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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sonhem muito; os sonhos se realizam

Sempre tive um sonho: queria morar em frente ao mar, em uma casa  cheia de  vidros, em que eu pudesse, de todos os espaços dela, ver o mar, ver árvores, plantas, ver a chuva caindo, enfim, ver o tempo e tudo o que  a natureza pode nos proporcionar através da transparência do vidro.
Não consegui, até o momento, realizar o sonho de ter uma casa  frente ao mar, ou em que eu possa vê-lo, entretanto, oitenta por cento  do meu sonho  foi realizado por outrem. 
Estou vivendo em uma casa, que a tenho como minha, embora não o seja materialmente, mas no campo afetivo e espiritual e emocional o é. É um momento de felicidade, sem dúvida alguma. Tenho por merecimento acho eu, pois quando um seu sonho é realizado por outrem, mas você participando dele e para ele, é realmente fantástico.
Pois bem, por força do sonho, como já disse, queria ver a chuva cair e purificar tudo ao seu redor, lavando até mesmo o espírito, vez  que é bem assim que sinto quando,  corajosamente, volto ao tempo de criança e vou para a chuva, deixando que a água de Deus  limpe  pensamentos e o corpo.

Hoje, sentada  vendo a baboseira  da Comissão  Especial do Senado para a análise da denúncia do impeachment, começou a chover e eu fui fechar  as portas da casa. Extraordinário! De todos os cômodos da casa posso ver a água caindo lá fora. Da sala, do meu quarto e da minha própria cama, dos quartos outros da casa, do escritório e da cozinha. Sensacional!

