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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Agradando a si próprio

Acabo de ler uma crônica de Marta Medeiros; por acaso entrei  num site e  vi a crônica que não tem título, mas ela não precisa de título, por si só se basta e cada qual que dê e o seu titulo.
Achei muito interessante, porque a autora descreve um acontecimento corriqueiro, que acontece com muitos de nós, que, em algum momento, por força de um “amor”,  lógico que um falso amor, a gente se esquece de si próprio e passa a fazer tudo o que o outro gosta, ou melhor: o que pensamos que o outro gosta.
A estória contada fala de uma mulher que teve um relacionamento, que teve o seu termo final através de um e-mail, numa mensagem lacônica:  “não dá mais”.  Daí em diante ela passa a fazer mil e uma coisas para chamar atenção do seu ex parceiro, que, para ela,  ainda continuava como parceiro, achando que aquilo era mais uma rusga de namorados.
Para tanto, passou a fazer ginástica, passando a ser a mulher mais malhada da região, passou fome para emagrecer e ter o corpo da moda, barriga chapada, pernas musculosas, bunda dura, braços torneados.  Não contente com isto, e porque o espírito não estava  tranquilo, passou a fazer Yoga, meditação, ler  muitos livros de auto ajuda. Ficou craque neste tipo de discussão. 
Como nada conseguiu, fez uma viagem para a Europa, onde passou trinta dias acostumando-se com o estar ela e ela, sem mais ninguém, diz que curtiu esta solidão forçada, aprendendo e apreendendo.
Fez tudo isto, e o “cara” nem aí. Acordava todos os dias a pensar o que poderia fazer para chamar a atenção daquele que era o seu amor, procurava saber  dos amigos o que ele estava curtindo  naquele momento, diz que fez promessas para Santo Antônio, e tudo o mais que lhe fizesse ser a preferida dele, mas não obteve qualquer êxito, até que um dia acordou feliz e satisfeita, olhou-se no espelho e viu o quanto era linda, e o quanto se bastava, sem a presença, agora fastidiosa  daquele que, naquele momento, nem sequer lembrava o nome, a quem queria agradar para se valorizar e se reafirmar como mulher.
É isto mesmo! Quantas vezes nos esquecemos de nós mesmos para agradar  o "Outro", aquele que pensamos que amamos, que valorizamos, que queremos ter conosco, sem nos aperceber que, cada vez que queremos mostrar ao outro o que  pensamos que ele quer ver, pode ser exatamente que ele esteja vendo o que ele não quer ver.  E nós, como ficamos quando fazemos apenas  o que  pensamos que agrada ao outro? Não temos vida própria, não nos gostamos da maneira que somos, fingimos o que não somos para agradar A. B ou C. Por que fazemos isto? Que  coisa mais boba é esquecer a nossa identidade para assumir a de outrem, uma identidade que não agrada nem a nós próprios e nem a quem a queremos demonstrar! Que tipo de  relacionamento é este que temos para com nós mesmo, que faz que esqueçamos de nós para  nos dar ao outro de uma maneira para lá de imbecil?
Não estamos com outro porque ele nos quer  desta ou daquela maneira, não temos que nos adaptar ao que as pessoas querem para nos sentirmos amadas. Primeiramente temos que nos amar da maneira que realmente somos. Podemos, bem verdade, modificar alguma coisa que  achamos que esta errada, ou que, mesmo sem estar errado, pode melhorar, mas  temos de fazer isto porque vai nos fazer sentir bem, por que nós fizemos a opção, é um ato completamente voluntário, que parte de nós mesmos.
Por exemplo: Quando resolvemos fazer uma plástica, seja ela corporal, facial,  a droga que for, temos que fazer isto porque  não estamos nos sentido bem, não porque alguém  nos olhou e nos achou envelhecida, como se não fosse uma coisa normal envelhecer. Se alguém não lhe quer porque você envelheceu, é porque realmente nunca lhe mereceu, porque o passar dos anos lhe dá uma outra beleza, a invisivel, a que se manifesta apenas nas suas ações, no seu interior, aquela que só é visível para as pessoas que tem sensibilidade, respeito, companheirismo.
Prestem atenção: não sou contra a plástica, de maneira alguma, vou fazer todas que tiver direito,  mas  definitivamente, não será para agradar ninguém Vou fazê-lo por mim, pois não gosto de ver as rugas que tenho  nos cantos dos olhos. Não gosto de olhar  meus seios caídos, quero-os  empinados e mostrando a sua áureola rosa; quero que a minha boca seja como era antes, mais delineada, enfim, quero  me agradar, me olhar no espelho e me sentir bonita.
Se tudo isto agradar a alguém, otimo, caso contrário, eu estarei satisfeita e é o que interessa. Se não fizer a plástica, vou continuar me olhando no espelho e vendo todos os defeitos causados pelo tempo, defeitos que demonstram o quanto vivi, o quanto  sofri,  o quanto amei, o quanto fui amada, o que fiz, enfim,vou me ver como eu, com tudo o que adquiri ao longo do tempo, que somente pode ser partilhado com quem merece, com quem  vê tudo isto com os mesmos olhos que me vejo;  os olhos do amor.  



