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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

DESENCONTRO MARCADO II

Acordara cedo, mas o frio intenso fez com que ela permanecesse na cama, leu mais umas páginas de Saramago em O Memorial do Convento, entretanto não queria sair de casa tão tarde, tinha um compromisso e, antes dele, teria que ir à Faculdade pegar os quatro exemplares da dissertação e tese para levar ao Arquivo Histórico do Ultramar e à Sociedade de Geografia, o problema é que o Arquivo Histórico só abre uma hora da tarde e ela queria entregar os exemplares exatamente neste horário, porque pretendia estar na Merendinha do Arco às 13h30min, afinal o encontro estava marcado e não seria ela a falhar.
Tomou coragem e as dez estava completamente pronta, decidiu que iria pegar um taxi, assim adiantaria mais as coisas. Chegou à faculdade e, felizmente, os exemplares estavam prontos.  Colocou tudo em uma sacola e dirigiu-se ao metro, preferindo ir até o Campo Grande e lá pegar a linha verde. Olhou o relógio: sim, chegaria a tempo na Sociedade de Geografia e depois, logo ali na Praça da Figueira tomaria o quinze e iria até o Arquivo Histórico e depois voltaria para o Rossio para o encontro marcado.

sábado, 18 de dezembro de 2010

É coincidência?


Mandara-lhe a foto. Estava assustada, nunca tinha pensado em nada parecido. Alguém que entrasse na sua vida através da internet e já lhe mandando foto.

Por que a foto? Será que queria mesmo fazer a propaganda? Ou não queria que houvesse surpresas? Ou será porque ela tinha lhe chamado de “centenário” e ele queria mostrar que não era?

Bom, o fato é que a foto chegara e ela olhava a pessoa que ali estava sentada num sofá muito pesado, o animal que estampava o pano era bem grande, o que lhe lembrava o motivo que deu inicio a esta “internetrelation”.

Começou a remoer os acontecimentos. Através de um texto agora estava dentro de um contexto, um contexto que não era só seu, afinal quando se fala em contexto, já saímos de nós, do nosso casulo e passamos a dividi-lo com os outros.

Ela, no momento em que fez suas publicações na net, deixou o seu casulo, ou melhor, permitiu que muitos entrassem nele. Não sabe ainda se isto é bom ou mau, mas o fato é que coisas agradáveis vêm acontecendo.

No caso da foto, talvez esteja entendendo tudo errado, talvez a carência lhe faça projetar coisas impensadas pelo fotografado, mas ela era assim, fica imaginando e se imaginando na situação. Ela certamente não mandaria foto para ninguém, não mandaria mesmo, ou será que mandaria?

Estava cheia de dúvidas, mas começava a perceber que, apesar do mínimo tempo em que se comunicavam, já sentia a sua falta; já lá se iam três ou quatro dias sem uma palavra, sem um comentário, sem nada.

O que estava acontecendo? Será que tinha dito alguma coisa que lhe ofendera? Não, não lhe parecia que fosse ele pessoa de se ofender facilmente, aliás, dificilmente alguém lhe conseguiria afetar, pensava ela, afinal, ele era um gozador. A brincadeira que fizera com um conhecido comum lhe dá a certeza de que ele é um tremendo gozador, um brincalhão.

Estava mesmo assustada, sentia falta de um desconhecido que lhe mandara uma foto para ser conhecido. Será que ele queria uma avaliação? Estava esperando algum comentário?

Não, pensava ela, claro que não. Então um homem que parecia ser inteligente, vivido, ia se submeter a um julgamento tão bobo? Claro que não. Então por que mandou a foto? O que ele queria com isto? Uma aprovação ou uma desaprovação?

Começou a fazer ligações: Tinha publicado um texto em que falava que tinha encontrado um professor de História de nome Roberto. Será que ele tinha lido tal texto e agora lhe queria impressionar? Pois a coincidência não estava somente na história, como também nas últimas cinco letras do nome.

Depois, mais um texto, agora mais especial e técnico, que lhe valera o conhecimento e os parabéns de um desconhecido, embora muitos já tenham elogiado tal texto; na estatística do blog é o segundo mais lido. Mais uma coincidência: normal, todavia, uma coincidência para quem é de país diverso daquele do fotografado, pois, quando esteve fora do país, na terra dele, frequentou uma “tasca”, que ele parece, também, frequentar, aliás, o texto em que a fotografia do local aparece foi que inspirou a brincadeira.

Outra grande coincidência, casas de praia em lugares próximos. O fotografado para chegar à dele tem de passar pela entrada que leva à dela, lembrando que ele é europeu.

Ademais, o vinho tinto seco! Aí é mesmo demais, embora isto não seja uma coincidência, e sim bom gosto

É; dizem que coincidências não acontecem, mas ela queria uma explicação para tantas. Vai esperar o desenrolar dos acontecimentos. Quem sabe, com autorização, até publique a foto, afinal, propaganda é a alma do negócio, e se o fotografado estiver mesmo à procura de algo ou de alguém, quem sabe!...

Tomara que o fotografado goste de “ameijoas à bulhão pato” e de “bacalhau à lagareiro” e, para completar, goste de “fado” - tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado -,  de olhar o “Tejo”, de vinho todos já sabem que sim.  Ai, pois, o serviço vai estar completo, ou será que ainda falta algo...?





Arembepe, 18.12.2010