terça-feira, 6 de abril de 2010

Arembepe

Arembepe já perdeu, por demais, as suas características de vila de pescadores, mas ainda continua encantando a tantos quantos passam por ela. Alguns, que foram apenas dar um passeio, ali ficaram e criaram as suas raízes, raízes que cresceram em direção ao mar, como é o caso de João e Thierry do “Mar Aberto”.

Como diz minha amiga Ângela Chaves, donos do “Oásis” arembepiano, e não tenha dúvida que é mesmo, pois há dias que, apesar de tanta beleza natural, queremos tomar um belo drink, comer uma boa comida, ver gente bonita, conversar com os proprietários, eles mesmos, um conforto para a mesa e olhos; melhor ainda, tudo isto com uma visão imperdível, inacreditável, deslumbrante.

Você não conhece Arembepe? Não sabe o que é?
Estou falando de uma Vila de pescadores, que os seus nativos fortemente defendem, muitas vêzes impedindo um progresso necessário. Um porto seguro no litoral Norte do Estado da Bahia.

Arembepe conserva casas de taipa, aquelas feitas de cipós entrelaçados com as aberturas entre eles preenchidas por barro vermelho, cuidadosamente amassado para nao passar do ponto de maleabilidade. A da Vú, onde se come uma boa feijoada, rabada, ensopado de carneiro, moqueca de peixe, ainda conserva o fogão de lenha, que faz, talvez, a comida mais saborosa, embora seja mesmo as mãos de Marize e da Vú, esta última nas moquecas,que garantem o sabor das especiarias completamente baianas e preparadas com tanto amor, que, até mesmo sem fome e contrariando as recomendações médicas, somos levados a saborear.

Na porta lateral da casa da Vú, pois ela mora alí mesmo, no próprio local onde mantém o seu negócio, se reunem os que já muito fizeram e os que nada fazem hoje, para um jogo de dominó regado a cerveja. Bom mesmo é chegar na casa de Vú quando ela está almoçando no dia a dia, você pode dar sorte e ela está comendo um frango de quintal, que lhe será oferecido, claro, se ela gosta de você!

Depois da casa da Vú, ainda na praça, você encontra o restaurante de Neuza. Aí você vai conhecer o Marquinhos, o filho da dona, um espetacular misto de garçon e galanteador. Sente um pouco, mesmo que seja só para uma cerveja, olhe o mar de frente e lateralmente à direita.

Há outros bares no local, mas por enquanto fiquei só nestes.
Do bar de Vú ou do da Neuza olhe a Igreja de São Francisco. É linda, me faz lembrar o Alentejo com a sua pintura azul e branca. Peça ajuda, dizem que é bom pedir ajuda ao santo padroeiro quando se vai a primeira vez à sua Igreja.

Pena que você não conhecerá o antigo Hotel, no tempo em que os donos eram a Dona Lídia e o o velho Aguiar, que conseguiam uma união de tantos uns que, um dia, conseguimos virar um conjunto, bem verdade que durou pouco, pois os pares que formavam este conjunto universal foram se desfazendo, inclusive a própria Dona Lídia, que faleceu e nos deixou órfãos. O Hotel nunca mais foi o mesmo, tanto assim, que agora perdeu a identidade, já não há referência ao “HOTEL”.

É bom lembrar que Arembepe tem a aldeia Hippie, embora não goste da vida que alguns levam alí, não deixa de ser extraordinário que ainda seja conservada a casa do sol, e muitas outras coisas. Também nao esqueça que ha um grande orgulho da comunidade hippie de, um dia, ter recebido a Janis Joplin, lógico que em outros tempos, em outra situação, aliás, enquanto ela ainda vivia. Não se enganem, não foi o espírito, nem uma visão alucinógena, foi ela mesmo em carne e osso. Nada é mais o mesmo, mais ainda se vê beleza nas lagoas e no rio que circundam a aldeia.

