quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Lagoa transbordou








A Lagoa transbordou
Arembepe amanheceu triste. Do Corre Nu, do outro lado da pista, até o Piruí, tudo alagado. A Lagoa resolveu tomar o seu lugar e a Caraúna encheu. Na Rua da Glória casas alagadas, gente tirando coisas às pressas. Á água subindo a cada hora e fazendo muitos estragos.
O campo, agora, só se poderia jogar pólo aquático, ainda assim, se os peixes e as cobras d água deixassem.
Na Rua da Glória e na Caraúna, quem não tirou o carro da garagem teve ele submerso até mais da metade. Colocaram, tanto no começo, quanto no fim da Rua da Glória, barreiras para que carros não tentassem, sequer, atravessar, pois a cada onda feita com a passagem mais água entrava nas casas.
No meio da rua, pior ainda, a água entrava e não tinha saída e os moradores tentavam salvar o que podiam. A casa de Duinha estava cheia, ela teve de sair deixando as suas coisas e as suas histórias. Do outro lado, em frente à casa dela, na antiga casa de Marione, a água entrava pela garagem e pelo portão e lá mesmo ficava. A pousada agora já poderia oferecer aos hóspedes uma nova atração, pescar sem sair da cama, talvez.
Na porta da minha casa a água cobria o pé, ela nunca tinha alcançado este trecho da rua. Peixes, cardumes deles, circulavam como se aquele fosse o seu habitat natural. Cobras atravessavam, literalmente, a rua. Sapos, não sei se rãs, não importa, mas batráquios(anfíbios) com certeza, pulavam e faziam barulho na água. Muitos sustos e o medo da água subir mais: Na dúvida, tirei o carro da garagem e coloquei na praça, lugar mais alto.
Alguém disse que não podia dar descarga no sanitário, a água não descia. Evidentemente, com o aumento do nível da água tudo transbordou, as fossas estavam cheias. Estávamos proibidos, pela natureza e pelo poder público, de atender as necessidades do corpo.
Com todo este caos me lembrei que ha um projeto de revitalização de Arembepe, o que abrange uma passarela na praia, aquela, da qual já falei: a que liga o nada a lugar nenhum e que serve para retirar de Arembepe o que ela tem de mais bonito, a visão da vida se mostrando em todas as suas cores.
Pois é, lembrando disto comecei a me perguntar: Por que será que, ao invés de se gastar dinheiro com uma passarela inútil, não se faz um serviço de esgoto dentro de Arembepe? Por que não se estuda um meio de algum sistema de drenagem na lagoa para que ela não transborde e cause tantos danos nas épocas das chuvas? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas, mas estas já são suficientes, para, mais uma vez, mostrar que não precisamos de passarelas, precisamos de muito mais coisas importantes: Rede de esgoto, sistema de escoamento de águas, escolas, trabalho para os jovens de Arembepe.
Alguns me dirão que Arembepe não foi um caso isolado, que as enchentes aconteceram em todos os lugares, que a chuva provocou estragos em quase todo Brasil, a exemplo de Niterói no Rio de Janeiro, em Lauro de Freitas aqui na Bahia, em muitos outros Estados da Federação: Pernambuco, Aracaju, São Paulo. No Rio, até o Cristo teve de se equilibrar para não cai, certamente ficou tonto, atordoado com o descaso do poder público com os seus filhos. Não agüentou ver tanta morte, não por força da própria natureza, imprevisível, ou previsível nas causas, não nas consequências, e se abalou mesmo, quase cai, tremeu, mas não foi respeitado.
Em Arembepe, com outra dessa, só sobreviveremos se Noé nos recolher com a sua arca, infelizmente, levando apenas dois de cada espécie. Quem serão os escolhidos? Alguém da Caraúna, do Corre Nu, da Rua da Gloria, do Piruí? Enquanto não temos resposta, aliás, posso até imaginar qual seria, pois afinal de contas o poder, num momento deste, mostrar-se-ia com toda a sua força para que a escolha fosse feita nas pessoas certas, aquelas com um maior poder aquisitivo, aquelas com influência que podem mudar o jogo das coisas, mas que, infelizmente trabalham em seu beneficio, embora a natureza sábia, não faça esta distinção, porque ela não escolhe branco ou preto, rico ou pobre, feio ou bonito, homem ou mulher, para mostrar a sua força, o seu poder, que advém de se própria, que não é fabricado por homens que detém o poder, mas não sabem usá-lo em beneficio do povo, único dono deste mesmo poder que eles representam.
Talvez a natureza tenha tentado mostrar o que o povo às vezes esquece: que os seus representantes esqueceram-se do seu dever, que é o de representá-los bem, gerir o dinheiro público com projetos que funcionem e que sejam necessários; obras de infra-estrutura que permitam uma melhor qualidade de vida para o povo brasileiro independente do seu “sotaque”. Obras que não apareçam no exterior, mas que deixem o “interior” de cada cidadão brasileiro tranqüilo, para que ele possa dormir em paz, sem pensar se amanhã vai acordar com a sua casa alagada, com o seu barraco desabando, com a sua família perecendo.
Pois é; No caso específico de Arembepe, esqueçamos as passarelas inúteis e vamos lembrar-nos do povo da vila, deste que agora sofre as conseqüências da natureza inconsequente e da inconsequência do poder público.
Abril de 2010