sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo! Será?

O último dia do ano chega sem que nada de diferente aconteça. As pessoas estão excitadas, parece que vai acontecer algo de diferente. Os sons se confundem; tudo ruim, mas há “axé” no lado, no fundo, na frente. Na casa da frente os “alquimistas”, mas uma vez, driblam o poder público e, descaradamente, fazem um réveillon na casa de “não eventos”, num desrespeito total, aos vizinhos, ao público em geral, ao poder público, que segundo informações, não concedeu o alvará de funcionamento; também não poderiam, pois a ilegalidade é flagrante, mas parece que “as alquimistas” não temem nada, estão acostumadas a desobedecer tudo, a ordem moral, a ordem legal, enfim, são favoráveis à “desordem”.
Os carros nas garagens disputam com os sons caseiros o primeiro lugar da poluição sonora. Quem é o mais capaz de poluir? Teve gente que colocou na porta da garagem que “aqui nesta casa há felicidade e alegria”, a que acrescentou-se: "e muitos surdos”.
É neste ambiente que ela está sozinha pensando como será possível dormir com tanta confusão. Não está com vontade de fazer nada. Chamaram-lhe para ir até a praça, mas ela não tem a menor coragem. A cidade está cheia, mas muito cheia de gente, o que é pior, de gente feia, mal educada, ignorante.
Não tem coragem, sequer, de se arrumar. Se arrumar para que? Mudar a roupa não muda o íntimo de ninguém. O que realmente devia acontecer, a cada começo de ano, era uma mudança no interior de cada um. Era acontecer coisas boas para todos, sem que isto estivesse, sequer, vinculado á um dia: o último dia do ano ou o começo do vindouro.  O pior de tudo é que se vê que esta euforia idiota não passa mesmo de uma falsidade, de mais um motivo para se ser falso.
O telefone toca, é alguém lhe desejando, falsamente, um feliz ano novo. Ela sorri, sabe que não é mesmo isto que querem, ao menos quem ligou, pois é a pessoa responsável por muitas angústias e muitas tristezas em todos os dia do ano, aliás, o ano de 2011 podia ser riscado do seu calendário. Um ano ruim, de dor, de sofrimento, de mais decepções, alguns momentos de felicidade “enganosa”, que sequer conseguiram, mesmo momentaneamente, afastar tanta tristeza.
Evidentemente que, para ela, desejar coisas boas para os outros, não é uma questão de virar o ano, é sim uma questão pessoal, de coerência. Gostaria muito que todos que a rodeiam, mesmo aqueles que a fazem sofrer  tanto, fossem felizes em todos os dias e em todos os momentos, independente de qualquer marco que fizesse uma troca numérica no ano.
As pessoas passam pela porta da casa, a cadela late, A rua esta cheia de carros estacionados o que dificulta, e muito, o trânsito, seja de automóveis, seja de gente, e mais uma vez ela questiona: Será que estas pessoas, que desejam um ano novo para outrem, não são capazes de perceberem que, estacionando o veículo na frente da garagem de alguém está procurando uma confusão? Será que não percebem que incomodam? Que o que se esta a fazer é errado? Não, para eles está tudo correto, quem está errado é quem fez aquela garagem ali, no meio da rua, impedindo que os carros estacionem. É uma inversão completa de valores,  de coerência. Se o pobre coitado dono da garagem fizer qualquer reclamação é taxado de encrenqueiro. Pode? E são estas mesmas pessoas que chegam e lhe desejam um bom Ano Novo. Para que? Para no próximo continuar a fazer a mesma coisa, ou um pouco pior?
Mais um som se confunde com os demais, claro que um outro pagode, não há outro ritmo por estas paragens, a não ser quando colocam o Silvano Salles no arrocha.  Há também a Paula Fernandes, mas é muito rápido, afinal não é dia de ouvi-la.
Outra ligação; mais um falso Feliz Ano Novo, este então chega mesmo a doer: Imagine que alguém lhe perde perdão do que faz com ela. Ela não ri; desta vez chora mesmo, porque sabe perfeitamente da falsidade deste pedido de perdão, até ele mesmo despropositado, porque não há nada para se pedir perdão e ela não tem nada para perdoar, cada um vive a sua própria vida fazendo o que acha que é correto, portanto, não há motivo para perdão.
