quinta-feira, 16 de abril de 2015

Uma noite das mil e uma noites

Está em casa, há convidados, não era bem uma festa, mas havia pessoas em sua casa. Um jantar? Não, aquilo não parecia um jantar, apenas uma reunião de amigos com canapés, drinks e uma boa conversa. Todos pareciam felizes.  A conversa se desenrolava sobre muitos assuntos, inclusive o preferido de muitos deles, a critica aos discursos pronunciados no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado). Gostavam de criticar e sorrir das bobagens,
embora nem todos os congressistas sejam tão despreparados. Há um que engole todos os “s” das palavras, parece que onde ele estudou não lhe foi ensinado plural, mas há de se lhe dar o devido valor, porque ele defende causas muito sociais, inclusive dos trabalhadores e aposentados, dentre os do partido da “posição”, é um dos mais atuantes, dá-se o devido desconto aos “s”, ele parece ter a língua pegada.    Um outro, que parece “pai de santo” quer, e somente assim pode ser: “espiritualmente” convencer a todos que o seu partido é o melhor, que ele é que defende os trabalhadores, que todos os demais estão errados e que a presidente é a melhor que o país já teve e que todos os acontecimentos atuais são originários de uma perseguição política. Acreditem se quiserem!  Ele é o líder do PT na Câmara.  É somente pelo fato de que ele está ligado às forças ocultas pode justificar as barbaridades que pensa e verbaliza!  Há muitos outros, os prepotentes presidentes das duas mesas, terríveis.  Há monstros vestidos de paletó e gravata, que somente quem não tem mesmo o que fazer, talvez como ela, perdem tempo vendo as baboseiras, e as feiuras e ignorância de alguns. Há ainda os que eram carecas e, quem sabe, com dinheiro público, estão virando rapunzéis, ficando, inclusive, obnubilados pelo peso das madeixas. Há cínicos que se defendem de acusações para lá de provadas, insistindo em defesas inconsistentes. Alguns, moralistas e defensores de valores éticos, esquecem um passado, ou mesmo um presente, que não explicam enriquecimento, envolvimento com embranquecimento de dinheiro, homens que não passam de serrotes.
Bom, mas o fato é que alguém bate à porta. Não poderia ser mais um convidado, porque todos chamados já estavam ali, além do mais, o adiantado da hora já não permitia que nenhum conviva estivesse chegando. O certo é que tinha alguém à porta, e ela, como dona da casa, é que tinha de abri-la, até porque, talvez pela intimidade com a sua porta, com a sua casa, com os seus ruídos, só ela ouviu o toque.
Não tinha outro jeito e foi abrir.  Surpresa!  Dois olhos imensos e azuis estavam ali fixados ao seus. Ela não conseguia desviar o olhar daqueles olhos fixos em si. Por um momento pareceu hipnotizada, não conseguia se mexer.  Parado no limiar da porta o dono daquele par de olhos, sem desviar o olhar, segurou as suas mãos e perguntou: “Não vai me convidar para entrar”?
Saiu do torpor em que se encontrava e respondeu: “Não, não o conheço, penso que o senhor bateu à porta errada” embora soubesse que aqueles olhos já tinham sido vistos em algum lugar e ela não os esqueceria
-“Não minha querida, bati à porta certa: há tempos que venho tomando coragem de fazer isto, mas só hoje consegui ultrapassar todos os meus limites. Vejo que estás dando uma festa! Assim é melhor, porque você pode mesmo me fazer entrar sem qualquer medo, há muitas pessoas aí, e você pode se despreocupar.”
“-Não, não o conheço e não vou deixar; além do mais, o senhor iria ficar deslocado, porque ninguém aqui o conhece”.
-"Engano seu minha cara, deixe-me entrar e verás quantas pessoas que estão aí me conhece, e quantos sabem, perfeitamente, qual o motivo de estar aqui".
Dizendo isto o dono do par de olhos azuis aproxima-se dela e delicadamente fecha a porta atrás de si e segurando em sua mão, a conduz até a sala onde os amigos estavam.
-"Olá Onur, como você demorou, achávamos que não vinhas mais!"
Ela olha atônita para quem falou; então alguém ali conhecia mesmo aquele cidadão.
Os demais, ao ouvirem o seu nome, também a ele se dirigiam e o cumprimentavam efusivamente.  Sim, ele era conhecido de todos, e ela ficou se perguntando como, se ela era conhecida e amiga de quase todos que ali estavam, por que não conhecia aquele belo par de olhos azuis, que jamais passariam pela sua vida sem serem percebidos?
Bom, agora o jeito era tratar bem aquele senhor, e tentando soltar a sua mão, que ele prendia cada vez com mais força, procurava com os olhos uma pessoa para servir algo ao visitante.
Finalmente ele lhe liberou e ela pergunta-lhe se quer alguma bebida e com a resposta seguiu até á mesa onde os drinks eram servidos. Estava sem graça, sabia que estava sendo observada, ou melhor, literalmente comida com os olhos. Aquele homem tinha um olhar desconcertante, com ele podia dizer tudo, e dizia mesmo.
Quando trouxe o whisky que ele pedira já o encontrou numa roda com uns cinco amigos, falando animadamente, como se realmente fosse muito íntimo deles. Ao se aproximar com o copo ele o pegou com uma das mãos, e logo enlaçou a sua cintura com o outro braço. A pegada era poderosa, ela sentia a firmeza do braço, a força da mão na sua cintura, não podia nem se mexer, até porque não queria que as pessoas percebessem que aquele cidadão, tão íntimo de todos, e que estava em sua casa agarrando-a daquela maneira, ela um ilustre desconhecido.
A reunião continuava, falaram de tudo, e ela procurando uma brecha para saber quem era aquele homem; finalmente alguém pergunta-lhe: "E aí Onur, como está a holding?  Esta conseguindo muitas obras?  Tome cuidado com estas contratações, você bem está vendo como estão as nossas maiores empreiteiras, todas envolvidas em altos esquemas".
A ficha cai, e ela olha fixamente para o homem que aperta a sua cintura com movimentos ritmados, que lhe induz a pensar em sexo, em amor, em momentos deliciosos, pois quem tinha uma pegada daquela com certeza saberia fazer amor com uma mulher. Por Alá! É o empresário de origem turca que está entrando no país com a sua grande construtora, na brecha deixada pelas envolvidas com as diversas operações realizadas pela policia. Mas que Diabos este homem estava fazendo em sua casa e lhe tratando com tanta intimidade?
Ele, parecendo adivinhar os seus pensamentos, começa a responder os questionamentos dos amigos. E então ela percebe que aquele par de olhos ela tinha visto mesmo em Istambul, quando fora designada pela sua empresa para fazer uma pequena investigação sobre a que seria contratada para a obra de reconstrução do centro histórico da sua cidade.

