sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um dia histórico

Hoje, 25.10.2011, é um dia histórico na minha vida, acreditem se quiserem, mas é mesmo. Aos 58 anos consegui cortar (modelar) uma calça e, pela primeira vez, também, sentei numa máquina de costura e costurei a lateral da calça.
Ninguém imagina o que é isto para mim: é uma superação de todas as minhas limitações em relação à costura. Não sou chegada a qualquer atividade manual, sempre me julguei uma incompetente neste particular. Sou daquelas que para pregar um botão acho melhor pagar a alguém. Quando estava casada e tinha de fazer isto para o meu marido, o problema estava criado, cheguei mesmo a chorar quando fui solicitada a fazer este trabalho de gigante.  Se a solicitação era feita na hora que o cara tava prestes a sair, a merda tava feita, porque eu acabava espetando o dedo e sujando a camisa de sangue. O homem, às vezes, sorria, mas outras vezes ficava puto, porque ele era, e é daqueles que, mesmo tendo mil e uma camisas disponíveis, resolve que tem de usar aquela determinada. Os nossos filhos são testemunhas disto. Quando eles usavam alguma camisa dele, ele dizia exatamente assim:
“poxa, mas logo hoje que eu ia vestir esta”.
Este jargão virou gozação lá em casa, até hoje eles brincam com esta estória.
Bom, só falei disto para que vocês percebam a minha falta de habilidade para as coisas da costura.
Vocês podem estar perguntando por que decidi agora fazer um curso de corte e costura. Lhes digo: quando a pessoa esta com problemas que não sabe como resolve-los; quando esta diante de uma encruzilhada, em que não sabe a saída e não consegue pensar em nada a não ser no problema, tem de arrumar uma alternativa, uma coisa completamente diferente. Foi o que fiz, decidi que ia desafiar a tesoura e o tecido.
Bom, mas não foi só isto que me levou à aula de corte costura, porque poderia ser qualquer outra coisa, culinária, pintura, etc.,
A escolha recaiu na costura, porque, no espaço onde faço Yoga – Alfazema Cultural - começou um curso de corte e costura. Aqui tenho de fazer um parêntesis para falar dos projetos da Claudia.
Claudia é uma italiana que é casada com um Mestre de Capoeira – Mestre Orelha – aqui em Arembepe. Uma mulher intelectualizada, mística, inteligente, bonita e com muitas habilidades. Um curriculum para lá de invejável, só para lhes dar uma idéia, ela fala quatro idiomas fluentemente: alemão, inglês, italiano e português, acho que deve dar alguma pincelada boa em francês, não estranharia; também não duvido que ela fale outros idiomas, dialetos. Já viajou muito e tem uma bagagem considerável. Vi o seu curriculum e fiquei entusiasmada com o fato dela ser “restauradora”. Já teve obras no Vaticano, salvo engano, inclusive tinha um ateliê montado naquele país. Nestas plagas ela realiza um grande trabalho,particularmente   em Arembepe. O seu centro cultural, que, salvo engano, não tem qualquer ajuda governamental realiza diversos projetos: seja em relação a crianças, seja em relação aos jovens, mulheres de todas as idades, inclusive a terceira, como é o meu caso. Fico entusiasmada com a dinâmica daquela mulher e fico me questionando com uma pessoa  vem parar aqui em Arembepe e consegue, em tão pouco tempo, tantas realizações, integrando  tantos em tantas coisas, ajudando a sociabilizar Arembepe, criando oportunidades, expectativas,  fazendo com que jovens criem gosto pela leitura, viajem com os contos que são contados ao vivo e com participação  de familiares sociabilizando a relação familiar. Enfim, fico entusiasmada e tenho que parabenizá-la por todas as iniciativas.  
Bom, mas voltemos ao curso.
Fui lá e me matriculei: incrédula, evidentemente, porque realmente não tenho qualquer compatibilidade com os trabalhos que dependam das mãos. Olhe que na escola de freiras tinha uma matéria que acho se chamava “prendas do lar”, em que eu tive de aprender a fazer bainhas, bordar, etc. Nada foi avante, e se não fosse a ajuda providencial da minha mãe, talvez ainda estivesse tentando sair da 2ª série de ginásio aos 58 anos.
No dia designado fui e vi as colegas e a professora, uma pessoa que eu já conhecia, mas que não sabia bem se era ela mesmo que daria o curso. Por falar nisto, esta senhora tem mãos divinas, faz cada coisa maravilhosa, vejam o trabalho dela, uma pequena amostra. Uma lutadora. O fato é que cheguei e vi as minhas colegas. Ganhamos um kit, e eu me vi de frente com uma tesoura afiadíssima, um pacote de muitas agulhas e alfinetes, uma tesoura (pequena), isto é; me disseram que aquilo era uma tesoura: até hoje to na dúvida, um lápis que é o 6-B, não esqueçam nunca disso, o lápis para a costura tem de ser este, outro não serve, e uma fita métrica, quanto a esta última, acreditem que é verdade, a minha intimidade não vai além do que tomar as minhas próprias medidas, que sempre acho erradas, pois fico puta quando a cintura esta quase do tamanho do peito e quadril e eu me vejo uma coisa sem forma, ou melhor, com a pior forma que uma mulher pode ter: quadrado! A altura já nem me aborreço mais, porque a fita mostra que to encolhendo, mas enfim isto esta sendo solucionando, a Yoga e o pilates estão me esticando e eu to voltando aos meus 1,67, já confirmados pelo Doutor Lim lá na acupuntura.
Instrumento ali, apresentações e eu achando tudo muito engraçado, realmente não via qualquer futuro naquela estória, mas precisava mesmo de algo para me agarrar, para me deixar de fazer pensar na Justiça Colonial em Moçambique e em todos os problemas que estão vindo me visitar e que, como visitas inconvenientes que são, querem se abancar para sempre na minha casa; estrategicamente, saio dela e abandono-os, ainda que momentaneamente, para que vejam mesmo que não são bem vindos.
Bolsa feita por Eliana
Calça feita por Eliana
Apresentações feitas e lá vamos nós para a coisa prática. Confesso que não entendia nada. A professora pega um molde de uma calça e manda que todos façam este molde. Confesso que não entendia porra nenhuma. Aquilo era mesmo um quebra cabeças. O molde primevo foi o de calça.  A professora explicava dali, daqui, e eu atenta, mas não entendia nada.
- “É muito importante achar o fio do tecido”
E eu olhava ela marcar no molde o fio, sem o tecido.
Porra, como se pode marcar o fio sem o tecido? Não conseguia entender, mas anotei.
“Tem de ter muita atenção ao gancho, as duas partes da calça, frente e fundo, tem de coincidir, não há possibilidade para sobra”.
Era grego, olhava aquilo como se estivessem falando para mim de física quântica.
O molde padrão trazido pela mestra tinha de ser copiado por todas. Eu não fiz o molde, porque não levei papel, e se tivesse levado também não faria, porque realmente não tava entendendo nada.  As outras se esforçavam e tentavam fazer o molde em jornais trazidos pela própria professora.
Achava tudo muito interessante e inusitado. A própria situação, para mim, era mesmo engraçada. Eu me perguntava, mesmo sabendo a resposta: Que porra você tá fazendo aqui? Tu não tá vendo que não vai conseguir nunca? Você não tem jeito para esta coisa mesmo mulher!
Todavia, mesmo com tantas perguntas e respostas prévias, eu não desisti na primeira aula, e fui vendo as pessoas muito felizes fazendo os seus moldes, tirando dúvidas, enfim, estava a ver a participação de pessoas até então desconhecidas que agora estavam ali juntas, rindo umas das outras, integrando-se, comunicando-se: tem mãe e filha, mulher de pastor, pessoas que já sabem costurar, mas precisam de técnica. Fico só olhando tudo, não faço anda.