Ligam outra vez, agora a ligação é do exterior, fica com pena de quem ligou; também a pessoa lhe deseja um grande ano novo, que ela sabe que esta pessoa não terá. Há dificuldades no seu país, teve corte em suas rendas, vai ser difícil segurar a onda daqui para frente, tem vontade de chorar, mas seguro o choro, não segura é um pouco da agressividade peculiar. A pessoa nota que ela esta nervosa, ela tenta disfarçar, mas não dá; sua voz lhe entrega, ainda assim deseja um feliz ano novo, como se aquelas palavras pré-fabricadas pudessem trazer algum ânimo àquela pessoa que sabe que nada vai mudar no ano que vem, ou melhor, a mudança que vai ocorrer será mesmo para pior.
Resolve então parar tudo, até de pensar, queria ter esta capacidade, se abstrair de tudo e todos e ficar em um momento, que fosse de total desligamento. Sabe que só vai ser tentativa, porque o som dos carros e das casas não permite tamanha proeza.
Desiste, escreve, registra: é bom para depois refletir e perceber que a sua vida é morna, não há variação na sua temperatura, tudo parece sempre se repetir, espera por coisas boas que não acontecem, recebe coisas más que não espera, mas chegam com uma grande facilidade, tenta afastar este pensamento, cobra-se, faz uma retrospectiva da sua própria estória, mas não adianta, a angústia é maior ainda.
Para tudo: chora, pede ajuda, mas também esta ajuda não chega, porque os ouvidos já se cansaram dos seus pedidos. Vai continuar pedindo ajuda para si e para os seus; não importa que quem tenha de ajudar esteja momentaneamente surdo, tem fé que a surdez seja passageira.
Não quer mais chorar; levanta-se, muda a roupa, vai para a rua, talvez, quem sabe, algo de novo possa aparecer e uma luz possa se acender. Vai ao mar, mergulha, espera que alguma coisa melhore; que Iemanjá possa levar metade das suas inquietações.
A cachorra está aflita, foguetes pipocam e ela treme, parece ter medo. Tudo enfim é desfavorável
E ela pensa: Será que pode desejar a alguém “Feliz ano novo”?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma proteção bem quente

Como sempre, estava sozinha em casa. Era noite, tudo fechado, ventilador ligado, pernilongos alvoroçados “em cardume” atacavam. Os pés e as pernas eram o foco do ataque, tudo ficava ardendo. De repente, o basculante da cozinha bate, ela toma um susto e levanta para ver o que aconteceu. Nada, o basculante apenas fechou.
Volta para a sala e tenta concentrar-se outra vez.
As muriçocas estão indomáveis, o pé arde, parece que as bichas andam comendo muita pimenta, porque a picada faz arder.
Outra pancada: Agora é a porta que dá para a varanda que bate.
Ela dá um salto do sofá e vai ver o que aconteceu. Não estava ventando, as outras portas estavam fechadas, não havia corrente de ar, portanto, não tinha qualquer explicação para aquelas batidas.
Fica apreensiva: Anda pela casa toda, olha os quartos, suspende as colchas e olha por baixo da cama, abre a despensa, olha tudo, vai até embaixo da escada, olha para a porta que dá acesso ao quarto superior, está trancada, como sempre. Não há vestígio de nada.
- É não há nada, fala para si.
Como já era tarde, umas dez horas da noite, fecha a casa toda, e como sempre apaga as luzes do exterior, deixa apenas a luz de dentro de casa como era de costume.
Senta-se outra vez no sofá e fica ali esperando o sono chegar.
De repente:
- Boa noite!
Ela quase cai do sofá.
Olha para todos os lados, levanta picada, acende a luz da sala. Não há ninguém ali.
Tenta não se impressionar, mas é difícil, ela, com certeza, ouviu uma voz lhe dando boa noite, mas como dizem que ela é doida, então pensa que esta a ficar mesmo “maluca” e tenta não pensar mais nisto, até porque, se ficasse pensando nesta estória não ira dormir tão cedo.
Quer se concentrar no programa da televisão, mas não consegue, resolve então ir para a cama.
Diz em voz alta: Vou fechar a porta do quarto com chave e se dirige ao aposento. Antes de chegar nele, entretanto, vê um vulto passar de um quarto para outro.  Dá um grito, acende todas as luzes possíveis, olha tudo novamente, abre até os guarda roupas. Não há nada.  O sono, a esta altura, foi-se, ela prevê uma longa noite.
Volta para a sala, abre a porta que dá para a varanda:
- Vou deitar na rede e ficar um pouco aqui para ver se o sono chega.
O céu, felizmente está límpido; as nuvens brancas são visíveis e detalhadas, a lua está escondida em uma delas. Da rede ela pode ver perfeitamente a lua se esforçando para sair de detrás das nuvens e mostrar a sua luminosidade.  A estrela Dalva está bem na sua direção, ela olha inebriada para a estrela e faz um pedido.
