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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Compensando o desencontro marcado

gaivotas no Tejo
Depois daquela informação, de que era ela a senhora que estava na mesma mesa com ele, parece que ficam petrificados, ambos calados na frente da tela, onde só o branco do silêncio de ambos se fazia presente. Nenhum dos dois conseguia escrever nada, ao que parece aquele desencontro foi mesmo terrível para ambos. Não desconectavam, mas não diziam nada, e esta espera estava sendo angustiante para ela, que, sem qualquer aviso, desligou o computador e foi dormir.
Deitada, quase chorando, se perguntava: Por que isto aconteceu?  Então aquele homem que, da tela fez-se real, de uma maneira que ela quase idealizou, escapuliu assim das suas mãos!
Ela custava a crer que tudo isto tivesse acontecido. E agora, pensava ela. O que vai acontecer? Será que ele não vai mais dizer nada? Por que ficou tão calado?  Será que ele não gostou do que viu?  Será que esperava mais ação da minha parte?  Será que não agradei em nada?  Agora ele já sabia como ela era, portanto, podia dizer algo, comentar alguma coisa. E ele resolvia adotar o silêncio.
Custou mesmo a dormir, mas foi vencida pelo sono e pelo cansaço.
Dia seguinte e nada, chamou por ele diversas vezes, mas ele não apareceu. Dois, três, quatro, cinco seis dias, um mês e nada. Ela não sabia o telefone, o endereço, nada, apenas um apelido, e mais nada. Que bobeira, pensava ela: por que, depois de tanto tempo, eles nem sabiam o próprio nome e nem um telefone? E se tivesse acontecido alguma coisa, como ela ia saber?  Bom, mas não há nada que o tempo não cure, e ela já estava aceitando o fato de que não mais se encontrariam, seja virtual ou realmente, mas aí, um dia, sem qualquer esperança, só ela mesmo que assim pensava, ele apareceu no local de sempre. Ela quase teve um troço, suas pernas tremiam, as mãos trêmulas quase não conseguem responder  ao cumprimento.
Maputo
-Olá, peço desculpas, mas estive fora durante todo o mês, fui fazer um trabalho na África, na Ilha de Moçambique, e fiquei  quase todo o tempo sem acesso à net. Cheguei hoje pela manhã e aguardava ansioso que  aparecesses.
Ela quase desconecta, pois não acreditava naquilo, mas diz Oi e começa a falar como se nada tivesse acontecido, inclusive aquele interregno.
- Olá, então fostes a Moçambique?  Eu já estive lá, mas só fui a Maputo, gostava muito de ter conhecido a Ilha de Moçambique, mas não tive tempo.
- Tu fostes  a Moçambique?
- Sim fui, fui fazer a pesquisa do doutorado.
- Doutorado.
- Sim, doutorado.   Fiz o doutorado em História, na especialidade História da África.
- Não acredito! É mesmo verdade?
- Sim, tão real quanto a tua viagem à Ilha de Moçambique.
- Podíamos ter ido à mesma época, ao menos arriscaríamos a nos encontrar no avião ou até mesmo em Maputo, pois passei uns cinco dias por lá, antes de voltar para Lisboa.
- Fostes à Feira Popular e ao Mercado do Peixe?
Igreja de Sto Antonio-Maputo
-Claro que fui; então eu ia a Maputo e ia deixar de ir nesses sítios. Lá ia eu perder aqueles camarões daquele tamanho.  Claro que não. Fui ao outro lado também e comi uns camarões num restaurante na praia que agora me fugiu   o nome, sei que era de um cidadão que esteve algum tempo em Lisboa, embora fosse indiano de Goa
- É mesmo, eu também fui lá, e sem gostar muito de camarão, comi também.
Apesar dele já ter dado a chance da conversa sobre o desencontro de quase dois meses atrás, ela não se arriscava a falar nada, perguntar nada, e continuava naquela conversa de Maputo, de comida, da cerveja Laurentina, da pobreza da cidade, enfim.
Mas aí o inevitável acontece.- Tu és uma mulher interessantíssima! Fiquei encantado ao saber que aquela mulher com quem partilhei uma mesa, ao menos por dez minutos, eras tu. Não sabes quanto me maldisse naquele dia. Fiquei tão aborrecido com a minha idiotice, pois eu deveria ter perguntado se eras tu, que não tive coragem de conversar contigo naquela noite, quanto pior, quando decidi já estava na hora de pegar o vôo para Moçambique.  Naquele dia eu ia falar-te  sobre tudo isto, da minha viagem, do meu trabalho, do tempo, enfim, ia dizer-te  tudo que estava acontecendo. Marquei naquele dia exatamente por este motivo, pois não queria ir embora sem ver –te, conhecer-te pessoalmente,  saber como eras,  e deu naquilo e eu não conseguia me perdoar. Passei todo o tempo pensando como deixei-te escapar de mim..
-  Ela sorriu, afinal  ambos tiveram o mesmo pensamento e disse: pois é, quando aquele homem pediu para sentar na minha mesa, fiquei torcendo para que fosses tu, acredite, era bem assim que eu te idealizava.  Quis tanto perguntar, mas tu estavas tão sério, tão preocupado, que eu desisti, até porque pensei: se fosse ele, ele diria alguma coisa, daria alguma pista, enfim.
- Ficamos esperando um pelo outro não foi?
- Sim, foi.  Mas depois da tua ausência, de tanto ver a tela branca quando te chamava, achei mesmo que tua decepção tinha sido grande e que tu não querias mesmo mais falar comigo.
-Tás doida ou o que? Então achas que eu desistiria assim tão facilmente. Eu fiquei piurso comigo mesmo e com a viagem, com o avião, com o computador, com tudo que me impediu de dizer -te que eu não ia desistir de nós.
 Ela já estava ficando emocionada, “Não ia desistir de nós”. Isto lhe pareceu uma coisa de querer bem, de vontade de estar com outro, mas ela não disse nada, tinha receio de demonstrar sua emoção, e a sua vontade de dizer: que tal amanhã, ou ainda hoje mesmo? afinal só eram 10h30min da noite, e a noite em Lisboa mal começara, podiam marcar algo e ir dançar, tomar um drink, sabe-se lá mais o que.
- Tenho que entregar o relatório de viagem amanhã pela manha, lá pelas dez, e depois tenho várias reuniões durante todo o dia, caso contrário ia chamar-te para uns copos agora, se  concordasses claro.
Ela já estava explodindo! Queria mesmo ver aquele homem, queria olhar mais para ele, ver direito a cor dos seus olhos, as suas mãos, a sua boca, ela tinha ficado muito impressionada, e tinha aquela droga daquele relatório. Fazer o que? Guardar a ansiedade e foi o que fez e já estava quase dando boa noite e tchau quando ele:
Ei,  ainda estás ai?
-Claro que estou.
- Amanhã, lá pelas sete, estás livre? Podemos nos ver?
- Claro que sim, não perderia isto por nada.
Rua de Lisboa
-Então fica marcado, amanhã as sete e um quarto, lá mesmo naquele bar no Caes do Sodré.
- Tens certeza que queres lá mesmo? Aquilo já não nos deu muita sorte uma vez.
-Sim lá, porque quero apagar este mês que passou, vamos fazer de conta que nada aconteceu e que, este vai ser o nosso primeiro encontro marcado.
- Ok, estarei lá, até amanhã. 