Na segunda aula, novamente calças, desta vez já levei, entusiasticamente, papel metro branco, régua, borracha, caderno, mais lápis preto, fui toda equipada, pois comprei tudo na Le Biscuit, uma verdadeira profissional da costura.
Sigo para a aula e fico, mais uma vez, só olhando tudo. Vejo a professora fazer o molde de uma calça minha, é porque pedi a ela para fazer uma calça igual a uma que tenho, com um pano maravilhoso que trouxe de Moçambique, e ela usou a calça para mostrar como cortar aquele molde, que não era muito fácil, cheio de detalhes, etc, é a calça que aparece supra na foto..
Vi tudo isto, mas ainda não me familiarizava com as coisas: o tal do fio do tecido me deixava doidinha, aliás, continua me deixando.
- “Você tem de encontrar o fio, é muito importante,” e, mais uma vez, o fio era encontrado no papel.
Porra! Acho que nunca vou acertar este negócio de fio.
Aula acabada, volto para casa com toda aquela parafernália, que nem olho durante a semana, não deu, fiz mais umas 5 páginas do trabalho do doutorado e estava muito preocupada.
Terceira aula: vou decidida, hoje faço um molde de qualquer maneira. A professora traz um novo modelo de calça, e aí eu vou tirar o molde, na verdade não tirei molde nenhum, como tinha emprestado papel a americana, já viu que o meu curso é importante não é, tem americana, têm gaúchas, (a professora é uma delas) tem mestre, enfim, tem gente, vida; ela fez dois, um para ela outro para mim. A aula girou em torno daquilo e, mais uma vez, da minha calça, porque a professora queria saber a opinião de cada uma de nós a respeito do que faria com aquele pano tão cheio de detalhes, acreditem se quiserem: 9 pessoas deram sugestões diversas, fiquei mesmo entusiasmada, porque também tenho outro grande defeito quando se trata de visualizar o que pode ser feito, não consigo mesmo perceber o resultado.
Bom o fato é que trouxe o molde para casa e aí é que vem o “grand final” de hoje:
Estava em casa sozinha no sábado, uma chuva da porra e que faço eu? Pego um tecido que tenho guardado há uns 12 anos, é porque eu sou assim: compro coisas e vou guardando. O tecido dava para fazer um grande e belo vestido, mas eu decido que vou fazer a calça, acho que ele tem balanço suficiente para isto.
Pensem a novela: a mesa da sala é pequena, não dá para o pano ser devidamente estirado, o molde é maior do que o tampo da mesa.  Estico o pano e coloco o molde em cima, vejo que se fizer como pensava da primeira vez vou gastar muito pano, tenho de ver qual a melhor maneira, resolvo que corto um lado de cabeça para cima e o outro para baixo, assim faço (leia-se, um lado para cima e o outro para baixo, começando da perna). Primeiro a prego todo o molde no pano com alfinetes, fico olhando como achar a zorra do tal do fio, não percebo, mas, pela lógica da coisa, penso que é como coloco o pano. O coração está aos pulos, vou meter a tesoura. A miserável esta super amolada, vai pinicando o pano. Vou cortando e pensando, esta merda não vai prestar para nada, mas continuo, corto mais largo tudo, porque penso exatamente que depois levo para o curso e a professora acerta.  Corto primeiro a parte de trás, depois viro; tenho de dizer, que eu é que viro o tecido eu não me atrevo sequer a mexer. Meu braço bate na parede, fico sem jeito, não sei como trabalhar a tesoura naquela direção e naquele espaço, mas enfim, corto a parte de trás das calças, o fundo.
Levanto o pano e vejo que cortei mesmo, incerto bem verdade, mas o pano toma uma forma, dá para ver que aquilo poderá vir a ser uma calça.
Começo então outro processo: tenho de alinhavar tudo e lembro:
- “As pontas têm de coincidir”
Coloco as pontas juntas, estão mais ou menos coincidentes.
- “O gancho, primeiro de tudo olhem os ganchos; tem de estar no lugar certo, juntos, não pode sobrar nada”
Alinho os ganchos: diferença. Porra! Que saco! Penso em desistir.
Não, esta droga não é mais de que eu.
Começo então a fazer o alinhavo pelo gancho, isto é: do gancho para baixo. Primeiro tem que fazer as duas pernas, depois é que junta as duas partes, através do gancho.
O pano sobra, eu sabia que ia acontecer, mas não pensei que era tanto, tento alinhavar, acertar. Consigo.
Ah, agora a hora pior, como é que eu vou juntar estas duas partes?
Começa um exercício de geometria. Eu nunca fui boa nisto. Tem de ser tudo pelo avesso, viro para lá, viro para cá, e, incrível: consigo colocar a zorra certa! Alinhavo tudo e, de repente; não mais que de repente: esta ali, na minha frente, alinhavada, ou não, uma calça.
Confesso que fiquei para lá de feliz, sinceramente, e mais uma vez constatei, que tudo o que a gente quer e se determina a fazer, pode ser feito, a gente consegue mesmo.
 Muito satisfeita, fiquei aguardando o dia de levar a calça para a professora dar a opinião.
Cheguei com o material e disse: surpresa! E botei em cima da mesa a minha obra de arte. 
- “Você fez isto mesmo?”
Porra, ninguém acredita em mim! Mas a professora diz que eu trabalhei direito, que estou de parabéns, que eu consegui montar mesmo a calça.
Fico feliz, mas sei que tem defeitos, e quando ela pega me diz exatamente o que eu já sabia:
- “tem de acertar tudo, os lados não coincidem”.
Expliquei que sabia disto, mas o problema é que como não sabia manusear a tesoura, a maneira que achei de não inutilizar tudo foi cortar maior e depois acertar, ou cortando, ou com a costura.
- “Tudo bem, mas agora você vai ter de costurar e fazer uma costura limpa”
O que? “Eu costurar na máquina”?  Tá doida! Nunca peguei num negócio deste.
- “Não tem mistério nenhum: vamos lá”
Eu e ela nos dirigimos para a máquina
Pense aí! Controlar mão e pé. Porque é mesmo assim: o pano fica ali embaixo daquele dente por onde passam as linhas: linha de baixo e linha de cima e você controla a velocidade da costura no motor com o pé, um perfeito trabalho de coordenação motora.
Digo para mim mesmo: não vou conseguir esta porra, esta fora do meu controle.
Qual o que! Pois não é que consegui, sem alinhamento ou não, costurar as duas partes da calça. Gritei, gritei de novo! Pedi que tirassem fotos porque queria que minha mãe visse isto, ela, com certeza, não iria acreditar, aliás, pelo que conheço do que dizem de mim, ninguém vai acreditar. Minha mãe então, que sabe que a única experiência que tenho com máquina devo a ela mesma, sim porque eu e meu irmão Tininho é que tínhamos de enfiar a agulha de cima, e passar a linha da bobina para cima na velha Singer dela. A máquina de costura da minha mãe era de pedal, e de onde vi sair muitas calçolinhas de algodão branco com ligas nas pernas e cordão na cintura, que eu, por sinal, odiava, mas que tamparam por muito tempo as minhas vergonhas.
Pois é, estou mesmo feliz, e o dia 25 de outubro de 2011 vai ser considerado um dia histórico na minha vida, um marco que vai sempre me lembrar que qualquer pessoa pode superar os seus limites, sejam eles quais forem, pois nada é impossível para quem quer para quem se determina e quer alcançar um objetivo.
Quem sabe meu curriculum vai ser acrescido e vai lá constar uma nova profissão – costureira especializada em pantalonas - tenho certeza que vou agradar!

