sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo! Será?

O último dia do ano chega sem que nada de diferente aconteça. As pessoas estão excitadas, parece que vai acontecer algo de diferente. Os sons se confundem; tudo ruim, mas há “axé” no lado, no fundo, na frente. Na casa da frente os “alquimistas”, mas uma vez, driblam o poder público e, descaradamente, fazem um réveillon na casa de “não eventos”, num desrespeito total, aos vizinhos, ao público em geral, ao poder público, que segundo informações, não concedeu o alvará de funcionamento; também não poderiam, pois a ilegalidade é flagrante, mas parece que “as alquimistas” não temem nada, estão acostumadas a desobedecer tudo, a ordem moral, a ordem legal, enfim, são favoráveis à “desordem”.
Os carros nas garagens disputam com os sons caseiros o primeiro lugar da poluição sonora. Quem é o mais capaz de poluir? Teve gente que colocou na porta da garagem que “aqui nesta casa há felicidade e alegria”, a que acrescentou-se: "e muitos surdos”.
É neste ambiente que ela está sozinha pensando como será possível dormir com tanta confusão. Não está com vontade de fazer nada. Chamaram-lhe para ir até a praça, mas ela não tem a menor coragem. A cidade está cheia, mas muito cheia de gente, o que é pior, de gente feia, mal educada, ignorante.
Não tem coragem, sequer, de se arrumar. Se arrumar para que? Mudar a roupa não muda o íntimo de ninguém. O que realmente devia acontecer, a cada começo de ano, era uma mudança no interior de cada um. Era acontecer coisas boas para todos, sem que isto estivesse, sequer, vinculado á um dia: o último dia do ano ou o começo do vindouro.  O pior de tudo é que se vê que esta euforia idiota não passa mesmo de uma falsidade, de mais um motivo para se ser falso.
O telefone toca, é alguém lhe desejando, falsamente, um feliz ano novo. Ela sorri, sabe que não é mesmo isto que querem, ao menos quem ligou, pois é a pessoa responsável por muitas angústias e muitas tristezas em todos os dia do ano, aliás, o ano de 2011 podia ser riscado do seu calendário. Um ano ruim, de dor, de sofrimento, de mais decepções, alguns momentos de felicidade “enganosa”, que sequer conseguiram, mesmo momentaneamente, afastar tanta tristeza.
Evidentemente que, para ela, desejar coisas boas para os outros, não é uma questão de virar o ano, é sim uma questão pessoal, de coerência. Gostaria muito que todos que a rodeiam, mesmo aqueles que a fazem sofrer  tanto, fossem felizes em todos os dias e em todos os momentos, independente de qualquer marco que fizesse uma troca numérica no ano.
As pessoas passam pela porta da casa, a cadela late, A rua esta cheia de carros estacionados o que dificulta, e muito, o trânsito, seja de automóveis, seja de gente, e mais uma vez ela questiona: Será que estas pessoas, que desejam um ano novo para outrem, não são capazes de perceberem que, estacionando o veículo na frente da garagem de alguém está procurando uma confusão? Será que não percebem que incomodam? Que o que se esta a fazer é errado? Não, para eles está tudo correto, quem está errado é quem fez aquela garagem ali, no meio da rua, impedindo que os carros estacionem. É uma inversão completa de valores,  de coerência. Se o pobre coitado dono da garagem fizer qualquer reclamação é taxado de encrenqueiro. Pode? E são estas mesmas pessoas que chegam e lhe desejam um bom Ano Novo. Para que? Para no próximo continuar a fazer a mesma coisa, ou um pouco pior?
Mais um som se confunde com os demais, claro que um outro pagode, não há outro ritmo por estas paragens, a não ser quando colocam o Silvano Salles no arrocha.  Há também a Paula Fernandes, mas é muito rápido, afinal não é dia de ouvi-la.
Outra ligação; mais um falso Feliz Ano Novo, este então chega mesmo a doer: Imagine que alguém lhe perde perdão do que faz com ela. Ela não ri; desta vez chora mesmo, porque sabe perfeitamente da falsidade deste pedido de perdão, até ele mesmo despropositado, porque não há nada para se pedir perdão e ela não tem nada para perdoar, cada um vive a sua própria vida fazendo o que acha que é correto, portanto, não há motivo para perdão.
Ligam outra vez, agora a ligação é do exterior, fica com pena de quem ligou; também a pessoa lhe deseja um grande ano novo, que ela sabe que esta pessoa não terá. Há dificuldades no seu país, teve corte em suas rendas, vai ser difícil segurar a onda daqui para frente, tem vontade de chorar, mas seguro o choro, não segura é um pouco da agressividade peculiar. A pessoa nota que ela esta nervosa, ela tenta disfarçar, mas não dá; sua voz lhe entrega, ainda assim deseja um feliz ano novo, como se aquelas palavras pré-fabricadas pudessem trazer algum ânimo àquela pessoa que sabe que nada vai mudar no ano que vem, ou melhor, a mudança que vai ocorrer será mesmo para pior.
Resolve então parar tudo, até de pensar, queria ter esta capacidade, se abstrair de tudo e todos e ficar em um momento, que fosse de total desligamento. Sabe que só vai ser tentativa, porque o som dos carros e das casas não permite tamanha proeza.
Desiste, escreve, registra: é bom para depois refletir e perceber que a sua vida é morna, não há variação na sua temperatura, tudo parece sempre se repetir, espera por coisas boas que não acontecem, recebe coisas más que não espera, mas chegam com uma grande facilidade, tenta afastar este pensamento, cobra-se, faz uma retrospectiva da sua própria estória, mas não adianta, a angústia é maior ainda.
Para tudo: chora, pede ajuda, mas também esta ajuda não chega, porque os ouvidos já se cansaram dos seus pedidos. Vai continuar pedindo ajuda para si e para os seus; não importa que quem tenha de ajudar esteja momentaneamente surdo, tem fé que a surdez seja passageira.
Não quer mais chorar; levanta-se, muda a roupa, vai para a rua, talvez, quem sabe, algo de novo possa aparecer e uma luz possa se acender. Vai ao mar, mergulha, espera que alguma coisa melhore; que Iemanjá possa levar metade das suas inquietações.
A cachorra está aflita, foguetes pipocam e ela treme, parece ter medo. Tudo enfim é desfavorável
E ela pensa: Será que pode desejar a alguém “Feliz ano novo”?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma proteção bem quente