Foi deitar-se, não antes de pensar na sua imbecilidade. Por que não pedi um telefone? Por que não perguntei seu nome real? E se acontecer algo amanhã, como farei, vou ter que esperar as 10:30 da noite. Bom mais amanhã será outro dia, ou  melhor  O DIA

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Indicação Bibliográfica


Nunca pensei que isto fosse acontecer, mas posso garantir que é muito bom, bom mesmo, dá um prazer imenso, um orgulho grande, uma sensação ótima.
Alguns podem achar que é pedantismo meu falar sobre o assunto, mas não vou me importar com isto, porque esta felicidade que senti e sinto está acima de qualquer coisa, inclusive de preocupação com o que os outros pensem ou deixem de pensar.
O fato é que, no ano passado, 2011, estava eu fazendo uma pesquisa pelo Google, exatamente por força do trabalho do doutorado e ao colocar o assunto que queria encontrar – Legislação Colonial e Justiça Colonial em Moçambique - dei de cara como meu nome em uma série de sites.
Olhe gente, não nego não, fiquei mesmo extasiada.  Eu, Esmeralda Simões Martinez sendo citada em artigos de mestres, mestrandos, doutorandos, fazendo parte de bibliografia de teses de dissertações. É mesmo sensacional.
Em um dos artigos o articulista chega a dizer: “segundo a jurista e historiadora, Esmeralda Martinez”, pense aí! Bem verdade que não conseguimos agradar a gregos e a troianos, porque o mesmo artigo que foi publicado em uma revista no Brasil foi rejeitado por outra, sob o argumento de que havia algumas conclusões “simplistas”. Tudo bem, até concordo,pois pelo comentário, descobri que não se pode, seja em artigos, seja em dissertações, seja em teses, fazer sínteses de duas linhas, porque isto é muito “simplista”. Simplista ou não, o artigo foi citado e me  fez sentir muito importante.
Hoje, dia 30 de maio, embora quase sem poder fazer nada, porque o som dos meus vizinhos não permite, coloquei o meu nome no Google, e eis que me deparo com um projeto denominado – OS COMPROMETIDOS - e qual não foi a minha surpresa por encontrar meu nome na descrição do site. Evidentemente que abri e, realmente, a surpresa foi maior ainda: pois não é que na bibliografia indicada pelo projeto esta o artigo LEGISLAÇÃO COLONIAL PORTUGUESA PARA O ULTRAMAR, publicado pela revista Sankofa!
Olhe que fiquei mesmo emocionada, até porque o projeto em questão é do Centro de Estudos Sociais – CES- da Universidade de Coimbra em Portugal, que tem uma equipe de investigadores do mais alto nível, incluindo o Doutor Boaventura de Sousa Santos, o que significa que o meu artigo realmente é bom, porque não estaria relacionado na bibliografia de um projeto desta qualidade.
Bom, o fato é que to me sentindo mesmo muito importante, vendo o reconhecimento de um trabalho de pesquisa, de sistematização, que me tomou muito tempo, me fez gastar muito dinheiro, me fez ficar afastada dos que gosto, mas que, realmente, valeu a pena!     

