sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uma Maçaroca! Ou será Massaroca?

Vinha andando pela Avenida 24 de julho, uma confusão, continuo sem entender esta porra de mão inglesa. Me faz uma tremenda confusão. Fico olhando para o lado errado e esqueço, literalmente, de que lado que os carros veem, mas tenho que andar na cidade e me arrisco, a qualquer momento, ser atropelada. Tem uma porra de uma avenida então que é uma miséria, fico olhando para todos os lados sem entender nada; carros parados e o sinal vermelho para todos, pedestres e carros, vejo as pessoas tranquilamente atravessando e não percebo nada. Fico me perguntando se a mão inglesa muda também os sinais internacionais de trânsito? Acho que vou ver isto no código internacional de trânsito, me sinto uma verdadeira idiota.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Amigas inseparáveis! Será?

Eram três amigas quase inseparáveis, tinha uma quarta, que era apenas uma abelhuda, nada mais que isto.

Chamavam-se Lu, Tina e Geo. Duas delas, Lu e Gel, eram esquisitas, ficavam estranhas com a roupa de anarruga que tinham de vestir. Lu vestia a verde, Gel a azul ou rosa. É que a cor fazia diferença entre os graus escolares e idades. As mais velhas e que já estavam no curso pedagógico vestiam azul; as que estavam no ginásio vestiam verde. Era alguma coisa assim.

A roupa era um robe até o joelho, que tinha um cinto do mesmo padrão. Era este cinto que dava um jeitinho melhor no corpo de quem já tinha ele melhor mesmo, do contrário fazia parecer que a pessoa era um saco amarrado pela cintura.

Tina ficava bem com esta roupa, o mesmo acontecendo quando estava com a farda da escola, blusa branca e saia de machos azuis, sapato vulcabras colegial e meias. Era do tipo que qualquer coisa lhe caia bem. As outras duas, coitadas, pareciam não se adaptar a roupa alguma, não nasceram para vestir saias ou vestidos. Lu era uma mulher feia, morena cara de cavalo enorme, cabelos bem pretos e cheios, o que bem aumentava o tamanho do rosto, porque tinha um corte para lá de esquisito. Os olhos eram bem negros. Era mais ou menos alta e andava meio curvada e tinha as pernas meio tortas, aliás, andando, fazia questão de acentuar isto.

Geo era uma espécie de loura. Cortava o cabelo bem curtinho, mas curtinho mesmo. Usava óculos e tinha os olhos mais para o claro. Tinha estatura média, talvez um pouco maior que Lu. Também ficava muito estranha usando saia, pois tinha as pernas tortas, não tinha bunda e andava, também, com uma curvatura nos ombros.

Tina não! Tina era mesmo uma mulher para homem algum botar defeito. Pernas grossas, coxas duras e grossas. Não era magra, mas nada tinha de gorda. Tinha cintura fina, braços roliços. Um rosto bonito de mulher, não era de bonequinha. O cabelo era no ombro e tinha uma tonalidade castanha claro, já chegando para o mel. Os olhos eram verdes. Era mesmo uma beleza de fêmea, e ela bem sabia disto.

Andavam sempre as três. A abelhuda achava estranho, pois as duas outras faziam tudo que a Tina queria, era como se fosse um jogo, quem me der mais me leva.

E era um tal de ir buscar café quentinho, leite, trocar pão com outra pessoa porque ela gostava de pão mais queimado, fazer os deveres de casa, neste particular Geo levava a vantagem, pois já era quase uma professora.

A vida ia indo sempre assim. A abelhuda, porque era muito jovem mesmo, achava aquilo tudo estranho, mas não questionava muito nada, até porque, como a diferença de idade entre ela e as três era imensa, ninguém lhe daria qualquer satisfação, fosse ela boa ou ruim, satisfatória ou não. Elas lhe toleravam ali porque gostavam dela e também porque, depois a abelhuda percebeu, era muito conveniente ter quatro pessoas e não só as três de sempre, dava menos nas vistas.

Um dia estavam as três numa mesa tomando café. Havia uma coisa qualquer no ar, que a abelhuda não percebia o que era, mas sabia que algo estava acontecendo. Foi para a mesa delas, mas a Geo pediu que ela saísse porque elas estavam conversando uma coisa séria. Saiu de perto, mas ficou na espreita, afinal era uma abelhuda e tinha de agir como convinha a uma.

As três discutiam. A Geo falava, a Lu retrucava, a Tina dizia algo sem se alterar. As outras duas estavam bem alteradas, pareciam que queriam se comer. Saia faísca para todos os lados. Tina, de vez em quando, fazia sinal para elas falarem mais baixo, mas a discussão ganhava mais calor a cada momento. Tanto Lu quanto Geo tinham as xícaras de café em frente a si. Em um dado momento Geo pega a xícara e atiça com café e tudo na cara de Lu. O café estava quente e quase faz um estrago daqueles na cara da outra, que também, ato continuo, jogou a sua xícara na Geo. O mangue se formou. Tina estava transtornada e gritava para elas pararem, as duas estavam se pegando, quando as freiras, e olhe que foram bem umas cinco, se aproximaram correndo tentando tirar uma de cima da outra. Um verdadeiro carnaval. Todas as internas pararam o café para assistir a cena. As irmãs quiseram tirá-las do local, mas era impossível, todas queriam ver aquilo e também era preciso acabar com aquela briga que podia terminar em tragédia, e elas preferiram se ocupar disto.

O jardineiro é chamado, ali era necessária a força de um homem para controlar os outros dois, que agora mostravam mesmo toda sua força masculina, de macho que lutava pela sua fêmea.

Resultado: Lu expulsa, Geo, porque estava mesmo formando-se em professora, terminou o curso externa, e Tina, a causadora de tudo, mas que não tinha brigado nem nada, não tinha feito absolutamente nada, isto é, que as irmãs tivessem percebido, isto em relação ás vias de fato, porque as freiras sabiam perfeitamente que ela era o pivot daquilo tudo, ela era o troféu que estava sendo disputado pelas outras duas, sairia da escola no final do ano, após o término do ano letivo.

Para a abelhuda não sobrou nada, a não ser, anos depois, entender o que tinha se passado naquele dia. Quando entendeu tudo percebeu o risco que correu andando com as três na sua inocência, que não era vista como tal, por tantos quantos sabiam do caso entre as três internas.

É mesmo assim. O internato tem dessas. As paredes dos internatos têm muitos segredos, muitos deles nunca serão divulgados, mas há sempre um “Boca do Inferno” atento, e um dia, quem sabe...!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resenha da vida alheia


Estavam num restaurante de nome ESCORPIÃO na Feira Popular de Maputo. O nome do restaurante já não recomenda bem, pois lembrem que escorpião, além de ser venenoso, mata com o rabo, aliás, era o que parecia não faltar naquela mulher.

O homem nem sequer olhava para ela. Olhava para tudo, para a televisão, para quem passava, para frente, para o lado contrário, mas nunca para o lado direito onde ela estava.

Ela era uma negra, parecia usar peruca, o que é bem normal em Moçambique, era feia e tinha uma testa enorme. A peruca estava colocada quase no meio da cabeça, fazendo com que a testa parecesse maior. As unhas enormes, “a La Du Carmo”, com esmalte bem vermelho, um contraste da porra com a cor da sua pele. Usava um casaco preto, que não dava para ver a roupa que estava vestindo. Não dava para saber do corpo porque estava sentada, mas parecia ser gorda, e a calcular pela aparência e por tudo já visto em Maputo, devia ter uma bunda característica da maioria das mulheres daqui, enorme e cheia de culote e celulite.

