/
Contar estórias e histórias; ficção e realidade se misturando para fazer rir, chorar, viver.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Diga, simplesmente, Não
“Eu lhe disse que era melhor
ficar calada, mas você, como sempre, nunca segue os meus conselhos, tampouco
faz caso das minhas ponderações.”
Estava evidente que isto ia
acontecer, tantos anos se passaram, mas parece que nada mudou, embora ela
saiba, mudou e muito, mas no relacionamento deles é como se o tempo tivesse
parado.
As mesmas rusgas, as mesmas
queixas, os mesmos problemas, tudo igual. Neste final de semana, entretanto, o
que ela mais temia aconteceu. Um ponto de divergência enorme. Aquilo não era
para ser lembrado, nem discutido, nada enfim. Para ela estava pacificado aquele
entendimento, mas depois de tantos anos, o filme passou e ela não gostou do
enredo, nem antes e nem agora. Um enredo
traumático, ruim de se ver. Sem a lógica necessária para um bom entendimento.
Parecia um filme sem roteirista, continuista, etc., etc., até mesmo sem
figurinista.
Estava espantada ao ver a reação
dos espectadores, bem como dos próprios personagens. No fim do filme só o desgaste
emocional da espera de um final, que já sabe, não virá tão cedo, há muita
divergência entre os personagens principais, eles não se entendem em relação
aos coadjuvantes, ao seu ver, um mar de pessoas
completamente desnecessárias, que nada lhe acrescem, pelo contrário, já lhe
sugaram demais, arrancaram muitos ais de seu peito, já lhe deixaram sem chão,
sem voz, sem alma até, por um grande período, aquele período em que os atos que
lhe decepcionavam costumavam atolar a
sua alma de tal maneira, que era difícil sair. Era preciso, ou melhor: foi
preciso muita coragem, tempo, e uma boa dose de auto estima.
Sim, ela passara tudo isto e saíra
daquela morbidez que se impusera, embora coativamente, pois nunca desejou
isto. Fizeram tudo para que ela assim
ficasse, uma imposição mesmo. Ela, desnorteada até, deixou que as coisas, os
acontecimentos, a dor entrasse em si.
Demorou muito tempo, chorou, sofreu, enfim, mas conseguiu sair daquele desespero,
no entanto ficou, como sempre, marcada e as marcas deixam mesmo feridas
cicatrizadas, quase incuráveis, que podem, com um só gesto, uma só palavra,
serem reabertas e, de novo, não com a intensidade de antes, pois o tempo faz
isto, diminui a intensidade de tudo, seja do amor, seja do ódio, mas não apaga
nada por completo.
Por que será que as pessoas não
entendem a dor do outro? Não sou adepta
da “a dor é minha e não é de mais ninguém”. Sim, sei perfeitamente que a dor é
nossa, pessoal, ninguém sofre a nossa dor e nem a sente, mas ela precisa ser
respeitada. Você pode não compartilhar a dor, mas quem estar por perto de você,
precisa entender a sua dor e evitar que ela se renove.
Quão mórbido é o prazer de alguém
que renova a dor do alheio. Será que nunca sentiu nenhuma dor? Não falo aqui,
por óbvio da dor física, embora ela possa ser consequência de uma dor interior
mesmo, que fragiliza tanto o eu, que
o corpo pode reagir a isto; falo da
dor da alma, esta que machuca tanto,
tanto que faz você esquecer de si
próprio, porque ela é que passa a ser você, entra em todos os seus poros,
circula em toda a sua teia sanguínea,
lhe consome por dentro.
Já passou diversas situações
assim, de ficar tão debilitada interiormente que não tinha qualquer reação durante
algum tempo. Não sabe se ama tanto
algumas pessoas que, quando a decepção
vem delas, é maior do que pode
assimilar! O fato é que por elas e por causa delas, tem tentado mudar, mas é
difícil: quando pensa que esta curada de tudo, vem uma palavrinha, uma
lembrança e tudo perdido: e o peito retoma uma frequência anterior.
É difícil, mas não é impossível. Não se deixem
pegar por qualquer dor, não sofram, não chorem. Afastem da sua vida aquilo que
lhes causa qualquer dor, até mesmo um pequeno desconforto, porque ele evoluiu e
pode lhe causar grandes sofrimentos, que podem ser evitados apenas com uma
decisão: “Não quero.
terça-feira, 7 de novembro de 2017
A casa da Torre
Saí de Arembepe e fui até praia
do Forte, com o objetivo de visitar o Castelo Garcia D´Avila – Castelo da
Torre. Já fiz isto outras vezes, no entanto, hoje estou indo com os meus olhos
de ver, porque li muito sobre o clã, embora com leituras que trazem, apenas as
glorias e conquistas desta família.
Me assusto, parece-me que estou num
túnel o tempo, estou em um período distante do atual, os calafrios
me deixam gelada, os pelos estão eriçados, vejo, perplexa, um homem caminhando em minha
direção.
Fixo meu olhar na figura que cada
vez mais se aproxima, percebo que não é uma pessoa do nosso tempo, suas vestes,
a barba, as armas, enfim, ninguém que estava por perto quando adentrei ao local
estava assim trajado, e não poderia ser diferente, ninguém mais se vestia
daquela maneira, parecia uma pessoa saída dos meus livros de história.
