domingo, 18 de abril de 2010

Serviço de alto falante

Ficava ansiosa; quando a tarde ia chegando já se preparava. Tomava banho, vestia um a roupinha fresca e ficava aguardando.
De repente um barulho! sim porque aquilo era um barulho, não era um som. Uma voz fanhosa começava, entre ruídos estranhos a falar: “bõa tarde senhoras e senhores ~~ desta bela cidade de Camaçari, estamos começ~~ando mais uma edição”. Ruídos estranhos, parecia que alguém estava arranhando algum metal em outro, descargas, sons imprecisos, zoadas diversas. De repente o som fanhoso começava a ser identificado. Era abertura oficial: “Qual Cisne branco que em noite de lua, vai navegando sobre o lago azul, o meu navio também flutua, nos verdes mares de Norte a Sul, linda galera[...]”.Não entendo até hoje porque um serviço de auto falante de uma pequena cidade do interior tinha de abrir os serviços com o hino da Marinha, talvez o locutor tivesse servido na marinha, ou, frustado, tivesse sonhado em ser marinheiro, enfim, não interessa, o que interessa é que, decorou o hino da Marinha do Brasil, pois todos os dias, às 4:00 horas da tarde, a vida lhe dava alguma esperança de melhora exatamente por ouvir este hino. Acho que viajava junto com a Marinha do Brasil nos versos daquele ufanismo
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O certo é que o ritual era igual. Ficava esperando que um dia alguém oferecesse a alguém (ela) uma música do Adelino Moreira, Orlando Silva, Orlando Dias, Augusto Calheiros, Agostinho dos Santos e tantos outros:
Juarez oferece, com amor, a seguinte página musical para Dorinha, sua noiva: A voz fanhosa de algum cantor da época “Quero beijãr-te as mãos minhã querida, senta junto de mim vem por favor, és o maior enl~evo da minhã vida, quero viver contigo meu amor”. Ela gozava, aquilo era realmente um gozo, ela é que não sabia o significado daquela emoção que sentia ao ouvir a dedicatória e a própria música.
-“Dona Maria, sua filha Aurora, lá da lama preta, precisa de sua ajuda ainda hoje”. Ficava imaginando qual seria a ajuda que a Aurora precisava. “Oh linda garça que....” ao fundo, mais fanhoso ainda, ouvia-se, bem baixinho, o hino da Marinha, enquanto o locutor dava os seus recados entremeados com aumento e diminuição do som.
- “Na quitanda do Baninho farinha novinha, ainda quentinha. Bananas colhidas na hora, mel de abelha, aimpim, etc. Etc. Etc”.
_ Sonia pede ao Eduardo que a encontre na Praça as 6:00hs. da tarde”
- No armazém do seu João você encontra tudo para o seu lar, desde velas para iluminar as suas noites, até os melhores artigos para sua higiene, limpeza de casa, baldes, cordas etc. Etc.,
- Outra página musical: de alguém que ama outro alguém: “Sofre a tua dor resignadamente, Sofre como eu sofri por ti também, ama, e a dor vai ensinando a gente[...]”
Ela viajava, no cisne branco e na letra da canção. Pensava como alguém podia identificar este alguém que sofria e que aprendera com o sofrimento.
Só tinha oito anos, mas começava a perceber que o amor tinha mesmo muita a coisa a ver com dor, bem verdade que não conhecia e nem sabia o que era amar, mas com as letras das músicas começou a ter a noção do amor e da dor.
Tinha vezes, que apenas com a introdução da música já começava a encher os olhos de lágrimas. “Tem muita gente que almeja, um sonho realizar, entrar feliz na Igreja, sorri diante do altar[...]”, esta então, era paulada certa, depois de tanto sonho, depois de tanta realização, a dor vinha, negra como sempre é a dor, parece que o peito pegou fogo e só ficou cinza no seu interior, a vida perde a graça, só se pensa naquilo “[...] mas durou pouco a nossa união, sofri como um louco a triste separação, mas não lamentarei, o destino assim quis, não é um par de alianças, que faz um casal feliz”. Pense aí, que dor mais filha da puta, dor diária, porque esta música era tocada todos os dias, aliás, variedade era o que não tinha no repertório.
