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sexta-feira, 22 de março de 2019

Garcia D´Ávila XIX - A volta do "DAS MANHAS'


O Senhor Garcia desaparecer completamente, fazia alguns meses que ele não dava qualquer sinal de vida (morte) kkkk. Eu estava preocupada, não porque gostasse do senhor Garcia, sb ia perfeitamente que ele não fora nada que prestasse em vida, além do mais tinha aquele ar de superioridade colonial que me irritava muito, todavia, para os meus propósitos, ele era fundamental,
Gosto de história, tanto que, após alguns anos de formada em direito resolvi fazer história, acreditem se quiserem: sem matricula especial. Fiz um novo vestibular e fui aprovada na Universidade Católica do Salvador, onde fiz dois dos primeiros semestres, os demais fiz na UNEB no campus de Santo Antonio de Jesus, para on de fui transferida por força do trabalho, entretanto,  isto não vem ao caso agora, a não ser para dar a exata noção da minha paixão póla história.
Como nem todos tem o mesmo interesse  por História como eu, tendo ouvido muitas vezes algumas pessoas dizerem que “odeiam” a matéria história, é que pensei em escrever, ao menos história da Bahia colonial, de uma maneira  lúdica, engraçada, que prendesse a atenção dessas pessoas que dizem odiar a história sem saberem  o quanto ela é fantástica, o quanto do saber  de outras disciplinas a ela está ligado e quão  mais fácil fica, quando  aprendemos a contextualizar os fatos nos seus devidos momentos e lugares. Mas também não quero  falar da história como ciência aqui, o que quero, e tinha e tenho em mente, é exatamente levar  o leitor a aprender história, entretanto ele só irá perceber que  está lendo um texto de história quando acaba de o ler  e apreender as informações ali contidas. A ideia é despertar o interesse para que ele, o leitor, se aprofunde mais naquelas informações que ele acabou de perceber e apreender, durante a leitura do texto. Isto seria e será uma grande realização pessoal.
Foi assim que o Garcia D´Ávila entrou na minha vida, como ele se fixou e como agora me faz falta quando deixa de aparecer por tanto tempo. O Senhor Garcia se fazendo presente, me presenteava com as informações que ele presenciara, vivera. Eu tinha uma fonte de informação privilegiada, mas o danado é voluntarioso e só aparece quando quer.
Este desaparecimento estava realmente me preocupando, e eu começava a achar que algo de ruim tinha acontecido.  Será que ele faleceu?  Pergunta idiota: vocês podem estar dizendo isto a mim, mas ela tem toda lógica dentro do contexto meu e do Senhor Garcia. Olhem bem, o homem pensava que estava vivo, não me aparecia como alma penada que era, e que alma penada!  Conversava comigo como se vivo fosse, me dava informações do seu tempo e da sua hora. Me contava fatos, alguns muito pouco conhecidos, do momento histórico que viveu nestas plagas. Assim, para mim tinha toda lógica o pensamento de seu falecimento. Se ele morresse e aceitasse esta morte ele poderia não mais aparecer e conversar comigo: isto me dava uma ansiedade e uma tristeza danada.
Sem dúvida que para mim era uma perda irreparável.]
Bom, e foi com estes pensamentos que ouvi um barulho na sala. Parecia que alguém tinha levado um tombo. Larguei o computador em cima do sofá e sai correndo para o local de onde teria vindo o ruído. “Que cena hilária”!  E não pude deixar de rir: Ali estava o senhor Garcia ainda sentado no chão e, o cavalo dele dera uma empenada e o derrubara, se apressando para levantar, mas a idade já não permitia tanta agilidade, e eu o peguei ali, no chão.
Kkkkkkkkkkkk, o que houve Senhor Garcia?
- Não me encha os pacova, não estas a ver?
Contendo o riso perguntei-lhe – quereis ajuda para levantar-se.
- Esmeralda!  Não sei para que ainda venho aqui e converso consigo: És insuportável e pensas que podes comigo.  Não podes não, não sei como ousas pensar em ajudar um homem como eu a levantar.
- Desculpe senhor Garcia eu só queria ser educada, mais nada.
- Guarde a sua educação, eu a dispenso e já estou arrependido de vim aqui.
Aquela última frase me deu um friozinho na espinha. Desgraçado; bulira no meu ponto fraco, ah se ele realmente resolvesse não voltar! Como, sem ele, eu continuaria com o meu projeto? Amenizei, então, a coisa.
Desculpe Senhor Garcia, é que esqueço o quão forte o senhor é. Então o senhor ia lá precisar de uma mulher para levantar?  Jamais, jamais mesmo. Sou mesmo uma abestada como pensaria e verbalizaria uma coisa desta.
Claro que isto   para aquele velho prepotente, fazia toda a diferença. O Senhor Garcia estava envelhecendo, aquela queda era uma constatação. Por mais que ele não admitisse, ele estava ficando frágil.
-  O que houve com o senhor? Pensei que tinha acontecido alguma coisa consigo? Desapareceu faz algum tempo.
