segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma dolorosa despedida


São os últimos dias que estará com Portugal e com a sua querida esposa: tem estado triste a percorrer as ruelas e escadas de Lisboa. Continua, depois de oito anos, a descobrir tanta coisa nova, coisas que Portugal esconde muito bem aos olhos famintos dos turistas que procuram conhecê-lo,o que ele quer guardar para si e para os seus. É como se quisesse guardar algumas coisas só para ele, para, juntamente com a sua bela consorte, deleitar-se sem testemunhas.
Está mesmo com a alma doente, ela não se quer ir, mas tem de ir, não tem opções, tudo o que tinha de fazer aqui já está feito, não pode mais prolongar a sua estada. Portugal lhe deu os títulos que ela tanto almejou, mas lhe retirou muita coisa, a exemplo da alegria de retornar a casa. Ela não quer isto, quer ficar aqui, mas  não pode mesmo, não tem quaisquer condições, seja financeira, seja emocional, precisa voltar, ela bem sabe, até porque quer tentar outra vez uma nova vida ao lado de quem pode, ao menos, tentar lhe fazer feliz. 
Tem de retomar a sua vida sem a presença deste amigo. Mas como? Pergunta. Como vai fazer sozinha naquela vastidão que é a sua terra? Com quem vai partilhar as suas emoções?  Com quem se emocionará tanto?  O que irá fazer aos sábados pela manhã, aos domingos à tarde? E na semana? Em que biblioteca, em que centro de saber irá se esconder para crescer? Não, ela não terá mais oportunidades de ir até Cascais ver o mar, ir ao Estoril olhar as pessoas a tomar sol, aproveitando até o último raio possível; enquanto há luz, estão ali estirados ao sol, como se quisessem estocá-lo dentro de si.
Se antes sempre havia uma esperança de retorno, agora, infelizmente, um retorno poderá acontecer, mas jamais ela poderá quedar-se assim, tão perto e por tanto tempo junto do seu grande amigo.
Chora, olha o Rossio, a bela estação se apresenta aos seus olhos, tira foto, não quer nunca se esquecer desta maravilha arquitetônica, olha a Avenida da Liberdade e vê que a sua própria liberdade está fugindo do seu controle, já não pode decidir sozinha a sua vida, tem de esperar pelos outros, não tem mais de onde tirar o vil metal que a faria ficar aqui, vivendo condignamente, morando bem e procurando o saber.
Pensa nisto e olha a “montra” do restaurante “ Beira Gare”; olha as bifanas, os empanados, os”pastéis de bacalhau” os risoles, e tantas outras coisas. Vê as pessoas passarem, turistas, muitos mesmos. Segue o caminho, quer andar em tudo, olhar tudo, ver os detalhes, para não se esquecer de nada. Passa pelo Rossio; o teatro continua ali, imponente. Segue até o Largo de São Domingos, tira foto da Rua das Portas de Santo Antão, lembra: quantas e quantas vezes passou por ali para ir até à Sociedade de Geografia.  Sente uma dorzinha no peito, sabe que dificilmente voltará ali para passar manhãs e tardes procurando nos Boletins Oficiais das Colônias as informações para o seu trabalho. Sente lágrimas escorrendo pela face, quer esconder, mas não consegue, o sentimento é maior que o seu racional.
Olha em volta, o Largo de São Domingos, multicultural como é, está como sempre: bêbados falam sozinhos, discutem consigo próprio o esporte e concluem: "O melhor time do momento é mesmo o Barcelona”, este comentário lhe refaz um pouco, ela sorri e tira mais fotos, muitos negros estão ali; alguns demonstram a sua religião; são muçulmanos. As mulheres estão com as suas vestes típicas. O estampado é realmente bem escolhido, os modelos originalíssimos. Nas cabeças adornadas, mais panos brilhantes e coloridos. É uma festa. Ela tenta se concentrar nestas cores e na alegria que elas transmitem, mas é por pouco tempo, porque a nostalgia, de novo, lhe invade, exatamente pelo fato de que lembra que não mais verá isto.
Resolve andar mais um pouco, entra na rua onde se vende “ouro”, hoje não percebeu ciganos comprando ouro, há muitos negros e indianos, mas não vê ciganos. Pessoas mal cheirosas passam por si, ela hoje nem liga para isto, já não vai mesmo sentir mais estes cheiros, mas há um cheiro mais forte que ela sabe que não vai esquecer, embora saiba que dificilmente sentirá este aroma no Brasil, é o do “carril”, tem indianos que exalam carril do próprio corpo, deve ser de comer tanto com este condimento.
Chega à Praça Martim Moniz. A Praça ganhou beleza, e perdeu os seus habituais visitantes, agora, a praça esta valorizada, e as pessoas  de bem podem frequentá-la.  Acha louvável, mas a tipicidade da praça deixou de existir. Agora a tradicional família portuguesa pode visitá-la sem sustos. Não se sabe o que fizeram com os antigos “habitues” dali: drogados, prostitutas, bêbados.  
Há muitos quiosques na Praça, você pode escolher; petiscos e comidas: africana, brasileira, chinesa, indiana. Há artesanato na Praça,  sempre há música. Na sexta feira, dia 05 de outubro, a Mariza cantou na Praça terminando o show com “Gente da minha terra”, que só ela, mais ninguém, sabe cantar, foi efetivamente lindo.
Isto lhe faz recordar, exatamente, o show na semana anterior em que viu, “grátis
”, Ney Matogrosso em concerto ao ar livre em plena Praça do Comércio em Lisboa.  O cenário não poderia ser mais perfeito: a Praça fica em frente, completamente em frente, ao Tejo, que se fez calado para ouvir o cantor e se preparou para, no dia seguinte, domingo, ouvir e ver a sua encantadora compatriota, a Carminho, e depois Martinho da Vila, dentre outros que por ali passaram também. E ai, pensa ela: onde e como eu farei isto em Salvador da Bahia? De novo sente as lágrimas escorrerem pela sua face, disfarça e tenta enxugá-las por baixo dos óculos escuros com o qual tenta, sem qualquer sucesso, esconder o que lhe vai mesmo ao peito.
O dia seguinte esta lindo, parece que Lisboa não quer que ela vá embora mais triste e não recebe o outono, prolonga a estada do verão de qualquer maneira, está com temperatura de 30 graus e ela decide ir à feira da ladra, é sábado, e, portanto uma bela programação.   Vai ver coisas extraordinárias, adora ir ali. Se tivesse dinheiro e morasse em Portugal, certamente, muitas coisas da sua casa sairiam dali, daquela feira onde se encontra de tudo, do melhor ao pior, do novo ao velho, do antigo a velharias mesmo, do original ao falsificado, enfim.
Passa pela feira, vê relógios, pratarias, pratos que ela particularmente adora, panos indianos, máscaras africanas, fotos, livros, postais, muitas e muitas coisas lindas. Desta vez comprou apenas um elefante pequenino e dois panos indianos, que o homem lhe explica ser um “sári”, ela diz que compra não para usar como roupa, e sim como colcha de cama ou toalha de mesa; os panos são lindos e ela tem de sair apressada da barraca do indiano porque não tem dinheiro e nem espaço para levar estas coisas para o Brasil.
Sai da feira da ladra e entra por ruas nunca antes, por ela, percorridas. E uma nova Lisboa se apresenta nova por ser nunca antes visitada por ela: ruas, ruelas, escadinhas se apresentam, muitas novas Igrejas aparecem em muitos becos em que ela entra e pensa que não conseguirá sair, mas isto é impossível, há sempre uma alternativa.  Anda muito, anda muito mesmo pela Alfama, por seu becos e escadarias; não se perde porque sabe que, em descendo, vai dar sempre no Tejo, o seu guia, o seu companheiro de sempre, que não lhe falta nas horas tristes e de aflição, portanto não se preocupa mesmo, não quer, sequer, saber onde está, sabe que ele vai tá lá embaixo e que algum beco, alguma escadaria, alguma ladeira, vai fazê-la chegar á ele.

Desce tudo, sai em Santa Apolônia, decide que vai a Cascais, anda até o Cais Sodré, quando lá chega lembra que o comboio está em greve, hora de arrumar outra coisa a fazer, recorda, então, de Santa Catarina, e vai até o elevador da Bica. Sobe e pensa em comer um chouriço assado, e é o que faz, toma alguns chopes. Fica ali até mais tarde e resolve voltar, desce em direção ao Chiado, passa pela porta do Consulado Brasileiro na Praça Camões, e continua descendo em direção ao Rossio. É sempre um deleite quando chega à Praça. A vida está ali, a multiculturalidade, tudo enfim, e a sua vida também, só que ali vai ficar um pouco dela, que não retornará junto consigo para a sua terra.

