segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mansão dos Cardeais

Mansão dos Cardeais
Devia ter uns 10 anos, o tempo passou o suficiente para esquecer datas, apenas permite lembrar dos acontecimentos.
As irmãs, sim era assim que eram chamadas as freiras de todos os conventos,certamente irmãs porque todas, para não se intitularem amantes do senhor, apelidaram-se assim: irmãs. Lembrem-se que as freiras são esposas de cristo, e se são esposas de Cristo, que deveria ter um “falo” poderoso, aliás, poderoso ele é e sempre será, ao menos para os católicos, para dar conta de muitas “irmãs em cristo”, mas isto não interessa, a não ser pelo fato de que o não atendimento a todas as irmãs, gerava uma grande rivalidade entre elas, o que tinha consequências, inevitáveis, para as almas que estavam sob os seus comandos, as pobres e infelizes “internas”.
Era uma dessas almas, almas vivas e quase mortas no nascedouro, teleguiadas em nome de uma educação cristã e “moral e social”, pois ali se preparava mulheres que deveriam, em nome da fé crista, seguir os ensinamentos da igreja e de “Deus”, ou seja: casar, ter filhos, obedecer ao marido, sacrificar-se em nome da família, e, até mesmo, passar a fazer parte do harém de Cristo, e viver a vida angustiada pela espera de uma noite de “amor” em que o verbo divino se fizesse carne e habitasse dentro dela, que passaria o fim de seus dias lembrando desta noite, das suas delícias, nas tentativas vãs de, sozinha,alcançar, minimamente, o prazer sentido.
Pois bem, terrenamente, o representante mais próximo de “Cristo”, “Deus”,” Espírito Santo”, este último, uma “pombinha safadinha”, era, à época em Salvador-Bahia, pensava ela, o Cardeal. Achava que ele era assim conhecido porque usava uma espécie de boina, mas para um “kufi” muçulmano, vermelho no topo da cabeça. Já era um velho senhor, salvo engano também usava um manto vermelho. As irmãs foram, como de costume, fazer uma visita ao Cardeal, e, também como sempre, porque mesmo na Igreja funciona assim, o poder tinha de ser acariciado, e lembrar desta carícia no momento de conceder alguma graça aos presenteadores, levar um “mimo”.
Para a entrega deste mimo, e para não ficar feio e criar ressentimentos, não poderia ser escolhido uma das “amantes”, afinal seria uma grande discriminação e um reforço da rivalidade já existente, a escolha deveria ser neutra. Assim escolhia-se uma das internas, com certeza, a mais “bonitinha” a “mais arrumadinha”, enfim, a “mais mais”.
Foi aí que ela entrou na estória. Tinha ela um vestido vermelho, herdado da filha de uma colunável de Salvador, de quem sua mãe era comadre, sim, porque não se escolhia padrinhos á toa, o melhor era garantir uma coisinha para o afilhado, embora na casa dela isto nunca tenha dado certo, mas enfim... Se o afilhado não era agraciado, ela era; por sorte tinha a mesma idade e o mesmo corpo daquela filha dos empreendimentos imobiliários e, por isso mesmo, vestia-se muito bem. O certo é que o vestido vermelho foi fundamental na escolha. Era ele de saia de pregas mais ou menos largas, cintado, um cintinho bem fininho, também vermelho, e na barra, a uns três dedos antes da bainha, tinha uma “sianinha”, barra bordada com a história do chapeuzinho vermelho, aliás, bem a calhar, porque o “lobo mau” já estava presente, a espera.
Lá se foi o séquito para o palácio episcopal que ficava no Campo Grande, a caminhada não era grande, e as “irmãs” e as meninas do internato seguiram pela Avenida Sete até desembocarem no passeio público e dali alcançarem o Campo Grande.
Vale dizer que o palácio episcopal era lindo, hoje serve de hall de entrada, para um luxuoso edifício com vistas para a Baía de todos os Santos , olhe o nome: Mansão dos Cardeais, na qual residem os que enriqueceram sem berço, mas pelo trabalho, embalados pelos sons e produtos da “Bahia” .
Chegada ao palácio; cumprimentos cordiais e protocolares aos que, hierarquicamente, devem ser cumprimentados antes do “Deus” terreno, e olhe que estes pequenos representantes são muitos,cuidam da segurança e “fá-lo” muito bem, pois que chegar perto de “Deus” naquela época, era mesmo uma epopéia. Lembrando que a visita tinha de ser agendada com muito tempo de antecedência.
A espera foi longa, as meninas, todas com a farda de gala, afinal iam estar na presença de Deus, as irmãs amantes, todas com os hábitos “azuis” também de “gala” enfileiradas, contidas, tentando esconder toda a volúpia que o momento maior, o do contato com o representante do “esposo” ia acontecer. Só ela de vermelho, distinguindo-se, claro, de tudo e de todos. O presente a ser oferecido não estava na sua mão, ela somente pegaria no “pacote” no momento máximo, o da entrega, nem sabia o que era, aliás, não sabe até hoje.
Ela, que nunca foi de ficar parada, começou a fazer um reconhecimento do espaço, lógico que as “irmãs” excitadas como estavam, não perceberam o seu afastamento do grupo.Deu de cara com uma varanda, por sinal linda, que ficava no fundo da sala onde estavam aguardando. A varanda dava para uma roça, era assim que se chamava um quintal imenso, quase um floresta. Além da roça, a varanda descortinava a Baía de Todos os Santos, ainda não cheia de marinas e de barcos bonitos, mas linda da mesma maneira. Endoidou, aquilo era lindo mesmo, e o”Deus” espírito, universal, abusou da bondade para com aquele seu representante terrestre.Não se pode dar tanto a uns e tirar tanto dos outros. O Cardeal devia saber representá-lo muito bem, pois foi privilegiado em todos os aspectos, aquele ali era somente um deles.