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

LOBOLO - Venda da filha

Estava eu a ver a novela Caminho das Índias que demonstrava o costume indiano de os pais do noivo serem presenteados pelos pais da noiva, que também deveria levar consigo uma boa quantia. Não posso imaginar no Brasil um costume deste, acho que estaríamos, 80% das mulheres, solteiras, caso este fosse um costume da nossa sociedade. Felizmente não é, penso eu, pois nunca me deparei com uma situação desta, até porque, se assim fosse, seria mãe solteira.

Brincadeiras a parte. Estudando os usos e costumes de Moçambique para efeitos da complementação da tese de doutoramento, que tem como tema central a Aplicação da Justiça nas Colônias portuguesas, especificamente em Moçambique, deparei-me com um costume denominado LOBOLO.

Contrariamente ao que aparece na novela Caminho das Índias, entre as etnias Moçambicanas quem efetivava o pagamento do “dote” era o homem. O homem, na verdade, pagava pela mulher com quem iria se casar. Por ela, ele pagava aos pais uma determinada quantia, que variava de acordo com a região e etnia dos noivos, esclarecendo-se de logo que em Moçambique, no tempo colonial, a poligamia era aceita e que um homem, se dinheiro tivesse, poderia comprar tantas mulheres quanto pudesse, bastando, tão somente, fazer o pagamento do “lobolo”, que poderia ser, tanto em dinheiro, quanto em outros bens, sendo muito regular a entrega de certo número de cabeças de gado, e que o estudo feito remonta ao Século XX – 1900-1910

De acordo com Gonçalves Cota (1944:223) “as famílias patriarcais equilibram a perda duma filha que casa recebendo por ela dinheiro ou quaisquer valores econômicos que lhes permitem adquirir outra mulher para um filho que ficará sob autoridade do pai e o auxiliará; as famílias matriarcais não adoptam êste sistema, mas também conseguem o mesmo equilíbrio adquirindo para o seu grupo, em vez desses valores compensatórios, o proprio noivo que trabalhará para casa e ficará sob autoridade dos sogros.”

Vê-se, pois, que em Moçambique existiam dois sistemas familiares: o matriarcal e o patriarcal, sendo que o lobolo, o pagamento de uma compensação pela saída de uma filha do convívio da família, só acontecia na família patrilinear, porquanto na matrilinear era o homem que passava a conviver na casa da família da mulher, ajudando nos serviços para a manutenção da própria família: tomar conta do gado, se houvesse, arrumar madeira para as fogueiras, etc.

O “lobolo”, valor pago pelo pretendente a marido não pertencia à jovem que iria casar, ficava pertencendo à sua família, e seria utilizado pelo pai, caso ele tivesse filhos homens, na compra da mulher para estes, somente no caso de não existir filho varão, éque opai podia gastar o valor do lobolo com outro fim.

De acordo com Gonçalves Cota, (1944:227) houve casos em que os pais não respeitaram esta regra e com o dinheiro do lobolo da filha compraram uma nova mulher para si próprios.

O pagamento do lobolo gera uma série de consequências, que inclui a devolução do mesmo em diversos casos:

a) Quando a mulher comete adultério;

b) Quando abandona o marido;

c) Quando não procria;

d) Quando não cumpre os deveres conjugais.

Em todos estes casos o lobolo tem de ser devolvido ao marido, existindo vários “milandos” solicitando tal devolução. “Milandos” eram as questões entre indígenas submetidas ao julgamento das autoridades administrativas portuguesas, que eram responsáveis pela aplicação da Justiça aos indígenas, assim identificados desde o ano de 1894 pela lei, Decreto de 20 de Setembro de 1894(D.G nº 220 de 28.09.1894), como sendo “os nascidos no ultramar, de pae e mãe indígenas, e que não se distingam pela sua instrucção e costumes do commum da sua raça” (Art. 10º do Regulamento de 28.09.1894). A estes deveria ser aplicado um ordenamento jurídico diverso daquele que era aplicado aos portugueses.

Naturalmente que os portugueses não poderiam aceitar a poligamia, afinal eram cristãos e a lei civil punia o adultério e, portanto, não se poderia dar qualquer “status” de português a pessoas com costumes tão bárbaros, como eram identificados os usos e costumes dos indígenas, mui principalmente a poligamia, tanto que, quando em 1917 foi exigido o Alvará de assimilado,através da Portaria Provincial de nº 317 uma das exigências era que o pretendente a assimilado adotasse a monogamia; os outros requisitos eram: saber ler e escrever a língua portuguesa, ter meio de subsistência e viver afastado dos usos e costumes dos indígenas.