sábado, 30 de abril de 2011

As guias dos orixás

Sabia que seria o centro das atenções. Mas o que fazer se tinha mesmo de ir àquela festa? Era o aniversário de uma grande amiga de seu namorado, aliás, o primeiro de uma série dos quais participou.

Ela coitada! pobrezinha: uma universitária linda, mas pobre. Desde o dia em que soube que teria de ir a esta festa não deixou de preocupar-se. Como iria? Como se vestiria? Será que não passaria por ridícula?

O namorado queria lhe mostrar a todos, claro! Era a mesmo uma mulher linda, e estava no frescor da sua beleza completamente natural, sequer se pintava. As suas roupas eram despojadas, não seguia moda porque não havia possibilidade de fazê-lo. Nesse tempo usava calças pijamas e o auge mesmo era a calça jeans, que, na sua grande maioria, e aliás para ter mesmo um grande valor, tinha de ser uma contrabandeada. Ela tinha uma, presente de um dos seus admiradores.

Bom, mas a calça jeans destoava da ocasião, pelo menos ela pensava assim; teria mesmo de arrumar uma maneira de ir a essa festa. Pensou em tomar uma roupa emprestada, mas não fez, porque o namorado parece ter entendido a sua ansiedade e lhe presenteou com uma saia lindíssima, do estilo que ela gostava. Estilo! Como se pobre tivesse direito à estilo, mas na verdade ela tinha mesmo um: era meio “Hippie”, gostava das roupas menos convencionais, “batas”, “calças estilo pijama”, “sandália de couro”, “roupas largas e compridas”, apesar de vestir muitos vestidos curtos que lhe valeram o apelido de “belas pernas” e de “bailarina das pernas grossas”. O fato é que seja de longo, seja de curto, seja de calça, sempre, mas sempre mesmo, chamou atenção.

Voltando às preocupações da festa. Ganhou a saia, e junto com ela uma sandália. A saia tinha nesgas. Era uma saia comprida com nesgas de um pano estampado e outras nesgas “jeans”, que se alternavam, era realmente linda.  A cintura meio baixa e a saia tinha muito movimento, porque do meio para o fim as nesgas cresciam e ela ficava bem rodada. A sandália acompanhava a saia; era também, de “jeans”, alta, com uma tirinha na frente, deixando a mostra todo o seu pé, que, sem falsa modéstia, sempre valorizou o calçado, porque muito bem feito. Bom, já estava mais de que vestida, mas faltava uma coisa: a blusa. Como arrumar uma blusa para usar com aquela saia? Já não podia falar com o namorado sobre isto, afinal ele já lhe presenteara com a saia e a sandália, seria, pois, uma grande sacanagem falar da blusa.

Teve uma idéia. Tinha em casa calças jeans antigas, velhas, desbotadas e entrou em ação, isto já na manhã da festa. A mãe costurava e ela pensou que ela poderia fazer a blusa.

