quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Você gosta de cachorro?


Estou desconfiada que em Maputo se come cachorro. Digo isto porque tenho andado muito a pé nesta cidade, não só pela falta de transporte público decente, como por falta de dinheiro mesmo, aliado a um terceiro motivo: conhecer realmente a cidade, o que só acontece se andarmos pelas suas ruas.

Pois é, desde o dia que aqui cheguei, dia 23 de julho, se muito vi foi seis a sete cachorros nas ruas, mas estes estavam devidamente encoleirados e a passear nas ruas com os seus donos.

Será que aqui se come cachorro? Não ia estranhar nada, porque vi na televisão, que em uma outra Província, não prestei atenção ao nome, se come rato e que este comércio está em franca ascensão. A reportagem mostrava os bichos estirados em um pano no chão, e as pessoas, tranquilamente, comprando aquelas coisas feias e esturricadas.

Bom, mas o fato é que já tenho quase trinta dias em Maputo e não vejo cachorro na rua. Na minha cidade, Salvador, há uma quantidade imensa de cachorros soltos na rua, que disputam com os mendigos os lixos. Aqui os menos favorecidos não tem esta concorrência, eles revolvem o lixo sem sofrer qualquer tipo de incomodo, seja por parte de animais, seja por parte de policiais.

Também não vejo gatos, e olhe que já andei por este Maputo quase todo. Ando a pé como já disse; melhor que tomar “chapas”.

Sábado, por exemplo, decidi que ia conhecer a Avenida Eduardo Mondlane, só que escolhi o lado errado dela. Ao invés de ir para o lado em que ela termina na Julio Nyerere, acho eu, fui para o lado que vai dar na Baixa. Andei feito uma filha da puta, quanto pior que o sapato era um que me deixa de calos nos pés, mas como já tava na chuva, não hesitei em me molhar mesmo, até porque, se eu chegasse ao hotel, já não sairia mais, alem do fato de estar a se aproximar a data da volta.

Desci toda a avenida que tem três estágios completamente diferentes: A parte chique, que vai da Mesquita para o lado da Júlio Nyerere. A da Mesquita até a altura da Felipe Samuel Magaya e, daí em diante o negócio pega. A avenida fica muito feia, cheia de buracos, muitas pessoas vendendo coisas na rua, muita gente andando, sujeira, muitas ruas esburacadas e com lixo, muitos prédios antigos e sujos, mas sem cachorros.

Cheguei até uma rua onde tem um palácio de sua Alteza alguma coisa tal como Aga Khan e dali voltei por uma rua de dentro alcançando a Avenida da Guerra Popular, nunca vi um nome tão bem aplicado a uma Avenida. Aqui é realmente uma guerra para lá de popular. No final dessa avenida há o terminal das chapas. Pense ai! É como se fosse um terminal na frente da Feira de São Joaquim, ou naquele ponto de ônibus que fica exatamente do outro lado da feira, na frente da Igreja dos Órfãos de São Joaquim, lembram?(para quem conhece Salvador) Não tem qualquer organização. Um aglomerado de gente, de carros, de vendedores que colocam as suas mercadorias no chão. Vende-se de tudo, de feijão, verduras a sapatos, roupas, utensílios, etc. Ha um fato interessante na venda dos sapatos, é que eles podem já ter sido usados. Pior que isto, as pessoas compram estes sapatos: ao menos, vi gente experimentando. Toda a mercadoria está exposta e sempre há o risco de ser pisada, cuspida, sei lá mais o que. Empurra, empurra para entrar nas chapas. Onde deveria caber, no máximo, 20 pessoas muito mal acomodadas, entram 40 ou mais. Nem me imagino dentro de um troço daqueles com pessoas sentadas no meu colo, porque penso que é por aí. Entretanto, não vi cachorro, vi gente mal encarada, mal vestida, suja, mal cheirosa, todavia, cachorro não.

Continuo invocada com isto, mas não tenho coragem de perguntar o motivo de não ver cachorro na rua. Será que existe alguma lei proibindo isto? Isto é; que as pessoas deixem seus cães nas ruas?