No domingo, como sempre que tem oportunidade faz, vai a "feira do relógio", ela gosta,gosta de tudo, de ver tantas e tantas etnias juntas,  a multiculturalidade resplandece: brasileiros, russos, portugueses, africanos, ciganos, ucranianos,  ali ninguém é estrangeiro, todos comungam um mesmo sentimento e um mesmo objetivo, diversão e comprar  alimentos  mais baratos; roupas, sapatos, perfumes, bolsas de marca, o mundo da falsificação em uma realidade que reina absoluta mostrando a verdade nua e crua. Todos querem ter acesso a uma Lui Vuiton, Prada, Dolce Gabanna, Gucci, etc. Ela não compra, adora ver as "brasileiras" comprando. Vão levar para o Brasil e vão tentar enganar os trouxas, embora ela mesma já tenha  tido  uma encomenda de uma carteira Lui Vuiton, não comprou claro, tem vergonha, sempre achou que se não pode ter a original, certamente, não se falsificará usando uma "falsa".
Novamente ela  volta ao Rossio, é o seu ponto de referência, dali ela vai poder ir para onde quiser sempre, mas não pode ficar o tempo todo na rua e ela tem de voltar à casa.
É inevitável, a emoção toma conta de si e ela caminha lentamente em direção ao táxi, que a levará até Carnaxide, e no táxi, mais uma vez, ela lembra que terá muitas saudades, saudades mesmo, pois em muitos deles ouviu galanteios, não levados a sério mesmo, afinal. . Mas é sempre bom ouvir, embora de maneira não muito elegante, “que você ainda dá umas curvas” e coisas do tipo.
Chega a casa, fica pedindo que a dona da casa não esteja, não é por nada, é porque está mesmo soluçando, e não quer que ela participe desta tristeza.  Chega ao seu quarto e abre à janela, o Tejo está lá, quieto, hoje parece estar triste, não tem ondas, está calmo, fica de lá tentando lhe dar coragem e lhe confortar. Ela agradece, fecha a janela, deita, tenta dormir, afinal, amanhã é outro dia e, quem sabe o seu amigo e a sua esposa lhe façam outra surpresa!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lamparinas


Sim, a gente ia entrando na casinha, digo casinha porque esta especifica casa de minha avó Antonieta parecia uma casa de bonecas. Tinha, salvo engano, um quarto, uma sala comprida, um banheiro a cozinha e uma área.  Do lado esquerdo da sala, onde ficava o quarto e o banheiro, entre um e outro, havia um mínimo hall e ali, uma mesinha mínima com um pequeno nicho com santos e a “lamparina”, que, diuturnamente, permanecia acesa, como para iluminar aquele espaço e todos dentro daquela casa.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Dá para explicar?


Acorda pensando na sua vida; como se isto fosse uma grande novidade! Ela vive pensando na sua vida e na de tantos quantos a rodeiam. Reza, pede a Deus por todos, e, num gesto, leva à mão ao crucifixo que carrega no pescoço: é um crucifixo de ouro cravejado com pequenas pedras verdes(verdadeiras), que lhe foi dado de presente e, desde o dia em que o ganhou, e lá se vão anos, está ali no pescoço, só sai dele quando a sua dona vai fazer ultrassonografias ou outro qualquer exame, ou ainda quando vai para a acupuntura. É um companheiro e tanto, pois, mesmo com a beleza da peça, que é mesmo uma joia, a sua representação é o que mais vale, por isso mesmo o gesto de levar a mão ao pescoço e pedir a ajuda tão necessária.
Quem lhe deu esta joia, também lhe deu a pulseira de ouro que carrega no braço esquerdo junto ao relógio, que também, por incrível que possa parecer, é um dos muitos presentes que recebeu da mesma pessoa, O seu pensamento já não está mais nos outros, e sim nela, porque num gesto quase que automático passa uma perna na outra e sente a tornozeleira, uma correntinha de ouro com um trevo e uma figa, que, por mais estranho que possa parecer, também lhe foi dado pela mesma pessoa.
Sorri e passa a mão pelas orelhas, e nota que também ali a presença da pessoa se faz presente, está com um brinco de ouro com  pedras azuis, que também lhe foi dado pelo mesmo presenteador.
Pensa: Como alguém pode esquecer outra carregando em si tantas lembranças; quanto pior quando, algumas delas, a exemplo da tornozeleira, lhe foram oferecidas após, ela e o presenteador, estarem separados, e ela recebeu,  simplesmente, porque ele soube que a antiga fora perdida, que, por acaso, também lhe foi presenteada pela mesma pessoa.
Lágrimas escorrem pelo canto do olho. Sim, por que tudo tinha de acontecer? Para que uma pessoa que faz questão de estar tão presente causou uma tão grande ausência, um vazio enorme num peito aberto ao amor.
Que estranha maneira de se fazer presente é esta, quase se tatuando no corpo de outrem! Que estranha maneira é esta de alguém sofrer por outrem deixando que a sua presença se encrustre em si desta maneira.
Não tira nunca as coisas, parece que tem medo de perder este contato, de retirar uma tatuagem que lhe deixará marcas feias, que sempre lhe lembrarão do que estava tatuado ali, quanto pior, se as tatuagens eram perfeitas, coloridas e lindas, as marcas da sua retirada serão feias, vão parecer queimaduras na pele, vão mesmo é deixar marcas indeléveis perenizando uma ausência presente.
Tenta parar de pensar nisto, mas é impossível. Tenta lembrar-se da sua casa, e aí nota que isto não vai afastar o pensamento e nem a presença de quem quer esquecer.  A sua casa está tão cheia de lembranças quanto o seu próprio corpo.  Na sua sala a televisão que lhe traz o mundo para dentro dela lhe foi presenteada pela pessoa. O aparelho de som onde ouve as suas músicas preferidas, que lhe fazem sonhar, também lhe foi oferecido pela mesma pessoa. Os próprios discos, uma grande maioria deles, também são pequenos mimos, enormes nos seus efeitos, quando lhe levam a recordar momentos tão felizes, mas que se foram, embora fiquem ali perenizados por vontade de ambos, talvez inconscientemente por ele, Tony Bennet, Bossa Lounge, Al Jarrou, Emilio Santiago, Andrea Boticceli, Zeca Pagodinho, Djavan, Gloria Stefan, tantos, tantos outros, e tantas recordações.
Pois é, o som que toma conta do coração e da casa entra por todos os seus poros, ela se arrepia só de pensar nisto e de lembrar que, quando ouve as músicas, na sua grande maioria, quando está só, o faz  deitada numa rede que lhe foi trazida pela mesma pessoa, em alguma das muitas viagens que faz ao nordeste.  Todas as redes da casa. É incrível! Eela pensa: são mais de cinco, e todas, sem exceção, chegaram a casa através dele.
Desiste de lembrar-se de mais coisas, mas a sua casa não tem somente sala, e ela se lembra das taças de vinho, ali a hegemonia dele é mesmo gritante, tudo ali lhe foi trazido por ele, que também é quem, quando aparece, leva o conteúdo das taças, mas não é só isto que, na cozinha, acusa a sua presença que se impõe de todas as maneiras. Os pratos brancos que substituíram os que foram quebrados, pratos iguais aos que tinham enquanto juntos  e moravam na mesma casa. Não só os pratos, há também o abridor de garrafas, as facas grandes, o facão, os belos pratos de servir refeições. Dentro do freezer esta o bacalhau especial trazido do mercado municipal de São Paulo. Na despensa o palmito, ele sabe que ela gosta e faz estes mimos.
Quer não pensar, quer não fazer mais nenhuma associação da ausência presente que se impõe todos os dias na sua vida, mas é impossível. Agora, mais de que nunca, ele vai estar presente, mesmo quando ela não estiver em casa, quando sair dela para procurar alguma diversão, procurar deixar de ficar tão doída com tantas lembranças e com tanta presença, Sabe que não adiantará nada a fuga, pois o que vai proporcionar este distanciamento da casa onde a presença é tão grande é exatamente um carro que, se não um presente, é uma doação condicionada, uma espécie de usufruto de bem móvel, porque é dele.
Não consegue mesmo entender, não sabe por que uma pessoa pode, faz questão, de se fazer tão presente e, ao mesmo tempo, ser uma ausência tão grande que leva a outra a duvidar que isto exista ou existiu mesmo.  Não! Isto é mesmo real, a pulseira, o crucifixo, a tornozeleira, o brinco, as tatuagens da alma, tudo isto é muito real, muito presente.
Não sabe o que fazer; pega no crucifixo e solicita a ajuda de Deus, e, neste momento,percebe: ironicamente, está vestida com um pijama que era dele!!!!!!!! Tem de gargalhar mesmo. É o que faz no seu solitário quarto do outro lado do Atlântico.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Espelhinhos Sacanas!!!