O homem era magro e parecia ter um corpo másculo e bem feito, entretanto não dá para garantir, porque não levantou.

Ela usava uma aliança na mão esquerda, que realçava ainda mais, tanto a cor própria quanto as das unhas à “La Du Carmo”.

Estava há umas quatro mesas da deles e tentava captar a conversa pelos lábios da mulher.

Ela falava de uma maneira que, pela intuição feminina que temos, nós as mulheres, parecia querer saber algo do senhor, uma resposta, uma justificativa para alguma coisa que fazia parte da relação deles.

O olhar dela era incisivo! Ela não desviava o olhar da face do homem enquanto falava, mas o cidadão nem mesmo levantava a cabeça.

Por um momento a leitura dos lábios dá a impressão que ela diz:

- Quero uma explicação, sei que nos damos bem na cama!

Portanto, não era este o motivo do problema para ela, e ela queria saber qual. Parecia estar tentando se segurar, controlar a situação sem perder a classe.

As mãos se juntam e batem na mesa em um gesto nervoso.

O homem nem se abala, quando muito sorri cinicamente, é o que parece, pois não da para ver todo o seu rosto de onde estava.

A mulher continua a falar, a gesticular, a olhar para ele fixamente.

Ele na mesma postura

De novo, um novo gesto e as pontas dos dedos agora batem repetidas vezes na mesa, era como se a mulher quisesse acompanhar com os dedos o seu raciocínio verbalizado.

Os dedos fazem um desenho na mesma, não é um desenho premeditado, é apenas um caminho para ela poder aliviar a tensão, é como se os dedos e a forma que eles desenhavam lhe ajudassem a dizer o que lhe ia na alma naquele momento.

A comida chega. Agora o homem se mexe porque vai comer, nada além disso. A mulher continua a falar. Questiona-o; o seu rosto é uma interrogação só. Pergunta e quer resposta, olha-o, como sempre, fixamente.

O sacana, olha já o julgamento feminino, não tá nem aí, continua a comer na dele.

Ela dá um sorriso irônico, como se quisesse dizer que não acredita em nada que ele possa dizer.

Os olhos abrem-se mais e ela fala com alguma ironia mesmo. Não dá para perceber o que. A mulher quase não mastiga, porque não para de falar um minuto sequer, é sempre falando, argumentando. Nem mesmo se o cara quisesse dizer alguma coisa poderia, ela não dava tempo.

A conta chegou, tem de ser paga, mas não se quer perder nenhum lance. Fica-se e, num guardanapo, começa-se a descrever a cena.

Não há mais dúvidas: Tá pagando a conta e vê o cara mostrar o visor do telefone para a mulher. Ela coloca um pouco a cabeça para trás para olhar o tele móvel: Quem é? Não se vê e nem se ouve a resposta, mas o cara faz um gesto com a mão, como se quisesse indicar que era a mesma pessoa que tinha ligado antes. Ela olha o visor outra vez e não diz nada. Apenas sorri ironicamente balançando a cabeça. Era como se disse em boa gíria “não tô comendo nada disso”.

A expressão dela muda, a fala fica mais incisiva, o olhar procura o dele incessantemente, mas o cara não se arrisca, sabe perfeitamente que o seu olhar pode demonstrar a realidade cruel que ela, apesar de tudo, de tantos questionamentos não queria saber, ou melhor, ter a certeza.

O rosto contrai-se, agora expressa aborrecimento, entretanto, ela não para de comer.

Tinha mesmo que ir embora, precisava sair dali; não só porque já pagara a conta, como também, porque o homem que está sentado na mesa junta à dela, começa a chupar os dentes, e isto, nem mesmo a resenha da vida dos outros, levar-lhe-ia a suportar.

Levanta-se e pensa: vou passar bem junto a mesa deles para ver se capto alguma coisa. Neste momento o homem faz um gesto e vê-se a aliança na mão esquerda, aliás, impossível não ver, o dourado faz mesmo contraste com a pele negra e aparece muito, aliado ao fato de que a grossura dela jamais deixaria que ela passasse despercebida. No entanto, parece que de nada adiantou, ou adianta, tanto brilho: as outras não se importam com isso, tampouco ele, com certeza.

Passa pela mesa deles, mas não ouve nada, ela parece ser uma pessoa educada, fala baixo, mas não dá para ter dúvidas: ali estava uma relação a terminar, e a terminar como muitas outras, por causa de alguma outra, MÁ-PUTA.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Maputa da vida!

Maputo acumula decepções. Hoje tive várias. A primeira delas foi chegar ao local onde funciona o Arquivo Histórico de Moçambique e ter a noticia de que as fontes primárias não se encontram ali, e sim em um depósito no campus da Universidade.

Isto não seria qualquer problema, se eu não tivesse ligado n vezes para o arquivo, enviado mensagens dizendo o que queria, enfim, tivesse tentando saber tudo antes da chegada, a fim de não perder tempo.

domingo, 25 de julho de 2010

Chegada em Maputo

Ela chega cansada, mas ainda tem que esperar as autoridades do país permitirem a sua entrada, embora já tivesse o visto fornecido pelo Consulado em Portugal.

Não tem jeito, pega a fila para estrangeiros. Tudo é manual, não ha qualquer meio eletrônico para concessão do visto ou confirmação dele. Tem de esperar na fila imensa que se formou. Somente três funcionários em dois guichês, que mais parecem barracas de feira armadas em local coberto.
Passam pessoas na sua frente; a funcionaria levanta para atender um seu conhecido, ou melhor, para facilitar-lhe as coisas. O homem passa na frente de todo mundo e sem qualquer protocolo. É impressionante!

Passada a primeira etapa, uma segunda. O controle da bagagem. No aeroporto uma só esteira. A sua mala foi uma das últimas a chegar, passou, mais ou menos, 2 horas a esperar que, num processo completamente manual, as malas fossem tiradas do avião e chegassem até o desembarque.
Não encontrou carrinho de bagagem. AH! Detalhe: O carro de bagagem parece um grande carro de transporte de cargas em supermercados. Somente conseguiu um depois que quase todos os passageiros do vôo pegaram as suas bagagens.

Assim que pegou o carrinho um senhor se aproxima e, sem pedir nada e sem a sua licença, começa a empurrar o carro. Ela tenta tomar o carro da sua mão, mas ele insiste e diz que vai ajudá-la a passar no controle de bagagem, caso contrário ela vai pagar algum dinheiro ao pessoal. Ela diz: Não vou pagar nada porque não tenho nada de errado na minha bagagem, portanto podem abrir e fazer o que quiserem. O homem insiste e a bagagem é retirada do carro e colocada na única máquina do raios-X. Quando a bagagem sai do outro lado alguém lhe diz que ela foi selecionada, o homem lhe puxa e diz que o acompanhe, ela diz não. O homem continua a empurrar o carro e ela tentando tomar-lhe das mãos. A funcionária diz: O que é isto, então a mala foi selecionada e vão levando-a embora. Ela para e pergunta a funcionária, é para colocar a mala onde? O homem fala alguma coisa com a funcionária em uma língua que não entende, e a funcionária diz que podem ir.

