sexta-feira, 30 de abril de 2010

Parlatório

Parlatório,
Nome mais filha da puta para um local de encontros familiares. A distância já se estabelecia desde ali. Pois é: No internato, em todos por onde passei, os locais de visita, onde os filhos encontravam-se com os pais, quando tinham esta oportunidade, porque haviam alguns que não viam quaisquer parentes anos após anos e anos, tinham este nome horroso.
O encontro tinha de ser como sugeria o “parlatório”,- “grade por onde as pessoas recolhidas ou enclausuradas falam as quem as visitam”(Dicionário de Língua Portuguesa 5ª.ed. Editora Porto,s.d) com todas as reticências que uma educação “esmerada” permitia. Nada de excessos, choros! Para que? Então você estava tendo a oportunidade de ver a família e ia perder tempo chorando? Que absurdo! Estariam as freiras lhe maltratando, porque somente um mau tratamento por parte das educadores justificaria queixas ou choros perante a família, que fazia o sacrifício de visitar-lhe no colégio e era assim recepcionada, com choros e queixas! Inadmissível.
Sim, era mesmo um transtorno: pessoas tão ocupadas, como eram os seus pais, que viajaram horas a fio, saíram dos seus afazeres para visitar-lhe, serem recebidas com choro! Pior que isto, era o que estava por vir após a visita: Por que o choro? O que você queria que os seus pensassem? Por que a sua insatisfação? Afinal todos ali estavam te dando “amor”, uns mais que outros, eu que o diga, porque tem muita gente que quer dar amor em um internato só de mulheres, desde as “irmãs”, que já são mesmo de caridade, e tem a missão de “dar amor”, qual seja a forma que se exteriorize, até as “colegas”, que quando resolviam amar mais umas de que outra, deixando a igualdade benfazeja, a coisa descambava. Os castigos eram certos e, muitas vezes, o afastamento do convívio sadio era necessário.
Pois assim era o “parlatório”; um lugar que, de início, ficava fechado por quase todo o tempo. As visitas eram permitidas somente aos domingos, com hora pré-estabelecida. Uma visita não programada somente em caso de vida ou morte, mais morte de que vida, é claro! Aliás, uma visitação fora do domingo já era prenúncio de “merda”.
Nos colégios em que estudei o “parlatório” ficava sempre ao lado da portaria, logo na entrada do convento. Em verdade, uma posição para lá de estratégica, os visitantes não precisavam saber o que se passava no interior do convento, que, naturalmente, guardava os seus segredos. Não se podia admitir que pais e familiares presenciassem cenas que podiam desgastar a imagem das bondosas irmãs de caridade, educadoras de “elite”, pessoas de formação que sabiam falar francês fluentemente, como se esta língua fosse apropriada para o desamor, quando sabemos que ela, até bem pouco tempo, era a “do amor”, carnal ou não, mas do amor.
Em alguns conventos chegava-se ao pedantismo de chamar as irmãs de “ma souer”, acho que é assim que se escreve, irmã em francês. Uma massada!
Eu, especialmente, não ia ao “parlatório”, quase ninguém ia me visitar. Pais pobres morando no interior não podiam vim a Salvador para me ver, tampouco eu teria tempo de estar com eles nesse ambiente, porque ele não era adequado a “pobres”.
As visitas tinham tempo determinado e a quantidade de gente que poderia estar no “parlatório” de uma só vez era limitada, afinal, para que tantas pessoas vendo somente uma, não era necessário. Tínhamos de aprender a viver e estar sempre sozinhas, isto é, sem os nossos familiares, eles nos faziam fracas, tínhamos de ser fortes, estávamos sendo educadas para isto. Mulheres com alguma missão, algumas chegariam a professoras, para ensinar nada a ninguém, porque muitas filhas de fazendeiros só estavam ali para que os pais, na hora do “dote” pudessem especular mais um pouco, dote ao contrário, claro! porque a educação de uma filha em um colégio de nome em Salvador já era meio caminho andado para um “bom casamento”, isto para quem nasceu rico, porque pobres, como era o meu caso, por mais que a educação fosse benéfica, e foi! não serviria para um bom casamento, quando muito, um bom concurso público para professora primária, já estava de bom tamanho, aliás, tenho que reconhecer que estudar em alguns colégios de freiras em Salvador era mesmo, tempos atrás, embora isto não tivesse acontecido comigo, uma porta aberta. Primeiro, porque você terminava por conhecer muita gente, filhas de pessoas influentes, seja na vida política, seja na vida financeira do Estado da Bahia. Eu conheci várias. Quando estive interna, o cacau estava no seu auge no sul da Bahia. Todas as filhas dos grandes fazendeiros de Ilhéus, Ipiaú, Itabuna, e tantas outras “Ita” estudavam em colégios de freiras. Já vi governadores na Bahia parentes de colegas minhas, não só governadores, como Juízes, deputados, senadores, a nata do cacau sempre soube se impor. Só não o conseguiram em relação ao “parlatório”, ali precisava-se de ordem mesmo, mas regras sempre comportam exceções e o “parlatório” deixava-se ouvir. Segundo porque a formação era mesmo boa, quem não tinha a felicidade de nascer rica podia ter ilusões ao deixar um colégio de primeira linha com um diploma de “professora” na mão. O magistério parecia ser a profissão ideal para as internas, não me lembro de outro curso profissionalizante que não fosse esse em colégios de freiras.
O fato é que o parlatório era uma coisa antidemocrática, ali nada era igual, desde o amor que precisava ser contido, choros engolidos, abraços retidos, até as palavras que eram ditas. Tudo no “parlatório” era vigiado, as irmãs estavam atentas a tudo. Se presentes chegavam, tinham de ser examinados, afinal, nada poderia adentrar ao colégio sem que se soubesse o que era e a que veio. Se trouxessem comida, que merda! Não se podia comer a guloseima predileta sozinha, aquele era um lugar onde não se podia ter nada, a não ser a roupa do corpo, que não fizesse parte da coletividade, era melhor não se levar nada, porque a raiva era pior. Até porque, ainda que houvesse um lugar especial para isto ser guardado, a pessoa não teria acesso ao tempo e a hora, tudo ficava a critério das bondosas e caridosas irmãs, que muitas vezes eram quem saboreavam as iguarias.
Pense que tinha internas que eram noivas, estavam já comprometidas, mas só viam os seus pretendentes no “parlatório” sob os olhares atenciosos das irmãs. Não se tinha direito a qualquer afago, o mais inocente possível. Parlar, somente coisas rotineiras, tenho quase certeza que ninguém nunca fez uma declaração de amor a outrem naquele lugar. Gostava de saber o que foi feito destes casamentos que começaram ali, se é que eles chegaram a existir. Eu não queria nenhum desses.
Usei muito pouco o “parlatório” por razões obvias e completamente pessoais, mas adentrei muitas vezes nele, porque como era eu a “bell boy or girl” do colégio tinha de anunciar as visitas, não antes de abri-lo e acomodar os visitantes lá dentro. Como anunciava as visitas, eu tinha que saber quem era a família que ali estava para poder localizar a visitanda. Não sei se isto era bom ou ruim, à época, até que gostava, via pessoas diferentes, podia até mesmo, contrariando regras, passar um bilhete com queixas para os familiares das internas, isto quando as “ma soeur” me davam alguma chance.
Pois é, com “parlatório” ou não, com visitas ou não, consegui chegar até aqui e agora, sem “parlatórios”, parlo com vocês democraticamente e aceitando as eventuais criticas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mãe de Cristo