- Tenho muitas coisas a fazer, além de estar vindo visitar-te., mas hoje, efetivamente fiquei com saudades tuas e vim aqui, além do mais tenho uma grande novidade para ti.
- Uma novidade? Chegou algum novo governador? Alguma coisa está para acontecer que eu não tenha conhecimento?  Ah como fiquei excitada com esta fala do Senhor Garcia.
-Calma!  Vou falar-te, mas antes quero uma coisa.
Uma esfriada; que diabos aquele homem ia querer? Sexo com ele, apesar de sabe-lo um espirito, seria impossível. Eu não gostava da aparência daquele velho, não gostava dele, não admitiria, nem mesmo a nível espiritual que aquele sacana me pegasse. O que seria?
- Quero que olhes na sua madeira preta uma coisa
- O que:  Quase tenho uma crise de riso: então o senhor Garcia queria que eu olhasse algo na minha madeira preta!  Ele realmente achava que eu era uma bruxa e que aquela madeira preta, como ele chamava meu computador, deveria ser uma bola de cristal.
- Sim, vai chegar mesmo um novo governador e eu quero saber como este homem ficará aqui, como ele vai se portar. Afinal o último governador deixou uma marca triste para nós, homens de bem que engrossamos tesouro real.
- Eu olho senhor Garcia, mas o senhor tem que me dizer algumas coisas?
- O que por exemplo?
-Em que ano estamos, ou quem foi o último governador que deixou tão grande nódoa. Enfim, alguma coisa que me permita encontrar o que que quer.
- Então não sabes, tu mesmo que me falaste das vergonhas e safadezas do Diogo Botelho.
-Ah, agora sim.  O Senhor quer saber quem virá agora? Vou olhar.
- Todavia gostaria muito de saber qual o motivo desta sua preocupação. O senhor é uma pessoa bem informada e sabe de tudo antes mesmo das coisas acontecerem.
- Agora é diferente, só quero mesmo confirmar uma coisa que estamos temendo. Há uma intenção da divisão do poder em dois governadores, um que terá sede no Rio de Janeiro e outro aqui na Bahia, e quero saber mesmo se El Rey vai fazer isto mesmo. Noutra ponta, tenho mais receio ainda de que o Francisco das M9nas volte.
- Senhor Garcia o senhor devia se afastar destas questões, devia é cuidar da sua saúde, dos seus bens, as mudanças administrativas   não vão interferir muito na vossa vida.
-Podes ver isto ou não?
- Claro que posso
Pequei o computador e coloquei no google – Quem foi o governador geral em 1908: Sem qualquer surpresa.  O Diogo Botelho seria substituído por um outro Diogo – o Diogo de Menezes Cerqueira, que ficaria na Bahia, e pelo Francisco das Manhas, o Francisco das Minas, como o senhor da torre havia falado.
- Maldição! Gritou o Senhor da Torre. Onde estes réis espanhóis estão com a cabeça. O Francisco só quer saber de encontrar minas de ouro, não irá governar nada, além do mais esta divisão de governo somente vai complicar as coisas.    Já não viram que não deu certo da primeira vez?
Fiquei intrigada com aquela reação do senhor Garcia, ele já estava para lá de Bagdá, e eu saia que ele não ia durar muito, então para que aquela reação? -  O que será que ele estava planejando ainda?
-Senhor Garcia, se eu soubesse que o senhor ia ficar tão zangado não lhe diria nada, Por que esta raiva. O Das Manhas fez alguma coisa contra o senhor? Ele não vai it referir no governo daqui, pois ele comandará o Sul, a partir do Rio de Janeiro, o senhor poderá, caso se interesse por minas de ouro, continuar com as suas buscas por aqui, pelo norte nordeste. ~-
- Não estou zangado não, estou mesmo é possesso. Então os reis não sabem que o das Manhas, quando estava à frente do governo geral, ao saber que fora encontrado outro em no “Jaraguá e em Voturana  decretou: “Hey por bem, e serviço de sua majestade, em nome de dito senhor, fazer mercê a Diogo Gonçalves Laço do cargo de Capitão das Minas de ouro e  prata e metais , que são descobertas cobrirem nesta vila de São Paulo”.[1]  Não contente com isto, ele “ foi pessoalmente  ver as minas com seus próprios olhos e colocar  uma parte do metal em seu próprio bolso”[2]  Francisco de Souza , o governador geral do Brasil era obcecado por ouro”.[3]
-Ora senhor Garcia, é óbvio que os reis espanhóis estão também atrás de ouro, e o Senhor das Manhas tinha informações preciosas a respeito do metal, portanto, não há o que se surpreender. A alcunha do Francisco (das Manhas) não lhe foi dada atoa.
- Ele não vai fazer nenhuma coisa pelo Brasil, pois estará simplesmente envolvido em encontrar ouro.
- Bom Senhor Garcia não há nada mais a ser feito, ele será o governador do Sul e pronto, simples assim.
Assim que eu disse isto, o Sr. Garcia ficou muito irritado e partiu para cima de mim, parecendo que iria me agredir, cheguei mesmo a sair do caminho, mas Graças a Deus ele simplesmente passou por mim e desapareceu como sempre. Deixando-me a me perguntar: Qual seria a novidade que ele queria me contar. Recorde-se que ele teria vindo para isto. Me contar uma novidade.


