segunda-feira, 26 de abril de 2010

Voltei para Lisboa


Voltei para Lisboa

Podem até estranhar a preposição, mas é ela mesma que tem de ser usada, porque eu não posso dizer que voltei a Lisboa, porque iria parecer que era passado, ou que vim de passagem. Não é assim: eu voltei mesmo para Lisboa e ela estava aqui, de braços abertos a me esperar.
Os braços abertos de Lisboa já me esperavam no aeroporto, porque já me apresentaram uma ala nova, num aeroporto que deixei ha oito meses e que agora se me apresenta todo bonito, todo grande e ainda com muitas obras a concluir.
Quando sai do desembarque me deparei com braços amigos, dois deles, abertos, afetuosos saudosos. Sentei-me numa das esplanadas e tomei um porto, nenhum cansaço da viagem, que me fez inchar os pés me tiraria este prazer.
Segui para casa de taxi e braços mais abertos me aguardavam. Tenho certeza que muitas pessoas gostam e sentem falta de mim, mas a Vera bate em todas elas. Você sente no gesto, no olhar, na fala a sua afeição pela minha pessoa; e só pode mesmo gostar, porque da maneira que sou, nada afetuosa com as pessoas, somente quem gosta muito de mim é que me quer por perto.
Almoçamos juntas, claro que comi bacalhau a Lagareiro. Voltamos para casa, arrumei algumas coisas, conversei um pouco e fui, literalmente, ver o Tejo. O fascínio que este rio exerce em mim é mesmo inacreditável.
Para que o meu encontro com ele fosse mais emocionante, decidi sair do Rossio até a Praça do Comércio andando: queria rever Lisboa, a Baixa e desembocar no Tejo, e foi o que fiz, Quando cheguei ao Arco que dá para a Rua Augusta, ele já tava lá todo garboso se oferecendo a mim. Fui me aproximando vagarosamente, sorvendo cada momento, cada passo. Ele ia crescendo e, mais e mais, se amostrando e se mostrando. A cor da água mostrava-me a sua felicidade em me ver retornar. O Tejo sorria para mim, sei disso!
Infelizmente tive de dar-lhe as costas, porque queria ver Lisboa, pois da Praça do Comércio, olhando-se para cima você consegue ver muitas coisas belas. A menina é mesmo caprichosa e má quando se oferece aos seus visitantes, pois se mostra bela, mas não toda, é preciso ter calma para tê-la toda em seu esplendor. Não se pode ter pressa em Lisboa, e ela abusa disto, pois quer prorrogar tanto o prazer, que termina por ser má para os mais afoitos, que pensam que podem conhecê-la em um só dia, em uma só tarde.
A bota doía no meu pé, mas ainda assim arrisquei uma andada pelo Cais Sodré e descobri uma coisa maravilhosa, tiraram os tapumes que estavam a encobrir o Tejo em um determinado trecho, bem defronte da estação de comboios, que, também, está linda.
Voltei para a Praça do Comércio pela parte de dentro, na rua onde passam os elétricos e cheguei, outra vez, à Rua Augusta. Perambulei pelas ruas, Rossio, Praça da Figueira, Martim Moniz, queria mesmo ter a certeza da volta, e cá estou de verdade, matando as saudades e com a certeza de que, um dia, não mais sairei de Lisboa, estou cá e cá fico. Vou deixar que outrem sinta saudades, não mais eu, que pareço ter encontrado o que quero, aonde quero e, o mais importante, sabendo o por que deste querer.

Em 22 de abril de 2010