Mãe de Cristo
Acredite: eu fabricava o corpo de Cristo, e não só, também dividia o seu sangue.
Ao menos uma vez por mês eu fabricava Deus. Maria tinha uma grande concorrente, aliás, muito melhor que ela, porque ela foi escolhida e, por obra e graça do Espírito Santo, a pomba gira da Igreja Católica, pariu Cristo uma vez. Eu não; fui escolhida num plano mais terrestre, e por motivos muito diversos, mas com uma finalidade igual, parir o corpo de Cristo, materializar o seu espírito, fazer com que ele entrasse no corpo dos outros por muito tempo e diversas vezes.
Pois é! Vocês podem não acreditar mesmo, mas fui iluminada, aliás, deveria continuar sendo, porque só mesmo uma pessoa iluminada teria o direito de criar Deus e dividir o seu corpo, através de seu filho, Jesus Cristo, para todos os seus outros filhos, e olhe que este senhor é um grande reprodutor, vá ter filho assim na casa da puta que... Assim, pela responsabilidade que me foi dado deveria ser iluminada pelo resto da minha vida.
Estão curiosos não estão? Tenho certeza que querem saber como eu consegui esta proeza! Vou lhes dizer, mas primeiro tenho de contar-lhes a causa da escolha.
A Escolha da minha pessoa não foi por merecimento, sei eu, muito pelo contrário, os que me escolheram para esta missão foram obrigados a fazê-lo. Precisavam me ocupar para que eu os deixasse em paz, desse uma trégua para que eles pudessem passar, ao menos, nos dias em que estivesse fabricando Deus, quietos, sem sobressaltos, sem se preocuparem com o que eu estava a fazer, ou no que estivesse prestes a fazer.
Fui interna durante muito tempo e fazia muitas misérias, gastava toda a minha energia em programar merdas para as outras internas e para as pessoas que estivessem no colégio. Fazia de tudo: sumia para a “roça” da escola, me perdia no mato, colocava todos a me procurar. Mudava os sapatos de todos de debaixo da cama quando eles estavam a dormir. Um dia mudei todos os pertences pessoais das internas dos armários respectivos: Ói que isto deu uma confusão da porra pela manhã quando todas acordaram; batia nas colegas do meu tamanho; escondia merendas; cuspia no prato dos outros, coisas de criança revoltada, diziam eles, de criança normal, penso eu.
Os piores trabalhos da escola me eram determinados a fim de que eu ficasse muito tempo ocupada e não perturbasse ninguém. Consegui angariar o ódio de quase todos, embora este ódio fosse misturado com muito amor, porque tive a graça de ser uma bela criança, uma bela adolescente, uma bela mulher tempos depois. A beleza despertou muito inveja dos colegas, porque todos sabiam que eu era uma “peste”, mas mesmo assim, com todos os defeitos, com todos os desvios de conduta, era assim que eles qualificavam as minhas inocentes peraltices, era escolhida para muitas coisas, inclusive para representar o colégio. È preciso que se diga que por causa das minhas brincadeiras inocentes a minha família foi recomendada a levar-me a um médico de “doidos”, ainda não estava na moda psicólogos ou psicanalistas, eram médicos de maluco mesmo.
Devido a tantas merdas que aprontava, um dia a irmã do Rosário, a responsável pela manutenção da Capela do Colégio, aliás, que ofensa: era uma Igreja que ficava aberta durante 24 horas porque ali, Deus, através do seu filho Jesus Cristo, estava de corpo presente durante todo o tempo, me chamou e me disse que eu ia aprender a fazer uma coisa muito importante para todos do colégio e para toda a diocese da Bahia. Sinta a minha importância, o cão fora escolhido para uma função divina.
Em princípio me colocaram numa sala com algumas maquininhas em cima de algumas mesas, acho que umas três ou quatro máquinas, não me lembro direito, mas a sala era pequenina, toda de azulejo branco, impecavelmente limpa. As máquinas ficavam nas mesas laterais. Em uma mesa central vi algumas tigelas com um líquido transparente dentro, isto depois que tiraram as toalhas que cobriam tais tigelas. As maquininhas pareciam o que hoje são a sanduicheiras, aquelas maquininhas que fazem sandies.
A irmã do Rosário começou a me explicar o que era aquilo. Aquelas máquinas eram utilizadas para a fabricação de “hóstias”. O meu colégio era responsável pelo fornecimento destas hóstias para quase todas as Igrejas de Salvador, não só de “hóstias”, como também do sangue de Cristo, o famigerado vinho que somente os padres tomam durante a celebração da missa, o que acho de uma extrema sacanagem, pois a divisão teria de ser feita com todos os fiéis, afinal todos tem o direito de receber o sangue de Jesus e misturá-lo ao seu próprio para unificação da fé e distribuição do amor que ele representa: Gostaram? Que inspiração Hein!
Pois, fiz os dois trabalhos, o que me tomava semanas de pintanças. Ia para a aula pela manhã, não antes de limpar todo o claustro da escola e, depois do almoço, todos os dias, estava eu lá, ou na sacristia da escola a engarrafar o sangue de Cristo, ou então na salinha branca que ficava junto à sacristia gerando o seu corpo.
Penso que vocês já descobriram o porquê de me auto intitular “fabricante do corpo de Cristo”, é isto mesmo, eu fazia as hóstias, era eu quem colocava aquele líquido transparente, que já me davam pronto, e que parecia mesmo o líquido criador da própria vida, este mesmo que você esta a pensar agora, e colocava uma concha dele na máquina, que tinha um desenho em alto relevo representando duas hóstias grandes e mais quatro pequeninas. A máquina teria de estar com a chapa bem quente e quando o líquido era nela colocado, era fechada e as duas partes se encontravam para que o líquido secasse e, finalmente, depois de um minuto, ou até menos tempo, surgisse o corpo de Deus em dois tamanhos, tamanho grande e pequeno, não se admitia a classe média nesta fabricação.
O corpo de Cristo saia da máquina ainda como uma placa bem fina com os desenhos das “hóstias”, lembrem-se que em todas as hóstias há o desenho da cruz, afinal o corpo de Cristo somente foi dividido com os seus outros irmãos depois de morto, então a cruz era a simbologia da sua morte. Depois disto, as placas muito finas ficavam empilhadas para que, em outro momento, com uma tesoura já devidamente separada e preparada para tal finalidade, fossem recortadas e as hóstias grandes fossem separadas das pequenas.
Depois de separadas e empilhadas por tamanhos, as hóstias eram divididas em embalagens individuais para cada Igreja para onde seguiriam. As hóstias grandes, e vejam a discriminação, serviriam para o padre, naquela hora em que ele mesmo come o corpo de Deus, o fizesse durante a celebração, e as pequenas, olhem bem! eram as que eram dadas ao povo, como se os padres tivessem mais privilégios de que os demais filhos de Deus, talvez os pecados fossem maiores e era necessário que o corpo de Cristo fosse dado a eles em pedaços grandes, como se estes pedaços fossem capazes de recuperar o irrecuperável.
Na minha escola, onde o corpo de Cristo se fazia presente durante todo o dia, nas 24 horas dele, a hóstia grande também ficava em exposição num objeto que eu não me lembro o nome, aliás, não faço nenhuma questão de lembrar, porque este objeto, que era dourado e tinha vários raios como se fosse um sol, tinha de ser limpo com “kaol”, todas as semanas, por esta que vos fala agora. Trabalho de filha da puta mesmo, que me levava, também, uma tarde inteira.
Viu que sou mesmo iluminada! Fui compulsoriamente escolhida para parir Jesus Cristo. Por ser Cristo, eu tinha gestações mensais: a todo o mês paria milhares de Cristo e compartilhava-os com outros que nunca souberam quem era a responsável por tamanha grandeza. Não só paria Cristo, mas também, logo após a parição, eu dividia o seu sangue com todos, pois ao engarrafar o vinho, estava eu distribuindo o sangue do “meu filho” para tornar melhores as pessoas.
Não sei se consegui melhorar ninguém, mas sei que aprendi a beber, porque o sangue de Cristo também tinha de entrar em mim, e eu não deixava por menos, afinal era o sangue do meu filho, conseqüentemente meu, que tinha de voltar a sua origem, e a única maneira era esta, sorvendo-o. O corpo, para que fosse dividido com mais e mais adeptos, não era comido por mim na sua forma final, consolava-me, eu e as demais internas, com os “retalhos” da hóstia, que, como não tinham sabor de nada, nos eram dados como merenda junto com um pedaço de rapadura. Ainda bem que corpo de Cristo não tinha gosto algum, pois se sem gosto já é tão dividido, imaginem se desse um bom caldo.
Tá vendo que é verdade mesmo, eu gerei Cristo por muito tempo e dividi com todos esta benção, que foi a de ser escolhida, compulsoriamente, para gerá-lo e dividi-lo com vocês, pobres mortais.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Voltei para Lisboa


Voltei para Lisboa

Podem até estranhar a preposição, mas é ela mesma que tem de ser usada, porque eu não posso dizer que voltei a Lisboa, porque iria parecer que era passado, ou que vim de passagem. Não é assim: eu voltei mesmo para Lisboa e ela estava aqui, de braços abertos a me esperar.
Os braços abertos de Lisboa já me esperavam no aeroporto, porque já me apresentaram uma ala nova, num aeroporto que deixei ha oito meses e que agora se me apresenta todo bonito, todo grande e ainda com muitas obras a concluir.
Quando sai do desembarque me deparei com braços amigos, dois deles, abertos, afetuosos saudosos. Sentei-me numa das esplanadas e tomei um porto, nenhum cansaço da viagem, que me fez inchar os pés me tiraria este prazer.
Segui para casa de taxi e braços mais abertos me aguardavam. Tenho certeza que muitas pessoas gostam e sentem falta de mim, mas a Vera bate em todas elas. Você sente no gesto, no olhar, na fala a sua afeição pela minha pessoa; e só pode mesmo gostar, porque da maneira que sou, nada afetuosa com as pessoas, somente quem gosta muito de mim é que me quer por perto.
Almoçamos juntas, claro que comi bacalhau a Lagareiro. Voltamos para casa, arrumei algumas coisas, conversei um pouco e fui, literalmente, ver o Tejo. O fascínio que este rio exerce em mim é mesmo inacreditável.
Para que o meu encontro com ele fosse mais emocionante, decidi sair do Rossio até a Praça do Comércio andando: queria rever Lisboa, a Baixa e desembocar no Tejo, e foi o que fiz, Quando cheguei ao Arco que dá para a Rua Augusta, ele já tava lá todo garboso se oferecendo a mim. Fui me aproximando vagarosamente, sorvendo cada momento, cada passo. Ele ia crescendo e, mais e mais, se amostrando e se mostrando. A cor da água mostrava-me a sua felicidade em me ver retornar. O Tejo sorria para mim, sei disso!
Infelizmente tive de dar-lhe as costas, porque queria ver Lisboa, pois da Praça do Comércio, olhando-se para cima você consegue ver muitas coisas belas. A menina é mesmo caprichosa e má quando se oferece aos seus visitantes, pois se mostra bela, mas não toda, é preciso ter calma para tê-la toda em seu esplendor. Não se pode ter pressa em Lisboa, e ela abusa disto, pois quer prorrogar tanto o prazer, que termina por ser má para os mais afoitos, que pensam que podem conhecê-la em um só dia, em uma só tarde.
A bota doía no meu pé, mas ainda assim arrisquei uma andada pelo Cais Sodré e descobri uma coisa maravilhosa, tiraram os tapumes que estavam a encobrir o Tejo em um determinado trecho, bem defronte da estação de comboios, que, também, está linda.
Voltei para a Praça do Comércio pela parte de dentro, na rua onde passam os elétricos e cheguei, outra vez, à Rua Augusta. Perambulei pelas ruas, Rossio, Praça da Figueira, Martim Moniz, queria mesmo ter a certeza da volta, e cá estou de verdade, matando as saudades e com a certeza de que, um dia, não mais sairei de Lisboa, estou cá e cá fico. Vou deixar que outrem sinta saudades, não mais eu, que pareço ter encontrado o que quero, aonde quero e, o mais importante, sabendo o por que deste querer.