Ela continua a tentar tomar o carro da mão do homem que fala, mais uma vez, que se ele não estivesse ali ela ia pagar muito dinheiro. Ele segue em direção à fila de taxis. Quando coloca a mala no bagageiro diz que quer cinco euros, ela dá risada e diz que não tem e que, ainda que tivesse não pagaria porque era muito caro. Tira uma moeda de dois euros e dá ao homem que se aborrece. Ela nem liga e entra no taxi e diz o nome do hotel.

O taxi não tem taxímetro ou tabela de preços, ela pergunta o homem o preço e ele diz trezentos meticais. Não acha caro e nem barato, porque não consegue entender muito bem o valor da moeda do país, mas ainda que fosse bem caro, ela pagaria qualquer coisa, pois estava muito cansada, a viagem tinha sido péssima. Não conseguira dormir nada, a companheira de viagem era uma mulher que resolvera atualizar o seu trabalho no avião, alguma coisa relativa a um projeto de produção de “sunflower”. Para quem não sabe: Girassol. A luz ficou acesa durante quase todo o percurso

Passou por muitas ruas feias, sujas, sem calçamento. Muita pobreza e a surpresa da mão inglesa. Sentiu uma sensação terrível, estranha. O motorista do lado contrário, no lugar do carona. Passar marcha com a mão esquerda! Ela acha que nunca conseguiria. Pior que isso, foi atravessar a rua sem saber para que lado olhar, muito estranho mesmo.

Enfim, chega ao hotel. Há um indiano que é o “manager”, and as a manager, He doesn`t speak portuguese. Ela acha graça: Como é que num país de língua oficial portuguesa há um gerente que não fala tal língua. Bom, tenta se comunicar e descobre que os funcionários outros são moçambicanos e falam português, claro, como bons lusófonos que são, embora todos continuem, entre si, a falarem os seus dialetos.
Chega ao quarto, nada de especial, mas nada de estranho, um quarto normal. Dá-se por feliz pelo ar condicionado.

Toma banho e dorme até uma hora da tarde. É hora de levantar e ir ver a cidade e onde estava localizada em relação ao Arquivo Histórico, para onde terá de ir muitas vezes. Pede informação e segue em frente. Acha estranha a informação, porque pelo mapa ela esta indo em direção completamente contrária.

Para e vê um rapaz parado na rua, pede licença e pergunta-lhe se ele sabe onde é a Rua Araújo. O rapaz lhe olha e cai na risada, mas ele ri muito mesmo e nem consegue responder. Ela já sabia o motivo de tanta risada: É que a Rua Araujo, como era chamada antigamente a Rua do Bagamoio, para onde ela se dirige, era um local de prostituição. Ela explica-lhe entre risos que quer ir para o Arquivo Histórico, que, infelizmente, funciona naquele local. Ele chama uma senhora que está dentro de uma loja e lhe diz que ela está procurando a Rua Araujo. A senhora sorri e lhe explica que ela vá direito: quando chegar a Vladimir Lenine, desça à esquerda e vai chegar até a baixa; lá ela entra na Timor Leste e vai dar numa praça da fortaleza e lá vai encontrar a Rua do Bagamoio.

Ela agradece e vai seguir quando a senhora diz: Nós vamos para aquele lado, venha que nos lhe levamos até um local mais próximo. Ela entra no carro, e novamente a mesma sensação estranha, o volante no outro lado. O rapaz dirige e se chama Jorge, a senhora diz que se chama Biba. Perguntam-lhe o que esta a fazer em Moçambique e ela diz, eles acham interessante e a mulher lhe diz que ela vai encontrar o que procura no arquivo. Descem a rua e deixam-na na Marginal, em frente ao mar, na Baía de Maputo. Antes, porém, a senhora lhe dá o número do telefone para que ela entre em contato, porque eles têm uma moto, uma espécie de taxi de três rodas e se ela precisar dar uma volta na cidade é um bom meio.

Ela caminha um pouco pela praia, mas não se arrisca muito, vai até um prédio que fica na orla e que impede de passar para o outro lado, para tal ela teria de contorná-lo. Não se arrisca e volta. Encontra uma faixa dizendo que ali existe uma feira do Egito. Para, entra e fica fascinada com as coisas, mas tudo que gosta é muito caro. Pergunta por um conjunto de esfinges douradas e alguém lhe diz: Three thousands. Toma um susto, aquilo não poderia ser tão caro, ou então entendera errado. Pergunta de novo. O homem diz: three thousand in... and one hundred. Continua sem entender, até que cai a ficha. Três mil em meticais e cem dólares em dólares. Acha caro do mesmo jeito e não compra, embora as três esfinges sejam lindas. Vê vestidos de mangas, alguns muito bonitos, outros inusáveis. Há perfumes, essenciais egípcias, tudo aromas falsificados de perfumes bastante conhecidos. Cloé, azarro, Calvin Klein. Dá risada e sai do local, o homem queria que ela experimentasse todos. Fica enjoada.

Segue olhando a feira, que é bem pequena. Muitos móveis egípcios, todos com muito dourado. Algumas peças lindas, outras de extremo mau gosto. Encontra uma brasileira do Pará, que vê o seu sotaque e lhe pergunta se é brasileira. A mulher lhe deseja uma boa estada em Maputo.
Compra um chaveiro com uma esfinge, uma pintura em papiro, um vidro todo desenhado em dourado e vai embora dali pelo mesmo caminho.

Já tem muitos carros parados no lado da praia, fica impressionada com a quantidade de jeeps. Música alta e muitos jovens. Vendem-se cervejas e refrigerantes, ela não se arrisca, Parece tudo muito sujo.
Cansada, ainda, resolve ir embora, mas primeiro tenta comprar crédito para o telemóvel. Compra, mas o tel. não fala, continua sem chamar. Dá uma volta no shopping “Centre”, não entende porque se escreve assim, vai ao mercado tentar comprar frutas. Não percebe, mas não encontra frutas boas, também não vê alface e nem qualquer outra folha.

Compra pão, queijo e mortadela. Não vê presunto. Uma lata de palmito, milho, feijão frade e atum, leva para o hotel, é o que vai comer à noite, com certeza.

Quando sai do “shopping centre” vê á área de alimentação que fica ao lado, na área externa, senta-se, toma uma cerveja que tem o nome de “florentina”, cerveja autenticamente moçambicana, não é mal, toma duas e pede um prato no restaurante em frente. Uma mistura de legumes e vegetais: cogumelo- carne-alface-cenoura-pimentões. Não gosta e deixa metade. Paga e sai, vai para o hotel. Toma um taxi e se assusta, ela podia ter ido caminhando, é muito perto, mas ainda assim o taxi lhe custa 150 meticais, o que é muito pela distância. O motorista é simpático e ela lhe pede um cartão. O nome dele é Tony, ela agradece e entra no hotel. Encontra o “manager” e pergunta-lhe como acessar a internet do quarto. Ele pede a funcionaria para dizer-lhe para ela trazer o PC para que ele possa fazer configuração. Ela sobe e traz o PC, ele tenta lhe explicar em inglês, ela diz que não está entendendo nada, mas enfim, conseguem. Depois de tudo certo, internet funcionando, ela pergunta: Every time I want to access net I have to came here in the receptcion? O Manager morre de rir e diz que não. Que agora ela pode acessar a qualquer hora que é só colocar a senha que ele lhe dá.

Sobe para o quarto com a net funcionando. Entra no quarto e vai dormir.

As oito alguém bate na porta. Quando ela abre, ainda sonolenta e assustada, pois não conhece ninguém e nem tampouco tinha pedido nada na recepção, alguém lhe pergunta: Tem roupa para lavar? ...