Olho para as pessoas que estão
por perto, elas não parecem assustadas, continuam percorrendo as ruinas da casa
da Torre como se nada estivesse acontecendo de diferente. A figura vem se
chegando mais e mais, para diante de mim: quase tenho um ataque do coração
quando com um português bem diferente e com as mãos para trás ouço: Que fazes
aqui? Quem és? Como adentrastes a esta
casa? Susto após susto, congelada, não tenho como responder, até tento, mas a
voz não sai e vejo as mãos do homem em minha direção, tento correr e não saio
do lugar, tento gritar, mas nada, não sai som algum, as pessoas passam por detrás
de mim, por trás do homem, e parecem não ver nada, vou dando de ré, até me encostar
na parede de pedra, que ferve, pois o castelo em ruínas não tem teto e o
sol esquenta as pedras que chegam mesmo
a queimar minhas costas. O homem continua a vim em minha direção. Lembro-me então: É o Senhor Garcia D`Ávila, o
homem mais rico da Bahia? O Sr. Da casa
da Torre?
“ Me conheces?”
Tomo as rédeas; parece que tenho
uma iluminação divina e digo: Quem nesta terra Brasil não vos conhece
senhor? O Senhor dos sertões
nordestinos, o criador de gado que alcançou terras longínquas, do curral de
Itapoã às terras dos quatro cantos do
Brasil? O homem que criou um feudo por estas terras brazilis.
“Onde vives? Que fazes aqui? És
muito diferente das mulheres e outras pessoas que tem acesso à minha propriedade? És acaso
filha de algum dos escravos? Não pareces, tens a pele clara, vestes-te de uma
maneira muito diferente.
Senhor D´Avila: se eu explicasse
o senhor não entenderia, mas conheço a si e a vossa família, posso contar a sua
história e se tiver erros o senhor pode corrigir, tenhas a certeza que muito me
ajudará.
O Sr. veio de Portugal em
companhia de Tomé de Souza, aliás, dizem
as más línguas que o Sr é filho bastardo dele. É verdade?
Eu, filho Bastardo? Quem inventou
uma história desta? Rapariga, queres a morte? Estas a brincar com fogo.
Não, longe de mim, mas o Sr sabe
como são as futricas, pois o vulgo diz que o Sr é filho bastardo dele, e por
isso mesmo é que veio junto com ele para estas terras, e que nunca se
posicionou como filho porque, se assim fizesse, não poderia receber doações,
sesmarias ou exercer cargos públicos, por ser isto proibido por lei. Os
governadores não podiam colocar parentes em cargos e nem fazer doações de
terras.
É isto mesmo a língua do povo é
assim, apenas somos da mesma região do reino, uma terrinha perto de Póvoa do
Varzim, chamada São Pedro de Rates, no norte de Portugal.
-Bom se o senhor está dizendo,
devo acreditar, quem sou eu para duvidar das palavras do Senhor da Torre? Sim,
mas como foi que o sr. Conseguiu vim para o Brasil com Tomé de Souza? E como
conseguiu ficar tão rico e ter tantas terras?
Sim, conheço, aliás moro bem
perto delas
-Como? Com autorização de quem
moras nas minhas terras?
Começo outra vez a ficar com medo
do homem, ficou possesso com esta resposta.
-Calma Sr. D´Avila, posso
explicar. Mas como eu ia explicar isto, o homem estava enfurecido.
Tive um insight e perguntei sobre
a sua mulher, onde ela estava neste momento>
Senhor, onde está a senhora Francisca Rodrigues? E como está a sua filha
Isabel D´Avila?
- Ah Senhor, sei muita coisa a
vosso respeito, não só de si, como de toda a vossa família.
-Famíia, que família, sou só eu
aqui, só tenho a a minha mulher e filha, a que família te referes?
-A toda a sua descendência, seus
netos, bisnetos, genros, enfim, conheço tudo.
-Se sabes de tudo isto, és uma
bruxa, vou te mandar para a fogueira.
-Por favor Sr. Garcia, deixe-me
falar, o senhor vai gostar do que vai ouvir.
O homem se acalma, olha para mim
num misto de curiosidade e incerteza, e pede para acompanha-lo, convidando-me a
entrar na casa.
Sigo-o quieta, doida para que ele
vá embora, para que desapareça, mas ele vai falando e me mostrando a casa. Eu
não vejo nada do que ele me apresenta, mas sinto que ele tem um imenso orgulho
de dizer como fez isto e aquilo, por que fez a capela? Como construiu aquilo
ali, por que escolheu aquele lugar?
Ele tem toda razão, onde planejou
a construção da casa forte, o fez estrategicamente, de onde ele estava podia
avistar qualquer embarcação que se aproximasse, que navegasse seja em direção,
a Salvador, seja em direção ao norte, mais ainda, o gado podia pastar a
vontade, terras não faltavam, índios a aprisionar também não, o porto lá
embaixo era seguro. Realmente o Sr D´Avila era um estrategista de primeira, um
comerciante maior ainda, tudo contribuía para o seu sucesso.
A mulher com quem o Garcia D ávila
teve uma filha era uma índia, a quem ele tirou da casa paterna para com ele
conviver, dando-lhe o nome cristão de Francisca Rodrigues, ou seja, a sua filha
Isabel era uma “mameluca”, filha de português com índio.
Bom, estava quase chegando a hora
de ir embora, a tarde já ia finda, mas o homem parecia não querer se ausentar
da casa, falava e falava, reclamava com um, ajeitava uma outra coisa, gritava a
mulher, enfim, mostrava todo o seu poder.
Eu precisava sair, tentava me
despedir, mas ele nada, agora estava interessado no que eu falava sobre a sua
família, sobre as suas posses, enfim, estava entusiasmado ouvindo alguém falar
das suas glorias e do seu poder, todavia eu tinha de ir embora, e foi
exatamente o que aconteceu, porque os funcionários da fundação me pediram para
retirar-me, não antes de eu prometer ao Sr. Garcia D Ávila que voltaria um
outro dia para falar mais sobre ele e sua descendência.