Em 22 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ca-tu-ama

Sei que a maioria das pessoas não conhece Catuama, também não poderiam, não devem ter amigos como tive há algum tempo atrás, que me obsequiaram com a graça de conhecer um pouco do paraíso.
Sempre que ia naquele lugar eu dizia para eles: “Gostava de trazer aqui todas as pessoas que amo, nominava-os até, em cada lembrança”. E é isso mesmo, ainda quero que, mesmo os amigos que já não o são, tivessem a mesma oportunidade que tive.
Bom, mas primeiramente, antes de conhecer Catuama, você tem de conhecer o Imperador – O Grande – sim, porque ele é que lhe vai proporcionar a entrada no paraíso. Se você for sozinho a Catuama, talvez não reconheça o Éden que está diante de você.
Assim, conhecendo o Imperador – O Grande – você, inevitavelmente, vai conhecer a sua família, aliás, tenho de tirar o chapéu para o sentido de família que aquele homem tem. Todas as mulheres do mundo deveriam ter um Grande, na sua vida, seja como “pai”, como “filho”, como “marido”, como “irmão”, talvez até como “amante”. Nada posso afirmar sobre esta última condição, mas quanto as primeiras eu garanto: ele é o grande mesmo, com os defeitos normais do ser humano, mas um homem grande e um grande homem.
Mas não quero falar do Grande e sim de Catuama. Para chegar lá, você tem opções: Pode ir de ônibus, de carro particular, de barco, alguns chegam de helicóptero, como o do “Nassau”, aliás, chegada triunfal, o Príncipe e todo o seu séquito chegando.
Eu, patrocinada pelo Grande, já cheguei tanto de carro quanto de barco, quero dizer “lancha”.De lancha é inesquecível. Primeiro que você já pega a lancha na marina e já vai entrando no clima de êxtase. Você começa a navegar por um rio, passa por um canal em Marinha Farinha, que não nego não velho:, é extraordinário! Pense você ter uma casa com um deck para o rio que é só seu. Você tá em casa e pode pegar o seu barco no quintal da casa, sei lá se quintal, se frente da casa, não interessa, o que interessa é que Deus deve ter lhe privilegiado para você ter esta benção. Sempre pelo rio, você vai cada vez se aproximando do paraíso, tudo isto regado a um bom whisky e com a prazerosa companhia do “Grande”, e não só a dele.
Você passa por mangazeais, muitos lugarejos, dos quais não lembro o nome agora, e Catuama começa a se descortinar para você, mas ainda é muito pouco.
Quando você chega pelo mar, você vê casas nas encostas, mas as das encostas não interessam, interessantes são as que ficam na praia, como é o caso da do meu, um dia, Grande amigo. Do barco você olha para a casa e pensa que é um clube, embora a casa principal conserve a sua arquitetura antiga de uma simples casa de beira-mar. A lancha para quase em frente a casa, e você tem de sair com água, se a maré tiver enchido, até, ao menos, na cintura. Não dá para incomodar, porque a excitação é mais forte. Logo de cara você também vai ver algumas lanchas ancoradas, alguns jets espalhados e uma casa grande e moderna cheia de homens em pontos estratégicos: São as seguranças da realeza, afinal, príncipe, ainda que holandês, tem de ter segurança mesmo. Fixe esta imagem, você vai ouvir muitas histórias sobre os donos e vai, mesmo sem conhecê-los, participar da vida deles enquanto estiver hospedado na casa do “Grande”.
Você alcança a praia, passa pelos sargaços, que em nada tiram a beleza do local, e entra na casa do seu hospedeiro. A Rainha, que pode ou não ter vindo com você na lancha, já vai ter ordenado tudo. O drink de boas vindas está pronto, os tira- gostos, os quartos já especificados. Fique na varanda e olhe o mar, olhe bem, pois ele tem várias tonalidades, você certamente nunca viu nada igual, porque, simplesmente, aquele espaço ali é único.
Fique inebriado e agradeça e peça a Deus por aqueles que te proporcionam isto. Se integre no momento, não se envolva com mais nada, apenas seja você e o lugar, Sinta-o, absorva-o se integre e se entregue. Não seja, entretanto, mal educado, porque as pessoas estarão ali e você tem de lhes dar atenção.
Com as bagagens acomodadas, com tudo organizado e no lugar, você vem e vai ficar no bar da piscina, onde você poderá escolher o que vai beber comer, etc. A família estará sempre pronta para satisfazer os seus desejos, você não sentirá falta de absolutamente nada. O Rossi vai estar no ambiente e você, mesmo que não goste, o que não é o meu caso, vai adorar ouvi-lo ali naquele espaço abençoado por Deus. O Rossi é apenas um dos muitos que vai ouvir :Adilson Ramos, Roberto Carlos, Charles Aznavour, este último sempre problemático para a anfitriã, que entretanto, discreta, não vai deixar de ouvir.
Já está anoitecendo, mas você esta ali firme e forte, o mar ganha outra tonalidade, a linha do horizonte já não se distingue. A noite chega e você ver os pontos bordados que os barcos ancorados desenham no mar, que está calmo, como sempre, dificilmente ele se altera, aliás, não há motivos para tal, ele simplesmente, como bom anfitrião que é, quer te agradar.
Em determinado momento você vai jantar, na lateral da casa, em uma grande varanda, com uma mesa enorme, daquelas de fazenda, você vai saborear os quitutes da casa. Você come mesmo que não tenha vontade, a beleza da mesa é convidativa, a comida cheira, o ambiente te agrada. Enfim coma e participe da festa que é estar na casa do “Grande”, ele está feliz, você vê no seu olhar, nos gestos, na grandeza. A Rainha, à sua maneira também está, mas ela é discreta e guarda os seus sentimentos para si, é um enigma. Você precisa se acostumar muito com o jeito dela para poder descobrir o que lhe passa pela alma. Gosto dela ainda assim, aprendi a respeitá-la e admirá-la. Um gigante quando a conversa é o “Grande” seus filhos e agora “os netos”, quando me afastei, por conta da própria família, só existia um.
Após o jantar tome café e “licores”, os melhores claro, não há poupanças para o “Grande” não ha mesquinhez na sua grandeza. Fique ali, ele, se tiver em “águas”, vai dormir e vai deixar a sua casa e a sua família entregue aos amigos, cuide bem de todos, não seja “filha da puta” com quem te abre as portas da casa e do coração.
Quando não agüentar mais vá dormir. No dia seguinte, prepara-se, o seu coração pode não agüentar. Veja o dia amanhecendo em Catuama, veja as nuances da água, se quiser, vá andar um pouco pela praia, você pode seguir em duas direções: Fonte da Pedra, ou o outro lado, aconselho a primeira, é menos acidentada. Passe pela casa do “Príncipe Nassau”, veja os preparativos para um dia no mar. Siga, de preferência com o seu anfitrião, ele anda cedo. Passe pela casa dos amigos dele. O mar bate a porta de todas, é qualquer coisa de fantástico. Nesta hora você não terá contato com eles, mas tenha a certeza que, até o final do dia, já estará entrosado com todos.
Vá e volte. Na volta, você já vai tomar o seu primeiro e efetivo banho de mar. Dependendo da maré, você já vai sentir outro clima na casa. Chegue e a mesa do café já esta preparada ou em preparação. Não é hotel, tenha certeza.
Se a maré tiver baixa, aí minha senhora, você vai ter de se apressar, pois o melhor esta mesmo por vir. Tome o café e arrume-se para ir ao mar. Não se preocupe com nada que não diga respeito ao seu próprio corpo e ao seu eu, tudo será organizado. O “atento que estiver na hora” ou seja, o marinheiro do barco se responsabilizará por tudo. Você só vai entrar. Enquanto isto, olhe para o lado esquerdo: também na casa do príncipe as coisas estão se organizando. Uns 5 jets já estão alinhados. Os três ou mais barcos já estão ancorados mais próximos.
Esta na hora, vocês irão para o barco agora e o Grande vai lhes proporcionar mesmo um dia no paraíso. As “croas” (bancos de areia) já começam a aparecer, vocês têm de se apressar. Todos a bordo e o barco começa a se movimentar. Para a direita para uma visão geral do espaço. Esqueça um pouco da vista panorâmica, que é linda mesmo, mas olhe para a água. Do barco você vai ver o fundo do mar, ali não é fundo, é raso o suficiente para isto acontecer, não se engane, entretanto, pois a limpidez da água pode lhe surpreender.
As nuances do verde vão se sucedendo, eu choro, sou chorona mesmo, você faça o mesmo se tiver vontade. Agradeça, mais uma vez a Deus, a oportunidade que ele tá te dando, e peça também a ele para proteger aquela família, já fiz isto muitas vezes, mas nunca é demais.
Primeira “croa”, lá quase em frente a casa de “tidinho”. Saia do barco tome um belo banho, fique ali meio na água, meio na areia, sem nada fazer, apenas goze as delicias do momento. Deixe a água te acariciar. Você vai passar uma hora ou mais aí. Ainda é cedo para beber, mas se quiser,não faça cerimônia, a lancha está bem equipada. Uma hora ou mais, já estamos lá pelas 11 ou 12, entre no barco e vamos para outra “croa”, esta, bem maior. Saia do barco, não tenha medo, pode pular, deixa água te acariciar.Fique ali sem fazer nada mesmo, nem pense em você, não é preciso, alguém já o fez por si. Deus e o “Grande”. Não relaxe tanto igual a uma amiga minha que, ao ver tanta grandeza e beleza teve um “input” que foi expressado em alto e bom som: “Por favor me tragam o Richard Gere”, realmente, o local merecia, mas ela tava querendo demais, quanto pior que o “marido” estava presente”. Brincadeiras a parte, realmente um Richard Gere seria o supra sumo, embora eu prefira o “Deep”, até pela própria profundidade do momento, mas acho que o Gere não aguentaria o tranco, budista como é, está em outra dimensão, e a que eu, no caso, ou a minha amiga, queríamos, seria a terrena, bem terrena, talvez enterrando.
Você vai ficar muitas horas aí.Vai beber, vai comer, vai brincar, vai andar, vai saber da vida de alguns que não sabe quem são, vai falar de problemas; Pense aí! É tão bom que você se esquece que nem todos que ali estão fazem parte do seu cotidiano e da sua estória, mas você vai se sentir tão a vontade que fará confidências, dará opinião na vida dos outros, enfim, fará uma terapia grupal. Você, em algum momento, olhe os olhos das pessoas que lhe circundam, você saberá que elas, tanto quanto você, estão felizes, felizes mesmo, um pouco incrédulas talvez, ou invejosas, algumas, não todos, porque não se pode ter inveja de alguém que te proporciona tanto bem.
Bêbados e felizes, sem querer sair dali, observe que a maré está subindo, é hora de retirada. A volta é um pouco mágica dado o estado etílico de todos. Mais uma vez olhe a casa do “Grande”, se deslumbre mais uma vez, perceba porque pensam que a casa é um clube.
Você vai almoçar, na mesma varanda onde tomou o café da manhã, a comida pode variar, mas você vai ficar na varanda em frente a piscina esperando o almoço, agora sim é que é coisa: mais Rossi, mais Julio Iglesias, mas álcool. Dance, se divirta, faça o que quiser, você vai estar entre amigos.
Após o almoço você vai ficar sonolento, também já estará anoitecendo, descanse um pouco na varanda e nas redes. O “Grande” já vai tá mesmo escornado, não ligue, ele confia em vocês, portanto, não se preocupe e deixe ele dormir em paz.
No outro dia, a maré deve ter mudado e você vai ter tempo de, antes mesmo do café da manhã, logo após a andada na praia, voltar para casa e, depois de tomar um banho, entrar em um dos carros que também vai estar a sua disposição. Vire à esquerda e siga em frente subindo a ladeira, você não vai acreditar, vai dar numa pracinha que tem uma igreja e um bar, onde você vai comer uma bela de uma fritada. De um lado desta praça você vê o mar, do outro lado, você vê o rio. Deslumbre-se! Isto realmente existe. Olhe para o “Grande” se ele estiver por perto, e agradeça a ele e peça a Deus que continue lhe dando muito para que ele possa, outra vez, te proporcionar tudo isto, dividir com você.
Tem muito mais, mas vou deixar para outra oportunidade, por enquanto saiba que a única inveja que tenho de tudo é: Queria eu ter um barco com o meu nome, não precisa o I,II e III, apenas um já era suficiente, também não precisa ser igual àquele onde esta escrito cá tu amas, um menor serviria, apenas queria que uma frase fosse colocada “ aqui tu amas”, para quebrar a distância sugerida pelo cá. Aqui tu amas estaria mais próximo, do amor em si,de Catuama e, com certeza, de Deus.
Obrigada “Grande”. Obrigada “Rainha” Vocês devem dizer no dia da despedida. Sejam felizes e iluminados, cada dia mais, por Deus.
Em 22 de março de 2010.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Lagoa transbordou








