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sexta-feira, 19 de maio de 2017

O coração no pé

Os dias passavam e todos já notavam que algo ia errado. Já lá se iam vinte e tantos anos de casamento, cumplicidade, razoável felicidade. Três filhos, todos homens e já criados, mas ainda dependentes, notavam que as coisas não iam bem.
Dormiam no mesmo quarto, mas isto não significava muita coisa, pouquíssimas vezes procuravam um ao outro, aliás, isto virara uma raridade, qualquer dia eles nem mais teriam coragem de se despirem em frente ao outro., entretanto  não se definiam, e aquilo ia se arrastando.

sábado, 8 de setembro de 2012

Enganados! Será?


Acho interessante ver as pessoas acharem que estão enganando as outras; penso que elas pensam que são inteligentes e que todas as demais, pobres mortais, são burras.
Quando as pessoas enganam as outras, lógico que estou falando daquelas pessoas que conhecemos razoavelmente bem, chega mesmo a ser engraçado, hilário até, porque a gente percebe mesmo que está sendo enganado e deixa que o idiota, que nos esta enganando, pense que esta conseguindo este grande feito.
A pessoa tem “tiques ou tics” não sei bem, que denunciam tanto as suas inseguranças em relação ao que está falando, ou à mentira deslavada que esta sendo contada, só que elas não se apercebem disto.
Por exemplo, conheço uma pessoa que tem um “tic”: quando está mentindo, contando algo que não foi real: começa a falar e a boquinha horrorosa tende para o lado esquerdo, resultado:  um espectro! A pessoa já é feia por natureza e ainda arruma um “tic” deste que lhe torna muito mais feia;  feia  em vários sentidos: exterior por não ser mesmo privilegiada pela natureza, e  interior pelo fato da mentira deslavada, cínica, imbecil, sem a menor necessidade, que está contando.  É bom que aqui fique claro que não sou das pessoas que dizem que “quem ama ao feio, bonito lhe parece” e nem “que a beleza é interior”. Não sou não: para mim feio é feio e pronto.  Se você olha para alguém e a pessoa é feia, não tem belos traços, tem boca torta, nariz enorme, olhos enviesados, infelizmente, a pessoa é feia mesmo. Acho, como Vinícius, que “beleza é fundamental”.
Falando em “tics” conheci uma outra que adorava falar de Freud, Jung, enfim, de psicologia. Achava engraçadíssimo quando ela começava a “descrever”, “narrar”, “falar sobre”, nunca soube entender muito bem o que se passava ali, e os dois dedos, o polegar e o vizinho do mindinho alcançavam os dois pontos entre os olhos e eram ali esfregados: algum tipo de massagem para ativar os neurônios, quem vai saber! Eu só achava engraçado e interessante, era como se fosse um sinal de que, naquele momento, o “saber” ia ser compartilhado; que éramos privilegiados por isto. Para mim, apenas uma demonstração da total insegurança daquele que sabe que o seu saber não é o saber, mas vai se fazer o que?
Pois é, penso que vivo uma legião de mentirosos.  Uma das grandes e esfarrapadas desculpas que ouço é quando alguém diz que não atendeu ao telefone porque estava no banheiro, puta que pariu! Pensam que eu sou idiota ou o que? Façam como eu, passo todo o tempo com o telefone no silencioso, tive de me acostumar a isto, primeiro por causa do trabalho; segundo por causa das aulas; terceiro por causa das pesquisas em arquivos e bibliotecas, em que não podia ser incomodada e nem incomodar os meus pares. Me acostumei tanto que esqueço, literalmente, de tirar o silencioso, resultado: não ouço nenhuma chamada, é bem melhor de que mentir. Aliás, quem me conhece mesmo sabe que odeio celular, que não gosto de falar ao telefone, enfim, muitos nem ligam porque já sabem que não vou atender por todos os motivos já expostos; agora inventar desculpas para justificar o não atendimento é uma merda. Não justifique nada, simplesmente não atenda e não diga por que não atendeu, é melhor.