Bem, como o deixei interessado,
com a pulga trás da orelha e morrendo de curiosidade, deixo também
vocês, esta história é longa, envolve muitos nomes e fatos históricos, é uma
história viva, que passarei a contar por etapas. Aguardem..
[1] De
acordo com os jesuítas, segundo Pedro Calmon, (1983: 23) “Criado de Tomé de
Sousa, escreveram os jesuítas, ou seja pessoa de sua criação, que é ser como de
sua família”
[2]
CALMON, Pedro. História da Casa da Torre – Uma Dinastia de Pioneiros, 3ª, ed.
Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983, pg23.
terça-feira, 31 de outubro de 2017
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Podia ser bem diferente
O relógio da sala badalava. Ela,
acordada, ouvia do quarto,: duas, três, quatro horas da manhã. Inútil tentar
dormir, melhor levantar e ir fazer alguma coisa; ler por exemplo. Pegou o
livro, mas não tinha qualquer concentração para a leitura. Uma leve dor no
peito que ela não entendia. Da última vez que falou com um médico sobre isto,
após ter feito exames de sangue, eletro e outras coisas mais, ele lhe disse que
isto era angústia.
Angústia! Que tipo de angústia é
esta que doe tanto, que é dor física mesmo? É como se dentro do seu peito
tivesse uma madeira que quer entrar em algum lugar e encontra resistência,
então ela aumenta a pressão. É assim que dói. Dor passageira? Sim, mas
frequente.
Por que esta angústia? Agora que tudo já deveria estar completamente
apaziguado, controlado até, aparece esta angústia? Por que e para que? Sexagenários não deveriam sentir mais nada,
principalmente dor no peito. Não é bom para saúde nem física e nem mental.
O tempo inexorável passou. Alguns
sonhos vão ficar no caminho, não serão mais realizados, não há tempo e nem mesmo
força física para eles. Então você, beirando os setenta, vai sair do seu país e
morar em outro? Evidentemente que não, mui principalmente quem ganha em reais.
Vai para onde?
As limitações começam, as enfermidades
também, por mais que se faça exercícios, tente a alimentação saudável (kkkkkkkkk
esta é boa), o tempo é inexorável e não dá para esconder os seus efeitos, mesmo
com as plásticas rejuvenescedoras. Triste, até porque ela está pensando nisto
de madrugada. Evidente que sabe que muitas pessoas, como ela, estão curtindo
uma insônia, mas, puta merda: precisa ser assim!
Nunca teve problemas para dormir,
agora parece que tem um reloginho biológico que gosta das três horas da manhã,
ou será para lembrá-la que tem de rezar! Sim rezar, porque a porcaria do
relógio, um deles, porque ela não satisfeita com um, tem dois, a cada um quarto
de hora, toca um quarto da Ave Maria. Acreditem, é verdade.
Bom, se era para lembrar que tem
de rezar, continua a oração onde o relógio deixou, mas de nada adianta, a sua
angústia continua, parece até crescente.
Pega o computador e tenta
escrever. Sim, ela adora escrever da vida e sobre ela, mas não da sua, e agora
tem de colocar no papel o que sente, porque não tem amigos, não pode falar com
ninguém das suas dores; pior ainda, se falar as pessoa vão fazer comentários tais como: Com uma casa
desta! Com a vida que você tem! Você está procurando problemas onde não
tem. Sim, ´problemas onde não tem: esta
expressão sempre é utilizada pelo seu companheiro. Problemas onde não tem! Ah
se eles soubessem quantos: a vida de um complicada: a casa de alguém que está
caindo, é uma tia doente que precisa de alguém para tomar conta de si, é uma
amiga com câncer de mama, é um sonho de alguém que não se realiza, é a sua
própria sorte indefinida no momento, definida só na idade, mas indefinida em
tudo mais.
Ninguém venha para cá dizer que
todos tem a sua vida e que você tem de viver a sua sem se preocupar com a do
outro. Engano! Não pode ser assim, não há como a pessoa afastar o outro desta
maneira, mui principalmente quando o outro, se não tem afinidade sanguínea, tem
a do coração. Como alguém pode estar bem se não pode, nem mesmo, ajudar o outro
seja materialmente seja espiritualmente. Não, não se pode ficar bem. E não é a
história de tentar ser “espiritualista” que vai resolver. Não, não é isto! O
outro precisa é de coisas materiais, coisas físicas e não de conforto espiritual.
Alguns até precisam dele, mas, antes dele, você tem de resolver o problema
material, porque ele é premente.
É, parece que ela vai viver
angustiada ainda durante muito tempo. Não se conforma de não poder ajudar, não
entende porque as pessoas tem de passar por determinadas coisas. Não pode ser
feliz com tantas coisas acontecendo com pessoas de quem gosta. Ninguém pode ser feliz assim.
Chora muito, aliás tem chorado muito por toda a sua vida, pois sempre se
preocupou em demasia com os outros: irmãos, amigos, até mesmo desconhecidos.
Uma vez, uma pessoa que se diz
muito espiritualizada, lhe disse que cada pessoa tem seu carma, tem de passar
por isto e por aquilo, e que a gente não deve nem mesmo tentar interferir. Não
acredita que seja assim, que porra de destino miserável é este, que traz ao
mundo alguns que, desde o momento do nascimento sofrem, passam necessidades,
alguns nunca alcançam seus sonhos? Não é
correto isto, não pode ser assim.
Depressão!, Não isto não é
depressão. Angústia! Sim, ´pode ser. Vai passar? Não, não vai, porque ela vai
morrer assim, está envelhecendo assim, pensando, tentando entender, querendo uma
igualdade que sabe não é possível.
sábado, 16 de setembro de 2017
Quem encontrar, não deixe escapar
Cada encontro uma festa, cada olhar uma
emoção, cada toque um verdadeiro calafrio.