A Lagoa transbordou
Arembepe amanheceu triste. Do Corre Nu, do outro lado da pista, até o Piruí, tudo alagado. A Lagoa resolveu tomar o seu lugar e a Caraúna encheu. Na Rua da Glória casas alagadas, gente tirando coisas às pressas. Á água subindo a cada hora e fazendo muitos estragos.
O campo, agora, só se poderia jogar pólo aquático, ainda assim, se os peixes e as cobras d água deixassem.
Na Rua da Glória e na Caraúna, quem não tirou o carro da garagem teve ele submerso até mais da metade. Colocaram, tanto no começo, quanto no fim da Rua da Glória, barreiras para que carros não tentassem, sequer, atravessar, pois a cada onda feita com a passagem mais água entrava nas casas.
No meio da rua, pior ainda, a água entrava e não tinha saída e os moradores tentavam salvar o que podiam. A casa de Duinha estava cheia, ela teve de sair deixando as suas coisas e as suas histórias. Do outro lado, em frente à casa dela, na antiga casa de Marione, a água entrava pela garagem e pelo portão e lá mesmo ficava. A pousada agora já poderia oferecer aos hóspedes uma nova atração, pescar sem sair da cama, talvez.
Na porta da minha casa a água cobria o pé, ela nunca tinha alcançado este trecho da rua. Peixes, cardumes deles, circulavam como se aquele fosse o seu habitat natural. Cobras atravessavam, literalmente, a rua. Sapos, não sei se rãs, não importa, mas batráquios(anfíbios) com certeza, pulavam e faziam barulho na água. Muitos sustos e o medo da água subir mais: Na dúvida, tirei o carro da garagem e coloquei na praça, lugar mais alto.
Alguém disse que não podia dar descarga no sanitário, a água não descia. Evidentemente, com o aumento do nível da água tudo transbordou, as fossas estavam cheias. Estávamos proibidos, pela natureza e pelo poder público, de atender as necessidades do corpo.
Com todo este caos me lembrei que ha um projeto de revitalização de Arembepe, o que abrange uma passarela na praia, aquela, da qual já falei: a que liga o nada a lugar nenhum e que serve para retirar de Arembepe o que ela tem de mais bonito, a visão da vida se mostrando em todas as suas cores.
Pois é, lembrando disto comecei a me perguntar: Por que será que, ao invés de se gastar dinheiro com uma passarela inútil, não se faz um serviço de esgoto dentro de Arembepe? Por que não se estuda um meio de algum sistema de drenagem na lagoa para que ela não transborde e cause tantos danos nas épocas das chuvas? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas, mas estas já são suficientes, para, mais uma vez, mostrar que não precisamos de passarelas, precisamos de muito mais coisas importantes: Rede de esgoto, sistema de escoamento de águas, escolas, trabalho para os jovens de Arembepe.
Alguns me dirão que Arembepe não foi um caso isolado, que as enchentes aconteceram em todos os lugares, que a chuva provocou estragos em quase todo Brasil, a exemplo de Niterói no Rio de Janeiro, em Lauro de Freitas aqui na Bahia, em muitos outros Estados da Federação: Pernambuco, Aracaju, São Paulo. No Rio, até o Cristo teve de se equilibrar para não cai, certamente ficou tonto, atordoado com o descaso do poder público com os seus filhos. Não agüentou ver tanta morte, não por força da própria natureza, imprevisível, ou previsível nas causas, não nas consequências, e se abalou mesmo, quase cai, tremeu, mas não foi respeitado.
Em Arembepe, com outra dessa, só sobreviveremos se Noé nos recolher com a sua arca, infelizmente, levando apenas dois de cada espécie. Quem serão os escolhidos? Alguém da Caraúna, do Corre Nu, da Rua da Gloria, do Piruí? Enquanto não temos resposta, aliás, posso até imaginar qual seria, pois afinal de contas o poder, num momento deste, mostrar-se-ia com toda a sua força para que a escolha fosse feita nas pessoas certas, aquelas com um maior poder aquisitivo, aquelas com influência que podem mudar o jogo das coisas, mas que, infelizmente trabalham em seu beneficio, embora a natureza sábia, não faça esta distinção, porque ela não escolhe branco ou preto, rico ou pobre, feio ou bonito, homem ou mulher, para mostrar a sua força, o seu poder, que advém de se própria, que não é fabricado por homens que detém o poder, mas não sabem usá-lo em beneficio do povo, único dono deste mesmo poder que eles representam.
Talvez a natureza tenha tentado mostrar o que o povo às vezes esquece: que os seus representantes esqueceram-se do seu dever, que é o de representá-los bem, gerir o dinheiro público com projetos que funcionem e que sejam necessários; obras de infra-estrutura que permitam uma melhor qualidade de vida para o povo brasileiro independente do seu “sotaque”. Obras que não apareçam no exterior, mas que deixem o “interior” de cada cidadão brasileiro tranqüilo, para que ele possa dormir em paz, sem pensar se amanhã vai acordar com a sua casa alagada, com o seu barraco desabando, com a sua família perecendo.
Pois é; No caso específico de Arembepe, esqueçamos as passarelas inúteis e vamos lembrar-nos do povo da vila, deste que agora sofre as conseqüências da natureza inconsequente e da inconsequência do poder público.
Abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Negocio cancelado

- Olá! Tudo bem?
- Tudo e vc. Já resolveu aquele assunto?
- Mais ou menos, tem-se de ter cautelas, mas amanhã é um bom dia para resolver pendências.
-Amanhã? É muito em cima, apesar da urgência da coisa, além de tudo vai haver sessão
-Sessão!Amanhã? O que houve? Mudaram a pauta?
- Extraordinária. Assuntos sigilosos precisam ser tratados, por isso a convocação extraordinária e sigilosa!
-Vai dar merda isto em! Este negócio de sigiloso compromete desde o momento em que se declara tal sigilo.
- Sim, mas o assunto nosso é outro, embora com mais sigilo ainda e  precisa ser resolvido, não se pode dar asa ao tempo, demora muito e as partes interessadas terminam desistindo.
- Duvido, isto envolve muita coisa para uma desistência assim.
- Está bem, e como ficamos? Não podemos tratar este negócio pelo telefone. O assunto exige presença física, olho no olho, riscos menores.
- Quinta feita, depois da sessão normal.
- A que horas?
- Não sei, você bem sabe que temos hora para começar, nunca para acabar.
- Parece que temos dificuldades não é? Como posso acertar a sua pauta com a minha? Esta indefinição é ruim. Lembre-se que tem outros envolvidos, tudo tem que estar nos conformes atendendo a conveniência de todos.
- Não se preocupe, assim que as primeiras indicações de término da sessão se fizerem presentes, dou um toque.
-Ok. Vou esperar.
- Não falamos em local. Onde?
- Temos que ser discretos, bem sei!
-Sim, mas onde?
- Um amigo me cedeu um local.
-Você confia na pessoa? Olhe que é melhor ninguém saber de nada. Nestas horas os amigos são os primeiros a tirar o corpo fora e entregar o jogo.
- Não este tem esquema, portanto, tem de ficar caladinho, não vai acontecer nada.
-É preciso levar alguma coisa?
-Claro que não, lá a gente resolve tudo, os contatos serão feitos na hora certa e, com certeza, tudo estará pronto no momento certo, não se preocupe.
-Este local do seu amigo é mesmo discreto?
- É sim, já disse: Nao se preocupe, tudo vai dar certo, mas tenho de desligar agora, pessoas estão querendo falar comigo aqui no gabinete, tenho de atender, não tenho saída.
Até quinta.
Sexta feira, dia posterior ao encontro programado, que não aconteceu por impossibilidade total dos interessados, cada um com problemas mais de que pessoais, ela recebe uma convocação do Presidente do Tribunal, ele também. Chegam ambos na ante-sala da presidência no mesmo horário, olham-se e estranham estarem os dois ali. Coincidência? Obra do destino?. Discretos, nem se olham direito, cumprimentam-se, apenas, como dois colegas de profissão que se encontram. Ela percebe que os funcionários os olham de uma maneira estranha, como se quisessem perceber o que não podia ser percebido, talvez pela própria culpa achava que eles já sabiam de tudo.
São chamados os dois, maior surpresa ainda, para entrarem no mesmo momento na sala. Lá dentro estão o Presidente, o Corregedor, uma pessoa estranha aos quadros, ou ao menos, não conhecido dos dois, convidados a sentar, o  fazem ambos com uma tremenda interrogação na face.
O presidente começa uma lengalenga e de repente diz que todos estão ali porque já sabem de nossos planos, que há muito que vêm gravando os nossos contatos telefônicos e que agora precisam de maiores esclarecimentos, caso contrário, vão entregar tudo a Policia Federal para as devidas investigações.
Os dois entreolham-se atônitos. O que se passa? De que estão falando?O que dizer? Ambos sabiam que tinham um pacto de silêncio e que este teria de ser mantido a qualquer custo, muitos seriam prejudicados, melhor dizendo, magoados, se dissessem qualquer coisa.
O Presidente insiste. O homem desconhecido começou a falar. Disse ele que estavam vigiando-lhes há mais de três meses e que já tinham feito levantamento de toda a vida deles nestes últimos meses e chegaram a conclusão de que estavam mantendo um dialogo com um dos mais perigosos traficantes do Estado. Em uníssono os dois: “o que?” Que história é esta? De onde tiraram esta conclusão? Pior ainda, além dos contatos, ele já sabia que ele, o homem já havia, por diversas vezes ido à casa do fulano, um sitio que ficava na periferia da cidade, local onde o traficante escondia a droga.
Ela não estava bem situada na história, olhava para todos com a cara de incrédula. Para ele com a de acusadora. Por que isto?
O homem continuava falando. Ele começava a ficar vermelho e nem sequer levantava os olhos para olhar para ela. O homem prosseguia: O senhor, doutor, tem frequentado este sitio todas as semanas, chega, discretamente com o seu carro, coloca-o na garagem. Chega sempre acompanhado de “senhoras”, cada semana uma diferente, às vezes vai até mais de uma vez na semana, ontem, por exemplo, esteve lá com uma moça jovem, loura, que, por ser funcionária, também estava sob investigação, só não fora convidada para a reunião exatamente porque se queria preservar, ao menos, a tal liturgia do cargo. Continua ele: o senhor passa ali muitas horas, sai do Tribunal com o seu motorista, que também será investigado, ele o deixa numa locadora de veículos, onde o Sr.,  a cada dia que por ali passa, pega um carro diferente, dali segue para pegar a senhora que o vai acompanhar. Chega ao sitio onde passa muitas horas. Ás vezes, o dono do sitio está na casa e os senhores saem dela juntos, ele normalmente se despede de si com um afetuoso abraço e o senhor sai de lá com um pacote na mão. As moças com quem o senhor esteve no local, todas elas, já foram contatadas, todas dizem que nada sabem e que só iam ali fazer sexo cosigo e, para tanto, eram muito bem pagas, não por si, mas pelo traficante.
Ela, cada vez mais surpresa, balançava a cabeça de um lado para outro. Estava sem fala, não acreditava no que estava a ouvir. Ela, uma senhora casada, com filhos, que estava se propondo a uma aventura extra conjugal com um colega, que, até então, achava discreto, honesto, e o que é pior de tudo, gostoso, não podia dizer isto a ninguém e não podia, por isso mesmo, explicar a conversa com o indivíduo pelo telefone. O senhor questionava a que negócio, pendência eles se referiam na conversa telefônica.O que eles iriam tratar na quinta feira?
Já não estava ali, ficava pensando no que poderia acontecer quando saísse daquela sala sem que as coisas ficassem esclarecidas. Com certeza, perderia o marido, o cargo não, ela não tinha envolvimento algum com aquela história de tráfico. Poderia muito bem explicar tudo, os seus bens, a sua vida, etc,, só não poderia explicar mesmo era a tentativa da traição, o crime não consumado pelas vias de fato, porque pelas vias espirituais já havia sido cometido. Pior ainda, orgulho ferido, por saber que ela era, apenas mais uma, que o gostosão, para satisfação exclusivamente sexual, queria “comer”. O “inter criminis” fora interrompido.
A conversa prolongava-se, realmente ela já não ouvia mais nada, tudo muito distante, as vozes já se confundiam, não saberia distinguir se era a dela, a do “filho da puta”, a do senhor que não conhecia, a do presidente, tudo muito confuso. De repente, alguém lhe toca no braço e ela dá um salto, era o seu marido, que, vendo a sua aflição no sono, lhe acordara com um toque delicado no braço. Acordou de salto, ali, ao seu lado, talvez não tão inocente assim, estava seu marido. Estava ela em casa, na sua cama, nos seus lençóis. Agradeceu a Deus por isso, fora um pesadelo e nada mais.
Dia seguinte, uma ligação: Desta feita, bem rápida.
- Alô. Negócios cancelados para sempre. Preliminares não aprovadas.
Janeiro de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

