terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lamparinas


Sim, a gente ia entrando na casinha, digo casinha porque esta especifica casa de minha avó Antonieta parecia uma casa de bonecas. Tinha, salvo engano, um quarto, uma sala comprida, um banheiro a cozinha e uma área.  Do lado esquerdo da sala, onde ficava o quarto e o banheiro, entre um e outro, havia um mínimo hall e ali, uma mesinha mínima com um pequeno nicho com santos e a “lamparina”, que, diuturnamente, permanecia acesa, como para iluminar aquele espaço e todos dentro daquela casa.
Feira da Ladra em Lisboa
“Lamparina”! Sabem o que é? Lógico que todo mundo já ligou o nome à luz. Sim produz claridade mesmo. É como se fosse um candeeiro mínimo. Você coloca óleo combustível num recipiente, mergulha nele um cordão e faz passar uma das extremidades do cordão por um orifício em uma madeira ou cortiça,  e então  põe fogo neste cordão que vai queimado vagarosamente.
A da casa de minha vó queimava mesmo muito lentamente, era bem pequenininha, ficava mesmo, acho eu, num copo. Antigamente vendia-se um artefato de madeira ou de cortiça, não me lembro bem; que era adequado para isto, para que o pavio fosse colocado e ficasse a beira d`água.
Lembro-me perfeitamente da claridade que era produzida pela lamparina, tinha a nítida impressão que ela trocava de cores, as vezes apresentava-se bem amarela, outras vezes vermelha, como sou louca, pode ser que  tenha visto algum raio azul saindo dali; lógico que tinha de ser assim, a lamparina  parecia uma bailarina movimentando-se  ao sabor do vento e deixando aparecer as cores da sua bela saia., mas o fato é que aquele espaço da casa ficava sempre iluminado, servia, inclusive, de guia para minha tia, que fazia muito  xixi à noite, ir diretamente ao banheiro sem se bater em nada e acordar os demais “dormidores” da habitação.
Candeeiro - Feira da Ladra  em Lisboa
Lá em casa, na minha própria casa, salvo engano também teve lamparinas, parecia uma tradição à época, devia ser mais barata que velas, mais barata e mais duradoira, no entanto, em determinada época da nossa história, a lamparina nossa era o velho candeeiro a álcool ou a gás.  Eu os achava lindos, com aquela “manga” transparente. Tínhamos uns três. Quanto maior a manga, mas iluminação e mais gasto com o combustível. Até hoje não entendo porque aquilo era chamado de manga.  O grande problema destes candeeiros lá de casa é quando o combustível, que já não lembro o que era, se gás (querosene) mesmo ou óleo, por algum motivo, embaçava, ou melhor, como minha mãe dizia “esfumaçava” estas mangas. Puta merda! Quem tinha de lavar e deixar tudo transparente? Resposta: Eu, e aí de mim se algo acontecesse com a tal “manga”! Não tinha perdão: porrada certa, aliás esta linguagem sempre foi a predileta de minha mãe em relação a mim e ao meu irmão Tininho.  Várias cores de base existiam, ou seja,   o bojo onde  o combustível era colocado podia ser colorido, mas a “manga” tinha de ser invariavelmente de vidro transparente. A zorra é que este vidro era fininho e qualquer pancadinha, por mais leve que fosse, se partia.  Os mais sofisticados tinham uma engrenagem, que permitia que você rodando a peça que ficava na lateral (direita), fizesse  subir o “pavio”.
Numa casa grande tinha de ter vários candeeiros, até porque eram eles que iluminavam tudo mesmo, pois não tínhamos, à época, energia.  Em determinado tempo, acho que  por quebramos as “mangas”, improvisávamos  candeeiros com  frascos de vidro, lembro-me que estes pequenos ornamentos  eram  chamados de “fifó”, (lampiões, bibianos) não me perguntem  onde acharam este nome, mas ele é tão feio quanto o próprio artefato. Metíamos o combustível, o tal do pano (pavio) e improvisávamos uma tampa com um furo por onde o pano teria de passar; algumas pessoas mais abastadas adquiriam este condutor (que parecia um barbante bem grosso), nós, mais lenhados, tínhamos de improvisar tudo, e lá se iam os panos velhos e mais grossos, que eram trançados para não se desmancharem e colocados dentro do frasco.