Cortou as calças na altura da coxa, mediu o seu corpo na altura dos seios e pensou: Faço um "bustiê", deve ser assim que escreve, ou seja; uma tira de pano para cobrir os seios e já está. E foi o que fez. Cortou a tira, pediu à mãe que fizesse uma emenda no pano, dado que a largura não deu por inteiro, e que fixasse alguns colchetes no fundo. O que foi feito. Vestiu tudo, olhou-se no espelho, mas não gostou do resultado. A tira de pano parecia amassar seus peitos, não tinha movimento, ficou muito sem graça.

A hora da festa se aproximava e não se tinha solução para a blusa. De repente ela viu as contas de “santo” da sua mãe: colares de pedrinhas coloridas, muitos deles. Sem pestanejar pensou: E se eu colocasse estes colares como um suporte para esta blusa? Faria um nó na parte que ficava entre os seios e puxaria as contas até o pescoço, como se elas fossem mesmo um colar. Implorou á mãe que a deixasse fazer isto. A mãe não queria, porque as “contas” eram mesmo das suas obrigações com os santos, foram “lavadas”, “bentas”, enfim, tinham participado de todo o contexto da sua própria história, demonstravam quais os guias daquele “cavalo”(pessoa em que os orixás se manifestam), que era a sua mãe: “oxum", "omolú", "Iansã" "Nanã", e tantas outras, um belo colorido: amarelo ouro, azul turquesa, branco, verde. Depois de muito insistir a mãe cedeu, e ela colocou as contas como idealizara. O efeito foi maravilhoso. As contas fizeram a divisão dos seios e realmente salientaram a silhueta.

Quando o namorado chegou para pegá-la ficou entusiasmado. Ela estava simplesmente linda, a simplicidade da roupa, a excentricidade simples das contas, a sua própria beleza estava acentuada pela roupa, que lhe deixava à mostra a cintura delineada, o umbigo, o colo valorizado pelo desenho feito pelas contas. O cabelo encaracolado que lhe valera o apelido na faculdade “cabelo de ovelha”, completava o quadro.

Saiu de casa sabendo que estava realmente linda, mas, ainda assim, não sabia muito bem como se comportar em uma casa, para ela, “de ricos”. Afinal o dono da casa era um catedrático da faculdade. A filha aniversariante era colega de faculdade do namorado. O noivo dela, também era universitário, ambos estavam acabando o curso de direito. Moravam numa casa "chic" em um bairro "chic". A casa era freqüentada por empresários, artistas, professores, enfim, era um mundo completamente diverso do seu. O namorado lhe dava força, afinal ele queria mesmo é que todos conhecessem a sua nova aquisição.

E foi assim que ela entrou, pela primeira vez, naquela casa, que seria, durante longos anos da sua vida, um ancoradouro. Triunfante, viu os olhares sobre ela, tanto de homens quanto de mulheres. O seu namorado em nenhum instante desgrudou dela, parecia saber bem onde estava e com quem lhe dava. Os colegas de faculdade que ali estavam lhe diziam da sua beleza; estavam encantados, até porque nunca lhe viram tão arrumada assim. O dono da casa não lhe poupou os elogios, aliás, que se prolongaram até o resto da sua vida, ele era mesmo um admirador do belo, e ela estava incluída neste conceito, sempre lhe falava dos seus traços “gregos”. Ela ficava entre o envergonhada e o lisonjeada, tamanha a ênfase do admirador.

Nesse dia, conheceu muitas pessoas que seriam muito importantes e, em alguns momentos, fundamentais na sua vida.

Seguiu sua vida no meio daqueles que conheceu naquele dia de setembro do ano de 1973. Sabe que com o seu jeito simples conquistou muitos deles, que ainda hoje seguem os seus passos e continuam a se surpreender consigo, porque ela conseguiu mostrar que não era só bela, e sim uma grande e forte  mulher, capaz de driblar todas as adversidades, inclusive aquelas causadas por quem lhe apresentou àquela casa de sonhos e realizações.

As guias dos orixás da sua mãe, certamente, tiveram um papel fundamental em tudo isto: seguraram o seu peito e protegeram-na dos “maus olhados”. Eparrê! Atotô babá! 



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quanta modéstia!