Como sempre, estava sozinha em casa. Era noite, tudo fechado, ventilador ligado, pernilongos alvoroçados “em cardume” atacavam. Os pés e as pernas eram o foco do ataque, tudo ficava ardendo. De repente, o basculante da cozinha bate, ela toma um susto e levanta para ver o que aconteceu. Nada, o basculante apenas fechou.
Volta para a sala e tenta concentrar-se outra vez.
As muriçocas estão indomáveis, o pé arde, parece que as bichas andam comendo muita pimenta, porque a picada faz arder.
Outra pancada: Agora é a porta que dá para a varanda que bate.
Ela dá um salto do sofá e vai ver o que aconteceu. Não estava ventando, as outras portas estavam fechadas, não havia corrente de ar, portanto, não tinha qualquer explicação para aquelas batidas.
Fica apreensiva: Anda pela casa toda, olha os quartos, suspende as colchas e olha por baixo da cama, abre a despensa, olha tudo, vai até embaixo da escada, olha para a porta que dá acesso ao quarto superior, está trancada, como sempre. Não há vestígio de nada.
- É não há nada, fala para si.
Como já era tarde, umas dez horas da noite, fecha a casa toda, e como sempre apaga as luzes do exterior, deixa apenas a luz de dentro de casa como era de costume.
Senta-se outra vez no sofá e fica ali esperando o sono chegar.
De repente:
- Boa noite!
Ela quase cai do sofá.
Olha para todos os lados, levanta picada, acende a luz da sala. Não há ninguém ali.
Tenta não se impressionar, mas é difícil, ela, com certeza, ouviu uma voz lhe dando boa noite, mas como dizem que ela é doida, então pensa que esta a ficar mesmo “maluca” e tenta não pensar mais nisto, até porque, se ficasse pensando nesta estória não ira dormir tão cedo.
Quer se concentrar no programa da televisão, mas não consegue, resolve então ir para a cama.
Diz em voz alta: Vou fechar a porta do quarto com chave e se dirige ao aposento. Antes de chegar nele, entretanto, vê um vulto passar de um quarto para outro.  Dá um grito, acende todas as luzes possíveis, olha tudo novamente, abre até os guarda roupas. Não há nada.  O sono, a esta altura, foi-se, ela prevê uma longa noite.
Volta para a sala, abre a porta que dá para a varanda:
- Vou deitar na rede e ficar um pouco aqui para ver se o sono chega.
O céu, felizmente está límpido; as nuvens brancas são visíveis e detalhadas, a lua está escondida em uma delas. Da rede ela pode ver perfeitamente a lua se esforçando para sair de detrás das nuvens e mostrar a sua luminosidade.  A estrela Dalva está bem na sua direção, ela olha inebriada para a estrela e faz um pedido.
- Kakakakakakakakakakak! Você ainda pede isto? Não tem vergonha?
 Não havia mais dúvida, tinha alguém ali, estava, novamente recebendo a visita do sacana do “diabo” de fala mansa, de gestos largos, de riso bonito, que se lhe apresentava sempre da maneira que ele sabia que ela gostava de vê-lo. A barba hoje estava por fazer, estava, como sempre, de branco, roupas largas de linho, uma calça larga tipo pantalona bem folgada e uma camisa de mangas largas, muito bem feita. Trazia uma corrente linda no braço direito, além de um anel no dedo anular.
- Cacete: você de novo! Não se cansa de me atazanar a vida não?
- Não, minha querida, você não muda, e eu preciso, de vez em quando, te dar umas cutucadas, você precisa entender que esta viva, que é bonita, que é poderosa, e que pode ser muito feliz, mas para isto você tem de sair desta redoma em que se colocou; esquecer todo o seu passado e fazer uma vida sem a presença de sombras que somente lhe prejudicam.
- Não preciso nem de sua opinião e nem dos seus conselhos, aliás, eu não sei qual a razão de você me eleger para dar de bonzinho: você não presta, portanto, não seja falso, não venha para cá me dar o que você não é capaz.
 - Não é bem assim, você sabe perfeitamente disto. Eu resolvi como já te disse, te ajudar, porque você é tão imbecilmente boa, que todo mundo faz gato e sapato de você, todo mundo, desde os homens que passaram e passam na sua vida, até os amigos e familiares. Quando a gente pensa que você tá se esquecendo deles, eles aparecem se não aparecem se fazem presentes de alguma maneira, trazendo problemas para você resolver. O mês de agosto é fatal para você. Você ainda não notou isto?  Parece que eles reservam este mês para lhe sacanear mais ainda.
- Porra, já que você quer me ajudar mesmo, por que você não elimina o mês de agosto da minha vida? Por que você não elimina as pessoas que mais me incomodam, que você parece saber quem são e por que o fazem.
- Fique em paz mulher, eu não vou permitir que eles se aproximem porque eu não quero eliminá-las agora, poderia fazer isto num passe de mágica: Um carro batendo ali, um assalto acolá com um tiro certeiro; uma intoxicação alimentar fatal, uma bactéria em alguma comida, enfim, tinha muitas maneiras de fazer isto, mas não é assim que você vai resolver os seus problemas, aliás, eles aumentariam, porque do jeito que você é, era capaz de resolver sustentar mais alguém, algum descendente deles. O que você tem de fazer é eliminá-los do seu interior, arrancá-los de uma vez de seu coração, não permitir que eles se aproximem e brinquem com os seus sentimentos como fazem. Não vou deixar que eles planejem a vida deles pensando no que você pode dar, ninguém vai comprar carro financiado por você, porque só você, na família, tem o nome limpo. Até a criança já sabe disto: você bem sabe do que to falando. 
-Falar é fácil, você que se julga o todo poderoso não consegue se livrar de mim, tá a todo o momento entrando na minha estória, como, então, eu, uma pobre mortal, poderia fazer o que me recomenda?
- Assim, exatamente como estou te dizendo.
A cadela se aproxima, está agoniada, fica olhando para uma só direção e late. Ela vê quando ele levanta a mão tentando bater na cachorra, que se retrai um pouco, mas fica rosnando de longe.
- To com sono; vou dormir, amanhã quero acordar cedo, agora que já sei que é você que tá por aqui, fico tranqüila.
- O que? Se você me deixar aqui falando sozinho você não vai gostar.  Não vou te deixar dormir, vou fazer esta casa tremer, baterei todas as portas, vou fazer sapo entrar no quarto, botar muita muriçoca para dentro, vou ficar lhe futucando. É melhor você ouvir o que tenho para te falar.
- Porra, desembucha logo então. Não gosto muito de olhar para você.
- Ah você não gosta não é? Eu bem sei porque: porque eu to aqui da maneira que você gostaria que um homem estivesse, é assim que você queria que ele se apresentasse; pois é, eu me lembrei disto, e da viagem de barco que você fez pelo Douro e me arrumei igual àquele homem que tanto lhe chamou atenção.
- Rapaz, não dá para esconder nada de você não é?
- Não, não dá. Eu estou em todos os lugares, eu vejo tudo, eu sei de tudo.  Sei inclusive que você continua uma idiota mesmo. O cara lhe deu a maior bola e você cheia de dedos porque ele tava com uma mulher, que, para seu governo, era só uma amiga dele. Será que você não percebeu os olhares que aquele homem lhe deu?  Você acha que o cara largaria a mulher lá sentada e ia ficar conversando com você por quê? Porque você é chata? Porque não é interessante? Não minha querida, aquele cidadão, tal qual você, ficou foi bem interessado na sua pessoa. Mas você não ajudou em nada, nem mesmo quando eu fiz com que ele se hospedasse no mesmo hotel em que você e sua amiga estavam? Você acha que foi uma coincidência? Claro que não, aquilo foi meu dedo, eles iam ficar no Porto, mas eu dei um jeito de eles passarem para Vila Nova de Gaia.
- Eu to com sono, me deixa dormir.
- Ainda não: Esta você vai ter de ouvir e perceber o quão você esta se desvalorizando em não querer sair do ponto em que parou há, aproximadamente, 10 anos. Você se lembra que você ouviu um cara, lá na terrinha, lhe dizer: “Não, você é uma mulher toda proporcional, você nunca mais diga que você é gorda ou que esta gorda. Uma pessoa com a sua idade da maneira que você está devia agradecer todos os dias” Tá lembrada disto? Lembra quem falou, pois é, fui eu quem fez o cara falar, até porque se eu não o futucasse ele que é quase mudo, jamais teria coragem de dizer, isto, quanto pior, na companhia daquele....  Você se lembra do dia em que você estava sentada com um rapaz conversando, uma amizade um pouco mais recente e a pessoa lhe disse: “Olhe eu conheço você pouco, mas você é uma pessoa boa, extraordinária. Eu não conheço uma pessoa que tenha conhecido ou estado com você, que tenha restrições à sua pessoa”. Lembra? Obra minha, tudo para que você acredite no seu potencial, seja como mulher, seja como fêmea seja como profissional. Você precisa entender que você é mesmo uma mulher reta da, uma fêmea que precisa de carinho, de atenção. Se aquele.... não quer ver isto, você não pode ficar aí esperando o tempo passar, recebendo apenas migalhas de atenção. Além do mais, eu vou sacanear tanto ainda com esta pessoa, que não quero que você fique por perto, porque se você estiver por perto, eu vou tentar lhe proteger e não vou fazer o que devo, aí, mais uma vez, você vai ser boazinha, a fada madrinha, protetora de quem não merece e eu não quero isto.
- Pronto: Você acabou seu blá, blá, blá. Então agora me deixe dormir, já não to conseguindo ficar de olhos abertos.
- Tá bem, já lhe disse, outra vez, o que queria. Não vou aparecer mais, pelo menos por um bom tempo, vou ficar te seguindo claro, mas não vou mais me materializar. Só te peço uma coisa: Não permita que duas pessoas, sim porque estas duas são de lenhar mesmo, parecem que não te querem ver feliz de maneira alguma, te atrapalhem tanto que você fique depressiva, melancólica, deixe de acreditar em você e no seu potencial. Deixe que eles sigam as suas vidas, sem a sua presença, permita, ao menos, que eles provem um pouquinho do meu veneno, da minha maldade, eles merecem não fique triste ou aborrecida, ou tenha pena do que lhes acontecer.  É assim mesmo que a vida é.  Quanto a você, o seu começo de ano- 1912 vai ser uma maravilha, aproveite, vou fazer você descobrir muitas coisas, inclusive arrumar uma pessoa como esta que você esta vendo agora, isto é o prenúncio do que você vai encontrar a partir de janeiro de 2012, quando você deixará de se preocupar com A.B. ou C, para se preocupar somente com você.
-Ok, espero que você tenha razão e que isto aconteça mesmo. Não sei se te agradeço ou não, mas para quem você é, realmente, fico sensibilizada com a sua preocupação, mas, por favor, quando você reaparecer, não precisa me assustar como hoje, apenas chegue e pronto. Tchau.
Dormiu, sonhou com esgoto e com um porco. Preocupada foi ver o que significava sonhar com estas duas coisas e, para seu espanto: dinheiro, amizade nova, boas perspectivas; ou seja: “o diabo não é tão feio quanto parece”!               