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma cópula batraquiana

Quando Deus decidiu pelo dilúvio, para que a humanidade perversa desaparecesse, é o que nos traz a Bíblia no livro do Gênese, ordenou a Noé que fizesse uma arca e colocasse nela um casal de cada espécie animal, o que, também segundo a história, foi cumprido; razão porque as espécies foram salvas e capazes de multiplicarem-se e voltarem a povoar a terra. (Gênese,6-9) .Se, obrigatoriamente, a procriação não dependesse de um casal, Deus não se importaria  em mandar Noé, o homem justo que existia na terra, e por isso mesmo escolhido, para  repovoar a terra depois do dilúvio que durou 40 dias: “ Sai da arca com tua mulher e teus filhos e as mulheres de teus filhos; faze sair também o  seres vivos de todas as espécies que estão contigo: aves, quadrúpedes e répteis que rastejam sobre o solo, que se espalhem sobre a terra, sejam fecundos e se multipliquem sobre ela” (Genese, 8)
Bom, vocês podem não estar a entender nada desta introdução, mas daqui para frente saberão porque tive de recorrer a isto para fazer uma  observação a respeito de um acontecimento, que  passaria  totalmente desapercebido e sem importância, se tanta importância não se lhe tivessem dado.
Estava eu em uma reunião em um centro espirita; ouvia uma palestra  cujo tema era: “ Eu não vim trazer a paz, vim para dividir”. A oradora foi explicando o motivo de Jesus ter dito isto, ele que era o homem a quem se poderia atribuir  a esperança, a paz, a harmonia,diz uma frase desta!  Realmente, só  mesmo as pessoas capazes, e eu não sou, poderão entender o significado real desta frase, e porque ela foi dita. A senhora palestrante tentou explicar, confesso que não entendi,  mas como há tanta guerra, tanta infelicidade, tanta disputa entre povos,  cristãos e mulçumanos,  acho até que dá para começar a pensar sobre a frase com um pouco mais de coerência.
Bom, mas não comecei isto para falar, seja de Noé, seja de cristãos, seja de  judeus, seja de Cristo e de sua mensagem, de suas metáforas, de suas parábolas; aliás, eu acho que Jesus Cristo quis mesmo tripudiar de nós: para que porra que ele vem falando em parábolas? Só pode ser para confundir, ou então, achou ele que os seus filhos, por quem ele morreu na cruz, a história também diz isto, seriam todos inteligentes e capazes de entender o que ele, através das alegorias, das metáforas, das parábolas quis dizer. Para que dar trabalho para dizer o que deve ser dito de forma clara, será que ele queria mesmo é que uma classe de intelectos  entendesse a sua fala e a transmitisse da maneira que quizesse, que entendesse, inclusive podendo dizer mentiras em seu nome? Pois é isto que acontece; pois quando  ouvimos as  explicações da palavra de Cristo, chega mesmo a dar medo.  Quando a Igreja, que em principio é a sua maior divulgadora, claro que com interesses monetários, é uma das instituições mais ricas do planeta e não faz a caridade que foi determinada no evangelho: Quando a Igreja, há algum tempo atrás, não muito  longínquo, torturou pessoas, cobrou impostos de pobres, tomou terras de camponeses, enfim, contrariou em todos os momentos o  evangelho, estaria interpretando corretamente as palavras de Deus, o que não acredito, temos que ficar apreensivos.
Odeio ver os gritos dos pastores evangélicos. Isto deveria ser proibido. Deus deve andar surdo, porque  para o pessoal gritar daquela maneira  para ser ouvido, só pode ser este o motivo de tantos gritos 
E o islamismo? Por que  Maomé  exige que todos ainda botem o rabo pra cima  e, de quatro, fiquem em direção à Meca em todos os dias e  em determinados horários? Será que para respeitar o Alcorão, as leis  do profeta, isto é necessário? Como entender que, nos países  em que Maomé é mentor espiritual, ainda se obrigue que as mulheres usem burkas, que não possam dirigir, que não possam votar, dentre tantas outras proibições? Que interpretação é que  estes homens que divulgam a palavra do profeta  dão a estas palavras, que  fazem isto com um ser humano.
Bom, mas não queria mesmo discutir nada disto. É somente um desabafo e para demonstrar que  há muita coisa de falso  nas pessoas que divulgam a palavra de Cristo, que crêem nesta palavra e que se julgam em estado de graça porque estão com Cristo, por Cristo e no Cristo.
Pois é;  ontem eu pensava que estava no Cristo, pois estava atenta ao que a senhora que  fazia a palestra dizia; estava muito  interessada, até porque  ela estava falando de coisas  até bem palpáveis, a exemplo da energia que  Arembepe tem. Segunda ela,  as suas pedras  transmitem uma energia positiva, e eu tenho certeza que isto é real, não necessariamente porque a mulher disse, e sim porque, em muitos  momentos da minha vida, caminhando por esta praia, tomando banho entre os arrecifes, olhando as poças dágua límpida, vendo o colorido dos peixes,  fiquei  com a alma mais confortada, afastei dores, problemas, conversei com Iemanjá, com Deus, deixei que o sol penetrasse  em minha alma, ali, andando, rezando, sentindo os raios entrarem pelos poros e alcançarem a minha alma, despejando toda a energia positiva, que me tirou de muitas situações. Ai de mim se  não fosse assim! Sempre procurei conforto nas coisas da natureza, afinal, é a presença  real de Deus à nossa frente.  Bom,  mas no meio de tudo isto, isto é, da palestra da senhora, do lado da parede  direita de onde eu estava apareceu  uma sombra, que me pareceu um pequeno rato. Tenho pavor a ratos, e já comecei a suspender as minhas pernas, porque caso ele viesse para o meu lado,  eu já não faria o escândalo; que possivelmente faria; se estivesse com os pés no chão e ele passasse por cima deles.
Não era um camundongo: olhando bem, vi que era uma rã, sapo, sei lá o que, um batráquio com certeza. Estava encostado na parede e dava pulinhos pequenos para se locomover. Fiquei olhando, porque também não ia querer que aquele bicho frio e pegajosos  pulasse nas minhas pernas, por isso mesmo, notei que pouco atrás vinha outro batráquio, um pouco menor e seguindo o maior. Fiquei olhando  o que ia acontecer, para que direção eles iam. Aí aconteceu uma coisa interessantissima:  o  pequeno batráquio que vinha atrás, pulou nas costas do que vinha na frente, e ali ficou. Olhei sem entender nada, mas a insistência do que estava em cima me fez entender que ali havia um casal de rãs, e que eles estavam, literalmente, copulando, e que aquilo não tinha nada de espiritual, tudo era bem material. Achei engraçado, e pensei comigo, “trepada batraquiana abençoada”, tudo certo,  o casal de rãs, sapos  sei lá o que, eram espiritualistas, e queriam que  “relação” fosse literalmente abençoada.
Olhei por muito tempo: olhe que eles são resistentes! Imaginem que, grudados, conseguiram subir até um degrau, o cara não se desgrudava da fêmea de maneira alguma. Pena que fui sem óculos, pois de óculos veria melhor aquela cena numa casa de Deus.  Os sacanas  passaram, aproximadamente, uns 10 a 15 minutos nesta sacanagem, até que sumiram, não sei se até agora estão copulando ou não, mas sumiram do meu raio de visão. Ah! para informação, podem passar horas copulando.
Acabada a palestra,  me dirijo a porta para ir embora: como estava chovendo, fiquei à porta esperando que a chuva melhorasse, e perguntei a uma senhora  amiga, que estava junto de mim e com quem tenho muita intimidade:
“ Você viu o casal de sapos trepando”?
Porra, foi um Deus nos acuda: Uma senhora outra que estava junto de nós, e ouviu o comentário, vira-se para minha pessoa e diz:
- Você está num centro!
Eu não entendi nada, e perguntei:  -  Qual o problema? Você não viu que tinha um casal de rãs ou sapos trepando mesmo? Todo mundo viu, ninguém é doido.
- Vi, mas não se pode falar esta expressão  no centro.
Fiquei pasma! Mas me recuperei  rapidamente e questionei:
- Ah, quer dizer que eu tinha de falar que os sapos estavam fazendo amor? E, sacanamente, complementei: eles fazem amor e o ser humano trepa, que coisa engraçada.
Deu para notar que ninguém gostou muito do comentário, mas tive de fazê-lo:  Primeiro porque não vejo onde está o erro de dizer que os sapos estavam trepando; porque realmente estavam; se escolheram a casa do senhor, um centro de oração, certamente queriam ter a relação abençoada, procriar em em nome do senhor e com a sua bênção; segundo, estavam eles fazendo a coisa mais natural do mundo, eu só comentei porque achei inusitado o espaço que escolheram, apenas isto, nada além disto; não vi nada de sujo, porco, temerário naquela situação, para mim apenas engraçada, pelo visto constrangedora para alguns; terceiro, fiquei puta dentro das calças, porque a mulher que não tinha nada com a estória, porque não falei com ela, e sim com a minha velha amiga, se meteu no assunto para me dizer que não se fala “trepar”, no centro.
Resumo:  O que falei de tão violento? O que estava errado naquela cópula inocente?  O erro foi meu ou das pessoas que não sabem encarar com nenhuma naturalidade um ato tão natural que é o da propagação da espécie, aquele que  Deus abençoou no momento em que determinou que Noé  fizesse uma arca e colocasse nela um casal de cada espécie existente na terra.
Fico pensando: que falsa moralidade, e olhe que estas pessoas são espíritas:  dizem, não sei, eu não tenho, talvez não queira nunca ter, que têem contato com espíritos. Dizem, também, que fazem o bem através da caridade, da compaixão, do amor.  Não sei como assim se dizem, quando recriminam, apenas uma palavra que, vulgarmente, indica o ato mais natural do mundo – uma cópula entre um casal de animais-  que somente  escolheram um espaço errado, longe do seu habitat. Coisas espirituais, porque não há outra qualquer explicação, para o ato em quatro paredes, presenciado por muitos. Aquilo deve ter sido uma mensagem que não foi captada. Com certeza não foi, porque se fosse, quando muito a mulher sorriria, e mais nada. Bom o  que eu sei, porque vi , é que os dois sapos, espero que um casal mesmo, - uma fêmea e um macho –  estavam trepando; acasalando, copulando, qualquer palavra que indique a relação que  estavam tendo. Ah isto eu vi sim! Tenho dito.