Quem não gosta de receber elogios? Eu os adoro, mesmo sabendo que, muitas vezes, eles são falsos.

Desde criança que recebo muitos elogios: primeiro porque eu era mesmo uma criança linda, tinha cabelos cor de mel, que ficavam mesmo dourados no final de cada cacho. Os olhos bem claros, quase da cor dos cabelos, nariz fino, enfim, era bonita e era uma unanimidade,todos diziam a mesma coisa, Que criança linda!

Fui crescendo, e ao criança linda foram acrescentados outros elogios: menina inteligente, esperta. Ao lado dos elogios, também tinha outras qualidades não tão dignas de elogios assim: traquina, pintona, levada, faladeira, grosseira, sem modos, mas tudo perdoado por força da beleza.

Cresci acostumada a ser chamada de bonita. Na adolescência tornei-me uma adolescente bonita, fui ficando moça e passei a uma moça sensual e bonita. Quando desabrochei mesmo, passei a ser uma mulher bonita, enfim, a beleza fez parte da minha vida até um determinado limite de idade, pois tenho que concordar com uma amiga de Gloria e de Idalina: “a velhice fabrica monstros”.

Dos dezesseis anos para frente os elogios ficaram ousados, pois já tinham outro sentido para quem os fazia, bem como para mim que os recebia: “gostosa”, “colirio”, “avião” "gostosona" "gata" e muitos outros, próprios e impróprios.

Eu aos dezesete
Por força do meu nome recebi alguns apelidos; não eram bem elogios, mas gostava de ouvir quando me chamavam “preciosa”; “mel”, “jóia rara”, também não posso esquecer dos mais carinhosos e vindo de poucos: “fôfa”; “mera”; “melada”.

De um determinado momento da minha vida para frente comecei a receber elogios por força do trabalho: que funcionária exemplar! quanta responsabilidade; ela não é só bonita, este último, em particular, era bem o que eu gostava de saber, pois quem fazia o comentário não o fazia diretamente a mim. Fui elogiada por todos os chefes com quem trabalhei, embora, alguns deles, tenham querido ultrapassar o marco entre o elogio à trabalhadora e à mulher. Não nego que isto também me agradava muito.O problema de ser uma excelente funcionária foi a exploração pela qual passei durante o período em que trabalhei na empresa privada, e não só, pois, se um trabalho tivesse um grau de dificuldade maior, sobrava para mim, isto em termos de trabalhos administrativos, que era o que eu fazia. Se o trabalho requeria muita atenção, a exemplo dos mapas de faturamento, a responsabilidade era minha. Mapas de medição, relatórios de diretoria, contratos, e muitos outros trabalhos chatos, mas que não podiam ter enganos, e tudo feito na pressa.

Passei a ser: inteligente, responsável, organizada, atenta.

Há uma qualidade que tenho que não sei bem se as pessoas consideram como um elogio dizê-lo a quem a tem : que é ser gozadora. Gosto mesmo de gozar em todos os sentidos falando. Não posso deixar de apreciar o rídiculo e comentá-lo. Não posso deixar de criticar, com uma boa dose de “riso”, a minha própria vida, acho mesmo uma qualidade naqueles que fazem crítica da sua própria situação, fazendo com que estórias que poderiam ser muito tristes virem coisas hilariantes, acho esta minha qualidade fantástica. Realmente entendo como um elogio quando alguém me diz que sou gozadora, que não pode ser confudido com cinismo.

No entanto, apesar de receber elogios em muitos momentos da minha vida, afinal consegui orgulhosamente: passar no vestibular para Direito; ser advogada; passar em vários concursos públicos; passar, outra vez, no vestibular, desta feita para história, ser historiadora; trabalhar numa  empresa multinacional, aprender inglês, tentar falar francês,ser mestre em história e, para muitos, o mais importante, para mim a sobrevivência: ser Juíza, os que gostava, aliás, ainda gosto, de receber, apesar de hoje em dia estar ficando cada dia mais raro, são aqueles que me são dirigidos pelo só fato de ser mulher, e, como alguns dizem: poderosa.