Ah! Neste dia também fui quase agredida por uma autoridade (segurança de um banco). Há no banco de Moçambique um mural lindo, toma uma parte da parede de frente do banco, onde não tem porta alguma, não se vê sequer a entrada do banco, enfim, o painel fica em local em que não há qualquer risco de se entrar ou se ver alguma coisa no interior do Banco, como se o Banco não fosse quase que um local público, pois se presume, pelo menos é o que acontece no Brasil e em todos os países que conheço, nos quais qualquer pessoa pode adentrar ás agência dos Bancos. Bom, mais o fato é que tirei uma foto do painel, ato contínuo,começei a ouvir um homem a gritar: “desfaça”, “desfaça”. Eu, sem entender nada, continuei a caminhar em direção ao homem, que continuava a gritar e a se encaminhar para mim com uma cara de muito poucos amigos e a gritar “desfaça”. Quando ele chegou junto a mim e quase toma a câmera à força, eu lhe disse: Boa Tarde em primeiro lugar, depois o Sr me peça o favor de fazer o que o Sr quer. O homem parou, olhou para mim com cara de mau, mas disse-me. Por favor, desfaça porque não é permitido tirar fotos. Eu perguntei a ele onde estava a placa proibitiva e ele disse que não tinha, mas que não era permitido e pronto. Apaguei e mostrei a ele que o tinha feito e disse-lhe: é uma grande pena porque este painel é lindo e poderia ser conhecido por muitas pessoas, mas já que a arte Moçambicana não pode ser divulgada, tudo bem. Dá para crer? O cão era mesmo terrível e rosnava muito alto e num um péssimo tom.

Pois é, mesmo assim, continuei sem ver cachorros, pelos menos aqueles que são mesmo bichos de quatro pés, mamíferos da espécie dos “Cani familiaris”, do gênero canídeos, porque outros tipos de cães, tanto os que ladram e mordem, quanto os que ladram e não mordem, a gente encontra em muitos lugares, seja em Maputo, seja no Brasil, seja em Portugal, seja alhures, muitas vezes travestidos de “homo sapiens”, como vocês bem podem perceber.

Uma coisa é certa, cachorros em Maputo, andando na rua, não há. Se os comem ou não, não posso garantir, mas, uma coisa é certa: neste aspecto Maputo supera em muito Lisboa, pelo menos, aqui não temos que estar nos desviando, como lá, o tempo todo, da prova cabal de que ali não se come cachorro, mas que eles existem em larga escala e, sabe-mo-lo pelo olfato e quase pelo tato, pois as necessidades destes animais são feitas nas ruas, portanto, sente-se o cheiro e, se dermos o azar de falhar o sentido da visão, o sentido do tato, com certeza, vai funcionar, pois teremos o desprazer de ter o contato físico com os dejetos destes animais de estimação, aliás, fico realmente atônita de ver os proprietários dos bichos com esta obrigação cotidiana de levá-los para as casas de banhos públicas dos canídeos lusitanos, que são as maravilhosas ruas de Lisboa, não escapando nenhuma: sejam as das ruas do Restelo, da Avenida da Liberdade, de Alvalade, da Estrela, da Amadora, Carnaxide, enfim, em Lisboa, como se isto fosse uma coisa educada e normal. Em Lisboa, com certeza, não se come cachorro, mas eles existem e comem como cachorros do primeiro mundo que são, e sujam toda a cidade, o que depõem contra esta pertença ao primeiro mundismo, de que tanto se orgulha o português. Será que não era melhor comer cachorro!



segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma péssima escolha

Fui jantar num restaurante indiano, que também serve comida chinesa. Fica na mesma rua do hotel, aliás, faz esquina com a rua. Como estou cansada de comer atum enlatado, milho enlatado, cenoura enlatada e alface lavado dentro de um saco, com muito vinagre, na pia do banheiro do meu quarto de hotel; resolvi variar.