Ela se encantou e não resistiu ao apelo da infância e da aventura.Viu uma escadinha e lá se foi ela, desceu e alcançou a primeira parte do quintal, muito bem tratada, com jardins e algumas pequenas frutíferas, mas o melhor estava por vim. Viu um caminho, daqueles que a passagem contínua deixa o rastro, e por ele seguiu: descia pelo caminho de barro e se aproximava cada vez mais do “mar” da “baía” e, certamente de “Deus”, pois aquilo só poderia ser obra dele, ali sim ele era onipotente, onipresente. Árvores frondosas circundavam tudo, cajá, que ela adorava, fazia um mar amarelo-abóbora pelo chão, mangas de todas as qualidades rolavam pela terra enladeirada, tudo seguindo em direção ao mar; bananeiras, jaqueiras, jambeiros, cajueiros, jaboticabeiras, limoeiros, laranjeiras, abacateiros e tantas outras espécies.
Ela estava mesmo envolvida em tudo aquilo, comeu muitas frutas, sujou o vestido, esqueceu do tempo. Quando se lembrou do que tinha vindo fazer tentou correr para voltar, mas havia se distanciado muito, já anoitecia e agora estava a subir, a caminhada seria mais difícil. Seguiu a trilha e já no meio do caminho começou a ouvir vozes, percebeu que gritavam o seu nome, vozes femininas histéricas e masculinas preocupadas. Algum tempo, pouquíssimo mesmo depois, alcançaram-na. Não tomou porrada ali mesmo porque as “irmãs” jamais dariam este atestado, o de que maltratavam fisicamente as suas “pupilas”, mas bem que viu o ódio nos olhos das freiras, o ódio e a promessa de que aquilo não ficaria assim. Pense aí. Sumir, deixar o pai esperando, o criador a espera da criatura; como pode fazer isto? Será que não percebia a gravidade do seu ato? Por sua causa o presente tinha perdido todo o seu objetivo, e com isto a sua consequência, que era um atendimento a um pedido com um pouco mais de rapidez e boa vontade. Lógico que para fazer algum reparo no colégio, aumentar alguma verba, ou qualquer coisa parecida. Frustração promovida por um ser humano idiota, mesquinho, que não sabia se portar bem em nenhum lugar, uma excrescência, a quem as irmãs tinham de aturar para demonstrar a sua benevolência.
Ela estava podre, completamente suja, o sapato, que também era vermelho e de verniz, tinha agora uma outra tonalidade de vermelho, a do barro, um vermelho fosco e feio. O vestido estava, também, sujo de barro, a sianinha com a estória do chapeuzinho vermelho apagara a própria estória, já não se identificava os personagens nem nada, matara o lobo mau antes mesmo dele começar a pensar em comê-la.
Voltaram todas pelo mesmo caminho, ela vinha sob “vara”, ladeada por duas das “irmãs”, que lhe apertavam tanto as mãos que chegou a temer pelos seus dedos. No colégio, ela já quase sabia o que lhe esperava: castigos de todas as maneiras possíveis. Falta de merenda por uns 100 dias, pois se com coisas mínimas já passara 30 dias sem merenda, imagine-se um acontecimento de tal gravidade. Ajoelhar no milho na capela interior, pelo menos por uma hora dia, seria café pequeno, limpar as escadas, lavar roupas, não ir para o recreio, etc., etc. Etc.
Já, por sua causa, chegaram tarde, todos tiveram de ir para o refeitório e depois do jantar, sem qualquer intervalo, iriam para a cama. Assim foi feito, mas ela, que já ia se danar mesmo, resolveu que teria de fazer mais uma. O que fizera, sem qualquer maldade, apenas para agradar o seu espírito infantil, dar aso a sua infância retida pelo regime de vida que lhe deram, agora seria feito com maldade mesmo, uma vingança antecipada do que iria padecer nos próximos dias.
Assim que ajoelhou para começar a reza noturna, um martírio diário de, ao menos, 15 minutos, quanto pior naquele dia, que haveria uma preleção do que não deveria ser feito, o exemplo do que não deveria ser seguido, pediu para ir ao banheiro. Durante a reza, ela sabia, não se poderia ter vontade de fazer xixi, alias, não se poderia ter vontade de nada, a concentração teria de ser toda em cristo, no cristo, por cristo, mas a necessidade física não espera e o biológico funciona, ainda mais quando é provocado para tal. Diante da negativa, ela subiu na cama, suja como estava e, em cima do travesseiro, fez o seu xixi, quentinho, saboroso até, porque aquela “mijadinha” básica representava para si o seu escárnio, o seu descaso, e, por que não dizer: o seu poder. Ela, sozinha, aos 9 ou 10 anos desafiou,bem verdade que sem querer, os poderosos, “Deus” e o seu séquito, as suas “amantes” e, nada e nem ninguém lhe tiraria este grande “prazer” de ter feito o certo, que dera errado, mas que lhe mostrou que, sozinha, poderia vencer, com o venceu e vem vencendo, desafiando e conseguindo suas vitórias pessoais, que, nem mesmo o “Cardeal”, foi capaz de evitar ou reprimir.