O “fifó”, claro, não tinha “manga” e, portanto, o deslocamento com ele era uma “fatalidade”; fatalidade porque se estivéssemos em algum lugar perigoso, em que pudéssemos cair, escorregar, etc., estávamos fudidos, porque  ele se apagava  e a pessoa  caia e se arrebentava toda. Tínhamos de andar com o "fifó" e um fósforo para as emergências. Eu ficava muito puta da vida quando tinha de ir ao banheiro da minha velha casa em Camaçari. A zorra do banheiro, se é que aquilo se podia chamar disto, era um quartinho em que existia uma base e um buraco e era ali que você satisfazia as suas necessidades, eu morria de medo, sempre achei que daquele buraco ia sair algum bicho e entrar em mim, acho que até hoje tenho prisão de ventre por isso, era uma questão de defesa. Rapaz quando eu tava ali no meio da situação e a porra do “fifó” apagava, não nego não: era mesmo um deus nos acuda, eu fazia um pequeno escândalo, já cheguei a sair correndo do banheiro ainda com a porcaria pendurada, sem saber se entrava ou saia, a merda tomava o mesmo susto que eu e ficava ali sem saber para onde ir, se se recolhia novamente, ou se seguia o seu próprio destino que era abandonar o meu corpo.
Não riam não! O caso era sério mesmo, pensem aí, uma criatura de sete ou oito anos passando por uma situação desta, quanto pior em um lugar onde diziam que tinha um rapaz que, em noite de lua, virava lobisomem.
Feira da Ladra - Lisboa
Bom, o fato é que tínhamos muitos “fifós”. Quando comecei, efetivamente, a ter gosto pela leitura, eram a minha salvação, mesmo no tempo em que, apesar de já termos energia em casa, tínhamos que a eles recorrer, pois nem sempre havia dinheiro para pagar as contas de luz e voltávamos ao nosso velho candeeiro de “manga” e aos maltrapilhos “fifós” que, tal qual nós, deviam ter uma inveja danada  daquele irmão imponente, e olhe que os de lá de casa nunca foram tão retados. Já vi candeeiros lindos, com cada “manga” trabalhada que era uma coisa. Nós tínhamos inveja de quem tinha estes candeeiros trabalhados, isto era sinal de opulência, assim, nós e os “fifós” tínhamos mesmo algo em comum, não queríamos aquela vida de pobreza, de “fifós” por nós mesmo fabricados, que em algumas oportunidades ainda queimavam nossas mãos, quando queríamos proteger as chamas do vento que insistia em levá-las para o lado contrário ao que queríamos e terminava por apagá-las.
Pois é, preferia eu  a lamparina da casa de minha “vó nieta”, penso que ela me dava uma paz imensa. É isso mesmo, acho que gostava tanto da lamparina, apesar de não gostar do cheiro, por causa daquela luz que ela produzia, da penumbra que muitas vezes  presenciou o meu choro, a minha alegria, a minha euforia  “alcoólica” ao lado dos meus adoráveis tios”. A lamparina da casa da minha vó  não era para iluminar a casa, e sim a vida, por isso mesmo, ela foi  atemporal, tanto que  já eu  uma “advogada”, “mater familia”, “responsável”, ainda  muitas vêzes  senti o cheiro do óleo e fui  iluminada pela luz da lamparina da casa da minha avó.
Minha avó se foi, com ela a lamparina, mas a luz das duas ainda segue, em muitas oportunidades, iluminando a todos que aprenderam a gostar da segunda por respeito à primeira, que nunca  deixou de “expandir” a luz, mesmo quando, na cadeira de diretor de cinema, ficava sentadinha no seu canto sossegada e calada expressando-se tão somente com o “olhar”, que soube refletir, como as suas grandes mãos, o amor que ela não sabia dar com gestos de carinho, embora eu fosse privilegiada em tudo, porque para mim e, especialmente para mim, até enquanto ela pode, fez: “rim com batatinhas”, “lombo com graxa”; “quiabada” “vatapá” e tantas outras coisas que ela sabia que eu adorava, e mais que tudo isto; “a minha bela e exclusiva colcha de fuxico com barras verdes da cor de esmeralda”.
Vó, onde você tiver, obrigada por tudo, pela luz, pela colcha, pelos mimos.Você e eu sabemos o quanto, no silêncio de ambas, nos amamos e nos respeitamos, sinto-me lisonjeada por isto, porque sei o quanto, da sua maneira, você vibrou com cada vitória desta sua neta, que era  uma espécie de “ovelha negra” mas na qual você sempre confiou e hoje sei, orgulhou-se. Um beijão e que todas as lamparinas estejam acesas onde a senhora estiver.