segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Paraíso e o Bolero

E lá ia ela toda cheia de planos. Estava feliz, estava a caminho de realizar um sonho, um pequeno sonho, mas um sonho e prestes mesmo a materializar-se. A estrada  ia passando, para ela era como se fosse a estrada que se movesse, e não o carro onde ela ia feliz ao lado do parceiro que se propusera ajudá-la no “ come true” daquele devaneio.
Organizara tudo, vinha idealizando a coisa fazia tempo. Não poderia dar nada errado, não queria incomodar ninguém nem fazer ninguém sofrer, apenas queria dar asas a sua imaginação e fazer o que sempre tivera vontade, desde os tempos de menina, quando os sonhos daquele tipo eram proibidos, tão proibidos e pecaminosos, que nunca tivera coragem de revelá-los a quem quer que fosse.
Xitãozinho e Xororó cantavam bolero e ela ria, pois  aquela trilha sonora fazia parte de tudo que ainda estaria por vim naquele final de tarde inicio de noite em que tudo seria permitido e tudo poderia acontecer.
O verde  ainda predominava na paisagem, do carro, mesmo com a velocidade, ainda se avistava aqui e ali algumas  coisinhas brancas se mexendo,  vacas nelore pastando naquele imenso gramado, que se perdia de vista.
Tudo perfeito até então. Nenhuma detalhe  esquecido. |A garrafa de  Champagne, as taças, o queijo de cabra, fatias de jámon, um paté , torradinhas, água mineral com gás. Na dúvida, mais uma garrafa de champanhe por gelar, mas isto não seria problema, com certeza, onde ia, seria fácil gelar, mesmo que acabasse o gelo que estava na caixa térmica, onde tudo estava guardado. Mentalmente visualizou tudo que estava no carro: sim, não esquecera de nada, tudo perfeito. O CD com as músicas,  o  computador carregado,  tudo, tudo certo, aquela noite ia ser perfeita, nada ia estragá-la.
A estrada reta já dava os primeiros sinais da proximidade do destino final, saída a 30km. Menos de meia hora separavam aquele instante do momento ideal, correto, certo.  Mais verde, mais água, menos luminosidade; para  Paraíso, aguarde no acostamento e vire à esquerda.  A entrada era perigosa. Não tinha rótula, não tinha nada, apenas este  pequeno aviso, se alguém não estivesse atento passaria batido. 
Entram na estradinha minúscula que levava a Paraíso.  Seria mesmo um Paraíso? Quem já esteve no local garante que sim. O hotel reservado, não quisera correr risco, mas depois de andar bem uns trinta km naquela estradinha de pedrinhas que batiam no fundo do carro, começou a achar que não era necessário ter reservado o hotel, correra um risco desnecessário, era melhor chegar e pronto, mas preferiu correr o risco de que não ter onde ficar, ainda mais que o objetivo era ficar exatamente no hotel convento: E se chegasse ali, depois de toda aquela preparação e não tivesse um quarto?  Melhor assim.
A noite já tomara conta de tudo, mas havia uma lua que também parecia ter sido programada,  aliás, assim podia ser concebida, pois ela escolhera, propositadamente, aquela noite, exatamente porque sabia que a lua estaria cheia e iluminaria mais os seus sonhos.  Agora  percebia o acerto desta escolha, a iluminação da estrada, onde não passava  nem gente e nem outro carro, naquela paisagem só o carro em que eles estavam e o caminho, que parecia estreitar a cada avanço estava iluminado, graças a enorme lua que acompanhava o veículo...
De repente uma luz lá no alto e bem distante: “Será ali, onde está aquela luz”?
- Acho que não, ainda faltam uns vinte e cinco km.
- Tudo isto? E se esta estrada afinar mais? Não chegaremos em lugar algum e teremos de voltar.
- Não se preocupe. Se ela estreitar mais voltaremos.
- Só se for de ré.
- Kkkkkk, não se preocupe, daremos um jeito. Se anime porque estamos muito próximos.
Calada, pois não queria  que a sua voz  indicasse  a sua apreensão, olhava o riacho que acompanha a estrada. A lua permitia que  ele fosse visto, e não só: permitia que a sua beleza deixasse nela a vontade de pedir para parar o carro e entrar naquela água, que de cima da estrada parecia tão clara, límpida.
Perdeu-se neste pensamento e o tempo passou mais depressa. Percebeu que o radio do carro não mais tocava nada, ali, naquela imensidão do nada, ele não  funcionava
“Seráque o computador vai funcionar? Se não funcionar não posso colocar música e ela faz parte desta estória. Não, não queria pensar nisto, mas o pensamento não se desfazia, entretanto, lembrou do aparelhinho de CD e se tranquilizou, ouviria música sim.