Mas voltando ao lobolo, que de acordo com JEFFREYS (1951:53) é o preço da criança e não o da mulher, pois segundo ele com o pagamento do lobolo o marido adquire o direito de ficar com os filhos: “a criança torna-se sua quando ele paga para transferir o seu “status” de membro do grupo da mãe para o seu próprio.

A discussão se o preço é pela mulher ou se pelas crianças no momento não vai ser objeto deste artigo, que quer discutir as causas que determinavam a devolução do lobolo e como os administradores das diversas circunscrições civis em Moçambique resolviam as questões que lhes eram postas tendo como causa de pedir a devolução do pagamento efetivado aos pais da mulher.

Nos casos de adultério, que somente poderia ser praticado pela mulher, dado que o homem era polígamo, se fazia necessário a devolução do lobolo, fosse qual fosse o tempo que durou o casamento. Os pais da mulher, ou os seus sucessores, tinham de devolver o preço pago por ela, ficando os filhos havidos no período do casamento com o homem.

Nos casos de abandono do lar, também aqui o lobolo era devolvido, e no caso de haver filhos, estes, também podiam ser requisitados pelo marido.

Em todos os demais casos acima indicados, o lobolo tinha de ser devolvido, e se isto não acontecia, os pais da mulher tinham que fazê-la voltar a viver com o “marido”, ou tinham de dar outra filha ao homem, mui particularmente nos casos de não procriação, ou seja, o comprador da mulher tinha que ter a sua mercadoria à disposição. Observe-se que o importante não era a mulher em si, e sim a satisfação do homem que a adquiriu.

Ha casos interessantes que foram submetidos aos administradores portugueses, valendo esclarecer que, antes os “milandos” eram resolvidos pelos régulos, mas os portugueses retiraram daquelas autoridades tradicionais muitos dos seus poderes, com o fim de enfraquecê-las, e distribuíram estes poderes aos administradores, que, se analisarmos pelo lado português, não tinham qualquer formação “jurídica” para se tornarem aplicadores da justiça, e pelo lado do indígena, pior ainda, porque eles não conheciam os costumes desses e, na maioria das vezes, aplicavam um direito hibrido, que não era uma coisa nem outra, nem os usos e costumes dos indígenas, que era mandado observar pela própria Constituição Portuguesa, e nem o direito português, que não admitia a poligamia, nem conhecia o lobolo, não tinha a divisão da família em patrilinear e matrilinear. Para a resolução dos “milandos” os administradores se serviam das informações dos próprios régulos, dos chefes de povoação, cabos, etc. e, ainda de alguns relatos feitos por “portugueses” encarregados de estudarem os usos e costumes indígenas e mais de alguns dispositivos legais, a exemplo do Capítulo III do Regulamento das Circunscrições(BOM nº 40 p. 428).

O fato é que o “lobolo” causava muitos problemas quando tinha de ser devolvido:

Em 1905, por exemplo, uma indígena filha de outro indígena de nome Zambe fugiu da companhia do seu companheiro de nome Mufana Maze, este, então, decidiu “fazer milando” e deu queixa na administração do distrito de Gaza, pedindo a devolução do lobolo e mais a devolução da filha havida no período do casamento. Todos foram ouvidos, o pai da indígena fujona, o querelante, o atual marido da indígena e a própria indígena. Restou apurado que, o Mufana Maze e o pai da indígena estavam mancomunados: o primeiro para receber dinheiro do atual marido, de nome Dambambe, que inclusive, tinha tido relações carnais com ela antes mesmo que ele a vendesse para o querelante, sendo ele o verdadeiro pai da filha da mulher, e o segundo para ter a filha e poder vendê-la. Também restou esclarecido que ele indenizou o primeiro marido, a quem entregou a quantia por ele paga ao pai da indígena. Foram condenados o querelante e o pai da indígena no pagamento de multa e prisão. O primeiro por mentir e querer tomar a filha para vendê-la, e o segundo por vender a mulher a duas pessoas diferentes. (AHM- FDSNI Cx 148- Milandos e Queixas Diversas- Gaza 1905).

Também em 1905 foi registrada uma queixa sob nº 8, no mesmo livro acima identificado, tendo como Querelante o indígena de nome Juelemane de Minhangane (minhangane é o nome do regulo das terras onde o indígena vivia e sempre era usado seu nome para identificar de onde o indígena pertencia) contra Maguibene, também de Minhagane. Diz o primeiro que o segundo era seu tido e recebeu o dinheiro do casamento das suas duas irmãs, que ficaram com ele, sob a proteção do tio, mas este gastou todo o dinheiro. Esclarece que as irmãs foram vendidas pelo seu pai quando ainda eram crianças. Que o tio tem de lhe entregar 5 cabeças de gado e mais 3£ que ainda faltam para completar todo o valor do remanescente.

Provou-se que o querelante tinha razão e o tio foi condenado a pagar o equivalente ao saldo remanescente em 3 meses.

Nota-se, pois, a variedade das questões que podiam ser suscitadas pelo fato do recebimento do lobolo. No segundo caso apresentado o filho do falecido pai das irmãs vendidas, reivindica o valor recebido pelo tio, pela venda delas ainda quando crianças.