É mole ou quer mais?

sábado, 17 de julho de 2010

Madrinha X 3

Nasceu em setembro, segunda filha de um casal transatlântico: pai espanhol de Galícia, mãe baiana de Cachoeira.

O primeiro filho deles fora uma mulher, bem vinda, claro, como todos os primeiros filhos. O pai queria um homem, como todos os pais, mas veio uma mulher e, como primeiro filho, esperado, curtido, desejado, ficou tudo bem. Deram-lhe o nome da avó paterna, uma espanhola que viu os seus filhos deixarem a terra, um a um, a fugir de uma guerra civil, que acabava com a juventude masculina da Espanha.

Três anos depois, uma nova gravidez. Aí sim, imperdoável, tinha de ser um rapaz, para receber o nome do pai, ser macho, tornar o genitor orgulhoso.

Àquela época o sexo do bebê era mesmo uma surpresa, ficava por conta, tão somente, das adivinhações e das crendices. Se a barriga era pontuda, era homem, se a barriga era arrendondada, seria mulher. Se a mulher, durante a gravidez, tivesse muita azia, o bêbê seria cabeludo. Muitos outros “ses” davam a indicação do sexo da criatura que estava sendo formada.

Nove meses de espera e incertezas. As roupas, se para homens, azuis; se para mulheres, rosa. Na dúvida, branco e verde resolviam, quem sabe nascia um bissexual.

O certo é que, num dia de setembro, após três idas diferentes ao hospital espanhol, que ainda existe e fica num dos mais aprazíveis lugares de Salvador, na Barra, entre o Porto e o Farol, numa localização espetacular e uma visão dos deuses, nasce o segundo filho do casal.

Ansiedade dos pais! Qual o sexo do bebê? Á enfermeira anuncia: É UMA MENINA!

Que decepção para o genitor, que nem mesmo tinha se preocupado com o nome que iria dar ao rebento se mulher fosse, porque o desejo do filho homem era tamanho e a perpertualidade de um nome espanhol horroso, talvez único em toda a Espanha e no Brasil, neste último então é que seria mesmo único, pois ninguém normal teria a idéia de colocar aquele nome em uma criança, que não se preocupara com isso.

Nasceu a criatura em um parto difícil, pois veio de bunda. Por isso, talvez, a sua estrela tenha apagado naquele momento. Pense aí: alguém nascer já de bunda para o mundo. Pois, desde ali, já se fizera notar e indicar que seria um pouco diferente dos demais.

Bom, feliz ou infelizmente, a criatura nasceu sadia, mas tinha de ser registrada para passar a existir oficialmente, e aí? Qual seria o nome daquele troço que ali estava frustrando os sonhos dos pais de terem um filho homem?

A mãe, porque a primeira filha tinha o nome da avó paterna, decidiu colocar, agora, o nome da sua própria mãe. Felizmente que o pai não concordou, porque com aquele nome, se já a consideram “uma mulher de verdade”, aí é que seria mesmo, de fato e de direito. A música popular por Ataulfo Alves que o diga, pior ainda a versão do pessoal do sambão da faculdade de direito: Ficaria sendo a mulher de verdade, a que não fazia exigência, a que seria a subserviente, e que sempre estaria disposta a agradar o seu homem em todos os sentidos.

O genitor não concordou, não queria esse nome, sugeriu outro; um bem espanhol e que também a faria única e iluminada: O nome seria “LUZ”, mas não uma luz qualquer, a luz seria “DIVINA”. Pense aí gente: Uma pessoa ser chamada de “LUZ DIVINA”.

Genitora não concorda. Não se chega a um bom termo.

A notícia do nascimento já havia se espalhado e a madrinha já estava arranjada, mas isto era independente do rebento ser homem ou mulher, tinha sido escolhida há muito. Seria uma tia-mãe do genitor, aquela que o trouxe da Espanha e com quem ele e os irmãos conviveram durante muito tempo. Uma espanhola galega, pequenina, que vivia para o lar e para o seu marido e sobrinhos, e sobrinhos netos, mas que não saia de casa para nada.

As visitas começaram a chegar, e a discussão pelo nome não acabava. De repente chega uma prima do genitor, uma que tinha um nome de uma pedra preciosa de muito valor e que já era madrinha da primeira filha do casal. Uma mulher forte, grande, bonita. A discussão acaba: escolheram o nome da criaturinha, seria aquele, o nome daquela prima. Uma pedra verde. A prima, feliz, fica emocionada, o seu nome naquele ser pequenino, que atenção dos pais. Descobriu que era importante para eles e fica muita agradecida pelo gesto dos primos, sente-se meio protetora da criança, uma madrinha, talvez.

Dia do batizado. Igreja da Conceição da Praia. La estava a criança, já oficialmente registrada com o seu belo nome de uma pedra preciosa, aliás, preciosissíma.

A madrinha escolhida, por não sair de casa, mandou a sua representante, uma tia solteirona que pensava ser a poderosa, aliás, faleceu querendo controlar a vida de todos, o que fez, inclusive com os padrinhos do rebento, eles que o digam e que a perdoem onde estiverem.

A representante tomou ares de titular, carregou a menina durante a cerimônia e fez a sua representação da melhor maneira possível. Resultado desta representação solene: Ela tomou ares de madrinha mesmo e se comportou como tal, ali e alhures e por todo o tempo, durante e depois.

Assim, aquela pedra preciosa, que já nascera de bunda, e, portanto, já marcara a sua diferença, passa a ter três madrinhas: A oficial que, por não sair de casa, era de direito, mas não de fato; a representante, que era de fato, mas não de direito, e uma que nem era de fato e nem de direito, mas se elegeu como tal por causa do nome que colocaram na criança, sua xará.

Esta particularidade lhe gerou, no seio familiar, muitas brigas e invejas, todos os primos tinham inveja dela, porque ela ganhava presente, nas datas em que estes eram obrigatórios, de três madrinhas: Páscoa, Natal, aniversário, tudo sempre multiplicado por três.

Talvez por isso, tenha crescido com tanta responsabilidade, tudo na sua vida multiplicado por três. A única coisa que ainda não foi multiplicado por três, isto em termos de entrada, porque em termos de saída o multiplicador conseguiu crescer muito mais, foi o dinheiro. Ah! Também uma outra coisa ainda não se multiplicou por três: Os maridos! Mas ela ainda tem tempo de colocar isto em ordem...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma visita quente


Estava, como sempre, sozinha em casa. Lia um livro deitada na rede e levantou-se para beber água. Quando chegou à cozinha, um susto daqueles: Um homem alto, quase 1,90, todo vestido de branco, roupas finas, parecia calça de linho tipo pijama e camisa de cambraia de linho, uma roupa solta e bem estilosa. Os cabelos grisalhos muito bem cortados, mais com muito estilo, caiam-lhe no rosto, uma sandália tipo pescador, aquelas usadas pelos apóstolos de Cristo lembram? Os olhos de um azul tão denso, que nem chegavam a ser bonitos, com um grande e assustador detalhe: não tinham pupilas. Tudo era azul.

Ela assustou-se e deu um grito. Ele lhe fez sinal com o dedo na boca para que ela se calasse, e foi entrando na cozinha, ela, dando de costas, terminou por se bater na geladeira, ficara ali, encurralada, e o homem se aproximando mais e mais.

Quase colado com ela ele parou e a olhou com aqueles olhos despupilados, horríveis

Ela balbuciou: - Quem é você? E o que quer na minha casa? Como você entrou aqui? Cadê o cachorro?