Sim, era assim que vivia aquele
imenso amor. Não tinham vergonha de nada, nem mesmo de demonstrar o amor que
sentiam um pelo outro. Bem verdade que ela não gostava de agarramentos em
público, mas também nem precisava, todos que os olhavam sabiam que ali existia
amor, cumplicidade, paixão.
A cada dia uma nova descoberta do
outro, a cada momento um conhecer, seja de defeito seja de qualidades.
Qualidades! Sim, ambos as tinham:
ele muito mais que ela, pois tinha uma virtude imensa, que era a paciência. Ela
muito menos paciente, dir-se-ia até mesmo nervosa, mas ele classificava o
nervosismo dela como ansiedade.
Brigavam, sim, brigavam, ou
melhor, tinham desentendimentos, a maioria deles provocados por ela, mas nada que um pedido de desculpa
não resolvesse, as vezes nem necessitava a desculpa, um simples olhar e já
estava tudo mais de que esquecido.
Nunca viveram juntos, é verdade,
e talvez por isso mesmo é que as coisas funcionassem tão bem. Ambos ficavam
saltitantes quando marcavam alguma coisa, uma festa, um show, um passeio, um
café, enfim, só a perspectiva de estarem juntos já era suficiente para que a
emoção estivesse á flor da pele
Ela se arrumava para encontra-lo,
embora ele a achasse linda de qualquer maneira, aliás ele tinha verdadeira
tesão pela calça jeans, camisa, um cinto largo e as velhas botas de cano alto,
complementados pelo casaco e cachecol.
Ele sempre dizia que ela ficava maravilhosa de saltos altos, parecia uma
artista. Sim, ela bem o sabia, este tipo de roupa lhe caia bem, mas quando ela
estava de saia, vestido, era a mesma coisa, o olhar dele brilhava do mesmo
jeito.
Sabia quando ela estava com uma
peça nova. Percebia quando ela aparava,
minimamente, os cabelos. Se mudava o tom da pintura dos cabelos ele não deixava
passar desapercebido. Quando não gostava do que ela vestia, simplesmente nada
dizia, tempos depois, comentava que aquela roupa não lhe favorecia muito.
Ela estava encantada, um homem
como aquele nunca passara pela sua vida, parecia que ele adivinhava os seus
pensamentos, aflições, tudo.
Se gripava, lá vinha um chazinho
de limão quentinho. Dor de estomago, um chazinho de erva doce, uma dor de
cabeça uma grande preocupação. Se estava deitada com algum problema, lá estava
ele, juntinho dela, alisando a sua cabeça, ou apenas segurando a sua mão.
Adorava quando ele sabia que ela
estava preocupada, chorosa por algum motivo, ele deitava e fazia com que ela
deitasse e repousasse a cabeça sobre o seu peito e ficava ali lhe fazendo
carinho horas a fio.
Sabia respeitar tudo, cansou de
deixa-la sozinha porque ela precisava estar só naquele momento, ele percebia e
não lhe questionava, pois entendia que era o melhor para ela fazer a sua
introspecção.
Adoravam visitar lugarejos, lugares
pequeninos, onde a vida parecia ter estacionado no século XVIII. Ruínas,
muralhas, aquedutos, igrejas: quantas visitadas, ele até perguntava-lhe quando
estavam chegando em algum lugarejo pela
primeira vez: Primeiro a Igreja não
é? Sim, primeiro sempre a Igreja.
Gostavam de sentar em mesas das tendas que eram armadas nos dias de feira
destes pequenos lugarejos. Como se divertiam.
Qualquer programa estava bom para
eles, de feiras aos domingos pela manhã, a discotecas. O que gostassem é que
seria o programa do dia.
Divertiam-se muito, muito mesmo,
mas tudo tem de ter um começo, um meio e um fim. E chegou o dia do fim deles.
Tristes, chorosos, uma despedida que parecia tão remota, mas que tinha de
acontecer. Ele teria que arrumar algo para fazer em outro lugar, pois onde
residia as coisas estavam complicadas, e ele iria procurar novos horizontes.
Ela, por sua vez, acabara tudo o que fora fazer naquelas paragens, não havia
mais como continuar vivendo ali. Forçados a uma separação que não queriam, num
triste dia de outono, cada um para o seu lado, e pronto, tudo acabado, Resta, de tudo isto, ao
menos para ela, uma lembrança boa: conheceu um homem com alma feminina, um
homem que sabia dos sentimentos de uma mulher e da importância de um carinho,
de uma palavra, de um gesto, de um olhar. Um homem que respeitou tudo, até
mesmo os seus calundus.
Ela só pode agradecer e pedir
que, onde ele estiver, esteja bem e distribuindo, se não amor, mas o seu olhar,
o seu carinho, a sua atenção, seja para uma mulher, seja para quem precisar de
um amigo, de um companheiro.
Saudades.
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
Paraíso e o Bolero
E lá ia ela toda cheia de planos.
Estava feliz, estava a caminho de realizar um sonho, um pequeno sonho, mas um
sonho e prestes mesmo a materializar-se. A estrada ia passando, para ela era como se fosse a
estrada que se movesse, e não o carro onde ela ia feliz ao lado do parceiro que
se propusera ajudá-la no “ come true” daquele devaneio.
Organizara tudo, vinha
idealizando a coisa fazia tempo. Não poderia dar nada errado, não queria
incomodar ninguém nem fazer ninguém sofrer, apenas queria dar asas a sua
imaginação e fazer o que sempre tivera vontade, desde os tempos de menina,
quando os sonhos daquele tipo eram proibidos, tão proibidos e pecaminosos, que
nunca tivera coragem de revelá-los a quem quer que fosse.