domingo, 17 de março de 2013

Nuvens carregadas


É um sábado, o dia começou nublado, o homem da limpeza não veio, ela olha o pano que está seco e confirma que ele  realmente não esteve no local. Pelo segundo dia consecutivo ele não vem e ela tem de limpar tudo, na verdade não se importa muito, mas o que não gosta é exatamente de ficar na expectativa   Como tem de limpar mesmo, o faz.  Molha as plantas porque a chuva está muito fina e não vai dar vencimento, cata as folhas que caíram à noite, varre todo a varanda e o pátio, joga o lixo fora, faz tudo automaticamente, parece um robô.
O dia cresce sem muito entusiasmo. Ela limpa tudo, o quarto de cima, abre as portas, limpa escada, desce limpa a sala. Toma banho no chuveirão do lado de fora da casa, sabe que está sendo olhada, mas não se preocupa, está na sua casa, portanto quem está olhando é que é o intruso.
Muda a roupa, vai na feira, nada lhe agrada, a chuva começa a ficar mais forte, ela retorna.
Faz um mousse de limão, tudo muito automático, parece que não quer estar ali naquele lugar, fica procurando fazer coisas para não pensar muito no que está sendo a sua vida agora. O que adiantou fazer tanta coisa? O que adiantou se afastar tanto tempo, se isto não resolveu nada, muito pelo contrário, isto só fez aumentar as suas incertezas, inseguranças, até mesmo a raiva. Não se controla, chora, xinga, blasfema.  Deus não tá vendo esta merda?
Quer ir embora, não suporta esta coisa que não sabe o que é, que não é definida. Ninguém vive de promessas e de ausências. Ela quer viver, ser feliz, mas parece que outros não querem, ou melhor, nunca quiseram isto.
Tenta se recuperar, está entrando num parafuso e sabe aonde isto vai ar, então pega um disco de Kitaro e coloca, por incrível que pareça o nome do disco é “Dream”, bem sugestivo para o momento que está passando, então ela começa a pensar. “Vou vender tudo, vou pagar o que devo e vou embora, para onde não sei, mas vou passar um bom período fora daqui; quem sabe quando voltar, se voltar, as pessoas tenham se resolvido, ou quiçá, desaparecido”.
Pensa em ficar na rede, afinal é uma coisa que ela realmente gosta, ficar ali meio deitada estudando, lendo alguma coisa. Ai dela se não fossem os livros? Com certeza ela já não suportaria tanta solidão, tanta ausência, tantas incertezas, tantas dúvidas. Sabe que já não tem mais idade para tê-las, mas ela as tem.
A Chuva agora cai forte, mas muito forte mesmo, e ela fica a olhar da varanda todo o esplendor que tem um dia de chuva providencial, porque o calor estava mesmo insuportável. Ela pega o computador e pensa em escrever um texto, não é a hora adequada e ela bem sabe disto, mas ela tem de botar para fora alguma coisa, caso contrário ela não vai suportar.
A natureza, entretanto, se lhe mostra feliz, e ela tem de desviar pensamentos tão cruéis, e tenta entrar em contato com ela, passar a fazer parte dela, do verde, da chuva, do cinza do céu. É difícil, mas ela tenta. Procura se lembrar do sonho que teve hoje, sabe que foi alguma coisa a ver com cabelos brancos, com sobrancelhas, com o contraste que agora existe entre os seus cabelos, as suas sobrancelhas e a vida.  Seus cabelos mostram a sua realidade hoje, mas ela não quer se convencer dela, acha que ainda não está na hora de se sentir assim, mais velha, no entanto decidiu que não vai mais pintar os cabelos, vai deixar que eles se mostrem como realmente estão, brancos.
Não sabe dos acertos das suas decisões, mas vai ter de tomar algumas, desde a casa, até a sua ida, de uma vez, para fora do país.  Tudo é melhor fora daqui, ela bem o sabe, a distância é uma grande sua aliada. A liberdade, o não ter de dar satisfação a ninguém dos seus atos, a impresença de todos e dela, em relação a eles, lhe faz bem. Se um dia chora, no outro está bem, ao contrário daqui que só chora, nada lhe agrada, nem mesmo as migalhas que lhe dão e que dizem que é amor.
Vai mesmo pensar muito, hoje é um dia adequado para isto, vai se inspirar na natureza, que se modifica a cada momento, nada é igual ao ontem e nem ao amanhã em relação a ela.  Mais galhas na pitangueira, que amanhã pode estar com mais ou com menos folhas. Os frutos hoje verdes, amanhã estarão vermelhos.  Os cocos hoje verdes, amanhã poderão não estar mais no cacho, a chuva e o vento podem derrubá-los. Os pequenos embriões, que começam a se mostrar, podem morrer antes mesmo de demostrarem as suas características.
O jasmim pode ter as suas digressões interrompidas por uma quebra dos seus galhos. Enfim; a natureza mestra mostra-lhe que tudo pode mudar de um dia para o outro, e é isto que ela espera: que as coisas mudem mesmo, mas para melhor, porque para pior ela já não suporta mais, está, a cada dia, mais sozinha, mas velha, mais triste. O refúgio está em seus livros, mas até eles começam a não gostar do seu toque, não querem ser abertos, manuseados, lidos. Ela está dispersa, e quando isto acontece eles não podem lhe oferecer os seus conhecimentos, os seus conselhos.
E o notebook, também não satisfeito,  não gosta quando ela  lhe usa para  descarregar tristezas, ele, que também é o seu companheiro de solidão,  quer que ela viva, que ela seja feliz, quer ver alegria no seu olhar refletido através do seu visor para ela mesma, que tem de se convencer que ela bela, que é capaz, que tem obrigação de ser feliz.
O disco continua tocando e a chuva parou, o sol quer aparecer, mas as nuvens não permitem, hoje é o dia delas, hoje elas é que vão brilhar, que vão permitir que outra chuva caia  e que as gotas sirvam para que ela possa, em cada uma delas,  desinfetar a alma e  possa reagir e ter esperança de que,  amanhã, tudo será bem diferente, que as suas dúvidas  já não existem, e que ela vai viver tudo o quanto ela  sonhou. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