sábado, 15 de outubro de 2011

Das vantagens de ser amante

Ele, ou ela, tem um amante; para os mais velhos, ser amante era uma vergonha, ter alguém na família que era amante, era tragédia, mui principalmente se você fosse mulher. É porque homem podia ter quantas amantes quisesse, mas uma mulher ter um amante; ah aí a coisa pegava! Aliás, ainda pega. Uma filha solteira que era amante de alguém era tida como “prostituta”. Enfim, era muito desagradável ser “amante” De padre então: confusão geral.
A palavra vem do latim amante, quer dizer desde a sua origem ela é igual, não sofreu qualquer corruptela: o seu significado foi perenizado, amante é amante e pronto, é aquele que ama sempre, repare que a palavra parece gerundiar. Ser amante é estar amando sempre, é uma qualidade e um estado de espírito. O substantivo e o adjetivo se confundem, e na sua grande maioria, apesar de ser um substantivo comum aos dois gêneros - a palavra ou a situação é tão boa que é comum de dois - se fosse uma coisa ruim seria atribuída ao sexo masculino ou ao feminino individualmente, como se fosse possível ser “amante” individualmente, sempre foi mais comum atribuir tal qualidade à mulher. A condição de ser, ou estar, amante é a existência de um outro; há que se interagir, e como! para se garantir esta adjetivação. A palavra é sonora e perfeita – AMANTE- ia ficar para lá de feio se ela tivesse gênero, imagine um homem dizer que tinha uma “amanta”; coisa mais feia! Parece que se fala de um animal irracional.
Mas não quero falar aqui do amante como um ser que ama, mas daquele qualificativo que é atribuído àqueles que têm relações fora da própria relação, aquela que se não abençoada por Deus- o sagrado matrimonio - é pela lei dos homens: - contrato -.  Quero, pois, falar da relação que é considerada ilícita.
Ilícita! A palavra é muito forte. Por que ilícita? Onde está a ilicitude no fato de ser amante? Que crime foi cometido? Não é uma ilicitude penal, não é uma ilicitude civil, nem sequer temos mais o adultério tipificado como crime e nem como causa de separação judicial (ou será que ainda temos? será que somos tão retrógados que ainda admitimos isto como causa de divórcio?). Não sei e nem quero saber, estou afastada do código civil, aliás, queria me afastar de todos os códigos. O ilícito, na verdade, está dentro do campo da moralidade. O individuo que tem uma relação estável com outro fica condicionado à só, e exclusivamente, ter esta única pessoa para ter as relações outras: sexual, familiar, obrigacionais, etc. Se passa a ter outro relacionamento com alguém, de cunho amoroso, ele (a) infringe as leis morais, aquela moral mentirosa incutida em nós desde que nascemos praticamente. É pernicioso ter “amante”- Um homem ou uma mulher tem de ser fiel ao seu parceiro para o resto da vida, não pode ser um amante, tem de ser o companheiro, o marido, a mulher, ou a esposa do homem: enfim, vocês caem de saber das obrigações dos cônjuges, que têm obrigação moral de respeitar o outro e amá-lo por toda a vida. Bom, veja só que contrassenso, (acordo ortográfico) se tenho de amar outro para o resto da vida, a minha condição, pois, é de amante – o ser que está sempre amando.
Bem mais o que quero mesmo falar é do amante, aquele que pratica a ilicitude de amar quem “pertence” a outrem, aquela de quem  uma música cantada por Betânia – EU SOU A OUTRA- fala: “Ele é casado, eu sou a outra na vida dele, que vive qual uma brasa, por lhe faltar tudo em casa, ele é casado, eu sou a outra que o mundo difama, que a vida ingrata maltrata [...]Quem me condena como se condena uma mulher perdida, só me vêem na vida dele, mas não o  vêem na minha vida...”
Todavia, não e bem assim como a letra da música: há vantagens quando se é amante: primeiramente você vai ser um substantivo assexuado, pois comum de dois gêneros é assim: não tem sexo definido, tanto pode ser um homem como uma mulher, a palavra vai ser igual. Depois você vai ser, ao mesmo tempo, um substantivo, que pode ser até mesmo próprio, e um adjetivo, porque você vai virar uma qualidade, que é a de ser amante: “Olhe ali, lá vai o (a) amante de fulano(a) de tal”!  Viu que você já passou de substantivo para adjetivo? Depois, se você for mulher, nunca será alcunhada de “patroa”; “dona encrenca”; “policia” dentre tantos outros desqualificativos para lá de desagradáveis com os quais as esposas dos amantes são nominadas. Também você nunca vai estar ocupada (o) para nada enquanto estiver ao lado do “amante”, porque ele (a) tem um tempo todo disponível para o outro quando estão juntos. Você estará sempre cheiroso (a), bonito (a), bem vestido (a) procurando agradar o outro. No caso do amante ser uma mulher, aí sim é que as vantagens são inúmeras: você além de sempre estar bonita, limpa, cheirosa, porque você vai sempre saber a hora que o parceiro vai estar com você, porque ele trabalha com as disponibilidades de horário, você nunca será pega de surpresa; você nunca estará fedendo a comida, desarrumada, suada, cheirando a detergentes, porque sua profissão é “amante”, não dona de casa, esposa, mulher, patroa, enfim, você não tem estas obrigações que aquelas que deveriam ser amadas para todo o sempre - Amem - têm.
Possivelmente, você não terá uma casa, a não ser que você tenha um amante bem rico e que queira a exclusividade. Exclusividade, eis outra palavra importante numa relação entre “amantes”; o amante não tem obrigação de ter exclusividade, até porque a própria relação entre amantes já afastou o exclusivismo, pois sempre haverá outro na relação, o parceiro (a) do amante, aquele que a moral dos homens reconhece como legitimo (a). Bom se não existe a obrigação da “fidelidade”, então você pode ser amante de muitos a um só tempo, bastando, apenas, manter a exclusividade momentânea quando se está a dois.
Outra grande e imensa vantagem para os (as) amantes: Você vai conhecer lugares maravilhosos, escondidos, românticos, lugares que jamais serão conhecidos pela esposa (o), sabem por quê? Porque você não pode ser visto pelo grande publico, então o (a) “amante” vai procurar sempre lugares que ele (a) não freqüenta com a família; vai fazer viagens com você, vai lhe mostrar coisas que conhece, vai lhe dar presentes, vai lhe proporcionar muitas coisas, que jamais serão vividas em companhia do seu parceiro (a) licito.
No sexo: Ah no sexo! “Aí é que é bom: o (a) amante” vai querer se superar mesmo, vai fazer com você tudo o que ele não faz com a “patroa” ou com “patrão”, pois com eles, em muitos casos, há o receio de que o outro ache que é imoralidade fazer isto ou aquilo. Com o(a) amante a liberdade é total, não há impedimentos, não há falta de respeito, não há tabus, tudo pode ser feito sem melindres, e então a coisa pega fogo, e acho mesmo que aí é que está a grande  vantagem do(da)amante.
Se você quer a exclusividade, acaba todo este clima, porque a rotina vai tomar conta da sua vida e você vai deixar de ser “amante” para virar, exatamente, o parceiro de quem o outro está querendo escapulir, ao menos por algumas horas. Aí você vai começar a questionar: Por que ele (a) não está comigo agora? Por que não pode dormir aqui?  Porque não podemos nos encontrar aos finais de semana? É porque tem isto: amante que se preza só tem final de semana com o objeto do seu amor, se estiver viajando a negócios; como se negócios fossem feitos aos finais de semana, mas o parceiro legal acredita, até acha que o (a) pobre coitado (a) trabalha demais, se sacrifica pela causa da família; Otários (as)!  Se você começa a querer tudo isto, a relação vai terminar, porque você vai querer ir para a cozinha para fazer a comidinha que o outro gosta, e aí, por mais perfume que coloque, o cheiro da comida vai estar em você, se for fritura então, ela vai impregnar os seus cabelos e você vai ficar fedendo, e então a pessoa vai achar que e tudo igual à sua própria casa, daquilo que ele (a) quer se livrar, ao menos, momentaneamente. Se você for esperto (a) jamais deixe que do relacionamento surgir algum imprevisto; to falando de filhos. Neste tipo de relação eles acabam com tudo, criam problemas sérios, seja com você e o (a) seu amante, seja com a sua própria família, com os filhos outros que por acaso você tenha, enfim, você se desestrutura todo. Se você for mulher então, o seu “casamento” com certeza estará acabado, e não só ele, a sua relação com o “amante” também: um porque não quer, e o outro também porque não quer: um porque não quer dar o atestado de “corno”, e o outro porque não quer quaisquer amarras com você, e vai ficar puto porque você deixou isto acontecer, como se ele não tivesse qualquer participação na estória, a culpa é sua, você é que foi irresponsável. Enfim, você acabou de desgraçar a sua vida toda. Se você tiver filhos da sua relação estável, a coisa ainda piora mais; porque eles vão lhe ver como realmente você é vista pela sociedade; como uma “vagabunda”.
Assim, aconselho a quem tiver uma relação extraconjugal, que apenas seja “amante”, não ultrapasse a fronteira entre o substantivo e o adjetivo. Não queira ser sujeito, se for, seja oculto, discreto. Não conjugue verbos que não possam virar ações efetivas, não tenha pretensões, apenas ame, é para isto que você existe; afinal você é um “amante”, você tem uma qualidade que inerente ao seu atual estágio, que é o de dar e receber amor, sem cobranças, sem compromissos, apenas seja, e faça alguém, feliz nos momentos em que a vida lhe proporcionar as oportunidades para que você possa exercitar esta sua qualidade, que você adquiriu com esforços próprios. AMANTE.             