O recebimento do lobolo, pois, pela família da “mulher” na realidade, era um pagamento quase que provisório, uma vez que, caso o casamento por qualquer motivo que ela desse causa, fosse desfeito, ele teria de ser devolvido a quem fez a compra.

Em outro momento descreverei mais “milandos”, uma forma muito interessante de conhecer os usos e costumes dos negros (indígenas) portugueses de Moçambique.



FONTES

AHM – FDSNI – Cx 148

BOM I Série nº2, de 18.01.1917, p. 8

BOM nº 40, de 03.10.1908, p 428

D.G nº 43 de 20.02.1894

D.G nº 220 de 28.09.1894.

Bibliografia

COTA, J. Gonçalves. Mitologia e Direito Consuetudinário dos Indigenas de Moçambique, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1944

JEFFREYS, M.D.W- “Lobolo é o preço da Criança”. African Studies, Vol. 10, nº04, 1951, Trad. De José Carlos D´Almeida e Sousa Marques.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Descobrindo Maputo

O sol jogava os seus últimos raios sobre a terra seca. Uma poeira vermelha flutuava no ar. Seu sapato preto estava vermelho, passou a andar sobre a grama, que também perdera a sua cor original e demonstrava todo o poder do sol naquela parte da terra. Aquilo não era nada, nem grama e nem coisa alguma, mas alguém lhe gritou: “Não ande na grama”. Insatisfeita, teve de sair mesmo, afinal, naquelas paragens, aquela mistura de terra com alguns fiapos de uma mistura verde e vermelha podia ser considerada grama.

A terra seca, vermelha e fina entrava no seu sapato, que já não tinha cor. Aquilo era mesmo um sacrifício para si, mas não havia outra maneira de chegar até o local onde fazia a sua pesquisa, pela qual valia o sacrifício.

Consegue chegar ao portão divisório do campus da universidade e a rua, não faz muita diferença: de ambos os lados a poeira é terrível, mas do lado de fora do portão, que na realidade não existe, tem o asfalto, esburacado, misturado com aquele barro seco, mas o asfalto diminui um pouco a poeira. Tira cada pé do sapato e balança o barro que se acumulou na travessia do campus.

Ela anda sozinha e preocupada, quer acabar logo a sua pesquisa, mas é impossível saber o que quer em tão pouco tempo, aquele arquivo merece a eternidade, tal o seu conteúdo, mas é impossível passar mais tempo ali, e ela tenha a ciência de que não conseguirá realizar nem trinta por cento do que se propos.

As pessoas passam por si. O colorido das capulanas das mulheres contrasta com tristeza que se denota nos seus semblantes. Muitas sentadas no chão, sem qualquer condição de higiene, expõem e vendem os seus produtos – folhas, tangerinas, milho, mandioca. São muitas e muitas, mas não se vê, ao menos naquela parte por onde ela passa, qualquer traço de inimizade, de concorrência. Ali a concorrência é tão somente pela vida. O pano, em que elas colocam as mercadorias, é encardido. A água com a qual elas molham as folhas para que não murchem é suja, algumas guardam a água em uma lata onde sentam, as ancas servem de tampa para este reservatório de água. Algumas têm crianças que lhes sugam o peito cansado e murcho, mas isto não é motivo para que elas não atendam algum cliente que se aproxime. O ambiente é sujo. Os pés foveiros da poeira vermelha encostam-se nos produtos, mas parece que ninguém liga, porque os compradores aparecem e levam as folhas, as frutas, alguns até comem  estas últimas sem sem lavar.

Aquele era um caminho pelo qual passava todos os dias, até descobrir que muitos outros existiam e que levavam ao mesmo lugar. A partir desta descoberta ia, a cada dia, trocando o caminho, não só pela própria novidade em si, mas para não passar pela avenida principal, sempre muito cheia de gente, ambulantes, bêbados, e também porque esta uma maneira de conhecer a cidade no pouco tempo que permaneceria nela.

As outras ruas em que andava não eram muito diferentes daquela primeva, mas havia menos movimento de pessoas e de vendedores de rua. Numa destas caminhadas encontrou o “peixe preto”, um peixe que é defumado e que se pode guardar por muito tempo sem que apodreça. O bicho é feio, horrível na aparência, mas, segundo a vendedora e uma compradora, de ótimo gosto. Não teria coragem de comer aquilo, a aparência é mesmo tenebrosa.

Pela rua vendedores de frutas, carrinhos cheios de banana e tangerina. Pelo chão, sentadas em um banquinho com um fogareiro à frente, vendedoras de “maçaroca”. Estão com a típica vestimenta da terra – a capulana. Falam entre si uma língua esquisita, as das suas respectivas etnias. Ha uma aglomeração delas, realmente a concorrência é a última coisa que poderia ser encontrada ali, assam as suas maçarocas e pronto, não disputam os clientes, eles chegam e compram e se vão a debulhar os grãos assados.

