sábado, 9 de abril de 2011

Um dia de chuva

Está sozinha, uma constante nos últimos 10 a 12 anos de sua vida. Já se acostumara e há tempos que achava boa esta solidão compartilhada consigo própria e com as suas coisas, principalmente seu livros e o fiel e mais recente amigo, o “lap top”.

Dia feio para alguns, chovia, e ela deitada na rede olhava a chuva cair. Gostava de fazer isto, mui principalmente, sem intermediação de nada. Como estava na varanda podia ver e ouvir a chuva, a água caindo, o cheiro da terra subindo, respingos pelo corpo. A grama mais verde, viçosa, os cocos brilhando como se alguém tivesse passado vaselina neles, de um a um.

O telhado encharcado formava manchas aqui e ali. Uma goteira no meio da sala. Uma brisa leve entrando porta adentro, lhe fazendo arrepiar.

Quer estudar, se concentrar no que estava fazendo, mas é impossível, a chuva está linda, os pingos grossos podem ser visualizados com facilidade. A pitangueira, com a força da chuva, vai abortando as pitangas, as flores branquinhas caem uma a uma, não agüentam a força d água. O bouganville esta sem flores, não gosta de chuva, adora sol e, portanto, recolhe as suas flores “lilases”.

Às onze horas não abriram nem as onze, nem as doze, e não vão abrir mais, elas também gostam do sol.

As duas  amigas, no seu cantinho, ficam ali balançando as suas folinhas verdes finas e elegantes, sempre eretas, mas as flores que dão suporte ao nome estão retraídas, não saem. Devem sentir falta da mão que lhes colocou naquele refúgio.

A palmeira também não gosta da chuva, mas mesmo assim, as suas folhas estão verdes.

A chuva aumenta, ele vai ter de sair da varanda, vai deixar a rede, vai para dentro de casa, agora vai ver a chuva através dos vidros. Verá imagens distorcidas, porque o vidro é canelado, mas a cor é nítida, o verde da grama, o verde das palmas do coqueiro, a silhueta do bougainville, tudo muito bem definido.

A entrada da casa fica linda na chuva, as cores contrastam; o branco do muro e o verde da grama, a madeira do portão, tudo harmônico. O céu está cinza, mas isto não importa, amanhã ele retornará intenso, azul e branco.

Hoje o dia é para admirar a chuva e o seu efeito, não é para lembrar de sol e nem de céu azul.

O dia é cinzento e belo como deve ser um dia cinzento, propício ao aconchego. Pensa na música de Djavan e, fatalmente, lembra de quem muito gostava do compositor. Lembra do verso. “E o meu jardim da vida ressecou, morreu, do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”. Entende o verso, mas não concorda com a discriminação, Maria,Margarida são belas e iguais.

A voz cálida de Caetano Veloso sai da casa vizinha e alcança a casa dela, volta no tempo, pensa em quantas vezes e em quantas situações já ouviu aquela música. Uma vez ela lhe foi oferecida pelo próprio autor, não que ele o fizesse “spont sua”, um amigo pediu para que ele o fizesse, e ele o fez: “[...] Você é linda e sabe viver, você me faz feliz, esta canção é só para dizer e diz[...]” Não quer recordar, levanta vai até a porta da frente, pela greta do portão vê que a rua está cheia de água barrenta. Um carro buzina, insiste, ninguém vai atender, porque chove mais e mais.

Ela continua só, volta e deita novamente na rede e, deitada na rede, lê Lombroso e a sua teoria sobre os criminosos natos e pensa consigo mesma: Será que Lombroso teve alguma vez, um dia deste? Será que ele parou um dia para ver a chuva cair e pensar em absolutamente nada, apenas olhando e se encantando, constatando que realmente existe uma força enorme, grande, envolvente, que é capaz de fazer dias quentes, escaldantes até, e no dia seguinte manter o equilíbrio natural com um belo e gostoso dia de chuva, como o de hoje? Não, ele não devia ter tempo, estava muito preocupado em analisar os sinais exteriores dos “delinqüentes” e estereotipá-los de uma maneira cruel. Com Lombroso o nascer feio e nordestino já deveria ser um grande indício de criminalidade latente. Ah! se ele hoje vivesse para ver um menino dos olhos azuis, alto, com crânio “dolicéfalo” (alongado) delinqüindo como qualquer um dos seus estereotipados de crânio “braquicéfalo” (arredondado,achatado). Que faria ele?

Quer desviar o pensamento de Lombroso e olha o peixe de acrílico pendurado na parede, está todo molhando, parece que agora está mais próximo do seu habitat.

Mais uma música chama a sua atenção, esta vai bater mesmo lá no fundo, lembra do tempo que ao entrar no carro do seu “amado” ele sempre colocava a fita cassete, ainda era assim, “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar...” Tem vontade de chorar, mas resiste, afinal, ela só estava olhando a chuva e não queria lembrar-se de nada, não queria ter saudades, queria apenas ver a água cair limpando tudo por onde passasse, purificando o ar, lubrificando a vida, deixando a natureza mostrar toda a sua potencialidade

A chuva continua, mas a música conseguiu quebrar mesmo todo o encanto, vê que não está tão sozinha assim, pois a sua vida foi invadida pela vida de outrem que, por motivos diversos dos seus, gosta da música que lhe transportou ao tempo em que podia dizer que era “amada” e amada de alguém.

Vai para a chuva, talvez a água possa tirar de si as lembranças. Brinca embaixo da chuva, volta a um tempo em que não tinha lembranças, apenas esperanças. Olha em redor e vê o verde, sorri. Sai da chuva se enxuga, volta a estudar, está clorofilada.

Arembepe, abril 2011