Serviço de alto falante

Ficava ansiosa; quando a tarde ia chegando já se preparava. Tomava banho, vestia um a roupinha fresca e ficava aguardando.
De repente um barulho! sim porque aquilo era um barulho, não era um som. Uma voz fanhosa começava, entre ruídos estranhos a falar: “bõa tarde senhoras e senhores ~~ desta bela cidade de Camaçari, estamos começ~~ando mais uma edição”. Ruídos estranhos, parecia que alguém estava arranhando algum metal em outro, descargas, sons imprecisos, zoadas diversas. De repente o som fanhoso começava a ser identificado. Era abertura oficial: “Qual Cisne branco que em noite de lua, vai navegando sobre o lago azul, o meu navio também flutua, nos verdes mares de Norte a Sul, linda galera[...]”.Não entendo até hoje porque um serviço de auto falante de uma pequena cidade do interior tinha de abrir os serviços com o hino da Marinha, talvez o locutor tivesse servido na marinha, ou, frustado, tivesse sonhado em ser marinheiro, enfim, não interessa, o que interessa é que, decorou o hino da Marinha do Brasil, pois todos os dias, às 4:00 horas da tarde, a vida lhe dava alguma esperança de melhora exatamente por ouvir este hino. Acho que viajava junto com a Marinha do Brasil nos versos daquele ufanismo

sábado, 17 de abril de 2010

Livros de auto-ajuda: Eu hein!


Pois é, virou moda. Todos nos remetem aos livros de auto-ajuda se temos algum problema, como se a leitura de qualquer deles fosse suficiente para afastá-lo. Fico pensando o motivo que nos leva a crer tanto que uma leitura pode ser capaz de resolver um problema, de levá-lo para longe. Será mesmo que estas pessoas que lêem tais livros realmente resolvem seus problemas? Será que alguém que está atolado de dívidas, e por isso mesmo, está completamente despirocado, estressado, vai resolver o problema lendo um livro de auto-ajuda?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Professora de beijo

Creia que é verdade. No internato onde esteve por alguns anos, três no mínimo, tinha muitas tarefas, aliás, como não podia estar sem fazer nada, tudo quanto era trabalho miserável, ela era a encarregada; limpar o claustro, fazer hóstias, engarrafar vinho, limpar uma zorra dourada onde ficava a hóstia grande, dentre outras atividades enfadonhas.
Tinha apenas sete a oito anos quando foi interna pela primeira vez. O Colégio ficava no centro da cidade onde hoje existe um viaduto que liga a Rua Direita da Piedade ao Politeama. Ali, exatamente onde está agora viaduto, era o claustro da escola, um claustro feio, escuro, que ligava uma ala do convento à outra.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Coisas de Arembepe


Coisas de Arembepe
Isto é real!
Certo dia estava eu na casa de uns amigos, que são veranistas em Arembepe, e eles passaram a me contar um episódio por eles vivido no domingo anterior: Os dois, que gostam ou gostavam, pois hoje, por força da idade, já não entornam como antes, de tomar umas, estavam numa barraca de praia lá em Arembepe. Estavam, para variar, tomando todas, quando a mulher começou a passar mal, e o marido ficou muito nervoso sem saber direito o que fazer, e, ao contar-me este acontecimento a mulher disse: que, naquele momento do desespero, o marido tinha entrado “em pane”. O que acham? Fiquei eu em pânico por não poder, sequer, sorrir, embora o caso fosse para uma gargalhada.
Ainda do mesmo casal: A mulher ouvindo algo que não gostou contado por uma sua sobrinha, disse-me que teria ficado “estagnada” com a revelação.
Mais uma do casal: O marido, que na realidade é de Salvador, tem muitos amigos, diz ele que ricos, tanto que um deles mora na Vitória em um daqueles edifícios que tem até “periférico”. Tem coragem de entrar num destes?
Uma doméstica arembepeira chegando na casa da patroa pela manhã muito mal humorada. A patroa pergunta-lhe o que se passa, e ela responde: hoje eu estou “ expressada”
Um cidadão a me contar que teria arrumado uma representação nova; pergunto eu o produto e a resposta: “gosméticos” Que tal, arrisca um tratamento?
Entro eu no salão que frequento em Arembepe. A dona do salão que tem sempre um elogio para mim, (não pensem nada de errado, a pessoa é evangélica, casada, etc) estava fazendo a unha de uma senhora quando cheguei e, virando-se para mim diz: Que pele! Que bronze! Eu agradecendo, digo que não tomo sol, isto é, não fico estirada na areia tomando sol, apenas ando na praia pela manhã, bem cedinho. E ela, com todo o conhecimento peculiar a quem trabalha com estética, diz: é bom mesmo, porque depois das 10 horas da manhã os “raios laser” não são bons para a pele.
Estava eu no ônibus – Arembepe-Lapa; junto de mim, sentado na cadeira ao lado, estava um rapaz que eu tinha acabado de conhecer, porque casado com uma moça que conheço há muito tempo, que, embora de Arembepe, esteve morando na Itália, onde conheceu este cidadão, que é de Salvador. Fui apresentada ao dito e ele veio conversando sobre as viagens que fez na Europa e todo entusiasmado por poder falar comigo, que estive em Portugal por algum tempo, sobre o Alentejo, região portuguesa onde ele passou um período. Até aí tudo bem, mas ele não ficou só a falar sobre a região, começou a falar dos portugueses, sobre a vida deles, dos preconceitos, da preguiça, etc., etc., etc., e me sai com esta: “eles tem uma “geologia” diferente de vida”.
Que tal, é mole ou quer mais?
Se quiserem conto mais numa próxima oportunidade sem qualquer “Express”
Janeiro de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mansão dos Cardeais

