Mostrando postagens com marcador saudades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saudades. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para quem tem um "ex amor"

Como de costume, acordou cedo e, como ainda estava escuro, foi espreitar as novidades do final de semana no face e se deparou com uma mensagem de um colega, na qual havia um anexo, que era um vídeo com Martinho da Vila, cantando “ex amor”. Fez um comentário: “eu me possuo e é na sua intenção” é preciso muita coragem para isto, ou coisa parecida.
Realmente, ela acha que é preciso mesmo coragem para, sem subterfúgios, dizer que a pessoa que lhe foi tão cara um dia, ainda continua fazendo parte do seu sonho, do seu devaneio, das suas dores e angústias, como também das horas dos prazeres buscados, construídos com as recordações dos grandes e bons momentos vividos.
A letra da música é linda, sensacionalmente real, vida de dois que se desmoronou, desgastada pelo tempo, pela transformação do amor em dor, como ele bem sabe dizer poeticamente e, como tal, aliviando a dor de transformar tudo em dor mesmo. Entretanto, ainda que tenha sido assim, que infelizmente já não dê mais, fica toda uma história, que por mais que se tente esquecer, sobrevive, às vezes, como ele mesmo diz, até no próprio corpo, quando, buscando pelas memórias, ele reage como se vivendo estivesse os momentos quentes em que o coração acelera, a respiração fica ofegante, em que se têm espasmos de prazer.
Ah sim Martinho, como se concorda com você! E como se deve ter pena daqueles que não são capazes de, como você, dizer isto a alguém, daqueles que continuam com o orgulho de um dia ter sorrido quando acabou mesmo com o coração dilacerado.  Não é pessoa adepta de cultivar a dor, sem dúvida alguma: acha que nenhum ser humano merece fazer isto consigo próprio, mas também não pode concordar que, por um orgulho idiota, bobo, próprio dos covardes, se deixe de dizer a outrem o quanto ele representou, ou ainda representa na sua vida. Fraqueza! Diriam alguns: os imbecis que não têm sentimentos grandiosos, apenas mesquinhos, para consigo e para com outros.
É calada, bem sabe; é estranha, arredia, também o sabe. Pode passar séculos sem ver ou falar com uma pessoa, tenha sido ela muito ou pouco importante na sua vida, mas o seu coração continua acelerando, quando recorda dos momentos lindos, vividos com grande ternura, com grande emoção, enfim, com um grande amor pelos que passaram pela sua vida, e nela deixaram marcas indeléveis.
Certamente, e concorda mais ainda, com o letrista afortunado, que quando se transforma tudo em dor, o melhor mesmo é cada um ir para o seu lado, mas é necessário que o outro saiba, perfeitamente, que não foi fácil, que as angústias povoaram por muito tempo sua vida. Não interessa quanto o tempo tenha passado, não interessa se se está, ou não, com outro alguém, porque quando a saudade bate forte no peito, há que se entender que, embora distantes e irremediavelmente separados, as coisas não acabaram como deveriam, pois restaram lembranças tamanhas que somente elas são capazes de nos fazer vibrar. Não há, pois, nada de errado em dizer o que se sente ou o que um dia se escondeu a uma pessoa, não é necessário citar nomes, porque as partes interessadas vão saber do que se fala, sem que ninguém, fora do elo de dois, participe disto.
Martinho canta, ela escreve, alguém pinta, outro faz comida, enfim, em cada criação dos que querem falar do seu amor, ou do seu ex amor, não tão ex amor assim, está presente a cumplicidade que uniu e desuniu, há momentos íntimos tão grandes, momentos só partilhados entre os dois, que nenhum envolvido atual vai perceber, porque, pensa ela, cada dois tem um “nosso” impenetrável exclusivo, que, mesmo os amigos mais íntimos, não sabem ou percebem. É na cumplicidade do amor, que se faz uma música com uma letra tão linda como é esta: EX AMOR
Para tantos quantos  tenham um “ex amor”, que tenha sido assim tão forte como o descrito na letra,  diz: não tenham medo, vergonha de dizer o quanto ele foi importante e o quanto ele se faz presente na sua vida, e o quanto você “se possui” na sua intenção.   