Recebi esses elogios em diversas situações mesmo, as mais variadas possíveis: quando estava fazendo o curso preparatório, que foi realizado pelo TRT, para os Juízes que estavam tomando posse no momento, um dos professores um dia me disse: “ Dra. A sra. devia ser artista, e não Juíza”. O homem era muito tímido e sério, e eu não percebi muito bem o que ele quis dizer com isso, se queria me dizer que eu era bonita, ou se eu era burra, afinal ele estava a me avaliar. Algum tempo depois percebi, perfeitamente, que aquilo foi mesmo um elogio, pois, encontrando o dito em outro local, e já depois de alguns meses, ele me disse: “a Dra. engordou um pouco”. Bom, a partir daí creio que foi um elogio, o que acham vocês? Fui ou não elogiada? Acham que alguém ia notar que engordei se não tivesse mesmo me olhado antes, e bem? Acredito que não, até porque eu tinha engordado, se muito, uns dois quilos. Só quem lhe olhou atentamente perceberia uma zorra desta, isto estando eu a falar de homem, porque mulher diria somente para sacanear, e o comentário seria sarcástico e cretino: Você tá bem mais gorda não?

De outra feita, fui a inauguração da nova sede do TRT em Itabuna- Bahia, e depois da inauguração fui à parte menos protocolar dessas festas, aquela dos “comes e bebes”. Estava eu vestida adequadamente como convém a uma solenidade dessa, e pior ainda, quando você vai mesmo como Juíza. Calça comprida bege, blusa de listras bege e marron, bolsa e sapatos marrons. Penso que a festa era numa churrascaria, já não me lembro de muitos detalhes. Bom todos que participaram da inauguração, de presidente do TRT à funcionario de secretaria, estavam lá. Havia música ao vivo com palco e tudo. Estava lá um senhor, tipo peão de boiadeiro, imagine que o homem estava de chapéu, bota e cinto. Não estava mal vestido, pois tudo demonstrava ser de grande qualidade, mas não para a ocasião. O fato é que ele estava lá porque conhecia alguém importante na Junta do Trabalho, que era uma mulher e que, pelo que percebi, tava bem interessada no cidadão, que insistia em estar junto de mim. Mudei de lugar diversas vezes, primeiro porque percebi o interesse da mulher, segundo porque o cara era chato mesmo, terceiro por não querer nada mesmo com ninguém, estava muito bem servida na época. Música para lá, dança aqui, dança acolá, risos, brincadeiras, havia muitas pessoas do Tribunal, claro um evento deste “de gratis”, muitas comparecências... O certo é que, lá para tantas, eu tive que ficar até tarde porque a tinha de aguardar a minha carona para voltar ao hotel, eu ouço o meu nome, e de repente percebo muito espantada: alguém estava dedicando a música a seguir á Dra. Esmeralda, e o cantor estava dizendo exatamente isto: Vocês não vão adivinhar qual foi a música, tenho certeza!, Mas eu lhes digo: “Cavalgada”. Não era de estranhar, quem andava com aquela indumentária não poderia pensar em coisa melhor, entretanto, mesmo não gostando da escolha, tampouco da palhaçada, gostei do elogio. O homem queria mesmo era me dizer que eu poderia ser a sua “égua” de estimação, uma “égua que lhe daria muito prazer”, enfim, recebi um grande elogio, meio “cavalar” mas pensem na letra da música e percebam o que estou a dizer.

Pois não é que já fui chamada de muitas coisas: deliciosa, gostosa, gata, boazuda, algumas outras qualidades ditas em momentos de alcova, que não interessam no momento, mas nada se compara ao que você ouve quando passa perto de uma obra, de um jogo de futebol de praia ou em frente a oficinas . Menino é sensacional! Recomendo a todas as mulheres. Aí você se sente mesmo imensa, grande, sensacional.

