sábado, 30 de abril de 2011

As guias dos orixás

Sabia que seria o centro das atenções. Mas o que fazer se tinha mesmo de ir àquela festa? Era o aniversário de uma grande amiga de seu namorado, aliás, o primeiro de uma série dos quais participou.

Ela coitada! pobrezinha: uma universitária linda, mas pobre. Desde o dia em que soube que teria de ir a esta festa não deixou de preocupar-se. Como iria? Como se vestiria? Será que não passaria por ridícula?

O namorado queria lhe mostrar a todos, claro! Era a mesmo uma mulher linda, e estava no frescor da sua beleza completamente natural, sequer se pintava. As suas roupas eram despojadas, não seguia moda porque não havia possibilidade de fazê-lo. Nesse tempo usava calças pijamas e o auge mesmo era a calça jeans, que, na sua grande maioria, e aliás para ter mesmo um grande valor, tinha de ser uma contrabandeada. Ela tinha uma, presente de um dos seus admiradores.

Bom, mas a calça jeans destoava da ocasião, pelo menos ela pensava assim; teria mesmo de arrumar uma maneira de ir a essa festa. Pensou em tomar uma roupa emprestada, mas não fez, porque o namorado parece ter entendido a sua ansiedade e lhe presenteou com uma saia lindíssima, do estilo que ela gostava. Estilo! Como se pobre tivesse direito à estilo, mas na verdade ela tinha mesmo um: era meio “Hippie”, gostava das roupas menos convencionais, “batas”, “calças estilo pijama”, “sandália de couro”, “roupas largas e compridas”, apesar de vestir muitos vestidos curtos que lhe valeram o apelido de “belas pernas” e de “bailarina das pernas grossas”. O fato é que seja de longo, seja de curto, seja de calça, sempre, mas sempre mesmo, chamou atenção.

Voltando às preocupações da festa. Ganhou a saia, e junto com ela uma sandália. A saia tinha nesgas. Era uma saia comprida com nesgas de um pano estampado e outras nesgas “jeans”, que se alternavam, era realmente linda.  A cintura meio baixa e a saia tinha muito movimento, porque do meio para o fim as nesgas cresciam e ela ficava bem rodada. A sandália acompanhava a saia; era também, de “jeans”, alta, com uma tirinha na frente, deixando a mostra todo o seu pé, que, sem falsa modéstia, sempre valorizou o calçado, porque muito bem feito. Bom, já estava mais de que vestida, mas faltava uma coisa: a blusa. Como arrumar uma blusa para usar com aquela saia? Já não podia falar com o namorado sobre isto, afinal ele já lhe presenteara com a saia e a sandália, seria, pois, uma grande sacanagem falar da blusa.

Teve uma idéia. Tinha em casa calças jeans antigas, velhas, desbotadas e entrou em ação, isto já na manhã da festa. A mãe costurava e ela pensou que ela poderia fazer a blusa.

Cortou as calças na altura da coxa, mediu o seu corpo na altura dos seios e pensou: Faço um "bustiê", deve ser assim que escreve, ou seja; uma tira de pano para cobrir os seios e já está. E foi o que fez. Cortou a tira, pediu à mãe que fizesse uma emenda no pano, dado que a largura não deu por inteiro, e que fixasse alguns colchetes no fundo. O que foi feito. Vestiu tudo, olhou-se no espelho, mas não gostou do resultado. A tira de pano parecia amassar seus peitos, não tinha movimento, ficou muito sem graça.

A hora da festa se aproximava e não se tinha solução para a blusa. De repente ela viu as contas de “santo” da sua mãe: colares de pedrinhas coloridas, muitos deles. Sem pestanejar pensou: E se eu colocasse estes colares como um suporte para esta blusa? Faria um nó na parte que ficava entre os seios e puxaria as contas até o pescoço, como se elas fossem mesmo um colar. Implorou á mãe que a deixasse fazer isto. A mãe não queria, porque as “contas” eram mesmo das suas obrigações com os santos, foram “lavadas”, “bentas”, enfim, tinham participado de todo o contexto da sua própria história, demonstravam quais os guias daquele “cavalo”(pessoa em que os orixás se manifestam), que era a sua mãe: “oxum", "omolú", "Iansã" "Nanã", e tantas outras, um belo colorido: amarelo ouro, azul turquesa, branco, verde. Depois de muito insistir a mãe cedeu, e ela colocou as contas como idealizara. O efeito foi maravilhoso. As contas fizeram a divisão dos seios e realmente salientaram a silhueta.

Quando o namorado chegou para pegá-la ficou entusiasmado. Ela estava simplesmente linda, a simplicidade da roupa, a excentricidade simples das contas, a sua própria beleza estava acentuada pela roupa, que lhe deixava à mostra a cintura delineada, o umbigo, o colo valorizado pelo desenho feito pelas contas. O cabelo encaracolado que lhe valera o apelido na faculdade “cabelo de ovelha”, completava o quadro.

Saiu de casa sabendo que estava realmente linda, mas, ainda assim, não sabia muito bem como se comportar em uma casa, para ela, “de ricos”. Afinal o dono da casa era um catedrático da faculdade. A filha aniversariante era colega de faculdade do namorado. O noivo dela, também era universitário, ambos estavam acabando o curso de direito. Moravam numa casa "chic" em um bairro "chic". A casa era freqüentada por empresários, artistas, professores, enfim, era um mundo completamente diverso do seu. O namorado lhe dava força, afinal ele queria mesmo é que todos conhecessem a sua nova aquisição.

E foi assim que ela entrou, pela primeira vez, naquela casa, que seria, durante longos anos da sua vida, um ancoradouro. Triunfante, viu os olhares sobre ela, tanto de homens quanto de mulheres. O seu namorado em nenhum instante desgrudou dela, parecia saber bem onde estava e com quem lhe dava. Os colegas de faculdade que ali estavam lhe diziam da sua beleza; estavam encantados, até porque nunca lhe viram tão arrumada assim. O dono da casa não lhe poupou os elogios, aliás, que se prolongaram até o resto da sua vida, ele era mesmo um admirador do belo, e ela estava incluída neste conceito, sempre lhe falava dos seus traços “gregos”. Ela ficava entre o envergonhada e o lisonjeada, tamanha a ênfase do admirador.

Nesse dia, conheceu muitas pessoas que seriam muito importantes e, em alguns momentos, fundamentais na sua vida.

Seguiu sua vida no meio daqueles que conheceu naquele dia de setembro do ano de 1973. Sabe que com o seu jeito simples conquistou muitos deles, que ainda hoje seguem os seus passos e continuam a se surpreender consigo, porque ela conseguiu mostrar que não era só bela, e sim uma grande e forte  mulher, capaz de driblar todas as adversidades, inclusive aquelas causadas por quem lhe apresentou àquela casa de sonhos e realizações.

As guias dos orixás da sua mãe, certamente, tiveram um papel fundamental em tudo isto: seguraram o seu peito e protegeram-na dos “maus olhados”. Eparrê! Atotô babá! 



sexta-feira, 22 de abril de 2011

MACACO NÃO OLHA PARA O RABO

Quando estive em Maputo – Moçambique, fiz muitos comentários a respeito da sujeira da cidade, da pobreza, do tóxico, da prostituição das jovens, transportes públicos, dentre outras.

As críticas, infelizmente, falavam de coisas reais, do que vi, do que presenciei.

Voltei para Lisboa, e talvez por isso mesmo eu tenha achado que Maputo era tão suja, não que Lisboa, em alguns sítios, não o seja, mas por estar acostumada com o sistema de coleta de lixo da cidade, principalmente onde vivo, em Carnaxide, em que não se vê acúmulo de lixo, embora, como em todo Portugal, os dejetos do “melhor amigo do homem” insistam em sujar toda o país. É que em Lisboa os donos de cães utilizam a rua como sanitário publico para os seus bichos de estimação, sem o menor respeito pelo cidadão, que a qualquer momento pode escorregar na “merda”, cair, ficar machucado, simplesmente pelo fato de que os educados proprietários de cachorros, acham normalíssimo o fato de levar os seus cães para fazerem as necessidades na rua, exercendo, assim, o direito de “cidadania” dos pobres animais.

Acho mesmo interessante conversar em Lisboa com os proprietários de cães, que levam os seus animais para fazerem as necessidades na rua; eles acham que tem direito a isto e que não incomodam ninguém pois fazem isto altas horas da noite, certamente para encobrir a sujeira e achando que assim, estão preservando os demais. Alguém chegou a me dizer, quando argumentei que os animais sujavam tudo, calçadas, jardins, grama, etc. que o cachorro dela era educado, que ela tinha o cuidado de levar o bicho num cantinho. É inacreditável, o português cobra tudo, tudo mesmo, faz criticas a tudo, se aborrecem por tudo, gritam uns com os outros, mas quando se trata de “animais” tudo é permitido. Imagine que eles se permitem levar os bichos para restaurantes e você tem de ficar comendo e espreitando o animal na mesa ao lado. Quem não esta acostumado com o bicho, quem não conhece o animal fica temeroso do que ele possa fazer e não adianta o dono dizer que ele é manso, que não faz nada. A questão é mesmo de educação, mas parece que em Portugal não se liga muito para isto. O hábito de levar os animais para sujar a rua está mesmo enraizado na população.