Mansão dos Cardeais
Devia ter uns 10 anos, o tempo passou o suficiente para esquecer datas, apenas permite lembrar dos acontecimentos.
As irmãs, sim era assim que eram chamadas as freiras de todos os conventos,certamente irmãs porque todas, para não se intitularem amantes do senhor, apelidaram-se assim: irmãs. Lembrem-se que as freiras são esposas de cristo, e se são esposas de Cristo, que deveria ter um “falo” poderoso, aliás, poderoso ele é e sempre será, ao menos para os católicos, para dar conta de muitas “irmãs em cristo”, mas isto não interessa, a não ser pelo fato de que o não atendimento a todas as irmãs, gerava uma grande rivalidade entre elas, o que tinha consequências, inevitáveis, para as almas que estavam sob os seus comandos, as pobres e infelizes “internas”.
Era uma dessas almas, almas vivas e quase mortas no nascedouro, teleguiadas em nome de uma educação cristã e “moral e social”, pois ali se preparava mulheres que deveriam, em nome da fé crista, seguir os ensinamentos da igreja e de “Deus”, ou seja: casar, ter filhos, obedecer ao marido, sacrificar-se em nome da família, e, até mesmo, passar a fazer parte do harém de Cristo, e viver a vida angustiada pela espera de uma noite de “amor” em que o verbo divino se fizesse carne e habitasse dentro dela, que passaria o fim de seus dias lembrando desta noite, das suas delícias, nas tentativas vãs de, sozinha,alcançar, minimamente, o prazer sentido.
Pois bem, terrenamente, o representante mais próximo de “Cristo”, “Deus”,” Espírito Santo”, este último, uma “pombinha safadinha”, era, à época em Salvador-Bahia, pensava ela, o Cardeal. Achava que ele era assim conhecido porque usava uma espécie de boina, mas para um “kufi” muçulmano, vermelho no topo da cabeça. Já era um velho senhor, salvo engano também usava um manto vermelho. As irmãs foram, como de costume, fazer uma visita ao Cardeal, e, também como sempre, porque mesmo na Igreja funciona assim, o poder tinha de ser acariciado, e lembrar desta carícia no momento de conceder alguma graça aos presenteadores, levar um “mimo”.
Para a entrega deste mimo, e para não ficar feio e criar ressentimentos, não poderia ser escolhido uma das “amantes”, afinal seria uma grande discriminação e um reforço da rivalidade já existente, a escolha deveria ser neutra. Assim escolhia-se uma das internas, com certeza, a mais “bonitinha” a “mais arrumadinha”, enfim, a “mais mais”.
Foi aí que ela entrou na estória. Tinha ela um vestido vermelho, herdado da filha de uma colunável de Salvador, de quem sua mãe era comadre, sim, porque não se escolhia padrinhos á toa, o melhor era garantir uma coisinha para o afilhado, embora na casa dela isto nunca tenha dado certo, mas enfim... Se o afilhado não era agraciado, ela era; por sorte tinha a mesma idade e o mesmo corpo daquela filha dos empreendimentos imobiliários e, por isso mesmo, vestia-se muito bem. O certo é que o vestido vermelho foi fundamental na escolha. Era ele de saia de pregas mais ou menos largas, cintado, um cintinho bem fininho, também vermelho, e na barra, a uns três dedos antes da bainha, tinha uma “sianinha”, barra bordada com a história do chapeuzinho vermelho, aliás, bem a calhar, porque o “lobo mau” já estava presente, a espera.
Lá se foi o séquito para o palácio episcopal que ficava no Campo Grande, a caminhada não era grande, e as “irmãs” e as meninas do internato seguiram pela Avenida Sete até desembocarem no passeio público e dali alcançarem o Campo Grande.
Vale dizer que o palácio episcopal era lindo, hoje serve de hall de entrada, para um luxuoso edifício com vistas para a Baía de todos os Santos , olhe o nome: Mansão dos Cardeais, na qual residem os que enriqueceram sem berço, mas pelo trabalho, embalados pelos sons e produtos da “Bahia” .
Chegada ao palácio; cumprimentos cordiais e protocolares aos que, hierarquicamente, devem ser cumprimentados antes do “Deus” terreno, e olhe que estes pequenos representantes são muitos,cuidam da segurança e “fá-lo” muito bem, pois que chegar perto de “Deus” naquela época, era mesmo uma epopéia. Lembrando que a visita tinha de ser agendada com muito tempo de antecedência.
A espera foi longa, as meninas, todas com a farda de gala, afinal iam estar na presença de Deus, as irmãs amantes, todas com os hábitos “azuis” também de “gala” enfileiradas, contidas, tentando esconder toda a volúpia que o momento maior, o do contato com o representante do “esposo” ia acontecer. Só ela de vermelho, distinguindo-se, claro, de tudo e de todos. O presente a ser oferecido não estava na sua mão, ela somente pegaria no “pacote” no momento máximo, o da entrega, nem sabia o que era, aliás, não sabe até hoje.
Ela, que nunca foi de ficar parada, começou a fazer um reconhecimento do espaço, lógico que as “irmãs” excitadas como estavam, não perceberam o seu afastamento do grupo.Deu de cara com uma varanda, por sinal linda, que ficava no fundo da sala onde estavam aguardando. A varanda dava para uma roça, era assim que se chamava um quintal imenso, quase um floresta. Além da roça, a varanda descortinava a Baía de Todos os Santos, ainda não cheia de marinas e de barcos bonitos, mas linda da mesma maneira. Endoidou, aquilo era lindo mesmo, e o”Deus” espírito, universal, abusou da bondade para com aquele seu representante terrestre.Não se pode dar tanto a uns e tirar tanto dos outros. O Cardeal devia saber representá-lo muito bem, pois foi privilegiado em todos os aspectos, aquele ali era somente um deles.
Ela se encantou e não resistiu ao apelo da infância e da aventura.Viu uma escadinha e lá se foi ela, desceu e alcançou a primeira parte do quintal, muito bem tratada, com jardins e algumas pequenas frutíferas, mas o melhor estava por vim. Viu um caminho, daqueles que a passagem contínua deixa o rastro, e por ele seguiu: descia pelo caminho de barro e se aproximava cada vez mais do “mar” da “baía” e, certamente de “Deus”, pois aquilo só poderia ser obra dele, ali sim ele era onipotente, onipresente. Árvores frondosas circundavam tudo, cajá, que ela adorava, fazia um mar amarelo-abóbora pelo chão, mangas de todas as qualidades rolavam pela terra enladeirada, tudo seguindo em direção ao mar; bananeiras, jaqueiras, jambeiros, cajueiros, jaboticabeiras, limoeiros, laranjeiras, abacateiros e tantas outras espécies.
Ela estava mesmo envolvida em tudo aquilo, comeu muitas frutas, sujou o vestido, esqueceu do tempo. Quando se lembrou do que tinha vindo fazer tentou correr para voltar, mas havia se distanciado muito, já anoitecia e agora estava a subir, a caminhada seria mais difícil. Seguiu a trilha e já no meio do caminho começou a ouvir vozes, percebeu que gritavam o seu nome, vozes femininas histéricas e masculinas preocupadas. Algum tempo, pouquíssimo mesmo depois, alcançaram-na. Não tomou porrada ali mesmo porque as “irmãs” jamais dariam este atestado, o de que maltratavam fisicamente as suas “pupilas”, mas bem que viu o ódio nos olhos das freiras, o ódio e a promessa de que aquilo não ficaria assim. Pense aí. Sumir, deixar o pai esperando, o criador a espera da criatura; como pode fazer isto? Será que não percebia a gravidade do seu ato? Por sua causa o presente tinha perdido todo o seu objetivo, e com isto a sua consequência, que era um atendimento a um pedido com um pouco mais de rapidez e boa vontade. Lógico que para fazer algum reparo no colégio, aumentar alguma verba, ou qualquer coisa parecida. Frustração promovida por um ser humano idiota, mesquinho, que não sabia se portar bem em nenhum lugar, uma excrescência, a quem as irmãs tinham de aturar para demonstrar a sua benevolência.
Ela estava podre, completamente suja, o sapato, que também era vermelho e de verniz, tinha agora uma outra tonalidade de vermelho, a do barro, um vermelho fosco e feio. O vestido estava, também, sujo de barro, a sianinha com a estória do chapeuzinho vermelho apagara a própria estória, já não se identificava os personagens nem nada, matara o lobo mau antes mesmo dele começar a pensar em comê-la.
Voltaram todas pelo mesmo caminho, ela vinha sob “vara”, ladeada por duas das “irmãs”, que lhe apertavam tanto as mãos que chegou a temer pelos seus dedos. No colégio, ela já quase sabia o que lhe esperava: castigos de todas as maneiras possíveis. Falta de merenda por uns 100 dias, pois se com coisas mínimas já passara 30 dias sem merenda, imagine-se um acontecimento de tal gravidade. Ajoelhar no milho na capela interior, pelo menos por uma hora dia, seria café pequeno, limpar as escadas, lavar roupas, não ir para o recreio, etc., etc. Etc.
Já, por sua causa, chegaram tarde, todos tiveram de ir para o refeitório e depois do jantar, sem qualquer intervalo, iriam para a cama. Assim foi feito, mas ela, que já ia se danar mesmo, resolveu que teria de fazer mais uma. O que fizera, sem qualquer maldade, apenas para agradar o seu espírito infantil, dar aso a sua infância retida pelo regime de vida que lhe deram, agora seria feito com maldade mesmo, uma vingança antecipada do que iria padecer nos próximos dias.
Assim que ajoelhou para começar a reza noturna, um martírio diário de, ao menos, 15 minutos, quanto pior naquele dia, que haveria uma preleção do que não deveria ser feito, o exemplo do que não deveria ser seguido, pediu para ir ao banheiro. Durante a reza, ela sabia, não se poderia ter vontade de fazer xixi, alias, não se poderia ter vontade de nada, a concentração teria de ser toda em cristo, no cristo, por cristo, mas a necessidade física não espera e o biológico funciona, ainda mais quando é provocado para tal. Diante da negativa, ela subiu na cama, suja como estava e, em cima do travesseiro, fez o seu xixi, quentinho, saboroso até, porque aquela “mijadinha” básica representava para si o seu escárnio, o seu descaso, e, por que não dizer: o seu poder. Ela, sozinha, aos 9 ou 10 anos desafiou,bem verdade que sem querer, os poderosos, “Deus” e o seu séquito, as suas “amantes” e, nada e nem ninguém lhe tiraria este grande “prazer” de ter feito o certo, que dera errado, mas que lhe mostrou que, sozinha, poderia vencer, com o venceu e vem vencendo, desafiando e conseguindo suas vitórias pessoais, que, nem mesmo o “Cardeal”, foi capaz de evitar ou reprimir.



domingo, 11 de abril de 2010

Casa com rodinhas


Quando era pequena e morava no interior, Camaçari- que era mesmo, à época, interior, a minha família tinha uma casa nos padrões do que se pode entender por uma boa casa: sala de visitas com duas portas laterais que davam para o nosso quintal-pomar, dois quartos grandes com janelas que também davam para o quintal, sala de jantar, que embora tivesse este nome e tudo o que deve estar numa sala de jantar, era muito pouco usada, porque quase nunca tínhamos o que jantar; uma copa, uma cozinha com fogão a lenha; um “quartinho”, era assim que os sanitários eram conhecidos, que ficava do lado de fora da casa, certamente para separar do corpo da casa o local em que a indignidade da satisfação das nossas necessidades fisiológicas ficasse bem afastado, como se contaminassem os outros cômodos, todavia depois de algum tempo minha mãe tenha conseguido reunir os órgãos que compunham o corpo da casa trazendo o “quartinho” para o interior, fazendo-o, entretanto, da pior maneira possível, porque o colocou junto da copa-cozinha, certamente para que o percurso da “mesa” para o “vaso” ficasse menor, embora isto funcionasse muito pouco lá em casa devido, exatamente, à falta de conteúdo na mesa para abastecer o vaso.
Com fome ou não, adorava a minha casa e a pouca liberdade que tinha nela, digo pouca liberdade porque, ao contrário das demais crianças da redondeza, que podiam pular, cantar, jogar gude, pular macaco, jogar capitão, subir em árvores a qualquer hora do dia, comer frutas verdes, eu trabalhava na casa para ajudar a minha mãe, que dava aulas durante todo o dia para conseguir botar o mínimo necessário para a nossa sobrevivência à mesa, quero dizer, cadeira, porque a porção adequava-se mais a este móvel.
O fato é que, apesar de tudo isto, eu realmente amava a minha casa, porque nos poucos momentos de alforria que me eram concedidos, conseguia fazer o que qualquer criança entre 7 a 10 anos fazia.
Um dia, entretanto, internaram-me em um colégio de freiras, de onde saí aos 14 anos. Minha mãe, que muitas vezes me deixou passar as férias na própria escola, me foi buscar. Fui levada para uma casa, que minha mãe, talvez para diminuir o impacto que ela sabia isto teria sobre mim, disse-me que era de uma amiga.
Tristeza! Quando entrei naquilo que chamavam de casa, que eu não tenho coragem de descrever, reconheci nossos móveis, agora amontoados, uma coisa em cima da outra, porque não havia espaço. O cubículo chamado de sala estava tão cheio de nossas coisas, que quase não podíamos nos mexer, ganhei muitas manchas roxas por conta disto.
O quarto, que diziam ser dois, quando na verdade era um espaço dividido em dois por uma cortina de pano, como se ela fosse capaz de separar a intimidade do casal(meus pais) da desintimidade dos filhos tinha dois beliches e para que entrássemos nele tínhamos de passar pelo quarto do casal, que coube, tão somente a cama grande encostada no guarda-roupa, que por sua vez não abria.
A cozinha tinha até uma cama de solteiro armada e não tínhamos geladeira. O banheiro voltou a ser um “quartinho” do lado de fora da casa, com um vaso branco e uma torneira diretamente do tanque, um buraco grande que chamavam de esgoto, mas que ao invés de sugar a água, expelia baratas. Um prego grande enferrujado na parede completava o cenário e servia para que os pedaços recortados de jornais ficassem pendurados, para servirem nos momentos necessários. Acho que por isto gosto tanto de ler, de uma maneira ou de outra, fiquei letrada usando tais recortes em todas as suas utilidades.
Chorei, chorei muito, embora isto não resolvesse nada e fiquei pensando porque as casas não tinham rodinhas para que pudéssemos transportá-las para onde quiséssemos? Este pensamento sempre esteve presente e hoje, embora já tivesse visto isto num programa da Tv. americana, vi uma casa de madeira sendo transportada aqui no Brasil, não lembro em que estado, penso que em Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, então revivi aquele péssimo momento em que a minha família me dava uma casa que não era a minha, uma casa sem qualquer identidade, uma casa não casa, que me fazia dormir e acordar com o sonho de colocar rodinhas na minha CASA de Camaçari.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Passarela na praia