- Kakakakakakakakakakak! Você ainda pede isto? Não tem vergonha?
 Não havia mais dúvida, tinha alguém ali, estava, novamente recebendo a visita do sacana do “diabo” de fala mansa, de gestos largos, de riso bonito, que se lhe apresentava sempre da maneira que ele sabia que ela gostava de vê-lo. A barba hoje estava por fazer, estava, como sempre, de branco, roupas largas de linho, uma calça larga tipo pantalona bem folgada e uma camisa de mangas largas, muito bem feita. Trazia uma corrente linda no braço direito, além de um anel no dedo anular.
- Cacete: você de novo! Não se cansa de me atazanar a vida não?
- Não, minha querida, você não muda, e eu preciso, de vez em quando, te dar umas cutucadas, você precisa entender que esta viva, que é bonita, que é poderosa, e que pode ser muito feliz, mas para isto você tem de sair desta redoma em que se colocou; esquecer todo o seu passado e fazer uma vida sem a presença de sombras que somente lhe prejudicam.
- Não preciso nem de sua opinião e nem dos seus conselhos, aliás, eu não sei qual a razão de você me eleger para dar de bonzinho: você não presta, portanto, não seja falso, não venha para cá me dar o que você não é capaz.
 - Não é bem assim, você sabe perfeitamente disto. Eu resolvi como já te disse, te ajudar, porque você é tão imbecilmente boa, que todo mundo faz gato e sapato de você, todo mundo, desde os homens que passaram e passam na sua vida, até os amigos e familiares. Quando a gente pensa que você tá se esquecendo deles, eles aparecem se não aparecem se fazem presentes de alguma maneira, trazendo problemas para você resolver. O mês de agosto é fatal para você. Você ainda não notou isto?  Parece que eles reservam este mês para lhe sacanear mais ainda.
- Porra, já que você quer me ajudar mesmo, por que você não elimina o mês de agosto da minha vida? Por que você não elimina as pessoas que mais me incomodam, que você parece saber quem são e por que o fazem.
- Fique em paz mulher, eu não vou permitir que eles se aproximem porque eu não quero eliminá-las agora, poderia fazer isto num passe de mágica: Um carro batendo ali, um assalto acolá com um tiro certeiro; uma intoxicação alimentar fatal, uma bactéria em alguma comida, enfim, tinha muitas maneiras de fazer isto, mas não é assim que você vai resolver os seus problemas, aliás, eles aumentariam, porque do jeito que você é, era capaz de resolver sustentar mais alguém, algum descendente deles. O que você tem de fazer é eliminá-los do seu interior, arrancá-los de uma vez de seu coração, não permitir que eles se aproximem e brinquem com os seus sentimentos como fazem. Não vou deixar que eles planejem a vida deles pensando no que você pode dar, ninguém vai comprar carro financiado por você, porque só você, na família, tem o nome limpo. Até a criança já sabe disto: você bem sabe do que to falando. 
-Falar é fácil, você que se julga o todo poderoso não consegue se livrar de mim, tá a todo o momento entrando na minha estória, como, então, eu, uma pobre mortal, poderia fazer o que me recomenda?
- Assim, exatamente como estou te dizendo.
A cadela se aproxima, está agoniada, fica olhando para uma só direção e late. Ela vê quando ele levanta a mão tentando bater na cachorra, que se retrai um pouco, mas fica rosnando de longe.
- To com sono; vou dormir, amanhã quero acordar cedo, agora que já sei que é você que tá por aqui, fico tranqüila.
- O que? Se você me deixar aqui falando sozinho você não vai gostar.  Não vou te deixar dormir, vou fazer esta casa tremer, baterei todas as portas, vou fazer sapo entrar no quarto, botar muita muriçoca para dentro, vou ficar lhe futucando. É melhor você ouvir o que tenho para te falar.
- Porra, desembucha logo então. Não gosto muito de olhar para você.
- Ah você não gosta não é? Eu bem sei porque: porque eu to aqui da maneira que você gostaria que um homem estivesse, é assim que você queria que ele se apresentasse; pois é, eu me lembrei disto, e da viagem de barco que você fez pelo Douro e me arrumei igual àquele homem que tanto lhe chamou atenção.
- Rapaz, não dá para esconder nada de você não é?
