segunda-feira, 5 de abril de 2010

Que triste constatação!

Quando resolvi fazer o Mestrado em História da África, fiquei muito surpresa com as perguntas das pessoas, sejam aquelas que me foram feitas no Brasil, sejam as que me foram feitas aqui em Portugal.

Os questionamentos partiam de pessoas dos mais diversos graus de conhecimento. Desde colegas do curso de Licenciatura em História, de colegas de profissão (Juízes e advogados), estudantes de diversos níveis de escolaridade, profissionais liberais, enfim, muitas observações de uma diversidade imensa de questionadores.

Alguns, os mais letrados, dentre estes até mesmo o meu companheiro, (advogados, juízes, conselheiros de tribunais, ainda há no Brasil e igualmente em Portugal tal cargo, cujos membros gozam das mesmas prerrogativas dos juízes togados, membros do poder Judiciário), perguntavam-me para que eu queria saber dos africanos, jocosamente falando dos negros como se, ainda, estivéssemos em pleno século XVIII, quando os “pretos” eram tratados como seres inferiores, parentes mais próximos dos homens depois do macaco. Cansei de ouvir críticas a minha opção de estudar a África. Alguns chegaram a perguntar se eu queria saber como os africanos aprenderam a comer banana, ou como eles faziam para ficar com as palmas das mãos brancas e dentes, quando se os tem, também brancos, aliás, uma das características dos negros que conheço, e que são muitos, que vivem na Bahia, em especial, e no Brasil em geral.

Uns, menos agressivos, inquiriam-me sobre quais as vantagens que teria em saber coisas da África. Isto me daria algum retorno financeiro? Sim, porque a grande maioria das pessoas só faz algo se tiver algum retorno, ainda que ele não seja financeiro, mas alguma contra prestação deve haver a um comportamento dirigido a algo ou a outrem; é a história do dou para receber, como se esta máxima pudesse ser aplicada ao conhecimento cientifico, embora saiba eu hoje, que mesmo neste campo, em que dependemos de muitas pessoas nos arquivos, nas bibliotecas, nos museus, enfim, nos locais onde procuramos nossas fontes, o dar para receber é de uma importância brutal, tanto que uma pessoa que tenha poucos recursos, seja monetário, seja os relacionados com a aparência, quero dizer, o estar bem vestido, o ser bonito ou feio, o ser branco ou preto, até mesmo o ser europeu ou não, pode não receber tanto quanto outros, e já começo, realmente e, lamentavelmente, a entrar no assunto que me levou a escrever, a boa aparência, que ainda hoje está ligada ao cromo, à cor. Lembremos que todas as cópias que tiramos custam, nas faculdades, através das maquinetas que fornecem cartões e alimentam os nossos sonhos de investigadores, no meu caso completamente patrocinada pelos meus parcos recursos de uma aposentada brasileira, 0,10 e em outros arquivos, a exemplo da Biblioteca da Assembléia da República, 0,15 (quinze centavos de euro).

Os meus sobrinhos, cujas idades variam de 2 aos 24 anos, faziam-me as mais disparatadas questões, embora todos estudantes, alguns já com diplomas universitários, com a ignorância assustadora que nós brasileiros temos das coisas da África.Aliás, agora estamos tentando, através de uma legislação que, oxalá, seja efetivamente eficaz, quero dizer aplicada mesmo, que todos os currículos escolares tenham, como disciplina obrigatória, História da África, um resgate tardio, mas de louvável iniciativa. Um deles perguntou-me o que eu queria saber da África? Qual o meu interesse em aprender coisas sobre negros? Por que eu tinha de ir a Portugal para fazer este tipo de estudo, se na Bahia o que menos falta é negro. Continuando, disse-me ele, que se eu quisesse poderia, caso saísse viva e ainda na posse do meu computador, livros, cadernos, enfim, toda a parafernália que temos de utilizar nos nossos estudos, ele poderia ir comigo ao Curuzu, ou em qualquer outro bairro de periferia de Salvador, e analisar o comportamento dos negros, dizia ele que não sabia bem para que, porque negro é negro, se não suja na entrada o faz na saída, em qualquer lugar do mundo.

