguém com a sua  desesperança,  a sua infelicidade, o seu não viver.
Entretanto, há uma tênue esperança de sobrevivência, e ela vai se agarrar a isto; e, quem sabe: mais uma vez possa florescer  e com ela as suas plantas, as suas árvores, os seus sonhos. Sabe que tem que se agarrar a esta esperança, e é o que tentará fazer,  e o que efetivamente fará, porque  sua capacidade de regeneração é incrível, ela sabe disto, mesmo quando o ser humano lhe magoa tanto numa vingança  miserável própria daqueles que não tem qualquer princípio ou nobreza de alma.
É! Pensava que já tinha passado tudo na vida, de bom e de ruim, mas depois dos últimos acontecimentos, aos quais não deu causa, só sofre as consequências, nota que apesar da monotonia de seus dias, do pouco movimento  que faz para mudar as suas coisas, outrem o faz por ela, da pior maneira possível, mas o faz, deixando, cada dia mais, marcas indeléveis, que  nenhum bálsamo pode curar, apenas a deixarão dependente dele, que pode não estar disponível quando ela, efetivamente, precisar.
Duas amigas - Reflorescimento

Ela é, apesar de tudo, grande e sabe perdoar, e o faz agora, em relação àqueles que tanto  a tem magoado, com ações, omissões, desrespeito, descaso. Sabe que um dia perceberão  o erro  que estão cometendo, talvez tarde para eles, que já não terão  mais tempo de, nem mesmo, aceitarem este perdão.