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Palavras que não disse; cartas que não enviei

Marta Medeiros tem um livro cujo título, acho eu, é “ Tudo o que queria te dizer”, eu também queria fazer um livro assim. Queria dizer a muitos coisas que acumulei durante o longo trajeto da vida da qual eles fizeram parte, uns mais ativos que outros, uns incomodando mais que outros, uns sendo amados mais que outros.

Queria, por exemplo, dizer a um amigo, que ele é muito egoísta, que às vezes fica muito chato e que é melhor não estar com ele quando bebe demais e fica muito inconveniente, mas também agradeceria o muito que ele me amou, o muito que ele me deu, o muito de força, de admiração, de incentivo que, com certeza, ajudou a me transformar e ser o que sou.

Queria dizer a outro, que não gosto da maneira que ele despreza as pessoas burras. Das criticas que ele faz às pessoas menos privilegiadas, o seu brilhantismo não lhe dá o direito de desdenhar delas, às vezes até humilhar, já fiquei muito constrangida em muitos momentos exatamente por não concordar com isto.

Para alguém que foi mais íntimo, gostaria de dizer como foi bom tudo acabar tão cedo, não gostaria de estar hoje ao lado de uma pessoa que se apresenta como hoje é. Não gosto do pedantismo, da superioridade, da falta de “amor” para com os seus próprios, aqueles que saíram dele.

Sim, eu mandaria cartas para muitas pessoas, muitas delas iriam se surpreender ao receber as minhas missivas; algumas, pela própria surpresa de receber qualquer “escrito” partindo de mim, que também não sou a melhor criatura do mundo; tenho vários defeitos e deixo-os livres, para quem quiser perceber que eles existem e me acompanham; até tento sufocá-los em determinados momentos, mas eles estão enraizados e sempre falam mais alto, já perdi o controle sobre eles e, assim, eles se apresentam nas horas que lhes apetece.

Uns se surpreenderiam porque eu iria lhes falar do amor que sinto por eles: muitas espécies de amor; amor de irmão, amor de amigo, amor de filha, amor de mãe, amor de avó, amor de cunhada, amor de mulher, este último seria responsável pelo envio de muitas cartas, mas o destinatário seria um só; único, uma mesma pessoa recebendo cartas de amor o tempo todo, pois hoje acho que quem ama tem de dizer muitas vezes isto ao outro. Antes eu até achava que era desnecessário dizer isto ao outro, mas hoje acho que é de extrema importância que a pessoa saiba mesmo que é amada, que é importante, que faz falta, que é querida. E isto vale para todos os tipos de relação. Não avaliamos o quanto de importância tem para o outro a certeza de ser amado.

Queria dizer a algumas mulheres que passaram pela minha vida que, mesmo aquelas que me fizeram muito mal, toda elas me ensinaram alguma coisa, inclusive que não se deve, em termos de mulher, menosprezar o feio, porque homens não estão preocupados com o feio, quando o “sexo” fala mais alto e apenas uma perna para um lado e uma perna para o outro resolve o problema, fica tudo igual. Ah! A estas que apenas abrem as pernas, mas fecham a cabeça, eu queria mesmo mandar cartas bem cretinas, dizendo coisas idiotas, porque só assim elas iriam entender o que elas realmente foram na vida daqueles que nos eram caros. Aliás, essas coisas idiotas e imbecis que podemos dizer quando somos feridos é tão bom, faz um bem danado, porque despejamos nos outros coisas recalcadas nossas, culpas nossas que queremos dar a eles. Mesmo um alivio temporário seria ótimo, porque ainda que não nos livrasse das culpas, mas momentaneamente, nos faria muito bem, tanto ao corpo quanto à alma: as tensões se dissipariam e, com certeza, ficaríamos melhores.

Aos chefes, aqueles que tive na época do “trabalho forçado”, queria dizer muitas coisas: ao meu chefe, o do meu primeiro emprego queria escrever uma carta não para ele, mas com a certeza que ele teria acesso à mesma: e sim para a companheira dele, aquela pessoa que me sacanaeava tanto, que fazia escândalos dentro da empresa, porque achava que eu tinha um caso com o “bandido” do marido dela. Ah como gostaria de ter dito àquela mulher que uma mulher, tão bonita quanto ela, não devia se preocupar com uma menina a recém saída da adolescência, ou ainda nela, que por acaso ainda era virgem e queria continuar sendo, não sendo aquele “marido” grosseiro”, mal educado, ignorante, que iria despertar nela qualquer vontade de ter um caso, ser a “outra” de uma relação qualquer. Diria a ela que ela devia, ela sim, afastar-se daquele homem, por ser ela uma mulher interessantíssima, embora mal educada, escandalosa, mas se bem trabalhada poderia se transformar em uma “lady” até. Também lhe daria parabéns, porque soube, tempos depois, que ela deixou o senhor gerente das águas por uma gerência mais sólida e mais nova, a de um amigo do “casal”.

Escreveria também para certo “Cavalo Branco” para dizer-lhe que ele não era tão branco assim, que ele procurasse o seu lugar de “velho” e me deixasse em paz, porque eu tinha mesmo mais o que fazer do que ficar a mercê de um cavalo qualquer, que somente queria galopar, mostrar as suas qualidades, se é que tinha: de “garanhão”. Adoraria dizer que nada do que fizesse, nada do que me desse, nada enfim, faria com que eu deixasse, sequer, aquela boca roçar a minha face, aquelas mãos pegarem nos meus cabelos. Ah como eu queria ter escrito isto, e ainda deveria mandar a carta para o endereço residencial dele, para que a família soubesse que o cavalo era escuro, opaco, tenebroso, nunca deveria ser tratado como um “alazão”.

Mandaria uma carta especial para uma colega de ginásio, para dizer-lhe o quanto ela era ridícula, com toda aquela pose de merda que tinha, apenas e exclusivamente porque era filha de um advogado e aos 15, ou dezesseis anos, era “namorada” do filho de alguém abastado. Ah como eu queria ter mandado esta carta! Assinaria mil vezes, em nome de tantos quantos essa, hoje quase anciã, mas ainda pedante, humilhou. Felizmente encontrei esta cidadã em um grande momento da minha estória, em que a posição estava realmente invertida, não em relação à parte econômica, jamais alcançaria isto no particular, mas em relação ao status diferenciado, que muitos quiseram e ainda querem ter, mas o intelecto não permitiu a muitos, mas eu consegui. Posso garantir para vocês que a surpresa da moça foi uma cena que jamais esquecerei, mais que isto: o resultado da constatação de que se tratava de mim foi hilário. O que talvez antes tenha sido uma “vergonha”, agora era motivo de orgulho, quase um “orgasmo”: “Ela foi minha colega no ginásio” dizia a senhora pelos corredores. É, grande merda diria eu! Dispenso a lembrança de um fato tão desagradável: ter sido colega de uma pessoa igual a ela; ter vivenciado um pouco da minha adolescência com alguém tão “desagradável”.