Em Lisboa, logo que cheguei, as perguntas eram variadas. Por que eu vim fazer o mestrado aqui em Lisboa, quando poderia fazê-lo no Brasil, com tantos negros? Como se o estudo da África só se refira a negros, trafico e escravidão, como se neste continente não existissem brancos e tantas outras coisas a estudar: cultura, etnicidade, nacionalidade, tradição, usos e costumes, geografia, etc. etc. etc. Outros perguntavam-me o que eu lucrava com este estudo sobre os “pretos”, palavra que me soa muito pior de que o ‘’negro” utilizada no Brasil para identificar as pessoas de cor não branca, e que derrama sobre mim uma série de preconceitos e pré conceitos vivos, atuais, jocosos, raciais.

Um português da Covilhã (região portuguesa) me disse que se eu queria estudar os “pretos” poderia eu ficar no Rossio, (praça localizada na baixa de Lisboa), no final da tarde, onde teria uma verdadeira África e não precisaria estudar tanto e nem ir ter à África, como gostaria e efetivamente irei, embora alertando-me para o fato de que talvez não saísse dali com a minha carteira de cédulas.

Em um círculo um pouco mais fino, quero dizer, um pouco mais educado, é assim que os portugueses de uma classe média, como eles se acham, formada por técnicos especializados, que têm de ir ao Algarve no verão para manterem o “statuo quo” de civilizados e pertencentes a uma elite que eles pensam existir, disseram-me, após algumas argumentações a respeito de uma pessoa como eu, Juíza do Trabalho no Brasil, estar a estudar à altura, isto já fazendo uma alusão à minha própria idade e à minha completa, para alguns, formação, que seria eu, mais uma, a falar mal dos portugueses. O engraçado, desta colocação é que partiu de uma pessoa nascida em Moçambique, embora portuguesa, filho de portugueses que estavam fora de Portugal a serviço da Pátria, nas tropas que lutavam para que o território africano não fosse perdido, antes de 1974.
Que noções têm todas estas pessoas a que me referi sobre o que é a África? Quem são os culpados de tanta ignorância em relação a este Continente que para alguns resume-se ao Egito, Marrocos, Rio Nilo, escravidão, e para outros, como uma portuguesa que conheço e que trabalha em um grande grupo franco-espanhol aqui instalado, (Portugal) que se orgulha de ter tirado o décimo segundo ano e de, na pratica, ser melhor de que muitos que freqüentam as universidades, do que, em relação algumas pessoas, não tenha a menor dúvida, que a África não é onde fica o Egito, que este país ficava na Ásia, até o dia da nossa conversa? E como entender que tentar reproduzir os acontecimentos históricos através das fontes existentes, aproximar-se o mais possível do real, é falar mal seja lá de quem for.

É assustadora a ignorância de muitos sobre a África e da sua importância, seja para portugueses, seja para brasileiros, seja para os próprios africanos.

Não desisti do Mestrado, já obtive o grau de Mestre, hoje, conheço um pouco mais da África lusófona, conhecimento insuficiente, bem sei, mas que já me permite, identificar a África lusófona como ela deve ser identificada: Angola, São Thomé, Cabo Verde, Moçambique, Guiné Bissau e não só esta, como também um pouco da que foi colonizada por franceses, ingleses, belgas, espanhóis, alemães. Conhecimento que me permite, hoje, entender porque, em Moçambique o Governo volta a utilizar as autoridades tradicionais (gentílicas) como um elo de ligação entre ele, Estado, e o povo, valorizando a cultura tradicional, que nenhum colonizador, e nem a política pós colonial conseguiu apagar ou afastar.

Isto é real, não é uma ficção, e só demonstra a necessidade de uma revisão do ensino da África no Brasil e no mundo, colocando-a no seu devido lugar: Plagiando um compositor brasileiro, (Chico Cesar) no lugar em que sempre esteve o do de “Mama África”.