Ela fora a Istambul, mas nem sequer passara pela empresa, afinal estava fazendo uma investigação sigilosa e não seria nada recomendável ir exatamente até a toca do investigado, mas o inevitável acontecera, ela fora a uma festa em um clube privado em Istambul, e aquele par de olhos estava lá, e alguém lhe dissera que o dono deles era o maior acionista da empresa que investigava, e por isso mesmo não quis qualquer aproximação, mas não deixou de perceber o olhar daquele homem.
Pois é, o homem participara da concorrência e a sua empresa ganhara a licitação, e ele, que tinha vindo muitas vezes ao Brasil, por força disto, conhecia a todos porque todos que ali estavam, ou trabalhavam para ele, através de outras empresas aqui contratadas, ou eram advogados que já tinham tido contatos com ele. Ela, porque tinha tido somente a missão de investigar e apresentar o resultado desta investigação a quem de direito, se desligou, porque a sua vida era esta, viajava muito fazendo estas investigações a respeito de empresas que queriam entrar no mercado da construção, ou em outro qualquer ramo, no Brasil. De uma maneira, ou de outra, ela podia decidir, pois de suas informações, eles poderiam ter, ou não, a chance de entrar no pais.
Recordou-se de tudo, só não podia era imaginar que aqueles olhos azuis iriam, mais uma vez, cruzar com os seus, e de que maneira. Bom, os olhos eram uma coisa, mas as mãos, as alisadas nas suas costas, a pegada do cidadão, aquilo não estava nos seus planos, embora qualquer mulher que fosse olhada por aqueles olhos não poderia ser condenada pelos pensamentos que fluíssem.
As pessoas foram saindo e ele ficando, ela, entre surpresa e intranqüila, ia aceitando os apertos nas suas costas, nos seus braços, o leve roçar da face nos seus cabelos, os suspiros bem próximos aos seus ouvidos, já não estava conseguindo esconder o seu mal estar (bem estar), e, por dentro, embora soubesse que não resistiria muito tempo, pedia para que o homem fosse embora dali logo, mas ele não parecia comungar deste pensamento.  Parecia disposto a ser o último a sair, ou melhor, não sair.
Ela pede licença do grupo e ele teve de largá-la um pouco e ela vai até uma amiga e pede para que ela fique e durma em sua casa. A amiga, com um olhar matreiro e com um sorriso de canto, diz que não, ela já tinha se comprometido com o parceiro e iria dormir em casa dele.  Vai até outra e faz a mesma proposta. Recebe como resposta um não e mais um sorriso maroto. Desiste, olha para os que ainda lá estão e sente que ali há um complô, mas tira este pensamento rápido, mas fica martelando por que eles estão agindo assim.
Somente três pessoas ainda continuam tomando drinks e conversando: ele e um casal bem intimo dela, seus amigos há uns dez anos, pessoas de sua inteira confiança. Ela se aproxima e diz que já é tarde: eles, entendendo, levantam-se e cumprimentam o Onur,que os acompanha até a porta, ela que vinha seguindo os três despede-se do casal e, quando vai falar com ele, este simplesmente, e ao que parece em combinação com os dois, fecha a porta atrás de si, fixa o seu olhar no dela e diz: - "Será que você não percebeu que a minha vinda aqui não foi casual? Será que você nunca percebeu quanto tempo venho lhe seguindo? Será que você não consegue ver nestes meus olhos o amor que sinto por você?  Será que você conseguiu esquecer o primeiro dia que te olhei em Istambul?"  Ela para e o olha seriamente, queria resistir, mas era impossível, não responde nada, apenas deixa que olhos, mãos, corpo inteiro, aproxime-se do seu, deixa-se levar, entrega-se, os olhos bem abertos porque não quer perder um momento sequer do que aquele olhar traduzia; vê, a um só tempo, prazer, volúpia, amor, carinho, desejo, tudo o que aquele homem lhe transmitia pelo corpo e por aquele olhar, que, certamente, nunca vai esquecer. Amanhece o dia e os dois estão ali entrelaçados, suados, extenuados.  O telefone toca e lhe tira do torpor em que se encontrava, e ela olha para o quarto com roupas pelo chão, toalhas jogadas na cama, lençóis amassados. Procura alguém ao seu lado, procura pelo par de olhos azuis.  Não há nada; não há ninguém, tudo não passou, como sempre, de um belo e lindo sonho. Vai deixar de ver as Mil e Uma noites, a novela que trouxe para os seus sonhos o Onur,o personagem  turco de olhos azuis, que tanta libido despertou em si, aliás, em muitas mulheres com certeza. Se não assistem, assistam e tenham, ao menos, uma noite das mil e uma noites que ele pode oferecer.