Gostava, especialmente, de uma música: sua mãe, inclusive, a cantava muito: “Senhor da Floresta”. “Senhor da floresta, um índio guerreiro da raça Tupy, vivia sentado pescando nas margens do Rio Xuí, seus olhos rasgados de longe fitavam a luz de uma taba, na qual habitava a filha formosa do Morubixaba[...]”, mais uma história de amor com um final infeliz: “ [...] Um dia encontraram senhor da floresta no rio Xuí, crivado de flechas de longe atirada por outro Tupy e a filha formosa do Morubixaba quando anoiteceu, correu, subindo a montanha e no fundo do abismo desapareceu” O final a voz fanhosa cantava: que eles foram unir as almas ao lado de Tupã. Um primor de letra, uma lenda cantando um amor impossível e forte que nada nem ninguém foi capaz de separar, o nosso Romeu e Julieta tropical, impossível segurar o choro, todos os dias a emoção se repetia.
Uma outra música, esta horrível, mas que lhe fazia chorar em demasia. Eu ~sou~ um cego, ~não tenho alegria de ver a ~luz do diã nem o explendor do sol. De~~ ver a~~ luz da aurora, o clarão da lua cheia nem as flores do arrebol”, Porra velho! Que tristeza! ela que vivia uma liberdade vigiada, mas liberdade: ela que corria pelos morros de barro vermelho que ficavam atrás da sua casa, que subia em árvores para tirar mangas rosas, espadas, carlotas, abacates cajus amarelos e vermelhos,que via o verde da própria mata, que ainda existia em Camaçari, seus vestidos coloridos, o rosado da bochecha do seu irmão mais novo, o arco íris em dias de chuva fina. Não podia entender a maldade de Deus que fizera aquele pobre cantor de voz fanhosa ser cego e não ver nada disto.
Todavia não parava por aí: A voz fanhosa do locutor junto com o som de fundo do hino da marinha, continuava com os recados.Ficava sonhando com um só para ela; mas quem iria mandar um recado para ela? Ninguém. Quem queria e podia falar-lhe estava ao seu lado, em casa, mãe e irmãos. Tinha apenas oito anos e, portanto, ainda não tinha pretendentes que lhe dedicassem “páginas musicais”, portanto, não podia aguardar o que realmente não era possível. O que podia, e o que sempre fez, enquanto viveu em Camaçari e enquanto o alto falante ficava no poste na frente da sua casa, era esperar que o relógio cuco batesse 16.00 horas, e que a Marinha do Brasil se fizesse presente naquele final de mundo, para fazer com ela aquela viagem diária, a dos sonhos de uma criança que, naquela idade, já queria ser amada, já queria ser conduzida ao altar, mesmo pela pessoa que não devia estar com ela, pois como a música que tinha o seu nome “quem devia casar com ela era “ele”, sim senhor! Quem devia casar com ela era “ele” seu amor, esse, que até agora ela espera, talvez para que ela entre de branco,desta vez com a pessoa certa, tal qual o cisne branco da música da marinha, para viajar nos verdes, azuis, rosas, brancos, lilases, caminhos do amor, talvez, com o Almir, o irmão da Dora, que a chamava de princesa.Aquele que, na sexta feira, quando voltava para casa todo fardado, não era da marinha, servira no exército, parava na porta da sua casa para lhe dar um beijo, beijo que lhe despertou, aos oito anos de idade, o desejo realmente de viver as páginas musicais tocadas no alto falante do poste que ficava na frente da sua casa, e de esperar, a cada despedida do locutor, as 19.00 horas  pelo amanhã: Tenham todos uma boa noite.~~~~~~.[...]Quanta alegria nos traz a volta, à nossa Pátria do coração, dada por finda a nossa derrota, temos cumprido a nossa missão”.