Pior que tudo isto é você estar com alguém e ouvir o telefone da pessoa tocar e ela não atender. Bem verdade que, às vezes, faço isto, porque tem momentos de uma total inconveniência, mas ver a pessoa não atender ao telefone porque realmente não quer é um pouco demais. Pergunto-me: para que dar o número se já sabe que não vai atender. Melhor não dar.  Outro dia alguém me pediu o meu telefone, eu disse que não sabia o número.  A pessoa me olhou com uma cara incrédula: então eu não sabia o número do meu telefone!  O diabo é que eu não sabia mesmo, aliás, continuo sem saber, tanto que coloquei na lista dos contatos o telefone de “eu”, mas, na verdade, no caso a que me refiro, ainda que eu soubesse, não o diria a quem mo pediu; pois imaginem só: foi um garçom brasileiro num restaurante de Lisboa. Tudo bem que a gente tem de tratar bem a todos, mas isto não significa que viva dando o seu número de telefone a qualquer um.
De outra feita dei o número errado; simplesmente troquei o último número, felizmente que o “cara” não ligou na hora, senão o caso tava perdido e eu passava por sacana. Entretanto, o melhor mesmo é não mentir, mas naquele momento foi o melhor que pude fazer para não magoar o rapaz que estava tão interessado na minha pessoa e que eu não queria, de maneira alguma, demonstrar qualquer descaso, foi outro garçom. Penso que ando a agradar a classe!  Não confundam, entretanto, mentira com omissão. A omissão em alguns momentos é louvável, evita-se muitas coisas, mas a mentira, como diria minha mãe, tem pernas curtas, e a gente um dia descobre que um companheiro de longa data, destes que acorda e dorme com você, que as pessoas até os confundem como marido e mulher, que até tem momentos de prazer (sexo) e dividem contas, tem um caso e um filho com outra pessoa. Olhe que eles passaram muito tempo juntos, pensando um deles que era companheiro mesmo do outro. Já notaram que não eram não é?  Esta omissão não valeu a pena, porque isto não é omissão: é, e foi, uma grande e enorme traição!!!!!
Pois é, outra coisa que detesto é a curiosidade das pessoas em relação à vida do alheio. Lá quero eu saber onde as pessoas foram, estão ou vão. Não me interessa; pior ainda, quanto gastaram:  pouco me importa, a não ser quando alguém esta gastando o que é meu; aí sim, fico “piursa”  deve ser assim que se escreve, uma mistura de raiva com ursa, porque se a porra é minha, quem tem de gastar sou eu sem dar satisfação às outras pessoas. Aquelas que gastam o dinheiro que não é seu é que tem obrigação de prestar contas. Ultimamente, quanto pior, na minha velhice, quando pensava que, até por força da própria idade, da maturidade, da “sapiência”; não se esqueçam de que velhice, para alguns, é quase um sinônimo de “saber”, penso que é “experiência”, mas cada um dá o nome que quer ao passar dos anos e ao acumulo dos cabelos brancos que, infelizmente, se aboletam em todas as partes do corpo, o que é horrível; percebam que se olhar no espelho e ver os grisalhos revoltados, porque eles são revoltados mesmo, são mais grossos, inconvenientes, teimosos, se colocam em espaços indevidos, me deixa para lá de irritada, mas fazer o que não é? Eles estão aí e pronto, mas, voltando ao assunto e  a minha velhice, conheço pessoas que tem curiosidade mórbida a respeito da minha vida: gente que quer saber onde fui; com quem fui até mesmo o que comi. Se compro uma coisa, tem a desfaçatez de me perguntar quanto foi. Não gosto disto, mas a vida me proporcionou isto na velhice, e eu, por força de circunstâncias outras, que no momento não vêm ao caso, estou me sujeitando. Bem verdade que tenho uma válvula de escape: a mudez. Fico muda simplesmente. Acreditem que não respondo nada e fico somente olhando para a cara do “questionador”. É como se eu quisesse, com o silêncio, demonstrar toda a minha insatisfação com tanta curiosidade.   
E aquelas pessoas que além de questionarem querem dar palpites! Ah estas, são mesmo o fim da picada, ainda tem algumas que se fazem acompanhar de outras, que nem sabem quem você é direito, e se julgam no direito de, também, dar palpites, comentar; e a gente descobre que a droga desta pessoa, que você nunca viu, não sabe de onde veio, sabe muito da nossa vida, logicamente, porque alguém, que não é só curioso, é também fofoqueiro e gosta de falar da vida do alheio, lhe contou. Um comentário: tem gente que sabe mais da nossa vida de que nós mesmos, porque quem fala dela o faz de uma maneira que, de repente, o fato é outro, as pessoas são outras, os resultados são outros e a gente se descobre outra pessoa, outro momento, numa outra vida. Tem  momentos  que ficamos na dúvida se estão falando de nós mesmos ou se, no meu caso, por força da velhice, me esqueci daquilo.