- Não, não dá. Eu estou em todos os lugares, eu vejo tudo, eu sei de tudo.  Sei inclusive que você continua uma idiota mesmo. O cara lhe deu a maior bola e você cheia de dedos porque ele tava com uma mulher, que, para seu governo, era só uma amiga dele. Será que você não percebeu os olhares que aquele homem lhe deu?  Você acha que o cara largaria a mulher lá sentada e ia ficar conversando com você por quê? Porque você é chata? Porque não é interessante? Não minha querida, aquele cidadão, tal qual você, ficou foi bem interessado na sua pessoa. Mas você não ajudou em nada, nem mesmo quando eu fiz com que ele se hospedasse no mesmo hotel em que você e sua amiga estavam? Você acha que foi uma coincidência? Claro que não, aquilo foi meu dedo, eles iam ficar no Porto, mas eu dei um jeito de eles passarem para Vila Nova de Gaia.
- Eu to com sono, me deixa dormir.
- Ainda não: Esta você vai ter de ouvir e perceber o quão você esta se desvalorizando em não querer sair do ponto em que parou há, aproximadamente, 10 anos. Você se lembra que você ouviu um cara, lá na terrinha, lhe dizer: “Não, você é uma mulher toda proporcional, você nunca mais diga que você é gorda ou que esta gorda. Uma pessoa com a sua idade da maneira que você está devia agradecer todos os dias” Tá lembrada disto? Lembra quem falou, pois é, fui eu quem fez o cara falar, até porque se eu não o futucasse ele que é quase mudo, jamais teria coragem de dizer, isto, quanto pior, na companhia daquele....  Você se lembra do dia em que você estava sentada com um rapaz conversando, uma amizade um pouco mais recente e a pessoa lhe disse: “Olhe eu conheço você pouco, mas você é uma pessoa boa, extraordinária. Eu não conheço uma pessoa que tenha conhecido ou estado com você, que tenha restrições à sua pessoa”. Lembra? Obra minha, tudo para que você acredite no seu potencial, seja como mulher, seja como fêmea seja como profissional. Você precisa entender que você é mesmo uma mulher reta da, uma fêmea que precisa de carinho, de atenção. Se aquele.... não quer ver isto, você não pode ficar aí esperando o tempo passar, recebendo apenas migalhas de atenção. Além do mais, eu vou sacanear tanto ainda com esta pessoa, que não quero que você fique por perto, porque se você estiver por perto, eu vou tentar lhe proteger e não vou fazer o que devo, aí, mais uma vez, você vai ser boazinha, a fada madrinha, protetora de quem não merece e eu não quero isto.
- Pronto: Você acabou seu blá, blá, blá. Então agora me deixe dormir, já não to conseguindo ficar de olhos abertos.
- Tá bem, já lhe disse, outra vez, o que queria. Não vou aparecer mais, pelo menos por um bom tempo, vou ficar te seguindo claro, mas não vou mais me materializar. Só te peço uma coisa: Não permita que duas pessoas, sim porque estas duas são de lenhar mesmo, parecem que não te querem ver feliz de maneira alguma, te atrapalhem tanto que você fique depressiva, melancólica, deixe de acreditar em você e no seu potencial. Deixe que eles sigam as suas vidas, sem a sua presença, permita, ao menos, que eles provem um pouquinho do meu veneno, da minha maldade, eles merecem não fique triste ou aborrecida, ou tenha pena do que lhes acontecer.  É assim mesmo que a vida é.  Quanto a você, o seu começo de ano- 1912 vai ser uma maravilha, aproveite, vou fazer você descobrir muitas coisas, inclusive arrumar uma pessoa como esta que você esta vendo agora, isto é o prenúncio do que você vai encontrar a partir de janeiro de 2012, quando você deixará de se preocupar com A.B. ou C, para se preocupar somente com você.
-Ok, espero que você tenha razão e que isto aconteça mesmo. Não sei se te agradeço ou não, mas para quem você é, realmente, fico sensibilizada com a sua preocupação, mas, por favor, quando você reaparecer, não precisa me assustar como hoje, apenas chegue e pronto. Tchau.
Dormiu, sonhou com esgoto e com um porco. Preocupada foi ver o que significava sonhar com estas duas coisas e, para seu espanto: dinheiro, amizade nova, boas perspectivas; ou seja: “o diabo não é tão feio quanto parece”!               

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Aniversário

Hoje, dia 23 de dezembro, dia em que ele completaria 91anos de vida, se esta não lhe tivesse sido tirada há 28 anos atrás. Faleceu aos 63 anos, deixou seis filhos, uma mulher, amigos, netos e muitas estórias.