O vestido é branco, é como se fosse uma bata mais comprida, estilo indiano, coisas que gosta. É completamente transparente e foi comprado, exatamente, pelo insuportável calor que esta fazendo na cidade.   A casa onde está é cheia de portas de espelhos e, de repente, olha para a da cozinha e se vê ali refletida, aliás, não quer crer que seja ela mesma.  O vestido transparente permite notar que a sua silhueta foi embora, já não tem divisão no corpo, já não sabe mais onde fica a cintura, estomago ou barriga, tá tudo junto, e como diria alguém, “ta tudo junto e misturado”; uma mistura horrível, que não deve ter gosto de porra nenhuma, talvez por isso mesmo algumas pessoas, normais-anormais, não tenham qualquer desejo pela sua figura. Sim, porque o que se lhe apresenta ali naquele espelho não é nada. Será um homem? Será uma mulher? Um travesti? Aquilo não é nada, é um amontoado de carne que se expandiu para todos os lados cobrindo todos os espaços, destruindo suas formas, acrescentando-lhe curvas indesejáveis e pregas incríveis.
Fica indignada, pensa em tirar o vestido, aquela porra que lhe permitiu, sem ela querer, que se desse conta do lastimável estado em que se encontra aos 59 anos.
Não será melhor quebrar as portas da casa? Quebrar cada espelinho daquele que lhe faz ver a realidade que tenta em todos os momentos esconder, ou melhor, não perceber. Aqueles pedacinhos de espelhos devem estar lhe desconfigurando; é claro que não pode estar daquela maneira, aquela não é ela, ou melhor: será mesmo que aquela é ela ou ela é aquele que se vê?  Será esta, ou a que pensa que é, que é a  real ?
Merda de espelhos;  tenta não os olhar mais, mas não tem jeito, eles estão em todas as partes. E a claridade! Esta miserável cúmplice daqueles pedacinhos malditos de realidade, também contribui para que ela se dê conta do que realmente é.  O contraste da luz faz com que a silhueta apareça por baixo do leve tecido, é isto mesmo; é ela sem cintura, com o estomago alto, com gorduras localizadas nas laterais, com a bunda mole, com os braços cheios de pelanca, que já não podem nem mesmo dar um bye: ao invés de saudação, as pessoas terminariam por ficar ofendidas.
Puta que pariu! Pensa em como as pessoas são falsas e como procuram se enganar a si e aos outros todos os dias. De que adianta a yoga, o pilates, as caminhadas? Porra nenhuma, as marcas do tempo estão aqui a lhe mostrar que nada vai resolver a bancarrota em que o seu corpo se encontra, daí para frente, se é que isto pode mesmo piorar, já esta muito insatisfeita com o que vê, não sabe o que pode acontecer: pensa que vai andar recolhendo pelancas e enfiando-as não sabe onde.  Será que um cirurgião plástico teria capacidade de tirar metade destas pelancas? Não acredita, ele ia ter de recortar tanto que a obra final iria ficar uma merda. Assim é que a desconfiguração seria mesmo total, porque o resultado não seria nem ela e nem nada.
Diabos de pedacinhos de espelhos inconvenientes; tem vontade de dar uma porrada na dona da casa, como se ela tivesse alguma participação nisto, como se fosse culpada da sua velhice, dos seus defeitos físicos, da perfeição da genética. Sim, perfeição da genética, é exatamente aquilo que a sua genitora foi com a idade que ela está agora, só espera que, quando alcançar a idade que ela tem atualmente, ao menos consiga andar: a mãe já não o faz.
Resolve sair daquele espaço torturador, aliás, parece uma casa de terror, e vai para o quarto. Vê-se, então, num espelho maior, não muda nada, até mesmo piora, os quadrinhos dos espelhos das portas se juntam neste espelho maior para lhe mostrar, com mais detalhes, o que o passar dos anos lhe deixou de herança, além das dívidas, claro. Tem de tudo, efeito de casca de laranja na pele, aquele que é combatido com diversos produtos que, simples e vergonhosamente, são sempre derrotados pelo tempo.  Mossas de celulite!  Têm pelas pernas, ancas, braços.  Era melhor ser um só buraco, ao invés de tantos em tantos lugares diversos.  Aqui também, os anticeluliticos perderam, descaradamente, a guerra. Os responsáveis por estas “armadilhas” deveriam ser presos, isto é uma afronta aos consumidores, uma mentira descarada e deslavada, vendida em supermercados, farmácias, botecos até, no Brasil agora se vende em ônibus.
Quer quebrar o espelho, não o faz, a voz da razão não lhe permite, ela lembra que está em casa alheia e que, apesar do corpo que ele reflete lhe pertencer, ele, espelho miserável, propagador da verdade, não é dela, além do mais, ele está cumprindo, e bem, a sua função, talvez a mais social que poderia ter, mostrar-lhe exatamente como ela é e está.
A razão, também, talvez para lhe fazer esquecer as rugas que tomam conta do seu rosto, as pregas que fazem as suas mãos parecerem de bruxa dos desenhos animados, dos seus pés enrugados e secos, fica martelando: “Você é sábia, tudo isto que se mostra no espelho é muito pequeno diante do que você é intelectualmente, diante da sabedoria que tudo isto que se espelha no seu físico lhe trouxe”.
“Manda a razão à porra: então sua ordinária! De que vai adiantar todo este saber se ninguém tiver coragem de se aproximar de mim, de estar comigo, se a minha aparência não deixa que as pessoas se aproximem, nem mesmo para compartilhar o saber?  Sai  de mim e vá procurar consolar outra idiota, não eu, que to me lixando para o saber, ele sequer me deu condição de pagar  algumas plásticas que não me deixariam chegar a isto, ao menos, por enquanto”.
“Doutora, olhe bem, Você alcançou coisas que muitos poucos conseguiram. Você faz parte de um mundo distante do comum dos mortais, isto é um privilégio, e isto só se consegue com o passar do tempo, portanto, mais uma vez lhe digo, aprenda a gostar destas marcas porque elas são o resultado da sua própria vida, da sua experiência, do seu saber”.
“Olhe razão, vá para o inferno: então eu fiz tudo isto  diferente dos pobres mortais, mas o tempo me dá o mesmo efeito que dá a eles, se fosse diferente, se alguma coisa fosse relevante em relação a tal da minha experiência, também o meu físico teria de ter algum privilégio sobre os dos demais mortais, que fizeram outros sacrifícios diversos dos meus”.
“Dra., Mestre, Doutora, olhe bem, veja quantos títulos. Quem os tem tantos? Veja o que você conseguiu?”
“Querida razão, não me aborreça. Quantas ou quantos têm estes títulos eu não sei, espero que bem poucos se o resultado final for o que hoje tenho: A solidão, as marcas do tempo se instalando sem pedir qualquer autorização, a elevação das minhas “taxas”,  os triglicérides, o colesterol, a pressão arterial. Ah! Tem uma coisa que baixa, o “estradiol” e com ele o fogo do desejo, da paixão, que já nem posso partilhar com alguém. Também os peitos,  estes miseráveis:  os róseos mamilos que se impunham diante de olhares vorazes, e que pareciam querer ganhar qualquer guerra, agora, cabisbaixos, olham para o chão, nem mesmo nas poucas vezes que, correspondendo a alguma estimulação endurecem, mudam de direção, continuam a olhar para baixo, possivelmente envergonhados do estado em que se encontram. Olhe razão, vá para aquele lugar e me deixe em paz com as suas ponderadas ponderações. Como você é abstrata não tem onde se lhe pegue, fica assim, dando de sábia e “gostosona”. Certamente você nunca saberá o que é ser gostosona, nunca sentirá o prazer de ser tocada, bolinada, mexida. Nunca terá o gosto de ouvir, ao passar na rua, alguém (e olhe que a esta altura não faria nem exigência do sexo) dizer que você é gostosa, ou ainda, para os menos novos, que você é a luz do dia, flor do dia,  uma boneca que anda e fala, dentre outras destas coisas ridículas que fazem um bem da porra ao ego, e, se deixarmos passar disto, ao próprio corpo. Você não sabe nada disto, nem amor você conhece, porque cheia de razão como é, racionalizando tudo e sempre, não vai se permitir dominar por um sentimento, que, na maioria das vezes, nos retira o próprio eu para que outro dele se aposse. Olhe razão: deixe-me em paz com esta história de saber.”
Olhou-se outra vez no espelho, tirou o vestido, vestiu uma calça grossa e uma blusa folgada, que não lhe deixasse qualquer marca, calçou o tênis, foi subir a serra, descarregar a raiva e recobrar as energias, afinal, o tempo lhe deixara mais uma marca, a da responsabilidade, e por ela, ela tinha de se cuidar, de tentar viver da melhor maneira possível, ainda tinha dependentes, ainda não podia fazer o que lhe desse na telha, o melhor mesmo era tentar baixar as taxas, e se foi.....

sábado, 8 de setembro de 2012

Enganados! Será?