[1] CALDEIRA, Jorge. Padre Guilherme Pompeu de Almeida. O Banqueiro do Sertão, Vol. II, São Paulo, Mameluco, 2006.pg. 86
[2] Idem, pág. 87.
[3] Idem pág. 87.


sábado, 20 de janeiro de 2018

Garcia D´Ávila VII - Falando de Mem de Sá

O Sr. da Torre demorou a voltar a parecer, quando, após uns quatro meses de ausência, adentrou ao meu quarto, como sempre, quase caio, porque a presença dele me assustava mesmo, depois de quase dois anos de aparições eu ainda não estava acostumada com aquele senhor prepotente, audacioso, safado que sempre aparecia em horas pouco convenientes.  Neste dia ele me pegou quase nua, estava de calcinha mudando a roupa e o miserável aparece e fica em frente a mim a me olhar com uma cara voraz. Nem mesmo sabendo que ele não era matéria, ficava completamente atordoada. Pensei comigo, hoje vou atordoá-lo um pouco.
-Bons dias Sr. D`Ávila. Que ventos o trazem aqui.
- Podes não crer, mas sinto saudades tuas, das tuas conversas, da tua maneira de falar sobre mim. Tenho ganas de levar-te para Tatuapara e não deixar mais que te afastes de mim!
Caraças, pensei eu. Filho da mãe, eu que pensava em atordoa-lo, é que fiquei atordoada. Será que o Sr. Garcia estava se apaixonando por mim! Que lástima Meu Deus, agora eu era apenas uma obsessão de um espírito! Que final de vida amorosa para uma pessoa de 60 e poucos anos. KKKKK: É, só rindo.
Para quebrar esta leva de pensamentos horríveis e tenebrosos perguntei ao Sr. Garcia:  então, estavas com alguma rapariga? Vais casar outra vez?
-Casar! Eu, és parva: nesta idade vou lá mais me casar com ninguém, além do mais tenho tantas mulheres quanto quiser, as minhas índias sempre gostaram, e gostam.   de fornicar comigo, não preciso de uma mulher, mulher só serve para dividir nosso patrimônio, atordoar nossas cabeças e dar dinheiro aos padres: não te lembras o que a Mecia fez? Até hoje tento reverter esta situação.
- Ah senhor Garcia se o Sr. conhecer a Dona Maria Augusta Sobral, o senhor muda de opinião.
-E quem é esta tal de Dona Maria Augusta Sobral?
- Ela chegou recentemente da metrópole, é de Évora, Alentejo, agora está viúva e tem muito dinheiro, fala alemão, francês, é muito prendada, é uma verdadeira dama.
-E que diabos vem uma mulher desta fazer neste inferno?
-Ficou viúva, tem muito dinheiro e quer fazer um engenho.
-E onde está esta mulher agora? Não que tenha interesse, mas sempre é bom conhecer um rabo de saia novo.
- Neste momento eu não sei, mas penso que ela é hóspede do Governador
-Desgraçado, não me disse nada e estive com ele ontem. Mas diga-me lá, como se mantem tão bem informada das coisas que se passam na Baía?
-Já vos falei, eu leio muito e tenho acesso à documentação do tempo que o Senhor era o Grande Senhor da Torre de Tatuapara, vereador da Câmara, o homem rico e influente nos destinos desta terra.
- Tu sabes bem levantar a moral de um homem.
- Deixe de modéstia Sr. Garcia, o Sr. era um retado mesmo
-Era o que?
Ri, só me apercebi do palavreado que usara com a interrogação dele.
-Poderoso Sr. Garcia, muito poderoso, destemido, aventureiro, ganancioso, determinado.
O homem estava com cara de pavão, ele gostava mesmo destes elogios: quanto pior, eu estava falando a verdade, era mesmo tudo isto, cheio de defeitos, pois era mais de que prepotente, tratava mal seus indígenas escravos, trabalhava sempre em seu favor e dos “homens bons” e ricos da terra, sem se preocupar minimamente com os seus indígenas, com a exploração deles, com a invasão das suas terras, com a dizimação de aldeias inteiras.
Sr. Garcia, como era o seu relacionamento com Mem de Sá, olhe que passou bem tempo por estas bandas.
-Sim, sim, ele faleceu aqui e foi enterrado na Igreja dos Jesuítas.
-Na Catedral?
-Não, na Igreja dos Jesuítas, na Igreja do Colégio
Bom, eu sabia que era na Catedral, mas para que discutir:  a Igreja era a mesma mesmo, se não a mesma, fora ali a dos jesuítas.
-Sim, senhor Garcia como era o Mem de Sá?
- Um homem enérgico, já chegou aqui com todo folego, veio para o lugar de Duarte da Costa, encontrou os índios num tremendo levante, além dos franceses no Rio de Janeiro. Ele aqui chegou em 1557 e foi um grande administrador, “ele era um letrado que, dentro da hierarquia do serviço real, conseguira atingir um cargo na Casa de Suplicação e recebera o título honorifico de Conselheiro do Rei”( SCHWARTZ,1979:29) Isto significa que ele chegou aqui todo poderoso e realmente não fez por menos, comunicou de logo ao rei que a “terra estava cheia de exilados e malfeitores, muitos dos quais mereciam a pena de morte, por terem como única ocupação tramar coisas más”[..] [...]Quando  não estava ocupado com assuntos militares o governador geral devotava muito tempo e energia à supressão do vício, da usura, do descaso para com o dever e da má administração.(SCHWARTZ,1979:30).[1]
- É parece que o Mem de Sá era mesmo um homem muito preparado e governou bem o Brasil.
- É, mesmo tendo trazido para cá o mamposteiro.
-Mamposteiro? O que é isto?
- Um funcionário civil designado para cada capitania a fim de proteger e resguardar a liberdade dos índios,[2] isto desagradou muitos, mui principalmente a mim.
- Mas. soube, pelo Gabriel Soares de Sousa, que ele e o seu comandante Vasco Rodrigues de Caldas acabaram com os índios, queimando umas trinta aldeias.[3]
- Por quem soubeste disto?
-Por Gabriel Sr. Garcia, ele escreveu um tratado sobre o Brasil, aliás já lhe falei dele, porque o senhor é bem citado no livro, isto ele fez em 1587.
-É o Mem de Sá foi bem duro com os índios, afinal ele tinha de demonstrar força para amedrontar os indígenas, que são impossíveis mesmo.
 -Todavia parece que ele era muito respeitado pelos jesuítas. O Sr sabe que José de Anchieta fez um poema para êle?
-Não, não sabia, esses jesuítas adoram babar o ovo das autoridades e dos ricos, afinal vivem da caridade deles.
Sinto uma ponta de inveja e sarcasmo nas palavras do Sr da Torre, mas fui em frente e li alguns trechos do poema para êle,  que ficou bem incomodado:

 “Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil
te contemplou! quanto bem trarás a seus povos
abandonados! com que terror fugirá a teus golpes
o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas
lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!

 “Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,
a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;
e a raiz primeira e causa de todos os males,
a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,
para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.
Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime
afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo
tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.
Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:
imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,
preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.
Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,
vinculada pelo laço do matrimônio sagrado
que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.”