Passou pela vida sem deixar rastros outros, que não estes, seis filhos, dois netos, uma esposa.
Caso tivesse vivo hoje, aos 91 anos, o que estaria acontecendo? Como seria a vida dele e da sua esposa, hoje viva, e com 83 anos? Ela que na realidade não vive, vegeta sobre uma cadeira de rodas, passando os dias diante de uma televisão ligada, cujas imagens lhe chegam distorcidas, não só pela sua débil visão, como pelo próprio aparelho, dentro do um quarto em um apartamento, que nem sequer lhe dá a chance de ver a rua.
Estaria ele lúcido? Estaria ele andando? Como estaria falando? Será que se lembraria de todos? Dos seus filhos? Reconheceria os netos? Enfim, o que aconteceria se ele estivesse vivo? Como teriam sido estes 28 anos de ausência.
Bom, uma coisa de certeza de teria acontecido: Muitas brigas teriam ocorrido: uma de suas filhas e ele eram mestres nisso. De nada adiantaria os 50 e tantos anos dela, nem a posição que ocupava, nada; entre eles seriam, apenas, pai e filha, desconhecidos um do outro, mas com uma grande certeza, de que eram mesmo, geneticamente, pai e filha; em muitas coisas bem parecidos, na ranhetice, na irreverência, na grosseria, até na frieza em lhe dar com os mais queridos e as brigas, pois, aconteceriam por todos os motivos.
Era hiper orgulhoso, não gostava de pedir nada a ninguém, e nem de depender de ninguém, embora toda a sua vida tenha sido uma dependência só; dependeu de sua esposa durante todo o tempo de sua vida, seja na saúde, seja nos últimos dias da sua vida, quando a vida se afastando tentou lhe mostrar o quanto aquele orgulho todo de nada adiantou. Sua esposa lhe segurou e lhe ajudou em todos os momentos da sua vida; seja nos das decisões erradas, nos das cachaças mal tomadas, nos das fraquezas. O homem bonito que ela conhecera na juventude lhe deu 7 filhos, seis deles chegaram à idade adulta; se lhe deu muito prazer, afinal de contas, ainda que só tenham tido 7 filhos, tiveram muito prazer, pois os seus filhos acostumaram-se aos sons do “amor” nas casas de parede meia em que viviam e quase conviviam com o amor físico de seus pais. Sim, porque eles conviveram com o amor físico, porque com amor espiritual pouco aprenderam com eles, mas, também, por outro lado, lhes fez sofrerem bastante.
Ele era “ibérico”, e se os de lá tinham fama de bons “amantes”´, o mesmo não acontecia com o amor sentimento: pelo menos, no caso deste, foi o que conseguiu demonstrar para os seus filhos.  Não guarda lembrança de ter recebido um afago, um carinho, um gesto sequer que demonstrasse amor de pai, também não o percebeu, em nenhum momento,  em relação aos seus irmãos.  A mãe, por seu lado, tinha a vida muito dura, tinha muitas coisas a fazer, muitas bocas a ajudar, ou então, em alguns momentos, alimentar. Ficou dura também; a convivência, talvez, tenha ajudado bastante neste particular, assimilou a pior faceta do “ibérico” que encontrou.
Enfim, ficaram, ela e os seus irmãos, pessoas pouco, ou quase nada, amorosas. Têm muita dificuldade de demonstrar amor, e nem mesmo a velhice batendo insistentemente à porta, fez com que mudanças acontecessem. São distantes: se choram, choram sozinhos e calados; se clamam, o fazem em surdina.  Vibram com as vitórias uns dos outros, tentam se ajudar quando podem, mas carinho, amor, afeto, isto eles não conseguem dar, porque não receberam, não sabem o que é isto é não se pode dar o que nunca se recebeu.
São lutadores, isto são: o que não teve estrutura para lutar sucumbiu diante de todos. Teve coragem sim para o gesto final, deixando no coração de todos uma grande marca negra, que nunca será apagada. Também este herdou um orgulho inútil, que se não foi demonstrado nos atos praticados, que não dariam motivos a qualquer tipo de orgulho, ficou evidenciado nas omissões, no calar, nas necessidades passadas sem divulgação, e em muitos momentos de sofrimento e solidão, até mesmo fome, não compartilhados, que culminaram com a decisão final.
Os sobreviventes são realmente lutadores, herdaram isto do lado materno. Emocionam-se sim, mas, a emoção é mesmo contida, muitas vezes percebida apenas porque uma lágrima de canto de olho, que driblando um controle sobre humano, insiste em escorrer, ou pelos olhos marejados, mas nada de demonstração física.
