quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma nova tentativa - Continuação da análise

Já acordou de “calundu”; então insistia naquela história de analista, mesmo tendo a certeza que não daria certo, insistia; devia ser o desejo de participar do mundo dos “ins”. Agora, ao menos, tinha a consciência que seria analisada por uma mulher, pois até mesmo o sobrenome já era sugestivo do sexo. LARANJEIRA. Um laranjeiro, certamente, não daria frutos, seria uma árvore estéril. Bom, o certo é que tinha consulta marcada às 15h00min com a Doutora Laranjeira.
Arrumou-se toda, parecia que ia a uma festa. Por que isto? Perguntou para si mesma, então você vai ao analista, que é uma mulher, e se emperiquita toda desta maneira?
Tá querendo o que? Um caso com a analista? Sorriu deste pensamento ridículo, aliás, estes não lhe faltavam, sempre tinha pensamentos esdrúxulos, ridículos, muitos vezes mórbidos. Não sabe quantas vezes matou pessoas em pensamentos, a quantas desejou mal, quantas não foram enviadas para o quinto dos infernos.  Era assim, e se achava normal, os seus pensamentos eram de pessoas normais, achava ela. Se não os verbalizou todos foi por pura falta de tempo e também porque achava que, muitos deles, ao invés de ofender as pessoas, até ia lhes fazer um bem danado e, por isso mesmo, preferia ficar calada e deixar a pessoa atônita, com uma bela interrogação na face.  Quantas vezes sorriu interiormente da cara abestalhada de tantas pessoas que passaram pela sua vida. Bobas, idiotas, pernósticas, prepotentes, burras, egoístas, metidas, enfim, uma série delas que pensavam que a estavam agradando, ou desagradando, mas morriam ou morreriam sem o saber, apenas porque ela ficava com a cara de “idiota” “parva”, sem reação qualquer que identificasse o que lhe ia ao interior. Gostava mesmo era de ser assim sempre, mas não conseguia, tinha pavio curto, somente em poucas e memoráveis ocasiões é que conseguia este estágio de pleno regozijo interior, de gozo intestino, pois era bem assim que sentia estes rasgos.
No carro ia pensando no que diria à analista: “Será que tenho de dizer que fui a outro colega? Será que devo dizer que acho uma babaquice esta idéia de ser analisada, compreendida no meu interior por uma pessoa que nunca participou, sequer, do meu exterior e onde vai ficar sempre. Sim porque eu não quero qualquer intimidade com esta pessoa, que vai querer me virar pelo avesso, descobrir em mim o que não quero ver, ou que já estou cansada de ver. Qual seria a reação da analista quando me ouvir dizer que gostaria que algumas pessoas do meu relacionamento íntimo estivessem mortas? Acho melhor não dizer isto não, ela vai me mandar para um psiquiatra, vai dizer que o meu caso é patológico, que eu preciso mesmo é de uma camisa de forças. Ah e como seria a reação dela se eu disser que tenho algumas taras? Algumas fantasias sexuais que envolvem caminhoneiros de enormes carretas? Que eu queria ser escritora de livros pornôs. KKKKKKKKK, porra! Seria fantástico ver a reação da analista, se é que ela teria alguma. No meu caso, se eu fosse ela, ia morrer de rir, mas eu sou eu, e posso achar que estas taras são normais.”
Seguia com as suas elucubrações que passou do lugar onde ficava o consultório. “Puta merda, vou ter de voltar tudo isto”! Olhou para o relógio, tinha apenas dez minutos para tentar voltar e achar uma vaga no estacionamento.  Não devia ter vindo de carro, pensa, era mais fácil, mas agora estava dentro da merda e devia sair dela.  Fez o retorno uns duzentos metros após e volta ao lado da avenida onde fica o consultório.  O prédio todo em blindex já justificava metade do valor a pagar pela consulta, que ela continua achando caríssima, não havia prédio certo para justificar a extorsão, mas ela não tinha que discutir isto, vinha ali por livre e espontânea pressão dos amigos que a queriam no grupo dos “ins”, e pelo visto ela estava interessada em participar dele, pois somente isto justificaria o sacrifício e o gasto que teria se realmente continuasse as sessões, que poderiam se eternizar; ela conhece um dos “ins” que fez análise por uns dez anos: é mole ou quer mais! E o pior, a única coisa que ela acha que ele conseguiu foi ficar muito, mas muito mesmo, egoísta e prepotente, embora a desculpa para estas duas “qualidades defeituosas” seja exatamente “o ser mais você em todos os momentos é você se dar o valor que tem, sem medo da opinião dos outros”, ela acha que todos devem ser assim, e que não precisa de um analista para que ele te diga isto, mas não entende porque para você se sentir “poderoso (a) você tem de virar um egoísta ou um prepotente. Não é necessário nada disto. Se você tem e sabe que do seu valor, não é necessário que viva dizendo,  ou demonstrando isto, simplesmente seja sempre você e pronto, nada além, mas parece que isto não é normal.
Consegue estacionar já em cima da hora. Gosta tanto de ser pontual e vai chegar atrasada, ao menos uns dois minutos logo no primeiro dia! Sobe o elevador pedindo que a consulta anterior tenha demorado um pouco, que a analista esteja atrasada. Seria bem melhor; assim ela já ganharia um ponto, afinal estava no seu horário e a sacana é que atrasaria. Ou seja, ela estava na dianteira.
Abre a porta de vidro e vê uma senhora sentada de cabeça baixa, os cabelos ralos e prateados lhe fez lembrar a sua mãe. Não queria ter uma lembrança desta logo agora. Isto lhe faria recordar de coisas que não gostaria de falar com uma estranha, só o faria depois de muitos contatos.  Segue diretamente para a recepcionista, que também não é o símbolo da educação.  Boa tarde! Tenho uma hora marcada com a Dra Laranjeira.
- É a senhora Amélia?
- Sim, sou eu
-Tento ligar para o seu telefone desde ontem, mas não consigo falar com a senhora.  A sua consulta foi adiada, porque a doutora Laranjeira teve um problema familiar e teve que viajar.
“Filha de uma puta” Olha incrédula para a recepcionista. A senhora tenta ligar desde ontem para mim, não vi qualquer ligação. Realmente..........
-É senhora, ligo desde ontem, se a senhora quiser pode olhar no seu histórico, infelizmente não conseguimos falar.
-Sim, e agora, quando foi marcada nova consulta? Pergunta isto sabendo que não virá mesmo
-A Doutora chega depois de amanha, ou seja, na terça ela recomeça os atendimentos e vai reprogramar as sessões pela ordem em que estavam.
-Isto significa o que? Que você não pode dizer agora qual a data da minha consulta?  Estava fazendo o questionamento somente para despachar um pouco da raiva; nada além disto.
Exatamente, eu só posso dizer o dia da nova sessão após as marcações dos clientes anteriores à senhora.
-Ah, então você vai contatar-me pelo telefone?
-Exatamente.
-Tá bem, vou aguardar. Já disse isto sorrindo, pois se ela não tinha recebido qualquer ligação para o desmarcamento, imagine se iria receber para uma marcação. Claro que não, ainda que a ligação fosse realmente feita.
Bom, mais uma vez o analista foi para a cucuia. Tomou isto como um sinal. Desistiria de ser “in”, ia continuar no seu “out” e estava de bom tamanho.