Xitãozinho e Xororó cantavam
bolero e ela ria, pois aquela trilha
sonora fazia parte de tudo que ainda estaria por vim naquele final de tarde
inicio de noite em que tudo seria permitido e tudo poderia acontecer.
O verde ainda predominava na paisagem, do carro,
mesmo com a velocidade, ainda se avistava aqui e ali algumas coisinhas brancas se mexendo, vacas nelore pastando naquele imenso gramado,
que se perdia de vista.
Tudo perfeito até então. Nenhuma
detalhe esquecido. |A garrafa de Champagne, as taças, o queijo de cabra,
fatias de jámon, um paté , torradinhas, água mineral com gás. Na dúvida, mais
uma garrafa de champanhe por gelar, mas isto não seria problema, com certeza,
onde ia, seria fácil gelar, mesmo que acabasse o gelo que estava na caixa
térmica, onde tudo estava guardado. Mentalmente visualizou tudo que estava no
carro: sim, não esquecera de nada, tudo perfeito. O CD com as músicas, o
computador carregado, tudo, tudo
certo, aquela noite ia ser perfeita, nada ia estragá-la.
A estrada reta já dava os
primeiros sinais da proximidade do destino final, saída a 30km. Menos de meia
hora separavam aquele instante do momento ideal, correto, certo. Mais verde, mais água, menos luminosidade;
para Paraíso, aguarde no acostamento e
vire à esquerda. A entrada era perigosa.
Não tinha rótula, não tinha nada, apenas este
pequeno aviso, se alguém não estivesse atento passaria batido.
Entram na estradinha minúscula
que levava a Paraíso. Seria mesmo um
Paraíso? Quem já esteve no local garante que sim. O hotel reservado, não
quisera correr risco, mas depois de andar bem uns trinta km naquela estradinha
de pedrinhas que batiam no fundo do carro, começou a achar que não era
necessário ter reservado o hotel, correra um risco desnecessário, era melhor
chegar e pronto, mas preferiu correr o risco de que não ter onde ficar, ainda
mais que o objetivo era ficar exatamente no hotel convento: E se chegasse ali,
depois de toda aquela preparação e não tivesse um quarto? Melhor assim.
A noite já tomara conta de tudo,
mas havia uma lua que também parecia ter sido programada, aliás, assim podia ser concebida, pois ela
escolhera, propositadamente, aquela noite, exatamente porque sabia que a lua
estaria cheia e iluminaria mais os seus sonhos.
Agora percebia o acerto desta
escolha, a iluminação da estrada, onde não passava nem gente e nem outro carro, naquela paisagem
só o carro em que eles estavam e o caminho, que parecia estreitar a cada avanço
estava iluminado, graças a enorme lua que acompanhava o veículo...
De repente uma luz lá no alto e
bem distante: “Será ali, onde está aquela luz”?
- Acho que não, ainda faltam uns
vinte e cinco km.
- Tudo isto? E se esta estrada
afinar mais? Não chegaremos em lugar algum e teremos de voltar.
- Não se preocupe. Se ela
estreitar mais voltaremos.
- Só se for de ré.
- Kkkkkk, não se preocupe,
daremos um jeito. Se anime porque estamos muito próximos.
Calada, pois não queria que a sua voz
indicasse a sua apreensão, olhava
o riacho que acompanha a estrada. A lua permitia que ele fosse visto, e não só: permitia que a sua
beleza deixasse nela a vontade de pedir para parar o carro e entrar naquela água,
que de cima da estrada parecia tão clara, límpida.
Perdeu-se neste pensamento e o
tempo passou mais depressa. Percebeu que o radio do carro não mais tocava nada,
ali, naquela imensidão do nada, ele não
funcionava
“Seráque o computador vai funcionar?
Se não funcionar não posso colocar música e ela faz parte desta estória. Não,
não queria pensar nisto, mas o pensamento não se desfazia, entretanto, lembrou
do aparelhinho de CD e se tranquilizou, ouviria música sim.
A luz se aproximava vagarosa.-
Faltam somente cinco KM.
-Só!, aquela luz não deveria
estar mais perto?
-Não, aquela luz não é do hotel
para onde vamos, ela não teria condição de aparecer, porque o hotel não fica em
um alto.
-Não fica em um alto? Duvido.
Então o hotel não é uma velha construção de padres? Não é um convento antigo?
-Sim, lembre-se que
padres não são militares, e não precisavam de conventos em cimos de montanhas,
o hotel fica no centro da cidade de
Paraiso.
-No centro da cidade? Em local
muito movimentado?
- Paraíso! Local movimentado? Kkkkkkkkkk.
De repente ela vê uma placa PARAISO, 2,5km
Mais um pouquinho: “Prepare-se: Você
está há 1,km do PARAÍSO”
“BEM VINDO AO PARAÍSO”.
Um muro de pedra começa a
aparecer do lado direito da pista, uma mureta na verdade, mas pedras que
deixavam que os visitantes lhe adivinhassem a idade, muito velhas mesmo, aquilo
parecia um muro romano, se estivesse na Europa, certamente, estariam entrando
em alguma ruina romana
Um arco feito com as com as mesmas pedras aparece e eles passam por
ele e entram, efetivamente, em Paraíso.
As ruas de pedras faziam o carro
balançar. As casinhas todas fechadas, nenhuma janela aberta, ninguém pela rua,
parecia uma cidade fantasma, não fossem as luzas que se entrevia pelas frestas
e vidraças das janelas fechadas, parecia que nelas não morava ninguém. De repente uma praça enorme e, do seu lado
direito, uma imponente construção: uma igreja com três torres, toda pintada de
branco, cada torre com um sino imenso e, ao lado da Igreja, parecendo sair da
sua lateral como um apêndice, uma constrição de dois andares que se perdia de
vista, tão branca quanto a própria Igreja e com janelas e portas verdes.