Pois é, não concordo com isto e acho mesmo uma grande falta de cidadania e de respeito para com o próximo, mui principalmente aquele que não tem animal e que é obrigado a andar com toda atenção na rua para não escorregar nos dejetos que decoram as pedras portuguesas, os jardins, as esplanadas.

Também falei de Lisboa com relação às drogas no Martim Muniz, Intendente, e adjacências e à mendicância, que no centro realmente é estarrecedor, pois os mendigos fazem casas de papelão nas portas dos grandes monumentos da cidade, a exemplo do teatro Dona Maria, das arcadas da Praça do Comércio, escadarias da estação de comboio do Rossio, no Martin Moniz, dentre outros lugares.

De Lisboa voltei para o Brasil, para minha querida Salvador. Que tristeza. Nunca vi a cidade em tamanha degradação. O lixo tomou conta dela. Na Conceição da Praia é até nojento andar nas ruas sujas. A frente do Elevador Lacerda, cartão postal da cidade, é uma desolação. O cheiro de urina entra pelas narinas lhe revoltando o estomago. Não se pode passar nas calçadas tomadas de ambulantes, disputa-se lugares entre eles para não ser atropelado pelos automóveis quando se anda no meio da rua. Lixo por todos os lados, pessoas feias, mal encaradas, prostituas, desordeiros, bêbados, uma coletividade inútil complementando a sujeira do local. Lágrimas me vieram aos olhos, mas não foi só na Conceição da Praia que isto aconteceu. A cidade alta também esta na mesma degradação. Subi o Elevador e, apesar de chorar de emoção ao olhar a Bahia de Todos os Santos, chorei de raiva ao passar pela Rua Chile em direção a Carlos Gomes. Tudo feio e sujo. Uma grande decepção mesmo, e eu me lembrei de Maputo, e tenho de me penitenciar.

Salvador não está só suja, acabaram com ela, com um dos seus grandes atrativos que eram as barracas de praia. A impressão que tive foi que um grande tsunami ocorreu na orla de Salvador. O governo local retirou todas as barracas da praia, alegando questões ambientais e da construção ilegal na área. Engraçado é que estas barracas estavam nos seus lugares há muito tempo, e a lei sempre existiu, mas nunca ninguém tomou providência. Permitiram que os “barraqueiros” ali ficassem, fizessem o seu meio de vida, para, num belo dia, em que alguém amanheceu de “ovo virado”, mandar destruir tudo. Foi destruição mesmo. Agora não temos mais barracas de praia com banheiro, água, chuveiro, cozinha decente, mas se permite que comidas sejam feitas na praia, barracas sejam armadas, xixi seja feito na areia, enfim agora é que se está politicamente correto, e que os cidadãos estão exercendo os seus direitos “ambientais”. Até seria louvável a iniciativa se realmente fosse esta a questão, mas não é, tanto que agora, já se pode construir arranha céus na orla. Será que estas construções que já estão em andamento e as que estão por autorizar não são contrarias às normas ambientais? Será que a retirada destas barracas não é uma maneira de preservar, dar segurança àqueles “classe alta” que vão ter condições de comprarem os imóveis de luxo que estão a ser construídos? Será que isto não é mesmo um favorecimento aos grandes empreendedores?

Como se isto não bastasse, estou andando de ônibus em Salvador. Terrível. Os ônibus sem qualquer conforto, sujeira dentro e fora dos ônibus, falta de cumprimento de horário, veículos sem quaisquer condições de trafegar. Os terminais depredados. A Estação da Lapa não tem condição de uso. Na verdade senti mesmo foi medo de estar ali.

Em São Cristovão não aconselho ninguém a tomar um coletivo. Aquilo deve ser coisa do Diabo, ou então estou pagando algum pecado que cometi, mas o pecado deve ter sido tenebroso, porque aquilo é mesmo uma provação. Fico imaginando o sofrimento dos trabalhadores que não tem escapatória, que não podem, como eu, tomar um taxi, sair dali e pegar um ônibus em outro local. Os ônibus não param no ponto porque os transportes alternativos “vans”, se fosse em Moçambique eram “chapas”, não permitem que eles se aproximem; resultado, temos que correr para o meio da rua para conseguir entrar neles. Um verdadeiro inferno. Além disto, os ambulantes estão por toda a parte tomando quase todo o passeio; os pobres coitados que vão tomar o coletivo ficam com uma nesga de passeio para aguardar a hora de se arriscar correndo para entrar no veículo e depois, aguardar uma outra forma de sucumbir: ser espremido dentro do próprio coletivo. É um verdadeiro horror, mas parece que isto não preocupa ninguém. O Sr prefeito de Salvador tá pouco se incomodando,agora está preocupado com as contas que o Tribunal de Contas do Municipio analisa.

Depois de tanta decepção, e já disposta a pedir desculpas a Maputo, fiz uma viagem para São Paulo.

São Paulo, para quem não sabe, é a capital financeira do país, não só financeira, mas o símbolo da nossa modernidade, da nossa cultura como um todo. Tudo acontece em São Paulo. Já há muito que não vinha até aqui. Ela me surpreendeu em muitos aspectos. Primeiramente fiquei orgulhosa de ver a modernidade. São Paulo tem metrô, tem sistema ferroviário - metropolitano, coletivos. Fiquei extasiada com as estações terminais, com as ligações, o transbordo, as conexões. Neste aspecto, se não fosse tanta gente a utilizar o sistema e ele já esta a precisar de expansão, a cidade não deve nada a nenhum centro europeu.

Andei na Paulista, fui a diversos shopping centers, fui aos Jardins, Alphaville, Ibirapuera, etc. Tudo maravilhoso. No entanto, no dia em que fui ao centro, que lástima! A Praça da República é um desalento, não recomendo ninguém a ir visitá-la. Deixe a República morrer, voltemos a Monarquia, talvez assim recuperemos a dignidade do local. A Praça em si está suja, porca. Marginais ocupam os seus espaços. A droga é cambiada em todos os lados, grupos de drogados se acomodam nos seus recantos. As carpas dos lagos já não se mostram porque a cor da água poluída sem limpeza não permitem que se exibam O lixo está espalhado em todos os lugares, as calçadas estão esburacadas. Quem vai até a praça se arrisca de todas as maneiras, pode perder a vida, como a bolsa e, por causa da bolsa, a própria vida.

A Avenida Ipiranga na altura da Praça da República está irreconhecível, sujeira por todos os lados.

Na Sé, outra decepção. Parece que agora temos um exército de desocupados ocupando os belos espaços de São Paulo, invadindo a história, mudando a história do nosso país. Fiquei triste, mais muito triste mesmo, mas, ainda assim, continuei a caminhada, queria ir ao Mercado Municipal, e efetivamente fui, até lá chegar mais sujeira, mais degradação, mais decepção.

Bem verdade que quando cheguei ao Mercado retomei a euforia de estar em São Paulo, pois aquele é um grande monumento. Volto a pensar em São Paulo como uma cidade bela, limpa, multicultural, uma grande metrópole, mas depois tenho de sair para voltar para casa, e aí, novamente, sujeira, pobreza, pânico.

Chego a casa sã e salva, a que custo. E aí me vem a certeza de que tenho de me desculpar para com Maputo, pois ela fica em Moçambique, África, que é, como se noticia, um continente pobre, subdesenvolvido, com uma quantidade imensa de analfabetos, doentes, subnutridos, embora dirigidos por grandes fortunas, que fazem parte de listas das mais ricos do mudo, embora, como as noticias demonstrem, as grandes ditaduras estejam caindo, o povo já não agjuenta mais.

Que direito tenho eu de falar de Maputo? Nenhum. Antes de falar de Maputo, preciso falar do meu próprio pais, da minha própria cidade, do lugar onde vivo. Maputo pode ter os problemas de que falei, pois esta incluindo num contexto de pobreza, de subdesenvolvimento, de analfabetismo, de doença, de fome. Mas como justificar tudo o que apontei no meu país em duas cidades completamente diversas – São Paulo e Salvador-? Uma representando o Sul e a outra o Nordeste, ambas com a mesma degradação, com a mesma sujeira, o mesmo descaso para com o patrimônio público. Depois, como justificar o que acontece em Lisboa, onde passo alguns meses por ano,em que encontramos todos os problemas aqui já referidos? Pois é: tenho de dobrar a língua quando falar de qualquer outro lugar agora, pois, como diria minha mãe:  "Macaco não olha para o rabo”!





segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ogunhê

Estive em uma festa para Ogum; São Jorge para alguns e Santo Antonio para outros. Foi lá em Arembepe, no Coqueiro. Emocionei-me em demasia. Os tambores me faziam arrepiar, uma crescente emoção tomava conta do meu corpo, e, o que dificilmente acontece, eu estava ali de corpo e alma, pois não me lembro de ter pensando em qualquer outra coisa diversa do que ali acontecia.

domingo, 10 de abril de 2011

Os dois zeros positivos da direita

Esta é a postagem de número 100 no blog. Acho que deve ser comemorada. Comemora-se 1000 gols de Pelé, 1000 de Romário, 100 do goleiro Cene que, contrariando a sua posição em campo, faz gols, então eu também posso comemorar a centésima postagem. Acho até que com mais direito de que eles, porque todas estas pessoas são pagas para exercerem, e bem, a sua profissão, portanto o resultando não deveria ser objeto de qualquer comemoração; eu, ao contrário deles, comecei o blog por motivos outros, que não profissionais, e tenho o prazer de, menos de um ano depois da sua criação, ter sido visitada por 5.565 pessoas de países diversos. Imagine que tenho leitor na Croácia, certamente algum brasileiro aventureiro, porque não posso me dar ao desplante de achar que é um croata que lê as minhas postagens, evidente que não todas, porque se assim fosse a estatística mostraria, ao menos, 99 visitas, o que não aconteceu, ainda espero os Emirados, a China e o Japão, seria muita pretensão?