Vocês já viram a maquete do que estão pretendendo fazer em Arembepe. Louvável iniciativa, mas algumas considerações têm de ser feitas.
Passarelas! Elas são muito importantes, quando necessárias, como é o caso da que existe na entrada de Arembepe, que liga os dois lados da estrada e que serve para que o pessoal do Corre Nu, embora não correndo nu, atravessem de um lado para outro, evitando acidentes e preservando a integridade física deles. Pronto! Esta passarela diz a que veio, tem a sua utilidade. Agora, como justificar a edificação de uma passarela na praia? Para que uma passarela na praia? Qual a intenção de quem a idealizou?
Será que quem fez o projeto não gosta de Arembepe? Pois só mesmo um ser que odeia tudo, o universo inclusive, teria uma idéia desta. Passarela na frente da praia, no local onde se pode sentar, comer, beber, viver Arembepe. Quem idealizou isto não conhece, sequer, Arembepe; Se conheceu, nunca esteve no Mar Aberto, em Coló, Isqueiro, Tubarão, Vú, Neuza. Aliás, deve ser um mal humorado, detesta as coisas maravilhosas que Deus e a natureza proporcionam. Pense aí! você que conhece qualquer destes restaurantes que citei, estar sentado numa das mesas , aquelas disputadas e que ficam em frente, literalmente, do mundo, ter uma passarela á sua frente, lhe empatando de sonhar, de ver o mundo pela porta aberta de Arembepe. Só um desalmado, idealizaria este projeto, porque só uma pessoa com a “aura” negra, não é capaz de ver que o universo está à sua frente; que, estando em qualquer destes lugares, você está no mundo, você descortina o universo e a vida que deve e pode ser vivida nele.
Quem vem a praia de Arembepe, certamente, não quer que uma passarela impeça a sua visão do horizonte, que lhe retire o sol que vai acariciar e bronzear a sua pele, que faça sombra na praia, que sirva de banheiro público para os mal educados, de local de reunião para praticas escusas, covil para toxicômanos e marginais.Não se deve dar incentivo tamanho ao que não presta.
Não acredito que este projeto tenha futuro, mas as utopias são realizáveis, e, por isso mesmo, uma atitude deve ser tomada, alguém tem de demonstrar a insatisfação, diante da temeridade desta esdrúxula passarela, que impede sonhos, que estratifica a vida, que apaga o universo que se mostra em maiúsculas à Arembepe, que se descortina na janela do Mar Aberto, nas vidraças da Coló, nas varandas do Tubarão, na lateral despretensiosa da Igreja, da vista de Vú e do Bar da Neuza.
Tenho certeza que tudo isto não passa de sonho, pesadelo para nós, utopia para os administradores de “caserna”, espero que nunca realizável. Por que não se preocupam em fazer uma rede de esgoto que impeça as fossas de transbordarem e escoarem para o meio da rua, como acontece com a rua da Gloria e em tantas outras do vilarejo? Por que não se preocupar em colocar um posto do Banco do Brasil que serve a tantos, mas que não existe em Arembepe? Por que não inaugurar mais escolas? Por que não melhorar o serviço de fornecimento de água? Por que não criar uma lavanderia pública? Por que não criar postos de empregos para os jovens de Arembepe? Enfim, por que não se preocupar mais com o social e deixar a praia em paz, aliás, o único lugar em que o social não tem fronteiras, porque ela é de todos. Tenho certeza de quem vem a Arembepe, quem é de Arembepe, quem está em Arembepe, quer andar na praia, sentir o calor da areia sem ter de vencer quaisquer obstáculos.
Loucos de todos os gêneros uni-vos. Não deixem que Arembepe perca o que mais chama atenção dos que aqui vem. Não deixem que coloquem cortinas na nossa janela e nos impeçam de ver a vida, os sonhos, o universo, que não pode ser ofuscado, seja por gente, seja por passarelas. Não precisamos delas na praia, passarelas de praia não dizem a que vieram, são passarelas que ligam nada a lugar nenhum e impedem que um tudo, que leva a tudo, deixe de ser visto, amado, e faça as pessoas se amarem mais, acreditarem que tudo é possível, que Deus existe, porque só um ser superior poderia ter criado AREMBEPE.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Arembepe

Arembepe já perdeu, por demais, as suas características de vila de pescadores, mas ainda continua encantando a tantos quantos passam por ela. Alguns, que foram apenas dar um passeio, ali ficaram e criaram as suas raízes, raízes que cresceram em direção ao mar, como é o caso de João e Thierry do “Mar Aberto”.

Como diz minha amiga Ângela Chaves, donos do “Oásis” arembepiano, e não tenha dúvida que é mesmo, pois há dias que, apesar de tanta beleza natural, queremos tomar um belo drink, comer uma boa comida, ver gente bonita, conversar com os proprietários, eles mesmos, um conforto para a mesa e olhos; melhor ainda, tudo isto com uma visão imperdível, inacreditável, deslumbrante.

Você não conhece Arembepe? Não sabe o que é?
Estou falando de uma Vila de pescadores, que os seus nativos fortemente defendem, muitas vêzes impedindo um progresso necessário. Um porto seguro no litoral Norte do Estado da Bahia.

Arembepe conserva casas de taipa, aquelas feitas de cipós entrelaçados com as aberturas entre eles preenchidas por barro vermelho, cuidadosamente amassado para nao passar do ponto de maleabilidade. A da Vú, onde se come uma boa feijoada, rabada, ensopado de carneiro, moqueca de peixe, ainda conserva o fogão de lenha, que faz, talvez, a comida mais saborosa, embora seja mesmo as mãos de Marize e da Vú, esta última nas moquecas,que garantem o sabor das especiarias completamente baianas e preparadas com tanto amor, que, até mesmo sem fome e contrariando as recomendações médicas, somos levados a saborear.

Na porta lateral da casa da Vú, pois ela mora alí mesmo, no próprio local onde mantém o seu negócio, se reunem os que já muito fizeram e os que nada fazem hoje, para um jogo de dominó regado a cerveja. Bom mesmo é chegar na casa de Vú quando ela está almoçando no dia a dia, você pode dar sorte e ela está comendo um frango de quintal, que lhe será oferecido, claro, se ela gosta de você!

Depois da casa da Vú, ainda na praça, você encontra o restaurante de Neuza. Aí você vai conhecer o Marquinhos, o filho da dona, um espetacular misto de garçon e galanteador. Sente um pouco, mesmo que seja só para uma cerveja, olhe o mar de frente e lateralmente à direita.

Há outros bares no local, mas por enquanto fiquei só nestes.
Do bar de Vú ou do da Neuza olhe a Igreja de São Francisco. É linda, me faz lembrar o Alentejo com a sua pintura azul e branca. Peça ajuda, dizem que é bom pedir ajuda ao santo padroeiro quando se vai a primeira vez à sua Igreja.

Pena que você não conhecerá o antigo Hotel, no tempo em que os donos eram a Dona Lídia e o o velho Aguiar, que conseguiam uma união de tantos uns que, um dia, conseguimos virar um conjunto, bem verdade que durou pouco, pois os pares que formavam este conjunto universal foram se desfazendo, inclusive a própria Dona Lídia, que faleceu e nos deixou órfãos. O Hotel nunca mais foi o mesmo, tanto assim, que agora perdeu a identidade, já não há referência ao “HOTEL”.

É bom lembrar que Arembepe tem a aldeia Hippie, embora não goste da vida que alguns levam alí, não deixa de ser extraordinário que ainda seja conservada a casa do sol, e muitas outras coisas. Também nao esqueça que ha um grande orgulho da comunidade hippie de, um dia, ter recebido a Janis Joplin, lógico que em outros tempos, em outra situação, aliás, enquanto ela ainda vivia. Não se enganem, não foi o espírito, nem uma visão alucinógena, foi ela mesmo em carne e osso. Nada é mais o mesmo, mais ainda se vê beleza nas lagoas e no rio que circundam a aldeia.

Se estiver mesmo com muita sorte, chegue em Arembepe no dia da lavagem do coqueiro, não há um dia certo para tal, não é a do lugarejo que lá existe com este nome, é a do “coqueiro” mesmo. Aquele que nasceu, cresceu e parece que vai morrer, na frente da casa da Vú, pô velho!, é mesmo uma maravilha. Tem baianas novas e velhas, travestis, pretos, brancos, pobres, desocupados, enfim, uma lavagem como outra qualquer na Bahia, só que com as pessoas do local. Não há enchentes, voce pode dançar e pular a vontade e pode encontrar, como as vezes consigo, a Ivete, a que foi reitora, parece que marcamos encontro ali. Tudo regado a muita cerveja e ao som da bandinha de sopro, parece que Arembepe tem uma especial, pois em todas as festas é sempre a mesma. Muito bom mesmo.

Na festa da cidade, que normalmente começa na segunda quinta feira após o carnaval, fica tudo muito cheio e você não pode apreciar as belezas da vila, mas, ainda assim, se coragem tiver, vá, porque para quem gosta é boa. Se você já foi antes, em tempos mais remotos, vai sentir uma saudade imensa dos tempos em que Arembepe, a pequena vila de pescadores, recebia: Chiclete com Banana, Asa de Águia, Daniela Mercuri, Timbalada, Jimmy Cliff, Jorge Ben, Gera Samba, mais tarde Ivete Sangalo e muitas outras atrações. Bom mesmo era ver tudo isto de palanque, os vips ficavam no terraço do “Hotel”, era bom demais, pois a visão privilegiada da própria vila se confundia com os sons das bandas que se apresentavam alí na praça.