Pensa muito mesmo, quer entender isto, por que um casal que se amou, porque, à maneira deles, eles se amaram até o final: passaram juntos por tudo, fome, amantes (ele), grosserias, cachaça (ele), mas estiveram juntos sempre passou esta frieza, esta vergonha de amar para os filhos?  Ela ativa, trabalhando muito, pedindo pelos seus, sacrificando a sua vida e a dos seus próprios filhos, pois, para que ao menos dois deles tivessem uma boa formação, os colocou em colégios internos, onde também pouco, ou nenhum, amor tiveram; foram explorados, até alvo de “amores”, desejos carnais inaceitáveis à época; mas carinho não, e eles endureceram aumentando uma característica atávica. Ele dependente da fortaleza daquela mulher que conseguiu passar por cima de tudo para manter juntos o que a vida se encarregaria de “desjuntar”.
Pois é; os rebentos destas árvores mal plantadas, mal planejadas, mal cuidadas, aí estão: “frios”, incapazes de dizerem do seu amor uns aos outros, envergonhados de sentirem vontade de abraçar uns aos outros sem que exista um motivo forte: uma viagem de ida ou de regresso de algum deles, um natal, um final de ano, um aniversário, nada mais que isto. Todos têm os seus compromissos, todos não podem, todos são muito ocupados com a vida. Alguns dos frutos destes rebentos estão no mesmo caminho, sem que ninguém tome a atitude de mudar tudo isto, bastando, para tanto, apenas demonstrar um pouco mais de amor com gestos de afeto, de carinho, mostrando, fisicamente, o que com um “orgulho ibérico” trazem no coração, mas que querem esconder, a todo custo, para não parecerem fracos.
É aniversariante, onde você estiver,  que você tenha encontrado, ou encontre, alguém que lhe tenha dado, ou dê, um abraço forte: um abraço onde você possa ter tido, ou tenha, a sensação do que deixou de receber das pessoas que podiam tê-lo feito aqui. Se reencarnado estiver, se isto acontece mesmo, procure dar mais afeto a quem estiver próximo de si, para que não erre novamente, e deixe aqui pessoas incapazes de demonstrar amor, como o que tiveram por você e que você não se permitiu receber
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Realmente...

Iam os dois no carro, conversavam sobre a vida, sobre a estória de cada um deles, das novidades, dos amigos, do passado, passado que muito fazia rir e que eles gostavam de comentar.
Sempre foram muito unidos, pobres, moradores de uma favela da periferia, local ainda hoje muito perigoso, conseguiram ali ser criados, mas sair ilesos dos infortúnios que alcançaram muitos dos jovens, inclusive amigos comuns.
Tinham, ambos, muitos amigos: primeiro porque  jogavam bola, segundo porque moravam  naquele bairro onde o melhor era ser amigo de todos. Presenciaram muitas cenas violentas; marido batendo em mulher; bêbados criando confusão; policia matando bandido; batidas policiais em casa de traficantes; briga entre rivais, até mesmo morte, mas nada disto influenciou a vida deles para lo lado ruim..
Foram crescendo e começou a fase das mulheres. Um deles era bem bonito, manso, um riso lindo, muito meloso, agradava a todos, mas gostava mesmo das mulheres de ébano. Teve várias delas; uma com nome estranho,  mas com uma “bunda” que compensava o  palavrão. Outra,cantora de  banda de carnaval, e tantas e tantas outras, a última, era uma professora de “airóbica”, que nada tinha de airóbico, todavia a pele de ébano fazia o que o restante não conseguiria sozinho.
O tempo foi passando, casamento, descasamentos, um deles, entretanto, resistente, continua solteiro, aliás, parece que da turma somente ele é o herói.  Este gosta de mulheres diversas e diferentes, gosta inclusive de gabar-se desta condição de solteiro e de mulherengo, é um grande “el comedor” , sempre com uma nova mulher e uma novidade.
Defeitos muitos, todos eles tinham e têm, mas nada disto fez com que eles se desligassem, até porque a paixão pelo football não permite a desunião; estão sempre juntos, pelo menos três deles, em todos os dias em que o “mengão” joga. Agora  já se fazem acompanhar dos filhos, que, também, já se tornaram tão fanáticos quantos os pais, o timão é parte ativa da vida deles.
