domingo, 12 de agosto de 2012

Isto lhe apetece?


Acorda sozinha, o telefone toca muitas vêzes, olha pelo visor e não reconhece  o número e não atende, também, quem estaria lhe ligando as sete da manhã em um sábado? Um número desconhecido, possivelmente um engano, engano que a fez despertar e  ver a sua imensa, intensa e grandiosa solidão.
O computador  é o seu companheiro de cama, é com ele e com os livros que divide a cama de casal; há também a caixinha que guarda os pen drivers, llenos de  seus estudos, devaneios, fotos, sonhos.  Como ja não vai conseguir mesmo dormir mais, aliás, não tem hábito de fazê-lo depois de sete, sempre acorda entre seis e seis e meia,  vai estudar ou escrever, suas duas válvulas de escape  há muitos e muitos anos. Gosta dos dois, mas atualmente prefere  ler, porque os seus escritos não andam bem, as coisas que lhe passam na alma não podem ser divulgadas. Não quer escrever problemas e nem  tristezas, sempre achou que  deveria escrever coisas alegres, ainda que fazendo parte das suas tristezas e história de vida, mas que conseguissem, com muito humor,  fazer com que as pessoas  ficassem alegres e acreditassem nos seus sonhos. Acontece que as suas tristezas a sua história de vida já não tem mesmo graça e ela parece ter envelhecido e esquecido um pouco dos sonhos e do seu bom humor para comentar  as suas derrotas, as suas desventuras, os seus fracassos e  até mesmo as suas  vitórias.
Não está bem, e, por isso mesmo resolve que o melhor é ler. Mas ler o que? Livros técnicos ligados a sua área  científica? Não, não aguenta mais,  precisa mudar o  rumo, esquecer de trabalho, quer ler coisas leves, coisas que  sejam apreendidas rapidamente, nada que  faça com que ela tenha de reler,  ao menos cinco vezes, uma só pagina. Tenta  procurar nos seus alfarrabios alguma leitura, mas não encontra nada que lhe apeteça. Com a palavra lembra de amigos, o que faz com que uma pessoa troque  “agradar” por “apetecer”? Fica com esta pergunta lhe martelando.  Agradar é uma palavra tão bonita, tão sugestiva, tão cheia de amor e de melodia. Por que trocá-la por apetecer que é tão agressiva, o “p” no meio dela já dá o tom do agresivo, do obrigatório do  quase “pornofônico”. Apetecer! Coisinha feia. Tenta  conjugar o verbo, talvez em algum tempo diferente do infinitivo possa  apaziguar  o som, e segue:  eu apeteço, tu apeteces,  ele apetece. Não, não pode ser assim, este verbo  não pode ser conjugado assim. Eu apeteço: eu apeteço o que? Apeteço a alguém. Já não lembra bem como se diz de um verbo que tem de ter um pronome que lhe siga,  ou que o anteceda, para que ele possa ter sentido; deve ser  reflexivo. Pensa ela:   então o verbo apetecer tem de estar acompanhado de alguma coisa, ele não sobrevive  sozinho.  Com o verbo agradar você pode dizer eu agrado à alguém, mas com apetecer fica demasiado feio dizer “eu apeteço à alguém”, puta que pariu! Isto é mesmo um tiro no saco, e já ninguem se aptece de ler uma zorra desta e nem da própria pessoa que se diz apetecer. 
O que fazer então para dizer alguma coisa com este verbo tão agressivo que não pode ser conjugado na primeira pessoa do indicativo? Vejamos bem. Eu apeteço a João:  O que quero dizer? João me quer, João tem vontade de “ me comer”?  Se eu disser, eu agrado que conotações isto pode ter? Vejam bem a diferença: Eu agrado, pode significar: eu sou  interessante e, portanto, agrado ao olhar das pessoas, ao seu “paladar”, aos seus sentimentos. Também posso dizer  eu agrado ao José, ao Mario, enfim,a qualquer um. Eles podem me desejar. Outrossim, posso agradar alguém no sentido de  dar um presente, um carinho,  uma emoção, enfim,  o verbo agradar pode ser tudo: galanteador, doador, amoroso. Pode, ou não, ser reflexivo, porque a ação de agradar pode recair exatamente  na minha pessoa,  eu posso me agradar em fazer isto ou aquilo por mim mesmo ou por alguém.  Apetecer não, apetece tem sempre de ser reflexivo, não dá para conjugá-lo diferentemente. Verbozinho pernóstico, para  a gente poder usá-lo tem que ficar com a “boca cheia de ovo”, dar entonações  germanicas,   metidas,  a mim me aptece ir à praia: depois de tudo isto é melhor não ir, porque a gente já se cansou só de exprimir a nossa vontade e a praia,  que, por certo, não  estará, sequer, receptiva. E quando ele é passado ou será um futuro que não vai acontecer?  A mim apetecia-me ir a praia. Isto é o que?  Voce queria ir e não foi ou você ainda quer ir, está pensando em ir?  O Melhor uso desta palavra é na negativa, porque quando o verbo apetecer é assim aplicado você pode notar, inclusive na sonoridade, que ele é um  verbo  de cariz agressivo, nasce agressivo e morre agressivo. “Não me apetece”! Coisa dura, agressiva, mas não deixa qualquer dúvida em relação ao que se quer expressar, não quero e pronto, não me encha mais o saco!
Pois é, vou parar por aqui, não quero correr riscos de falar tanto de apetecer, sem apetecer à ninguém, e na altura ficar “desapetecida”. Duro não é?