quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mãe de Cristo


Mãe de Cristo
Acredite: eu fabricava o corpo de Cristo, e não só, também dividia o seu sangue.
Ao menos uma vez por mês eu fabricava Deus. Maria tinha uma grande concorrente, aliás, muito melhor que ela, porque ela foi escolhida e, por obra e graça do Espírito Santo, a pomba gira da Igreja Católica, pariu Cristo uma vez. Eu não; fui escolhida num plano mais terrestre, e por motivos muito diversos, mas com uma finalidade igual, parir o corpo de Cristo, materializar o seu espírito, fazer com que ele entrasse no corpo dos outros por muito tempo e diversas vezes.
Pois é! Vocês podem não acreditar mesmo, mas fui iluminada, aliás, deveria continuar sendo, porque só mesmo uma pessoa iluminada teria o direito de criar Deus e dividir o seu corpo, através de seu filho, Jesus Cristo, para todos os seus outros filhos, e olhe que este senhor é um grande reprodutor, vá ter filho assim na casa da puta que... Assim, pela responsabilidade que me foi dado deveria ser iluminada pelo resto da minha vida.
Estão curiosos não estão? Tenho certeza que querem saber como eu consegui esta proeza! Vou lhes dizer, mas primeiro tenho de contar-lhes a causa da escolha.
A Escolha da minha pessoa não foi por merecimento, sei eu, muito pelo contrário, os que me escolheram para esta missão foram obrigados a fazê-lo. Precisavam me ocupar para que eu os deixasse em paz, desse uma trégua para que eles pudessem passar, ao menos, nos dias em que estivesse fabricando Deus, quietos, sem sobressaltos, sem se preocuparem com o que eu estava a fazer, ou no que estivesse prestes a fazer.
Fui interna durante muito tempo e fazia muitas misérias, gastava toda a minha energia em programar merdas para as outras internas e para as pessoas que estivessem no colégio. Fazia de tudo: sumia para a “roça” da escola, me perdia no mato, colocava todos a me procurar. Mudava os sapatos de todos de debaixo da cama quando eles estavam a dormir. Um dia mudei todos os pertences pessoais das internas dos armários respectivos: Ói que isto deu uma confusão da porra pela manhã quando todas acordaram; batia nas colegas do meu tamanho; escondia merendas; cuspia no prato dos outros, coisas de criança revoltada, diziam eles, de criança normal, penso eu.
Os piores trabalhos da escola me eram determinados a fim de que eu ficasse muito tempo ocupada e não perturbasse ninguém. Consegui angariar o ódio de quase todos, embora este ódio fosse misturado com muito amor, porque tive a graça de ser uma bela criança, uma bela adolescente, uma bela mulher tempos depois. A beleza despertou muito inveja dos colegas, porque todos sabiam que eu era uma “peste”, mas mesmo assim, com todos os defeitos, com todos os desvios de conduta, era assim que eles qualificavam as minhas inocentes peraltices, era escolhida para muitas coisas, inclusive para representar o colégio. È preciso que se diga que por causa das minhas brincadeiras inocentes a minha família foi recomendada a levar-me a um médico de “doidos”, ainda não estava na moda psicólogos ou psicanalistas, eram médicos de maluco mesmo.
Devido a tantas merdas que aprontava, um dia a irmã do Rosário, a responsável pela manutenção da Capela do Colégio, aliás, que ofensa: era uma Igreja que ficava aberta durante 24 horas porque ali, Deus, através do seu filho Jesus Cristo, estava de corpo presente durante todo o tempo, me chamou e me disse que eu ia aprender a fazer uma coisa muito importante para todos do colégio e para toda a diocese da Bahia. Sinta a minha importância, o cão fora escolhido para uma função divina.
Em princípio me colocaram numa sala com algumas maquininhas em cima de algumas mesas, acho que umas três ou quatro máquinas, não me lembro direito, mas a sala era pequenina, toda de azulejo branco, impecavelmente limpa. As máquinas ficavam nas mesas laterais. Em uma mesa central vi algumas tigelas com um líquido transparente dentro, isto depois que tiraram as toalhas que cobriam tais tigelas. As maquininhas pareciam o que hoje são a sanduicheiras, aquelas maquininhas que fazem sandies.