-Meus Deus, quem faria uma
construção desta num lugar deste?
-Os beneditinos. Aquele era um
convento beneditino, que fora ali construído no século XVII. Ela procurara
saber de toda a história, que era mesmo fantástica, e por isso mesmo o
desejo de ali realizar aquele sonho que
de há muito a acompanhava.
Param o carro e entram pela porta
lateral semiaberta: Não há vivalma ali. Uma
companhia, daquelas que parece uma sineta. Batemos, não batemos? O que faremos
então? De repente, veem, embaixo da sineta, um papel e uma
chave: Hóspedes Juliana e Joshua,
chambre 10. Boas vindas e tenham uma boa noite.
-Será que só nós estamos aqui
hoje?
Ao lado da portaria uma escadaria
gigantesca. Toras de madeira trabalhadas imensas, seja na expessura seja na
largura: a escada devia ser formada por madeira de 2 a 2,5 de largura. E eles
pegaram as coisas no carro e subiram aquelas escadas, que ressoava
apenas as suas próprias passadas. Um claustro imenso aparece quando chegam ao último degrau, uma placa e uma seta indicam onde ficava o quarto que eles procuravam. O último
do fim do corredor ao lado direito. Enquanto se encaminhavam para o quarto
olhavam o pátio lá embaixo, muitas flores, um lago artificial, muitas e
muitas plantas e muitas, mas muitas mesmo,
orquídeas, que se amostravam sob a luz do lar. Ela queria vê-las todas e
de perto, mas àquela hora, pensa que tinha mais coisas a fazer de que ver
orquídeas.
Chegaram ao quarto; sim, ali havia sido, sem a menor dúvida, a
cela de um beneditino. Embora a adaptação feita para acomodar hospedes tenha
sido muito bem feita, não retirou a originalidade da construção e da sua
finalidade. Uma só janela que dava para
um bosque. A cama imensa, um antigo
móvel fantástico do lado direito. O armário embutido atrás de uma madeira rústica,
o frigobar que ali também estava instalado e uma passagem, que só de olhar lhe fez tremer; era uma passagem mesmo, entre
aquelas paredes de quase um metro de espessura, uma fenda que dava para um
vasto banheiro, fantasticamente trabalhado, mas cujo piso ainda trazia a marca
dos votos da pobreza feita pelos monges que habitaram aquele convento.
Ela estava radiante, aquele local
era parte do seu sonho, ela sempre sonhara em dormir num quarto daqueles,
depois que tomou conhecimento que os antigos conventos e castelos
medievais viraram pousadas, ela
alimentou aquele desejo de dormir em um convento, mas num quarto que já
pertencera aos padres, embora já tivesse dormindo, muitas vezes, nos
dormitórios coletivos dos internatos dos conventos por onde passou, talvez por
isso mesmo sempre tivera a curiosidade de saber como seria uma “cela” de um
padre ou de uma freira, pois nunca lhe permitiram entrar.
Olhou tudo, viu as toalhas
brancas, limpíssimas, as roupas de cama bem alvas, a coberta de fustão, enfim,
tudo arrumadíssimo. Abriu a caixa térmica e olhou se tudo estava sob controle,
tirou o queijo, o presunto, o patê e
colocou em uma bandeja que estava em cima do móvel.
Disse a Joshua que ia tomar um
banho e lhe perguntou se não seria
melhor darem uma volta na cidade para ver o que encontravam. Ele riu e nem disse sim e nem não, apenas aproximou-se
mais dela e lhe deu um grande e caloroso beijo, que a deixou bem excitada e sem
já sem muita vontade de repetir o convite.
Foi para o banheiro com a sua
mala. Entrou naquela câmara e ficava tentando entender porque ali, ao invés de
ser um local hiper quente, chegava mesmo a fazer um friozinho, quando tirou a
roupa notou o endurecimento imediato dos mamilos, que, a bem da verdade, já
estavam bem calibrados após aquele
beijo, prenuncio do que estava por vim.
Entrou no box e deliciou-se
naquela água fantástica, o chuveiro era mesmo fabuloso, estava ali embaixo
daquela cachoeira, deixando que a água quentinha molhasse todo o seu corpo, que nem percebeu Joshua entrando no banheiro e no box, só sentiu mesmo a sua
presença quando ele já estava agarrando-a, puxando-a para si e lhe fazendo os
mais diversos carinhos, aos quais ela não resistiu mesmo e, ali mesmo, se
amaram e muito.
Enrolados nas toalhas saíram
daquela câmara do prazer falando exatamente
do que poderia ter acontecido naqueles quartos. Lembraram de Humberto
Eco em O nome da Rosa e realmente
perceberam que em um lugar daqueles seria muito fácil mesmo
viver uma vida dupla, entre a santidade e a safadeza. Ali as paredes não
permitiriam que ninguém ouvisse o que se fazia dentro daquelas celas, dificilmente alguém seria salvo até
mesmo de um assassinato.