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Aniversário

Hoje, dia 23 de dezembro, dia em que ele completaria 91anos de vida, se esta não lhe tivesse sido tirada há 28 anos atrás. Faleceu aos 63 anos, deixou seis filhos, uma mulher, amigos, netos e muitas estórias.
Passou pela vida sem deixar rastros outros, que não estes, seis filhos, dois netos, uma esposa.
Caso tivesse vivo hoje, aos 91 anos, o que estaria acontecendo? Como seria a vida dele e da sua esposa, hoje viva, e com 83 anos? Ela que na realidade não vive, vegeta sobre uma cadeira de rodas, passando os dias diante de uma televisão ligada, cujas imagens lhe chegam distorcidas, não só pela sua débil visão, como pelo próprio aparelho, dentro do um quarto em um apartamento, que nem sequer lhe dá a chance de ver a rua.
Estaria ele lúcido? Estaria ele andando? Como estaria falando? Será que se lembraria de todos? Dos seus filhos? Reconheceria os netos? Enfim, o que aconteceria se ele estivesse vivo? Como teriam sido estes 28 anos de ausência.
Bom, uma coisa de certeza de teria acontecido: Muitas brigas teriam ocorrido: uma de suas filhas e ele eram mestres nisso. De nada adiantaria os 50 e tantos anos dela, nem a posição que ocupava, nada; entre eles seriam, apenas, pai e filha, desconhecidos um do outro, mas com uma grande certeza, de que eram mesmo, geneticamente, pai e filha; em muitas coisas bem parecidos, na ranhetice, na irreverência, na grosseria, até na frieza em lhe dar com os mais queridos e as brigas, pois, aconteceriam por todos os motivos.
Era hiper orgulhoso, não gostava de pedir nada a ninguém, e nem de depender de ninguém, embora toda a sua vida tenha sido uma dependência só; dependeu de sua esposa durante todo o tempo de sua vida, seja na saúde, seja nos últimos dias da sua vida, quando a vida se afastando tentou lhe mostrar o quanto aquele orgulho todo de nada adiantou. Sua esposa lhe segurou e lhe ajudou em todos os momentos da sua vida; seja nos das decisões erradas, nos das cachaças mal tomadas, nos das fraquezas. O homem bonito que ela conhecera na juventude lhe deu 7 filhos, seis deles chegaram à idade adulta; se lhe deu muito prazer, afinal de contas, ainda que só tenham tido 7 filhos, tiveram muito prazer, pois os seus filhos acostumaram-se aos sons do “amor” nas casas de parede meia em que viviam e quase conviviam com o amor físico de seus pais. Sim, porque eles conviveram com o amor físico, porque com amor espiritual pouco aprenderam com eles, mas, também, por outro lado, lhes fez sofrerem bastante.
Ele era “ibérico”, e se os de lá tinham fama de bons “amantes”´, o mesmo não acontecia com o amor sentimento: pelo menos, no caso deste, foi o que conseguiu demonstrar para os seus filhos.  Não guarda lembrança de ter recebido um afago, um carinho, um gesto sequer que demonstrasse amor de pai, também não o percebeu, em nenhum momento,  em relação aos seus irmãos.  A mãe, por seu lado, tinha a vida muito dura, tinha muitas coisas a fazer, muitas bocas a ajudar, ou então, em alguns momentos, alimentar. Ficou dura também; a convivência, talvez, tenha ajudado bastante neste particular, assimilou a pior faceta do “ibérico” que encontrou.
Enfim, ficaram, ela e os seus irmãos, pessoas pouco, ou quase nada, amorosas. Têm muita dificuldade de demonstrar amor, e nem mesmo a velhice batendo insistentemente à porta, fez com que mudanças acontecessem. São distantes: se choram, choram sozinhos e calados; se clamam, o fazem em surdina.  Vibram com as vitórias uns dos outros, tentam se ajudar quando podem, mas carinho, amor, afeto, isto eles não conseguem dar, porque não receberam, não sabem o que é isto é não se pode dar o que nunca se recebeu.
São lutadores, isto são: o que não teve estrutura para lutar sucumbiu diante de todos. Teve coragem sim para o gesto final, deixando no coração de todos uma grande marca negra, que nunca será apagada. Também este herdou um orgulho inútil, que se não foi demonstrado nos atos praticados, que não dariam motivos a qualquer tipo de orgulho, ficou evidenciado nas omissões, no calar, nas necessidades passadas sem divulgação, e em muitos momentos de sofrimento e solidão, até mesmo fome, não compartilhados, que culminaram com a decisão final.
Os sobreviventes são realmente lutadores, herdaram isto do lado materno. Emocionam-se sim, mas, a emoção é mesmo contida, muitas vezes percebida apenas porque uma lágrima de canto de olho, que driblando um controle sobre humano, insiste em escorrer, ou pelos olhos marejados, mas nada de demonstração física.
Pensa muito mesmo, quer entender isto, por que um casal que se amou, porque, à maneira deles, eles se amaram até o final: passaram juntos por tudo, fome, amantes (ele), grosserias, cachaça (ele), mas estiveram juntos sempre passou esta frieza, esta vergonha de amar para os filhos?  Ela ativa, trabalhando muito, pedindo pelos seus, sacrificando a sua vida e a dos seus próprios filhos, pois, para que ao menos dois deles tivessem uma boa formação, os colocou em colégios internos, onde também pouco, ou nenhum, amor tiveram; foram explorados, até alvo de “amores”, desejos carnais inaceitáveis à época; mas carinho não, e eles endureceram aumentando uma característica atávica. Ele dependente da fortaleza daquela mulher que conseguiu passar por cima de tudo para manter juntos o que a vida se encarregaria de “desjuntar”.
Pois é; os rebentos destas árvores mal plantadas, mal planejadas, mal cuidadas, aí estão: “frios”, incapazes de dizerem do seu amor uns aos outros, envergonhados de sentirem vontade de abraçar uns aos outros sem que exista um motivo forte: uma viagem de ida ou de regresso de algum deles, um natal, um final de ano, um aniversário, nada mais que isto. Todos têm os seus compromissos, todos não podem, todos são muito ocupados com a vida. Alguns dos frutos destes rebentos estão no mesmo caminho, sem que ninguém tome a atitude de mudar tudo isto, bastando, para tanto, apenas demonstrar um pouco mais de amor com gestos de afeto, de carinho, mostrando, fisicamente, o que com um “orgulho ibérico” trazem no coração, mas que querem esconder, a todo custo, para não parecerem fracos.
É aniversariante, onde você estiver,  que você tenha encontrado, ou encontre, alguém que lhe tenha dado, ou dê, um abraço forte: um abraço onde você possa ter tido, ou tenha, a sensação do que deixou de receber das pessoas que podiam tê-lo feito aqui. Se reencarnado estiver, se isto acontece mesmo, procure dar mais afeto a quem estiver próximo de si, para que não erre novamente, e deixe aqui pessoas incapazes de demonstrar amor, como o que tiveram por você e que você não se permitiu receber
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Realmente...

Iam os dois no carro, conversavam sobre a vida, sobre a estória de cada um deles, das novidades, dos amigos, do passado, passado que muito fazia rir e que eles gostavam de comentar.
Sempre foram muito unidos, pobres, moradores de uma favela da periferia, local ainda hoje muito perigoso, conseguiram ali ser criados, mas sair ilesos dos infortúnios que alcançaram muitos dos jovens, inclusive amigos comuns.
Tinham, ambos, muitos amigos: primeiro porque  jogavam bola, segundo porque moravam  naquele bairro onde o melhor era ser amigo de todos. Presenciaram muitas cenas violentas; marido batendo em mulher; bêbados criando confusão; policia matando bandido; batidas policiais em casa de traficantes; briga entre rivais, até mesmo morte, mas nada disto influenciou a vida deles para lo lado ruim..
Foram crescendo e começou a fase das mulheres. Um deles era bem bonito, manso, um riso lindo, muito meloso, agradava a todos, mas gostava mesmo das mulheres de ébano. Teve várias delas; uma com nome estranho,  mas com uma “bunda” que compensava o  palavrão. Outra,cantora de  banda de carnaval, e tantas e tantas outras, a última, era uma professora de “airóbica”, que nada tinha de airóbico, todavia a pele de ébano fazia o que o restante não conseguiria sozinho.
O tempo foi passando, casamento, descasamentos, um deles, entretanto, resistente, continua solteiro, aliás, parece que da turma somente ele é o herói.  Este gosta de mulheres diversas e diferentes, gosta inclusive de gabar-se desta condição de solteiro e de mulherengo, é um grande “el comedor” , sempre com uma nova mulher e uma novidade.
Defeitos muitos, todos eles tinham e têm, mas nada disto fez com que eles se desligassem, até porque a paixão pelo football não permite a desunião; estão sempre juntos, pelo menos três deles, em todos os dias em que o “mengão” joga. Agora  já se fazem acompanhar dos filhos, que, também, já se tornaram tão fanáticos quantos os pais, o timão é parte ativa da vida deles.
Pois é, por continuarem juntos e amigos, um sabe da vida do outro, ouviam e ouvem confidências, faziam confidências, eles se confiavam, e por isso mesmo, nesse dia, dois deles conversavam respeito da vida, do que continuavam fazendo e do que fariam daqui para frente. Um deles, bem safado, apesar de casado, ainda com namoradas, amantes, sei lá o que, fala para o outro:
- “Rapaz, vou tomar uma providência séria na minha vida, não vou mais trair a minha esposa, ela não merece, é uma pessoa boa, cuida de meus filhos, me ama, me ajuda, é uma boa mulher, efetivamente não merece o que faço, e eu vou mudar. Daqui para frente eu  vou comer apenas “garotas de programa”: aquelas  mulheres que você liga, come e pronto, sem qualquer envolvimento e mais nada”.
O amigo, que estava dirigindo não se agüenta, para o carro no acostamento para rir.
-“Como é cara,? Você vai deixar de ter mulheres fixas e só vai sair agora com “vagabundas” para não ter qualquer compromisso! Realmente, esta foi a maior piada que eu ouvi nos últimos tempos. Quer dizer que comendo vagabunda, pagando pela “trepada” você  não vai estar traindo a sua mulher não é?
 E o outro confirma:
- ´” É isto mesmo.  Com estas mulheres a gente não dá telefone, não é incomodado, não corre risco, vai lá faz o serviço e pronto, ela não vai lhe ligar,lhe sacanear, não vai lhe cobrar nada, não vai fazer a outra ficar desconfiada com telefonemas fora de hora, enfim, fico bem na faixa”
O outro continua a rir, não diz mais nada, só não consegue entender aquela resolução,mas quem é ele  para dizer que o “amigo” estava errado?
O tempo passa, eles não se vêm por algum período, mas o “timão” joga e, inevitavelmente, o encontro acontece. O amigo então pergunta:
“ E aí cara, você tá cumprindo o que você me disse? Agora você anda com garotas de programa?”
“Porra velho, não dá não, estas mulheres são muito caras, têm hora marcada, não tem espontaneidade, acho melhor ficar com as minhas deusas de ébano, mais baratas, mais amantes, mais naturais, sem horários, embora com muitas exigências. É melhor, vou continuar a correr os riscos”!!!!!