Uma vez estava eu andando, cumprindo uma promessa de ir a pé até o Bonfim, não sei pagando o que, mas sei que estava andando para tal. Sai de minha casa em Piatã, andei toda a Paralela, entrei na Eduardo Magalhães, continuei andando até alcançar o Largo do Tanque. No caminho, muitas piadas, muitas ofertas de companhia. Entretanto, ali, descendo a rua do lado direito para alcançar o viaduto dos motoristas, quando vou passando à frente de uma oficina, só ouvi um espécie de chiado e depois: “que filé”. Não nego não! Acho que queria mesmo ser o filé que aquele homem queria provar, comer, sei lá o que. O som daquela expressão mostrava tudo o quanto o mecânico queria me dizer. “ Eu era mesmo o máximo naquele momento, a melhor qualidade de carne que ele podia conhecer era o que eu representava para êle.” Cheguei a ter a sensação do homem quase babando de prazer só em olhar a carne. Fiquei mesmo feliz, até porque já não era mais nenhuma menina, talvez, como menina nunca entendesse a intensidade daquele elogio. Ri muito, ri tanto, e achei tão bom, que tive de parar e agradecer ao senhor. Hilariante e sensacional, at the same time.

Um outro que adorei ouvir: Vinha eu saindo do comboio em Lisboa, no Cais Sodré, quando um senhor que estava parado na estação terminal e vinha caminhando na minha direçãol me olhou e disse, simplesmente: “Que mulher linda!”, eu já tava na casa dos cinquentinha.

De outra feita, estava eu chegando em uma cidade do nordeste, e havia uma pessoa a nos esperar no aeroporto, estavamos eu e meu companheiro na época; me lembro que estava com um vestido azul de malha, bem ligado ao corpo, sandália alta, enfim, estava bem arrumada. Acabamos de pegar as malas e vamos nos dirigindo á saida do portão de desembarque para alcançar o saguão; quando a porta se abriu e eu visualisei a pessoa que nos esperava, vi a expressão do cidadão ao me olhar, percebi pelos seus lábios o comentário que ele não conseguiu controlar: “puta que pariu”! Confesso que fiquei maravilhada, nunca um “puta que pariu” me deu tanto prazer em ser percebido. Aquela expressão foi a coisa mais sentida que o homem pode usar naquele instante. Ele não saberia expressar de outra maneira o que ele tava vendo, a surpresa de me vir tão bem e bonita, a expressão era a do inacreditável, do fantástico, do fenomenal. Adorei, quanto melhor, quando chegamos junto ao cidadão e ele disse: “Quando a porta se abriu e eu vi você, pensei que era uma artista de cinema”. Realmente eu estava em um dia de glória, pois quando a esposa deste cidadão chegou ao pé de mim, logo depois e já num bar , ela me disse:” Estava louca para te ver, pois me disseram que você estava linda, que a roupa era linda, que você estava chamando atenção no aeroporto”. É mole ou quer mais? Tava nos quarenta e poucos.

O vestido de que falo devia ficar muito bem em mim, pois, fui a um aniversário de uma amiga irmã em um bar em Salvador, e quando cheguei, senti que algumas pessoas me olhavam, mas não dei muito bola, pois o meu cabelo é um cartão de visita da porra, e sempre acho que ele é que chama atenção, portanto, continuei andando, mas, quando cheguei na mesa para onde me dirigia e onde a minha amiga-irmã e convidados estavam, ela levantou-se e disse para o meu companheiro: Homem tome cuidado com esta mulher, ela esta linda!. Acho que tinha de acreditar mesmo.

Em Lisboa, passando em frente a uma obra na Ajuda, perto do Arquivo Histórico do Ultramar ouvi um pedreiro dizer: “Que traço!”, não entendi nada. Depois perguntei a um amigo, que por acaso era empreiteiro, o que era isto, ele devia saber de que se tratava. Quando fiz esta pergunta o homem desatou a rir muito, e disse-me: “o que o pedreiro te disse foi que tu eras uma mulher bonita, com tudo no lugar, perfeita, com o traço certinho”. Olhe ai! Os cinquenta na cabeça e, infelizmente, “no corpo”também, mas ainda dando para o gasto, ao que parece.

Uma vez passei por um grupo de jovens, jovens mesmo, entre os 19- 25 anos, e ouvi um deles dizer: Rapaz “uma coroa desta eu como”. Não nego que não gostei do coroa, mas o “eu como” me deu a certeza de que eu tava para lá de bem.