Vestiram a roupa e decidiram
procurar um local para um jantar romântico regado um bom vinho. Saíram caminhando do hotel e a
Praça parecia dormir, nenhuma pessoa, nenhuma porta aberta, só eram oito e trinta da noite. Deram a volta
inteira na praça e decidiram retornar ao hotel, talvez o restaurante do estivesse
funcionando, ao entrarem no hotel, mais uma vez, não havia qualquer pessoa na
recepção. Bateram a sineta, mas ninguém apareceu, deram uma volta pelo pátio,
olharam as orquídeas de perto, muitas e de diversas cores e formas, lindas, mas
gente que era bom, nada. Quando estavam
desistindo, viram mesas e cadeiras do lado direito e deduziram que ali seria o
restaurante, todavia, ao se aproximares constaram que as portas de acesso
estavam fechadas, ou seja, iam para o quarto mesmo, não havia Esperança de
encontrar nada aberto e nem qualquer pessoa para dar informações.
terça-feira, 20 de junho de 2017
Quatro décadas depois
Era uma segunda feira
como outra qualquer. Fôra para a faculdade como era normal, teria aula de
Introdução ao Estudo de Direito, ou Teoria Geral do Direito, com Machado Neto,
que, mais uma vez, e com certeza, iria falar de Cossio. Ela não entendia zorra
nenhuma, mas ficava atenta e isto lhe dava um imenso cansaço mental. Depois das
primeiras duas horas teria aula de Constitucional com o professor Modesto, e
não se lembra mais quer aula teria após esta.
Acabada a jornada da manhã
iria para o Terreiro, para a faculdade de medicina, onde, estranhamente, teria
aula de Filosofia com o professor Fernando, depois voltaria para casa no seu
busu, toda amassada e pronto, estudar um pouco se fosse possível, pois não é
nada fácil estudar filosofia e direito em uma casa onde vivem umas dez pessoas.
Não há concentração certa, mas tinha de ser assim.
O Universo, entretanto, resolveu
meter o dedo na rotina daquela menina, e após as três primeiras horas de aula
ela foi à cantina da escola, fora comer um pãozinho delicia, que ela chamava de
“pão cebeludo”, por causa dos fiapos de queijo que ficavam em cima deles.
Como sempre, o dominó
estava comendo no centro, os jogadores, quase sempre os mesmos, em uma outra
mesa o carteado, era assim que os universitários passavam o tempo entre uma
aula e outra, ou substituíam as aulas pela brincadeira.
De repente ela ouve
alguém dizer que iam fazer um sambão e que o pessoal do samba estava se
reunindo. Ela não era desta turma, mas essa segunda feira mudou tudo.
Já não voltou para a
aula, dali mesmo, junto a alguns colegas, que não eram da sua turma, todas eram
de turmas anteriores, entretanto ela conhecia a todos por força de ser amiga de uma outra colega delas, a quem
conhecia há muito tempo, antes de ter passado no vestibular..
Confusão danada. Quantos
carros tem? Quantas pessoas? Cadê os instrumentos? Quanto se tem de dinheiro? Uma vaquinha começa, pouco dinheiro, mas
suficiente para algumas batidas, e ainda tinha o dinheiro do pobre do
“Percutino”, dinheiro de cliente que ele teria de devolver, mas que fora
descoberto pelos colegas que não perdoaram. Ela calhou de ir no fusca verde, ela e mais umas seis a sete pessoas, todos encolhidos, mas felizes, jovens vivendo os seus momentos. Acomodou-se exatamente na
direção do retrovisor de onde podia ser vista pelo motorista e foi exatamente o
que aconteceu. Os olhares se encontraram algumas vezes, em princípio por puro
acaso, depois o acaso deu lugar à intenção.. A cada olhada algo ia crescendo, não sabia
mesmo o que, mas sentia vontade de fixar aquele olhar, era como um ima, mas era
impossível, afinal o olhador era o motorista que não podia se desviar tanto a sua atenção.
O carro parou em um
boteco em Brotas, ali se vendia uma batida, e ficaram ali durante
algum tempo. Brotas!, por ironia do destino, começava ali uma, estória de
amor. A ironia estava no fato de que, por muito tempo na sua infância,
frequentara aquele bairro, onde a sua família, pelo lado paterno, morava, aliás,
Brotas devia se chamar Brotalicia (mistura de Brotas com Galícia), pois ali
morava uma grande parte da colônia espanhola.(galegos)
Sim, tudo começou ali,
olhares, cuidados especiais, gentilezas, mas não parou por aí, e todos embarcaram
novamente nos carros. Ela foi convidada a ir na frente, mas declinou, era
melhor que uma pessoa mais gorda fosse à frente, ela iria atrás, pois assim mais
pessoas entrariam no carro. E assim foi feito. Ela olhava o retrovisor e via
olhos que procuravam os seus. Durante todo o percurso foi assim, olhos e
sorrisos, enfim, o jogo da sedução continuava e ela estava realmente gostando
disso.
Pararam em Itapuã e muito
samba num bar que hoje já não existe mais, aliás como o bar, tanta coisa se
foi, parece até que nunca existiram.
terça-feira, 13 de junho de 2017
Viva a Santo Antonio
Estou completamente
emocionada, vou caminhando vagarosamente subindo a ladeira que vai me levar até
a Sé de Lisboa. Hoje é um dia especial. Lisboa está em festa, aliás, em festas,
por onde ando vejo as pessoas sorrindo, felizes. Velhos, pobres, adultos,
crianças, homens, mulheres, jovens todos unidos em um só desejo, participar da
grande festa da cidade.
As velhotas e velhotes
são os mais alegres, parecem que esperam o mês de junho para colocar para fora
toda a vontade de viver, mesmo com todos os problemas. Todos saem de suas casas:
arraias vão pipocar aqui e ali, em uma praça perto, ou uma praça distante, não
interessa, o arraial vai acontecer.
Há uma multidão se
encaminhando para a Sé. A rua já está fechada para carros e os passeios já
estão cercados; passam poucos carros, somente os carros autorizados, agora é só
esperar. Consigo chegar na Sé, depois de ter passado pela Igreja de Santo Antônio
de Lisboa, aliás, o responsável por tudo isto que está prestes a acontecer.