A luz se aproximava vagarosa.- Faltam somente cinco KM.
-Só!, aquela luz não deveria estar mais perto?
-Não, aquela luz não é do hotel para onde vamos, ela não teria condição de aparecer, porque o hotel não fica em um alto.
-Não fica em um alto? Duvido. Então o hotel não é uma velha construção de padres? Não é um convento antigo?
-Sim,  lembre-se que  padres não são militares, e não precisavam de conventos em cimos de montanhas,  o hotel fica no centro da cidade de Paraiso.
-No centro da cidade? Em local muito movimentado?
- Paraíso! Local movimentado? Kkkkkkkkkk.
De repente ela vê uma placa  PARAISO, 2,5km
Mais um pouquinho: “Prepare-se: Você está há 1,km do PARAÍSO” 
“BEM VINDO AO PARAÍSO”.
Um muro de pedra começa a aparecer do lado direito da pista, uma mureta na verdade, mas pedras que deixavam que os visitantes lhe adivinhassem a idade, muito velhas mesmo, aquilo parecia um muro romano, se estivesse na Europa, certamente, estariam entrando em alguma ruina romana
Um arco feito com as  com as mesmas pedras aparece e eles passam por ele e entram, efetivamente,  em Paraíso. As ruas de pedras  faziam o carro balançar. As casinhas todas fechadas, nenhuma janela aberta, ninguém pela rua, parecia uma cidade fantasma, não fossem as luzas que se entrevia pelas frestas e vidraças das janelas fechadas, parecia que nelas não morava ninguém.  De repente uma praça enorme e, do seu lado direito, uma imponente construção: uma igreja com três torres, toda pintada de branco, cada torre com um sino imenso e, ao lado da Igreja, parecendo sair da sua lateral como um apêndice, uma constrição de dois andares que se perdia de vista, tão branca quanto a própria Igreja e com janelas e portas verdes.
-Meus Deus, quem faria uma construção desta num lugar deste?
-Os beneditinos. Aquele era um convento beneditino, que fora ali construído no século XVII. Ela procurara saber de toda a história, que era mesmo fantástica, e por isso mesmo o desejo  de ali realizar aquele sonho que de há muito a acompanhava.
Param o carro e entram pela porta lateral semiaberta: Não há vivalma  ali. Uma companhia, daquelas que parece uma sineta. Batemos, não batemos? O que faremos então?  De repente,  veem, embaixo da sineta, um papel e uma chave:  Hóspedes Juliana e Joshua, chambre 10. Boas vindas e tenham uma boa noite.
-Será que só nós estamos aqui hoje?
Ao lado da portaria uma escadaria gigantesca. Toras de madeira trabalhadas imensas, seja na expessura seja na largura: a escada devia ser formada por madeira de 2 a 2,5 de largura.  E eles  pegaram as coisas no carro e subiram aquelas escadas, que ressoava apenas as suas próprias passadas. Um claustro imenso aparece quando  chegam ao último degrau, uma placa  e uma seta indicam  onde ficava o quarto que eles procuravam. O último do fim do corredor ao lado direito. Enquanto se encaminhavam para o quarto olhavam o pátio lá embaixo, muitas flores, um lago artificial, muitas e muitas  plantas e muitas, mas muitas mesmo, orquídeas, que  se amostravam  sob a luz do lar. Ela queria vê-las todas e de perto, mas àquela hora, pensa que tinha mais coisas a fazer de que ver orquídeas.
Chegaram ao quarto;  sim, ali havia sido, sem a menor dúvida, a cela de um beneditino. Embora a adaptação feita para acomodar hospedes tenha sido muito bem feita, não retirou a originalidade da construção e da sua finalidade.  Uma só janela que dava para um bosque.  A cama imensa, um antigo móvel fantástico do lado direito. O armário embutido atrás de uma madeira rústica, o frigobar que ali também estava instalado e uma passagem, que só de olhar  lhe fez tremer; era uma passagem mesmo, entre aquelas paredes de quase um metro de espessura, uma fenda que dava para um vasto banheiro, fantasticamente trabalhado, mas cujo piso ainda trazia  a marca  dos votos da pobreza feita pelos monges que habitaram aquele convento.
Ela estava radiante, aquele local era parte do seu sonho, ela sempre sonhara em dormir num quarto daqueles, depois que tomou conhecimento que os antigos conventos e castelos medievais  viraram pousadas, ela alimentou aquele desejo de dormir em um convento, mas num quarto que já pertencera aos padres, embora já tivesse dormindo, muitas vezes, nos dormitórios coletivos dos internatos dos conventos por onde passou, talvez por isso mesmo sempre tivera a curiosidade de saber como seria uma “cela” de um padre ou de uma freira, pois nunca lhe permitiram entrar.