S.O.S: Arembepe pede socorro


Mais um final de semana em Arembepe, desta vez, entretanto, um pouco diferente, e para pior. A chuva caia forte e os moradores da Rua da Glória, como sempre, apreensivos, rezavam para que a chuva parasse.
A chuva, entretanto, continuava, ininterrupta durante todo o final de semana. Não bastasse a chuva alagando tudo, entrando pelos portões, invadindo casas, deixando gente ilhada em suas casas, faltou energia durante quase todo o dia de sábado, entretanto, isto não arrefeceu o ânimo de quem aniversariava, nem daqueles que, ilegalmente, continuam a funcionar afrontando os poderes públicos, os vizinhos, enfim, a sociedade.
Na Rua da Glória, que parece ser mesmo o calo de Arembepe, na casa de eventos, que, segundo a própria Prefeitura de Camaçari, não tem alvará para funcionamento, houve mais um evento.  Bem verdade que, primeiro sem energia, não havia som, e, mesmo quando a energia retornou, o som estava muito calmo, certamente por força dos donos da festa, porque do contrário, se a festa fosse patrocinada pela dona da casa de eventos ilegal, ninguém teria direito de ouvir algum som em suas casas, ligar a televisão, enfim. Outro dia a senhora ligou o som as 9.00 da manhã e só desligou à noite; a Rua da Gloria, até a metade, podia ouvir o som, mas não há a quem recorrer, e ainda tem quem diga, desconhecendo a lei, que de dia pode. Não pode não!O barulho, a poluição ambiental não ocorre só à noite, em qualquer horário do dia ou da noite se o som alcança uma quantidade de decibéis, ou ainda incomoda a vizinhança, isto pode ser denunciado e o órgão responsável tem de tomar providências, entretanto, isto não ocorre em Arembepe, e nem mesmo a Juíza, que, segundo alguns, manda num tal de “Brito” ou sei lá quem, que chefia uma “força tarefa”, conseguiu, através dos meios legais, pois não conhece outros, impedir que os eventos aconteçam. Por acaso conheço a Juíza e sei que ela não tem qualquer envolvimento com força tarefa e nem com ninguém da Prefeitura de Camaçari, ela recorre aos meios legais.
Se a tal da Juíza tivesse mesmo o poder que lhe é atribuído por gente que nunca viu, não sabe nem quem é, que inclusive não lhe conhecem, certamente  os sons de carros e das casas vizinhas, ao menos onde mora, não  mais incomodariam ninguém. 
O fato é que o aniversário aconteceu embaixo de toda a chuva. Parabeniza-se a aniversariante, mas não se pode concordar com a proprietária da casa de eventos que continua a afrontar o poder público e as pessoas.
Festa do dia 19.05.2012
Carros estacionados dia 19.05.2012
O incomodo da casa de eventos, todavia, não se resume somente ao som. Como não há qualquer infraestrutura para que a casa funcione, porquanto não existe estacionamento privativo para quem frequenta o ambiente, os carros dos convivas ficam estacionados na rua, que por acaso, é de mão dupla. Nesta festa alguém resolveu estacionar, também, do outro lado da rua, resultado, um carro grande não podia passar, mas, certamente, isto não tem qualquer problema, “as pessoas é que gostam de criar confusão”, como disse uma vez a senhora dona da casa de eventos. Em relação ao estacionamento há outro grave problema, quando os carros estão estacionam do outro lado da rua, não respeitam quaisquer espaços, e as pessoas que tem casas do outro lado da rua não conseguem colocar os seus carros nas garagens. Alguns já chegaram a dizer que tais pessoas são barbeiras, porque há espaço suficiente... o que não é verdadeiro.(as fotos estão ruins, mas dá para perceber),
21.05.2012 -Rua da Glória 
Rua que desemboca na Rua da Glória
De tanto estacionarem carros nos passeios, alguns moradores tiveram de colocar ferros protegendo os passeios em frente às suas casas, isto depois de terem os canos de água quebrados algumas vezes, devido ao peso dos carros nos canos
.
Mas não foi só na Rua da Glória que teve festa neste final de semana chuvoso, houve também um aniversário de um eterno candidato a vereador, que, embora nunca ganhe a eleição, é muito conhecido no meio político de Camaçari, Município a que Arembepe pertence, somente isto pode justificar que no exato dia do aniversário, a rua que fica entre a Rua da Glória e a Rua principal estivesse sendo capinada, limpa por mais de quatro garis de uma só vez, todos concentrados ali. Isto não teria grandes problemas, embora todos, assim pensa-se, paguem IPTU para ter direito à limpeza da rua, a tratamento de esgotos, escoamento de água, dentre outras coisas necessárias aqui em Arembepe, onde esgotos correm pela rua afora, fossas entupidas estouram e os dejetos são jogados na rua, devido a pouca capacidade para os inúmeros utentes de um “condomínio” não aprovado pela Prefeitura, assim espera-se, que foi crescendo sem que os senhores proprietários se preocupassem com as necessidades fisiológicas dos condôminos. Certamente com o crescimento do condomínio eles pensaram que somente iam alugar as casas a pessoas que estivesse fazendo regimes. Isto tem muito tempo, com chuva ou com sol, a fossa escorre rua adentro e vai parar na pobre e sacrificada Rua da Glória, mas isto, com certeza, não deve preocupar o poder público, os vereadores eleitos por Arembepe, por Camaçari, enfim, as pessoas que teriam obrigação de defender os interesses da comunidade.
Toldo no meio da rua
Rua da Glória manha dia 22.05.2012
Voltando ao aniversário: Pois não é que o candidato a político fechou a rua!  Colocou um toldo de um lado para outro da rua com mesas e cadeiras, fazendo da rua, onde inclusive circula carros, propriedade privada, como se isto fosse a coisa mais natural do mundo, e ninguém fez nada.
E assim Arembepe continua uma terra de ninguém todo mundo faz o que quer, de garagem particular na rua à festa privada também na rua. O engraçado é que, recentemente, Arembepe foi alvo de uma reforma em suas praças, reforma que ainda não acabou e que teve como consequência, tão somente, o acabar com o estacionamento na Praça. As duas Praças ficaram até bonitas, mas desnecessária a reforma, porque precisamos não de praças bonitas e sim de rede de esgotos, de mais escolas, de emprego para os jovens que a cada dia que passa procuram as drogas. Precisamos encontrar um meio de escoar a água da Rua da Glória, e de outras ruas de Arembepe ( a Caraúna esta, mais uma vez, alagada, desta vez a água alcançou até o Vilarejo) para evitar os constantes alagamentos, os prejuízos das famílias que ali residem e que não tem qualquer ajuda do poder público para refazer as suas casas depois das enchentes.
Praça das Amendoieras
É mesmo vergonhoso, ver tanto dinheiro gasto em embelezamento de uma vila, que sem infraestrutura não vai para lugar nenhum.
obra embargada sem solução
Entretanto, a Rua da Glória tem outro grave problema. Uma obra que já tem uns dez anos, foi embargada, parou, mas virou uma ruína em que pessoas entram para “fazer necessidades fisiológicas” “se esconder”, “tomar drogas”, e ninguém faz nada; é como se tudo ali fosse normal e legal.As construções ilegais avançam pela lagoa adentro, mas ninguém faz nada. As construções ilegais acontecem em todos os lados, vizinhos entram no espaço dos outros, sobem casas usando o muro do alheio, mas ninguém faz nada, denuncia-se o fato, mas não vem qualquer fiscal da prefeitura, enfim, é uma verdadeira baderna. As piscinas dos hotéis são esvazeadas e a água acumula-se na Rua da Glória, e a prefeitura municipal não faz nada.
Construção irregular
Mas os políticos querem fazer de Arembepe um cartão postal, uma vila turística. Louvo até a idéia, mas, com certeza, um turista mais atento só virá aqui uma vez, e não mais, porque ninguém quer ver a sua privacidade sendo prejudicada por um poder público inoperante. 
Mais Rua da Glória alagada
Aqui, da Rua da Glória, ilhada tenta-se fazer alguma coisa, por isso vou divulgar as fotos e este resumo dos fatos, esperando que, alguém que tenha alguma influência com os senhores administradores da Prefeitura de Camaçari possa interceder e que eles tomem as providências necessárias para o crescimento desta vila e dos seus habitantes, que com os seus votos ajudam a elegê-los.
esgoto  na Rua da Glória
Mar  revoltado em Arembepe