Pois é, por continuarem juntos e amigos, um sabe da vida do outro, ouviam e ouvem confidências, faziam confidências, eles se confiavam, e por isso mesmo, nesse dia, dois deles conversavam respeito da vida, do que continuavam fazendo e do que fariam daqui para frente. Um deles, bem safado, apesar de casado, ainda com namoradas, amantes, sei lá o que, fala para o outro:
- “Rapaz, vou tomar uma providência séria na minha vida, não vou mais trair a minha esposa, ela não merece, é uma pessoa boa, cuida de meus filhos, me ama, me ajuda, é uma boa mulher, efetivamente não merece o que faço, e eu vou mudar. Daqui para frente eu  vou comer apenas “garotas de programa”: aquelas  mulheres que você liga, come e pronto, sem qualquer envolvimento e mais nada”.
O amigo, que estava dirigindo não se agüenta, para o carro no acostamento para rir.
-“Como é cara,? Você vai deixar de ter mulheres fixas e só vai sair agora com “vagabundas” para não ter qualquer compromisso! Realmente, esta foi a maior piada que eu ouvi nos últimos tempos. Quer dizer que comendo vagabunda, pagando pela “trepada” você  não vai estar traindo a sua mulher não é?
 E o outro confirma:
- ´” É isto mesmo.  Com estas mulheres a gente não dá telefone, não é incomodado, não corre risco, vai lá faz o serviço e pronto, ela não vai lhe ligar,lhe sacanear, não vai lhe cobrar nada, não vai fazer a outra ficar desconfiada com telefonemas fora de hora, enfim, fico bem na faixa”
O outro continua a rir, não diz mais nada, só não consegue entender aquela resolução,mas quem é ele  para dizer que o “amigo” estava errado?
O tempo passa, eles não se vêm por algum período, mas o “timão” joga e, inevitavelmente, o encontro acontece. O amigo então pergunta:
“ E aí cara, você tá cumprindo o que você me disse? Agora você anda com garotas de programa?”
“Porra velho, não dá não, estas mulheres são muito caras, têm hora marcada, não tem espontaneidade, acho melhor ficar com as minhas deusas de ébano, mais baratas, mais amantes, mais naturais, sem horários, embora com muitas exigências. É melhor, vou continuar a correr os riscos”!!!!!


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma personagem insistente

Acorda, todo dia é a mesma coisa. Está só, mesmo quando acorda ainda sonhando, porque sonha quase todos os dias, o seu sonho em que um personagem é constante. Os enredos variam, do melhor ao pior, do bom ao mal, de lugares lindos a lugares turvos, feios horríveis, de mergulhos em águas claras e de mergulhos em águas tão escuras que não se consegue visualizar nada, mas a personagem tá ali, participando, presenciando. Os sonhos às vezes são tão reais que acorda e continua achando que tudo ainda esta acontecendo.
Todavia, é sempre igual: acorda e quando olha para o lado vê que realmente tudo não passou de um sonho. Fica tentando entender porque sonhar tanto, porque aquela personagem insistente fica lhe tirando as forças quando dorme. Não consegue explicação, acorda cansada, porque às vezes os sonhos lhe fazem correr, lutar, fugir. Já sonhou batendo em gente, apanhando de gente, fugindo de alguém,se afogando, nadando,correndo perigo. Os sonhos são mesmo variados, o que não varia é a personagem principal. Podem aparecer muitos outras nos sonhos, como na realidade aparecem, mas a personagem fixa, presente, insistente, que é ele, ele que já passou pela sua vida, que já lhe deu adeus, que já se foi, mas parece que não fez nada disto de espontânea vontade, continua ali, porque insiste em se fazer presente nas suas noites, como se não bastasse se pegar pensando nela durante o dia.
Todo o dia pergunta-se Por quê? Não encontra resposta, a sua pergunta fica ecoando, mas ninguém lhe explica o motivo de tanto sonho e de uma personagem fixa.
Deu para escrever todos os dias os sonhos, quer mostrar para alguém que entenda e possa lhe dizer o significado deles, como se ela precisasse ter outra explicação que não a que a vida mesmo já lhe proporcionou. Na verdade, quer se enganar, sabe perfeitamente que nada do que sonha é real, e que se sonha é porque a sua vida esta mesmo atribulada, preocupante, tensa. Sabe que em curto prazo não tem solução para quaisquer dos problemas que insistem em se apresentar, ou melhor, não querem se ausentar da sua vida; sempre foi assim: problemas e mais problemas, afetivos, financeiros, de saúde (sua e dos outros) profissionais. Estes miseráveis, que não se vão, não lhe dão trégua, porque mesmo quando o corpo já não agüenta e se recolhe para o descanso necessário, a mente, esta infeliz algoz, continua a sua rotina e permanece na sua atividade de lhe trazer e rememorar problemas, problemas que se confundem nos sonhos, que se às vezes procuram solução para eles, outras vezes complica-os ainda mais, porque as soluções encontradas são drásticas.