Me posiciono o lado da
Igreja da Sé, dali vejo quase tudo e ainda tenho a possibilidade de comprar uma
imperial. A Igreja está fechada ao público. Os canais de televisão já estão posicionados,
há entrevistas e gente querendo aparecer de qualquer maneira. Eu estou no meu espaço,
de onde posso ver, sem ser vista, pois não gosto desta exposição, não consigo
perceber como o povo faz questão de ficar em frente à câmera.
De repente um buzinaço,
olho para a ladeira e vejo um carro
lindo se aproximando, visualizo um Rolls Royce, Que maravilha! A seguir mais um carro antigo, depois mais outro, e outro, e outro, todos trazendo as noivas.
Eles vão parar em frente
a catedral e deles saem noivas felizes, radiantes, cada uma com o sorriso mais
largo que a outra, afinal elas foram escolhidas em meio há muitas que se candidataram
a este casamento que é feito todos os anos e patrocinado pela Prefeitura de
Lisboa. Este ano foram dezesseis, n ão sei se o número é fixo.
O público delira, é mesmo
fantástico poder participar disto e ver tudo tão de perto.
As noivas entram, a
televisão filma, entrevistas, etc. Todos participam e estão mesmo muito
felizes, a gente pode sentir que aquilo não é ´falso.
As noivas estão lá
dentro. A rua continua fechada e o povo ali esperando a saída delas. A cerimônia
demora. O sol está forte, mas ninguém arreda o pé. Já estou na quarta ou quinta
cerveja. O xixi já começa com as suas ameaças. Tenho de procurar um local para
desaguar. Olho em volta. Não vejo nada que possa parecer com uma casa de banho.
Tenho de arrumar um lugar, senão vou fazer feio. Tenho de perder o meu lugar.
Desço a ladeira até a Igreja de Santo Antônio, ali tem um restaurante que tem
um dos melhores, se não o melhor, pastel de bacalhau de Lisboa. Vou ter que
comer alguns (eles são pequeninos) e aproveitar e ir até o sanitário, apesar da
vergonha que tenho de fazer isto, mas não dá para aguentar. É o que faço. Tomo, apesar da vontade intensa
de ir ao banheiro, outra imperial, tinha de justificar o “mijador”, após a
segunda imperial tomo coragem e vou ao sanitário.
Um alivio total e pronta para
mais dez imperiais e para ver a saída das noivas, que agora começam a aparecer
à porta da igreja.
Elas saem mais felizes do
que entraram, cada uma com o seu séquito parentes, que ordeiramente se dirigem
aos seus ônibus já posicionados.
A esta altura a coisa
fica monótona e eu resolvo voltar ao restaurante dos pasteis de bacalhau.
Fico ali, bebo, como
chouriço assado, converso com os patrícios. Sei que vou ter saudades deste dia.
Logo mais vou para a Avenida da Liberdade ver o desfile das marchas. Marcha da Mouraria, Marcha de Alfama e muitas
outras. Penso que Alfama ganha. Vamos ver, o importante e participar, sorrir,
ver a alegria e é assim que oi dia 13 vai chegar..
Viva a Santo Antônio!
sexta-feira, 19 de maio de 2017
O coração no pé
Os dias passavam e todos
já notavam que algo ia errado. Já lá se iam vinte e tantos anos de casamento,
cumplicidade, razoável felicidade. Três filhos, todos homens e já criados, mas
ainda dependentes, notavam que as coisas não iam bem.
Dormiam no mesmo quarto,
mas isto não significava muita coisa, pouquíssimas vezes procuravam um ao
outro, aliás, isto virara uma raridade, qualquer dia eles nem mais teriam
coragem de se despirem em frente ao outro., entretanto não se definiam, e aquilo ia se arrastando.
domingo, 26 de março de 2017
Atenção ao Protocolo
Estou assistindo a solenidade de
posse do mais novo Ministro do Supremo Tribunal Federal. Fico admirada com a
pompa completamente injustificável e despicienda. Para que aquela guarda
fantasiada na entrada do Supremo? Gostaria de uma justificativa para tudo isto.
Sinceramente não entendo, não gosto e
não concordo . Pior, entretanto que a pompa, é a presença de pessoas que não
deviam, sequer, passar da porta de entrada, quanto pior, participar de uma
solenidade em que está sendo empossado um novo Ministro que vai julgar “n” destas pessoas que ali se
fazem presentes: estão ali Edson Lobão , Jose Sarney, Rodrigo Maia, Eunicio Oliveira e tantos outros
que serão julgados quando e com certeza, estiverem na
condição de réus. Não sei como o Lula não apareceu.
terça-feira, 21 de março de 2017
Commodities! O que será?
Vejo televisão, fico assistindo
os jornais, nacionais ou não. Há um especifico, o da Bloomberg, em que aparece
uma coluna do lado direito da tela, que mostra algumas manchetes, normalmente
coisas ligadas à economia. Um dia destes, acho que na semana passada, estou eu
a assistir o noticiário e aparece na
manchete lateral: " As commodities ajudarão o pais a sair da recessão", se não
foi isto foi uma coisa bem parecida. Fiquei olhando aquilo e me perguntando: o
que seriam “commodities”. Confesso minha ignorância, e tive de procurar me
informar sobre o assunto, dado que,
também, na semana passada, a comentarista
de um dos programas da Globo News, falava de commodities, dizendo
que alguns países da América do Sul, por um período, estiveram bem, porque
tinham muitas commodities para exportar
quarta-feira, 15 de março de 2017
Comecem logo
Tenho observado mais quem está ao
meu lado, acho que os trinta e tantos anos não foram suficientes para
conhece-lo bem. Fui, voltei; fui outra
vez, retornei, e estamos juntos novamente, e eu me surpreendo com as
descobertas, algumas não muito boas, outras boas, e algumas excelentes.
Assinar:
Postagens (Atom)