“Como quando as baleias sobem do fundo do abismo
e se acolhem às enseadas do litoral brasileiro
na quadra em que se entregam ao serviço da espécie:
então travam combates ferozes ao soçobro das ondas
e lançam até as nuvens jatos de água espumante:
Atônitos na praia os homens assistem à luta gigante
dos monstros descomunais entre as vagas encapeladas.
Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas
com as caudas e dentes agudos, até que as ondas vomitem
os cadáveres monstruosos às areias da praia.
Assim nossos índios, em pleno mar, a braços com as ondas
vibram golpes terríveis: a uns despedaçam, a outros
já semimortos puxam-nos, enlaçando-lhes os longos cabelos
com a mão esquerda, enquanto com a direita cortam as vagas
e vitoriosos arrastam até as praias a presa,
indo depor aos pés do Chefe os corpos de seus inimigos,
e despedaçando aos semivivos os crânios com os rijos tacapes.”

 “O Governador ouviu com bondade essas palavras
e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio,
devastando os campos e lançando em vossas moradas
o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.
Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes
a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.
Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.”
Manda então que refreiem suas rixas contínuas
que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo
de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,
com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem
os mandamentos do Pai celeste e a lei natural
e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas
em seu torrão natal; aí serão instruídos
na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos
a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,
Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas
ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos
mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.”[4]

Bom, como o Sr Garcia não gostava muito de ouvir elogios feitos para outra pessoa, levantou-se e foi-se, nem mesmo deu até logo.

Eu voltei ao que estava fazendo, me perguntando: Por que eu? Por que não escolheram outra pessoa para conversar com este sujeito? Ele é muito temperamental, e eu fico apreensiva por todos os motivos.





[1] SCHWARTZ. Stuart B. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial – A Suprema Corte da Bahia e seus Juízes – 1609-1751, SP, Perspectiva, 1979
[2] Idem,pg 30
[3] SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descriptivo do Brasil.pg 132, 1587

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Garcia D´Ávila VI - Com raiva de Nóbrega

Estava diante do computador tentando começar um novo texto sobre O Senhor da Torre. Agora eu tinha, de qualquer maneira, de falar sobre o seu neto, Francisco D´Ávila, mas sabendo da intransigência do Sr. Da Torre, não só em relação ao neto, como, também,  por ele não admitir que já não estava mais entre nós.
Eu começaria a escrever sim sobre os descendentes do Sr. Da Torre, quisesse ele ou não, do contrário a estória ia acabar no próprio senhor da Torre, o que não era correto, porque a dinastia Torre se perpetuou na Bahia, através dos seus descendentes, portanto, eles não poderiam ser excluídos.
Abstraída nestes pensamentos e no que deveria escrever,  não notei a chegada do próprio, que já estava completamente instalado no meu sofá, quando dei por conta dele.
-Sr. Garcia! Que susto! O senhor ainda me mata com estas suas chegadas 
- Que queres que eu faça? Tua porta está sempre fechada, então tenho de entrar por algum lugar. Que fazes em frente a esta madeira preta.?
Procurei em volta pela tal madeira preta, sem entender que ele estava a referir-se ao meu computador.
-Ah isto aqui, não senhor Garcia, isto não é uma madeira preta, isto é um computador.
-Computador? Que diabo é isto?  Deve ser mais uma das suas bruxarias. Estou perdendo é tempo ao não denunciar-te ao Santo Oficio.
Fiquei quieta, argumentar com o Sr. Da Torre era difícil, e esta ameaça da Inquisição chegava mesmo a me dar calafrios, embora sabendo da impossibilidade total, mas uma coisa era certa: ele ainda estava em 1591-1593.
- Para que serve este negócio aí?
- Para muitas coisas, para ler sobre o senhor, para saber informações gerais, escrever sobre o senhor, enfim, é um instrumento de pesquisa sensacional, uma base de dados excelente para tudo, hoje em dia não se faz mais nada que não seja através do computador.
- Hum, vou deixar mais uma vez para lá, não te vou levar a sério, mas diga-me lá, o que mais falaram sobre mim.
-Sabe senhor Garcia o senhor e a sua família são famosos mesmo, há muitas pessoas que escreveram e escrevem sobre os senhores. Imagine que até mesmo eu, esta que vos fala, escreve sobre sua dinastia. Bem, mas nem sempre falam coisas boas a seu respeito, vou ler para o senhor uma carta que foi enviada ao Thomé de Sousa.
-Ao Thomé de Sousa? Quem enviou?
-Deixa eu ler para ver se o senhor advinha:
“agora entro nos queixumes que tenho de Garcia D´Ávila: hé ele um homem com quem eu mais me alegrava e consolava nesta terra porque achava nelle um resto do espírito e  bondade de V.M de que eu sempre muyto me contentei e com ho ter quá me alegrava parecendo-me estar aynda Thomé de Sousa  nesta terra. Tinha ele huns yndios perto de sua fazenda. Quando o governador os ajuntava, pedia-me lhe alcançasse do governador que lhos deixassem, prometendo ele de os meninos yrem  a escola a Sant Paulo, que estará a meia legoa dele, e os mais yrão aos domingos e festas à missa e a pregação.
Concedera-lho, mas elle teve não cuydado de cumprir, sendo de my muytas vezes amoestado, antes deixava viver e morrer a todos como gentios  e tinha aly um homem que lhe dava pouco por ele nem os escravos e muyto menos o gentio yerem a missa. Polo qual fuy forçado de minha consciência a pedir que os ajuntassem com os outros em Sant Paul e posto que aynda não lhos tirasse, contudo ele  muyto se escandalizou de my asy que nem a ele nem a outro nenhuma já tenho e nem quero mais que a Deus N S. e a razão  e justiça se há eu tiver.”(SERAFIM LEITE 1955:313 )[1].

-O que?  Quem foi este filho da mãe? Só pode ser o Nobrega. Estefilha de uma mãe escreveu ao Thomé de Sousa falando mal de mim? Não acredito. Onde conseguistes isto.? Quando ele fez isto?
-Foi em 5 de janeiro de 1559.
- Desgraçado, ele me paga. Conhece-o?
- Pessoalmente não, claro, nasci séculos depois que ele morreu, conheço-o, como a si, de livros e de documentos que tenho acesso em diversos arquivos.
-  Vou procura-lo para ele me dizer qual o motivo que o levou a queixar-se ao Thomé.
- Eu se fosse o senhor não perderia meu tempo, Thomé de Sousa não deve ter dado muito ouvidos às queixas do Padre Nobrega, afinal ele lhe deixou toda a sua herança no Brasil. Se ele tivesse restrições ao senhor por culpa desta queixa o senhor não acha que seria diferente?