“Ex-amor
Gostaria que tu soubesse
O quanto que eu sofri
Ao ter que me afastar de ti
Não chorei
Como um louco eu até sorri
Mas no fundo só eu sei
Das angústias que senti
Sempre sonhamos
Com o mais eterno amor
Infelizmente
Eu lamento mas não deu
Nos desgastamos
Transformando tudo em dor
Mas mesmo assim
Eu acredito que valeu
Quando a saudade bate forte
É envolvente
Eu me possuo
E é na tua intenção
Com a minha cuca
Naqueles momentos quentes
Em que se acelerava meu coração”

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Do resto sei eu

O dia amanheceu, acordou muito cedo. Chovia do lado de fora, ouvia o som da chuva  caindo no chão. Começou a pensar o que faria durante o dia: levantaria, tomaria uma “Douche” quentinha, arrumaria o quarto, daria uma lida em algumas páginas de um livro qualquer, aliás, o que não faltava no espaço era livro para ler. Depois tomaria um  suco  mudaria a roupa e  iria, como sempre, dar um passeio na Baixa. Não tinha nada para fazer na faculdade hoje, portanto, o melhor seria mesmo um passeio  no Chiado, esperando as horas passarem para  comer, lá no seu David (Merendinha do Arco), o cozido à portuguesa, afinal, era quinta feira.
Depois do cozido, e após algumas bagaceiras(aguardante portuguesa), sairia 
andando pelas ruas de Lisboa. Talvez fosse para o lado de Alfama, quem sabe iria ao Bairro Alto, Santa Catarina, Estrela, tinha ainda a opção de seguir andando até o Cais do Sodré e de lá, dependendo do tempo, pegar um comboio e ir até Cascais olhar o mar. Sim, faria isto mesmo.
Espreguiçando-se, tentando  esticar ao máximo o corpo que amanhecera bem encolhido, deve ter tido algum sonho que a fez tremer, ou então havia feito frio à noite, o certo é que  amanheceu toda encolhidinha.
A chuva engrossara, o ruído era mais forte agora,  mas ela continuava no firme próposito de fazer  o que planejara, mas sair da cama com  aquela  zoadinha da chuva e o aconhego do quarto estava dificl. Olha o relogio e levanta de sobressalto: 11 horas da manhã! Metade dos seus planos  por água à baixo, agora teria de se apressar, porque a camioneta  a (7) passaria as 11:30 e se perdesse esta teria de pegar a (13) e quase uma hora para chegar no centro de Lisboa.  
Levantou-se de um salto, resultado: quase quebra a cara, porque dormira no chão da sala, literalmente no chão, deve ter pego no sono vendo algum programa de televisão e  pronto, a noite inteira no chão, em cima, apenas de uma toalha, portanto o  corpo se apresentava dolorido pela dureza do chão. O pescoço doia porque  dormira  com as almofadas, ao invés do travesseiro.
Que droga! Brada ela, notando que  todos os seus planos anteriores estavam em um sonho, que  como todo sonho, se desfez. Quase chora ao ver a realidade que a esperava  naquele dia, igual a tantos outros, com apenas uma diferença, estava um dia mais velha e não gostava nada disto, a velhice chegara, inevitavelmente, mas não estava fácil aceitar as rugas, as limitações, as taxas altas a cada exame.
Decidiu, entretanto, que daria asas a sua imaginação e continuaria, acordada, o sonho  que tivera com a sua amada Lisboa, e pôs-se a recordar de pessoas, lugares, cheiros, gostos. Colocou o disco da Carminho e ouviu “Bom dia amor, dizem as rosas da janela ao ver o sol nascer”. A música lhe alegrou, lembrou mesmo dos bons dias que dava ao tempo, sim ao tempo, ao acordar e abrir o store do quarto da casa onde vivia em Carnaxide e olhar, ao longe, mas completamente identificável o Tejo, ja se esvaindo  no oceano. De sua janela via o marco divisório de onde um termina e o outro começa. Tejo e Oceano Atlântico, águas que marcaram, por longos oito anos, a sua vida. O Tejo dono da sua intimidade, conselheiro amigo sempre atento e disposto a ajudar e dissipar as suas dúvidas, aflições, tristezas. O Atlântico povoando os seus sonhos, estabelecendo ligações, não deixando que as suas origens fossem esquecidas. Ela era de lá, de onde o olho não podia alcançar, sim, de lá do outro lado do Atlântico, e mais uma vez Carminho lhe faz recordar de tantos momentos bons passados ali, numa solidão que ela gostava de ter e sentir, solidão que só dividia, exatamente, com o Tejo e com o Atlântico.  “O Sal das minhas lágrimas de amor criou o mar  que existe entre nos dois para nos unir e separar[...] [..] meu bem sempre  que ouvires um lamento crescer desolador na voz do vento,sou eu em solidão  pensando em ti, chorando todo o tempo que perdi[..]”  A música é linda, a história de amor envolvente, e a saudade era a dela, embora em ordem invertida e  o ocenao marcando a separação. Sim, a música da Carminho vai tomando conta de  si, entrando pelos poros e ela se vê à frente do Tejo, bem ali onde ele caminha mais rápido para encontrar o seu amigo que o levará para outras paragens, onde ele se mistura  com outras águas para encontrar o o mundo, conhecer lugares, revigorar terras, presenciar amores, consolar desamores e dissabores. Lágrimas  salgadas  correm pelo seu rosto, ela não está triste, está  apenas saudosa, mas sabe, perfeitamente, que esta saudade jamais terá cura, pois sempre, sempre mesmo, ainda que alguns digam que nunca se deve dizer nunca e nem sempre, ela sentirá. O Tejo lhe faz muita falta, e não só ele,  Lisboa  com as suas peculiaridades, tantos as boas quantos as ruins.  Viveu uma liberdade naquela cidade que sabe jamais retornará.
Limpa o rosto e  continua lembrando de detalhes: Zara, Rua Augusta, Chiado, Fenac, El Corte inglês. Ajuda, Belém, Algés, Carnaxide, Queluz. Sintra, Paço Darcos, Caxias, Carcavelos, Oeiras, Estoril, Cascais.Mercado da Ribeira, tantos lugares, tantas sensações, tantas descobertas.  Como era bom  sentir o trem ir parando  no final da linha em  Cascais, onde ela ja chegava feliz  pelo que vinha vendo desde o Cais do Sodre, de onde o comboio partia com destino a esta elegante e charmosa vila. Lembra da Vera a lhe dizer que a Zara lhe devia contratar como garota propaganda
 Carminho lhe traz de volta à Lisboa, “ Lisboa se amas o Tejo, como não amas ninguém, perdoa num longo beijo os caprichos que ele tem, faço isto ao meu amor, quando aparece zangado[...) tu também és rapariga, tu também es cantadeira, vale mais uma cantiga,cantada à sua maneira”.  Gosta da alusão que a letra faz  quando  diz que o Tejo de dia veste o pijama do sol.  Se vê sentada  no paredão  do Cais Sodré,  sozinha no meio de tantos, olhando  o Tejo e o outro lado dele, Cacilhas. O  seu olhar se perde e com ele todas as dores do dia, do tempo, da vida. Sim, o Tejo era assim para ela, uma mirada, e o brilho do seu olhar retornava, e com ele a esperança do dia seguinte melhor com grandes e  agradáveis surpresas.
“Porque  reclamas de mim se sou assim como tu és. Barco perdido no mar que anda a bailar com as marés, tu ja sabias que tinha um queixume do mesmo ciíume que sempre embalei, tu ja sabias que amavas deverás,também quem tu eras confesso não sei. Não sei quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer?A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz lá que o resto sei eu! P'ra que me queixo eu também Do teu desdém que me queimou. Se é eu queixar-me afinal dum temporal que já passou? Tu nem calculas as mágoas expressas e a quantas promessas calámos a voz!Tu nem calculas as bocas que riam e quantas podiam queixar-se de nós! Não sei  quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer? A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz, que o resto sei eu.”
Pois é, vai ficar por aqui,  porque  a saudade é mesmo imensa e, no mais, como na múscia, do resto sabe ela.    