Acho interessante ver as pessoas acharem que estão enganando as outras; penso que elas pensam que são inteligentes e que todas as demais, pobres mortais, são burras.
Quando as pessoas enganam as outras, lógico que estou falando daquelas pessoas que conhecemos razoavelmente bem, chega mesmo a ser engraçado, hilário até, porque a gente percebe mesmo que está sendo enganado e deixa que o idiota, que nos esta enganando, pense que esta conseguindo este grande feito.
A pessoa tem “tiques ou tics” não sei bem, que denunciam tanto as suas inseguranças em relação ao que está falando, ou à mentira deslavada que esta sendo contada, só que elas não se apercebem disto.
Por exemplo, conheço uma pessoa que tem um “tic”: quando está mentindo, contando algo que não foi real: começa a falar e a boquinha horrorosa tende para o lado esquerdo, resultado:  um espectro! A pessoa já é feia por natureza e ainda arruma um “tic” deste que lhe torna muito mais feia;  feia  em vários sentidos: exterior por não ser mesmo privilegiada pela natureza, e  interior pelo fato da mentira deslavada, cínica, imbecil, sem a menor necessidade, que está contando.  É bom que aqui fique claro que não sou das pessoas que dizem que “quem ama ao feio, bonito lhe parece” e nem “que a beleza é interior”. Não sou não: para mim feio é feio e pronto.  Se você olha para alguém e a pessoa é feia, não tem belos traços, tem boca torta, nariz enorme, olhos enviesados, infelizmente, a pessoa é feia mesmo. Acho, como Vinícius, que “beleza é fundamental”.
Falando em “tics” conheci uma outra que adorava falar de Freud, Jung, enfim, de psicologia. Achava engraçadíssimo quando ela começava a “descrever”, “narrar”, “falar sobre”, nunca soube entender muito bem o que se passava ali, e os dois dedos, o polegar e o vizinho do mindinho alcançavam os dois pontos entre os olhos e eram ali esfregados: algum tipo de massagem para ativar os neurônios, quem vai saber! Eu só achava engraçado e interessante, era como se fosse um sinal de que, naquele momento, o “saber” ia ser compartilhado; que éramos privilegiados por isto. Para mim, apenas uma demonstração da total insegurança daquele que sabe que o seu saber não é o saber, mas vai se fazer o que?
Pois é, penso que vivo uma legião de mentirosos.  Uma das grandes e esfarrapadas desculpas que ouço é quando alguém diz que não atendeu ao telefone porque estava no banheiro, puta que pariu! Pensam que eu sou idiota ou o que? Façam como eu, passo todo o tempo com o telefone no silencioso, tive de me acostumar a isto, primeiro por causa do trabalho; segundo por causa das aulas; terceiro por causa das pesquisas em arquivos e bibliotecas, em que não podia ser incomodada e nem incomodar os meus pares. Me acostumei tanto que esqueço, literalmente, de tirar o silencioso, resultado: não ouço nenhuma chamada, é bem melhor de que mentir. Aliás, quem me conhece mesmo sabe que odeio celular, que não gosto de falar ao telefone, enfim, muitos nem ligam porque já sabem que não vou atender por todos os motivos já expostos; agora inventar desculpas para justificar o não atendimento é uma merda. Não justifique nada, simplesmente não atenda e não diga por que não atendeu, é melhor.
Pior que tudo isto é você estar com alguém e ouvir o telefone da pessoa tocar e ela não atender. Bem verdade que, às vezes, faço isto, porque tem momentos de uma total inconveniência, mas ver a pessoa não atender ao telefone porque realmente não quer é um pouco demais. Pergunto-me: para que dar o número se já sabe que não vai atender. Melhor não dar.  Outro dia alguém me pediu o meu telefone, eu disse que não sabia o número.  A pessoa me olhou com uma cara incrédula: então eu não sabia o número do meu telefone!  O diabo é que eu não sabia mesmo, aliás, continuo sem saber, tanto que coloquei na lista dos contatos o telefone de “eu”, mas, na verdade, no caso a que me refiro, ainda que eu soubesse, não o diria a quem mo pediu; pois imaginem só: foi um garçom brasileiro num restaurante de Lisboa. Tudo bem que a gente tem de tratar bem a todos, mas isto não significa que viva dando o seu número de telefone a qualquer um.
De outra feita dei o número errado; simplesmente troquei o último número, felizmente que o “cara” não ligou na hora, senão o caso tava perdido e eu passava por sacana. Entretanto, o melhor mesmo é não mentir, mas naquele momento foi o melhor que pude fazer para não magoar o rapaz que estava tão interessado na minha pessoa e que eu não queria, de maneira alguma, demonstrar qualquer descaso, foi outro garçom. Penso que ando a agradar a classe!  Não confundam, entretanto, mentira com omissão. A omissão em alguns momentos é louvável, evita-se muitas coisas, mas a mentira, como diria minha mãe, tem pernas curtas, e a gente um dia descobre que um companheiro de longa data, destes que acorda e dorme com você, que as pessoas até os confundem como marido e mulher, que até tem momentos de prazer (sexo) e dividem contas, tem um caso e um filho com outra pessoa. Olhe que eles passaram muito tempo juntos, pensando um deles que era companheiro mesmo do outro. Já notaram que não eram não é?  Esta omissão não valeu a pena, porque isto não é omissão: é, e foi, uma grande e enorme traição!!!!!
Pois é, outra coisa que detesto é a curiosidade das pessoas em relação à vida do alheio. Lá quero eu saber onde as pessoas foram, estão ou vão. Não me interessa; pior ainda, quanto gastaram:  pouco me importa, a não ser quando alguém esta gastando o que é meu; aí sim, fico “piursa”  deve ser assim que se escreve, uma mistura de raiva com ursa, porque se a porra é minha, quem tem de gastar sou eu sem dar satisfação às outras pessoas. Aquelas que gastam o dinheiro que não é seu é que tem obrigação de prestar contas. Ultimamente, quanto pior, na minha velhice, quando pensava que, até por força da própria idade, da maturidade, da “sapiência”; não se esqueçam de que velhice, para alguns, é quase um sinônimo de “saber”, penso que é “experiência”, mas cada um dá o nome que quer ao passar dos anos e ao acumulo dos cabelos brancos que, infelizmente, se aboletam em todas as partes do corpo, o que é horrível; percebam que se olhar no espelho e ver os grisalhos revoltados, porque eles são revoltados mesmo, são mais grossos, inconvenientes, teimosos, se colocam em espaços indevidos, me deixa para lá de irritada, mas fazer o que não é? Eles estão aí e pronto, mas, voltando ao assunto e  a minha velhice, conheço pessoas que tem curiosidade mórbida a respeito da minha vida: gente que quer saber onde fui; com quem fui até mesmo o que comi. Se compro uma coisa, tem a desfaçatez de me perguntar quanto foi. Não gosto disto, mas a vida me proporcionou isto na velhice, e eu, por força de circunstâncias outras, que no momento não vêm ao caso, estou me sujeitando. Bem verdade que tenho uma válvula de escape: a mudez. Fico muda simplesmente. Acreditem que não respondo nada e fico somente olhando para a cara do “questionador”. É como se eu quisesse, com o silêncio, demonstrar toda a minha insatisfação com tanta curiosidade.   
E aquelas pessoas que além de questionarem querem dar palpites! Ah estas, são mesmo o fim da picada, ainda tem algumas que se fazem acompanhar de outras, que nem sabem quem você é direito, e se julgam no direito de, também, dar palpites, comentar; e a gente descobre que a droga desta pessoa, que você nunca viu, não sabe de onde veio, sabe muito da nossa vida, logicamente, porque alguém, que não é só curioso, é também fofoqueiro e gosta de falar da vida do alheio, lhe contou. Um comentário: tem gente que sabe mais da nossa vida de que nós mesmos, porque quem fala dela o faz de uma maneira que, de repente, o fato é outro, as pessoas são outras, os resultados são outros e a gente se descobre outra pessoa, outro momento, numa outra vida. Tem  momentos  que ficamos na dúvida se estão falando de nós mesmos ou se, no meu caso, por força da velhice, me esqueci daquilo.
É, mas vou ficar por aqui, só de recordar estas passagens já estou ficando irritada, porque, efetivamente, não há nada que irrite mais uma pessoa de que a mentira e esta mania que as pessoas têm de, sem ser convidadas, entrar no espaço dos outros. Se você tiver alguém na sua vida que seja assim, mentiroso e ou curioso, se afaste: é o melhor que você faz.