E por aí vai. Escreveria longas cartas de amor, ridículas, como diria Fernando Pessoa, a tantos quantos pensei ter amado ao longo da minha vida, felizmente, como o poeta, não me lamentaria por não escrever “cartas de amor ridículas”.

Ao meu primeiro amor, aquele de quando eu tinha 14 anos, escreveria para que ele soubesse de todas as emoções que ele me fez sentir. Diria do medo que eu tinha quando ele se aproximava de mim, diria a ele porque eu não deixava que ele se encostasse tanto, não era porque eu não gostasse, era só medo meu querido, apenas medo; me colocaram tantas coisas na cabeça que àquela época eu achava que poderia engravidar até pelos ouvidos: imaginem só! Diria a ele como era grande a minha emoção quando eu o via descendo as escadas que davam acesso a minha casa, meu coração cantava, acho que ficava contando os degraus um a um, acho que para o tempo passar mais rápido, e olhe que a escada não era tão grande assim- Diria a ele da minha raiva quando ele chegava á minha casa e, ao invés de ficar comigo, ia brincar com a minha irmã caçula, que tinha apenas 5 ou 6 anos, já não lembro. Se escrevesse hoje, que ele já não mais esta aqui conosco, diria que tenho um grande arrependimento de não ter cedido, ele merecia, eu merecia,queríamos, mas não conseguimos, o meu medo foi maior e cheguei aos 18 anos (com ele, embora ambos tivéssemos outras parcerias) sem que nada tivesse acontecido, Que raiva! Que desperdício.

A um tio meu escreveria agradecendo os bons e grandes momentos que passei em sua casa, uma casa humilde, mas imensa de amor e de respeito pelo ser humano, onde sempre fui mimada e bem tratada e que me proporcionou muitas coisas agradáveis.

Queria escrever para o Papa, dizer da minha revolta com a instituição que ele chefia; falaria tão mal da Igreja, dos padres, das freiras, dos internatos - fábrica de revoltados- discutiria suas verdades. Diria da minha vontade de invadir o Vaticano e me instalar lá com tantos pobres quanto pudesse, a fim de que os senhores deuses do “Olimpo vaticanal” ficassem melindrados com a invasão, e chegassem um pouco mais perto da pobreza como ela é, da fome, da miséria, que somente a lembrança do nome de Deus não acaba. Não se educa almas com fome. Queria ver a reação, que deveria ser filmada pelos jornalistas, que seriam convocados exatamente para este fim, para mostrar que, como em qualquer lugar comum em que pessoas se sentissem ameaçadas, seria usada a violência para retirar aquelas almas menores, sem direitos, sem amor, “sem vergonhas". Ousados, que ousaram entrar no templo sagrado dos inatingíveis, dos mentirosos, dos cretinos, que usam a palavra, o que é pior, a de Deus, para fazer com que as pessoas aceitem toda a situação como sendo uma purificação. Vá à porra! Onde já se viu fome ser purificação? Não me lembro de ter visto no Evangelho Jesus ter passado fome, aliás,o mestre era mestre em multiplicar coisas, desde pão, peixe, e, o melhor: VINHO, gosto muito desta parte! Nem deixaria que ele respondesse e argumentasse das missões, do evangelho levado até àqueles por “bons samaritanos”, que não tiveram cacife para entrar no “templo sagrado” e tem que fazer penitências para a purificação. Evidentemente que reconheceria algumas exceções, toda regra tem ao menos uma, mas não perdoaria a maioria e lhe diria em letras garrafais, NÃO QUERO FAZER PARTE DOS BEM AVENTURADOS, pois não quero ter de sacrificar a minha vida, sofrer, passar privações, para assim ser considerado, para participar de um reino de falsidades. Não quero entrar no céu, pois se para lá for e encontrar o senhor, me refiro a ele mesmo, o chefe da Igreja, não iria me sentir bem dividindo um espaço que se diz “puro” com alguém que chefiou uma instituição falida(valores éticos e morais) e mentirosa, que acoberta padres pedófilos, que se mantém com dinheiro que foi tirado dos fiéis, que perdoou grandes e imensos pecados por conta dos valores pagos pelos grandes e ricos pecadores, que chefiou uma Inquisição que perseguia pobres coitados, cuja cúpula vive nababescamente, com direito a guarda de uma “guarda” de “pagens” suíços, ridículos por sinal, em pleno século XXI ver rapazes bonitos ridiculamente paramentados, fazendo a segurança dos que não deviam precisar de qualquer guarda, porque deveriam estar guiados e guardados por Deus.

É!Escreveria, ainda, para muitas e muitas pessoas; algumas realmente para dizer do meu amor, do meu respeito e agradecimento por elas terem passado pela minha vida, ajudando a moldar um espírito que, com certeza, ainda está em formação, porque cada momento a vida traz uma transformação. Quando acordamos a cada dia já não somos os mesmos do dia anterior, ao menos teremos a certeza de que um dia a mais se passou. A outras para dizer do mal que elas me fizeram, e porque eles deveriam melhorar como pessoas.

Mas, infelizmente, não posso escrever para todos, até porque alguns, com certeza, ficariam melindrados com a verdade que estas cartas poderiam conter; verdades que, quando ditas, parecem para aqueles que são alvo delas, mentiras enormes, porque as pessoas não se conhecem, ou então, se julgam acima do bem e do mal e achem que favores devem ser retribuídos a todos os momentos, como se fossemos obrigados a passar a vida toda agradecendo alguma coisa que foi feita para nós, ou por nós.

Às pessoas que impõem as suas presenças e de outrens que lhes acompanham sem perceberem que não se pode infiltrar pessoas outras em um relacionamento que é só de dois. Diria que não somos obrigados a gostar dos companheiros, das pessoas que lhes circundam. Lhes diria que precisam entender que tem limites, que não é porque gostamos delas que somos obrigados a aceitar pessoas e coisas que não nos fazem bem. Também diria a alguns que eles não são e nunca serão os donos da verdade, que cada um pode escolher a sua própria, acreditar nela e ir em frente, sem ter que receber critica de A, B ou C.

Escreveria, também, para dizer a alguns que metam-se com a sua vida e deixem que os outros vivam em paz, se limitem a ouvir, quando procurados, porque não tem coisa pior de que a indagação constante de curiosos sobre coisas de sua vida, uma curiosidade, que em alguns casos, é mórbida, cruel. Não se quer saber para ajudar, e sim para criticar, para divulgar, enfim, para se ter motivos para falar da vida de alguém, talvez para valorizar a sua própria. Com alguns seria mesmo cruel, exatamente na medida em que eles foram para comigo e para com as pessoas de quem gostei, ou gosto.

Mas, infelizmente, não escrevi tais cartas, se em algum momento, que foram vários, registrei acontecimentos, rascunhei bilhetes e cartas não os enviei e perdi a chance de ser verdadeira, de colocar para fora sentimentos que continuo guardando comigo, por falta de coragem, por vergonha, por “educação”, enfim, por mil e um motivos.