Se estiver mesmo com muita sorte, chegue em Arembepe no dia da lavagem do coqueiro, não há um dia certo para tal, não é a do lugarejo que lá existe com este nome, é a do “coqueiro” mesmo. Aquele que nasceu, cresceu e parece que vai morrer, na frente da casa da Vú, pô velho!, é mesmo uma maravilha. Tem baianas novas e velhas, travestis, pretos, brancos, pobres, desocupados, enfim, uma lavagem como outra qualquer na Bahia, só que com as pessoas do local. Não há enchentes, voce pode dançar e pular a vontade e pode encontrar, como as vezes consigo, a Ivete, a que foi reitora, parece que marcamos encontro ali. Tudo regado a muita cerveja e ao som da bandinha de sopro, parece que Arembepe tem uma especial, pois em todas as festas é sempre a mesma. Muito bom mesmo.

Na festa da cidade, que normalmente começa na segunda quinta feira após o carnaval, fica tudo muito cheio e você não pode apreciar as belezas da vila, mas, ainda assim, se coragem tiver, vá, porque para quem gosta é boa. Se você já foi antes, em tempos mais remotos, vai sentir uma saudade imensa dos tempos em que Arembepe, a pequena vila de pescadores, recebia: Chiclete com Banana, Asa de Águia, Daniela Mercuri, Timbalada, Jimmy Cliff, Jorge Ben, Gera Samba, mais tarde Ivete Sangalo e muitas outras atrações. Bom mesmo era ver tudo isto de palanque, os vips ficavam no terraço do “Hotel”, era bom demais, pois a visão privilegiada da própria vila se confundia com os sons das bandas que se apresentavam alí na praça.

Hoje dá uma saudade danada de tudo isto. Não temos mais o “hotel”, “D.Lídia”, muitos outros já se foram. Já ninguém sai pela manhã, pelo menos que eu saiba, para comprar pão e retornar somente pela tarde, ninguém mais cumpre a tabela de horários indicando o tempo necessário para a compra de produtos: Uma hora para pão, duas para carne, tres para peixe, etc, etc. etc. A praça se modificou, os pares se desfizeram deixando uma onda de tristeza imensa, mas nada que não se cure atrás do “chupa catarro” no dia de lavagem do coqueiro, no da própria lavagem de Arembepe, no do baba da saia com a organização do Tininho, e de algumas caminhadas milagrosas pelas areais das praias de Arembepe. Você pode escolher qualquer lado para ir, ou para o lado da aldeia, ou para o outro lado, o de Interlagos, as belezas estão garantidas e os antídotos para a tristeza também.

Depois da caminhada, vá ver os amigos, tome uma cerveja geladíssima no bar da irmã de “baby”. Veja se O Ronaldo e o amigo dele, o da cabeça branca e olhos azuis lindos, estão no bar da Neuza, sente e converse um pouco com eles, espero que a pintora da Argentina esteja lá também , veja como se pode apreender e aprender sem esforço algum. Ah, também tem o Batista com a sua prole e sua “louca” esposa, a Leda: Não se preocupe, ela só ataca quando o PT é contrariado. Depois vá em direção á praça e entre no “OÁSIS” de Arembepe, a janela do mar, e peça a Paulinho que faça uma roska, a de sorvetinho, tem de ser ele a fazer, a minha, pelo menos, a de cajá sem um pingo de açúcar, só ele sabe fazer, mas tem outros sabores e outros experts. Para acompanhar, peça um camarão empanado ou um polvo corado, não fique corado com os preços, pois não se dá preço ao prazer, a gente o sente ou não! depois de tudo isto, ja meio para lá de que para cá, vá pagar a conta no balcão, so serve no balcão, pois você vera o “Triste” nome que eu dei ao funcionário Tristão, adoro! Sempre recebo uma palavra, um elogio, ele é mesmo um massageador de ego, acho que porque mereço mesmo, não sei se dedica ele tanta atenção outras pessoas, é uma questão de empatia, penso eu.

Ah! Um conselho: Não fale de ninguém em Arembepe, não dê cantadas e nem se deixe ser cantada em Arembepe, ali todo mundo é parente, e você corre o risco de dar mais um rebento aos “figueredos”, embora ja existam muitos. É melhor não correr riscos, nem físicos e nem espirituais.

Enfim, vá a Arembepe despreendido de tudo e curta o que você puder curtir, embora, sei eu, que jamais você viverá Arembepe e suas vidas em um só dia, porque ela merece a eternidade.

Esmeralda Martinez – 09.03.2009