Bom, o certo é que esta é a centésima postagem. Não sei bem como começá-la, porque queria falar de uma porção de coisas, mas só vislumbro mesmo é o número cem. O número sugere muita coisa, primeiro tem muito zero, e zero, na grande maioria das vezes, não é uma coisa boa, a não ser que esteja sempre acompanhando um outro número, porque aí ele funciona como multiplicador; 10 pode virar 100, 1000, 100000, o infinito, reparem que ele sempre tem que estar à direita, porque se ele for para a esquerda, antecedendo o número, a coisa fica preta, embora os da direita possam aparecer em vermelho, o que é outra merda. Pensem que a inferioridade que ele traduz nesta posição é tamanha que a gente ouve a expressão: “Você é um zero a esquerda”. Zero á esquerda é forte mesmo! É botar alguém muito para baixo. É uma valoração mais de que negativa. Eu nunca ouvi esta expressão em relação a minha pessoa, ainda bem! Mas já ouvi alguém falar para uma pessoa a quem muito amo e fiquei mesmo indignada, embora, eu que nunca fui nenhuma santa, já tenha despejado esta mísera expressão, em alguém. Quem a ouviu de mim, por favor, me perdoe, sou humana e a gente fala com raiva, o bom é que, ao menos alguns que já ouviram isto partindo desta minha santa boca, que devia ficar fechada mais tempo, tenham passado o zero para a direita em suas vidas e ficaram positivados. Espero, ainda, que outros consigam, estou torcendo muito, a experiência, agora, já me permite pensar assim e torcer até para quem, ainda, merece que os zeros se multipliquem na esquerda. Se no racional quero os zeros à direita, no passional, ainda tenho estes pensamentos, que embora fugazes, ratificam os zeros da esquerda.

Bem, mas também não quero fazer apologia, seja positiva, ou negativa, nem de pessoas e nem dos zeros, sejam eles, “de esquerda”, ou de “direita”, embora ache que até os da “esquerda” adorariam ter os zeros “da direita”, principalmente nas contas bancárias.

O fato é que esta é a postagem número cem. Durante quase um ano as postagens foram feitas, - o blog foi criado em  abril pela Vera, que também é a criadora das primeiras fotos e foi quem, pacientemente, me ensinou o que sei fazer com o blog em termos de colocar as postagens, fotos, “gadgets”. Acho muito engraçado as palavras que são introduzidas no nosso vocabulário por esta tecnologia, mas enfim, tenho de me acostumar, caso contrário vai aparecer um zero a esquerda no meu curriculum; como não quero isto, acrescento zeros à direita na minha conta bancária sempre em negativo e cheinha de zeros: tem horas que até me desespero com este multiplicador de tudo, de erros e acertos. O meu balanço geral sempre dá negativo e os zeros positivando a negatividade.

Vejam bem que contraste, o zero positiva a negatividade. Que perfeição de raciocínio eu tive agora, não me sabia capaz de falar do zero com tanta filosofia, positivar a negatividade foi longe, acho que estou muito feliz por ter conseguido dizer que o zero é de uma importância fundamental para as pessoas, porque ele, efetivamente, é um fator, de alegria, de realização, de felicidade, porque ele consegue o negativo e positivo ao mesmo tempo, ele pode, tanto trazer a felicidade como ser o algoz da nossa infelicidade. Mesmo quando ele vem do lado direito do número, pode significar muita dor, muito desespero, como também pode significar vitoria, felicidade. No meu caso, do "mot" que me levou a escrever este texto, ele é um elemento de prazer, de felicidade, de alegria. Quando, entretanto, olho a minha conta bancária, ele me dá a terrível sensação de “derrota”, de imperícia, de culpa, não sei lhe dar com dinheiro e faço besteiras, embora algumas delas não me tragam arrependimento algum, mas outras me dão uma terrível dor de consciência, mas os sacaninhas dos zeros ficam lá bailando diante dos meus olhos culpados.

Sim, mas eu estava falando do blog e da minha centésima postagem, mas as porras dos zeros ficam como flashes na minha mente. - Vá lá, fale de mim e não das suas cem postagens, até porque se eu não existisse você não poderia definir, tão bem, a quantidade de postagens. Eu sou retado, eu posso definir, determinar, sou quase Deus; posso, pois, tanto lhe dar prazer, como tirá-lo. Não me importo se me acham despótico, ditador; gosto de ser assim, portanto, como sou quase um Deus, vá esquecendo da sua postagem de número cem, que se você quisesse poderia ser a de número mil, embora eu não saiba se você consegueria leitores suficientes para ler tudo isto, e vá falando mais de mim e das minhas qualidades.

Vocês estão vendo que estou tentando afastar os zeros da minha “estória”, mas está sendo impossível. Queria falar de algumas postagens, mas o zero não deixa, me diz logo: “Você vai falar de como aprender a pagar dívidas? Não vai não: adoro aquela postagem porque ali eu fiz uma grande festa, e somente por causa de mim, da minha facilidade de multiplicação, você achou interessante o texto de Aristófanes que inspirou a sua postagem, embora eu ache que você queria mesmo era falar de mim para retirar a minha  importância aquela que tive para engrandecer as dívidas do personagem.”

Miserável de zero: pois não é que agora, que estou pensando neste cretino, vejo quantos zeros foram necessários para o personagem de Aristófanes se desesperar e procurar uma maneira “ilegal” legal de não pagar os seus “zeros” da direita?

Esqueço Aristófanes e o não pagar as dívidas, embora particularmente, isto seja impossível, e vou para a triste constatação: Que belo texto! Acho eu, mas aí o zero, de novo me cutucando: “Sabe quantos zeros estão incluídos naquela postagem? Ha.Ha.Ha....!Milhões deles, todos multiplicadores da negatividade. Eu fico orgulhosíssimo de mostrar ao mundo as cifras da miséria, do descaso, da impunidade, da imoralidade, da falta de humanidade, da falta de ética, da falha do direito, enfim, posso, apenas com o acréscimo de um dos meus irmãos à minha direita, acabar com a mentira, com a política apregoada pelos falsos defensores dos direitos humanos que somente sabem falar e não agem e deixam que os meus irmãos se acumulem à minha direita demonstrando o que eles tentam negar”

Sai para lá seu zero! Quero falar de coisas amenas, comentar meus posts. Se você não lembra, estou comemorando as cem postagens do blog.

- Já lhe disse que você poderia estar comemorando a de número mil, aliás, até eu ficaria orgulhoso de você, como ficarei, porque tenho certeza que, mais dia menos dia, você vai conseguir isto, embora eu tenha que admitir que vai ser preciso que eu acrescente alguns irmãos no saldo da sua conta bancária. Não se preocupe, porque espero que a negatividade se transforme em positividade, e você possa continuar tendo inspiração e escrevendo mais e mais.

Rapaz! Vou ter de parar: você está me atrapalhando e eu já não consigo me lembrar das postagens que quero comentar.

Cascais- Portugal

Praia do Piruí-Arembepe
 -Nada; você queria falar mesmo é de Portugal e de Arembepe, seus dois extremos atuais, ambos que lhe fazem acrescentar zeros positivos de negatividade na sua conta bancária, mas que você ama de paixão. Ambos merecem cada escrito seu e por isso mesmo você precisa ter paz e muitos zeros de direita positivos para continuar mostrando o que muitos não podem ver, mas podem sentir e se transportar, curtir através de você, sonhar guiados pelo seu sentimento, pela sua sensibilidade.

Olhe zero, vou parar; você tá querendo colocar palavras na minha boca, como a sua mania de ditador, você quer que eu fique aqui sem qualquer modéstia elogiando minhas próprias criações, sem qualquer pudor. Não quero ser narciso, portanto, vou ter de parar, mas antes tenho de deixar um agradecimento a todos quantos visitaram este blog. Muito obrigada mesmo! E que os zeros positivos de direita $$$$$$$$$ se multipliquem em suas vidas, Que os zeros positivos de direita tragam para vocês muita paz, muitas realizações, muitos sonhos realizados e realizáveis.

Viram! O zero, nem neste momento, me deixou em paz, então vou mudar o título da postagem: é o melhor que faço.