- Claro que sim, tens bem razão, não vou procurar tirar satisfação dele não, vou continuar é tendo os meus escravos índios e pronto, pois não sei como se poderá fazer alguma coisa nesta imensidão de terra sem a escravização dos índios, além do mais o que os jesuítas e os demais querem é pegar para si os próprios indígenas com esta estória de que vão catequisar, torna-los cristãos, o que eles querem, como nós, são braços para trabalharem nas terras que possuem, e que não são poucas,  o Nobrega mesmo recebeu de Thomé de Souza para fundar o colégio, para sustenta-lo recebeu a sesmaria de Água de Meninos que ele explorava através de escravos, para, segundo ele, poder suprir o colégio: também recebeu outras terras que explora através dos aldeamentos, assim como eu, fazia as mesmas coisas em relação ao gentios, que eram explorados, também, por todos as ordens que aqui existiam.
Notei que o senhor da Torre ficara mordido, e que não cumpriria o que me dissera, ele ia procurar tirar satisfação sim, e eu tentei mudar o assunto, tentando, mais uma vez colocar o filho dele na história; eu não entendia aquela resistência do senhor da Torre em relação ao Francisco, mas era mesmo muito difícil entrar naquele assunto. Eu pensava, se eu não entrar  na família dele, o fim das minhas conversas com ele está próximo, afinal ele morreu em 1609 e ai eu não teria mais o que comentar com ele, dele próprio, da vida dele em si, embora, em sendo ele um espirito, tinha quase certeza que ele sabia de tudo, pois espíritos  podem estar aqui e ali e saber o que acontece muito tempo após a morte física, pelo menos é assim que acho.
-Sr. Garcia, o senhor sabe que o senhor teve um bisneto que teve o seu nome – Garcia D´Ávila.

-Por que insistes em falar de coisas que eu não presenciei, eu só tenho um filho, que chama Francisco e que ainda é muito novo para que eu possa ter a ilusão de que terei um neto, aliás, com a cara que tem, acho muito difícil mesmo ele arrumar uma mulher que tenha a coragem de ter um filho com ele
.
Sr. Garcia o senhor é muito atroz, ele é sangue do seu sangue.

- Queria eu não fora, mas vamos parar de falar dele. Que mais tens de novidades a meu respeito, se forem iguais ao do Nóbrega por favor não fales. Todavia tenho algumas coisas para falar de Nóbrega, que não era tão santinho como  se passava, então não foi ele mesmo que, quando  o os caetés mataram e comeram o  Bispo do Brasil o do Brasil,  com toda a raiva referiu-se aos indígenas: “Não sei como se sofre a geração portuguesa, que entre todas as nações  é a mais temida e obedecida, estar por toda esta costa sofrendo e quase sujeitando-se ao mais vil e triste gentio do mundo”. [2]  Pois é, quem defende índios não devia falar deles assim. E o que ele me diz quando fez com que o Governador Mem de Sá usasse[3] a força para fazer com que os índios se ajuntassem em aldeias grandes e igrejas para ouvirem a palavra de Deus? Que disse ele quando o Governador, ao saber que os índios continuavam a fazer os seus rituais, quando estavam afastados das missões, que ele ia mandar queimar as suas habitações?  Enfim, onde estava Nóbrega quando tantas e tantas aldeias foram dizimadas no Governo de Duarte da Costa?   Ora faça-me uma garapa!

É o Sr Garcia estava mesmo irritado!,E então eu falei: melhor ficarmos por aqui hoje Sr. Garcia, as coisas estão acontecendo rapidamente no Brasil, e se eu não me atualizar a história passa por cima de mim, agora vou ver o noticiário para saber quantos serão presos por corrupção agora, quantos ainda exploram a mão de obra (escrava), quantos ainda invadem as reservas indígenas na atualidade. Pelo que o Sr pode ver herdamos uma infinidade de defeitos dos colonizadores, os piores deles:  a corrupção, os desvios de verbas, o alto custo dos impostos, a exploração de mão de obra, enfim. Até mais ver.

Embora insatisfeito o Senhor da Torre foi-se, e eu fui ver o noticiário informando que o Ministério Público solicitou trezentos e não sei quantos anos de prisão para Eduardo Cunha e oitenta e poucos para o outro antigo presidente da Câmara. Será?
 







[1] Acta Universitatis Conimbrigensis - Cartas do Brasil e Mais escritos do Padre Manoel da Nóbrega(opera omnia) com introdução e notas históricas e críticas de Serafim Leite, Coimbra, por ordem da Universidade, 1955.
[2] HEMMING Jonh, Ouro Vermelho, A Conquista dos Índios brasileiros, tradução Carlos Eugenio Marcondes de Moura, SP, Editora da Universidade de São Paulo, 2007, pg 172. Para quem quiser se aprofundar no estudo da vida dos indígenas no período colonial, este livro é de extrema importância.
[3] Idem pg 173.