Hoje dá uma saudade danada de tudo isto. Não temos mais o “hotel”, “D.Lídia”, muitos outros já se foram. Já ninguém sai pela manhã, pelo menos que eu saiba, para comprar pão e retornar somente pela tarde, ninguém mais cumpre a tabela de horários indicando o tempo necessário para a compra de produtos: Uma hora para pão, duas para carne, tres para peixe, etc, etc. etc. A praça se modificou, os pares se desfizeram deixando uma onda de tristeza imensa, mas nada que não se cure atrás do “chupa catarro” no dia de lavagem do coqueiro, no da própria lavagem de Arembepe, no do baba da saia com a organização do Tininho, e de algumas caminhadas milagrosas pelas areais das praias de Arembepe. Você pode escolher qualquer lado para ir, ou para o lado da aldeia, ou para o outro lado, o de Interlagos, as belezas estão garantidas e os antídotos para a tristeza também.

Depois da caminhada, vá ver os amigos, tome uma cerveja geladíssima no bar da irmã de “baby”. Veja se O Ronaldo e o amigo dele, o da cabeça branca e olhos azuis lindos, estão no bar da Neuza, sente e converse um pouco com eles, espero que a pintora da Argentina esteja lá também , veja como se pode apreender e aprender sem esforço algum. Ah, também tem o Batista com a sua prole e sua “louca” esposa, a Leda: Não se preocupe, ela só ataca quando o PT é contrariado. Depois vá em direção á praça e entre no “OÁSIS” de Arembepe, a janela do mar, e peça a Paulinho que faça uma roska, a de sorvetinho, tem de ser ele a fazer, a minha, pelo menos, a de cajá sem um pingo de açúcar, só ele sabe fazer, mas tem outros sabores e outros experts. Para acompanhar, peça um camarão empanado ou um polvo corado, não fique corado com os preços, pois não se dá preço ao prazer, a gente o sente ou não! depois de tudo isto, ja meio para lá de que para cá, vá pagar a conta no balcão, so serve no balcão, pois você vera o “Triste” nome que eu dei ao funcionário Tristão, adoro! Sempre recebo uma palavra, um elogio, ele é mesmo um massageador de ego, acho que porque mereço mesmo, não sei se dedica ele tanta atenção outras pessoas, é uma questão de empatia, penso eu.

Ah! Um conselho: Não fale de ninguém em Arembepe, não dê cantadas e nem se deixe ser cantada em Arembepe, ali todo mundo é parente, e você corre o risco de dar mais um rebento aos “figueredos”, embora ja existam muitos. É melhor não correr riscos, nem físicos e nem espirituais.

Enfim, vá a Arembepe despreendido de tudo e curta o que você puder curtir, embora, sei eu, que jamais você viverá Arembepe e suas vidas em um só dia, porque ela merece a eternidade.

Esmeralda Martinez – 09.03.2009

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Que triste constatação!

Quando resolvi fazer o Mestrado em História da África, fiquei muito surpresa com as perguntas das pessoas, sejam aquelas que me foram feitas no Brasil, sejam as que me foram feitas aqui em Portugal.

Os questionamentos partiam de pessoas dos mais diversos graus de conhecimento. Desde colegas do curso de Licenciatura em História, de colegas de profissão (Juízes e advogados), estudantes de diversos níveis de escolaridade, profissionais liberais, enfim, muitas observações de uma diversidade imensa de questionadores.

Alguns, os mais letrados, dentre estes até mesmo o meu companheiro, (advogados, juízes, conselheiros de tribunais, ainda há no Brasil e igualmente em Portugal tal cargo, cujos membros gozam das mesmas prerrogativas dos juízes togados, membros do poder Judiciário), perguntavam-me para que eu queria saber dos africanos, jocosamente falando dos negros como se, ainda, estivéssemos em pleno século XVIII, quando os “pretos” eram tratados como seres inferiores, parentes mais próximos dos homens depois do macaco. Cansei de ouvir críticas a minha opção de estudar a África. Alguns chegaram a perguntar se eu queria saber como os africanos aprenderam a comer banana, ou como eles faziam para ficar com as palmas das mãos brancas e dentes, quando se os tem, também brancos, aliás, uma das características dos negros que conheço, e que são muitos, que vivem na Bahia, em especial, e no Brasil em geral.

Uns, menos agressivos, inquiriam-me sobre quais as vantagens que teria em saber coisas da África. Isto me daria algum retorno financeiro? Sim, porque a grande maioria das pessoas só faz algo se tiver algum retorno, ainda que ele não seja financeiro, mas alguma contra prestação deve haver a um comportamento dirigido a algo ou a outrem; é a história do dou para receber, como se esta máxima pudesse ser aplicada ao conhecimento cientifico, embora saiba eu hoje, que mesmo neste campo, em que dependemos de muitas pessoas nos arquivos, nas bibliotecas, nos museus, enfim, nos locais onde procuramos nossas fontes, o dar para receber é de uma importância brutal, tanto que uma pessoa que tenha poucos recursos, seja monetário, seja os relacionados com a aparência, quero dizer, o estar bem vestido, o ser bonito ou feio, o ser branco ou preto, até mesmo o ser europeu ou não, pode não receber tanto quanto outros, e já começo, realmente e, lamentavelmente, a entrar no assunto que me levou a escrever, a boa aparência, que ainda hoje está ligada ao cromo, à cor. Lembremos que todas as cópias que tiramos custam, nas faculdades, através das maquinetas que fornecem cartões e alimentam os nossos sonhos de investigadores, no meu caso completamente patrocinada pelos meus parcos recursos de uma aposentada brasileira, 0,10 e em outros arquivos, a exemplo da Biblioteca da Assembléia da República, 0,15 (quinze centavos de euro).

Os meus sobrinhos, cujas idades variam de 2 aos 24 anos, faziam-me as mais disparatadas questões, embora todos estudantes, alguns já com diplomas universitários, com a ignorância assustadora que nós brasileiros temos das coisas da África.Aliás, agora estamos tentando, através de uma legislação que, oxalá, seja efetivamente eficaz, quero dizer aplicada mesmo, que todos os currículos escolares tenham, como disciplina obrigatória, História da África, um resgate tardio, mas de louvável iniciativa. Um deles perguntou-me o que eu queria saber da África? Qual o meu interesse em aprender coisas sobre negros? Por que eu tinha de ir a Portugal para fazer este tipo de estudo, se na Bahia o que menos falta é negro. Continuando, disse-me ele, que se eu quisesse poderia, caso saísse viva e ainda na posse do meu computador, livros, cadernos, enfim, toda a parafernália que temos de utilizar nos nossos estudos, ele poderia ir comigo ao Curuzu, ou em qualquer outro bairro de periferia de Salvador, e analisar o comportamento dos negros, dizia ele que não sabia bem para que, porque negro é negro, se não suja na entrada o faz na saída, em qualquer lugar do mundo.

Em Lisboa, logo que cheguei, as perguntas eram variadas. Por que eu vim fazer o mestrado aqui em Lisboa, quando poderia fazê-lo no Brasil, com tantos negros? Como se o estudo da África só se refira a negros, trafico e escravidão, como se neste continente não existissem brancos e tantas outras coisas a estudar: cultura, etnicidade, nacionalidade, tradição, usos e costumes, geografia, etc. etc. etc. Outros perguntavam-me o que eu lucrava com este estudo sobre os “pretos”, palavra que me soa muito pior de que o ‘’negro” utilizada no Brasil para identificar as pessoas de cor não branca, e que derrama sobre mim uma série de preconceitos e pré conceitos vivos, atuais, jocosos, raciais.

Um português da Covilhã (região portuguesa) me disse que se eu queria estudar os “pretos” poderia eu ficar no Rossio, (praça localizada na baixa de Lisboa), no final da tarde, onde teria uma verdadeira África e não precisaria estudar tanto e nem ir ter à África, como gostaria e efetivamente irei, embora alertando-me para o fato de que talvez não saísse dali com a minha carteira de cédulas.

Em um círculo um pouco mais fino, quero dizer, um pouco mais educado, é assim que os portugueses de uma classe média, como eles se acham, formada por técnicos especializados, que têm de ir ao Algarve no verão para manterem o “statuo quo” de civilizados e pertencentes a uma elite que eles pensam existir, disseram-me, após algumas argumentações a respeito de uma pessoa como eu, Juíza do Trabalho no Brasil, estar a estudar à altura, isto já fazendo uma alusão à minha própria idade e à minha completa, para alguns, formação, que seria eu, mais uma, a falar mal dos portugueses. O engraçado, desta colocação é que partiu de uma pessoa nascida em Moçambique, embora portuguesa, filho de portugueses que estavam fora de Portugal a serviço da Pátria, nas tropas que lutavam para que o território africano não fosse perdido, antes de 1974.
Que noções têm todas estas pessoas a que me referi sobre o que é a África? Quem são os culpados de tanta ignorância em relação a este Continente que para alguns resume-se ao Egito, Marrocos, Rio Nilo, escravidão, e para outros, como uma portuguesa que conheço e que trabalha em um grande grupo franco-espanhol aqui instalado, (Portugal) que se orgulha de ter tirado o décimo segundo ano e de, na pratica, ser melhor de que muitos que freqüentam as universidades, do que, em relação algumas pessoas, não tenha a menor dúvida, que a África não é onde fica o Egito, que este país ficava na Ásia, até o dia da nossa conversa? E como entender que tentar reproduzir os acontecimentos históricos através das fontes existentes, aproximar-se o mais possível do real, é falar mal seja lá de quem for.

É assustadora a ignorância de muitos sobre a África e da sua importância, seja para portugueses, seja para brasileiros, seja para os próprios africanos.

Não desisti do Mestrado, já obtive o grau de Mestre, hoje, conheço um pouco mais da África lusófona, conhecimento insuficiente, bem sei, mas que já me permite, identificar a África lusófona como ela deve ser identificada: Angola, São Thomé, Cabo Verde, Moçambique, Guiné Bissau e não só esta, como também um pouco da que foi colonizada por franceses, ingleses, belgas, espanhóis, alemães. Conhecimento que me permite, hoje, entender porque, em Moçambique o Governo volta a utilizar as autoridades tradicionais (gentílicas) como um elo de ligação entre ele, Estado, e o povo, valorizando a cultura tradicional, que nenhum colonizador, e nem a política pós colonial conseguiu apagar ou afastar.

Isto é real, não é uma ficção, e só demonstra a necessidade de uma revisão do ensino da África no Brasil e no mundo, colocando-a no seu devido lugar: Plagiando um compositor brasileiro, (Chico Cesar) no lugar em que sempre esteve o do de “Mama África”.