 Pirui- Arembepe


Arembepe, 10 de abril 2011

sábado, 9 de abril de 2011

Um dia de chuva

Está sozinha, uma constante nos últimos 10 a 12 anos de sua vida. Já se acostumara e há tempos que achava boa esta solidão compartilhada consigo própria e com as suas coisas, principalmente seu livros e o fiel e mais recente amigo, o “lap top”.

Dia feio para alguns, chovia, e ela deitada na rede olhava a chuva cair. Gostava de fazer isto, mui principalmente, sem intermediação de nada. Como estava na varanda podia ver e ouvir a chuva, a água caindo, o cheiro da terra subindo, respingos pelo corpo. A grama mais verde, viçosa, os cocos brilhando como se alguém tivesse passado vaselina neles, de um a um.

O telhado encharcado formava manchas aqui e ali. Uma goteira no meio da sala. Uma brisa leve entrando porta adentro, lhe fazendo arrepiar.

Quer estudar, se concentrar no que estava fazendo, mas é impossível, a chuva está linda, os pingos grossos podem ser visualizados com facilidade. A pitangueira, com a força da chuva, vai abortando as pitangas, as flores branquinhas caem uma a uma, não agüentam a força d água. O bouganville esta sem flores, não gosta de chuva, adora sol e, portanto, recolhe as suas flores “lilases”.

Às onze horas não abriram nem as onze, nem as doze, e não vão abrir mais, elas também gostam do sol.

As duas  amigas, no seu cantinho, ficam ali balançando as suas folinhas verdes finas e elegantes, sempre eretas, mas as flores que dão suporte ao nome estão retraídas, não saem. Devem sentir falta da mão que lhes colocou naquele refúgio.

A palmeira também não gosta da chuva, mas mesmo assim, as suas folhas estão verdes.

A chuva aumenta, ele vai ter de sair da varanda, vai deixar a rede, vai para dentro de casa, agora vai ver a chuva através dos vidros. Verá imagens distorcidas, porque o vidro é canelado, mas a cor é nítida, o verde da grama, o verde das palmas do coqueiro, a silhueta do bougainville, tudo muito bem definido.

A entrada da casa fica linda na chuva, as cores contrastam; o branco do muro e o verde da grama, a madeira do portão, tudo harmônico. O céu está cinza, mas isto não importa, amanhã ele retornará intenso, azul e branco.

Hoje o dia é para admirar a chuva e o seu efeito, não é para lembrar de sol e nem de céu azul.

O dia é cinzento e belo como deve ser um dia cinzento, propício ao aconchego. Pensa na música de Djavan e, fatalmente, lembra de quem muito gostava do compositor. Lembra do verso. “E o meu jardim da vida ressecou, morreu, do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”. Entende o verso, mas não concorda com a discriminação, Maria,Margarida são belas e iguais.

A voz cálida de Caetano Veloso sai da casa vizinha e alcança a casa dela, volta no tempo, pensa em quantas vezes e em quantas situações já ouviu aquela música. Uma vez ela lhe foi oferecida pelo próprio autor, não que ele o fizesse “spont sua”, um amigo pediu para que ele o fizesse, e ele o fez: “[...] Você é linda e sabe viver, você me faz feliz, esta canção é só para dizer e diz[...]” Não quer recordar, levanta vai até a porta da frente, pela greta do portão vê que a rua está cheia de água barrenta. Um carro buzina, insiste, ninguém vai atender, porque chove mais e mais.

Ela continua só, volta e deita novamente na rede e, deitada na rede, lê Lombroso e a sua teoria sobre os criminosos natos e pensa consigo mesma: Será que Lombroso teve alguma vez, um dia deste? Será que ele parou um dia para ver a chuva cair e pensar em absolutamente nada, apenas olhando e se encantando, constatando que realmente existe uma força enorme, grande, envolvente, que é capaz de fazer dias quentes, escaldantes até, e no dia seguinte manter o equilíbrio natural com um belo e gostoso dia de chuva, como o de hoje? Não, ele não devia ter tempo, estava muito preocupado em analisar os sinais exteriores dos “delinqüentes” e estereotipá-los de uma maneira cruel. Com Lombroso o nascer feio e nordestino já deveria ser um grande indício de criminalidade latente. Ah! se ele hoje vivesse para ver um menino dos olhos azuis, alto, com crânio “dolicéfalo” (alongado) delinqüindo como qualquer um dos seus estereotipados de crânio “braquicéfalo” (arredondado,achatado). Que faria ele?

Quer desviar o pensamento de Lombroso e olha o peixe de acrílico pendurado na parede, está todo molhando, parece que agora está mais próximo do seu habitat.

Mais uma música chama a sua atenção, esta vai bater mesmo lá no fundo, lembra do tempo que ao entrar no carro do seu “amado” ele sempre colocava a fita cassete, ainda era assim, “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar...” Tem vontade de chorar, mas resiste, afinal, ela só estava olhando a chuva e não queria lembrar-se de nada, não queria ter saudades, queria apenas ver a água cair limpando tudo por onde passasse, purificando o ar, lubrificando a vida, deixando a natureza mostrar toda a sua potencialidade

A chuva continua, mas a música conseguiu quebrar mesmo todo o encanto, vê que não está tão sozinha assim, pois a sua vida foi invadida pela vida de outrem que, por motivos diversos dos seus, gosta da música que lhe transportou ao tempo em que podia dizer que era “amada” e amada de alguém.

Vai para a chuva, talvez a água possa tirar de si as lembranças. Brinca embaixo da chuva, volta a um tempo em que não tinha lembranças, apenas esperanças. Olha em redor e vê o verde, sorri. Sai da chuva se enxuga, volta a estudar, está clorofilada.