É, mas vou ficar por aqui, só de recordar estas passagens já estou ficando irritada, porque, efetivamente, não há nada que irrite mais uma pessoa de que a mentira e esta mania que as pessoas têm de, sem ser convidadas, entrar no espaço dos outros. Se você tiver alguém na sua vida que seja assim, mentiroso e ou curioso, se afaste: é o melhor que você faz.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Realmente...

Iam os dois no carro, conversavam sobre a vida, sobre a estória de cada um deles, das novidades, dos amigos, do passado, passado que muito fazia rir e que eles gostavam de comentar.
Sempre foram muito unidos, pobres, moradores de uma favela da periferia, local ainda hoje muito perigoso, conseguiram ali ser criados, mas sair ilesos dos infortúnios que alcançaram muitos dos jovens, inclusive amigos comuns.
Tinham, ambos, muitos amigos: primeiro porque  jogavam bola, segundo porque moravam  naquele bairro onde o melhor era ser amigo de todos. Presenciaram muitas cenas violentas; marido batendo em mulher; bêbados criando confusão; policia matando bandido; batidas policiais em casa de traficantes; briga entre rivais, até mesmo morte, mas nada disto influenciou a vida deles para lo lado ruim..
Foram crescendo e começou a fase das mulheres. Um deles era bem bonito, manso, um riso lindo, muito meloso, agradava a todos, mas gostava mesmo das mulheres de ébano. Teve várias delas; uma com nome estranho,  mas com uma “bunda” que compensava o  palavrão. Outra,cantora de  banda de carnaval, e tantas e tantas outras, a última, era uma professora de “airóbica”, que nada tinha de airóbico, todavia a pele de ébano fazia o que o restante não conseguiria sozinho.
O tempo foi passando, casamento, descasamentos, um deles, entretanto, resistente, continua solteiro, aliás, parece que da turma somente ele é o herói.  Este gosta de mulheres diversas e diferentes, gosta inclusive de gabar-se desta condição de solteiro e de mulherengo, é um grande “el comedor” , sempre com uma nova mulher e uma novidade.
Defeitos muitos, todos eles tinham e têm, mas nada disto fez com que eles se desligassem, até porque a paixão pelo football não permite a desunião; estão sempre juntos, pelo menos três deles, em todos os dias em que o “mengão” joga. Agora  já se fazem acompanhar dos filhos, que, também, já se tornaram tão fanáticos quantos os pais, o timão é parte ativa da vida deles.
Pois é, por continuarem juntos e amigos, um sabe da vida do outro, ouviam e ouvem confidências, faziam confidências, eles se confiavam, e por isso mesmo, nesse dia, dois deles conversavam respeito da vida, do que continuavam fazendo e do que fariam daqui para frente. Um deles, bem safado, apesar de casado, ainda com namoradas, amantes, sei lá o que, fala para o outro:
- “Rapaz, vou tomar uma providência séria na minha vida, não vou mais trair a minha esposa, ela não merece, é uma pessoa boa, cuida de meus filhos, me ama, me ajuda, é uma boa mulher, efetivamente não merece o que faço, e eu vou mudar. Daqui para frente eu  vou comer apenas “garotas de programa”: aquelas  mulheres que você liga, come e pronto, sem qualquer envolvimento e mais nada”.
O amigo, que estava dirigindo não se agüenta, para o carro no acostamento para rir.
-“Como é cara,? Você vai deixar de ter mulheres fixas e só vai sair agora com “vagabundas” para não ter qualquer compromisso! Realmente, esta foi a maior piada que eu ouvi nos últimos tempos. Quer dizer que comendo vagabunda, pagando pela “trepada” você  não vai estar traindo a sua mulher não é?
 E o outro confirma:
- ´” É isto mesmo.  Com estas mulheres a gente não dá telefone, não é incomodado, não corre risco, vai lá faz o serviço e pronto, ela não vai lhe ligar,lhe sacanear, não vai lhe cobrar nada, não vai fazer a outra ficar desconfiada com telefonemas fora de hora, enfim, fico bem na faixa”
O outro continua a rir, não diz mais nada, só não consegue entender aquela resolução,mas quem é ele  para dizer que o “amigo” estava errado?