domingo, 2 de setembro de 2012

Aprenda como não pagar dívidas


Depois do convite presidencial ao endividamento, e já endividado em atenção a tão nobre pedido, temos de nos livrar das dívidas, e então...
Olhem! Sem querer dar de erudita, de culta, esnobe, sei lá mais o que, estou, presentemente, de intimidades com ARISTÓFANES.
Porra meu! Ter intimidade com alguém que tem este nome já é motivo para ser admirada, pois tenho certeza que, ninguém em sã consciência se aproximaria de alguém que se chamasse ARISTÓFANES, todavia, como minha mãe e Marta casaram-se com homens que se chamam AURENTINO, vá lá que eu estou muito bem na fita. Aliás, como na moda, “Causando”.
Pois é. O meu relacionamento com dito senhor provém do fato de que, por estar muito cansada de leituras que só me transportam à África, por causa do trabalho de pesquisa do doutorado, procurei me distanciar bem disto e, como na casa da minha “senhoria” portuguesa tem muitos e muitos livros, escolho um sem olhar muito bem a autoria. Escolhi pelo título e pela espessura. Um livro destas coleções que se chamam “de bolso”.

domingo, 19 de agosto de 2012

Brahma e Amor - Combinação perfeita

Mercado Municipal SP

Estava ela sozinha; se dirigia ao Mercado Municipal e depois iria, mais uma vez, cruzar a Ipiranga, ali onde ela confronta com a Avenida São João. Iria ao Bar da Brahma, ia tomar o chopp e comer a feijoada tradicional do dia de sábado. As coisas agora estavam diferentes, nunca estivera no Bar da Brahma durante o dia, só ia ao final da tarde e ficava ouvindo o piano, lá em cima no primeiro andar. Gostava disto. Ficava sentada à mesa ao lado do piano, porque assim poderia pedir músicas ao velho pianista, que ainda usava o terno, possivelmente, do último casamento. Era um senhor dos cabelos ralos, bem magro e que fumava muito. Naquele tempo ainda se fumava, sem qualquer constrangimento, dentro dos bares. 
Tinha uma sensação esquisita. Seria saudade? O pensamento logo se dissipa, não poderia ter saudades, pois quem a levou até ali outrora, certamente, tinha levado tantas outras mais, portanto não precisava ter qualquer tipo de sentimento, quanto pior, saudades.
Entretanto não quer falar do bar da Brahma, quer falar mesmo é do acontecido no caminho para ele.
Baião de dois
Frutas - SP
Entrou no metro soltou na Estação da Sé, pois queria ir ao Mercado Municipal, onde efetivamente foi. Queria ver os bares do primeiro andar, olhar os vitrais do mercado, as frutas arrumadas mostrando a sua exuberância de cores e diversidade de origem. Ficava encantada. Deliciava-se sozinha nesses lugares, sempre foi assim. Adorava passear pelos mercados. O de São Paulo então, com toda a sua imponência e beleza era um dos preferidos. Lembrou-se da Ribeira, ou seja, do Mercado da Ribeira em Lisboa, fraco em relação ao de São Paulo. Fez uma comparação com o de Barcelona, talvez mais “internacional” de que ele, mas não mais bonito.
Não só gostava de Mercados, como também de feiras livres, não tinha qualquer preconceito em fazer tais passeios em dias de sábados e domingos, sempre adorou a fartura, a diversificação, as cores dos alimentos.
Bacalhau-SP
Bom, estava ali no Mercado olhando, o bacalhau. Lembrou-se que alguns portugueses que vieram ao Brasil lhe disseram que não encontravam bacalhau bom, que os que aqui vendiam eram amarelados. Certamente não estiveram no lugar certo, porque aqui tem bacalhau que nada deixa a desejar ao bacalhau que se compra em Portugal, muito pelo contrário.
Foi exatamente nesta barraca do mercado que tudo teve o seu início. Estava sozinha e não tinha com quem comentar o preço do peixe, e aí deve ter falado alto da exorbitância do valor do pacote de bacalhau embalado a vácuo. Quando fez o comentário ouviu:
- Realmente é muito caro, mas não se acha um filé de bacalhau assim toda hora.
Virou-se para olhar quem fizera o comentário:
Um homem alto, moreno, de cabelos prateados estava ao seu lado. Usava óculos escuros e ela não lhe pode ver os olhos.
Comentou alguma coisa, mas saiu do local dirigindo-se a outra banca que vendia bacalhau
Ah, este sim, este esta bom e o preço era um pouco inferior ao do outro. Pediu 2 kg e ia pagar a bagatela de 140,00 (cento e quarenta reais)
- Bem que eu podia ser convidado para o banquete.
Virou-se novamente, e para sua surpresa o mesmo homem estava ao seu lado.
- Sorrindo disse. Impossível, este bacalhau vai para muito longe
- Distância não é problema se o convite for feito. O riso de dentes perfeitos iluminou o rosto daquele belo homem.
- Rindo, diz que é realmente impossível.
- Como impossível? Quem tem de saber se é impossível ou não sou eu que vou ser convidado, pois quem vai ter de se deslocar, procurar endereço, ir até o local sou eu.
Novamente um sorriso. Paga o valor do bacalhau, coloca tudo na bolsa e continua andando pelo mercado, perambulando só, pois não ia comprar mais nada, afinal estava mesmo indo era para o Bhrama.
Para aqui, ali, olha uma fruta com o nome estranho. Compra 100 gramas de gengibre desidratada, come uma, uma maravilha. Percebe, pelo canto do olho, que o homem lindo dos cabelos grisalhos lhe acompanha.
Apressa-se, tem de chegar até, pelo menos, as três no Bhrama, pois queria mesmo comer a feijoada, estava com saudades da couve, da laranja, dos pés de porco, dos embutidos.
Anda rápido para a saída, tá meio perdida, pois não sabe que lado seguir.
- Para onde você vai?
- Quase grosseiramente volta-se e diz:
- Com certeza não é para o mesmo lugar que o senhor.
- Quem sabe? Se você disser onde vai posso estar indo para o mesmo local. Uma coincidência ou uma estratégia: fica por conta do destino.
Acelera o passo. Na verdade não queria dar trela aquela conversa mole, ia almoçar sambar, beber, não havia lugar para devaneios, mudanças de planos.
O homem continua a seguir-lhe.
- Diga aonde vai? Possa ser que eu encurte o seu caminho. Estou vendo que você não é daqui, posso mesmo te ajudar.
- Não obrigada, sei perfeitamente onde vou e como chegar, portanto...
-Não seja assim, você esta sendo grosseira com alguém que quer apenas lhe ajudar e ter o prazer da sua companhia
- Que grosseira o que? Só não quero ser incomodada.
Segue quase correndo em direção à Sé.
De repente pensou. Poxa queria ver direito a cara deste homem, e só havia uma possibilidade, parar e olhar mesmo para ele, e foi que fez.
O homem era mesmo lindo. Moreno, dentes brancos e bonitos, boca desenhada, nariz fino, cabelos grisalhos. Não viu o olho, ele continuava usando os óculos escuros.
Com a sua inesperada reação, o homem fica parado e, parecendo ler os seus pensamentos, tira os óculos e lhe estende a mão: Roberto Garcia.
Ela, não tendo saída, também estende a mão e lhe diz o seu nome.
Surpreso ao ouvir o sobrenome lhe pergunta qual a origem do apelido, ela diz que é da família do seu pai. Passam alguns minutos conversando sobre os apelidos, sobre a família, sobre terras distantes. O gelo foi quebrado, e o homem pergunta se pode, agora, lhe acompanhar.
- Tá bem, mas para onde vou agora não sei se é mesmo o seu caminho, portanto...
 - Se você não disser para onde é, não posso saber se é ou não caminho.
 -Vou ao Bar da Brahma.
 - Como? Você vai para onde?
 - O que você ouviu; Bar da Bhrama
 - Não posso crer, pois estava mesmo fazendo hora no Mercado para encontrar alguns amigos para ir exatamente ao Brahma. Vamos comer a feijoada e ouvir música.
 - Sim, e cadê os seus amigos?
 - Eles sabem que se não me encontrarem no Mercado me encontram lá no Bar.
Praça da República-SP
