segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ogunhê

Estive em uma festa para Ogum; São Jorge para alguns e Santo Antonio para outros. Foi lá em Arembepe, no Coqueiro. Emocionei-me em demasia. Os tambores me faziam arrepiar, uma crescente emoção tomava conta do meu corpo, e, o que dificilmente acontece, eu estava ali de corpo e alma, pois não me lembro de ter pensando em qualquer outra coisa diversa do que ali acontecia.

Quando cheguei a cerimônia estava começando. A comida de Ogum, que é a feijoada, estava sendo oferecida. Estavam preparando os pratos. Uma panela na sala, em cima de uma toalha branca, agdá com arroz, salada de alface, cebola, tomate, farinha. Muitos pratos de barro (tempero). Noto que há uma hierarquia na feitura daqueles pratos; do lado direito algumas mulheres colocavam o arroz e a salada, mas o feijão e a carne do feijão, bem como a farinha eram colocados por outra senhora, que estava de pé do lado esquerdo e só se curvava por sobre a panela para colocar a comida nos pratos, que eram completados e separados na lateral direita, até que se completou o número de nove deles, acho eu. Depois de tudo isto feito, os pratos foram distribuídos, estes nove ali servidos, somente para homens, que acredito, eram dali também e que deviam ser autoridades naquele terreiro. Todo este ritual era acompanhado de música, que os filhos da casa cantavam ali bem junto da comida. O pai de santo e a mãe de santo, aliás, uma senhora linda que mostrava a sua reluzente dentadura perfeita, presidiam a cerimônia. A mulher do lado esquerdo, ele do lado direito. A senhora vestia uma roupa lindíssima, uma blusa branca e uma saia bem estampada que me levou a Moçambique e os seus panos. Na cabeça um turbante de baiana. O homem estava vestido com uma kafta até os joelhos, e uma calça; ambos com o mesmo padrão, acho que ele mudou de roupa umas duas vezes durante todo o cerimonial. Um pano verde lhe caia ao lado. E a cabeça estava coberta, parecia um muçulmano
Serviram feijoada para mais pessoas, mas agora do lado de fora, depois de acabada o ritual lá dentro

De repente os tambores começam a tocar. Fico arrepiada, as filhas e filhos de santo dançam ao redor daquele altar que já fora desfeito no que diz respeito à comida, mas há plantas e comida ali. O terreiro é grande, as pessoas estão sentadas ao redor da sala. Na parte de cima da casa,junto ao telhado, panos azuis e prateados decoram o ambiente, Há muita vegetação no centro do terreiro, concentrada no local onde antes serviram a comida.

Fico olhando aquilo tudo, é ao mesmo tempo bonito e surreal. As pessoas vão entrando em transe. Parecem que realmente não estão ali, os olhos estão semicerrados, alguns estão mesmo fechados, outros reviram. As expressões mudam, algumas ficam grosseiras, outras amenizam. O batuque continua e há uma crescente no toque. A cada toque um passo diferente, é a música e dança de cada orixá.

Continuo inebriada. Olho tudo com curiosidade e emoção, estou visivelmente emocionada, as lágrimas correm. De repente os atabaques param para recomeçarem um pouco mais forte e mais ritmado; os Orixás entram devidamente caracterizados com as suas roupas e os seus instrumentos e armas, as lágrimas escorrem aos borbotões, não consigo controlar. Os pelos estão eriçados, tento disfarçar, mas não adianta, tudo em mim, naquele momento, vibra. Estou atenta quero ver tudo, registrar tudo, tento tirar fotos: tiro várias, quero registrar este momento e o quero levar para alguns,que jamais viram qualquer coisa semelhante.

Os dois Oguns estão ali. Os cavalos, um homem e uma mulher estão com as suas vestes brancas, as roupas são lindas. Ambos estão lindos. Os rostos estão contritos, mas não estão endurecidos. Dançam, olho os pés, o vaivém deles me deixa um pouco zonza, queria saber dançar como eles, os braços acompanham o movimento. O tom do batuque muda; os pés também: movimentam-se diferentemente, o mesmo acontece com as mãos, os braços.

Os Oguns, o do cavalo homem tem uma faca, ou uma espada, não sei bem, que ele coloca, durante todo o tempo em que ali esteve, com a ponta virada para o seu próprio corpo à altura do ombro direito.

Ha mais Orixás na sala, não sei o nome, alguém me diz que ali estão Iansã, Oxum, Oxossi. Há duas Iansãs, vestem roupas lindas: brancas com uma faixa na barra, uma azul e a outra vermelha, as roupas são mesmo maravilhosas, embora eu não consiga entender como, com um calor daqueles, as pessoas suportavam tais roupas. Uma calça branca por baixo, muitas saias por cima, saias armadas para que fiquem bem rodadas.

Oxossi, cujo cavalo era uma mulher, estava lindo. O rosto do cavalo era ameno, mas muito sério, concentrado. A dança fica frenética, os Orixás mostram toda a sua beleza, parecem estar felizes gritam, pulam, mostram as suas armas.