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma personagem insistente

Acorda, todo dia é a mesma coisa. Está só, mesmo quando acorda ainda sonhando, porque sonha quase todos os dias, o seu sonho em que um personagem é constante. Os enredos variam, do melhor ao pior, do bom ao mal, de lugares lindos a lugares turvos, feios horríveis, de mergulhos em águas claras e de mergulhos em águas tão escuras que não se consegue visualizar nada, mas a personagem tá ali, participando, presenciando. Os sonhos às vezes são tão reais que acorda e continua achando que tudo ainda esta acontecendo.
Todavia, é sempre igual: acorda e quando olha para o lado vê que realmente tudo não passou de um sonho. Fica tentando entender porque sonhar tanto, porque aquela personagem insistente fica lhe tirando as forças quando dorme. Não consegue explicação, acorda cansada, porque às vezes os sonhos lhe fazem correr, lutar, fugir. Já sonhou batendo em gente, apanhando de gente, fugindo de alguém,se afogando, nadando,correndo perigo. Os sonhos são mesmo variados, o que não varia é a personagem principal. Podem aparecer muitos outras nos sonhos, como na realidade aparecem, mas a personagem fixa, presente, insistente, que é ele, ele que já passou pela sua vida, que já lhe deu adeus, que já se foi, mas parece que não fez nada disto de espontânea vontade, continua ali, porque insiste em se fazer presente nas suas noites, como se não bastasse se pegar pensando nela durante o dia.
Todo o dia pergunta-se Por quê? Não encontra resposta, a sua pergunta fica ecoando, mas ninguém lhe explica o motivo de tanto sonho e de uma personagem fixa.
Deu para escrever todos os dias os sonhos, quer mostrar para alguém que entenda e possa lhe dizer o significado deles, como se ela precisasse ter outra explicação que não a que a vida mesmo já lhe proporcionou. Na verdade, quer se enganar, sabe perfeitamente que nada do que sonha é real, e que se sonha é porque a sua vida esta mesmo atribulada, preocupante, tensa. Sabe que em curto prazo não tem solução para quaisquer dos problemas que insistem em se apresentar, ou melhor, não querem se ausentar da sua vida; sempre foi assim: problemas e mais problemas, afetivos, financeiros, de saúde (sua e dos outros) profissionais. Estes miseráveis, que não se vão, não lhe dão trégua, porque mesmo quando o corpo já não agüenta e se recolhe para o descanso necessário, a mente, esta infeliz algoz, continua a sua rotina e permanece na sua atividade de lhe trazer e rememorar problemas, problemas que se confundem nos sonhos, que se às vezes procuram solução para eles, outras vezes complica-os ainda mais, porque as soluções encontradas são drásticas.
Já sonhou morrendo, matando, ferindo, magoando, mas também já sonhou amando, gozando, feliz. Nem os primeiros e nem os segundos se tornaram realidades. Para se matar gente não é preciso sonhar, a gente mata outros em quase todas as horas do dia, aliás, se todos os nossos pensamentos virassem realidade, muitos gente já teria desaparecido para sempre, embora para sempre para ela não exista, porque mesmo matando as pessoas em pensamento, ou se o fizesse mesmo na realidade, eles voltariam nos sonhos, para lhe atormentar, para lhe cobrar coisas, para não deixá-la esquecer dos erros, dos enganos, das derrotas.
Como sempre, acorda cansada, e hoje acordou especialmente cansada, pois sonhou que estava em um deserto sendo perseguida por um bando de pessoas feias e sujas, homens barbudos, com roupas longas, túnicas brancas que se tornaram beges devido à sujeira. As pernas ficavam atoladas na areia e ela via a turba se aproximando mais e mais, falavam coisas que ela não entendia, não era a sua língua. A perseguição continuava e quando todos se aproximam, o que ela não pode evitar porque já não tinha mais forças para correr naquela areia escaldante,  consegue vislumbrar, mesmo atrás do turbante, da barba, da roupa, um rosto familiar; é a sua personagem, que desce do cavalo e vai em sua direção. Ela se recolhe o quanto pode, fica mínima, encolhe-se toda, treme. Olha para aquele olho que ela conhece e não consegue ver nada de bom, o olhar era de raiva, de desprezo, vê a pessoa levantar a perna, pressente a dor que irá sentir, a aflição é tanta que ela acorda suada e gritando.
Um grito que ninguém ouve, porque ela esta só. Chora: um choro que ninguém vê, porque esta só, reza, parece que, também, ninguém ouve as suas orações. Respira fundo, faz exercícios de respiração para se acalmar, para deixar de pensar e procurar explicações para aquele sonho e para a raiva da personagem. Quer esquecer e tentar dormir outra vez. Não consegue dormir, tampouco esquecer.
Pega um livro, vai procurar nas letras a paz que necessita. É sempre assim: os seus amigos sinceros e honestos (ao menos a grande maioria deles) são os livros. Ah os livros! Quanta coisa boa eles podem trazer, quantos ensinamentos, quantas viagens, quantos sonhos, quantas indagações, quantas incertezas. Não dorme mais, o seu dia começa cedo, o seu dia de solidão, de recordações, de desesperanças. Vai ler mais um livro, talvez, quem sabe; uma “idéia de justiça” possa apaziguar a sua mente, possa fazê-la esquecer dos sonhos, destes que tem quando dorme, porque os sonhos de quando acorda, ela não quer esquecer, porque no dia em que ela não mais sonhar, aí sim, comprovadamente os seus dias acabarão, porque o que ainda segura esta mulher sofrida, magoada, são os sonhos que, por possíveis, podem se tornar realidade, o que ela efetivamente quer, o que já provou em algumas oportunidades.
Talvez o único sonho que, dormindo ou acordada, não se torne realidade exatamente o que envolve a personagem, que insiste em não sair da sua vida, continuando com a sua insistente maneira de mostrar-lhe que pode impedir que o seu maior sonho não se realize, porque depende dela, e ela, que é uma personagem que tomou as rédeas do jogo, saiu da sua condição de personagem, criada por ela, para ter vida própria, vida que ela pode comandar sem qualquer interferência de quem quer que seja, nem mesmo a de quem a criou, cultivou, amou, fez crescer, embora insista em não se afastar dela, para lhe demonstrar que, às vezes, como no caso, a criatura engole o criador, mas como não é capaz de saber o próximo passo, fica ali, atazanando o criador para que ele, mesmo sabendo da impossibilidade de tudo, lhe dê força, lhe encoraje para que cada dia mais ele, o criador, fique dependente de sua criatura, que não lhe quer, a não ser como instrumento para manter a sua própria existência, que só se justifica quando promove a infelicidade, seja do criador, seja de qualquer outra pessoa, que se aproxime e queira, ou pretenda, afastar-lhe de qualquer caminho que possa fazer alguém feliz.
Pois é, mais um dia que passará tentando afastar de si sua inconveniente personagem, para que ela não ganhe mais força e lhe faça tanto mal.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ressaca canina

A festa estava preparada, tudo arrumado, cerveja gelada, mesas com toalhas e arranjos no centro, garçons, barman, músicos. Os convidados começam a chegar, procuram mesas que tenham pessoas conhecidas, alguns ficam em pé encostados na parede, os mais jovens, claro, que nesta estratégica posição ficam de olho nas donzelas, que já começam a mostrar as suas qualidades: shorts curtos, blusas soltas bem decotadas nas costas, sandálias altas, quase nem conseguem andar direito, mas fazem charme e andam para lá e para cá, oferecendo a mercadoria. Quase todas mostram o resultado da “malhação” quase diária, pois as pernas musculadas se amostram, os cabelos, invariavelmente lisos e louros, estão sempre soltos e alcançam o meio das costas, virou uma epidemia este tipo. Quase sempre estão fazendo bicos, e enrolam os cabelos uma das mãos, para, um segundo depois, soltá-los. Um leve movimento para os lados para os cabelos caírem e, num gesto teatral, voltarem ao “status quo ante” com uma técnica dos dois dedos colocados em arcos pegando dois lados. O sorriso parece constante, mas tem de ter técnica para sorrir e tirar fotos sorrindo. Não se deve sorrir com a cabeça dura, ela tem de pender para um lado e os dentes tem de aparecer até quase os caninos. 

A voz, ah a voz! Esta sim um padrão “idiota”, um misto de sotaque carioca com uma vontade de não se fazer mesmo entender: um som horrível, mas que, para elas, parece ser sexy. Terrível.


Ela estava só naquela confusão e, por isso mesmo, podia observar tudo isto.  Todos já tinham começado a beber. O som já se fazia ouvir, aliás, impossível disputar com ele alguma conversa com outrem, ele reinava soberano. Para ela aquilo era horrível, mas parece que todos que ali estavam, em sua grande maioria jovens, curtiam o som, pois ficavam se embalançando todo o tempo, embora alguns parecessem que estavam tendo algum espasmo. A variedade ficava por conta do “DJ”- arrocha, funk, tecno, a garantia era mesmo da altura.


Não tivera saída para descartar o convite, era amiga dos pais do aniversariante, fora convidada para o niver, e jamais faria uma desfeita destas, mesmo sabendo tudo o que iria rolar.

Começa a perceber que todos nunca bebem toda a cerveja que está na latinha, ao primeiro sinal de que ela esta esquentando, o que está na lata vai para o chão, ou fica na própria lata em cima da mesa ou nos cantos das paredes, ou ainda em lugares menos adequados, mesmo com a recolha que os garçons fazem a todo o momento e ela pensa: “Estes filhos da mãe não tem pena do dinheiro dos outros, pois se tivessem, ao menos, dividiam a cerveja com outras pessoas, e não jogariam fora a lata quase cheia.” 

De repente observa o cachorro da casa, vê que ele, como é bem manso e lindo, circula pela casa, é mais um convidado da festa. Acompanha o passeio do bicho por entre as pessoas e mesas e nota que ele lambe muito a grama, acha estranho e fica observando.

Mata a charada quando nota um rapaz despejando um resto de cerveja no chão, e vê que o cachorro vai direito para o lugar em que o líquido foi despejado e começa a lamber, vigorosamente, a grama que ficou molhada de cerveja. Acha muito estranho mesmo, mas não faz nada.

A festa decorre tranquilamente, em princípio todos estão muito educados e contidos, afinal a bebida ainda não tinha feito o efeito.