Olhou tudo, viu as toalhas brancas, limpíssimas, as roupas de cama bem alvas, a coberta de fustão, enfim, tudo arrumadíssimo. Abriu a caixa térmica e olhou se tudo estava sob controle, tirou o queijo, o presunto, o patê  e colocou  em uma bandeja que estava  em cima do móvel.
Disse a Joshua que ia tomar um banho e lhe perguntou  se não seria melhor darem uma volta na cidade para ver o que encontravam. Ele  riu e nem disse sim e nem não, apenas aproximou-se mais dela e lhe deu um grande e caloroso beijo, que a deixou bem excitada e sem já sem muita vontade de repetir o convite.
Foi para o banheiro com a sua mala. Entrou naquela câmara e ficava tentando entender porque ali, ao invés de ser um local hiper quente, chegava mesmo a fazer um friozinho, quando tirou a roupa notou o endurecimento imediato dos mamilos, que, a bem da verdade, já estavam  bem calibrados após aquele beijo, prenuncio do que estava por vim.
Entrou no box e deliciou-se naquela água fantástica, o chuveiro era mesmo fabuloso, estava ali embaixo daquela cachoeira, deixando que a água quentinha molhasse todo o seu corpo,  que nem percebeu Joshua entrando  no banheiro e no box, só sentiu mesmo a sua presença quando ele já estava agarrando-a, puxando-a para si e lhe fazendo os mais diversos carinhos, aos quais ela não resistiu mesmo e, ali mesmo, se amaram e muito. 
Enrolados nas toalhas saíram daquela câmara do prazer falando exatamente  do que poderia ter acontecido naqueles quartos. Lembraram de Humberto Eco em O nome da Rosa e realmente  perceberam  que  em um lugar daqueles seria muito fácil mesmo viver uma vida dupla, entre a santidade e a safadeza. Ali as paredes não permitiriam que ninguém ouvisse o que se fazia dentro daquelas  celas, dificilmente alguém seria salvo até mesmo de um assassinato.
Vestiram a roupa e decidiram procurar um local para um jantar romântico regado  um bom vinho. Saíram caminhando do hotel e a Praça parecia dormir, nenhuma pessoa, nenhuma porta aberta,  só eram oito e trinta da noite. Deram a volta inteira na praça e decidiram retornar ao hotel, talvez o restaurante do estivesse funcionando, ao entrarem no hotel, mais uma vez, não havia qualquer pessoa na recepção. Bateram a sineta, mas ninguém apareceu, deram uma volta pelo pátio, olharam as orquídeas de perto, muitas e de diversas cores e formas, lindas, mas gente que era bom, nada.  Quando estavam desistindo, viram mesas e cadeiras do lado direito e deduziram que ali seria o restaurante, todavia, ao se aproximares constaram que as portas de acesso estavam fechadas, ou seja, iam para o quarto mesmo, não havia Esperança de encontrar nada aberto e nem qualquer pessoa para dar informações.

Chegaram ao quarto e ela foi providenciar o som para colocar o CD, bem como tirar os petiscos da caixa térmica. Eles teriam que comer ali mesmo. Pegou o Champagne, as taças, pediu a Joshua que abrisse o Champagne, arrumou, da melhor maneira possível, os frios, o paté, as torradas. Iam comer ali, na própria cama, fazer o que?
Começaram a bebericar a comer alguns petiscos, entreamados com carinhos  que iam ficando ousados, aí, enquanto podiam controlar o desejo, lembraram da música e  pegaram o aparelhinho para colocar o CD. Ligaram o bichinho na tomada, colocaram o CD e a música começou: “Me manda embora e na mesma hora me pede para ficar, deste jeito... e um  barulho  estranho e fogo saindo pela tomada e, de repente, tudo escuro; apavorados arrancaram  o aparelho da tomada e ficaram quietos ouvindo os passos apressados que passavam pela porta do quarto e desciam as escadas.
- Porra, o que fizemos Joshua?  O que aconteceu?  Parece que o hotel está todo às escuras.
- Não sei, mas, possivelmente, a corrente do aparelho é 120 e a daqui 210.
- Que merda, e agora? O que fazemos?
-Nada, vamos ver se conseguimos uma vela e vamos continuar a nossa festinha. Vamos abrir a janela para a claridade da lua entrar,  bem como um ventinho, porque isto agora vai ficar quente, e pronto.
E foi o que fizeram. Tomaram o Champagne, comeram petiscos, fizeram amor muitas vezes, de melhores formas, e, pela manhã, acordaram cedo e, como entraram no hotel, saíram.

No caminho de volta muitas risadas, principalmente quando  colocaram o CD no rádio do carro e a música começou: “me manda embora e na mesma hora me pede para ficar”.