O tempo passa, eles não se vêm por algum período, mas o “timão” joga e, inevitavelmente, o encontro acontece. O amigo então pergunta:
“ E aí cara, você tá cumprindo o que você me disse? Agora você anda com garotas de programa?”
“Porra velho, não dá não, estas mulheres são muito caras, têm hora marcada, não tem espontaneidade, acho melhor ficar com as minhas deusas de ébano, mais baratas, mais amantes, mais naturais, sem horários, embora com muitas exigências. É melhor, vou continuar a correr os riscos”!!!!!


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Negocio cancelado

- Olá! Tudo bem?
- Tudo e vc. Já resolveu aquele assunto?
- Mais ou menos, tem-se de ter cautelas, mas amanhã é um bom dia para resolver pendências.
-Amanhã? É muito em cima, apesar da urgência da coisa, além de tudo vai haver sessão
-Sessão!Amanhã? O que houve? Mudaram a pauta?
- Extraordinária. Assuntos sigilosos precisam ser tratados, por isso a convocação extraordinária e sigilosa!
-Vai dar merda isto em! Este negócio de sigiloso compromete desde o momento em que se declara tal sigilo.
- Sim, mas o assunto nosso é outro, embora com mais sigilo ainda e  precisa ser resolvido, não se pode dar asa ao tempo, demora muito e as partes interessadas terminam desistindo.
- Duvido, isto envolve muita coisa para uma desistência assim.
- Está bem, e como ficamos? Não podemos tratar este negócio pelo telefone. O assunto exige presença física, olho no olho, riscos menores.
- Quinta feita, depois da sessão normal.
- A que horas?
- Não sei, você bem sabe que temos hora para começar, nunca para acabar.
- Parece que temos dificuldades não é? Como posso acertar a sua pauta com a minha? Esta indefinição é ruim. Lembre-se que tem outros envolvidos, tudo tem que estar nos conformes atendendo a conveniência de todos.
- Não se preocupe, assim que as primeiras indicações de término da sessão se fizerem presentes, dou um toque.
-Ok. Vou esperar.
- Não falamos em local. Onde?
- Temos que ser discretos, bem sei!
-Sim, mas onde?
- Um amigo me cedeu um local.
-Você confia na pessoa? Olhe que é melhor ninguém saber de nada. Nestas horas os amigos são os primeiros a tirar o corpo fora e entregar o jogo.
- Não este tem esquema, portanto, tem de ficar caladinho, não vai acontecer nada.
-É preciso levar alguma coisa?
-Claro que não, lá a gente resolve tudo, os contatos serão feitos na hora certa e, com certeza, tudo estará pronto no momento certo, não se preocupe.
-Este local do seu amigo é mesmo discreto?
- É sim, já disse: Nao se preocupe, tudo vai dar certo, mas tenho de desligar agora, pessoas estão querendo falar comigo aqui no gabinete, tenho de atender, não tenho saída.
Até quinta.
Sexta feira, dia posterior ao encontro programado, que não aconteceu por impossibilidade total dos interessados, cada um com problemas mais de que pessoais, ela recebe uma convocação do Presidente do Tribunal, ele também. Chegam ambos na ante-sala da presidência no mesmo horário, olham-se e estranham estarem os dois ali. Coincidência? Obra do destino?. Discretos, nem se olham direito, cumprimentam-se, apenas, como dois colegas de profissão que se encontram. Ela percebe que os funcionários os olham de uma maneira estranha, como se quisessem perceber o que não podia ser percebido, talvez pela própria culpa achava que eles já sabiam de tudo.
São chamados os dois, maior surpresa ainda, para entrarem no mesmo momento na sala. Lá dentro estão o Presidente, o Corregedor, uma pessoa estranha aos quadros, ou ao menos, não conhecido dos dois, convidados a sentar, o  fazem ambos com uma tremenda interrogação na face.
O presidente começa uma lengalenga e de repente diz que todos estão ali porque já sabem de nossos planos, que há muito que vêm gravando os nossos contatos telefônicos e que agora precisam de maiores esclarecimentos, caso contrário, vão entregar tudo a Policia Federal para as devidas investigações.