domingo, 3 de dezembro de 2017

O Sr da Torre - Continuação III

Voltei para casa com a sensação de que perdi uma grande oportunidade, que não tinha conseguido informações suficientes do Sr. Garcia D´Ávila, como por exemplo, o fato da denúncia de Isabel, sua filha, contra Mécia Rodrigues a sua falecida esposa.   Queria confirmar mesmo que a denúncia se deu porque a Sra. Mécia era cristã nova, ou seja; ela e seus pais vieram de Portugal exatamente pelo fato de serem judeus e, coercitivamente, se tornarem cristãos, por isso mesmo eram chamados de cristãos novos, judeus convertidos.
Estes judeus convertidos comprometiam-se a não observar mais as práticas judaicas, entretanto, Isabel denunciou a madrasta dizendo que a mesma, em casa, continuava observando tais práticas, de acordo com Isabel ela “presenciara dita Mécia Roriz(Rodrigues) três ou quatro vezes em dias diferentes mandar lançar azeite nas panelas da vaca e galinha, dizendo que, porque eram magras o fazia”. Estão vocês rindo! Não riam não, isto era considerado um costume judaico. Em outra passagem, Isabel informa que Mécia Rodrigues comia carne nos dias em que se deveria comer peixe. Salvo engano, nós ainda mantemos o hábito de comer peixe na sexta feira santa, tão lembrados?  Aliás, se bem me lembro, acho que também tínhamos  um costume de comer peixe às sextas feiras. Ainda na denúncia, Isabel informa que quando morreu um escravo de Mécia, esta mandou deitar fora toda a água da casa
Na mesma época em que Mécia foi denunciada, ou seja; na Primeira Visitação do Santo Oficio à Bahia, (1591) sob o comando de Heitor Furtado de Mendonça, foi denunciada a Sra.  Ana Roriz, cristã nova que veio com toda a sua família, marido e filhos para a Bahia estabelecendo-se em Matoim, onde eram proprietários de um engenho de açúcar próspero, o que, entretanto, não evitou que a matriarca da família fosse denunciada e mandada presa para Lisboa, A Sra. Ana Roriz foi presa aos oitenta anos de idade.
Bom, mas não quero falar de Ana Roriz, quem quiser saber mais a respeito desta família, pode encontrar todas as informações nos arquivos da Inquisição na Torre do Tombo, todos os documentos da visitação do Santo Oficio na Bahia estão digitalizados e podem ser acessados através do site da Torre do Tombo.[1]
Voltando à Isabel e a sua denúncia, que não gerou qualquer consequência. Também ia perguntar ao Sr. Garcia D´Avila se foi realmente verdade que ele teve um outro filho que o denunciara ao Santo Oficio, já que estávamos tão íntimos, era melhor obter esta confirmação diretamente da fonte original, a ter de procurar  fontes históricas, mas foi esta a opção que restou, e, de acordo com  CALMON(1983:31), [2] a denúncia existiu mesmo, na denúncia o filho bastardo de Garcia D´Avila, João Homem, declarou-se filho do Sr. da Torre e de uma senhora de nome Catarina Roriz o homem gostava deste apelido) ao visitador do Santo Oficio.  Não encontrei qualquer informação a respeito das consequências desta denúncia, entretanto no seu testamento o velho da Torre reconhece, indiretamente, o filho, deixando um legado para as duas filhas deste, ou seja, para as inclusive determinando ao neto Francisco, o seu herdeiro, que as recebessem em Tatuapara, na casa da Torre.
“Declaro e mando, que o possuidor do prazo acima dito, suas benfeitorias hirá dando cinquenta mil réis em cadahum anno, cinquenta mil réis, os quaes se depozitarão e entregarão na Caza da Santa Misericórdia desta cidade athé a quantia de cento e cincoenta mil réis para dote e casamento da filha mais velha de João Homem, que Deos tem; o qual dote a dita Caza entregará ao marido que com ella cazar, cazada a dita filha mais velha hira dando pela mesma ordem outra tanta que se depozitara na mesma forma para casamento da outra órfã segunda filha de João Homem para caz doutra órfã, segunda filha de dito João Homem[...], [...] depois de cazadas, querendo ellas com os ditos maridos, acomodar-se nas terras do dito prazo, as acomode como melhor lheparecer desorte que comodamente possao nella viver em suas vidas com rossas e creações ; eem quanto não se cazarem  o dito possuidor as recolherá  em Tatuapara[...] Livro II do Tombo do Mosteiro de São Bento, pp.283-284. [3]