O correio está em greve, mas isto é passageiro; o que não é passageiro é a certeza de que se perdeu grandes chances de melhor se mostrar para as pessoas, de dizer a elas do seu amor, do seu querer, o que inclui reconhecer defeitos e aceitá-los para que o amor flua sem restrições e para que você seja, e faça alguém, FELIZ.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Agradando a si próprio

Acabo de ler uma crônica de Marta Medeiros; por acaso entrei  num site e  vi a crônica que não tem título, mas ela não precisa de título, por si só se basta e cada qual que dê e o seu titulo.
Achei muito interessante, porque a autora descreve um acontecimento corriqueiro, que acontece com muitos de nós, que, em algum momento, por força de um “amor”,  lógico que um falso amor, a gente se esquece de si próprio e passa a fazer tudo o que o outro gosta, ou melhor: o que pensamos que o outro gosta.
A estória contada fala de uma mulher que teve um relacionamento, que teve o seu termo final através de um e-mail, numa mensagem lacônica:  “não dá mais”.  Daí em diante ela passa a fazer mil e uma coisas para chamar atenção do seu ex parceiro, que, para ela,  ainda continuava como parceiro, achando que aquilo era mais uma rusga de namorados.
Para tanto, passou a fazer ginástica, passando a ser a mulher mais malhada da região, passou fome para emagrecer e ter o corpo da moda, barriga chapada, pernas musculosas, bunda dura, braços torneados.  Não contente com isto, e porque o espírito não estava  tranquilo, passou a fazer Yoga, meditação, ler  muitos livros de auto ajuda. Ficou craque neste tipo de discussão. 
Como nada conseguiu, fez uma viagem para a Europa, onde passou trinta dias acostumando-se com o estar ela e ela, sem mais ninguém, diz que curtiu esta solidão forçada, aprendendo e apreendendo.
Fez tudo isto, e o “cara” nem aí. Acordava todos os dias a pensar o que poderia fazer para chamar a atenção daquele que era o seu amor, procurava saber  dos amigos o que ele estava curtindo  naquele momento, diz que fez promessas para Santo Antônio, e tudo o mais que lhe fizesse ser a preferida dele, mas não obteve qualquer êxito, até que um dia acordou feliz e satisfeita, olhou-se no espelho e viu o quanto era linda, e o quanto se bastava, sem a presença, agora fastidiosa  daquele que, naquele momento, nem sequer lembrava o nome, a quem queria agradar para se valorizar e se reafirmar como mulher.
É isto mesmo! Quantas vezes nos esquecemos de nós mesmos para agradar  o "Outro", aquele que pensamos que amamos, que valorizamos, que queremos ter conosco, sem nos aperceber que, cada vez que queremos mostrar ao outro o que  pensamos que ele quer ver, pode ser exatamente que ele esteja vendo o que ele não quer ver.  E nós, como ficamos quando fazemos apenas  o que  pensamos que agrada ao outro? Não temos vida própria, não nos gostamos da maneira que somos, fingimos o que não somos para agradar A. B ou C. Por que fazemos isto? Que  coisa mais boba é esquecer a nossa identidade para assumir a de outrem, uma identidade que não agrada nem a nós próprios e nem a quem a queremos demonstrar! Que tipo de  relacionamento é este que temos para com nós mesmo, que faz que esqueçamos de nós para  nos dar ao outro de uma maneira para lá de imbecil?
Não estamos com outro porque ele nos quer  desta ou daquela maneira, não temos que nos adaptar ao que as pessoas querem para nos sentirmos amadas. Primeiramente temos que nos amar da maneira que realmente somos. Podemos, bem verdade, modificar alguma coisa que  achamos que esta errada, ou que, mesmo sem estar errado, pode melhorar, mas  temos de fazer isto porque vai nos fazer sentir bem, por que nós fizemos a opção, é um ato completamente voluntário, que parte de nós mesmos.
Por exemplo: Quando resolvemos fazer uma plástica, seja ela corporal, facial,  a droga que for, temos que fazer isto porque  não estamos nos sentido bem, não porque alguém  nos olhou e nos achou envelhecida, como se não fosse uma coisa normal envelhecer. Se alguém não lhe quer porque você envelheceu, é porque realmente nunca lhe mereceu, porque o passar dos anos lhe dá uma outra beleza, a invisivel, a que se manifesta apenas nas suas ações, no seu interior, aquela que só é visível para as pessoas que tem sensibilidade, respeito, companheirismo.
Prestem atenção: não sou contra a plástica, de maneira alguma, vou fazer todas que tiver direito,  mas  definitivamente, não será para agradar ninguém Vou fazê-lo por mim, pois não gosto de ver as rugas que tenho  nos cantos dos olhos. Não gosto de olhar  meus seios caídos, quero-os  empinados e mostrando a sua áureola rosa; quero que a minha boca seja como era antes, mais delineada, enfim, quero  me agradar, me olhar no espelho e me sentir bonita.
Se tudo isto agradar a alguém, otimo, caso contrário, eu estarei satisfeita e é o que interessa. Se não fizer a plástica, vou continuar me olhando no espelho e vendo todos os defeitos causados pelo tempo, defeitos que demonstram o quanto vivi, o quanto  sofri,  o quanto amei, o quanto fui amada, o que fiz, enfim,vou me ver como eu, com tudo o que adquiri ao longo do tempo, que somente pode ser partilhado com quem merece, com quem  vê tudo isto com os mesmos olhos que me vejo;  os olhos do amor.  



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A África repartida - Convenção de Berlim (1885)