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cheira bem, cheira a Lisboa!

O cheirinho do café invadia tudo. Ela não tomava muito café, mas gostava imenso daquele cheiro, porque isto lhe remetia às viagens; aeroportos, metros, estações de comboio, rodoviárias, enfim, o aroma realmente era associado a coisas boas.
Era um dia especial para ela, afinal, depois de longos três anos e meio, acabara a tese e ia entregá-la para a impressão e, depois, fim: ao menos desta fase. Agora era só esperar que marcassem a defesa, o que ainda ia demorar.
Descia as escadas para pegar o metrô e ir até à Faculdade e pensava: “Por que não estou tão alegre como deveria? Afinal está tudo pronto; o resultado de tanto sacrifício, tanto dinheiro gasto, tantas dívidas aumentadas estava alí”. Bem verdade que ainda falta a defesa, mas o caminho já está mais de 70% percorrido. Ainda que não venha a ser considerada uma tese brilhante, perder é que ela não vai mais, com certeza. Então algum orientador de renome iria deixar que uma tese fosse apresentada se ela não tivesse a mínima condição de aprovação? Acredita-se que não, então...
Todavia, nem este pensamento lhe alegrava. O cheiro do café ainda persistia, embora ela já estivesse mesmo na plataforma de parada dos trens. Olha os trilhos, pensa, por segundos, idiotamente, tudo podia acabar ali, era só uma questão de coragem e de alguns segundos.
Surpreende-se!  “Por que teve este pensamento? O que se passa?”
O trem chega, ela entra e esquece-se de procurar a resposta para pensamento tão idiota.
Chega à Cidade Universitária, sai do metrô, sobe as escadas lentamente; mais uma vez o cheiro forte de café bom invade suas narinas ela pensa: “por que será que no Brasil eu não sinto este cheiro tão bom”? Por certo não andava ela nos lugares adequados.
Não está feliz mesmo: está com a consciência do dever cumprido, de ter, mais uma vez, alcançado uma meta, mas feliz não está. Tenta procurar o motivo de não se sentir como deveria, pois sabe, perfeitamente, que não é todo dia que alguém apresenta uma tese de doutoramento, nem todos os dias e nem qualquer um. Ela era uma privilegiada e sabia disto, afinal tivera condições, mesmo se endividando toda, de estar fora do seu país, da sua casa, fazendo a sua pesquisa e realizando sonhos, tentando esquecer pesadelos.
Está quase a chorar. Entra na faculdade, vai até o local onde marcara com a orientadora que tem de autorizar a entrega da tese. A orientadora chega rapidamente, não lhe dando tempo de chorar e nem de pensar na sua tristeza, que já é mesmo visível.  Chegam à Secretaria e a funcionária diz que não é preciso entregar qualquer papel, que apenas eles queriam a garantia de que a orientadora sabia que a tese poderia ser entregue. Não sabe se chora ou si ri. Orientadora e ela entreolham-se, ambas não acreditam muito no que está a se passar, mas enfim... É assim e pronto!
Sai da secretaria e vai pagar uma parcela da semestralidade que lhe dizem que está em aberto. (2010). Não entende bem o motivo, pois sempre cumpre religiosamente as suas obrigações, e agora esta! Logo agora, quando tem de gastar tanto com impressão, com emolumentos, com propinas, tem esta infeliz notícia de que deve um semestre. Bom, como não acha o recibo e tem de entregar a tese, não tem muita alternativa faz o pagamento, (687€) contrariada claro, mas tem de o fazer, e ainda tem de pagar a atual, a de 2012.
Comprova o pagamento na Secretaria e se dirige a “Reprografia” que fará o serviço de impressão, entrega a “pen” para que façam a gravação e sabe do preço que terá de pagar. Toma um susto da porra, pois, por 15 exemplares tem de pagar 388,00€, isto já com um desconto de 7%, que não sabe se efetivamente foi dado, mas como o serviço ficara bem feito quando do mestrado, tudo bem.
Sai da faculdade, e volta a fazer o percurso inverso. Pega o metro e segue, outra vez, para Marques de Pombal. Agora ela iria, mais uma vez, porque era quinta feira, à tasca do Sr. David, comer o cozido à portuguesa, comida que aprendera a gostar e da qual não abria mão neste dia, mas nem isto melhora o seu interior: Está, efetivamente, triste.
Rio Tejo
No metro fica querendo entender a sua tristeza e começa a fazer a ligação entre ela e a sua volta, definitiva, para o Brasil. “O que vai lá fazer? Vai ficar morando onde tem a sua casa, o que lhe sobrou da partilha de um casamento? Vai tomar conta da mãe? Vai ter de assumir mais uma vez a responsabilidade total sobre ela? O que será da sua vida agora?”. 
Estação de Comboios do Rossio
Estas perguntas lhe deixam mais triste ainda. O metro chega à Restauradores, onde tem de sair. Sai e, por um momento breve, esquece-se dos pensamentos e olha, extasiada, a estação do Rossio. É linda! Extraordinariamente linda!  Fica ali parada por uns segundos, o suficiente para que de novo o seu pensamento volte à pergunta anterior: “E agora? O que vai ser de você? Quando você vai ter oportunidade de ver isto outra vez?” Chora, não tem mais condição de segurar o choro, as pessoas lhe olham: Ela esta parada na frente da estação olhando em direção á Avenida da Liberdade: Faz a ligação entre o nome da avenida e à sua liberdade, que a acaba ali. No momento em que entregar a tese na secretaria da faculdade já não tem mais motivo algum para estar em Lisboa, tem de voltar a sua medíocre vida na sua terra, onde tem de dar satisfações, onde não pode andar sozinha à noite, não pode entrar em bares, onde não tem bailaricos, onde não recebe elogias, onde não é minimamente feliz, onde só tem problemas e eles estão mais próximos (“o que os olhos não vêm a alma não sente”, é o que dizem), onde ninguém lhe espera, onde vai estar só, e esperando que migalhas de amor lhe sejam dadas em formas de: “relógio”, “óculos”, “biquíni”, “perfume”, “saias”, “discos”, “até de presença ausente” coisas materiais que, se bem que bonitas, de nada lhe adiantam porque não lhe fazem bem à alma. Não haverá mais caminhadas no Estoril; não mais irá à Marina de Cascais; não irá mais ao Alto de Santa Catarina; serra de Carnaxide, não haverá mais travessias do Tejo. Adeus às almeijoas à bulhão pato, bacalhau à lagareiro, favas, moambas, etc. etc. Adeus vinhos do Alentejo, adeus mojitos, adeus viagens ao interior de Portugal. Adeus a liberdade, a tantas coisas boas enfim.
Todavia, tem de se acostumar, reacostumar, e é o que vai tentar fazer, esperando não encontrar em nenhum lugar onde esteja, o cheirinho do café da estação de metro da Marques de Pombal, para não se lembrar do cheiro que “cheira bem, cheira a Lisboa”. 
 