Fiquei pensando: volto outra vez a Casa da Torre?  As minhas entrevistas com o Sr. D´Ávila me deixavam aflita, embora a curiosidade da historiadora batesse forte, mas tinha que acabar com aquilo, até porque para ir ter com o dito senhor, eu precisava gastar dinheiro. Percebam bem: tinha de pegar meu carro, colocar gasolina, sair de Arembepe, dirigir até Praia do Forte, pagar a entrada, sim porque só tinha acesso às ruinas pagando a entrada, será que valia a pena tudo isto? Eu posso responder a esta pergunta, racionalmente valia muito a pensa, mas o meu emocional me dizia que tinha de acabar com esta história.
Bom tenho que decidir isto, mas, para minha surpresa, quando cheguei em casa, quem está sentado na minha sala? O Sr. Garcia D´Ávila, se não fosse um espirito e eu sabia disto, diria que em carne e osso. Tomei um grande e imenso susto. Meu deu ganas de perguntar-lhe como ele entrou na minha casa.
O desgraçado nem me deu tempo de recuperar-me: -   Sois casada? Quem é o vosso marido?  A quem ele paga o foro?
- Sr D´Ávila como me achou?
. Segui-te, simplesmente, foi difícil porque esta geringonça em que andas é muito rápida, mas meus cavalos são bons e cá estou.
- Sr D´Ávila o senhor não pode invadir assim a casa dos outros, faça o favor de retirar-se.
- Como? O que estas a dizer? Vais me expulsar da minha própria terra? Se alguém tem de sair daqui certamente  é a senhora. O homem estava vermelho de raiva. Eu já nervosa, tentando falar baixo, mas com uma vontade danada de gritar, corri para o quarto e me tranquei, como se isto fosse suficiente para afasta-lo, ledo engano!  O homem estava lá diante de mim parecia querer agarrar-me, me esganar.
-Não podes fugir de mim, não vês, não percebes?
Sr. Garcia o que o senhor quer de mim/
Quero saber o que sabes sobre a minha família, que termines o que começastes. Deixaste-me curioso, porque falas de coisas das quais não me lembro de ter passado ou acontecido.
-Claro senhor D´Ávila que não podes saber de coisas que aconteceram depois do seu passamento.
-Já vos disse que estou aqui, e que não houve qualquer passamento, mas não quero aborrecimentos consigo,s quero é que me contes mais, gosto da sua narrativa, mas daqui em diante teremos que marcar um dia, pois estas a me fazer perder muito empo e sou um homem muito ocupado, tenho que cuidar dos meus bens, do gado, dos escravos, do açúcar, das terras,  etc.´
Sr D´Ávila eu preciso comer, dormir, não podemos tratar disto em outra hora?
- Nem percebi que já está a escurecer. Não vai ascender as tochas e o azeite?  Onde estão os seus escravos para fazer isto?
-Em que ano o Sr está vivendo?
- Em 1592.
Pensem aí como seria difícil para mim explicar àquele senhor, acostumado a ser obedecido, o garanhão de Tatuapara,( pois o danado era mesmo um comedor, era um garanhão português, macho que demonstrava, em ações, esta qualidade tão cultivada pelos homens portugueses que aqui vieram, e penso que ainda cultivam orgulhosamente os hoje patrícios) transou bem, andou com as oficiais e reconhecidas pela sociedade da época, como também as extra oficiais, teve aventuras com mulheres brancas e com as índias,, teve a esposa Mécia, aliás, com quem casou obrigado, pois este seu casamento foi, como se dizia à época, na justiça. E  como diria minha mãe,  “quem puxa aos seus não degenera”, a  sua filha Isabel  andou adiantando o serviço e teve um casamento determinado pela Justiça ( foi deflorada pelo homem que se tornou o seu primeiro marido), Sim, voltando ao Sr D´Ávila, como eu poderia dizer a ele que o tempo havia mudado, que eu não tinha escravos, que a luz era elétrica, etc. então não expliquei nada, e lhe disse que mais tarde providenciaria tudo, que a luz do dia ainda era suficiente, mas que ele precisava  ir embora, que de lá de casa, Arembepe para a Torre, seu castelo, era longe e quando ele chegasse lá já seria noite alta.
Consegui convencer o homem que realmente montou no cavalo que estava apeado à porta lá de casa. Fui até a porta para vê-lo desaparecer, pedindo a Deus que ele não desse na telha de retornar e ainda preocupada com os vizinhos, que, certamente não iam entender nada, vendo-me a falar com alguém que só eu podia ver, falar, conversar.   
Quando tive a certeza de que não voltaria mesmo, passados duas horas ou mais que ele se tinha ido, peguei os livros e comecei a ler, afinal tinha de ficar afiada mesmo porque, com certeza, ele não ia desaparecer assim tão fácil da minha vida e agora eu estava perdida mesmo, pois ele poderia aparecer a qualquer momento e lá na minha casa. Este último pensamento me provocou calafrios, só faltava agora eu acordar com o homem da torre deitado ao meu lado.,.
Mas, o que descobri, será objeto de um novo capitulo. Kkkkkk, aguardem