Nunca gostei de mudanças, isto pode não parecer real para muita gente, mas gosto mesmo é da habitualidade, da rotina, do dia-a-dia, embora me permita, de vez em quando, algumas variações.

Vivi com pessoas que gostavam de variar tanto, que resolveram variar de mim também, mas isto não vem ao caso. Sou fiel a muitas coisas, e não gosto de mudanças, embora tenha tido, ao longo da vida, de passar por elas, muitas delas provocadas por terceiro.

Pronto, divaguei para chegar ao mesmo lugar, o restaurante hibrido: indiano-chines.

Por conhecer um pouco de comida chinesa, porque há muitos restaurantes deles, tanto em Salvador como em Lisboa; viu que chic, sou mesmo uma internacional metida, resolvi comer a comida indiana.

Enquanto esperava a comida, fiquei observando, como sempre, as pessoas que estavam no restaurante. Do meu lado direito havia uma mesa com indianos, cinco homens e umas dez mulheres; as mulheres com idades variadas. Lembrei da novela Caminho das Indias, porque havia Mama Di e muitas outras mamas. As mulheres completamente separadas dos homens, você notava claramente a distinção: homens à direita da mesa, e as mulheres à esquerda.

O que mais me chamou atenção nas indianas é que elas estavam todas com as roupas que apreciam na novela: calças com boca fina e túnicas muita trabalhadas, bordadas de pedrarias, deviam estar comemorando algum aniversário, acho eu. Cada roupa mais bonita de que outra. Os cabelos, Ah que cabelos! Longos, lindos e brilhantes. Todas, invariavelmente, com cabelos além dos ombros. Todas muito bonitas. Como estava quase em frente a elas, tive a oportunidade de bem obervá-las. Falavam baixo, bem comportadas, nao se ouvia sons vindos da mesa, e olhe que tinha mais de 15 pessoas. A Mama Di estava de “sari” de um estampado lindo, embora bem discreto. Somente ela trazia os cabelos presos.

Olhava aquelas mulheres com curiosidade. Primeiro com inveja dos cabelos, que são realmente lindos; segundo com inveja das roupas, algumas muito lindas mesmo, terceiro, e aí já me refiro a todos da mesa, tanto homens, quanto as mulheres, pela maneira de comer. Eles comem tudo com as mãos. Já tinha visto paquistaneses comendo da mesma maneira, quando estive em Barcelona com a promoter, aliás, a única profissional do tipo que conheço; eles colocam um molho de qualquer coisa no prato e molham o pão, que nao é pão, parece um taco mexicano, embora mais fino e estaladiço e comem aquilo como entrada. Não é so isto, tem uma outra coisa mais espessa que eles também introduzem no molho e acompanha a refeição principal. Até então, nada de talhares. De repente vejo o homem que estava na cabeçeira, bem próximo de mim, a comer com uma colher. Estranhei e dei uma olhada para as mesas que estavam ao meu lado ainda vazias, embora prontas para receber os clientes, e vi que os talheres dispostos nelas eram só garfos e colheres. Não havia facas.

Eu já tinha pedido a minha comida e estava a espera, um carril de cabrito com arroz branco. Detalhe, tudo é pago separadamente, pois o cabrito nao tem acompanhamento, como se a gente pudesse comer aquilo sem nada.

Neste momento começaram a chegar os pratos principais da mesa ao lado. Muito arroz e umas cumbucas muito pequeninas. Notei que as cumbuquinhas traziam algo com caldo, não consegui identificar o que era, alguma especie de carril. O certo é que quem não comia com a mão, comia de colher.

Acabaram de comer e vi uma das indianas pedi a uma outra que segurasse uma criança. Que droga! Não sei porque tenho de ficar olhando a vida alheia. Era uma criança com problemas: não tinha movimentos. Não sustentava a cabeça, os braços não dobravam, as pernas também não, ficava babando: um horror! Fiquei deprimida na hora e me perguntando: Por que me queixo da vida? Será que tenho razão de tantas queixas? O que eu faria diante de uma situação daquela? Não nego que as lágrimas cairam, porque eu não consigo mesmo entender qual o motivo que leva Deus a permitir que estas coisas aconteçam. Não adianta as pessoas espiritualizadas me dizerem que isto é carma, que são atitudes de vidas passadas, que são cobradas desta maneira para que a alma se purifique, sei lá mais que tipo de explicação para o inexplicável.