Ele deu risada e disse: - Minha querida, uma pergunta de cada vez. Não se apresse, porque temos muito a conversar. Já já você vai saber quem sou, o que quero, e por que estou aqui.

Falava manso e ela começou, apesar de tremendo e temendo, ficar um pouco menos assustada.

- Vamos, sente-se. Você estava lendo na rede, portanto, pode voltar para lá que eu fico ali conversando com você.

-Não quero! Você é um homem, eu estou na minha casa, sou casada e os vizinhos podem nos ver.

-Bobagem, os vizinhos não conseguem me ver, não se preocupe

-Como não podem lhe ver, ali é a varanda que dá para a rua, para o muro da casa ao lado, enfim, qualquer movimentação das pessoas e eles vêem o que se passa aqui em casa.

-Pois é! Um defeito que você tem de jogar para o alto. Não se preocupe com os que as pessoas acham ou dizem: Você não tem que dar satisfações a ninguém. Já tá bem grandinha para isto.

- Quem é você para me dizer estas coisas? Quem disse que dou satisfação da minha vida aos outros?

-Ora, você às vezes se passa como agora, não é uma mulher tão inteligente como pensa a ser. Você acabou de demonstrar que liga, e muito, para a opinião dos outros, mas isto não interessa agora e nem vem ao caso, vamos conversar. Se não quiser sentar na rede, sente em outro lugar, eu vou tá aqui mesmo, pois hoje você não me escapa.

Começou a se preocupar novamente: O que ele queria dizer com de hoje você não escapa. Quem era aquela porra Meu Deus?

Logo que teve este pensamento o homem vira-se para ela, e os olhos já não estavam azuis, pareciam duas bolas de fogo. – Para que você esta pensando nele? Neste momento sou eu e você e ele não vai se meter. Não pense e nem fale o nome dele enquanto eu estiver aqui.

- Ela não entendeu nada, não havia falado em nome de pessoa nenhuma. Assustou-se com aquele olhar de fogo e com as palavras ditas entre dentes e com muita raiva.

- Falar em nome de quem?Eu não disse nada!

-Não disse mais pensou, a sua voz já tinha voltado ao normal, e olhe que era uma voz quente, macia, gostosa de ouvir. – Esta pessoa não merece o seu pensamento nem qualquer suplica, porque não gosta de você. Olhe a sua vida como está. Você tem quase sessenta anos, está marcada pelo tempo, está só, não conta com ninguém, está sem dinheiro, tem dificuldades financeiras, continua ajudando muitos e sem nada receber em troca. Por que então pensar nele ou questionar alguma coisa com ele?

Cada hora que passava ela entendia menos aquela situação.

O homem, já agora bem sentado na varanda, olhava para ela sorridente e dizia- A sua casa é linda! Mas você vai perdê-la pela sua idiotice. Você é muita boba, deixa-se enganar facilmente, e por isso vai perder o que tem e ainda o que conseguir, porque as pessoas te usam e você vai permitindo. Falo de todos que passaram por sua vida. Não vou citar nomes porque você bem sabe do que estou falando. Você idiota, e o outro, a quem você chama, deixando que tudo isto aconteça com você, sem fazer porra nenhuma. Até quando você vai esperar que “ele” resolva os seus problemas?

- Quem é você? Por que esta a me dizer tudo isto? Como sabe tanto de mim?

-Eu te acompanho querida, aliás, acompanho todos. Tenho disputado por toda a minha vida um espaço com “aquele” a que você chama, ou melhor, todos chamam. Tenho boas chances com alguns, com outros perco, mas não desisto, neste aspecto, sou como você, que toma tanta cacetada, mas não desiste desta mania idiota de ser “boazinha”. Para que ser boazinha? Para ter reconhecimento de todos? Para ser apontada como exemplo? Para que todos digam que você é uma pessoa com um grande coração? Idiotice mesmo, você deixou a vida passar preocupando-se com os outros. Deixou se endividar para saldar compromissos alheios. Você, para compensar uns de perdas irrecuperáveis, transformou pessoas de sua intimidade em verdadeiros parasitas. Você bem sabe do que estou falando, não vou citar nomes para que você não fique, com esta sua sensibilidade exagerada, melindrada, aliás, coisa que você adora. Ficar melindrada. É mais uma satisfação para os outros? Ou é algum tipo de jogo que você joga para enganar as pessoas? Ou é uma coisa atávica?

-Eu, enganar as pessoas?

-Sim minha querida! Você engana bem as pessoas, porque você não queria ser nada disto. Você bem queria ser uma pessoa completamente fria, insensível, egoísta, materialista, arrogante, prepotente, vingativa, aliás, como deveria, até mesmo pela profissão que escolheu e é por isso que estou aqui, para te ajudar a conseguir todas estas qualidades que lhe faltam.

-Qualidades! Você esta me propondo ajudar-me a ser um “não ser”?

-Lá vem você com idiotices! Não se cansa? Com tanta porrada que a vida já lhe deu, que aquele “outro” permitiu que você tomasse, e ainda vem me falar em “não ser”? Olhe á sua volta, tirando as pessoas que não tem mesmo para onde ir por completa falta de tudo, olhe bem as outras a quem você ajudou e que estão se dando bem: O que eles fazem por você? Nada. Quantas vezes você precisou de algum favor que envolvesse dinheiro, não que você não pudesse pagar, mas sim porque no momento você não estava presente. Quem te ajudou? Salvo uns poucos, muitos poucos, aqueles que têm nomes de Apóstolos, e um santo que não é tão santo assim, ninguém lhe dá nada. Se pudessem, até lhe tiravam mais.

-Não lhe dou o direito de falar assim das pessoas que me rodeiam!

-Quem está lhe pedindo autorização para nada. Eu posso dizer tudo, também acompanho a vida deles e sei os pensamentos: Alguns chegam até a dizer, “Vamos pedir a doutora porque ela tem.” Ela pode. Já viu o salário dela? Não é só isto “otária”, há uma multidão atrás destas pessoas que pensam da mesma maneira. Você é uma sacana que não faz o que poderia fazer, porque não se preocupa com os seus.

-Como é. Você tá louco, aliás, saia da minha casa, ninguém te autorizou a entrar e, muito menos, me dizer tanta merda.

-Merda o que? Você sabe que é verdade. Você tem ao seu redor muitas pessoas que, também como você, se julgam boas; boas da maneira que eles acham que é ser bom, ou seja: tudo para mim e para os meus, e se possível tirar um pouco do outro vou fazê-lo, porque o outro pode. Quantas pessoas já lhe traíram? Quer que eu enumere? Eu sei de tudo, seja de traição de homem, de amigos, de conhecidos, vizinhos. Eu to te dizendo, eu sei de tudo e vejo tudo, ganho algumas batalhas contra “aquele”, mas você já notou que posso sair mesmo vencedor em muitos casos, mui principalmente com pessoas que lhe rodeiam. Você não sabe, nunca soube escolher bem amigos, conhecidos, companheiros. Deixou que muitas pessoas entrassem na sua vida para te magoarem muito. Deixou que tanta coisa acontecesse com você que até eu, que adoro uma sacanagem, uma miséria, erros, falsidades, estou saindo em sua defesa. Cansei de ver você explorada, infeliz, sacaneada, traída. Acho mesmo que você não merece. Por isso vim te ajudar. Se seguir os meus conselhos vais ter uma vida maravilhosa. As pessoas vão te dar o merecido valor.