Socorro!!!!  
Felizmente, mesmo com toda a violência de um dia de chuva, temos o mar para ver e sentir toda a beleza da própria natureza, que não depende de ninguém, só, e exclusivamente, das forças do Universo e de Deus.



sábado, 9 de abril de 2011

Um dia de chuva

Está sozinha, uma constante nos últimos 10 a 12 anos de sua vida. Já se acostumara e há tempos que achava boa esta solidão compartilhada consigo própria e com as suas coisas, principalmente seu livros e o fiel e mais recente amigo, o “lap top”.

Dia feio para alguns, chovia, e ela deitada na rede olhava a chuva cair. Gostava de fazer isto, mui principalmente, sem intermediação de nada. Como estava na varanda podia ver e ouvir a chuva, a água caindo, o cheiro da terra subindo, respingos pelo corpo. A grama mais verde, viçosa, os cocos brilhando como se alguém tivesse passado vaselina neles, de um a um.

O telhado encharcado formava manchas aqui e ali. Uma goteira no meio da sala. Uma brisa leve entrando porta adentro, lhe fazendo arrepiar.

Quer estudar, se concentrar no que estava fazendo, mas é impossível, a chuva está linda, os pingos grossos podem ser visualizados com facilidade. A pitangueira, com a força da chuva, vai abortando as pitangas, as flores branquinhas caem uma a uma, não agüentam a força d água. O bouganville esta sem flores, não gosta de chuva, adora sol e, portanto, recolhe as suas flores “lilases”.