Os dois entreolham-se atônitos. O que se passa? De que estão falando?O que dizer? Ambos sabiam que tinham um pacto de silêncio e que este teria de ser mantido a qualquer custo, muitos seriam prejudicados, melhor dizendo, magoados, se dissessem qualquer coisa.
O Presidente insiste. O homem desconhecido começou a falar. Disse ele que estavam vigiando-lhes há mais de três meses e que já tinham feito levantamento de toda a vida deles nestes últimos meses e chegaram a conclusão de que estavam mantendo um dialogo com um dos mais perigosos traficantes do Estado. Em uníssono os dois: “o que?” Que história é esta? De onde tiraram esta conclusão? Pior ainda, além dos contatos, ele já sabia que ele, o homem já havia, por diversas vezes ido à casa do fulano, um sitio que ficava na periferia da cidade, local onde o traficante escondia a droga.
Ela não estava bem situada na história, olhava para todos com a cara de incrédula. Para ele com a de acusadora. Por que isto?
O homem continuava falando. Ele começava a ficar vermelho e nem sequer levantava os olhos para olhar para ela. O homem prosseguia: O senhor, doutor, tem frequentado este sitio todas as semanas, chega, discretamente com o seu carro, coloca-o na garagem. Chega sempre acompanhado de “senhoras”, cada semana uma diferente, às vezes vai até mais de uma vez na semana, ontem, por exemplo, esteve lá com uma moça jovem, loura, que, por ser funcionária, também estava sob investigação, só não fora convidada para a reunião exatamente porque se queria preservar, ao menos, a tal liturgia do cargo. Continua ele: o senhor passa ali muitas horas, sai do Tribunal com o seu motorista, que também será investigado, ele o deixa numa locadora de veículos, onde o Sr.,  a cada dia que por ali passa, pega um carro diferente, dali segue para pegar a senhora que o vai acompanhar. Chega ao sitio onde passa muitas horas. Ás vezes, o dono do sitio está na casa e os senhores saem dela juntos, ele normalmente se despede de si com um afetuoso abraço e o senhor sai de lá com um pacote na mão. As moças com quem o senhor esteve no local, todas elas, já foram contatadas, todas dizem que nada sabem e que só iam ali fazer sexo cosigo e, para tanto, eram muito bem pagas, não por si, mas pelo traficante.
Ela, cada vez mais surpresa, balançava a cabeça de um lado para outro. Estava sem fala, não acreditava no que estava a ouvir. Ela, uma senhora casada, com filhos, que estava se propondo a uma aventura extra conjugal com um colega, que, até então, achava discreto, honesto, e o que é pior de tudo, gostoso, não podia dizer isto a ninguém e não podia, por isso mesmo, explicar a conversa com o indivíduo pelo telefone. O senhor questionava a que negócio, pendência eles se referiam na conversa telefônica.O que eles iriam tratar na quinta feira?
Já não estava ali, ficava pensando no que poderia acontecer quando saísse daquela sala sem que as coisas ficassem esclarecidas. Com certeza, perderia o marido, o cargo não, ela não tinha envolvimento algum com aquela história de tráfico. Poderia muito bem explicar tudo, os seus bens, a sua vida, etc,, só não poderia explicar mesmo era a tentativa da traição, o crime não consumado pelas vias de fato, porque pelas vias espirituais já havia sido cometido. Pior ainda, orgulho ferido, por saber que ela era, apenas mais uma, que o gostosão, para satisfação exclusivamente sexual, queria “comer”. O “inter criminis” fora interrompido.
A conversa prolongava-se, realmente ela já não ouvia mais nada, tudo muito distante, as vozes já se confundiam, não saberia distinguir se era a dela, a do “filho da puta”, a do senhor que não conhecia, a do presidente, tudo muito confuso. De repente, alguém lhe toca no braço e ela dá um salto, era o seu marido, que, vendo a sua aflição no sono, lhe acordara com um toque delicado no braço. Acordou de salto, ali, ao seu lado, talvez não tão inocente assim, estava seu marido. Estava ela em casa, na sua cama, nos seus lençóis. Agradeceu a Deus por isso, fora um pesadelo e nada mais.
Dia seguinte, uma ligação: Desta feita, bem rápida.
- Alô. Negócios cancelados para sempre. Preliminares não aprovadas.
Janeiro de 2010