O cachorro grande, lindo, todo branco,(quase albino) continua circulando e lambendo toda a cerveja que cai no chão, o que aconteceu durante toda a festa. Em dado momento ela vê o cachorro andando e cambaleando, não acredita no que vê, o cachorro parecia não conseguir andar em linha reta. De repente vê o animal olhar para cima e para os lados, como se estivesse achando estranho o que ali se passava, ato continuo o cachorro cai e fica deitado sem condição de levantar; quando consegue, dá dois passos cambaleantes e cai de novo. Olha para os olhos do cachorro e vê que eles não estão normais, estão vermelhos.

Fica ali analisando o cachorro e de repente: KKKKKkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk o cachorro ficou bêbado! Nunca vira isto antes, bicho bêbado só no Natal.quando o peru  do jantar natalino é embriagado antes de morrer, isto é: antes de ser assassinado. O peru fica embriagado no último dia de sua vida, parece coisa de realizar o último desejo.

O cachorro ébrio, depois de muito rodar, e muito lamber a grama encharcada de cerveja, visivelmente embriagado, some.

A festa continua, mas tinha hora certa para acabar, o que aconteceria as 10h00min da noite, pois era uma festa em uma casa dentro de um condomínio e tinha começado ao meio dia.

Acabada a festa, todos, bêbados ou não, tem de ir embora. Ela não, ela ficaria para dormir na casa dos amigos, e foi que fez. Como tem hábito de acordar cedo; logo cedo, no dia seguinte, desceu e foi ficar à beira da piscina. De onde estava via o canil do cachorro e vê que ele está lá deitado, largado, “escornado” seria a palavra certa. De repente vê ele levantar-se e  tentar dar uma volta, mas não consegue, parece estar enjoado, bebe água e volta a deitar-se, para, pouco tempo depois, tornar a levantar e sair do canil para vomitar. Isto aconteceu durante todo o dia, pelo menos, até o horário em que ela deixou a casa dos amigos para ir para a sua.

Pela primeira vez na vida ela presenciou um pileque de cachorro e a ressaca fenomenal do animal. Pois é: assim como são os homens, são as criaturas! Se beber demais, vai ter ressaca na certa.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A rosa fossilizada

Abre o livro de  Elikia M´Bokolo – África Negra História e Civilizações, Tomo I. Uma rosa seca, que um dia já foi fresca, linda e vermelha, cai do livro. Olha para aquele fóssil de rosa e procura lembrar-se como ele foi sedimentar-se ali. A mente lhe faz retornar a um tempo em que quem lhe deu a rosa ainda transitava num nível físico, material, podia sentir e fazer alguém sentir, tanto que por sentir, lhe fez sentir o que é a sensação de receber uma rosa de alguém que, para muitos, seria incapaz de um mínimo gesto de carinho.Não que ela nunca tivesse recebidos rosas, já as recebeu até de desconhecidos, mas aquela rosa era muito especial. 
Sim, aquele homem que tinha aparência rude, embora bonito, machão, até mesmo grosseiro, lhe dera uma rosa, sem qualquer motivo especial, apenas lhe dera aquela rosa vermelha comprada a um indiano que, no seu santo ofício, ganha a vida vendendo rosas e dando a oportunidade às pessoas de, através delas, dizerem o que as palavras não permitem, seja por timidez, seja por falta de coragem mesmo, seja no caso, pelo próprio “machismo”, que não aceitaria e nem permitiria que um seu membro ativo tivesse a fraqueza de, numa demonstração de amor e carinho, dar uma rosa a uma mulher. Mulher, para estes digníssimos representantes do machismo universal, é objeto de consumo, utilidade doméstica, que deve servir a todo o momento àquele que lhe paga a casa, comida, e lhe enche de prazer de ser mãe, porque sexo para ela, na verdade, só tem esta finalidade, porque prazer mesmo quem tem de sentir são eles, os “machos”. 
Bom mas não interessa esta estória de “machismo”. O que importa é o gesto, o momento, a emoção de receber aquela rosa, que hoje, fossilizada, encontra-se na pg. 409 do livro citado.
A seiva da rosa manchou as páginas do livro, desde a 393 até 437.  O papel lhe sugou todas as suas forças, filtrou a sua seiva e impregnou-se dela, roubando-lhe todo o frescor, toda a sua beleza, embora não tenha sabido fazer direito, pois não aproveitou para impregnar-se do seu cheiro e nem da sua delicadeza, mas sedimentou a prova da existência de um amor.
            Certamente o papel sugou a vida da rosa para amenizar o assunto que as suas páginas tratavam, possivelmente para amenizar o impacto das palavras ali contidas, pois o texto fala de escravidão, da exploração dos negros, da contribuição destes seres humanos para a economia das grandes potências colonizadoras, que lhes retirava o direito mais primário, o de ser mesmo “um ser humano”.
            Desliga-se do texto, o seu pensamento voa. Sente saudades. Muitas mesmo; lembra das mãos grossas e grandes, mas que sabiam trabalhar o seu corpo, lembra dos afagos no rosto, feitos por quem nunca os tivera feito antes. Um machão como ele não poderia ter uma reação desta, quanto pior, na presença de olhares estranhos.
Lembra de lágrimas escorrendo por aquele rosto lindo, porém duro e marcado pela vida, ao perceber que estava apaixonado de verdade, que aquilo tudo era diferente do que já existira antes, e certamente, do que viria depois, porque depois ele já seria capaz de amar e saber distinguir o que amor por outra pessoa, de toda a vontade carnal.  Sim aquele homem chorava diante de alguém que, incrédula, via no tremor das mãos, nos olhos negros e penetrantes o brilho das lágrimas misturado com o brilho do olhar de quem ama mesmo e que os olhos traidores demonstram.
Sem dúvida um momento mágico, tanto para ele, quanto para ela. Para ela pelo fato de que, após tantos anos, quando já achava que jamais seria capaz de se interessar por alguém ou se tornar objeto do interesse de outrem, tudo acontecera da mais natural maneira do mundo, e ela se pega apaixonada, achando que a felicidade poderia retornar, ser alcançada outra vez, ao lado de um homem.  Ela sabia que poderia alcançar a felicidade de diversas maneiras, e efetivamente teve muitos momentos felizes, suas realizações pessoais lhe traziam muita felicidade mesmo. As superações de tudo, a sua maneira de se colocar diante de alguns problemas, as suas vitórias; realmente ela tinha muitos motivos para ser feliz, mas o que ela queria mesmo era esta felicidade de se saber, como já acontecera antes, amada por um homem. Queria ser afagada, ser protegida, ser querida. Queria tomar um vinho tinto, sentada e conversando com alguém, fosse deitada com a cabeça recostada no peito de alguém, tendo os seus cabelos afagados, o corpo tocado, fosse sentada em uma mesa de algum restaurante, ou mesmo no sofá de casa conversando banalidades, planejando coisas, viagens, uma casa nova, férias na praia, encontrando soluções para problemas, enfim, queria ter uma companhia.  Sim isto era bom e ela queria muito mesmo, para ela isto era um caminho para a felicidade, esta felicidade que se divide com alguém que se ama muito e por quem se sabe amada.
Chegou mesmo muito perto disto, teve a sensação que os seus sonhos se realizariam com aquele homem rude, grosseiro, que não era capaz de grandes gestos afetivos, mas que sabia alisar o seu rosto, os seus cabelos, o seu corpo. Um homem que um dia com as mãos fortemente agarradas ao volante do carro gritou: “Eu te amo Se é isto que eu to sentindo é que é amor, eu te amo.” Sim, ela teve de acreditar, e acreditou tanto que terminou por se apaixonar e por querer viver intensamente uma historia de amor com este homem, uma história que foi interrompida pela vida, que falhou no momento em que ela resolveu se dar mais uma chance de encontrar esta felicidade que andava, e anda, a procura, e que a vida, de todas as maneiras, insistentemente, procura lhe retirar sempre que ela pensa que chegou a hora.
Pois é, como o fóssil da rosa que se encontra na página do livro, sem qualquer seiva, sem mais cheiro, sem vida, ele também já não tem mais vida, não pertence mais ao mundo físico. Ela já não pode sentir o seu calor, o seu cheiro, os seus carinhos; já não pode ouvir a sua voz, nem sentir o seu olhar, que a todo o momento insistia em lhe dizer o que, muitas vezes, as palavras não exprimiram: EU TE AMO. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O escritório móvel