Às onze horas não abriram nem as onze, nem as doze, e não vão abrir mais, elas também gostam do sol.

As duas  amigas, no seu cantinho, ficam ali balançando as suas folinhas verdes finas e elegantes, sempre eretas, mas as flores que dão suporte ao nome estão retraídas, não saem. Devem sentir falta da mão que lhes colocou naquele refúgio.

A palmeira também não gosta da chuva, mas mesmo assim, as suas folhas estão verdes.

A chuva aumenta, ele vai ter de sair da varanda, vai deixar a rede, vai para dentro de casa, agora vai ver a chuva através dos vidros. Verá imagens distorcidas, porque o vidro é canelado, mas a cor é nítida, o verde da grama, o verde das palmas do coqueiro, a silhueta do bougainville, tudo muito bem definido.

A entrada da casa fica linda na chuva, as cores contrastam; o branco do muro e o verde da grama, a madeira do portão, tudo harmônico. O céu está cinza, mas isto não importa, amanhã ele retornará intenso, azul e branco.

Hoje o dia é para admirar a chuva e o seu efeito, não é para lembrar de sol e nem de céu azul.

O dia é cinzento e belo como deve ser um dia cinzento, propício ao aconchego. Pensa na música de Djavan e, fatalmente, lembra de quem muito gostava do compositor. Lembra do verso. “E o meu jardim da vida ressecou, morreu, do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”. Entende o verso, mas não concorda com a discriminação, Maria,Margarida são belas e iguais.

A voz cálida de Caetano Veloso sai da casa vizinha e alcança a casa dela, volta no tempo, pensa em quantas vezes e em quantas situações já ouviu aquela música. Uma vez ela lhe foi oferecida pelo próprio autor, não que ele o fizesse “spont sua”, um amigo pediu para que ele o fizesse, e ele o fez: “[...] Você é linda e sabe viver, você me faz feliz, esta canção é só para dizer e diz[...]” Não quer recordar, levanta vai até a porta da frente, pela greta do portão vê que a rua está cheia de água barrenta. Um carro buzina, insiste, ninguém vai atender, porque chove mais e mais.

Ela continua só, volta e deita novamente na rede e, deitada na rede, lê Lombroso e a sua teoria sobre os criminosos natos e pensa consigo mesma: Será que Lombroso teve alguma vez, um dia deste? Será que ele parou um dia para ver a chuva cair e pensar em absolutamente nada, apenas olhando e se encantando, constatando que realmente existe uma força enorme, grande, envolvente, que é capaz de fazer dias quentes, escaldantes até, e no dia seguinte manter o equilíbrio natural com um belo e gostoso dia de chuva, como o de hoje? Não, ele não devia ter tempo, estava muito preocupado em analisar os sinais exteriores dos “delinqüentes” e estereotipá-los de uma maneira cruel. Com Lombroso o nascer feio e nordestino já deveria ser um grande indício de criminalidade latente. Ah! se ele hoje vivesse para ver um menino dos olhos azuis, alto, com crânio “dolicéfalo” (alongado) delinqüindo como qualquer um dos seus estereotipados de crânio “braquicéfalo” (arredondado,achatado). Que faria ele?

Quer desviar o pensamento de Lombroso e olha o peixe de acrílico pendurado na parede, está todo molhando, parece que agora está mais próximo do seu habitat.

Mais uma música chama a sua atenção, esta vai bater mesmo lá no fundo, lembra do tempo que ao entrar no carro do seu “amado” ele sempre colocava a fita cassete, ainda era assim, “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar...” Tem vontade de chorar, mas resiste, afinal, ela só estava olhando a chuva e não queria lembrar-se de nada, não queria ter saudades, queria apenas ver a água cair limpando tudo por onde passasse, purificando o ar, lubrificando a vida, deixando a natureza mostrar toda a sua potencialidade

A chuva continua, mas a música conseguiu quebrar mesmo todo o encanto, vê que não está tão sozinha assim, pois a sua vida foi invadida pela vida de outrem que, por motivos diversos dos seus, gosta da música que lhe transportou ao tempo em que podia dizer que era “amada” e amada de alguém.

Vai para a chuva, talvez a água possa tirar de si as lembranças. Brinca embaixo da chuva, volta a um tempo em que não tinha lembranças, apenas esperanças. Olha em redor e vê o verde, sorri. Sai da chuva se enxuga, volta a estudar, está clorofilada.

Arembepe, abril 2011