[1] Digitarq.arquivos.pt
[2] CALMON Pedro. História da Casa da Torre – Uma Dinastia de Pioneiros, 3ª. Ed. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983
[3] Livro II Tombo do Mosteiro de São Bento, p 284 ( a grafia é a da época, como está no livro de tombo)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A casa da Torre

Saí de Arembepe e fui até praia do Forte, com o objetivo de visitar o Castelo Garcia D´Avila – Castelo da Torre. Já fiz isto outras vezes, no entanto, hoje estou indo com os meus olhos de ver, porque li muito sobre o clã, embora com leituras que trazem, apenas as glorias e conquistas desta família.
O fundador da casa da Torre chegou ao Brasil juntamente com Tomé de Sousa, o primeiro governador geral. Certamente não era um qualquer, tinha a sua origem, se não fidalga, bem próximo de quem a tinha, no caso o governador geral, que vinha com todos os poderes para nomeações para exercícios de cargos, doações de terras, afinal era o representante do rei nessas longínquas terras brasilienses.

Chego ao castelo que está em ruínas, dizem que o estão recuperando, mas a única coisa que vejo recuperada é a pequena igreja.  Sinto-me estranha ao adentrar às ruínas, parece-me que ouço pedidos de ajuda, gemidos, gritos, vozes alteradas. Ouço vozes de crianças, mulheres, homens que pedem clemência.
Me assusto, parece-me que estou num túnel o tempo, estou em um período distante do atual,  os calafrios  me deixam gelada, os pelos estão eriçados, vejo,  perplexa, um homem caminhando em minha direção.
Fixo meu olhar na figura que cada vez mais se aproxima, percebo que não é uma pessoa do nosso tempo, suas vestes, a barba, as armas, enfim, ninguém que estava por perto quando adentrei ao local estava assim trajado, e não poderia ser diferente, ninguém mais se vestia daquela maneira, parecia uma pessoa saída dos meus livros de história.
Olho para as pessoas que estão por perto, elas não parecem assustadas, continuam percorrendo as ruinas da casa da Torre como se nada estivesse acontecendo de diferente. A figura vem se chegando mais e mais, para diante de mim: quase tenho um ataque do coração quando com um português bem diferente e com as mãos para trás ouço: Que fazes aqui? Quem és?  Como adentrastes a esta casa? Susto após susto, congelada, não tenho como responder, até tento, mas a voz não sai e vejo as mãos do homem em minha direção, tento correr e não saio do lugar, tento gritar, mas nada, não sai som algum, as pessoas passam por detrás de mim, por trás do homem, e parecem não ver nada, vou dando de ré, até me encostar na parede de pedra, que ferve, pois o castelo em ruínas não tem teto e o sol  esquenta as pedras que chegam mesmo a queimar minhas costas. O homem continua a vim em minha direção.  Lembro-me então: É o Senhor Garcia D`Ávila, o homem mais rico da Bahia?  O Sr. Da casa da Torre?
“ Me conheces?”
Tomo as rédeas; parece que tenho uma iluminação divina e digo: Quem nesta terra Brasil não vos conhece senhor?  O Senhor dos sertões nordestinos, o criador de gado que alcançou terras longínquas, do curral de Itapoã às terras  dos quatro cantos do Brasil? O homem que criou um feudo por estas terras brazilis.
“Onde vives? Que fazes aqui? És muito diferente  das  mulheres e outras pessoas  que tem acesso à minha propriedade? És acaso filha de algum dos escravos? Não pareces, tens a pele clara, vestes-te de uma maneira muito diferente.
Senhor D´Avila: se eu explicasse o senhor não entenderia, mas conheço a si e a vossa família, posso contar a sua história e se tiver erros o senhor pode corrigir, tenhas a certeza que muito me ajudará.
O Sr. veio de Portugal em companhia de Tomé de Souza,  aliás, dizem as más línguas que o Sr é filho bastardo dele. É verdade?
Eu, filho Bastardo? Quem inventou uma história desta? Rapariga, queres a morte? Estas a brincar com fogo.
Não, longe de mim, mas o Sr sabe como são as futricas, pois o vulgo diz que o Sr é filho bastardo dele, e por isso mesmo é que veio junto com ele para estas terras, e que nunca se posicionou como filho porque, se assim fizesse, não poderia receber doações, sesmarias ou exercer cargos públicos, por ser isto proibido por lei. Os governadores não podiam colocar parentes em cargos e nem fazer doações de terras.
É isto mesmo a língua do povo é assim, apenas somos da mesma região do reino, uma terrinha perto de Póvoa do Varzim, chamada São Pedro de Rates, no norte de Portugal.
-Bom se o senhor está dizendo, devo acreditar, quem sou eu para duvidar das palavras do Senhor da Torre? Sim, mas como foi que o sr. Conseguiu vim para o Brasil com Tomé de Souza? E como conseguiu ficar tão rico e ter tantas terras?
-É facto: vim com Tomé de Souza como criado do governador[1], e aqui fui por ele nomeado, logo na chegada, como Feitor da cidade e Almoxarife da Alfândega.[2] Depois, com a chegada do gado vacum à Salvador, passei a cuidar do gado em 1551. Recebi de Tomé de Souza, da sesmaria que lhe cabia, 14 léguas de terra, que ia de Itapoa até o Rio Real. Conheces  estas terras?
Sim, conheço, aliás moro bem perto delas
-Como? Com autorização de quem moras nas minhas terras?
Começo outra vez a ficar com medo do homem, ficou possesso com esta resposta.
-Calma Sr. D´Avila, posso explicar. Mas como eu ia explicar isto, o homem estava enfurecido.
Tive um insight e perguntei sobre a sua mulher, onde ela estava neste momento>  Senhor, onde está a senhora Francisca Rodrigues? E como está a sua filha Isabel D´Avila?
O homem recua. - Como sabes os nomes da minha mulher e da minha filha.
- Ah Senhor, sei muita coisa a vosso respeito, não só de si, como de toda a vossa família.
-Famíia, que família, sou só eu aqui, só tenho a a minha mulher e filha, a que família te referes?
-A toda a sua descendência, seus netos, bisnetos, genros, enfim, conheço tudo.
-Se sabes de tudo isto, és uma bruxa, vou te mandar para a fogueira.
-Por favor Sr. Garcia, deixe-me falar, o senhor vai gostar do que vai ouvir.
O homem se acalma, olha para mim num misto de curiosidade e incerteza, e pede para acompanha-lo, convidando-me a entrar na  casa.
Sigo-o quieta, doida para que ele vá embora, para que desapareça, mas ele vai falando e me mostrando a casa. Eu não vejo nada do que ele me apresenta, mas sinto que ele tem um imenso orgulho de dizer como fez isto e aquilo, por que fez a capela? Como construiu aquilo ali, por que escolheu aquele lugar?
Ele tem toda razão, onde planejou a construção da casa forte, o fez estrategicamente, de onde ele estava podia avistar qualquer embarcação que se aproximasse, que navegasse seja em direção, a Salvador, seja em direção ao norte, mais ainda, o gado podia pastar a vontade, terras não faltavam, índios a aprisionar também não, o porto lá embaixo era seguro. Realmente o Sr D´Avila era um estrategista de primeira, um comerciante maior ainda, tudo contribuía para o seu sucesso.
A mulher com quem o Garcia D ávila teve uma filha era uma índia, a quem ele tirou da casa paterna para com ele conviver, dando-lhe o nome cristão de Francisca Rodrigues, ou seja, a sua filha Isabel era uma “mameluca”, filha de português com índio.
Bom, estava quase chegando a hora de ir embora, a tarde já ia finda, mas o homem parecia não querer se ausentar da casa, falava e falava, reclamava com um, ajeitava uma outra coisa, gritava a mulher, enfim, mostrava todo o seu poder.
Eu precisava sair, tentava me despedir, mas ele nada, agora estava interessado no que eu falava sobre a sua família, sobre as suas posses, enfim, estava entusiasmado ouvindo alguém falar das suas glorias e do seu poder, todavia eu tinha de ir embora, e foi exatamente o que aconteceu, porque os funcionários da fundação me pediram para retirar-me, não antes de eu prometer ao Sr. Garcia D Ávila que voltaria um outro dia para falar mais sobre ele e sua descendência.
Bem, como o deixei  interessado,  com a pulga trás da orelha e morrendo de curiosidade, deixo também vocês, esta história é longa, envolve muitos nomes e fatos históricos, é uma história viva, que passarei a contar por etapas. Aguardem..



[1] De acordo com os jesuítas, segundo Pedro Calmon, (1983: 23) “Criado de Tomé de Sousa, escreveram os jesuítas, ou seja pessoa de sua criação, que é ser como de sua família”
[2] CALMON, Pedro. História da Casa da Torre – Uma Dinastia de Pioneiros, 3ª, ed. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983, pg23.