Arembepe, abril 2011

domingo, 27 de março de 2011

Uma referência

Atravessou o Atlântico há três anos, não antes de ter percorrido muitos kilometros em diversos sítios do outro lado. Diversas vezes esteve em Cascais, Estoril, Sintra, Almada, Porto. Andou pelas ruas, ladeiras e escadarias de Lisboa. Desceu muitas e muitas vezes a escadinha de Carnaxide, umas vezes calmamente, outras vezes correndo para não perder o horário do “autocarro”. Chamava atenção pelo brilho, pelo lacinho que trazia sempre consigo
Quantas e quantas vezes andou pela Rua Augusta, soberana, vaidosa, sabendo que chamava atenção.
De tanto fazer sucesso, foi procurada inúmeras vezes, pois queria uma sósia urgente, porque quando ela acabasse, estivesse no seu final de vida, dando os últimos suspiros, poderia ser substituída, infelizmente, ou felizmente, porque depois entendeu perfeitamente que seria insubstituível, porque uma sósia jamais passaria ou viveria as emoções que viveu e os fatos que presenciou.
No comboio, no metro, nas calçadas da Cidade Universitária, nos corredores da Faculdade de Letras e na biblioteca da Faculdade de Direito, deslizava silenciosa, era cúmplice do silêncio e se esforçava mesmo para não incomodar ninguém, o que não era muito difícil, porque era levezinha e parecia mesmo flutuar.
Bom, mas teve mesmo de atravessar o Atlântico, e o fez, embora guardada, cuidadosamente guardada, para não perder o seu brilho.
Chegou a Salvador, saiu do Aeroporto já com uma ansiedade imensa, queria ficar livre, conhecer outras praças, outras praias, outros lugares; já trazia a certeza, no caminho, que não mais seria a mesma, era impossível. Atravessar os mares e ser a mesma: nunca! Afinal, cada dia é diferente do outro, mesmo que se pense que tudo é igual, há de se notar que sempre há um detalhe que faz com que as coisas possam ser semelhantes, mas, nunca iguais.
Estava demorando muito, ela sentindo a pressão de muita coisa em cima de si. Queria sua liberdade, queria andar, sentir os cheiros, ver pessoas, visitar lugares, o que sempre fizera, e que queria continuar fazendo.
Saiu do Aeroporto de Salvador e sabia que estava sendo transportada para algum lugar, que não era assim tão perto, estava angustiada, nervosa; então ela estava em outras terras e ninguém se lembrava dela, de lhe dar a sua liberdade,fazê-la retornar ao seu ritual, que ela amava de paixão? Que droga!
De repente sente que o carro parou. Sim, ela tinha chegado á algum lugar, percebe que alguém lhe tira de dentro do carro, começa a ficar mais e mais ansiosa. - Para onde me levam? Que lugar é este? Ouço vozes desconhecidas, quem são estas pessoas?
Tudo para, fica quieto; ouve apenas uma batida de porta. Otimista, pensa: - Bom, agora entraram em casa e eu vou ficar livre, vou poder sair deste aperto e vou cumprir a minha função e os meus desejos, que nada tem a ver com a situação que me encontro agora
Engano seu; a porta bateu sim, mas é porque saíram da casa deixando-a presa e sozinha com a sua ansiedade, com o seu nervoso.
Não havia o que fazer, a não ser se acalmar e esperar; felizmente, estava junto de algo cheiroso, mesmo muito apertadinha, estava confortável e apreciava aquele cheiro de perfume masculino.
Espera: o tempo passa, mas nada acontece. Horas passam, parecia uma eternidade, até que, finalmente, LIBERDADE! Retiram-na da sua prisão, ela vê um ambiente onde nunca esteve, é colocada junto à parede. Sente a textura do chão, é diferente de onde já havia pisado. Que lugar seria este?
Reconhece a voz, a respiração de alguém muito próximo, fica menos aflita, estava em ambiente amigo, com certeza.
Vê que alguém procura alguma coisa em uma mala e pensa: - bom, eu já estou em liberdade, mas não quero ser egoísta e desejo que todos os outros, que vieram comigo nesta aventura, fiquem livres, e parece que isto vai acontecer agora, e percebe que muitas coisas são libertadas.
Parece que o dia esta findando! A casa fica muito silenciosa, o quarto onde está, e agora sabe mesmo que é um quarto, fica escuro, vê que a pessoa que mexe nas malas, que fecha as janelas, que sai e entra do quarto, vai deitar, parece muito cansada.
O dia amanhece e ela percebe que a casa começou a se movimentar. Pensa consigo: - bom, agora vão me levar para fazer um reconhecimento do local onde estou, mas percebe que ainda não está na hora, outro companheiro foi escolhido para fazer tal reconhecimento antes dela. Se enfeza, mas fica quieta, sabe que voltará a ter os seus dias gloriosos.
Aconteceu nessa mesma tarde. Junto com a sua companheira, sua dona na verdade, pisa em pedras desconhecidas, caminhos nunca antes trilhados. Sente a textura do solo, duro, pedras mesmo. Há altos e baixos, entra em becos não muito limpos, sente odores novos, percebe que há uma grande diferença entre esse espaço e o que costumava freqüentar, mas não se incomoda muito, afinal é uma aventureira, gosta de coisas novas, de descobrir coisas, de ser feliz com a liberdade.
Ouve vozes, pessoas felizes abraçando a companheira, tão eufóricas que terminam lhe machucando sem querer. Agüenta firme, vai ser notada com certeza, alguém vai lhe olhar e lhe dizer o que sempre ouviu, e o que nunca é demais: Que coisa linda! É muito interessante! Onde você achou isto!
Não demorou muito, aliás, muito menos do que poderia ser: A pisada teve o seu efeito porque quem machucou agora estava preocupado e olha diretamente para si: AH! Espanto!!! - Que coisa linda!
Pois é, comprei em Lisboa, fala a companheira, que também a adora.
Este foi o seu primeiro e glorioso momento em terras outras. Outros mais deveriam chegar rapidamente e as oportunidades surgiam agora aos borbotões.
Foi a Salvador, andava pelas ruas da cidade, sabia que era olhada, tinha a sensação de que, a qualquer momento, alguém ia levá-la consigo. Todavia ela não permitiria, gostava da sua companheira, afinal ela a descobrira e lhe dera esta vida que adorava.
Entra no ônibus para voltar a casa, alguém lhe olha com mais intensidade. - É agora: vão me pegar. O que faço? Como devo reagir? A companheira percebe o interesse e discretamente a puxa para embaixo do banco. Esta protegida, graças a Deus!
É verão, vai ter festa onde mora. Produzida, ela vai para a rua, toca música de carnaval, toca samba, ela vai deslizando no asfalto quente: se mostra, vai para trás, para frente, de um lado para outro, sabe que chama atenção e adora isto.
O asfalto esquenta o que já estava para lá de quente, sente o suor escorrer, molhar tudo, mas não se intimida, quer experimentar todas estas novas sensações.
Encontra amigos, que a olham maravilhados. Vê uma mulher que diz à companheira: - Você desliza mesmo no asfalto não é? Fico impressionada quando você passa sozinha embora com todas estas pessoas junto de si, mas é como você estivesse saboreando os momentos sem se preocupar com ninguém. É isto mesmo, é assim que ela sente, ela e sua companheira são assim, se entregam, sentem, parecem sentir mais de que os outros as emoções.
Os dias passam, ela agora já tem material para fazer a sua história deste lado do Atlântico, neste em que esta agora. É diferente, é outra vida, outra cultura. Aqui a segregação (pretos e brancos) é menor. Todos a apreciam, independentemente da cor; somente a sua própria cor é que realmente chama atenção. Brilha onde quer que vá, é alvo de comentários, é elogiada, e se mostra, se amostra mesmo, gosta disto.
Um dia, andando vagarosamente com a companheira pela praça da cidade, ouve um amigo dizer-lhe : - “Rapaz o seu pé é uma referência nesta cidade”. Se sente a gloriosa, estão falando dela. O papo continua: - “Quando a gente vê você olha diretamente para o seu pé, porque é mesmo uma referência nestas festas daqui”.
Está para lá de feliz.
Vai a uma outra festa popular, desta vez em Itapoã: ela e sua companheira. Um amigo se aproxima e diz: - Que maravilha? Onde você consegue estas coisas de tanto bom gosto? Sua companheira diz: - Foi lá em Lisboa, na Zara de Lisboa, tenho procurado outras, mas não acho mais.
Mais adiante, já cansadas, ela e a companheira sentam. A companheira lhe deixa mais a vontade, ela precisa respirar direito, está molhada de suor, na verdade ensopada. Um homem aproxima-se delas, senta ao lado, rapidamente a companheira lhe coloca no seu devido lugar. Sente o chão de areia e sente a proximidade da pessoa que chegou, que fica ali, numa conversa mole danada. A companheira, mais uma vez, lhe deixa livre, lhe deixa respirar. O homem olha diretamente para ela, afaga os pés da sua amiga, mesmo sem retirar os olhos de si. A companheira diz para ele largar o seu pé, está com chulé. Ela se sente ofendidissíma, então ela ia ter chulé, ia ficar mal cheirosa. Que é isto companheira? Aí vem o inesperado: o homem diz a companheira, você não tem chulé; você esta é suando muito, dizendo isto lhe pega e lhe cheira e completa: que cheiro bom de vida, aliás, é uma combinação perfeita, você e a sua companheira: você fica parecendo uma princesa.
Ela se sente gloriosa, sempre recebeu elogios, mas nunca assim, tão calorosos, tão sentidos, tão gostosos, tão afáveis.
Pisa mais forte na volta a casa, afinal, fora mesmo afagada por outras mãos que não a da sua companheira e amiga.
Os dias passam, a companheira volta a cruzar o Atlântico, ela fica aqui, aguardando a sua volta. Fica triste, bem verdade, mas sabe que já não agüenta fortes emoções, além de saber que a sua companheira quer preservá-la, quer lhe prolongar a vida, lhe dar mais emoções, guardar a sua relíquia.
E é o que acontece, fica guardadinha, mas, todos os anos, durante o verão, ela sai do seu armário, folgosa, brilhante, com todo o seu fulgor, arrancando, por onde passa, as recordações das suas passagens pela cidade, recebendo elogios de todos. Vem lutando para sobreviver, sabe que o seu fim está próximo, mas resiste, não quer dar o braço a torcer, não quer ser aposentada, não quer ser velha, não quer ser inútil, e aceita que a companheira lhe dê cuidados, que outrora não admitiria. Esta ali, cansada, andou muito ontem, pulou, sambou, se molhou, se mostrou. Um amigo falou de si para outros amigos, cinco pessoas, de uma só vez, lhe olham e balançam a cabeça afirmativamente, porque concordam com a apresentação feita.-  São lindas não são? O seu pé fica lindo, tão pequenininho, tão certinho, pés de princesa.
Sim, quem faz este pé de princesa, quem faz a referência do pé da minha companheira sou eu:

Descansando
Em plena atividade

    As
                          Sapatilhas


         Douradas
  


sexta-feira, 25 de março de 2011

Brahma e Amor - Combinação Perfeita

Estava ela sozinha; se dirigia ao Mercado Municipal e depois iria, mais uma vez, cruzar a Ipiranga, ali onde ela confronta com a Avenida São João. Iria ao Bar da Brahma, ia tomar o chopp e comer a feijoada tradicional do dia de sábado. As coisas agora estavam diferentes, nunca estivera no Bar da Brahma durante o dia, só ia ao final da tarde e ficava ouvindo o piano, lá em cima no primeiro andar. Gostava disto. Ficava sentada à mesa ao lado do piano, porque assim poderia pedir músicas ao velho pianista, que ainda usava o terno, possivelmente, do último casamento. Era um senhor dos cabelos ralos, bem magro e que fumava muito. Naquele tempo ainda se fumava, sem qualquer constrangimento, dentro dos bares.

Tinha uma sensação esquisita. Seria saudade? O pensamento logo se dissipa, não poderia ter saudades, pois quem a levou até ali outrora, certamente, tinha levado tantas outras mais, portanto não precisava ter qualquer tipo de sentimento, quanto pior, saudades.

Entretanto não quer falar do bar da Brahma, quer falar mesmo é do acontecido no caminho para ele.

