sexta-feira, 16 de abril de 2010

Professora de beijo

Creia que é verdade. No internato onde esteve por alguns anos, três no mínimo, tinha muitas tarefas, aliás, como não podia estar sem fazer nada, tudo quanto era trabalho miserável, ela era a encarregada; limpar o claustro, fazer hóstias, engarrafar vinho, limpar uma zorra dourada onde ficava a hóstia grande, dentre outras atividades enfadonhas.
Tinha apenas sete a oito anos quando foi interna pela primeira vez. O Colégio ficava no centro da cidade onde hoje existe um viaduto que liga a Rua Direita da Piedade ao Politeama. Ali, exatamente onde está agora viaduto, era o claustro da escola, um claustro feio, escuro, que ligava uma ala do convento à outra.

Do lado esquerdo do claustro, logo após a escada, ficavam os banheiros. Não deveria gostar de tomar banho hoje, porque aqueles banheiros realmente não davam nenhuma vontade de ser higiênica. Uma torneira pregada ao teto, dois batentes encostados na parede de fundo, que serviam para as mais pequenas alcançarem a torneira. Tomou muitos banhos apenas com os pés. A água fria, o banheiro com limo e escuro dava-lhe pânico. Ela colocava os pés na água, primeiro um, depois o outro, e ficava deixando a água cair e mais nada.
Logo depois dos banheiros, lembra que tinha o dispensário, local onde eram guardados os mantimentos do colégio e mais algumas coisas que não lembra mais, já se vão muitos anos e algumas lembranças foram mesmo apagadas.
Seguindo o claustro havia algumas arcadas com varandinhas de ferro que davam para um pátio onde tinha um jardim, dali é que atendiam o sino que era tocado do andar de cima, quando alguma freira queria falar com alguém no andar debaixo. Logo após este pátio, ainda no claustro, o dormitório. Nome mais filho da puta para um local onde se dorme. Muitas e muitas camas, muitos armários e um painel com uma porção de gavetinhas pequenas, local onde s internas colocavam as escovas de dente, pastas, sabonetes, produtos de higiene. Este painel ficava do lado esquerdo e, do outro lado, no direito, uma pequena divisão de compensado, acha ela, que era onde a freira que tomava conta do “dormitório” dormia. Preservava-se a sua intimidade com o Cristo.
Logo depois da entrada do dormitório que ficava no segundo andar; somente a entrada é que era para o claustro, ficava uma porta imensa, que era fechada a noite, e separava este grande claustro de um pátio que ficava parte embaixo do dormitório. A parte aberta, com uma fonte e jardins, era um lugar menos árido naquele mórbido espaço.
Era ali, naquele pátio, que faziam o recreio, tanto o diurno, quanto o noturno. O diurno era feito logo após o almoço, antes da execução das tarefas da escola e as obrigações com a limpeza do colégio e, muitas vezes, da alma.
Nos finais de semana, após a missa e cumprimento de todas as tarefas, que não tinham feriado, todas as internas ficavam a maior parte do dia ali. Como as freiras, nestes horários, estavam ou rezando, ou nos seus afazeres, colocavam as meninas mais velhas para tomar conta das menores. É aí que entra a professora de beijo. Ela era “das maiores”. Chamava-se Marcela. Não era feia e nem bonita, uma mulher olhável, pensa ela hoje. Marcela, como todas as outras, tinha muitas internas, ela não lembra o número, mas sabe que não eram poucas, vestiam uma espécie de robe de anarruga (aquele pano de algodão com quadrinhos pequeninos azuis ou verdes e brancos), o robe era solto e o delineamento do corpo era feito apenas com um cinto. Quem era bonita ficava bonita de qualquer jeito, mas quem era feia e gorda ficava, decididamente, um saco amarrado na cintura com aquela coisa.
Sempre foi bonita, portanto, não estava enquadrada na segunda hipótese.
Marcela tinha lá os seus 24, 25 anos. Era meio loura, tinha uma tendência a ser sarará, mas ela vai ser benevolente e dizer que, possivelmente era loura. O cabelo estava sempre de rabo de cavalo, devia ser para se impor, para se dar ao respeito. Gozava da confiança das irmãs.
Normalmente, nos dias de domingo, quando as irmãs se recolhiam para os seus afazeres, ficavam ali no pátio sem grande fiscalização, a não ser esta, a da Marcela. Aí a sessão tinha início. Começava com a Marcela falando de como eram os rapazes: ficavam todas atentas à descrição da roupa, do cabelo, da beleza dos que ela conhecia, outras coisas mais picantes eram ditas, ficavam extasiadas diante do discurso e do conhecimento de causa da Marcela. A conversa mudava de tom com a aproximação de uma outra mais velha,ou de alguma irmã. Todas sabiam da proibição do tema daquelas conversas.
A descrição saia do plano das palavras para o da ação. Marcela escolhia alguém, uma das alunas, a mais bonitinha claro, e aí aplicava o golpe. Pedia que a pessoa lhe beijasse a boca, enfiasse a língua na sua boca, assim como ela ia fazer com ela. Pois é, aula mais de que prática, muitas delas participaram destas aulas. Enfiava-se a língua na boca de Marcela que, prazerosamente, chupava a língua da pessoa. Ela ficava olhando, sentia nojo daquilo, nojo e medo, achava que ela podia morder a sua língua, por isso nunca a deu para ela. Por causa disto, por não ter querido ser aprendiz, por não querer participar deste processo de aprendizagem, pegou muitos castigos. Tudo o que acontecia no plantão da Marcela, porque a filha da puta também tomava conta do dormitório, enquanto a irmã responsável estava dando as aulas noturnas, era culpa da “Preciosa”.
A “Preciosa” tomou muitos, mas muitos castigos mesmo, mas o seu primeiro beijo não lhe foi dado por uma mulher, e quando aconteceu, o próprio corpo e o amor souberam utilizar os sentidos e os órgãos envolvidos, todos eles, de cima abaixo, sem quaisquer aulas, sem aprendizado algum, apenas os sentidos funcionaram, e como funcionaram!
Não sabe o que aconteceu com a professora de beijo, espera que nunca ninguém a tenha dedurado na escola, ela não o fez, mas não lembra se algo lhe aconteceu. Sabe que saiu ilesa, a sua língua não foi sugada e nem mordida pela beijoqueira do internato.
Em março de 2010