Esta na hora da oração dos muçulmanos. Muitos homens apressados passam por si e se dirigem para a Mesquita que fica no caminho por onde tem de passar. Muitos homens vestem túnicas brancas e usam o kufi (gorro para rezar). Muitos são indianos, as características físicas demonstram isto. A pobreza circundante contrasta com a imponência da Mesquita.

A avenida fervilha, esta na hora de voltar para casa, todos se apressam. Os chapas estão superlotados, mas ainda param nos pontos para pegar mais gente, que se comprimem ali dentro, mas querem mesmo é chegar a casa.

As vendedoras ainda estão a postos, no lugar onde existem paragens dos chapas elas se concentram mais ainda, tem fregueses fiéis, pois se vê o tratamento entre elas e os seus clientes.

Atravessa a última avenida que vai lhe levar diretamente à rua do hotel. O percurso é feito em uma hora e vinte minutos, aproximadamente. Quando chega ao hotel já não tem mais vontade de fazer nada, a não ser dormir. A caminhada é penosa, porque além da distância em si, ela vem trazendo o notebook, a bolsa, e, papeis; uns seis quilos. Sempre chega exausta.

Algumas vezes, antes mesmo de subir para o quarto, pede um uísque duplo e fica no hall do hotel olhando a movimentação. Constata que muitos hóspedes, inclusive dois espanhóis, estão ali para angariar mulheres. Muitas jovens entram e saem do hotel, algumas acompanham os hóspedes até o quarto. As cenas lhe deprimem um pouco, sabe que aquelas jovens estão se prostituindo e acreditando numa mudança de vida, que lhes esta sendo, sacanamente, prometida.

Não gosta dos dois espanhóis, até porque eles tratam mal os empregados do hotel, não que esses sejam exemplo de nada, muito pelo contrário, são como todos que encontrou: desatenciosos, sonolentos, descansados. Não se esforçam para nada: é como se os hóspedes precisassem deles, e não o contrário.

Acaba o uísque e vai para o quarto, toma sopa de saquinho, arriscando-se, porque ela é feita com a água quente da torneira do banheiro, nada recomendada para o consumo, mas não há outro jeito.

No final de semana, depois do meio dia do sábado, que é quando o seu começa, anda pelas ruas da cidade, descobre muitas coisas e lugares. Constata que há muito vigilantes, não se sabe para vigiar o que, porque como parecem pertencer à empresa de vigilância “sonolência”, nada está a ser vigiado.

Anda sem destino, mas com uma direção quase certa, a do mar, entretanto, quando passa pelo Jardim vê muitas, mas muitas mulheres mesmo concentradas. Estão todas de capulanas. Pergunta o que esta acontecendo, alguém lhe diz que elas são de Napula e que vieram para Maputo fazer uma manifestação, e estão à espera de algum representante do governo.

Olha para aquela cena assustada, as mulheres estão sujas, algumas dormem na grama, outras estão sentadas dando de mamar aos seus filhos, outras andam pelo jardim. Quer tirar fotos, mas fica inibida, tenta tirar sem que elas percebam, consegue algumas não muito nítidas.

Desiste e segue em direção ao mar, que, mesmo com toda a sujeira, conserva, bem longe da praia, a sua cor, cor que lhe dá a esperança, de que tudo neste país ainda vai mudar. É o que realmente espera.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo na mesma



Sai do arquivo as 12:00hs, porque era sábado dia que funciona até este horário, e resolvi que iria andando porque queria conhecer a Av. Júlio Nyerere. Sai da Rua da França, onde fica o portão do Campus da Universidade Eduardo Mondlane, onde está o barracão do arquivo, e segui pela Avenida Kenneth Kaunda. Rapaz, que surpresa!

Esta Avenida, do lado direito de quem vem da Vladimir Lenine é o bicho. É uma avenida de duas pistas largas, separadas por um canteiro no meio. Começou a aparecer muitas casas boas, mas muito boas mesmo, casas enormes, com dois ou mais andares, bem arquitetadas, parecia que eu tinha saído do Maputo, que até então conhecia.

A Avenida está limpa, não há lixo acumulado, nem tampouco contentores abarrotados de lixo derramando a podridão pela rua. Continuo a andar, vejo muitos seguranças, como sempre, alguns estão dormindo, outros coçando o pé, só alguns poucos estão realmente fazendo o seu serviço corretamente. Todos estão fardados, as fardas são das cores mais diversas, sinal de que existem muitas empresas de “segurança sonolenta” por estas bandas, todos mostram na cintura, pendurada no cinto, um par de algemas; deve ser para facilitar o trabalho de quem rouba, pois além de surpreender o segurança dormindo, ainda tem o privilégio de algemá-lo com a sua própria algema.

A grande maioria dos seguranças é raquítica. Acho que se aparecer um negão, ou um menino mais forte, eles se mijam todo e botam para correr, mas vá lá: tem segurança. A quantidade, entretanto, naquele espaço me chama atenção e eu começo a olhar mais atenciosamente para as casas. Descubro a razão: Ali estão casas onde funcionam embaixadas e casas de moradores abastados e dos próprios cônsules e embaixadores.