Estou na porta de entrada do terreiro, os Orixás saem da roda e vem, um a um, separadamente e em momentos diversos, do lado de fora. Acho interessante a maneira que eles saem e entram. Sempre de costas, ou, então, de lado.  Ogum, ambos, falam comigo, me abraçam, sinto o suor dos cavalos, não me importo, deixo me levar pela emoção mesmo. Quando do abraço do Ogum do cavalo homem peço que ele olhe o meu filho, peço com fé, com emoção, aperto num abraço emocionado o Orixá, um momento completamente mágico, porque o abraço é mesmo correspondido, apertado, sentido. Todos me vêem chorar, estou visivelmente e completamente emocionada. Não consigo parar de chorar.

O Oxossi esta dando um show particular, a dança é linda. Antes as Iansãns dançaram, suspenderam as barras das saias, balançaram os panos. Algumas vezes pararam diante de determinadas pessoas e davam os seus gritos de saudação; saudam-nas, abrançam-nas; outras vezes deitam-se no chão diante delas. Sei que tudo isto é um ritual, sei da hierarquia, mas não sei como funciona e só sei que estou ali, extasiada.

Pessoas que estão participando da festa incorporam seus guias. Alguém lhes coloca um pano amarrado por sobre a roupa que vestem, os sapatos são de logo retirados, a expressão de todos eles muda. Juntam-se à roda e dançam, alguns são retirados e levados para dentro de um espaço que não vejo como é; só vislumbro a entrada, é dali que também saíram os Orixás e para onde retornam quando se ausentam da sala.

Ha um negro muito bonito, agora ele esta vestido de azul, deve ser uma autoridade bem grande ali dentro, porque ele tem um instrumento na mão que ele chocalha; parece chamar alguém, e ele canta as músicas dos Orixás, a língua para mim é ininteligível.

Dentre os participantes da roda, duas crianças, uma, mais nova, dança sem a seqüência correta, mas dança, o outro sabe todos os passos e movimentos da mão, esta feliz, não sorri, aliás, uma característica, ninguém sorri, todos estão concentrados, os rostos estão sérios, tudo é feito com muita seriedade mesmo.

Alguém me chama e diz que a feijoada esta servida. Eu não ia comer, porque já tinha comido feijão dois dias direto e queria me preservar, mas não resisti, a comida cheirava muito e vou buscar o prato no balcão. Tudo organizado, uma panela imensa, nada parecida com as minhas. Acho que realmente pode se cozinhar uma pessoa de baixa estatura dentro dela. Dão-me o prato e eu fico olhando sem saber bem o que fazer, porque não há talheres, você tem de comer de mão. Bom, o que não tem remédio, remediado está, já dizia minha mãe, portanto, comecei a comer com o dedo indicador somente. A feijoada esta ótima. Como todo o prato com o dedo indicador. Tomo dois copos de cerveja e volto para apreciar o restante da festa. Limpo as mãos com dois lenços perfumados. As pessoas me olham, estou toda de azul, vestido longo, cabelos soltos, sandália azul, destôo um pouco daquilo tudo, depois estou muito emocionada e envolvida, que, de repente, as pessoas me olham sem muito entender, não me importo e estou ali, de novo, á frente da porta.

A máquina descarrega toda a bateria, alguém se oferece para me emprestar a bateria, agradeço, mas não aceito. A festa esta acabando. Um dos Oguns, o do cavalo mulher, vem distribuir pão ao publico, ganho um e mais um abraço. Torno a pedir ajuda para meu filho.

O batuque está mais rápido e mais forte. Os batuqueiros, em número de três estão todos de branco, os atabaques estão enfeitados com laços de panos verdes. Todos os Orixás estão na sala e os pais de santo, tanto a senhora, como o homem também; tomam conta dos Orixás, os vão encaminhando para seus lugares, devem retornar às matas, e eles vão saindo um atrás do outro. Saem os Orixás e entram os filhos da casa, a sala enche, todos dançam. O homem de azul, o negro bonito, canta, dança, é literalmente uma crescente de sentimentos sensações que não identifico.

Os atabaques param. Tudo para, Acabou. Agora todos podem beber e comer à vontade. Eu não quero mais nada, estou cansada, parece que recebi tanta energia positiva, que fiquei cheia, sem ter o costume de o estar, porisso o cansaço.

Alguém me chama, querem me apresentar ao “dono” da casa. O nome dele, por incrível coincidência, é FABIO. Ronaldo me diz que ele havia perguntado quem era a mulher de azul, e que ele tinha notado a minha emoção e a maneira que eu passava as mãos nos braços, quando queria que os pelos voltassem ao lugar.

Chego junto ao senhor, recebo um abraço enorme, forte, um desses abraços que somente um amigo pode dar, e eu recebo de um desconhecido. Dou os parabéns pela festa, continuo emocionada e ele me diz que realmente notou toda a minha emoção.

Esta na hora de ir embora, e é o que fazemos, eu Ronaldo, Roberto, Rita e mais uma senhora que eles chamam de Neguinha, que por acaso é “loura”, há outro senhor de cujo nome esqueci.

Chego a casa, tomo banho, fico pensando em tudo o que vi e o que senti, e me pergunto: Por que resolvi fazer História da África? Será que há alguma ligação com o que presenciei hoje e a emoção que senti? Oxalá que sim. Ogunhê...