sexta-feira, 30 de abril de 2010

Parlatório

Parlatório,
Nome mais filha da puta para um local de encontros familiares. A distância já se estabelecia desde ali. Pois é: No internato, em todos por onde passei, os locais de visita, onde os filhos encontravam-se com os pais, quando tinham esta oportunidade, porque haviam alguns que não viam quaisquer parentes anos após anos e anos, tinham este nome horroso.
O encontro tinha de ser como sugeria o “parlatório”,- “grade por onde as pessoas recolhidas ou enclausuradas falam as quem as visitam”(Dicionário de Língua Portuguesa 5ª.ed. Editora Porto,s.d) com todas as reticências que uma educação “esmerada” permitia. Nada de excessos, choros! Para que? Então você estava tendo a oportunidade de ver a família e ia perder tempo chorando? Que absurdo! Estariam as freiras lhe maltratando, porque somente um mau tratamento por parte das educadores justificaria queixas ou choros perante a família, que fazia o sacrifício de visitar-lhe no colégio e era assim recepcionada, com choros e queixas! Inadmissível.
Sim, era mesmo um transtorno: pessoas tão ocupadas, como eram os seus pais, que viajaram horas a fio, saíram dos seus afazeres para visitar-lhe, serem recebidas com choro! Pior que isto, era o que estava por vir após a visita: Por que o choro? O que você queria que os seus pensassem? Por que a sua insatisfação? Afinal todos ali estavam te dando “amor”, uns mais que outros, eu que o diga, porque tem muita gente que quer dar amor em um internato só de mulheres, desde as “irmãs”, que já são mesmo de caridade, e tem a missão de “dar amor”, qual seja a forma que se exteriorize, até as “colegas”, que quando resolviam amar mais umas de que outra, deixando a igualdade benfazeja, a coisa descambava. Os castigos eram certos e, muitas vezes, o afastamento do convívio sadio era necessário.
Pois assim era o “parlatório”; um lugar que, de início, ficava fechado por quase todo o tempo. As visitas eram permitidas somente aos domingos, com hora pré-estabelecida. Uma visita não programada somente em caso de vida ou morte, mais morte de que vida, é claro! Aliás, uma visitação fora do domingo já era prenúncio de “merda”.
Nos colégios em que estudei o “parlatório” ficava sempre ao lado da portaria, logo na entrada do convento. Em verdade, uma posição para lá de estratégica, os visitantes não precisavam saber o que se passava no interior do convento, que, naturalmente, guardava os seus segredos. Não se podia admitir que pais e familiares presenciassem cenas que podiam desgastar a imagem das bondosas irmãs de caridade, educadoras de “elite”, pessoas de formação que sabiam falar francês fluentemente, como se esta língua fosse apropriada para o desamor, quando sabemos que ela, até bem pouco tempo, era a “do amor”, carnal ou não, mas do amor.
Em alguns conventos chegava-se ao pedantismo de chamar as irmãs de “ma souer”, acho que é assim que se escreve, irmã em francês. Uma massada!
Eu, especialmente, não ia ao “parlatório”, quase ninguém ia me visitar. Pais pobres morando no interior não podiam vim a Salvador para me ver, tampouco eu teria tempo de estar com eles nesse ambiente, porque ele não era adequado a “pobres”.
As visitas tinham tempo determinado e a quantidade de gente que poderia estar no “parlatório” de uma só vez era limitada, afinal, para que tantas pessoas vendo somente uma, não era necessário. Tínhamos de aprender a viver e estar sempre sozinhas, isto é, sem os nossos familiares, eles nos faziam fracas, tínhamos de ser fortes, estávamos sendo educadas para isto. Mulheres com alguma missão, algumas chegariam a professoras, para ensinar nada a ninguém, porque muitas filhas de fazendeiros só estavam ali para que os pais, na hora do “dote” pudessem especular mais um pouco, dote ao contrário, claro! porque a educação de uma filha em um colégio de nome em Salvador já era meio caminho andado para um “bom casamento”, isto para quem nasceu rico, porque pobres, como era o meu caso, por mais que a educação fosse benéfica, e foi! não serviria para um bom casamento, quando muito, um bom concurso público para professora primária, já estava de bom tamanho, aliás, tenho que reconhecer que estudar em alguns colégios de freiras em Salvador era mesmo, tempos atrás, embora isto não tivesse acontecido comigo, uma porta aberta. Primeiro, porque você terminava por conhecer muita gente, filhas de pessoas influentes, seja na vida política, seja na vida financeira do Estado da Bahia. Eu conheci várias. Quando estive interna, o cacau estava no seu auge no sul da Bahia. Todas as filhas dos grandes fazendeiros de Ilhéus, Ipiaú, Itabuna, e tantas outras “Ita” estudavam em colégios de freiras. Já vi governadores na Bahia parentes de colegas minhas, não só governadores, como Juízes, deputados, senadores, a nata do cacau sempre soube se impor. Só não o conseguiram em relação ao “parlatório”, ali precisava-se de ordem mesmo, mas regras sempre comportam exceções e o “parlatório” deixava-se ouvir. Segundo porque a formação era mesmo boa, quem não tinha a felicidade de nascer rica podia ter ilusões ao deixar um colégio de primeira linha com um diploma de “professora” na mão. O magistério parecia ser a profissão ideal para as internas, não me lembro de outro curso profissionalizante que não fosse esse em colégios de freiras.
O fato é que o parlatório era uma coisa antidemocrática, ali nada era igual, desde o amor que precisava ser contido, choros engolidos, abraços retidos, até as palavras que eram ditas. Tudo no “parlatório” era vigiado, as irmãs estavam atentas a tudo. Se presentes chegavam, tinham de ser examinados, afinal, nada poderia adentrar ao colégio sem que se soubesse o que era e a que veio. Se trouxessem comida, que merda! Não se podia comer a guloseima predileta sozinha, aquele era um lugar onde não se podia ter nada, a não ser a roupa do corpo, que não fizesse parte da coletividade, era melhor não se levar nada, porque a raiva era pior. Até porque, ainda que houvesse um lugar especial para isto ser guardado, a pessoa não teria acesso ao tempo e a hora, tudo ficava a critério das bondosas e caridosas irmãs, que muitas vezes eram quem saboreavam as iguarias.
Pense que tinha internas que eram noivas, estavam já comprometidas, mas só viam os seus pretendentes no “parlatório” sob os olhares atenciosos das irmãs. Não se tinha direito a qualquer afago, o mais inocente possível. Parlar, somente coisas rotineiras, tenho quase certeza que ninguém nunca fez uma declaração de amor a outrem naquele lugar. Gostava de saber o que foi feito destes casamentos que começaram ali, se é que eles chegaram a existir. Eu não queria nenhum desses.
Usei muito pouco o “parlatório” por razões obvias e completamente pessoais, mas adentrei muitas vezes nele, porque como era eu a “bell boy or girl” do colégio tinha de anunciar as visitas, não antes de abri-lo e acomodar os visitantes lá dentro. Como anunciava as visitas, eu tinha que saber quem era a família que ali estava para poder localizar a visitanda. Não sei se isto era bom ou ruim, à época, até que gostava, via pessoas diferentes, podia até mesmo, contrariando regras, passar um bilhete com queixas para os familiares das internas, isto quando as “ma soeur” me davam alguma chance.
Pois é, com “parlatório” ou não, com visitas ou não, consegui chegar até aqui e agora, sem “parlatórios”, parlo com vocês democraticamente e aceitando as eventuais criticas.