-Não quero sua ajuda, não sei quem você é, mas parece que você é aparentado com o “Satanás”!

-Kakakakakakakakakakaka! Até que enfim hein! Pensei que você nunca ia matar a charada! Sou eu mesmo querida! Viu que posso estar em muitos lugares e influenciando todas as pessoas? Viu como é fácil me infiltrar na vida deles. Você não, você eu tive que vim e me apresentar a você da maneira que você gosta, para que me desse ouvidos. Você sempre me tirou de letra do seu espaço, até mesmo quando dava algumas decisões medíocres. Vibrei quando você, tão boazinha, tão humaninha, teve a coragem de dizer que aquele povo que virou churrasco não tinha quaisquer direitos, pelos menos na sua área. Vibrei, mas depois me aborreci seriamente com você, porque, afinal, você tinha razão, não estava fazendo qualquer sacanagem, eles é que queriam fazer. Vibrei quando você falou do velho surdo, mas, olhando de novo tudo o que fez, fiquei, mais uma vez frustrado, porque você tinha razão, aquele era um velho chato e inconveniente, o que eu achava ótimo, pois, agia de acordo com os meus padrões. Você não me dava motivos de orgulho, não se apresentava como uma boa filha, uma merda. Mas,mesmo assim, mesmo com tantas futucadas, você não se fazia revelar como eu queria, me criando todo o tipo de dificuldades.

-Tá maluco? Saia daqui, não quero mais ouvir você falar, não quero mesmo.

- Não to maluco nada. Deixe eu te lembrar mais coisas, para que você perceba bem o quanto foi idiota.

-Não quero ouvir mais nada, me deixa em paz? Já que você quer me ajudar, o melhor a fazer é sair daqui.

-Nem pensar querida. Se eu sair daqui agora o muito que você vai fazer, idiotamente como sempre, é ficar chorando ai pelos cantos maldizendo a sua “sorte”. Não, vou ficar aqui e lhe dizer mais coisas. Tenha certeza que para o seu próprio bem. Já lhe disse, cansei de ver você só tomando na cabeça, nem eu, Diabo, agüento ver isto mais. Quer saber: você, toda “boazinha”, deu, ou melhor, deixou que pessoas entrassem na sua casa. Sabe o que elas fizeram? Trouxeram-me para dentro dela, e eu fiquei aqui, não sai mais, gostei do ambiente. Enquanto eles estiveram nela, isto aqui era mesmo o meu espaço, um inferno. Todos querendo tirar de um só, todos explorando o outro, todos querendo tirar vantagens. Enterraram coisas, plantaram coisas, e depois, você, de bobeira, entra nela, de peito aberto, sem quaisquer precauções. O que aconteceu? Quer que eu fale? Quando foi que a sua vida começou a mudar literalmente em relação ao “amor”? Pense um pouco? O outro que andava com você, mais esperto, mais íntimo meu, não gostava dos desafetos, mas...

-Vá à porra, me deixa em paz!

-Oh querida, este seu palavreado não lhe ajuda em nada, é apenas criticado pelas pessoas, nada mais, você que dá tanto valor a opinião alheia, devia parar com isto, dar-lhes menos um motivo para falarem de você. Ninguém acha engraçado, lhe fazem criticas. Pensa que isto e coisa minha? Qual nada, com você eu não tenho chance mesmo. Isto é apenas mais uma das suas idiotices, talvez para parecer o que não é, como se você precisasse de alguma coisa para ser notada, respeitada, etc. Você não precisa de nada, você “é” porque nasceu já sendo, não precisou ser fabricada, não se esqueça disto. Você nunca será um “não ser”, porque você realmente “É”. Até as pessoas que não gostam de você, não se engane, não porque, infelizmente, você fez nada para lhes tirar alguma coisa, ou alguma sacanagem, mas porque você “E” o que eles jamais serão. Eles sabem disto e, por isso mesmo, não gostam e tem os sentimentos que eu gostaria que você tivesse para fazer parte da minha turma: Inveja, mesquinhez, miserabilidade, ciúme.

-Acho bom você parar, to ficando muito cansada desta sua conversa.

-Mais uma só. Quando você viu seu”amado” com uma pessoa no fusca: lembra disto? Olhe que isto tem muito tempo. Você andou até o meio da rua. Eu atrás de você vibrando, ela vai fazer uma merda, vai quebrar o carro, vai bater no cara, enfim, fazer tudo que uma pessoa normal, que nem precisava estar de mim acompanhada faria. O que você fez e me aborreceu bastante: Voltou e ficou em pé, parecendo um poste, olhando aquilo tudo, chorando, bem verdade, mas quieta. Depois ficou orgulhosa a dizer que quem saiu foi ele. Porra nenhuma, ele fez o que quis fazer: te humilhou, te sacaneou, e você quieta, sem reação e eu, mais uma vez, vencido. Você tinha de ter arrebentado tudo. Pelo menos ia sair no jornal.

-Por favor, vá embora. Não quero mais esta conversa, já chega o que passei, não vou sofrer duas vezes.

-Sofrer! Pois é: eu é que não agüento mais ver você se martirizar, sofrer, se acabar. Gosto de pessoas bonitas, “gostosas”, pelo menos que assim se acham, mas você me decepciona a todo o momento, pois não adianta ser “boazinha” por dentro, esta marmelada que ensinam: “que as pessoas são feias por fora e bonitas por dentro”. Não é assim, e você bem sabe disto, o que interessa é o que aparece, e você não esta se cuidando. Seja fútil: vá para as academias pela manhã, pela tarde e, se possível, à noite. Vista roupas caras, as pessoas gostam de marcas, lhe dão o valor pelo que você usa, vá à restaurantes finos, freqüente as barracas de praia da moda, faça uma semana de spar, mas comente com todos isto, não se esqueça de falar muito sobre isto, compre óculos da Prada, Armani, Kalvin Klein. Vá morar em um flat, tenha carro bonito, se possível com um motorista a sua disposição, faça cruzeiros. Porra de estudar mais, estudar para que? De que adianta um título de doutor se você não tem nem com quem partilhar esta emoção? Para que este saber se as pessoas, nem sabem o que você sabe e nem querem saber por que não interessa falar “de pretos”. Larga esta porra toda. Vá se endividar mais, agora, com você, para que ao menos, depois da morte, quando você for encontrar comigo, justifique a sua chegada lá pelas minhas bandas. Deixe dívidas para que, aqueles que lhe tiraram tudo, inclusive a sua dignidade, paguem por elas e não tenham direito a nada do que você conseguiu com o seu suor, que infelizmente, não foi resultado da minha companhia quentinha. Faça tudo o que lhe der na telha. Seja cruel, diga às pessoas o que você gostaria que elas ouvissem. Deixe de dar dinheiro a familiares, eles que se virem; você já fez demais. Fico puto com todas estas boas ações suas, boas ações que me afastam de você, mas não me deixam tão distante que não perceba o mal que isto sempre lhe fez. Olhe! agora quem cansou fui eu. Você parece não querer entender que eu, somente eu, posso te ajudar. Veja se agora, depois de mais de meio século pedindo ajuda “àquele”, você pode me dar uma chance. Tenho certeza que você vai ser feliz, porque eu posso lhe dar isto, Você merece!

Desapareu. E ela ficou na sua rede a pensar. O que foi isto? Um sonho? Minha consciência? Será mesmo que vale a pena, ao menos, repensar tudo isto?

