sexta-feira, 19 de maio de 2017

O coração no pé

Os dias passavam e todos já notavam que algo ia errado. Já lá se iam vinte e tantos anos de casamento, cumplicidade, razoável felicidade. Três filhos, todos homens e já criados, mas ainda dependentes, notavam que as coisas não iam bem.
Dormiam no mesmo quarto, mas isto não significava muita coisa, pouquíssimas vezes procuravam um ao outro, aliás, isto virara uma raridade, qualquer dia eles nem mais teriam coragem de se despirem em frente ao outro., entretanto  não se definiam, e aquilo ia se arrastando.
Ele, que ficara um coroa muito debochado, cantava as empregadas, e, talvez, tenha até mesmo ido às vias de fato com algumas delas.  Tinha uma gaza que já se sentia a dona da casa. Uma outra  não gostou das investidas e abriu o bico para uma parenta da esposa, que nada disse, entretanto, não escondeu  de algumas mais próximos e, segundo a mulher, o “véio” como ela se referia a ele, teria dito que ele podia lhe dar uma boa vida e que quando ela falou da esposa dele, pedindo para ele ter vergonha, ele teria dito que ela não apitava mais nada, estava velha e ele não tinha mais qualquer tesão, enfim, o cara que era bem certinho na juventude, quando envelheceu mais  começou a fazer tudo que ele deveria ter feito na adolescência e juventude.
Bom o fato é que  eles estavam vi vendo pessimamente, mas continuavam a orar na mesma casa, cumprir alguns rituais familiares(dia de mãe, dia de pai, aniversário de mae, filhos) enfim, os dois se faziam sempre presentes nas festas familiares,  o que dava a falsa impressão de que estavam bem.
Todavia, das domesticas no âmbito do lar, o rapaz começou a dar outros passos, e começou a falhar em muitas coisas: primeiramente se afastou da Igreja que frequentavam, pois eles eram cristãos, a mulher que antes do casamento era católica, para ficar com ele teve de se converter, e o fez par se casar, continuando até então. Ele, que na verdade era o membro da igreja para a qual ela se encaminhou é que veio a prevaricar, a ferir os dogmas da sua própria igreja, sem qualquer pudor.
Deixou de frequentar a Igreja, sempre arrumava uma desculpa, inclusive para não buscar a esposa, ela se quisesse deveria ir e voltar de ônibus, e olhe que era longe, nos dois extremos da cidade, a Igreja no centro, e eles moravam para as bandas de Lauro de Freitas.
Ela já estava desconfiada que ele estava aprontando alguma, até porque, mesmo dormindo todos os dias em casa, agora quase já nem se falavam. Intimidades então, ela já nem lembrava mais quando, mas ainda assim queria o mínimo de respeito.
Na Igreja começaram os falatórios, uns somente fofocas sem sentido, apenas o gosto do falar da vida do alheio, mas alguns tinham um fundo de verdade, como foi o caso de uma conversa que surgiu de que uma das integrantes do coral estava tendo um caso com ele. A mulher, que  era, não por acaso,  a regente  do coral da igreja, já estava se aborrecendo com aquele disse me disse.
Na verdade, começara a notar que  uma determinada integrante estava faltando demais aos ensaios e resolveu averiguar o motivo,
Ela sabia que a moça morava bem perto da igreja e, portanto, seria fácil ir até a casa dela; teria uma boa desculpa, as faltas repetidas aos ensaios.
Quando se encaminhava ao local da residência da moça, ela vê o carro do marido estacionado bem perto do prédio. Seu coração deu um pulo, e ela desistiu de subir até ao apartamento da moça a quem fora visitar.
“Será que ele tinha um caso com aquela moça? Não, não é possível”, dizia para si própria, querendo afastar esta quase realidade que se apresentava.
Foi para casa de ônibus como de costume e esperou o “moleque “ em casa. Quando ele chegou, ela nem deixou ele sentar e questionou sobre o carro parado naquele local, tão perto da Igreja, sem que ele tivesse aparecido lá. Ele, cinicamente, disse-lhe que  tinha um amigo do Banco ali  perto e teria ido na casa daquele.
Claro e evidente que ela não engoliu isto, mas nada pode fazer. Todavia a ponta de desconfiança em relação à moça do coral fez com que ela não deixasse este episódio passar em brancas nuvens, e no próximo dia de apresentação do coral, tendo a moça faltado mais uma vez, ela resolveu que iria até à casa dela de qualquer maneira e foi o que fez. A integrante do coral, quando abriu a porta, ficou pálida, tão assustada com a presença da regente que quase nem a convida para entrar.
-Vim saber o que está acontecendo com você; qual o motivo de tantas faltas? A mulher, lívida, disse que andou doente e que outras coisas a impediam de ir aos ensaios e até mesmo aos cultos.
Muitas justificativas e alguns outros assuntos, até que vem a pergunta: Você tem visto meu marido aqui neste prédio?  A mulher coitada quase desfalece, ficou nervosa, branca e gaguejou: É regente, ele tem vindo aqui algumas vezes, deve ter algum amigo no prédio.
A esta altura a regente estava quase batendo na  moça, pois ela estava achando que ela é que era o motivo das visitas, mas a moça disse;  Olha fulana eu vou te dizer porque estou arredia, porque não estou indo a igreja e aos ensaios: é que estou com vergonha, porque sei que o seu marido está tendo um caso com uma  mulher que mora aqui no prédio, infelizmente neste mesmo andar, e ele tem vindo aqui e me visto muitas vezes  e eu resolvi me afastar porque  depois, quando esta bomba estourar, a fama de fofoqueira ia cair em cima de mim.
A maestrina não acreditou muito na estória, achando que a moça queria esconder a sua própria estória, mas a moça acabou convidando-a para ficar em sua casa, pois, entre sete e meia oito horas ele iria chegar e ela poderia ver com os próprios olhos.
A maestrina não aceitou ficar e foi-se embora, chegou em casa e ficou à espera; neste dia, entretanto, o marido chegou cedo: possivelmente a moça o avisou.
Os dias continuaram a passar, mas a situação estava mesmo insustentável, ela já não tinha qualquer paciência, qualquer confiança no marido, o desgaste era imenso e algo tinha de acontecer, e o universo     conspirou para que uma solução fosse alcançada.
Estava no banheiro, já eram umas dez horas da noite, quando ela pressentiu que o marido tinha chegado. Continuou no banheiro esperando o que ele ia fazer e o que ela iria fazer, pois estava disposta a acabar com a estória naquele dia mesmo, demorou tanto que quando saiu do banheiro o moleque já estava dormindo.
Que droga! Ela queria fazer uma confusão logo, logo, acabar com aquilo, mas o sacana estava dormindo. Ficou parada ao pé da cama olhando aquele que um dia fora o grande amor da sua vida, pensava quanto a vida tinha mudado e como as coisas chegaram `aquele estágio, quando o seu olhar se fixou no calcanhar do moleque, onde estava desenhado um coração com a frase: EU TE AMO.
Teve ímpetos de esgoelar o cara naquela hora, mas controlou-se e foi aos quartos dos filhos acordando-os e pedindo que eles fossem até o quarto dela pois queria mostrar-lhes uma coisa. Os três filhos seguiram-na e lá ela mostrou o desenho no pé do malandro, que, certamente, cansado das atividades sexuais do dia, dormia tranquilamente.
Bom, vocês podem imaginar o que aconteceu depois, eles estão separados desde aquele dia, mas o pior foi o cinismo do moleque, que foi acordado aos gritos dela e quando perguntando o que significa va aquele desenho ele diz: ‘Calma eu posso explicar”. É mole ou quer mais?