-“Cadê o celular?  Onde larguei? Temos de voltar para casa”.
O marido olhava a sua agonia, a sua aflição procurando na bolsa, que ele chama de “ escritório móvel”,  o celular.
Sorrindo, ironicamente, deixava que ela ficasse cada hora mais aflita: tira maquiagem, tira óculos de grau, tira chaves da casa, tira máquina fotografica, carteira de cédulas, documentos, enfim, o escritório movel  tá todo remexido, mudou-se passou para o banco do carro e nada de celular.
De repente o som do tema de Lara: ela arregala os olhos: O celular tocou! Tá qui, sente o bicho vibrar na sua mão. Se aborrece tanto que desliga o telefone.
Volta-se para o marido:  - “Você é um sacana; estava vendo o tempo todo que o celular estava na minha mão e nem para dizer nada”!
Ele quase sem fala de tanto rir, não diz nada, continua a dirigir o carro,  e a cantarolar o tema de Lara.
Ela está retada, liga para a mãe, diz que  o marido aprontou uma  daquelas e ela tá muito ruim, O marido continua sorrindo, nao diz nada, só não pode é olhar na sua direção, porque a vontade é somente de rir.
Outra ligação, agora quem será?
A filha. Ela diz a mesma coisa: seu pai tá me sacaneando mesmo,  fala alto, está visivelmente transtornada. A filha, do outro lado, pergunta o que aconteceu, é o que ele deduz, porque ela começa a falar que  ele deixou ela tirar tudo da bolsa “escritório móvel”  procurando o celular, caindo de saber que o aparelho estava em sua mãoe que ela não estava percebendo.
A filha do outro lado tem uma acesso de riso, ela se aborrece e desliga o telefone sem se despedir.
O telefone recomeça a tocar, mas ela nem olha, sabe que é a filha que retorna  a ligação.
A menina vendo que ela não ia atender liga para o pai.
- “Pái, o que você fez a mainha”
Ele diz:  - “ Nada, ela tá cada vez pior, não é que queria que eu voltasse para casa para apanhar o celular, que estava na mão dela, ainda bem que voce ligou, porque assim ela percebeu que o aparelho estava na mão.
Os dois se pipocam de rir outra vez.
Ela percebe que eles estão gozando com o acontecido.  Fecha  a cara e fica toda amuada. Pensa: - "Que porra que eu vim fazer aqui hoje, podia ter ficado em casa e nao tomava esta gozação, pior ainda, vou ter que aturar pessoas chatas em casa de desconhecidos, isto não vai terminar bem.”
Chegam na casa de uma pessoa conhecida do seu marido, ela não conhece a mulher que vai recepcioná-la à porta, mas tem uma grande curiosidade de conhecê-la, até porque quem lhe falou muito bem da pessoa foi a sua própria mãe. Todavia o caso do telefone ainda  provoca raiva e ela não consegue disfarçar direito.
Toma um susto, a pessoa é mesmo bem diferente e ela se apressa em dizer:  -  “Eu estava louca para lhe conhecer, sou filha de  Mariana, e ela fala muito bem de você, diz que uma das suas grandes virtudes é a sinceridade”
A anfitriã toma um susto, e ela percebe que os pelos dos braços da mulher  ficam eriçados. A mulher fica visivelmente emocionada com a pronúncia do nome da mãe dela. Decididamente o mundo é muito pequeno, pensa e verbaliza: -  “O babado ali é forte”, ambas sabem, ela e a anfitriã, a causa do comentário.
Fica melhor, a pessoa é simpatica e tem algo em comum; a África. Ambas, embora com objetivos diversos, estudam  aquele continente. Conversa um pouco com as mulheres, parece um clube da Luluzinha, ja não gosta disto, mas fica ali, o papo é  bom. Fala do amigo comum a ambas, e comenta a solidão daquela pessoa, e ouve a dona da casa dizer que  aquilo era uma opção de vida e que o amigo comum  esta levando a vida que sempre quis levar.
O dia vai passando, a comida é boa, variada, ela vai esquecendo a estoria do telefone, mas há alguém que não esquece e, de repente, vê o marido contando a todos o que acontecera.
Sorri, porque contado pelo marido com toda a mise-en-scène, incluindo os ruídos, é mesmo muito engraçado. Todos riem muito da estória e ele percebe, realmente, a sua própria infantilidade em se aborrecer com o acontecido; pensa que tá mesmo muito doida, muito preocupada com alguma coisa, porque não se explica tamanho desligamento. E se o telefone não tivesse tocado? Quando é que ela ia perceber  que o aparelho estava na sua mão? Realmente precisa ter mais concentração, atenção,não pode deixar que  as coisas lhe afetem tanto.
Ri, acha engraçado a estória  contada por quem tanto lhe quer  bem  e que faz com que um fato preocupante  torne-se, apenas, uma grande e interessante piada.
Há uma rede por perto, deita-se nela, deixa que todos se divirtam às suas custas. Dorme, tem esta extrema facilidade de dormir em qualquer lugar,  mesmo com a zoada de pessoas falando  junto a si, mas o tel está, por via das dúvidas, outra vez, na sua mão.  