O cachorro chegou junto dela, estava todo arrepiado. Da porta da cozinha ele, agora já com a sua veste peculiar, gargalhava. Te fisguei! Agora você é minha, não ha mais como separar-nos e, descaradamente, mostrando todo o corpo nu, disse: Voltarei á noite, pode me esperar, queira você ou não,vou mesmo lhe ensinar o que é ser feliz.



quinta-feira, 1 de julho de 2010

EISBEIN MIT SAUERKRAUT


Em dezembro de 2008 foi a Berlim, Alemanha. Estava eufórica, afinal, depois de mais de 25 anos ia comer, outra vez, um autêntico e saboroso EISBEIN. Não sabem o que é isso? Digo-vos: É uma típica comida alemã feita com joelho de porco cozido acompanhado com o legitimo chucrute, aqueles repolho cortado bem fininho e bem avinagrado, delicioso e com um condimento chamado “zimbro”.
No avião já ia imaginando como seria aquele encontro com o prato que comeu pela primeira vez em um restaurante típico alemão, mas no Brasil, em uma estrada que liga Santa Catarina ao Rio Grande do Sul. Achou uma maravilha, mas nunca mais encontrou tal prato em lugar nenhum por onde passou, também, morando na Bahia, se encontrasse qualquer coisa parecida, certamente, estaria temperado com azeite de dendê, àquela época.
Pensava que, se em Santa Catarina achou uma maravilha, imagine o que seria mesmo esta comida no seu local originário!
Chegou a Berlim, embora sabendo que teria, obrigatoriamente, de pagar as suas contas, ficou surpresa que alguém lhe fosse buscar no aeroporto e tivesse de ela pagar o táxi. A surpresa era pelo fato de que, apesar de acompanhado de alguém que ela conhecia muito, era um homem alemão que estava ali, embora de nome estranho e que mais parecia um advérbio de lugar, esperava que, ao menos por educação, senão um mínimo cavalheirismo, ele pagasse a conta do taxi.
Logo que chegou, ainda no caminho, falou com a amiga que queria comer um EISBEIN e salsichas brancas com mostarda, nada que não fosse tipicamente alemão. Viu que a amiga disse ao cidadão o seu desejo.
Deixou as coisas no hotel que lhe foi reservado, que ficava numa praça com árvores cobertas de neve. Pelo hotel, pelo quarto com banheiro do lado de fora, até pela própria diária, já notou que estava tratando com uma pessoa dali, embora com o advérbio sugestionando outro lugar mais próximo, que parecia ser um pouco seguro em relação a dinheiro.
Bagagens acomodadas, chave do quarto na mão: irritação pelo fato de saber que para fazer xixi à noite, o que já é um hábito, que assim se tornou em razão da idade, teria de sair do quarto, atravessar o corredor, para alcançar a casa de banho, correndo o risco, inclusive, de congelar o líquido. Não fosse o próprio inconveniente em si da travessia quase atlântica, todo um protocolo para a passagem de um lado para outro: olhar se tinha alguém, vestir a roupa toda, e o pior de tudo, enfrentar o frio, sim porque o quarto ficava quentinho, mas, nem o corredor e nem a casa de banho acompanhavam a mesma temperatura. Nesse momento ela ainda não sabia da dificuldade maior que seria o banho. Pense em alguém tomar banho e ter de vestir toda a roupa dentro do banheiro, porque não poderia atravessar o corredor de toalhas, ou de robe, ou de qualquer outra porra, a não ser a roupa toda e com agasalho.
O fato é que assim foi, mas o EISBEIN ainda era um desejo e, também, estar em Berlim com uma grande amiga, superava tudo isto. Seguiram para um restaurante escolhido pelo de lá. Um restaurante bem típico, lindo, cheio de, evidentemente, alemães, taciturnos, tristes, que se incomodavam com as risadas dela e da amiga, já olhadas diferentemente. O de lá estava meio envergonhado, mas se fazia de duro, afinal estava tentando agradar, desagradando, ambas as mulheres, a dele, que ele pensava que era, e a amiga dela. Olhou o cardápio, nada de Eisbein. Tinha de comer e pediu outra coisa, o mais parecido, carne de porco. Muitos chopes, muitas risadas e conta dividida.
Como já chegou tarde, a hora agora, depois do jantar, era a de dormir, e ela seguiu para o hotel. Um frio de lascar, mas com a certeza de que no dia seguinte comeria o EISBEIN.
O dia amanheceu feio e frio. A única surpresa e beleza foi ver mesmo a neve cair. Flocos enormes que, logo logo, cobriram todo o parque, os telhados das casas, o balcão do seu quarto. Telefonaram-lhe dizendo que iam lhe buscar para o café da manhã. O advérbio de lugar apareceu e ela o acompanhou. A neve já virando quase gelo no chão, deixava tudo escorregando. Ela, de botas, tentava se equilibrar, o que era difícil, pois  tremia de frio mesmo com todo o agasalho possível. De botas não conseguia se equilibrar e escorregava no gelo, mas seguiu o cidadão alemão, entusiasmada com a diferença e com o pouco cavalheirismo do de lá, que sequer lhe dera o braço salvador, também, com aquela finura de pessoa, não era mesmo aconselhável a ajuda, pois, certamente, o advérbio de lugar não conseguiria sustentar um adjetivo daquele porte. As ruas brancas cobertas pela neve; os carros parados todos cheios de neve no teto; os parques brancos, enfim, tudo branco e cinzento era uma novidade e suplantava tudo.
Chegou à casa e teve de tirar as botas, embora sabendo que isto era necessário, não gostava da idéia. Tinha receio do chulé, afinal não estava acostumada a andar tanto tempo de meias, botas, umidade. Suas botas não eram adequadas a tanto frio. Sapatos tirados; à mesa. Teve de segurar o riso: à mesa “restos” de chouriços; de salsicha vermelha grossa; de queijo; fatias quase personalizadas de pão; um resto de manteiga, um restozinho de geléia, tudo no final mesmo, acompanhado de um resto de um queijo para lá de fedorento, café e leite, nada de abundância e nada que justificasse a sua presença em um café da manhã, que lhe estava sendo oferecido. Se fosse ao contrário, com a mania de brasileiro, aquela mesa, que somente foi coberta com uma toalha exatamente no local em que os três sentaram, ou seja, só de um lado, estaria quase completamente cheia de comida da maior qualidade: várias espécies de queijos, pães, presunto, sucos, ovos, etc. Etc. Etc. Os de cá realmente são  pobres, entretanto mais fartos e mais educados.
Acabado o lauto “breakfast!; que foi mesmo um break fast; pois, a parada foi mesmo rápida, afinal não havia material suficiente para prolongá-la. Acabado o "breakfast" uma saída de reconhecimento: mais uma surpresa! Não que ela não quisesse ou não estivesse preparada para pagar as suas contas, mas o de lá, antes mesmo de chegar ao ponto do ônibus, mandou que a amiga lhe pedisse o dinheiro correspondente à passagem. Deu o dinheiro, mas continuou achando estranho, afinal, a passagem era menos de dois euros; portanto, por uma simples cortesia, o de lá podia lhe ter oferecido o ticket.
Chega-se a uma estação, toma-se o metro,  desce-se em lugar que não se sabe, anda-se na rua. Nada de jeito, o de lá parecia não ter qualquer intimidade com a cidade. Fica-se até tarde na rua. Com o EISBEIN ainda na cabeça, ela lembra a amiga que quer comer isto. Novamente vê que ela diz ao de lá o que a sua amiga quer. Ele diz que vai levá-las a um restaurante ótimo em um lugar perto de onde estão. Seguem para o restaurante, ela já quase saboreando o joelho de porco.