Aos cinquenta e três anos dei uma recauchutada boa, tirei o excesso da barriga que se acumulou com o tempo e a cerveja, nada que não me deixasse receber alguns dos elogios anteriores, que aconteceram em período que antecederam a ela, mas o fato é que, fiquei bem. Ouvi isto de mulheres e de homens, dos meus filhos, de amigos, mas nada se comparou a um comentário de um vizinho: “O que era bom ficou melhor”. É bom mesmo, inclusive, saber que você é notada, olhada, admirada, por quem você nem imagina que seja. Um grande amigo ao me vir disse-me “Você está viçosa”. Olhe velho, isto tudo é para lá de bom.

No ano passado ou antepassado, cheguei em Salvador indo de Lisboa, cá estava frio e eu estava de jeans, botas de cano alto, blusa por dentro da calça, casaco, cachecol, enfim, toda aquela parafernália de inverno. O meu filho e meu neto estavam a me esperar no aeroporto. Quando eles chegaram junto a mim, o meu filho disse-me, “minha mãe a sra tá bonita com esta roupa”, ao que o meu neto de nove anos disse: “ pois é mesmo verdade;, minha vó você ta linda”. Já estava eu com os 56. É bom ou não é? Duas gerações a me dizer uma coisa só. É sinal de que ainda dou para o gasto.

Há ainda aqueles elogios calados que são feitos somente com os olhos, pois as situações não permitem que nada se diga. Há outros que um o aperto de mão completa o olhar que insiste em não ser furtivo. Sim, eu recebi muitos, mas muitos elogios assim. Continuo, não na frequência de antes, recebendo-os.

Durante a minha vida ouvi mesmo muitas coisas, desde os falsos “você não muda nada”,como se eu fosse cega e não visse a minha cara com as rugas do tempo querendo se espalhar, sem o menor respeito pela minha pessoa, entrando porta adentro e se mostrando depois por fora, até um com o qual vou finalizar esta minha apoteótica e nada modesta auto promoção, afinal esta última é a alma do negócio.Estava eu em um bailarico da terceira idade, aqui em Lisboa tem muitos, e fui convidada para dançar por um dos frequentadores, um senhor de muito mais de meia idade, e ele a me fazer muitas perguntas, afinal sou brasileira e, estando num baile desses, é como se tivesse um cartão de visita na testa: “disponível”. O velho começou a me fazer “n” perguntas, e terminou por me dizer que não entendia como uma mulher como eu podia estar sozinha aqui em Lisboa. Sacanamente perguntei o que ele queria dizer com uma mulher assim como eu, e ele me responde olhando mesmo para mim, chegando mesmo a se afastar para me olhar inteira: “ESTUPENDA”. Senti o impacto da palavra: Me senti enorme, cheia de peito, grande, extraordinária, algo de muito diferente mesmo, uma coisa nada comum. É isto mesmo: acho que, de agora em diante, a palavra que mais pode dizer de mim é esta : E S T U P E N D A. Quanta modéstia!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Rua da Imperatriz e os cabelos da menina