Entrou no metro soltou na Estação da Sé, pois queria ir ao Mercado Municipal, onde efetivamente foi. Queria ver os bares do primeiro andar, olhar os vitrais do mercado, as frutas arrumadas mostrando a sua exuberância de cores e diversidade de origem. Ficava encantada. Deliciava-se sozinha nesses lugares, sempre foi assim. Adorava passear pelos mercados. O de São Paulo então, com toda a sua imponência e beleza era um dos preferidos. Lembrou-se da Ribeira, ou seja, do Mercado da Ribeira em Lisboa, fraco em relação ao de São Paulo. Fez uma comparação com o de Barcelona, talvez mais “internacional” de que ele, mas não mais bonito.

Não só gostava de Mercados, como também de feiras livres, não tinha qualquer preconceito em fazer tais passeios em dias de sábados e domingos, sempre adorou a fartura, a diversificação, as cores dos alimentos.

Bom, estava ali no Mercado olhando, exatamente, o bacalhau. Lembrou-se que alguns portugueses que vieram ao Brasil lhe disseram que não encontravam bacalhau bom, que os que aqui vendiam eram amarelados. Certamente não estiveram no lugar certo, porque aqui tem bacalhau que nada deixa a desejar ao bacalhau que se compra em Portugal, muito pelo contrário.

Foi exatamente nesta barraca do mercado que tudo teve o seu início. Estava sozinha e não tinha com quem comentar o preço do peixe, e aí deve ter falado alto da exorbitância do valor do pacote de bacalhau embalado a vácuo. Quando fez o comentário ouviu:

- Realmente é muito caro, mas não se acha um filé de bacalhau assim toda hora.

Virou-se para olhar quem fizera o comentário:

Um homem alto, moreno, de cabelos prateados estava ao seu lado. Usava óculos escuros e ela não lhe pode ver os olhos.

Comentou alguma coisa, mas saiu do local dirigindo-se a outra banca que vendia bacalhau

Ah, este sim, este esta bom e o preço era um pouco inferior ao do outro. Pediu 2 kg e ia pagar a bagatela de 140,00 (cento e quarenta reais)

- Bem que eu podia ser convidado para o banquete.

Virou-se novamente, e para sua surpresa o mesmo homem estava ao seu lado.

- Sorrindo disse. Impossível, este bacalhau vai para muito longe

- Distância não é problema se o convite for feito. O riso de dentes perfeitos iluminou o rosto daquele belo homem.

- Rindo, diz que é realmente impossível.

- Como impossível? Quem tem de saber se é impossível ou não sou eu que vou ser convidado, pois quem vai ter de se deslocar, procurar endereço, ir até o local sou eu.

Novamente um sorriso. Paga o valor do bacalhau, coloca tudo na bolsa e continua andando pelo mercador, perambulando só, pois não ia comprar mais nada, afinal estava mesmo indo era para o Bhrama.

Para aqui, ali, olha uma fruta com o nome estranho. Compra 100 gramas de gengibre desidratada, come uma, uma maravilha. Percebe, pelo canto do olho, que o homem lindo dos cabelos grisalhos lhe acompanha.

Apressa-se, tem de chegar até, pelo menos, as três no Bhrama, pois queria mesmo comer a feijoada, estava com saudades da couve, da laranja, dos pés de porco, dos embutidos.

Anda rápido para a saída, tá meio perdida, pois não sabe que lado seguir.

- Para onde você vai?

- Quase grosseiramente volta-se e diz:

- Com certeza não é para o mesmo lugar que o senhor.

- Quem sabe? Se você disser onde vai posso estar indo para o mesmo local. Uma coincidência ou uma estratégia: fica por conta do destino.

Acelera o passo. Na verdade não queria dar trela aquela conversa mole, ia almoçar sambar, beber, não havia lugar para devaneios, mudanças de planos.

O homem continua a seguir-lhe.

- Diga aonde vai? Possa ser que eu encurte o seu caminho. Estou vendo que você não é daqui, posso mesmo te ajudar.

- Não obrigada, sei perfeitamente onde vou e como chegar, portanto...

-Não seja assim, você esta sendo grosseira com alguém que quer apenas lhe ajudar e ter o prazer da sua companhia

- Que grosseira o que? Só não quero ser incomodada.

Segue quase correndo em direção à Sé.

De repente pensou. Poxa queria ver direito a cara deste homem, e só havia uma possibilidade, parar e olhar mesmo para ele, e foi que fez.

O homem era mesmo lindo. Moreno, dentes brancos e bonitos, boca desenhada, nariz fino, cabelos grisalhos. Não viu o olho, ele continuava usando os óculos escuros.

Com a sua inesperada reação, o homem fica parado e, parecendo ler os seus pensamentos, tira os óculos e lhe estende a mão: Roberto Garcia.

Ela, não tendo saída, também estende a mão e lhe diz o seu nome.

Surpreso ao ouvir o sobrenome lhe pergunta qual a origem do apelido, ela diz que é da família do seu pai. Passam alguns minutos conversando sobre os apelidos, sobre a família, sobre terras distantes. O gelo foi quebrado, e o homem pergunta se pode, agora, lhe acompanhar.

- Ta bem, mas para onde vou agora não sei se é mesmo o seu caminho, portanto...

- Se você não disser para onde é, não posso saber se é ou não caminho.

-Vou ao Bar da Brahma.

- Como? Você vai para onde?

- O que você ouviu; Bar da Bhrama

- Não posso crer, pois estava mesmo fazendo hora no Mercado para encontrar alguns amigos para ir exatamente ao Brahma. Vamos comer a feijoada e ouvir música.

- Sim, e cadê os seus amigos?

- Eles sabem que se não me encontrarem no Mercado me encontram aqui, no Bar.

- Ela se deu conta que já estava quase na Praça da República, vinha conversando e não percebera que chegaram rapidíssimo.

Outro momento de nostalgia pura, olhou para o Hotel em frente ao Bar, rememorou muita coisa. O amor, a amizade, o prazer de estar ali acompanhada de alguém que muito quis, e que pensava que lhe queria, mas não podia ficar triste, não podia demonstrar esta saudade assim a um desconhecido, que, entretanto percebeu uma modificação na sua voz.

- O que foi? Aconteceu alguma coisa? Parece que você ficou triste repentinamente?

- Não, apenas não consigo perceber como deixam esta cidade ficar desta maneira. A Praça da República tão suja deste jeito, drogados por todos os lados, a água dos lagos turva de uma maneira que não se pode ver os peixes, enfim, o descaso do poder publico em relação ao patrimônio publico.

- Não acredito que este tom melancólico seja só por isso. Acho que tem algo mais de que isto? Vamos lá, diga o que se passa com você.

- Nada, nada mesmo, é melhor entrarmos, pode ser que o seu pessoal já esteja ai te esperando, por outro lado tenho de arrumar um lugar para ficar, pois estou sozinha como você pode ver, e não vou encontrar quem quer que seja aí dentro.

Roberto, procurando sua mão disse:

-Você só vai estar sozinha aqui se quiser. Você pode ficar comigo e com os meus amigos, eles não vão se importar de nenhuma maneira, mas se você não quiser estar com eles pode ficar comigo sozinho, o que até prefiro, pois quero conhecer bem esta mulher que traz tanta tristeza no olhar.

-Ela sorri e diz que não vai ficar com ninguém, que já estava acostumada a estar sozinha e que isto não era problema.

Ele insiste e segura a mão dela e vai entrando.

O bar esta um pouco diferente dos tempos de outrora, quando ela vinha para o happy hour, mas nada que o desfigurasse tanto e não a fizesse retornar a um tempo que já podia ter sido apagado da memória, mas era impossível, aquele lugar realmente lhe trazia muitas recordações mesmo, recordações boas, que insistiam em lhe fazer ter saudades. Era completamente impossível não voltar no tempo.O mesmo trio tocava as mesmas músicas de antes, lágrimas escorreram no seu rosto. Num gesto inconsciente apertou a mão que segurava a sua, o que fez com que Roberto lhe olhasse.

-O que há? Por favor, diga o que você tem? Por que tanta tristeza? Fazendo estas perguntas toca-lhe o rosto tentando limpar-lhe as lágrimas.

Não adiantava, as lágrimas insistiam em correr, era impossível tentar reter esta emoção. Vira-se para Roberto e diz:

-Não adianta, não vou ficar aqui, pensei que seguraria esta emoção, mas ela é forte demais. Vou embora.

- Vai nada. Seja lá o que for, você vai superar isto. Vamos entrar de uma vez. Vamos ficar um pouco na varanda depois entraremos para comer a feijoada e dançar um pouco. Você está muito linda e precisa ser vista, admirada, todos tem de lhe ver e quero fazer inveja aos meus amigos por estar com uma bela mulher como você.

- Sorriu, tentou enxugar as lagrimas, embora soubesse que a cada passo recordações outras viriam. Era como se estivesse revivendo momentos muitos felizes, eles insistiam em lhe mostrar o quanto ainda o passado estava presente em si.

A mão forte de Roberto apertava a sua, parecia querer lhe dar força, lhe dar a segurança que ela precisava para entrar ali, estar ali, ficar ali. Podia ser aquele o momento muito importante para quebrar tantos elos que a ligavam a um passado que tinha de ser esquecido, pensando bem, aquele homem tinha caído do céu. Devia ser um anjo enviado de Deus exatamente para cumprir esta missão junto a si,

Entrou definitivamente com passos fortes, altiva, segura, como costumava entrar ali outrora.