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um dia histórico

Hoje, 25.10.2011, é um dia histórico na minha vida, acreditem se quiserem, mas é mesmo. Aos 58 anos consegui cortar (modelar) uma calça e, pela primeira vez, também, sentei numa máquina de costura e costurei a lateral da calça.
Ninguém imagina o que é isto para mim: é uma superação de todas as minhas limitações em relação à costura. Não sou chegada a qualquer atividade manual, sempre me julguei uma incompetente neste particular. Sou daquelas que para pregar um botão acho melhor pagar a alguém. Quando estava casada e tinha de fazer isto para o meu marido, o problema estava criado, cheguei mesmo a chorar quando fui solicitada a fazer este trabalho de gigante.  Se a solicitação era feita na hora que o cara tava prestes a sair, a merda tava feita, porque eu acabava espetando o dedo e sujando a camisa de sangue. O homem, às vezes, sorria, mas outras vezes ficava puto, porque ele era, e é daqueles que, mesmo tendo mil e uma camisas disponíveis, resolve que tem de usar aquela determinada. Os nossos filhos são testemunhas disto. Quando eles usavam alguma camisa dele, ele dizia exatamente assim:
“poxa, mas logo hoje que eu ia vestir esta”.
Este jargão virou gozação lá em casa, até hoje eles brincam com esta estória.
Bom, só falei disto para que vocês percebam a minha falta de habilidade para as coisas da costura.
Vocês podem estar perguntando por que decidi agora fazer um curso de corte e costura. Lhes digo: quando a pessoa esta com problemas que não sabe como resolve-los; quando esta diante de uma encruzilhada, em que não sabe a saída e não consegue pensar em nada a não ser no problema, tem de arrumar uma alternativa, uma coisa completamente diferente. Foi o que fiz, decidi que ia desafiar a tesoura e o tecido.
Bom, mas não foi só isto que me levou à aula de corte costura, porque poderia ser qualquer outra coisa, culinária, pintura, etc.,
A escolha recaiu na costura, porque, no espaço onde faço Yoga – Alfazema Cultural - começou um curso de corte e costura. Aqui tenho de fazer um parêntesis para falar dos projetos da Claudia.
Claudia é uma italiana que é casada com um Mestre de Capoeira – Mestre Orelha – aqui em Arembepe. Uma mulher intelectualizada, mística, inteligente, bonita e com muitas habilidades. Um curriculum para lá de invejável, só para lhes dar uma idéia, ela fala quatro idiomas fluentemente: alemão, inglês, italiano e português, acho que deve dar alguma pincelada boa em francês, não estranharia; também não duvido que ela fale outros idiomas, dialetos. Já viajou muito e tem uma bagagem considerável. Vi o seu curriculum e fiquei entusiasmada com o fato dela ser “restauradora”. Já teve obras no Vaticano, salvo engano, inclusive tinha um ateliê montado naquele país. Nestas plagas ela realiza um grande trabalho,particularmente   em Arembepe. O seu centro cultural, que, salvo engano, não tem qualquer ajuda governamental realiza diversos projetos: seja em relação a crianças, seja em relação aos jovens, mulheres de todas as idades, inclusive a terceira, como é o meu caso. Fico entusiasmada com a dinâmica daquela mulher e fico me questionando com uma pessoa  vem parar aqui em Arembepe e consegue, em tão pouco tempo, tantas realizações, integrando  tantos em tantas coisas, ajudando a sociabilizar Arembepe, criando oportunidades, expectativas,  fazendo com que jovens criem gosto pela leitura, viajem com os contos que são contados ao vivo e com participação  de familiares sociabilizando a relação familiar. Enfim, fico entusiasmada e tenho que parabenizá-la por todas as iniciativas.  
Bom, mas voltemos ao curso.
Fui lá e me matriculei: incrédula, evidentemente, porque realmente não tenho qualquer compatibilidade com os trabalhos que dependam das mãos. Olhe que na escola de freiras tinha uma matéria que acho se chamava “prendas do lar”, em que eu tive de aprender a fazer bainhas, bordar, etc. Nada foi avante, e se não fosse a ajuda providencial da minha mãe, talvez ainda estivesse tentando sair da 2ª série de ginásio aos 58 anos.
No dia designado fui e vi as colegas e a professora, uma pessoa que eu já conhecia, mas que não sabia bem se era ela mesmo que daria o curso. Por falar nisto, esta senhora tem mãos divinas, faz cada coisa maravilhosa, vejam o trabalho dela, uma pequena amostra. Uma lutadora. O fato é que cheguei e vi as minhas colegas. Ganhamos um kit, e eu me vi de frente com uma tesoura afiadíssima, um pacote de muitas agulhas e alfinetes, uma tesoura (pequena), isto é; me disseram que aquilo era uma tesoura: até hoje to na dúvida, um lápis que é o 6-B, não esqueçam nunca disso, o lápis para a costura tem de ser este, outro não serve, e uma fita métrica, quanto a esta última, acreditem que é verdade, a minha intimidade não vai além do que tomar as minhas próprias medidas, que sempre acho erradas, pois fico puta quando a cintura esta quase do tamanho do peito e quadril e eu me vejo uma coisa sem forma, ou melhor, com a pior forma que uma mulher pode ter: quadrado! A altura já nem me aborreço mais, porque a fita mostra que to encolhendo, mas enfim isto esta sendo solucionando, a Yoga e o pilates estão me esticando e eu to voltando aos meus 1,67, já confirmados pelo Doutor Lim lá na acupuntura.
Instrumento ali, apresentações e eu achando tudo muito engraçado, realmente não via qualquer futuro naquela estória, mas precisava mesmo de algo para me agarrar, para me deixar de fazer pensar na Justiça Colonial em Moçambique e em todos os problemas que estão vindo me visitar e que, como visitas inconvenientes que são, querem se abancar para sempre na minha casa; estrategicamente, saio dela e abandono-os, ainda que momentaneamente, para que vejam mesmo que não são bem vindos.
Bolsa feita por Eliana
Calça feita por Eliana
Apresentações feitas e lá vamos nós para a coisa prática. Confesso que não entendia nada. A professora pega um molde de uma calça e manda que todos façam este molde. Confesso que não entendia porra nenhuma. Aquilo era mesmo um quebra cabeças. O molde primevo foi o de calça.  A professora explicava dali, daqui, e eu atenta, mas não entendia nada.
- “É muito importante achar o fio do tecido”
E eu olhava ela marcar no molde o fio, sem o tecido.
Porra, como se pode marcar o fio sem o tecido? Não conseguia entender, mas anotei.
“Tem de ter muita atenção ao gancho, as duas partes da calça, frente e fundo, tem de coincidir, não há possibilidade para sobra”.
Era grego, olhava aquilo como se estivessem falando para mim de física quântica.
O molde padrão trazido pela mestra tinha de ser copiado por todas. Eu não fiz o molde, porque não levei papel, e se tivesse levado também não faria, porque realmente não tava entendendo nada.  As outras se esforçavam e tentavam fazer o molde em jornais trazidos pela própria professora.
Achava tudo muito interessante e inusitado. A própria situação, para mim, era mesmo engraçada. Eu me perguntava, mesmo sabendo a resposta: Que porra você tá fazendo aqui? Tu não tá vendo que não vai conseguir nunca? Você não tem jeito para esta coisa mesmo mulher!
Todavia, mesmo com tantas perguntas e respostas prévias, eu não desisti na primeira aula, e fui vendo as pessoas muito felizes fazendo os seus moldes, tirando dúvidas, enfim, estava a ver a participação de pessoas até então desconhecidas que agora estavam ali juntas, rindo umas das outras, integrando-se, comunicando-se: tem mãe e filha, mulher de pastor, pessoas que já sabem costurar, mas precisam de técnica. Fico só olhando tudo, não faço anda.
Na segunda aula, novamente calças, desta vez já levei, entusiasticamente, papel metro branco, régua, borracha, caderno, mais lápis preto, fui toda equipada, pois comprei tudo na Le Biscuit, uma verdadeira profissional da costura.
Sigo para a aula e fico, mais uma vez, só olhando tudo. Vejo a professora fazer o molde de uma calça minha, é porque pedi a ela para fazer uma calça igual a uma que tenho, com um pano maravilhoso que trouxe de Moçambique, e ela usou a calça para mostrar como cortar aquele molde, que não era muito fácil, cheio de detalhes, etc, é a calça que aparece supra na foto..
Vi tudo isto, mas ainda não me familiarizava com as coisas: o tal do fio do tecido me deixava doidinha, aliás, continua me deixando.
- “Você tem de encontrar o fio, é muito importante,” e, mais uma vez, o fio era encontrado no papel.
Porra! Acho que nunca vou acertar este negócio de fio.
Aula acabada, volto para casa com toda aquela parafernália, que nem olho durante a semana, não deu, fiz mais umas 5 páginas do trabalho do doutorado e estava muito preocupada.
Terceira aula: vou decidida, hoje faço um molde de qualquer maneira. A professora traz um novo modelo de calça, e aí eu vou tirar o molde, na verdade não tirei molde nenhum, como tinha emprestado papel a americana, já viu que o meu curso é importante não é, tem americana, têm gaúchas, (a professora é uma delas) tem mestre, enfim, tem gente, vida; ela fez dois, um para ela outro para mim. A aula girou em torno daquilo e, mais uma vez, da minha calça, porque a professora queria saber a opinião de cada uma de nós a respeito do que faria com aquele pano tão cheio de detalhes, acreditem se quiserem: 9 pessoas deram sugestões diversas, fiquei mesmo entusiasmada, porque também tenho outro grande defeito quando se trata de visualizar o que pode ser feito, não consigo mesmo perceber o resultado.
Bom o fato é que trouxe o molde para casa e aí é que vem o “grand final” de hoje:
Estava em casa sozinha no sábado, uma chuva da porra e que faço eu? Pego um tecido que tenho guardado há uns 12 anos, é porque eu sou assim: compro coisas e vou guardando. O tecido dava para fazer um grande e belo vestido, mas eu decido que vou fazer a calça, acho que ele tem balanço suficiente para isto.
Pensem a novela: a mesa da sala é pequena, não dá para o pano ser devidamente estirado, o molde é maior do que o tampo da mesa.  Estico o pano e coloco o molde em cima, vejo que se fizer como pensava da primeira vez vou gastar muito pano, tenho de ver qual a melhor maneira, resolvo que corto um lado de cabeça para cima e o outro para baixo, assim faço (leia-se, um lado para cima e o outro para baixo, começando da perna). Primeiro a prego todo o molde no pano com alfinetes, fico olhando como achar a zorra do tal do fio, não percebo, mas, pela lógica da coisa, penso que é como coloco o pano. O coração está aos pulos, vou meter a tesoura. A miserável esta super amolada, vai pinicando o pano. Vou cortando e pensando, esta merda não vai prestar para nada, mas continuo, corto mais largo tudo, porque penso exatamente que depois levo para o curso e a professora acerta.  Corto primeiro a parte de trás, depois viro; tenho de dizer, que eu é que viro o tecido eu não me atrevo sequer a mexer. Meu braço bate na parede, fico sem jeito, não sei como trabalhar a tesoura naquela direção e naquele espaço, mas enfim, corto a parte de trás das calças, o fundo.
Levanto o pano e vejo que cortei mesmo, incerto bem verdade, mas o pano toma uma forma, dá para ver que aquilo poderá vir a ser uma calça.
Começo então outro processo: tenho de alinhavar tudo e lembro:
- “As pontas têm de coincidir”
Coloco as pontas juntas, estão mais ou menos coincidentes.
- “O gancho, primeiro de tudo olhem os ganchos; tem de estar no lugar certo, juntos, não pode sobrar nada”
Alinho os ganchos: diferença. Porra! Que saco! Penso em desistir.
Não, esta droga não é mais de que eu.
Começo então a fazer o alinhavo pelo gancho, isto é: do gancho para baixo. Primeiro tem que fazer as duas pernas, depois é que junta as duas partes, através do gancho.
O pano sobra, eu sabia que ia acontecer, mas não pensei que era tanto, tento alinhavar, acertar. Consigo.
Ah, agora a hora pior, como é que eu vou juntar estas duas partes?
Começa um exercício de geometria. Eu nunca fui boa nisto. Tem de ser tudo pelo avesso, viro para lá, viro para cá, e, incrível: consigo colocar a zorra certa! Alinhavo tudo e, de repente; não mais que de repente: esta ali, na minha frente, alinhavada, ou não, uma calça.
Confesso que fiquei para lá de feliz, sinceramente, e mais uma vez constatei, que tudo o que a gente quer e se determina a fazer, pode ser feito, a gente consegue mesmo.
 Muito satisfeita, fiquei aguardando o dia de levar a calça para a professora dar a opinião.
Cheguei com o material e disse: surpresa! E botei em cima da mesa a minha obra de arte. 
- “Você fez isto mesmo?”
Porra, ninguém acredita em mim! Mas a professora diz que eu trabalhei direito, que estou de parabéns, que eu consegui montar mesmo a calça.
Fico feliz, mas sei que tem defeitos, e quando ela pega me diz exatamente o que eu já sabia:
- “tem de acertar tudo, os lados não coincidem”.
Expliquei que sabia disto, mas o problema é que como não sabia manusear a tesoura, a maneira que achei de não inutilizar tudo foi cortar maior e depois acertar, ou cortando, ou com a costura.
- “Tudo bem, mas agora você vai ter de costurar e fazer uma costura limpa”
O que? “Eu costurar na máquina”?  Tá doida! Nunca peguei num negócio deste.
- “Não tem mistério nenhum: vamos lá”
Eu e ela nos dirigimos para a máquina
Pense aí! Controlar mão e pé. Porque é mesmo assim: o pano fica ali embaixo daquele dente por onde passam as linhas: linha de baixo e linha de cima e você controla a velocidade da costura no motor com o pé, um perfeito trabalho de coordenação motora.
Digo para mim mesmo: não vou conseguir esta porra, esta fora do meu controle.
Qual o que! Pois não é que consegui, sem alinhamento ou não, costurar as duas partes da calça. Gritei, gritei de novo! Pedi que tirassem fotos porque queria que minha mãe visse isto, ela, com certeza, não iria acreditar, aliás, pelo que conheço do que dizem de mim, ninguém vai acreditar. Minha mãe então, que sabe que a única experiência que tenho com máquina devo a ela mesma, sim porque eu e meu irmão Tininho é que tínhamos de enfiar a agulha de cima, e passar a linha da bobina para cima na velha Singer dela. A máquina de costura da minha mãe era de pedal, e de onde vi sair muitas calçolinhas de algodão branco com ligas nas pernas e cordão na cintura, que eu, por sinal, odiava, mas que tamparam por muito tempo as minhas vergonhas.
Pois é, estou mesmo feliz, e o dia 25 de outubro de 2011 vai ser considerado um dia histórico na minha vida, um marco que vai sempre me lembrar que qualquer pessoa pode superar os seus limites, sejam eles quais forem, pois nada é impossível para quem quer para quem se determina e quer alcançar um objetivo.
Quem sabe meu curriculum vai ser acrescido e vai lá constar uma nova profissão – costureira especializada em pantalonas - tenho certeza que vou agradar!