 - Ela se deu conta que já estava quase na Praça da República, vinha conversando e não percebera que chegaram rapidíssimo.
 Outro momento de nostalgia pura, olhou para o Hotel em frente ao Bar, rememorou muita coisa. O amor, a amizade, o prazer de estar ali acompanhada de alguém que muito quis, e que pensava que lhe queria, mas não podia ficar triste, não podia demonstrar esta saudade assim a um desconhecido, que, entretanto percebeu uma modificação na sua voz.
 - O que foi? Aconteceu alguma coisa? Parece que você ficou triste repentinamente?
Praça da República-SP
 - Não, apenas não consigo perceber como deixam esta cidade ficar desta maneira. A Praça da República tão suja deste jeito, drogados por todos os lados, a água dos lagos turva de uma maneira que não se pode ver os peixes, enfim, o descaso do poder publico em relação ao patrimônio público.
 - Não acredito que este tom melancólico seja só por isso. Acho que tem algo mais de que isto? Vamos lá, diga o que se passa com você.
 - Nada, nada mesmo, é melhor entrarmos, pode ser que o seu pessoal já esteja ai te esperando, por outro lado tenho de arrumar um lugar para ficar, pois estou sozinha como você pode ver, e não vou encontrar quem quer que seja aí dentro.
 Roberto, procurando sua mão disse:
 -Você só vai estar sozinha aqui se quiser. Você pode ficar comigo e com os meus amigos, eles não vão se importar de nenhuma maneira, mas se você não quiser estar com eles pode ficar comigo sozinho, o que até prefiro, pois quero conhecer bem esta mulher que traz tanta tristeza no olhar.
 -Ela sorri e diz que não vai ficar com ninguém, que já estava acostumada a estar sozinha e que isto não era problema.
 Ele insiste e segura a mão dela e vai entrando.
 O bar esta um pouco diferente dos tempos de outrora, quando ela vinha para o happy hour, mas nada que o desfigurasse tanto e não a fizesse retornar a um tempo que já podia ter sido apagado da memória, mas era impossível, aquele lugar realmente lhe trazia muitas recordações mesmo, recordações boas, que insistiam em lhe fazer ter saudades. Era completamente impossível não voltar no tempo.O mesmo trio tocava as mesmas músicas de antes, lágrimas escorreram no seu rosto. Num gesto inconsciente apertou a mão que segurava a sua, o que fez com que Roberto lhe olhasse.
Bar Brahma
 -O que há? Por favor, diga o que você tem? Por que tanta tristeza? Fazendo estas perguntas toca-lhe o rosto tentando limpar-lhe as lágrimas.
 Não adiantava, as lágrimas insistiam em correr, era impossível tentar reter esta emoção. Vira-se para Roberto e diz:
 -Não adianta, não vou ficar aqui, pensei que seguraria esta emoção, mas ela é forte demais. Vou embora.
 - Vai nada. Seja lá o que for, você vai superar isto. Vamos entrar de uma vez. Vamos ficar um pouco na varanda depois entraremos para comer a feijoada e dançar um pouco. Você está muito linda e precisa ser vista, admirada, todos tem de lhe ver e quero fazer inveja aos meus amigos por estar com uma bela mulher como você.
 - Sorriu, tentou enxugar as lágrimas, embora soubesse que a cada passo recordações outras viriam. Era como se estivesse revivendo momentos muitos felizes, eles insistiam em lhe mostrar o quanto ainda o passado estava presente em si.
 A mão forte de Roberto apertava a sua, parecia querer lhe dar força, lhe dar a segurança que ela precisava para entrar ali, estar ali, ficar ali. Podia ser aquele o momento muito importante para quebrar tantos elos que a ligavam a um passado que tinha de ser esquecido, pensando bem, aquele homem tinha caído do céu. Devia ser um anjo enviado de Deus exatamente para cumprir esta missão junto a si,
Entrou definitivamente com passos fortes, altiva, segura, como costumava entrar ali outrora.
- Ei, Roberto. Alguém chama. Ele vira-se e lá estão uns cinco homens, quase todos da mesma idade, uns cinqüenta e poucos anos. Todos com boa aparência e sozinhos.
A mão sente uma pressão mais forte, era como se ele quisesse lhe dizer. Vamos lá, não tema nada, eles não vão fazer mal. Eles se encaminham para o grupo.
Realmente ela notou a impressão que causava. Os cinco parados com uma cara de interrogação que chegava mesmo a dar dó. Ela percebeu isto, embora eles pensassem que evitaram o efeito surpresa, mas efetivamente não conseguiram
- Esta é Jade, uma velha amiga que encontrei no Mercado quando me afastei de vocês. Ela vai ficar conosco, pois está sozinha aqui em São Paulo. Ela não queria, mas eu lhe disse que não havia problema algum, ato continuo foi lhe apresentando a cada um deles, que lhe apertavam a mão e apressavam-se em dizer que não tinha problema algum.
Velhos músicos do Brahma
- A música tocava, os copos de chopp esvaziavam, enchiam, um turbilhão de pensamentos passava pela cabeça dela, que tentava disfarçar todas as emoções. O seu corpo, de vez em quando tremia, tinha um arrepio, e a mão que estava segurando a sua, fazia uma pressão maior.
 As horas passavam, o chopp já começava a fazer o seu primeiro efeito, ela tinha de fazer xixi. Falou com ele que iria ao sanitário.
 - Eu te acompanho. Não quero que ninguém pense que você esta sozinha aqui
 - Não precisa, sei o caminho, é rápido.
 - Nada disto. Não vou dar chance ao destino. Já te encontrei, agora não deixo você mais nunca na minha vida, Esperei durante 57 anos para encontrar você, idealizei tudo, os cabelos encaracolados, a cor da pele, o corpo, a maneira de vestir, de andar, de chorar, a agressividade, tudo. Estou preparado para você e não vou deixar nunca que você saia da minha vida, portanto eu vou com você ao banheiro, todos têm de saber que você esta comigo e que é “minha”
 “ “Minha”, tá doido homem. Sou de ninguém não. Não pertenço a ninguém e detesto esta possessividade. Tenta tirar a mão que lhe prende, mas ele não permite.
 Pede licença aos amigos e diz que vai acompanhá-la até o sanitário. Ela não tem outro jeito que não segui-lo. Ele vai à frente abrindo o caminho na multidão. Ela o segue, ainda resmunga o “minha”, mas vai, começava a gostar daquilo, do jogo, da sedução, do momento.
 Chegam ao banheiro e ele vai para o masculino. O dela tem fila, tem de esperar muito. Quando finalmente, depois de uns vinte minutos, sai do banheiro ele está ali, esperando sorridente:
 - O que houve? Parece que você estava mesmo carregada não?
 -Claro que estava, mas a demora foi porque todas as mulheres parecem ter resolvido ir ao banheiro juntas, no mesmo momento.
 Ele torna a pegar na sua mão e vai, de novo, na frente abrindo alas. De repente ele se vira para ela e puxa-a para si num gesto tão rápido que ela sequer pode esquivar-se. E ali, no meio daquele turbilhão de gente, de pensamentos, de saudades para ela, eles trocam o primeiro beijo de uma relação que duraria para o resto das suas vidas.
Quando chegam junto dos amigos todos sorriem, parecem saber o que esta se passando entre eles.
Uma sensação muito boa a invade. Sente, naquele momento, que tudo tinha acontecido no tempo certo, que ela precisava ter retornado ali, onde vivera tantos momentos bons, para ter a certeza de que o passado tinha ido para o seu lugar, aliás, onde sempre esteve, e que, um grande amor estava mesmo para começar. Deixou-se levar.
Um ano depois deste encontro mudou-se para São Paulo. Está feliz. Vai muitas vezes ao Brahma, já não chora de qualquer lembrança, agora se lembra apenas de viver, viver a vida e agradecer a Deus por ter voltado a esta cidade e ter ido ao Brahma, local onde, por duas vezes, viveu e ainda vive, um grande e imenso amor.


S A Ú D E

domingo, 12 de agosto de 2012

Isto lhe apetece?