- Ei, Roberto. Alguém chama. Ele vira-se e lá estão uns cinco homens, quase todos da mesma idade, uns cinqüenta e poucos anos. Todos com boa aparência e sozinhos.

A mão sente uma pressão mais forte, era como se ele quisesse lhe dizer. Vamos lá, não tema nada, eles não vão fazer mal. Eles se encaminham para o grupo.

Realmente ela notou a impressão que causava. Os cinco parados com uma cara de interrogação que chegava mesmo a dar dó. Ela percebeu isto, embora eles pensassem que evitaram o efeito surpresa, mas efetivamente não conseguiram

- Esta é Jade, uma velha amiga que encontrei no Mercado quando me afastei de vocês. Ela vai ficar conosco, pois está sozinha aqui em São Paulo. Ela não queria, mas eu lhe disse que não havia problema algum, ato continuo foi lhe apresentando a cada um deles, que lhe apertavam a mão e apressavam-se em dizer que não tinha problema algum.

- A música tocava, os copos de chopp esvaziavam, enchia, um turbilhão de pensamentos passava pela cabeça dela, que tentava disfarçar todas as emoções. O seu corpo, de vez em quando tremia, tinha um arrepio, e a mão que estava segurando a sua, fazia uma pressão maior.

As horas passavam, o chopp já começava a fazer o seu primeiro efeito, ela tinha de fazer xixi. Falou com ele que iria ao sanitário.

- Eu te acompanho. Não quero que ninguém pense que você esta sozinha aqui

- Não precisa, sei o caminho, é rápido.

- Nada disto. Não vou dar chance ao destino. Já te encontrei, agora não deixo você mais nunca na minha vida, Esperei durante 57 anos para encontrar você, idealizei tudo, os cabelos encaracolados, a cor da pele, o corpo, a maneira de vestir, de andar, de chorar, a agressividade, tudo. Estou preparado para você e não vou deixar nunca que você saia da minha vida, portanto eu vou com você ao banheiro, todos têm de saber que você esta comigo e que é “minha”

“ “Minha”, tá doido homem. Sou de ninguém não. Não pertenço a ninguém e detesto esta possessividade. Tenta tirar a mão que lhe prende, mas ele não permite.

Pede licença aos amigos e diz que vai acompanhá-la até o sanitário. Ela não tem outro jeito que não segui-lo. Ele vai à frente abrindo o caminho na multidão. Ela o segue, ainda resmunga o “minha”, mas vai, começava a gostar daquilo, do jogo, da sedução, do momento.

Chegam ao banheiro e ele vai para o masculino. O dela tem fila, tem de esperar muito. Quando finalmente, depois de uns vinte minutos, sai do banheiro ele está ali, esperando sorridente:

- O que houve? Parece que você estava mesmo carregada não?

-Claro que estava, mas a demora foi porque todas as mulheres parecem ter resolvido ir ao banheiro juntas, no mesmo momento.

Ele torna a pegar na sua mão e vai, de novo, na frente abrindo alas. De repente ele se vira para ela e puxa-a para si num gesto tão rápido que ela sequer pode esquivar-se. E ali, no meio daquele turbilhão de gente, de pensamentos, de saudades para ela, eles trocam o primeiro beijo de uma relação que duraria para o resto das suas vidas.

Quando chegam junto dos amigos todos sorriem, parecem saber o que esta se passando entre eles.

Uma sensação muito boa a invade. Sente, naquele momento, que tudo tinha acontecido no tempo certo, que ela precisava ter retornado ali, onde vivera tantos momentos bons, para ter a certeza de que o passado tinha ido para o seu lugar, aliás, onde sempre esteve, e que, um grande amor estava mesmo para começar. Deixou-se levar.

Um ano depois deste encontro mudou-se para São Paulo. Está feliz. Vai muitas vezes ao Brahma, já não chora de qualquer lembrança, agora se lembra apenas de viver, viver a vida e agradecer a Deus por ter voltado a esta cidade e ter ido ao Brahma, local onde, por duas vezes, viveu e ainda vive, um grande e imenso amor.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Passional !

O blog existe, faço as postagens com textos, figuras, comentários, dou sugestões, enfim, escrevo sobre coisas, muitas delas, sentidas, doídas, vividas. Disseram-me que ele está muito passional e que não foi feito para isto. Como não ser, entretanto, passional se tenho de falar de sentimentos, de coisas que aconteceram, de momentos vividos?

Fico pensando, como escrever sem ser passional? O escritor há de, e obrigatoriamente tem de, ser passional, faz parte do “escrever” do dizer, do fazer o outro sentir. Se não há o sentimento no escritor, seja ele bom ou ruim, seja ele falando de coisas amenas, agradáveis, felizes, seja ele falando de catástrofes, misérias, desamor, desespero, o leitor não vai captar a mensagem.

Não há que se ter estilo ao escrever, o estilo foi coisa pensada pelos críticos para que os criadores da palavra, do sentimento, fossem classificados como se classificam bichos e plantas.

Escritor não tem estilo, escritor tem sentimento. Um analista não é um escritor, porque este sim, não cria nada, analisa o que existe, o que foi criado, aquilo que alguém, com sentimento, já disse. Ele é formador de opinião, que, inclusive, critica o trabalho do escritor, aquele que sente. O critico, dependendo da conveniência, pode até ser pago para dizer até mesmo uma inverdade, inverter fatos, pensamentos, sofismar.

A ficção não é assim tão abstraída da vida de cada um.Quando ela esta sendo criada o mundo do escritor, a sua vida, insiste em se mostrar, não há como separar a alma do criador da alma da criatura. Em cada personagem que se cria, em cada acontecimento que se descreve, em cada opinião que se declara, está um pouco do que o escritor vive ou viveu ou sonha viver, ou tem conhecimento porque alguém já viveu a estória. Não se pode desagregar um do outro, o autor da sua criação. O escritor pode agregar fatos a um determinado fato, aquele que o inspirou, exatamente para que a estória seja viva, cruze vidas, informações, sentimentos, envolva o seu leitor.

Se não houvesse sentimento, se não houvesse a paixão, o escritor seria um homem de uma obra só, faria uma coisa linear, e pronto, tudo acabado, esgotaria tudo em um só momento. Escrever, falar de, seja em uma linha, seja em duas, seja em mil, não interessa a quantidade, o que interessa é o “dito”, o que mexe com o sentimento próprio e os dos leitores.

Não sou literata, não quero estilos. As criticas não me atingem porque não tenho pretensões maiores com os meus escritos, não devo incomodar ninguém ao ponto de receber quaisquer críticas, sejam boas, ou más, com ou sem razão, por isso mesmo posso ser passional, dizer de mim e sobre mim e de minhas coisas.

Sei que quem me disse que os “posts” estavam muito passionais e que o blog não se propõe a isto, quer me preservar, sei do seu amor por mim, e sei que, por ter participado de minha vida, sabe perfeitamente que a grande maioria das coisas que ali se contém foram mesmo vividas, sentidas, choradas, sofridas, enfim, é a minha história e a de muitos que dela participaram. Sei e agradeço, mais uma vez, tanto amor por mim, tanto cuidado, tanto sentimento, tanta “paixão”.

Mas quando falo de mim e das minhas vivências tenho certeza que, o leitor, ainda que não saiba de mim e das minhas coisas, percebe que ali há verdade, que aquilo foi vivido, que aquilo é possível, que realmente que passei pela experiência, ou que teve alguém muito próximo que passou por ela. Não faço um diário, evidentemente, mas faço a minha vida ser vivida por quem se dispuser a ler os posts, até para que possa servir de exemplo para que as pessoas percebam que tem de se preservar para não passar pelo mesmo. Não tenho pretensão de fazer qualquer coisa parecida com auto-ajuda, mas as vezes a experiência de alguém pode evitar que outro erre, ou sofra por algo que pode ser evitado.

Um dia, alguém me disse que eu tinha uma capacidade enorme de colocar o leitor dentro do texto, achei um comentário interessante, pois foi o primeiro ou segundo texto que publiquei. Então, como eu consegueria colocar um leitor acompanhando os meus passos, indo comigo aos lugares, sentando ao meu lado para um “copo”, para uma “dança” se eu não tivesse escrito aquilo com paixão? Se eu não conseguisse demonstrar a possibilidade real do fato ser vivido e sentido? Impossivel.

Escrevo do que vivi e do que conheço. Não invento lugares, eles existem, estão lá aguardando que cada um também chegue lá e possa viver as suas próprias experiências. Se compartilho as minhas é exatamente porque sou passional, tenho sentimentos que, quando trazidos à tona, podem ajudar você, meu leitor, a não passar pelo mesmo, ou então viver a sua experiência, parecida ou não com a minha, sem se deixar magoar tanto.

Quero sim ser passional. Quero falar de tudo com a paixão que coloco em tudo que falo e que vivo. Quero ter ódio com ódio, quero ter amor com amor, quero ter raiva com raiva, quero viver intensamente tudo, dos meus escritos aos meus amores, quero dizer tudo sabendo que quem lê está acompanhando esta vida que trago acumulada dentro de mim e que se mostra através dos meus sentimentos.