 

terça-feira, 15 de março de 2011

Declaração de Amor

Já não sei viver tanto tempo longe de você. Já lá se vão quatro meses de afastamento, meses que estão a me fazer mal, porque não posso lhe ver, lhe sentir.

Quero ver o seu companheiro correndo no seu incansável caminho para alcançar o horizonte, não sem antes dar uma olhada boa em seus recantos preferidos,( Praça da República, Cais Sodré, Docas de Alcântara, Os Gerônimos, Torre de Belém),  quero andar pelas suas ruas, descer as suas ladeiras, subir as suas escadarias, entrar nas suas tascas, sentir os seus diversos cheiros. Fazer o que mais gosto quando estou junto de você, que é pegar o comboio e seguir o seu companheiro e ficar extasiada com tanta beleza. No caminho de ida do meu lado esquerdo, na volta do meu lado direito. Ficar esperando que chegue o lugar em que há o marco divisório que demonstra onde ele, não sem um pouco de revolta, se funde com águas mais independentes e que o levam de um lado para outro do mundo.

Pouco me importa se chove, se faz frio, se é verão, se é outono, Não interessa; o que quero é exatamente estar aí, juntinho de você. Arrepiando-me se a temperatura baixa, embora isto não seja o maior motivo de arrepios em mim, e sim a sua beleza. A cada dia que ando pelos seus becos, pelas suas ruas, pelas suas escadarias, descubro um recanto lindo, uma casa antiga, um monumento diferente, uma história de sua gente. Você me fascina e me emociono, choro de emoção e felicidade.

Só quem conhece você é que pode falar assim, com tanto amor e tanto respeito, embora não possa somente lhe elogiar, porque se assim fosse eu não seria digna de lhe querer tanto.

Se amo você é exatamente porque fiz uma escolha, esta, a de lhe amar, acima de tudo, dos seus defeitos e virtudes.

As pessoas podem não entender quando falo de você e das coisas que acontecem aí, em relação ao seu povo e o de outros que aí se encontram, mas isto também não me importa, porque quando falo, quando critico, é porque lhe quero tanto bem que quero que você melhore em relação aos seus e aos que aí são “Os Outros”. Não gosto quando você faz esta discriminação, porque parece que você não evoluiu, parou no tempo e no espaço, num tempo remoto que não volta mais. Não adianta você, através dos seus, falar, reafirmar, tentar: o passado não volta, a não ser pelos historiadores, que podem fazê-lo belo aos olhos dos seus, como podem fazer com que o passado fique feio para você e o seu povo, coisa que sei que vocês não gostam, mas você, melhor de que ninguém, sabe que contra “factos” não há argumentos.

O “facto” inargumentável é você e a sua beleza, você e as suas ruas, você e a sua música, você e a sua comida, você e o seu vinho, você e as suas igrejas, você e os seus monumentos.