Acorda sozinha, o telefone toca muitas vêzes, olha pelo visor e não reconhece  o número e não atende, também, quem estaria lhe ligando as sete da manhã em um sábado? Um número desconhecido, possivelmente um engano, engano que a fez despertar e  ver a sua imensa, intensa e grandiosa solidão.
O computador  é o seu companheiro de cama, é com ele e com os livros que divide a cama de casal; há também a caixinha que guarda os pen drivers, llenos de  seus estudos, devaneios, fotos, sonhos.  Como ja não vai conseguir mesmo dormir mais, aliás, não tem hábito de fazê-lo depois de sete, sempre acorda entre seis e seis e meia,  vai estudar ou escrever, suas duas válvulas de escape  há muitos e muitos anos. Gosta dos dois, mas atualmente prefere  ler, porque os seus escritos não andam bem, as coisas que lhe passam na alma não podem ser divulgadas. Não quer escrever problemas e nem  tristezas, sempre achou que  deveria escrever coisas alegres, ainda que fazendo parte das suas tristezas e história de vida, mas que conseguissem, com muito humor,  fazer com que as pessoas  ficassem alegres e acreditassem nos seus sonhos. Acontece que as suas tristezas a sua história de vida já não tem mesmo graça e ela parece ter envelhecido e esquecido um pouco dos sonhos e do seu bom humor para comentar  as suas derrotas, as suas desventuras, os seus fracassos e  até mesmo as suas  vitórias.
Não está bem, e, por isso mesmo resolve que o melhor é ler. Mas ler o que? Livros técnicos ligados a sua área  científica? Não, não aguenta mais,  precisa mudar o  rumo, esquecer de trabalho, quer ler coisas leves, coisas que  sejam apreendidas rapidamente, nada que  faça com que ela tenha de reler,  ao menos cinco vezes, uma só pagina. Tenta  procurar nos seus alfarrabios alguma leitura, mas não encontra nada que lhe apeteça. Com a palavra lembra de amigos, o que faz com que uma pessoa troque  “agradar” por “apetecer”? Fica com esta pergunta lhe martelando.  Agradar é uma palavra tão bonita, tão sugestiva, tão cheia de amor e de melodia. Por que trocá-la por apetecer que é tão agressiva, o “p” no meio dela já dá o tom do agresivo, do obrigatório do  quase “pornofônico”. Apetecer! Coisinha feia. Tenta  conjugar o verbo, talvez em algum tempo diferente do infinitivo possa  apaziguar  o som, e segue:  eu apeteço, tu apeteces,  ele apetece. Não, não pode ser assim, este verbo  não pode ser conjugado assim. Eu apeteço: eu apeteço o que? Apeteço a alguém. Já não lembra bem como se diz de um verbo que tem de ter um pronome que lhe siga,  ou que o anteceda, para que ele possa ter sentido; deve ser  reflexivo. Pensa ela:   então o verbo apetecer tem de estar acompanhado de alguma coisa, ele não sobrevive  sozinho.  Com o verbo agradar você pode dizer eu agrado à alguém, mas com apetecer fica demasiado feio dizer “eu apeteço à alguém”, puta que pariu! Isto é mesmo um tiro no saco, e já ninguem se aptece de ler uma zorra desta e nem da própria pessoa que se diz apetecer. 
O que fazer então para dizer alguma coisa com este verbo tão agressivo que não pode ser conjugado na primeira pessoa do indicativo? Vejamos bem. Eu apeteço a João:  O que quero dizer? João me quer, João tem vontade de “ me comer”?  Se eu disser, eu agrado que conotações isto pode ter? Vejam bem a diferença: Eu agrado, pode significar: eu sou  interessante e, portanto, agrado ao olhar das pessoas, ao seu “paladar”, aos seus sentimentos. Também posso dizer  eu agrado ao José, ao Mario, enfim,a qualquer um. Eles podem me desejar. Outrossim, posso agradar alguém no sentido de  dar um presente, um carinho,  uma emoção, enfim,  o verbo agradar pode ser tudo: galanteador, doador, amoroso. Pode, ou não, ser reflexivo, porque a ação de agradar pode recair exatamente  na minha pessoa,  eu posso me agradar em fazer isto ou aquilo por mim mesmo ou por alguém.  Apetecer não, apetece tem sempre de ser reflexivo, não dá para conjugá-lo diferentemente. Verbozinho pernóstico, para  a gente poder usá-lo tem que ficar com a “boca cheia de ovo”, dar entonações  germanicas,   metidas,  a mim me aptece ir à praia: depois de tudo isto é melhor não ir, porque a gente já se cansou só de exprimir a nossa vontade e a praia,  que, por certo, não  estará, sequer, receptiva. E quando ele é passado ou será um futuro que não vai acontecer?  A mim apetecia-me ir a praia. Isto é o que?  Voce queria ir e não foi ou você ainda quer ir, está pensando em ir?  O Melhor uso desta palavra é na negativa, porque quando o verbo apetecer é assim aplicado você pode notar, inclusive na sonoridade, que ele é um  verbo  de cariz agressivo, nasce agressivo e morre agressivo. “Não me apetece”! Coisa dura, agressiva, mas não deixa qualquer dúvida em relação ao que se quer expressar, não quero e pronto, não me encha mais o saco!
Pois é, vou parar por aqui, não quero correr riscos de falar tanto de apetecer, sem apetecer à ninguém, e na altura ficar “desapetecida”. Duro não é?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A prova oral do concurso