Gostaria mesmo de poder dizer tudo, tudo mesmo, mas algumas coisas tem de ficar dentro de mim mesma, porque elas envolvem terceiros, que não são personagens, são paixões tão grandes que quero preservá-las só para mim, porque muitos não entenderiam, e aí sim, eu seria criticada por expor a vida dessas paixões, aquela que você não quer que ninguém saiba, aquela que, apesar da passionalidade, você não quer permitir intrusos. Assim, respeitando os meus próprios personagens, aqueles que me acompanharam e participaram do que hoje sou, não os exponho, exatamente porque sou “passional”, tenho sentimentos, tenho amor e os quero felizes sem sombras, sem receios, sem vergonhas. Quero-os por inteiro sem culpas, sem cobranças.

Sou passional sim, vou continuar sendo, livro aberto de um vida em que as páginas podem ser manuseadas sempre, seja para voltar atrás e entender o que se passou, seja para ir para frente, para o mundo dos sonhos, que podem, a qualquer momento, virar realidade.

Para você, um grande beijo, mas, mesmo falando em África e Direito, duas grandes paixões, vou ser PASSIONAL, a primeira porque ao se falar dela há que se ter sentimentos, não se pode falar de África sem lembrar de fome, de miséria, de pobreza, tudo o que machuca, e não se pode falar de Direito a não ser como instrumento de Justiça, de igualdade, de preocupação com o “Outro”, e tudo isto é, senão: paixão.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sugestão Para a Semana Santa

Como está perto da Semana Santa, vou sugerir a vocês uma comida deliciosa, rápida, fácil e mesmo muito, mas muito mesmo, boa.

Não sei o nome dele, sei é que, quando tínhamos dinheiro, ou melhor, quando não tínhamos dinheiro e o bicho era barato e considerado comida de pobre, nós comíamos muito lá em casa. Meu pai adorava e minha mãe fazia sempre, até que o preço do “peixe” ficou impraticável e voltou para a Noruega, sem nos dar o direito de vê-lo retornar, a não ser depois de muito tempo.

Vamos lá:

Bacalhau no Mercado  em São Paulo
Ingredientes.

1,5Kg de bacalhau

1,5kg de batata

Três cebolas médias

Cinco dentes de alho grandes

Cinco folhas de louro

Modo de fazer

Dessalge o bacalhau (coloque no dia anterior o bacalhau em água fria e vá trocando a água durante o decorrer do dia; troque ao menos três vezes)

Retire o bacalhau da água, tire a pele e as espinhas, deixe em lascas grandes, se for do tipo concha em conchas grandes, reserve.

Corte a cebola em rodelas finas desfazendo as rodelas;
Fatie as batatas em rodelas finas (tenha o cuidado de deixá-las na água para não escurecer);

Fatie os dentes de alho

Montagem do prato

Num pirex grande, assadeira, forma descartável, o que você quiser, (melhor o pirex porque vai à mesa- questãode estética),coloque um porção de azeite de oliva (de preferência um bom português), após isto, cubra todo o fundo da vasilha com as lascas do bacalhau, em seguida coloque uma camada de batatas, cubra todo o bacalhau. Depois espalhe uma camada de cebola por cima das batatas e uma parte do alho e algumas folhas de louro. Regue com muito azeite. Repita toda a operação, colocando muito azeite de maneira que a assadeira fique, ao menos, até o meio de azeite. Não tenha pena, lembre que a batata e o bacalhau são cozidos com a água da cebola e o azeite. Se retirar muito o sal do bacalhau acerte o sal, você pode fazer isto colocando um pouco de sal em um dedo de água e verter no prato. Se você gostar pimenta, coloque um pouco papikra picante ou mesmo pimenta calabresa, fica a seu gosto. Coloque no forno e quando a batata estiver cozida,(espete com um garfo uma rodela da batata), está pronto.

 Feito por mim - O da receita
Se você gostar de ovos e de azeitonas você pode colocar;sendo que os ovos devem ser cozidos e fatiados e colocados por cima da última camada.Quanto à azeitona, recomendo as pretas.

Acompanhe com um bom vinho e pão.

BOM APETITE! Agradeça a Deus antes de começar a comer



terça-feira, 15 de março de 2011

Declaração de Amor

Já não sei viver tanto tempo longe de você. Já lá se vão quatro meses de afastamento, meses que estão a me fazer mal, porque não posso lhe ver, lhe sentir.

Quero ver o seu companheiro correndo no seu incansável caminho para alcançar o horizonte, não sem antes dar uma olhada boa em seus recantos preferidos,( Praça da República, Cais Sodré, Docas de Alcântara, Os Gerônimos, Torre de Belém),  quero andar pelas suas ruas, descer as suas ladeiras, subir as suas escadarias, entrar nas suas tascas, sentir os seus diversos cheiros. Fazer o que mais gosto quando estou junto de você, que é pegar o comboio e seguir o seu companheiro e ficar extasiada com tanta beleza. No caminho de ida do meu lado esquerdo, na volta do meu lado direito. Ficar esperando que chegue o lugar em que há o marco divisório que demonstra onde ele, não sem um pouco de revolta, se funde com águas mais independentes e que o levam de um lado para outro do mundo.

Pouco me importa se chove, se faz frio, se é verão, se é outono, Não interessa; o que quero é exatamente estar aí, juntinho de você. Arrepiando-me se a temperatura baixa, embora isto não seja o maior motivo de arrepios em mim, e sim a sua beleza. A cada dia que ando pelos seus becos, pelas suas ruas, pelas suas escadarias, descubro um recanto lindo, uma casa antiga, um monumento diferente, uma história de sua gente. Você me fascina e me emociono, choro de emoção e felicidade.

Só quem conhece você é que pode falar assim, com tanto amor e tanto respeito, embora não possa somente lhe elogiar, porque se assim fosse eu não seria digna de lhe querer tanto.

Se amo você é exatamente porque fiz uma escolha, esta, a de lhe amar, acima de tudo, dos seus defeitos e virtudes.

As pessoas podem não entender quando falo de você e das coisas que acontecem aí, em relação ao seu povo e o de outros que aí se encontram, mas isto também não me importa, porque quando falo, quando critico, é porque lhe quero tanto bem que quero que você melhore em relação aos seus e aos que aí são “Os Outros”. Não gosto quando você faz esta discriminação, porque parece que você não evoluiu, parou no tempo e no espaço, num tempo remoto que não volta mais. Não adianta você, através dos seus, falar, reafirmar, tentar: o passado não volta, a não ser pelos historiadores, que podem fazê-lo belo aos olhos dos seus, como podem fazer com que o passado fique feio para você e o seu povo, coisa que sei que vocês não gostam, mas você, melhor de que ninguém, sabe que contra “factos” não há argumentos.

O “facto” inargumentável é você e a sua beleza, você e as suas ruas, você e a sua música, você e a sua comida, você e o seu vinho, você e as suas igrejas, você e os seus monumentos.

Ah! Minha querida amiga, realmente estou morrendo de saudades. Sentar num fim de tarde defronte do seu parceiro, aquele que lhe põe mais bela; é sensacional. Só quem o fez, ou faz, é que esta abalizado para dizer o que sente.

Coisa mais boa é andar pelos seus imensos jardins,olhar as suas fontes, as suas praças. Pegar o metro e sair dele na sua rotunda mais famosa, dali subir o seu glorioso parque e, de lá de cima, olhar você toda linda, verde, branca, azul, às vezes cinza.

Depois desta grande visão, melhor é descer tudo devagarinho, saboreando cada momento, cada passada, cada canto, seja lado esquerdo, seja lado direito. Ver os seus duques, os seus marqueses, ver os seus filhos, sempre apressados; estão sempre a correr, como sempre estivessem atrasados para tudo.

Descer a Liberdade com toda a liberdade é o maior presente que a liberdade me poderia ter dado, ela me deu asas para aí chegar, aí ficar, e de daí ter saudades.

Em você me sinto outra, livre, livre como jamais imaginei ser na vida. Satisfação só dou a você, porque você me embriaga tanto, que falo com você de tudo, das minhas dores, dos meus sonhos, dos meus anseios, das minhas mágoas. Você e seu companheiro, este mais ainda de que você, deve ser porque ele não se entedia porque nunca é o mesmo, me escuta e parece que me aconselha com o seu brilho, quando a luz do sol insiste em querer entrar no seu íntimo, e ele para impedir esta intimidade, se protege com uma capa imensa de muita luz e brilho prateado.

Sim minha querida, está na hora de voltar, é o que vou fazer em breve, enquanto isto vá se preparando, vá se esquentando mais, ficando mais bela, mais feliz, porque é assim que você fica quando o verão começa a bater à sua porta.

Diga ao companheiro que eu tô chegando, para que também ele se prepare e abra o seu grande sorriso prateado para me saudar.

Pois é estimada amiga, não seja egoísta como a música que a Amália cantava, você não é só portuguesa, você não tem nacionalidade, você é para todos, você é uma universalidade, pertence a todos aqueles que, com sentimento, lhe admira, lhe respeita e lhe ama.


                                                       Tô voltando: me aguarde!