sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Resenha - Os Mazombos e o Pai Sumé do Peabiru

RESENHA
Os Mazombos e o Pai Sumé do Peabiru
Autor – Antonio Gusmão
Editora – Qualidade Editorial Ltda, 2013

Segundo FERREIRA DA CUNHA(2006) o escritor do romance histórico tem a preocupação de trabalhar com as fontes e, por isso mesmo, de acordo com este autor, este gênero literário encontra uma grande receptividade seja pelas massas de cultura média, seja por parte das elites acadêmicas. Para ele “ao aventuroso, romanesco, pitoresco ou exótico da sua dimensão lúdica se junta honesto estudo, que não raro se nos desvenda nos alicerces e andaimes”. Partindo desta assertiva  de Ferreira da Cunha, comecei  a ler este livro, achando, em principio que este romance podia ser classificado como tal;  não é, apesar dos inúmeros fatos reais e históricos que nele se contem, a exemplo  dos Bandeirantes, do Caminho de São Tomé, da invasão dos holandeses, e muitos outros acontecimentos que podem ser comprovados “cientificamente” porque história é uma ciência, e o que ela pode comprovar, portanto, é cientifico.
PESAVENTO(2000:35-37) diz que o “o texto histórico comporta a ficcão, desde que o tomemos na sua acepcão de escolha, seleção, recorte, montagem, atividades que se articulam à capacidade da imaginação criadora de construir o passado e representá-lo”.
O autor não quis, efetivamente, escrever um romance histórico;  melhor assim, que ele não seja um romance histórico, porque aí foi onde o ele deu o seu grande “pulo do gato”, fazendo com que a ficção, ou seja a sua criação, o seu eu de escritor, ultrapassasse os limites que o conhecimento histórico lhe forçaria a percorrer. Extraordinário o mote, a causa da reunião dos sete mazombos iluminados.
Fiquei tramada na trama, achei extraordinário o encontro de todos; como as histórias deles foram imbricadas e como, de uma maneira ou de outra, a história do Brasil esteve presente, de uma maneira ou de outra, há acontecimentos reais que valorizam o fantástico da ficção.
Fiquei entusiasmada com o Caminho de São Tomé, mais ainda porque, confesso, como historiadora que sou, nunca tinha ouvido falar deste caminho em particular, sabia das trilhas, mas não deste belo e  “fantástico”caminho, que me aguçou a curiosidade,  e hoje já não morro sem saber da sua existência e do que ele significou para a história dos indígenas brasileiros e dos incas e para a própria historia do Brasil (Espanha e   Portugal).
Todos  deveriam  ler este livro, aliás gostaria que ele virasse um “filme”. Fico imaginando este nosso herói mazombo, realizando as suas aventuras ao lado dos seus companheiros.
Por outro lado, o autor trabalha a questão do gênero, tão esquecida até mesmo pelos próprios historiadores, embora em franco resgate histórico cultural, porquanto ele conseguiu  colocar  as personagens mulheres nos lugares devidos, ou seja, no lugar que todas as mulheres poderiam ocupar, sem distinção alguma por força do gênero. Também gostei de ver que os heróis negros e indígenas estiveram presentes, sinal de que ele deu o devido valor a quem sempre o teve durante todo o decorrer da nossa luta por “independência”. Quisera, a história real, que todos os “mazombos” fossem iguais aos  heróis criados pelo autor, certamente a história teria sido muito diferente, mas na ficção tudo é válido, e ele está mesmo de parabéns.

 Quem começa a ler o livro não vislumbra, de nenhuma maneira, o final dele, ou seja, ele tem de ser lido de começo ao fim, e aí é onde está o melhor do autor. O melhor do escritor é fazer com que a curiosidade do leitor se aguce de uma maneira que ele, simplesmente, “coma” o livro, para saber qual será o próximo momento, a próxima aventura, e qual será o final. E isto é o que não falta no livro. Leituras como esta faz com que os leitores descubram, ou tenham curiosidade, de saber e conhecer os fatos históricos referidos na trama. A leitura do livro não acaba nele, pois remete o leitor a procurar conhecer, ou constatar, o que de informações nele se contém, esta sim, a verdadeira missão de quem escreve um romance permeado com fatos históricos ainda , por muitos, desconhecidos. Recomendo a leitura.