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma cópula batraquiana

Quando Deus decidiu pelo dilúvio, para que a humanidade perversa desaparecesse, é o que nos traz a Bíblia no livro do Gênese, ordenou a Noé que fizesse uma arca e colocasse nela um casal de cada espécie animal, o que, também segundo a história, foi cumprido; razão porque as espécies foram salvas e capazes de multiplicarem-se e voltarem a povoar a terra. (Gênese,6-9) .Se, obrigatoriamente, a procriação não dependesse de um casal, Deus não se importaria  em mandar Noé, o homem justo que existia na terra, e por isso mesmo escolhido, para  repovoar a terra depois do dilúvio que durou 40 dias: “ Sai da arca com tua mulher e teus filhos e as mulheres de teus filhos; faze sair também o  seres vivos de todas as espécies que estão contigo: aves, quadrúpedes e répteis que rastejam sobre o solo, que se espalhem sobre a terra, sejam fecundos e se multipliquem sobre ela” (Genese, 8)
Bom, vocês podem não estar a entender nada desta introdução, mas daqui para frente saberão porque tive de recorrer a isto para fazer uma  observação a respeito de um acontecimento, que  passaria  totalmente desapercebido e sem importância, se tanta importância não se lhe tivessem dado.
Estava eu em uma reunião em um centro espirita; ouvia uma palestra  cujo tema era: “ Eu não vim trazer a paz, vim para dividir”. A oradora foi explicando o motivo de Jesus ter dito isto, ele que era o homem a quem se poderia atribuir  a esperança, a paz, a harmonia,diz uma frase desta!  Realmente, só  mesmo as pessoas capazes, e eu não sou, poderão entender o significado real desta frase, e porque ela foi dita. A senhora palestrante tentou explicar, confesso que não entendi,  mas como há tanta guerra, tanta infelicidade, tanta disputa entre povos,  cristãos e mulçumanos,  acho até que dá para começar a pensar sobre a frase com um pouco mais de coerência.
Bom, mas não comecei isto para falar, seja de Noé, seja de cristãos, seja de  judeus, seja de Cristo e de sua mensagem, de suas metáforas, de suas parábolas; aliás, eu acho que Jesus Cristo quis mesmo tripudiar de nós: para que porra que ele vem falando em parábolas? Só pode ser para confundir, ou então, achou ele que os seus filhos, por quem ele morreu na cruz, a história também diz isto, seriam todos inteligentes e capazes de entender o que ele, através das alegorias, das metáforas, das parábolas quis dizer. Para que dar trabalho para dizer o que deve ser dito de forma clara, será que ele queria mesmo é que uma classe de intelectos  entendesse a sua fala e a transmitisse da maneira que quizesse, que entendesse, inclusive podendo dizer mentiras em seu nome? Pois é isto que acontece; pois quando  ouvimos as  explicações da palavra de Cristo, chega mesmo a dar medo.  Quando a Igreja, que em principio é a sua maior divulgadora, claro que com interesses monetários, é uma das instituições mais ricas do planeta e não faz a caridade que foi determinada no evangelho: Quando a Igreja, há algum tempo atrás, não muito  longínquo, torturou pessoas, cobrou impostos de pobres, tomou terras de camponeses, enfim, contrariou em todos os momentos o  evangelho, estaria interpretando corretamente as palavras de Deus, o que não acredito, temos que ficar apreensivos.
Odeio ver os gritos dos pastores evangélicos. Isto deveria ser proibido. Deus deve andar surdo, porque  para o pessoal gritar daquela maneira  para ser ouvido, só pode ser este o motivo de tantos gritos 
E o islamismo? Por que  Maomé  exige que todos ainda botem o rabo pra cima  e, de quatro, fiquem em direção à Meca em todos os dias e  em determinados horários? Será que para respeitar o Alcorão, as leis  do profeta, isto é necessário? Como entender que, nos países  em que Maomé é mentor espiritual, ainda se obrigue que as mulheres usem burkas, que não possam dirigir, que não possam votar, dentre tantas outras proibições? Que interpretação é que  estes homens que divulgam a palavra do profeta  dão a estas palavras, que  fazem isto com um ser humano.
Bom, mas não queria mesmo discutir nada disto. É somente um desabafo e para demonstrar que  há muita coisa de falso  nas pessoas que divulgam a palavra de Cristo, que crêem nesta palavra e que se julgam em estado de graça porque estão com Cristo, por Cristo e no Cristo.
Pois é;  ontem eu pensava que estava no Cristo, pois estava atenta ao que a senhora que  fazia a palestra dizia; estava muito  interessada, até porque  ela estava falando de coisas  até bem palpáveis, a exemplo da energia que  Arembepe tem. Segunda ela,  as suas pedras  transmitem uma energia positiva, e eu tenho certeza que isto é real, não necessariamente porque a mulher disse, e sim porque, em muitos  momentos da minha vida, caminhando por esta praia, tomando banho entre os arrecifes, olhando as poças dágua límpida, vendo o colorido dos peixes,  fiquei  com a alma mais confortada, afastei dores, problemas, conversei com Iemanjá, com Deus, deixei que o sol penetrasse  em minha alma, ali, andando, rezando, sentindo os raios entrarem pelos poros e alcançarem a minha alma, despejando toda a energia positiva, que me tirou de muitas situações. Ai de mim se  não fosse assim! Sempre procurei conforto nas coisas da natureza, afinal, é a presença  real de Deus à nossa frente.  Bom,  mas no meio de tudo isto, isto é, da palestra da senhora, do lado da parede  direita de onde eu estava apareceu  uma sombra, que me pareceu um pequeno rato. Tenho pavor a ratos, e já comecei a suspender as minhas pernas, porque caso ele viesse para o meu lado,  eu já não faria o escândalo; que possivelmente faria; se estivesse com os pés no chão e ele passasse por cima deles.
Não era um camundongo: olhando bem, vi que era uma rã, sapo, sei lá o que, um batráquio com certeza. Estava encostado na parede e dava pulinhos pequenos para se locomover. Fiquei olhando, porque também não ia querer que aquele bicho frio e pegajosos  pulasse nas minhas pernas, por isso mesmo, notei que pouco atrás vinha outro batráquio, um pouco menor e seguindo o maior. Fiquei olhando  o que ia acontecer, para que direção eles iam. Aí aconteceu uma coisa interessantissima:  o  pequeno batráquio que vinha atrás, pulou nas costas do que vinha na frente, e ali ficou. Olhei sem entender nada, mas a insistência do que estava em cima me fez entender que ali havia um casal de rãs, e que eles estavam, literalmente, copulando, e que aquilo não tinha nada de espiritual, tudo era bem material. Achei engraçado, e pensei comigo, “trepada batraquiana abençoada”, tudo certo,  o casal de rãs, sapos  sei lá o que, eram espiritualistas, e queriam que  “relação” fosse literalmente abençoada.
Olhei por muito tempo: olhe que eles são resistentes! Imaginem que, grudados, conseguiram subir até um degrau, o cara não se desgrudava da fêmea de maneira alguma. Pena que fui sem óculos, pois de óculos veria melhor aquela cena numa casa de Deus.  Os sacanas  passaram, aproximadamente, uns 10 a 15 minutos nesta sacanagem, até que sumiram, não sei se até agora estão copulando ou não, mas sumiram do meu raio de visão. Ah! para informação, podem passar horas copulando.
Acabada a palestra,  me dirijo a porta para ir embora: como estava chovendo, fiquei à porta esperando que a chuva melhorasse, e perguntei a uma senhora  amiga, que estava junto de mim e com quem tenho muita intimidade:
“ Você viu o casal de sapos trepando”?
Porra, foi um Deus nos acuda: Uma senhora outra que estava junto de nós, e ouviu o comentário, vira-se para minha pessoa e diz:
- Você está num centro!
Eu não entendi nada, e perguntei:  -  Qual o problema? Você não viu que tinha um casal de rãs ou sapos trepando mesmo? Todo mundo viu, ninguém é doido.
- Vi, mas não se pode falar esta expressão  no centro.
Fiquei pasma! Mas me recuperei  rapidamente e questionei:
- Ah, quer dizer que eu tinha de falar que os sapos estavam fazendo amor? E, sacanamente, complementei: eles fazem amor e o ser humano trepa, que coisa engraçada.
Deu para notar que ninguém gostou muito do comentário, mas tive de fazê-lo:  Primeiro porque não vejo onde está o erro de dizer que os sapos estavam trepando; porque realmente estavam; se escolheram a casa do senhor, um centro de oração, certamente queriam ter a relação abençoada, procriar em em nome do senhor e com a sua bênção; segundo, estavam eles fazendo a coisa mais natural do mundo, eu só comentei porque achei inusitado o espaço que escolheram, apenas isto, nada além disto; não vi nada de sujo, porco, temerário naquela situação, para mim apenas engraçada, pelo visto constrangedora para alguns; terceiro, fiquei puta dentro das calças, porque a mulher que não tinha nada com a estória, porque não falei com ela, e sim com a minha velha amiga, se meteu no assunto para me dizer que não se fala “trepar”, no centro.
Resumo:  O que falei de tão violento? O que estava errado naquela cópula inocente?  O erro foi meu ou das pessoas que não sabem encarar com nenhuma naturalidade um ato tão natural que é o da propagação da espécie, aquele que  Deus abençoou no momento em que determinou que Noé  fizesse uma arca e colocasse nela um casal de cada espécie existente na terra.
Fico pensando: que falsa moralidade, e olhe que estas pessoas são espíritas:  dizem, não sei, eu não tenho, talvez não queira nunca ter, que têem contato com espíritos. Dizem, também, que fazem o bem através da caridade, da compaixão, do amor.  Não sei como assim se dizem, quando recriminam, apenas uma palavra que, vulgarmente, indica o ato mais natural do mundo – uma cópula entre um casal de animais-  que somente  escolheram um espaço errado, longe do seu habitat. Coisas espirituais, porque não há outra qualquer explicação, para o ato em quatro paredes, presenciado por muitos. Aquilo deve ter sido uma mensagem que não foi captada. Com certeza não foi, porque se fosse, quando muito a mulher sorriria, e mais nada. Bom o  que eu sei, porque vi , é que os dois sapos, espero que um casal mesmo, - uma fêmea e um macho –  estavam trepando; acasalando, copulando, qualquer palavra que indique a relação que  estavam tendo. Ah isto eu vi sim! Tenho dito.