segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um agradecimento

Ela o conheceu num período para lá de triste e amargurado.  Fora forçada a deixar sua casa, seu canto, sua família, seu país. Não agüentaria ficar na sua cidade depois de tudo que lhe aconteceu. Efetivamente não foi a primeira, e nem seria a última, a sofrer uma grande desilusão, que abalou todos os seus alicerces. Seguiu magoada, triste, se agarrou a uma única, para ela, chance, de esquecer, de perdoar, de perdoar-se por tantos equívocos, tantas mentiras.  Queria se perdoar por ser tão imbecil, ela que adorava dizer que os outros é que o eram, entretanto ela sentiu na pele o que é ser imbecil, o que é acreditar num outro tão próximo, o que é deixar-se enganar com tudo acontecendo na sua cara, à sua frente.  Como bem diz o ditado: “corno é o último a saber”.
Sim, precisava ficar longe. Não se preocupou com todos lhe dizendo que devia ficar e enfrentar tudo de frente. É engraçado como as pessoas acham que podem resolver a vida do outro, parecem que  conhecem você  mais de que você mesmo, mas ela tinha, no momento, uma única certeza: devia se afastar, se ficasse ela não suportaria, a sua dor ia multiplicar-se. E lá se foi com as suas dores .
Bendita viagem, bendita cidade, bendito rio,bendito país, bendita faculdade de letras e bendita biblioteca da faculdade de direito, mais bendita ainda, a Sociedade de Geografia, o Arquivo Histórico do Ultramar, a Biblioteca Nacional, com eles dividiu dias e noites, uma solidão partilhada com estantes, livros, documentos e  muitos loucos, que iguais a ela, não pelo mesmo motivo, fizeram a opção do conhecimento.
É solitário, é sim, mas há dias de folgas desta solidão, há momentos de solidão partilhadas em outras plagas, ela partilhou muitos com o rio, o rio que a viu chorar tantas e tantas vezes, mas que lhe consolava de uma maneira incrível, lhe apaziguava a alma, e foi ali, diante dele, que ela viu nascer, pela primeira vez, depois de tantos anos, a esperança de esquecer o seu passado, como se isto fosse possível, de encontrar um novo motivo para ser feliz.
Ela, até então, não concebia felicidade sozinha, ela gostava de ter alguém ao seu lado, para partilhar, para criar metas, para alcançar objetivos, para criar os filhos e ver as suas vitórias, tudo aliado ao seu trabalho e à sua vontade de conhecer, de saber, todavia tudo isto lhe foi tirado, em questão de cinco minutos sua vida se transformou inteira, chegou mesmo a perder o respeito por si própria. Não fora capaz, sequer, de lutar, ficara sem forças, despedaçada, mas o rio lhe trouxe um alento. Um alento moreno, bigodudo, bonito, galanteador.
A partir daí sua vida realmente transformou-se, não que fosse uma meta encontrar alguém ou estar com alguém, mas estar com aquela pessoa era bom demais. Começou a despertar outra vez; como disse uma vez um seu amigo, ela começou a, novamente, “ficar viçosa”.  Adorava se arrumar para ouvir a pessoa lhe dizer que ela estava linda; gostava de andar de mãos dadas no calçadão a beira do rio, gostava de ver o orgulho do bigodudo ao andar com ela pela rua, a apresentá-la aos amigos como “minha namorada”, gostava de sentir o olhar voraz daquele homem quando ela estava chegando aos locais dos encontros marcados. Ah como era bom a expectativa do encontro; virou uma adolescente, tinha dúvidas iguais aos 15 anos, quando saia para encontrar algum novo namorado, na incerteza se ele estaria ou não no local.  Adorava ouvir dos amigos dele: “Fulano teve muita sorte”.
Sim, gostava de comer peixe em lugares recônditos, que somente eles, os da terra, conheciam; nada de lugares turísticos, nada de luxo, apenas lugares maravilhosos, de gente simples e de comida mais de que caseira. Ele lhe ensinou mesmo a comer peixe grelhado, cozido a portuguesa, carne de porco alentejana, açorda, mão de vaca, bacalhau a lagareiro com batatas ao murro, chanfrana,  frango no churrasco e tantas outras coisas.
A cada encontro uma novidade,um novo restaurante de bairro, a exemplo do Panças, um novo espaço para dançar; sim dançar, ela adorava e achara o parceiro ideal para isto, ele não só gostava de dançar como de vê-la dançar. Ficava extasiado quando tocava “La Luna e El Toro” e ela dançava sua dança “espanhola”, que nunca aprendeu, mas enganava bem; a dança espanhola, nela, era atávica. Aprendeu kizumba, alguns poucos passitos, mas não envergonhava ninguém e dançava com ele muito e eram felizes. Quando chegavam em algum baile  as pessoas diziam: Pronto chegou o casal mais bonito da festa”.
Sim, assim ela viveu durante dois anos.  Teve algumas rusgas, sim teve, ele era ciumento, mas até isto ela gostava; se desacostumara de ser querida, gostada, desejada, e aquela demonstração de ciúme lhe deixava tremendamente orgulhosa. Era uma mulher desejada, querida, gostada. Aquele homem fazia questão de estar com ela e se dar para ela. Era uma conjugação perfeita dos verbos do amor, que sempre eram conjugados no presente e na primeira pessoa do plural, nós queremos, nós gostamos, nós vivemos, nós amamos.
Todavia, ela não podia estar todo o tempo fora do seu país, e numa destas idas para lá, numa época de São João, aconteceu o que para ela era quase impossível: ele se foi, sem aviso, sem choro e nem vela, foi-se: foi-se da mesma maneira que apareceu, nenhum rastro deixou, sequer lhe deu a chance de dizer o quanto ele foi importante na sua vida, o quanto ele modificou o seu querer, a sua forma de pensar, os seus sonhos. Diz-lhe agora, após sete anos da sua partida.
Obrigada Sr. bigodudo, por tudo.  Saiba que você foi mesmo muito, mas muito importante mesmo na vida desta mulher. Ela vai seguir lembrando de você com carinho, e, todas as vezes que ouvir um fado, vai lembrar do moreno da boca pequena, do bigode preto, e dos olhos mais negros e penetrantes que já viu.