As Embaixadas se sucedem: Bélgica, Brasil, Espanha, as duas últimas unidas e separadas apenas pela cerca eletrificada. O Atlântico foi completamente engolido pelo Indico. Muitas outras instituições: tudo gradeados. São fortalezas, parecem prisões fortificadas, tudo esta fechado, de movimento só os seguranças, isto quando não estão em estado letárgico.

Uma estrangeira, acho eu, porque loura de olhos claros, roupa bem diferente da que se costuma ver aqui, sai de uma garagem com o carro e sai do carro para fechar a garagem, claro que o carro é um jeep último modelo, lindo por sinal! Entra no carro e se pica.

Continuo a andar e mais fortalezas aparecem de todos os dois lados da rua. Certamente para demonstrar que quem está dentro não quer sair dali e que quem esta fora deve ai permanecer: não são bem vindos. Fico imaginando se será assim em dias de expediente.

Começo a ver o mar, aliás, já disse isto: aqui é melhor ver o mar do alto, ou então de alguma esplanada, porque ai não se vê a pobreza e nem a sujeira.

Continuo a descida olhando o mar. Chego a uma espécie de rotunda, porque aquilo não é porra de nada, e vejo uma indicação para a Sommerschield (não está escrito errado não). Resolvo ir por ali, porque já sabia que este local é na praia e que era o lugar chique da cidade, até tentei alugar um flat, que eles assim chamam um apartamento independente que fica não sei se do lado ou nos fundos de uma das casas, por 100 dólares dia, mas não consegui porque já estava ocupado.

Atravesso a Avenida Julio Nyerere com muita dificuldade. Como sempre, não me acostumo mesmo com a porra da mão inglesa. Desço uma ladeira: muitas construções novas, muitos condomínios de luxo. Continuo a descer e, de repente chego, exatamente, a um local onde há um restaurante, que fica na praia, chamado Nossa Casa, onde tinha visto muitos panos pendurados e muito artesanato na rua, e onde estava pensando em ir para comprar umas calças típicas.

Compro uma calça. De início custava 550 meticais, chorei tanto e fui embora que o homem foi atrás de mim e a calça saiu por 300 meticais, embora ainda muito cara, mas a calça era linda, quero dizer,o estampado. Deixe dizer que a calça custou menos de sete euros e meio, aproximadamente 16,00 reais. Estou pensando seriamente em comprar aqui panos e levar para o Brasil para fazer calças ou saias, penso que vou ganhar dinheiro, porque realmente as estampas são lindas e diferentes.

Atravesso para o outro lado da rua, o lado da praia, e sigo pela calçada, se é que se pode chamar isto de calçada. Ha pedaços que a maré levou e tem buracos com avisos de “não passar”, outros são as pedras que estão quebradas, enfim, tudo esburacado e termina ficando perigoso, porque um passo em falso e a cara vai para o chão mesmo.

Vejo muitas pessoas mais adiante e estranho porque estão todos muito vestidos, homens de terno, mulheres bem arrumadas à maneira Moçambicana, claro. Algumas pessoas estão literalmente na praia, num cais que avança para o mar.

Vou me aproximando mais: Surpresa! Tem duas noivas ali, elas e seus convivas e as damas de honra. Acho que as próprias damas recomendam mal a honra da casadoura, porque duas delas, que estão vestidas com roupa de cor vinho, as outras duas estão de azul, cheia de babados, estão descalças e dançam mexendo bem a bunda. É uma dança esquisita, não vejo qualquer sensualidade em dançar com as pernas abertas, como elas fazem, chega a ser feio, quanto pior porque elas estavam de vestido curto.

Uma das noivas está muito longe, já bem perto da água, a outra está ainda na areia e, para fazer pose para a foto, atira-se no pescoço do noivo e dobra as pernas. Uma foto cinematográfica. Hilariante!

São 13.30 e eu não entendo o horário do casamento, mas acho que eles herdaram isto dos portugueses, porque em Lisboa também os casamentos são realizados de dia, deve ser para que o noivo não seja enganado a respeito da beleza da noiva, principalmente aqui, em que se pode correr o risco de só ver a noiva no dia do casamento.

Acho engraçada a estória, mas não consigo explicação para o fato de noivas e convidados estarem ali, penso que deve ser alguma tradição.

Ouço um senhor falar para outros, que já estão reunindo o pessoal para ir embora e aí noto que tem muitos carros no local, inclusive vans.

Sigo em frente. Sinto-me, outra vez, roubada, porque compro duas calças por 500 meticais, e olhe que começou com o cara pedindo 350 por cada uma.

Compro as calças e vou andando em direção ao centro, que está muito longe, mas eu não tenho outro jeito, pois não vou tomar a chapa e não tenho crédito no telemóvel para chamar um taxi.

Vejo muitos carros juntos seguindo um primeiro que está todo enfeitado. Olho rápido; é mais uma noiva, que vai em direção ao mesmo local onde estavam as duas outras.

Mais carros e mais noivas, passaram umas três ou quatro, todas com o seu séquito.