Em 1988 fiz o concurso para Juiz do Trabalho Substituto da Quinta Região que, à época, abrangia o Estado da Bahia e Sergipe. Era mais um concurso que estava fazendo, porque este não foi o primeiro e nem seria o último, afinal, o que eu precisava era mesmo passar num concurso, uma vez que, a advocacia estava difícil, e o escritório meu e do meu companheiro não rendia o suficiente para que nós dois pudéssemos viver do que se qanhava ali, embora ele tivesse outras atividades. Bom o certo é que fiz o concurso, no mesmo ano em que fiz o de Auditor Jurídico do Tribunal de Contas, penso que também o de Procurador do Estado. Anteriormente tinha feito o de Delegado Federal, no qual passei em todas as etapas e fui reprovada, acreditem!  No psicoteste, oportunidade em que soube que era “inapta para o serviço”, o que nunca me saiu da cabeça.  O que eles consideravam inapta para o serviço, nunca soube eu, ainda que tivesse pedido explicações recebendo uma lacônica resposta de que “o resultado do teste é privativo do órgão”, ao que respondi que, por isso mesmo, “o Órgão, que fora analisado era eu e que deveria saber o que se passava com ele, muito mais privativo meu de que deles”.
Enfim: a discussão não foi adiante porque o meu companheiro não deixou, sob o argumento de que eu estava fazendo outros concursos e que esta polemica poderia me prejudicar. Parei de questionar e olhe que escrevi até para o Ministro da Justiça, um que tinha no final o nome de Lira, se bem me lembro, e era de Pernambuco, mas confesso que fiquei indignada. Então eu era inapta e não sabia o motivo. Bom o certo é que, no mesmo ano de 1988, eu fui aprovada no Concurso para Auditor Jurídico do Tribunal de Contas do Estado da Bahia e estava passando no de Procurador do Estado, até o momento em que, na prova de direito do trabalho, perguntaram algo sobre dicotomia no direito do trabalho, se não foi assim, foi algo semelhante e eu que não sabia a resposta, e sabendo perfeitamente o resultado disto, coloquei na prova que nunca tinha ouvido falar daquilo, o que era realmente verdade. Claro que neste concurso eu dancei feio, embora, no somatório dos pontos, tenha alcançado valor maior de que muitos que foram aprovados. 
Isto agora não vem ao caso, porque estou mesmo a falar do concurso para Juiz do Trabalho, em que logrei aprovação à duras penas, senão vejamos:
Fiz a primeira prova, aquela geral com não sei quantas mil matérias e de múltipla escolha. Consegui a aprovação e fui fazer a segunda prova: cinco questões discursivas (dissertativas) sobre Direito do Trabalho, Direito Processual do Trabalho, Direito Civil- Parte geral e Obrigações, e já não me lembro, acreditem, qual a outra prova, acho que Direito Processual Civil. O certo é que passei desta fase, graças ao Ato Jurídico e ao livro do Dr. Orlando Gomes. Aí veio a terceira fase, a da sentença; acreditem se quiserem, nunca advoguei na área trabalhista, fui a uma única audiência naquele fórum e pasmem, para Embargos de Terceiros, que nem eu e nem a julgadora sabíamos bem o motivo e nem o que seria feito, resultado, encerrou-se ali mesmo. A prova totalmente documental: discutia-se a propriedade do bem que garantia a penhora, nada, além disto, mas alguém, certamente para escapar de mais um julgamento, decidiu que deveria haver uma audiência e pronto, e lá vamos nós, advogados e juiz com caras de bestas.
Pois é, sem nunca ter feito audiências na Justiça do Trabalho, sem conhecer a pratica da coisa, sem nunca ter visto decisões trabalhistas, a não ser, quando duas semanas antes do concurso tomei emprestada a pasta de decisões da minha vizinha de escritório, que trabalhava com ações, na sua grande maioria, de petroleiros embarcados. Li muitas delas e observando toda a formalidade da decisão, relatório, fundamentação, conclusão me preparei para a tão temida prova. Li tantas decisões que, quando da prova, no momento em que vi o caso, tive uma crise nervosa, pois naquele momento tive a consciência plena de que passaria no concurso: pois não é que realmente caiu na prova uma questão sobre trabalhadores do petróleo!
Venci esta etapa, mas aí vinha o que para mim era o mais difícil, a prova oral. Odeio falar em público, continuo com este trauma, não gosto mesmo, não fico a vontade, tremo dos pés a cabeça, etc. etc., mas a porra da prova tinha de ser feita, do contrário; eliminação do concurso e eu não podia me dar ao luxo de colocar tudo a perder agora. E lá vou eu no dia designado para sortear o ponto. Cada três candidatos  tinha um ponto para dissertar. Ficamos eu e mais dois, um candidato do Rio de Janeiro e uma da Bahia, que era funcionária da justiça. O ponto tinha Direito das Obrigações, uma questão de direito do trabalho e uma de direito processual do trabalho, eu penso que era isto.  A prova era no dia seguinte ao sorteio do ponto, se bem me lembro, ou dois dias depois, já lá se vão os anos. Li Pontes de Miranda e Orlando Gomes como nunca, aquilo tinha de ficar na minha cabeça de qualquer maneira. Princípios processuais do direito do trabalho e lá se vai.
Chego cedo à prova, candidatos encerrados numa sala, os dois outros lendo ainda, tentando o que já não mais podia ser tentado: naquela tensão, naquele momento, nada que fosse lido seria aproveitado, o que já fora captado ficava o que estava sendo lido naquele momento não faria mais nenhuma diferença, isto na minha concepção. De repente vejo que eles estão falando de uma coisa que eu não estudei,  e eu pergunto:
“- O que é isto que vocês estão falando?”
Eles, incrédulos, olham para mim e dizem: -“ Isto é assunto do nosso ponto sorteado”.
- “No de vocês, porque no meu não tem isto não”.
 Os dois param e me olham:
- “Esmeralda, você tá doida, então nós três temos o mesmo ponto e você diz que no seu não tem este item!”
 Bato pé firme dizendo que não. Quem estava certo? Claro que eles dois, a maioria vence, e eu me vi ali encolhida, lenhada, a minha vontade era largar tudo e ir embora. Comecei a tremer, a me desesperar, disse que ia embora, mas uma funcionaria, que fazia parte da comissão do concurso, não deixou e ficou ali comigo o tempo inteiro, me dando força, até que eu ouvi o meu nome sendo chamado. Entrei naquela sala do antigo tribunal como se fosse para a forca; não sabia como me portar. Primeiro tinha gente na sala, a prova era pública, segundo ia mesmo ficar ali diante daquelas feras todas, que iriam me trucidar mesmo. Resolvi começar a prova pelo final e foi o que fiz, tomei toda a coragem do mundo e sabendo que minha voz estava completamente diferente demonstrando todo o nervosismo que se apoderou de mim, disse que gostaria de começar pelo último ponto, e foi o que fiz: as ações mandamentais, falei o que foi possível e o que me lembrei; no estado emocional em que estava já não obedecia qualquer roteiro. Lembro-me de ouvir batidas fortes em madeira e  descobri que era eu mesma que estava dando pontapés  no púlpito pelo lado de dentro, pensem aí a merda! Bom, falei sobre os dois primeiros pontos e depois, não sei onde arrumei forças, disse dirigindo-me ao júri que não iria responder à terceira questão porque eu não tinha condições. Ai veio o que menos esperava:
- “Nós já sabemos o que aconteceu, mas temos certeza que a senhora está preparada para responder as questões, pois a doutora esta passando num concurso, que não é fácil e tem, pois, capacidade de responder sobre o ponto”.
Ato contínuo, começaram a fazer perguntas.   Na banca o catedrático “Pinho Pedreira”, Um juiz, e mais o representante da OAB, o fiel da balança. Rapaz eu nunca tremi tanto, choviam perguntas de lá e de cá, imagine que o nervoso não me deixou responder o que distinguia a Justiça do Trabalho dos demais ramos da Justiça, pergunta feita pelo Doutor Pinho Pedreira, que já começava a ficar mal humorado. Gente acredite em Deus:  deu um branco total, e a reposta simples: a presença da representação classista, apenas isto, e eu não me lembrava de maneira alguma.  Daí para frente eu não sei mesmo o que aconteceu, pois o Dr. Pinho Pedreira acho que se zangou e mandou ver, me deu uma aula de direito do trabalho e de representação classista, eu fiquei ali ouvindo, na verdade achando ótima aquela demonstração de competência e saber, que também servia para gastar o “meu tempo” de prova. Quando o Dr. Pinho se deu por satisfeito, mais perguntas dos outros examinadores, tudo sobre o ponto que eu não havia estudado, e aí eu comecei a jogar, já tava na merda mesmo, portanto daqui para frente só lucro, aí, quando o “da balança” me perguntou alguma coisa eu me dirigi a ele e lhe questionei:
-“O senhor não esta satisfeito com a aula do Dr. Pinho, que já respondeu esta pergunta?” e fui levando assim até que o presidente da comissão disse que o júri estava satisfeito e dispensava a candidata.
Olhe, eu não sei bem como consegui sair dali, mas a sorte estava lançada e o jeito era esperar, mas aí veio a primeira levantada de ânimo. Uma Juíza mais antiga tinha assistido a prova e chegou junto a mim, diga-se de passagem que eu nunca tinha falado com aquela senhora antes, e me disse:
-“Não se preocupe, você, mesmo não respondendo sobre o terceiro ponto, foi muito melhor de que muitos que já se apresentaram aqui, tenha a certeza”.
Bom, isto me serviu mesmo de consolo.
Logo em seguida o “da balança” chegou junto a mim e pergunta:
- “Qual o seu Estado”?  E eu respondo sem pestanejar: - “Normal”.
 O homem olhou para mim e deu uma crise de riso, ele ria tanto que mal conseguia falar, e eu ali olhando com a cara de besta aquele riso que eu não conseguia entender.
Quando ele conseguiu controlar o riso vira-se para mim e diz:
 “- Doutora, eu estou perguntando de onde a senhora vem, qual o seu Estado?”
  Aí foi a minha hora de cair na risada: eu olhava para ele e ria, já estava vermelha de rir e de vergonha, mas consegui responder: “Bahia”.
 A pergunta do examinador tinha sentido porque ali estavam muitos candidatos de outros Estados, mas eu só associei ao estado emocional.
Pois é, tirei cinco, a menor nota que tive em todo o concurso e a mínima para a classificação, menos que isto seria eliminada. Passei no concurso, aumentei a classificação que despencara, de 14ª lugar para 23º, com a prova de título, ficando classificada em 21º lugar. Daí para os exames médicos, período em que houve um bochicho que alguém teria perdido o psicoteste: adivinhem quem os demais candidatos pensaram que fosse? Eu claro! Todavia enganei todos, não fui eu não, eu consegui passar em tudo e pouco tempo depois fui chamada, tomando posse em 22 de fevereiro de 1989, mas o exercício da judicatura será motivo de outras conversas.
Entretanto,  não posso deixar de dizer uma coisa, a minha prova foi assistida por um grande e fiel amigo que me acompanha desde o tempo do colégio da Bahia, onde fizemos o curso cientifico, ele um grande advogado, com um único defeito de ser "petista". Ele, em 1993, passados, pois,5 anos da minha prova, me deu um presente: um livro  de Américo Plá Rodrigues. - Princípios de Direito do Trabalho  com a dedicatória:  " Dra. Esmeralda. Quando chegar  ao final desde livro verá porque a lembrança: é na distância, no tempo e no espaço, que se confirmam o afeto e o apreço" 28.08.1993,São Paulo".  Só tenho mesmo é que agradecer.