Ah! Minha querida amiga, realmente estou morrendo de saudades. Sentar num fim de tarde defronte do seu parceiro, aquele que lhe põe mais bela; é sensacional. Só quem o fez, ou faz, é que esta abalizado para dizer o que sente.

Coisa mais boa é andar pelos seus imensos jardins,olhar as suas fontes, as suas praças. Pegar o metro e sair dele na sua rotunda mais famosa, dali subir o seu glorioso parque e, de lá de cima, olhar você toda linda, verde, branca, azul, às vezes cinza.

Depois desta grande visão, melhor é descer tudo devagarinho, saboreando cada momento, cada passada, cada canto, seja lado esquerdo, seja lado direito. Ver os seus duques, os seus marqueses, ver os seus filhos, sempre apressados; estão sempre a correr, como sempre estivessem atrasados para tudo.

Descer a Liberdade com toda a liberdade é o maior presente que a liberdade me poderia ter dado, ela me deu asas para aí chegar, aí ficar, e de daí ter saudades.

Em você me sinto outra, livre, livre como jamais imaginei ser na vida. Satisfação só dou a você, porque você me embriaga tanto, que falo com você de tudo, das minhas dores, dos meus sonhos, dos meus anseios, das minhas mágoas. Você e seu companheiro, este mais ainda de que você, deve ser porque ele não se entedia porque nunca é o mesmo, me escuta e parece que me aconselha com o seu brilho, quando a luz do sol insiste em querer entrar no seu íntimo, e ele para impedir esta intimidade, se protege com uma capa imensa de muita luz e brilho prateado.

Sim minha querida, está na hora de voltar, é o que vou fazer em breve, enquanto isto vá se preparando, vá se esquentando mais, ficando mais bela, mais feliz, porque é assim que você fica quando o verão começa a bater à sua porta.

Diga ao companheiro que eu tô chegando, para que também ele se prepare e abra o seu grande sorriso prateado para me saudar.

Pois é estimada amiga, não seja egoísta como a música que a Amália cantava, você não é só portuguesa, você não tem nacionalidade, você é para todos, você é uma universalidade, pertence a todos aqueles que, com sentimento, lhe admira, lhe respeita e lhe ama.


                                                       Tô voltando: me aguarde!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

POEMAS

Todos nós temos um poeta dentro de nós, basta uma grande alegria, um grande felicidade, ou uma imensa dor, e a gente  resolve fazer poesia; umas muito boas, outras muito ruins,todavia, poesia.

Nasci par ter saudades

Parece que nasci para ter saudades!

Saudades de meus pais quando fui interna;

Saudades dos colegas quando sai do internato;

Saudades da minha infância quando virei adulta;

Saudades do primeiro amor quando ele se foi;

Saudades do meu filho quando ele partiu;

Saudades do meu amor quando ele deixou de me amar;

Saudades do dia em que conheci um outro amor;

Este, se foi para nunca mais voltar mesmo.

Saudades de você, que ainda hoje insiste em estar aqui

Dentro de um não saber de você que dói mais que a

Própria saudade.

Arembepe, Brasil, 2009



O que me fizeste

Não tens dimensão do que me fizeste

Tiraste-me o prazer de te saber meu

De te saber tão próximo que às vezes queria ter-te mais longe

Somente para cobrar a tua presença viva e forte

Não sabes o que me fizeste

Afastaste-me do amor real,

Vivo, quente, sentido,querido

Tenho agora só saudades

Saudades de ti, do corpo colado

Das tentativas do não amor

Ah! Se soubesses o que fizeste-me

Certamente procurarias um meio de desfazer a dor que me causaste

Me pegarias nos braços, me levarias para o aconhego,

E ficaria a meu lado como sabes que gosto, apenas ali, juntos,

Talvez de mãos dadas, apenas sentindo a presença um do outro

Escutando a respiração contínua, pausada, calma

Com a certeza de que se quer estar, nada mais que, “juntos”

Melides,Portugal, 2008



O que a tua falta faz

A tua falta me faz amarga,

Fria, agressiva, dura.

A tua falta me deixa seca, infeliz, feia.

Não acho graça da graça,

Não gosto de pessoas felizes,

Quero sombras, escuridão, infelicidade

Tudo isto faz parte do meu hoje,

Que não tem amanhã, pois não o quero,

Ele não me traz você, apenas me afasta do que amo

Melides, Portugal, 2008