A irmã do Rosário começou a me explicar o que era aquilo. Aquelas máquinas eram utilizadas para a fabricação de “hóstias”. O meu colégio era responsável pelo fornecimento destas hóstias para quase todas as Igrejas de Salvador, não só de “hóstias”, como também do sangue de Cristo, o famigerado vinho que somente os padres tomam durante a celebração da missa, o que acho de uma extrema sacanagem, pois a divisão teria de ser feita com todos os fiéis, afinal todos tem o direito de receber o sangue de Jesus e misturá-lo ao seu próprio para unificação da fé e distribuição do amor que ele representa: Gostaram? Que inspiração Hein!
Pois, fiz os dois trabalhos, o que me tomava semanas de pintanças. Ia para a aula pela manhã, não antes de limpar todo o claustro da escola e, depois do almoço, todos os dias, estava eu lá, ou na sacristia da escola a engarrafar o sangue de Cristo, ou então na salinha branca que ficava junto à sacristia gerando o seu corpo.
Penso que vocês já descobriram o porquê de me auto intitular “fabricante do corpo de Cristo”, é isto mesmo, eu fazia as hóstias, era eu quem colocava aquele líquido transparente, que já me davam pronto, e que parecia mesmo o líquido criador da própria vida, este mesmo que você esta a pensar agora, e colocava uma concha dele na máquina, que tinha um desenho em alto relevo representando duas hóstias grandes e mais quatro pequeninas. A máquina teria de estar com a chapa bem quente e quando o líquido era nela colocado, era fechada e as duas partes se encontravam para que o líquido secasse e, finalmente, depois de um minuto, ou até menos tempo, surgisse o corpo de Deus em dois tamanhos, tamanho grande e pequeno, não se admitia a classe média nesta fabricação.
O corpo de Cristo saia da máquina ainda como uma placa bem fina com os desenhos das “hóstias”, lembrem-se que em todas as hóstias há o desenho da cruz, afinal o corpo de Cristo somente foi dividido com os seus outros irmãos depois de morto, então a cruz era a simbologia da sua morte. Depois disto, as placas muito finas ficavam empilhadas para que, em outro momento, com uma tesoura já devidamente separada e preparada para tal finalidade, fossem recortadas e as hóstias grandes fossem separadas das pequenas.
Depois de separadas e empilhadas por tamanhos, as hóstias eram divididas em embalagens individuais para cada Igreja para onde seguiriam. As hóstias grandes, e vejam a discriminação, serviriam para o padre, naquela hora em que ele mesmo come o corpo de Deus, o fizesse durante a celebração, e as pequenas, olhem bem! eram as que eram dadas ao povo, como se os padres tivessem mais privilégios de que os demais filhos de Deus, talvez os pecados fossem maiores e era necessário que o corpo de Cristo fosse dado a eles em pedaços grandes, como se estes pedaços fossem capazes de recuperar o irrecuperável.
Na minha escola, onde o corpo de Cristo se fazia presente durante todo o dia, nas 24 horas dele, a hóstia grande também ficava em exposição num objeto que eu não me lembro o nome, aliás, não faço nenhuma questão de lembrar, porque este objeto, que era dourado e tinha vários raios como se fosse um sol, tinha de ser limpo com “kaol”, todas as semanas, por esta que vos fala agora. Trabalho de filha da puta mesmo, que me levava, também, uma tarde inteira.
Viu que sou mesmo iluminada! Fui compulsoriamente escolhida para parir Jesus Cristo. Por ser Cristo, eu tinha gestações mensais: a todo o mês paria milhares de Cristo e compartilhava-os com outros que nunca souberam quem era a responsável por tamanha grandeza. Não só paria Cristo, mas também, logo após a parição, eu dividia o seu sangue com todos, pois ao engarrafar o vinho, estava eu distribuindo o sangue do “meu filho” para tornar melhores as pessoas.
Não sei se consegui melhorar ninguém, mas sei que aprendi a beber, porque o sangue de Cristo também tinha de entrar em mim, e eu não deixava por menos, afinal era o sangue do meu filho, conseqüentemente meu, que tinha de voltar a sua origem, e a única maneira era esta, sorvendo-o. O corpo, para que fosse dividido com mais e mais adeptos, não era comido por mim na sua forma final, consolava-me, eu e as demais internas, com os “retalhos” da hóstia, que, como não tinham sabor de nada, nos eram dados como merenda junto com um pedaço de rapadura. Ainda bem que corpo de Cristo não tinha gosto algum, pois se sem gosto já é tão dividido, imaginem se desse um bom caldo.
Tá vendo que é verdade mesmo, eu gerei Cristo por muito tempo e dividi com todos esta benção, que foi a de ser escolhida, compulsoriamente, para gerá-lo e dividi-lo com vocês, pobres mortais.