Como alguns já sabem, fiz o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia- UFBA e o curso de História na Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Claro que antes disto,  como é óbvio, percorri todo o processo academico; no meu tempo, primário, (com quinto ano e admissão para o ginásio), ginásio, colegial. Até a quarta série de ginásio estudei em colégios administrados por freiras, à época considerados os melhores centros educacionais, principalmente para as mulheres; havia alguns que nem mesmo meninos eram admitidos, mas isto não vem ao caso agora, o certo é que eram tidos como bons, e eu na verdade não duvido disto. Estudei no São Raimundo, no Salette e na Medalha Milagrosa, nos dois primeiros, em regime de internato, no último  como uma aluna externa.
As matérias estudadas, como em todos os bons colégios, eram: História, Geografia, Ciências, Matemática, Português,  Educação Religiosa; depois de algum tempo apareceu uma nova matéria que era EMC, educação moral e cívica, que hoje, quando nela penso,  me parece uma espécie de lavagem cerebral para jovens (à época). O país atravessava a sua crise (ditadura militar) e era necessário que  os jovens aprendessem a respeitar  o poder da maneira que ele foi estabelecido em 1964. Tínhamos de ter, em nós despertado, o sentido  mais literal do que era o sentimento nacionalista e patriótico. Eu era mesmo muito jovem e não me lembro de muitas coisas, a não ser de ter descido, um dia, a ladeira da praça correndo com o meu pai desesperado, porque  do pico da ladeira, soldados armados estavam atirando. Era a tal da revolução, como me diziam.  Bom, mas isto também não vem ao caso no momento, mas agradeço de alguma maneira  este período, porque nele, erradamente ou não, aprendi o que é ser brasileiro; não com tanto orgulho e amor como quando falamos em football, mas com o orgulho do nacionalismo que teria de ser incutido em cada um de nós. Deveríamos honrar a pátria e, como na letra do hino nacional, que embora não tenha sido escrito na época da ditadura, era como se fosse, defendê-la com unhas e dentes dos tiranos quer queriam implantar a anarquia neste grande e imenso florão da América. Ah, além destas materias eu ainda tinha uma muito especial, “prendas domésticas”, mais tarde  “trabalhos manuais”: é mole ou quer mais?
Mas o que quero não é falar nem de Brasil, nem de ditadura, nem mesmo  do que aqui aconteceu por força  do regime, mas do programa dos cursos de história e geografia.
Até onde a minha memória alcança, quando estudávamos História, o que bem me lembro em se falando no continente africano, é do Egito, e não muita coisa. Estudei as cheias do Nilo, de como as enchentes deixavam as terras férteis que eram cultivadas.  Lembro-me das  pirâmides, do nome de alguns dos grandes faraós, Hamsés, Tutakamón, mas acho que foi só. Além disto, e ainda do que me recordo, aprendi que a África  foi um grande fornecedor de escravos para o Brasil, a África como um todo; era como se ela fosse apenas um grande e imenso país, sem divisões, sem Estados; apenas a África, com os seus negros, com a sua selvageria, com os seus leões, elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes, e os macacos, muitos, mas muito deles, e das mais variadas espécies, entretanto, na ficção, havia um em especial, ou melhor,uma, que ficou internacionalmente conhecida, a Chita, a macaca de Tarzan, que pasmem: era muito mais inteligente de que os negros que apareciam nos filmes do menino que cresceu na selva.  Os imperialistas colonizadores preferiram uma macaca junto ao menino, de que colocar um ser humano "negro" ajudando um “branco”  a sobreviver na selva. Certamente, e era mesmo o que era propagado, se  o menino fosse encontrado pelos gentios africanos não sobreviveria, o seu fim teria sido uma panela. Aliás, era assim que os africanos,(negros) no contexto geral, eram caracterizados, lembro-me que em revistas de repercussão nacional, havia sempre uma "charge" com um caldeirão enorme, com  nativos(negros) vestidos de tangas de palhas desfiadas, com um osso enfiado no cabelo, no nariz, um beiço enorme, com lanças nas mãos, a fogueira acesa e os brancos dentro, cozinhando. A antropofagia era vulgarizada para que “os brancos” tivessem todas as restrições aos negros e, por isso mesmo, encontrassem motivos suficientes para, se não exterminá-los, escravizá-los, domá-los.
Em geografia, também até onde alcança a memória, eu lembro que aprendia as capitais dos paises da Europa, não todos, é claro, os mais importantes.: Espanha-Madri; Portugal-Lisboa; França-Paris; Inglaterra-Londres; Itália-Roma; Alemanha Oriental-Berlim,Alemanha Ocidental-Bonn; Holanda-Amsterdã, Grecia-Atenas; Suiça-Berna; Suécia-Estocolmo, e por aí vai, alguns já não me lembro, aliás, o mapa europeu mudou tanto, os países se multiplicaram com a separação das repúblicas soviéticas, que  tudo esta muito diferente do  mapa anterior, aquele em que estudei, da África, ao que me lembro, tratávamos da pobreza, da seca, da fome, da savana,dos grandes desertos, falar do povo, nem pensar, etnias? O que era isto? 
Todavia o que era da África? Que países existiam no continente africano, além do Egito com a sua capital Cairo em que ingleses se estabeleceram? Acho que falávamos dos árabes sim, mas quando eles entravam na estória ou na ficção, eram  os homens que usavam  roupas longas, com panos na cabeça, diferentes dos indianos que usavam turbantes e tinham o rio Gangis, que era o rio sagrado, andavam nos desertos com caravanas e camelos, e paravam em oásis, alguma alusão remota às invasões da Europa e alguns outros mínimos detalhes.Na ficção havia o Ali Babá e os 40, ou eram 50? ladrões. Evidente que estou mesmo sintetizando muito, pois não me lembro de tudo o que estudei no primário, ginásio e colegial, aliás,  não to me lembrando de um passado mais remoto, imagine  de coisas de 45, 50 anos atrás.
O fato é que quero dizer que nunca ouvi falar da Convenção de Berlim, nem mesmo quando, pasmem! fiz a lincenciatura em História, aliás, não me lembro de ter tido nenhuma matéria especifica sobre a História da África. Só ouvi falar da Convenção de Berlim quando, em 2005 passei a fazer o Mestrado em História da África na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alguns podem pensar que é um exagero da minha parte, mas não é não, eu estou falando sério, e aí é que está o grande problema: é que, ainda hoje, não se ouve falar, em sala de aula, nos cursos de história, da Convenção de Berlim.
Por que falar da Convenção de Berlim? Porque este acontecimento modificou toda a história e geografia africanas, foi o marco de uma mudança radical  na vida dos africanos e da Europa, que dividiu o continente africano entre eles, como se pudessem tornar-se donos da vida, da história, do patrimônio do outro, impunimente. A divisão estabelecida pela Convenção de Berlim não obedeceu a qualquer príncipio, seja ético, moral, geográfico, apenas foram atendidos os interesses econômicos das nações imperialistas. Nações africanas foram divididas, povos foram separados, tradições foram afetadas, exterminadas em alguns casos, tudo feito com base em nome de uma obra civilizacional, sem que os africanos participassem desta divisão. Bem verdade que as ocupações e os conflitos pela posse dos territórios já eram  rotina, o que a Convenção fez, na realidade, foi ratificar o que já existia e tentar resolver os conflitos existentes, além de fixar critérios para a ocupação do litoral.  Com a Convenção de Berlim consolidou-se na África as nações europeias civilizadoras, que tinham como a mais nobre das missões civilizar aqueles povos atrasados, selvagens,  missão a que deram o nome de civilizacional, que consistia em um “ dever das raças superiores para com as raças inferiores” BOKOLO,2007:305).
Maputo - Oceano Indico
antiga Lourenço Marques
Através dela eles transformariam africanos em fantoches, em párias, sem pátria, sem direitos, sem identidades, mas com muitas obrigações. Com a Convenção de Berlim, trataram a África como se ela fosse uma grande homogeneidade cultural (se éque assim se pode dizer, porque com certeza  os colonizadores não achavam que nada que fosse de origem africana pudesse ser considerado como cultura), que poderia ser dividida sem que isto afetasse a vida dos seus nativos, que não tiveram respeitados os seus espaços, as suas línguas, as suas etnias, as suas culturas, enfim, desestruturaram as estruturas tradicionais estabelecerem  sistemas outros, exógenos, que eram considerados politicamente corretos e civilizados (eugênicos), mas inadaptáveis aos costumes locais.
A finalidade real da Convenção, entretanto, era a regularização do comércio na bacia do Congo e de outros rios, e fixação dos parametros de ocupação da África, que doravante tinham de ser cumpridos pelas nações envolvidas a fim de que estas pudessem continuar como “proprietárias” da África, porquanto a sanção, em caso de não observação das  regras, poderia culminar com a perda da própria possessão.
Agora, exigia-se que o continente fosse efetivamente ocupado, já não se podia apenas colocar  bandeiras marcando espaços, vender armas em troca de terras, criar feitorias, enviar reconhecedores de terrenos, missionários. A África tinha de ser ocupada ordenadamente, e não só, os nativos também deveriam ser trazidos para o mundo da civilização, afinal, antes da década de 80 os europeus “tinham começado a perceber ou a imaginar a importância da aposta africana e a pôr o dedo numa série de engrenagens cuja rotação haveria bruscamente de se acelerar nas duas últimas décadas do século XIX” (BOKOLO, 2007:300).
A Conferência iniciou-se em Novembro de 1884 dela participando  (Alemanha, Bélgica, Espanha, Estados Unidos(vejam bem) França, Inglaterra, Paises Baixos, Portugal, Turquia, Itália, Imperio Otomano. Quem convocou esta reunião foi a a Alemanha (Bismark) e ela teve lugar em Berlim, entre  1884 e 1885.
Após a Conferência a corrida para África intensificou-se, apareceu o que passou a chamar-se zona de influência. Muitos tratados foram realizados, somente entre Portugal e Inglaterra foram firmados  30 deles, com a finalidade de delimitar áreas, fixar fronteiras.  Acordos foram assinados com os chefes indígenas, porque a participação deles na ocupação pacifica dos territórios era fundamental. Muitos termos de vassalagem foram firmados entre Portugal e os  chefes  indígenas da África Portuguesa, em que sempre constava que os dois, o rei de Portugal e o chefe eram aliados no caso de ser necessário colocar algum intruso para fora do território. Isto entretanto, não impediu que um grande chefe indígena,o Gugunhana tivesse contatos com os ingleses, de quem recebia favores e que teve mesmo de ser vencido, preso, retirado de Moçambique.
Estação ferroviária de Maputo
Moçambique - obra dos portugueses
Pois bem, para finalizar, a partir da Conferência de Berlim restou consolidado o dever  das potências plenipotenciárias  de promover o melhoramento das condições materiais dos indigenas. Cada uma delas utilizou os métodos  próprios para alcançar  o objetivo, que diga-se de passagem, não foi alcançado até que os paises africanos conseguissem as suas respectivas independências. Em Portugal criou-se uma identidade para os “negros”, eles passaram a ter o status de indígenas, e como tal, teriam uma legislação própria, regulando às suas vidas diferentemente das dos portugueses. Os indígenas, a partir de uma determinada idade, 14 anos, tinham a obrigação moral de trabalhar, se não fizessem por bem, isto é, voluntariamente, a isto eram obrigados, através de um carinhoso método de coação,a que eles denominaram de “trabalho compelido”, que caso não observado, sujeitava o indigena à prisão, que por sua vez era convertida em trabalho forçado, enfim, uma escravidão com este apelido carinhoso, que foi legalizada e utilizada durante muito tempo com a justificativa de que somente pelo trabalho é que os “indígenas” alcançariam a civilização.
Pois é, um acontecimento de tamanha importância mundial, não poderia deixar de ser estudado nos cursos de história, não se pode, como eu, ouvir falar da Conferência de Berlim, apenas e tão somente quando se alcança uma pós-graduação em História da África. A importância do continente africano não pode ser esquecida desta maneira, mui principalmente por nós, brasileiros. É preciso um novo programa para os cursos de história, é necessário que a África seja introduzida na sala de aula desde o primário. Explicar a atual África, os seus conflitos intestinos, passa, também, pela explicação do que foi a colonização naquele continente, como  os colonizadores dividiram os povos, desrespeitando culturas, etnias, histórias, vidas.