Era linda, uma menina de chamar atenção. Os cabelos longos cor de mel. Começavam castanhos claros para acabarem dourados nas pontas. Sua mãe enrrolava- os em cachos, que caiam dourados até o meio das costas. De vez em quando fazia um cacho maior reunindo todo o cabelo do lado direito e colocava um laço. O laço era enorme e, como de costume, combinava com a roupa que estava vestida. Quando ia para a escola com este penteado, o laço era sempre azul marinho.
Sempre teve cabelo muito cheio, o que era um grande problema, pois pelo fio ser muito fino quando não estava preso, ou com os cachos feitos, virava uma juba.
Desembaraçar esse cabelo era problema para um ano e mais seis meses. Todos os dias pela manhã a mesma novela.
A novela tinha muitos personagens, não sé ela e a sua mãe. Primeiro eram os personagens da própria família que se fartavam todos os dias de ouvirem os gritos da mãe com raiva, e os gritos da filha com dor, porque como ela berrava para não pentear os cabelos a mãe lhe batia com o pente de osso que usava para desembaraçá-los.
Era flocklore na Rua onde morava, Rua da Imperatriz, uma rua que fica na cidade baixa, em Salvador, e que liga a Baixa do Bonfim à Boa Viagem.
Tinha uma vizinha que lhe chamava despertador, dizia ela que só acordava quando a menina passava gritando, pois muitas vezes era levada para a escola ainda a pentear os cabelos, sua mãe não tinha qualquer escrúpulo nesse sentido. A porrada comia solta, seja em casa, seja no caminho. Elas seguiam, as duas, uma na frente, claro que ela, e a outra atrás terminando de fazer ou os cachos, ou as tranças. Todo dia a mesma rotina; não se cansavam, ela de apanhar e a sua mãe de bater, os da rua, de ver a cena e, muitas vezes, quando a coisa tava muito grossa, oferecerem-se para acabar o serviço e levá-la à escola, o que era um grande alivio: pior para a senhora que só acordava quando ela passava gritando, nesses dias, com certeza, chegava atrasada ao trabalho.
O pior de tudo é que sua mãe não lhe queria cortar os cabelos, no que tinha muita razão: quando comportados, isto é; penteados, os cabelos eram lindos mesmo. Com eles e com o seu belo rosto, conseguiu sempre ser a rainha da primavera, rainha do milho, anjo nas procissões, baliza nas paradas em que a escola participava, enfim, tudo o que a beleza pode proporcionar naquela idade, e olhe que ela nem precisava vender os votos, alguém o fazia por ela.
Quando esteve interna o cabelo continuou a lhe dar problemas; primeiro pegou piolho, pense aí, um cabelo quase mel, da cor da lêndea, cheio delas e dos seus filhos, uma droga, as freiras endoidaram, mas não lhe cortaram o cabelo. Depois era o próprio cuidado com o cabelo, ela não tinha nenhum, não conseguia sequer penteá-los até o fim, não tinha força e o seu braço não alcançava, resultado estava sempre incomodando alguém para lhe tratar o cabelo. Lavá-los era outra novela, não conseguia tirar todo o sabão, que era de coco, naquele tempo não havia o luxo do shampoo, esfregava-se a barra do sabão nos cabelos, e depois enxágüe: Desembaraçante: que palavra era esta? O negócio era no braço mesmo, tinha de ser desembaraçado era no pente, na tora, o que lhe trazia mais e mais problemas, porque era dolorido o processo.
Continuou com o seu cabelo, e quanto mais ia crescendo também ele ia enchendo mais e mais, cada vez ficando mais seco e, consequentemente, volumoso; não havia maneira de amansar o bicho, ou tava preso de rabo de cavalo, ou tava solto e a juba era mesmo imensa; por causa dela teve a sua transferência da escola entregue a sua mãe, pois, um dia quando estava limpando o jardim da infância, um trabalhinho destes que só a ela era dado, porque ela ali perdia horas a fio limpando os brinquedos, as canecas, os pratos, enfim, tudo o que estava dentro das salas onde funcionava o jardim, a irmã responsável pela área, uma velha gorda e feia, lhe disse que ela estava parecendo uma leoa, e ela, prontamente: e a senhora UMA VACA! E a vaca agiu como tal: fez queixa a superiora da escola, que como rocha que era e já cheia de ouvir muitas e muitas queixas contra a garota, aguardou o final do ano e, quando a sua mãe lhe veio buscar para o natal, já encontrou a sua transferência pronta, sem qualquer direito à argumentação.
Não pensem vocês que a história do cabelo acabou: ele ainda continua cheio, perdendo a sua cor de mel, que agora já anda falsificada pelas tintas naturais não naturais, e ainda dando muito que falar a quem não tem, mas é uma marca registrada da sua portadora, que, mesmo de longe, é reconhecida por ele, que também já lhe valeu alcunhas várias, de hippie à louca.
Ela continua com os seus cabelos, muitas vezes, revoltadíssimos, mas que não lha impediram de viver e conseguir todas as suas vitórias. Cabelo que ajudou a lhe fazer uma mulher atraente e que, exatamente por tê-los, saber-se “diferente”.