De repente vejo batedores, muitas motos. Um dos motoqueiros grita para mim uma piada que não consegui entender, graças a Deus, por isto olho para o lado e que surpresa! Os batedores estão abrindo caminho para uma limusine branca, que esta toda enfeitada, indicando que ali vão os noivos. Quase não acredito no que vejo uma limusine, mas para meu espanto, a primeira vinha seguida de mais quatro, uma delas vermelha e as outras pretas. Todas com vidros escuros que não permitiam ver nada lá dentro. Não pensem que eu estou brincando, eram limusines mesmo, aqui em Maputo. Não bastasse a limusine, um séquito de carros seguiam o cortejo, muitos jeeps e carros importados lindos: parece que alguém da nata estava se casando.

Fiquei mesmo estupefata! Numa cidade pobre e suja como Maputo, uma cidade cujo governo se diz socialista, vide os nomes das ruas que já indicam a ideologia que os senhores representantes do Governo querem afirmar – Vladimir Lenine; Mao TSE Tung, Ho Chi Mim; Guerra Popular; Karl Max: Engels, Amilcar Cabral, Salvador Allende e muitos outros ,o regime que se quis implantar em Moçambique com Samora Machel em 1975 e a FRELIMO(partido marxista-leninista). O homem passou na Presidência 11 anos, só deixou o cargo por força da própria natureza, faleceu 1986, o que não impediu que a FRELIMO continuasse no poder, embora, hoje exista um outro partido, que lhe faz oposição, a RENAMO- Resistência Nacional de Moçambique). Não percebo, entretanto, como isto funciona aqui em Moçambique, sei sim que em todo e qualquer governo, seja ele socialista, comunista, democrático, ditador, há os que mandam e os que obedecem. Há a burguesia, tão combatida pelos dois primeiros regimes, e a pobreza.

O nome das ruas nada significa, os símbolos colocados na bandeira Moçambicana também não, aliás, os homenageados com os nomes das ruas, certamente devem estar muito aborrecidos com esta homenagem, que nada os dignificam, muito pelo contrário, demonstram que as suas doutrinas foram por demais mal interpretadas, que a mais valia aqui é ser rico, rico mesmo, sem que os pobres possam jamais sair do estado de pobreza em que se encontram. Aliás, um escritor moçambicano, ROCHA, 2006:82-83

“Apesar da orientação ideológica socialista e tal como anteriormente o movimento frentista, o PF continuou a ser uma força heterogênea, com sensibilidades diversas, integrando marxistas e liberais, militares, intelectuais e tecnocratas, muitos deles vendo no Partido uma forma de aceder a lugares e benefícios diversos”[...] As conseqüências desta opção marxista pela FRELIMO, embora se possa reconhecer o seu carácter estatista e modernista, não se fizeram esperar, tanto interna como externamente. A ala marxista era efectivamente hegemônica, mas os ideais socialistas não eram partilhados por parte significativa dos membros do Partido. Por isso a adesão à postura socialista não foi consensual, e alguns críticos tiveram de deixar o Partido, indo alguns dos mais inconformados formar bases de grupos oposicionistas diversos, alguns dos quais vieram a integrar o movimento rebelde que mais tarde se constituiu na Resistência Nacional de Moçambique(RENAMO)” (grifo nosso)

Portanto os pobres vão continuar a revirar o lixo para comer, a vender frutas e verduras nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a vender coisas usadas nas ruas, a roubar as pessoas, enfim, que eles se lenhem para que os ricos, cada vez mais ricos, continuem andando de Limusine, acentuando a diferença, que foi tão combatida na época colonial em relação aos europeus. Mudam os nomes e até mesmo a cor dos dirigentes, o que não muda, exatamente, é a divisão de classe aqui tão bem visível, sendo que o proletariado daqui, não existe, pois o proletariado tem de estar organizado para alcançar os seus objetivos, o que, possivelmente, ainda vai demorar muito, se é que um dia isto ainda possa acontecer. Enquanto isto, Maputo fica mostrando os seus contrastes e Moçambique continua recebendo fundos humanitários para combate a AIDS, para preservação dos animais (elefantes, onças, girafas, macacos, hipopótamos, cobras e muitos outros) e o povo continua a morrer de fome nas ruas, sem emprego, sem assistência, sem dignidade, mas os resorts em Inhaca, nas praias de Inhambane, em Pemba e em tantos outros sitos do país continuam recebendo turistas que saem daqui encantados com as belezas naturais, sem qualquer preocupação com a população, que de uma maneira ou de outra, ainda continua à disposição dos que se julgam superiores.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Maputa da vida!

Maputo acumula decepções. Hoje tive várias. A primeira delas foi chegar ao local onde funciona o Arquivo Histórico de Moçambique e ter a noticia de que as fontes primárias não se encontram ali, e sim em um depósito no campus da Universidade.

Isto não seria qualquer problema, se eu não tivesse ligado n vezes para o arquivo, enviado mensagens dizendo o que queria, enfim, tivesse tentando saber tudo antes da chegada, a fim de não perder tempo.