Primeiro o de lá queria encontrar um restaurante do tempo em que ele era rapaz, achou ela, quando ele ainda fazia alguma farra, só que o restaurante já não existia mais, foi fechado, segundo informações dele próprio, depois de algumas perguntas aos patrícios.
Que jeito! Vamos a outro. Acabaram em uma pizzaria perto do hotel e da casa do de lá. Não fora os “italianos” que estavam no local, tanto os donos do estabelecimento, quanto os garçons e clientes, aquela seria uma noite inglória, mas com muito “chope” e muitos galanteios, dos quais o de lá não gostou nada, ficou muito boa e até divertida, pois era muito engraçado olhar a cara do advérbio de lugar: estava retado, mas cheio de vaidade por estar acompanhado de duas mulheres interessantes. As caras e bocas dos garçons pareciam querer dizer alguma coisa a respeito daquela figura, ao menos que ele não agüentava aquele tranco. Final da noite; conta dividida e nada de comida, seja ela italiana, alemã, francesa, apenas alguns petiscos e mais nada.
Dia seguinte era o último dia do ano. Nada de estranho, se não tivesse ficado em casa durante todo o dia esperando a hora de ir para a casa da mãe do de lá. Diferentemente dos brasileiros, come-se e bebe-se muito antes da meia-noite, deve ser para passar o ano com a barriga cheia. Uma grande virada de ano estava para acontecer: Ela, a amiga, o advérbio, a mãe dele, um substantivo feminino próprio com adjetivos de tamanho enormes, e um senhor que vivia com ela, algum objeto indireto, que, entusiasmado com a presença de tão “jovens brasileiras”, porque ali elas duas eram mesmo jovens, terminou por levantar da cadeira, abandonar a bengala, dançar com elas e, incrível, despertar os ciúmes da companheira. Pensem bem a situação! Meia noite: fogos de artifício, muitos mesmos, tomam os céus e a rua, tudo é olhado pela janela, até que ninguém mais suporta a fumaça, que, junto ao nevoeiro natural, faz com que nada mais se veja e, finalmente, tudo se acaba, sem músicas, sem os tradicionais abraços, sem grandes comemorações. Volta-se para casa com a sensação de que nada se passou, mas, para ela, na realidade, o que passou foi mais um ano sem comer EISBEIN na Alemanha.
Dia seguinte, nada a fazer, ficar em casa do de lá. Que jeito! Fora a Berlim ver a amiga, portanto... O advérbio está extasiado: duas mulheres na sua casa, a dançar, beber, sorrir. Limitou-se a sentar no sofá e olhar a alegria das duas que bebiam, cantavam, sambavam, falavam, enfim.Pagava-se para saber o que ia na  mente daquele advérbio!!!!
Mais para lá de que para cá, já umas 9 horas da noite, ela seguiu para o hotel, desta vez, fez o caminho sozinha, afinal o de lá não era babá de ninguém.
Dois de janeiro lá se vão para o centro de Berlim um programa assaz interessante: fez uma visita à cidade em ônibus turístico. O melhor deste passeio é que o ônibus, salvo engano, não para em lugar nenhum, apenas passa e alguém, em inglês, lhe diz onde você está a passar no momento. Uma beleza! É um passeio longo até. Depois dele, pensa ela, ele vai levá-las ao restaurante para comer o EISBEIN, ou ainda, a um passeio de barco pelo rio, qualquer coisa interessante. Porra nenhum! Depois disso, casa.  Já desiludida, ela diz à amiga que então, já que não podia ser o Eisbein, queria comer um salsicha branca com mostarda, etc. Etc. Não sabe ela o que o de lá entendeu, mas o que comeu foi um cachorro quente em um local porco e sujo, dentro da estação do metro.
Já estava irritada, mas ainda tinha dois dias e tinha a perspectiva de, ao menos, comer chucrute em algum lugar mais tarde. Foram em um restaurante que ele as levou perto da casa. Um asilo de velhos e bêbados sem salsinhas brancas, pelos menos aparentes e que pudessem ser degustadas, sem chucrutes, embora com muita cerveja. Detalhe: contas divididas em todos os momentos.
Felizmente ela tinha comprado no mercado, e deixado no quarto: pão, presunto, queijo, sucos e foi esta a sua salvação.
Dia seguinte: Ainda uma tênue esperança, não era crível que ela iria embora sem comer sequer a salsicha branca com batata ou chucrute e mostarda.
Saíram, andaram pela cidade, e a noite foram a um restaurante. Nada de EISBEIN no cardápio. O advérbio disse logo que não ia comer, estava safo, pois, de pagar qualquer coisa, as duas dividiram um prato que no cardápio dizia “for two” com o preço de 17E€, ou seja: 8.50 para cada uma. O de lá que pediu a porra, nada disse, simplesmente falou com a garçonete e pronto. Mais cerveja, naquilo ele era bom, aliás, os três. O advérbio estava calado, nada dizia, aliás, estava de saco cheio de ouvir as duas falarem o tempo todo e sem ele saber o que era, só muito poucas vezes ambas falavam em inglês, por incompetência absoluta dela, que não falava bem a língua, em que os dois, sua amiga e ele, se comunicavam.
Comeram, beberam e pediram a conta. Surpresa! A conta deu uns 38,00€ e elas não entenderam o motivo desse valor. Pediram para que ele explicasse, o que, obviamente um advérbio não consegue, ele não conseguia nem indicar, imagine explicar. Ele não era uma conjunção, apenas um advérbio, seria pedir demais uma justificativa, uma explicação ligando as orações subordinadas. Quem conseguiu explicar a porra foi a garçonete sacana, que era portuguesa e, portanto, a todo o momento sabia do que estavam falando; e aí vem a lógica do europeu: O prato é para dois, mas cada um paga 17,00. Ela se retou e disse à mulher que, quando se diz que um prato é “for two”, it is “for two” in every where in the world, que aquilo era uma grande sacanagem, pois colocam o preço de 17 e isto termina por confundir as pessoas, confundir não, a intenção é nitidamente de enganar. Ficou puta dentro das calças, não só com a garçonete filha da puta, quanto com o advérbio, que tinha obrigação de dizer como era o sistema, mas coitado! Ele também não devia saber, porque, com certeza, aquele prato, de 17€ por pessoa, nunca fez parte do seu cardápio.
Voltaram para casa, ela, muito chateada, foi para o hotel, dia seguinte teria de retornar e, já agora, tinha a certeza absoluta que não ia comer nem EISBEIN, nem chucrute e nem a salsicha branca com mostarda.
Aeroporto, despedidas e a decepção. Chegou a Lisboa e foi à “Lusitânia”, uma cervejaria portuguesa, olhem o nome, lá servem EISBEIN, comeu pensando estar na Alemanha.
Volta ao Brasil e, pasmem! Há um restaurante, na beira da praia em Stela Maris, que serve EISBEIN, portanto, quando quiserem comer este típico prato alemão, não precisam ir até Berlim, não se acompanhem de alemão, seja ele advérbio, adjetivo, um grande substantivo próprio masculino: simplesmente vá até a Bahia, Salvador, na praia de Stela Maris, e “Guten Appetit”! Ah! Há salsichas de todos os tamanhos e cores, inclusive a branca que é servida com mostarda... Wellkommen!