Já sonhou morrendo, matando, ferindo, magoando, mas também já sonhou amando, gozando, feliz. Nem os primeiros e nem os segundos se tornaram realidades. Para se matar gente não é preciso sonhar, a gente mata outros em quase todas as horas do dia, aliás, se todos os nossos pensamentos virassem realidade, muitos gente já teria desaparecido para sempre, embora para sempre para ela não exista, porque mesmo matando as pessoas em pensamento, ou se o fizesse mesmo na realidade, eles voltariam nos sonhos, para lhe atormentar, para lhe cobrar coisas, para não deixá-la esquecer dos erros, dos enganos, das derrotas.
Como sempre, acorda cansada, e hoje acordou especialmente cansada, pois sonhou que estava em um deserto sendo perseguida por um bando de pessoas feias e sujas, homens barbudos, com roupas longas, túnicas brancas que se tornaram beges devido à sujeira. As pernas ficavam atoladas na areia e ela via a turba se aproximando mais e mais, falavam coisas que ela não entendia, não era a sua língua. A perseguição continuava e quando todos se aproximam, o que ela não pode evitar porque já não tinha mais forças para correr naquela areia escaldante,  consegue vislumbrar, mesmo atrás do turbante, da barba, da roupa, um rosto familiar; é a sua personagem, que desce do cavalo e vai em sua direção. Ela se recolhe o quanto pode, fica mínima, encolhe-se toda, treme. Olha para aquele olho que ela conhece e não consegue ver nada de bom, o olhar era de raiva, de desprezo, vê a pessoa levantar a perna, pressente a dor que irá sentir, a aflição é tanta que ela acorda suada e gritando.
Um grito que ninguém ouve, porque ela esta só. Chora: um choro que ninguém vê, porque esta só, reza, parece que, também, ninguém ouve as suas orações. Respira fundo, faz exercícios de respiração para se acalmar, para deixar de pensar e procurar explicações para aquele sonho e para a raiva da personagem. Quer esquecer e tentar dormir outra vez. Não consegue dormir, tampouco esquecer.
Pega um livro, vai procurar nas letras a paz que necessita. É sempre assim: os seus amigos sinceros e honestos (ao menos a grande maioria deles) são os livros. Ah os livros! Quanta coisa boa eles podem trazer, quantos ensinamentos, quantas viagens, quantos sonhos, quantas indagações, quantas incertezas. Não dorme mais, o seu dia começa cedo, o seu dia de solidão, de recordações, de desesperanças. Vai ler mais um livro, talvez, quem sabe; uma “idéia de justiça” possa apaziguar a sua mente, possa fazê-la esquecer dos sonhos, destes que tem quando dorme, porque os sonhos de quando acorda, ela não quer esquecer, porque no dia em que ela não mais sonhar, aí sim, comprovadamente os seus dias acabarão, porque o que ainda segura esta mulher sofrida, magoada, são os sonhos que, por possíveis, podem se tornar realidade, o que ela efetivamente quer, o que já provou em algumas oportunidades.
Talvez o único sonho que, dormindo ou acordada, não se torne realidade exatamente o que envolve a personagem, que insiste em não sair da sua vida, continuando com a sua insistente maneira de mostrar-lhe que pode impedir que o seu maior sonho não se realize, porque depende dela, e ela, que é uma personagem que tomou as rédeas do jogo, saiu da sua condição de personagem, criada por ela, para ter vida própria, vida que ela pode comandar sem qualquer interferência de quem quer que seja, nem mesmo a de quem a criou, cultivou, amou, fez crescer, embora insista em não se afastar dela, para lhe demonstrar que, às vezes, como no caso, a criatura engole o criador, mas como não é capaz de saber o próximo passo, fica ali, atazanando o criador para que ele, mesmo sabendo da impossibilidade de tudo, lhe dê força, lhe encoraje para que cada dia mais ele, o criador, fique dependente de sua criatura, que não lhe quer, a não ser como instrumento para manter a sua própria existência, que só se justifica quando promove a infelicidade, seja do criador, seja de qualquer outra pessoa, que se aproxime e queira, ou pretenda, afastar-lhe de qualquer caminho que possa fazer alguém feliz.
Pois é, mais um dia que passará tentando afastar de si sua inconveniente personagem, para que ela não ganhe mais força e lhe faça tanto mal.