Quem fez errado que se lenhe pagando a sua merda com a própria vida, com a própria pele. Nao venha para cá descontar suas asneiras em quem nada tem a ver com isso. Purificação de alma uma porra! Isto é muito injusto, injusto mesmo.

Minha comida chegou. Provei e não gostei. Uma mistura de muitas especiarias, que termina tirando o sabor da carne. Pedi cabrito lembrem! Sentia gosto de pimenta, de piri-piri, de açafrão, mas não conseguia sentir o sabor da carne. Trouxeram molhos em uma espécie de castiçal com três tigelas: duas delas com molho vermelho e uma com um molho verde. Bom, o molho verde era pimenta verde batida com alguma coisa que a deixava pastosa; o vermelho parecia aquele molho chinês meio doce, e o terceiro era pimenta mesmo, molho de pimenta vermelha.

Não gostei da comida e não repito, mas enquanto disputava o dinheiro e matava a fome, pois só como uma vez por dia aqui em Maputo, sempre à noite, continuava a observar os indianos. Todos, sem exceção, tratavam aquela criança com um grande amor, pelos menos é o que aparentavam Os homens começaram a se reservar segurando-o. Tudo tinha de ser feito com cuidado, talvez, com técnica, pois a cabeça da criança nao podia ficar pendente e sempre tinham que estar llimpando a baba.

Um dos homens, quando o segurou, conversava com ele. A criança dava urros, parecia entender o que aquele homem lhe dizia. Pelo relacionamento dos dois, aquela conversa parecia ser um hábito entre eles.

Olhava aquilo e chorava. Me perguntava se seria eu capaz de suportar uma situação daquela; de brincar com a criança, de tê-la nos braços. Não sei se seria capaz mesmo.

Mesmo com tudo isto, continuei a observar os indianos como um todo. Vi o garçon se aproximar com um balde de inox, um prato com uns rolinhos e algumas tigelas. Pensei que era “deserts” e fiquei olhando atenta para descobrir o que era. Que sobremesa que nada! Era cumbuca para lavar a mão. O que eu pensava ser um doce era uma espécie de lenço pequenino bem dobradinho, que era colocado na água para que eles lavassem as mãos. Tem de ser porque, já que se come tudo com a mão, não seria provável que todos tivessem de ir ao lavabo para lavar as mãos: é melhor  que o  lavabo venha até à mesa daquela maneira peculiar. Parece com aquilo que, nos restaurantes que servem mariscos, lhe dão com água e limão; evidentemente que isto não acontece em barracas de praia e nem nas "cabanas dos joãos" da vida.

Todos lavaram as mãos com aquilo e se foram. Eu ainda fiquei ali comendo aquela comida, que não recomendo, chorando e dando a desculpa ao empregado de que a pimenta era tão forte que me deixou assim, lacrimejante.

Paguei a conta, sem qualquer entusiamo, e voltei para o hotel.

Espero que tudo isto me leve a uma reflexão sobre a vida, sobre o que penso, sobre mim mesma e minha relação com os demais que me circundam: mas nada disto afastará a pergunta que vou continuar a fazer ao de lá de cima: Por que?



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os taxistas de Maputo

Bom, em principio tenho que dizer que andar em Maputo, para mim, é uma aventura. Todos os dias eu renovo a esperança de que vou viver muito, pois, é assim que penso depois que consigo atravessar, e chegar viva do outro lado, as ruas.

Maputo é uma cidade que tem grandes avenidas, a grande maioria delas socialistas nos nomes: Mao Tse Tung; Ho Chi Min; Karl Marx, Engels, Guerra Popular, Eduardo Mondlane, dentre muitas outras, mas completamente dissociais, quando se trata da travessia do proletariado, mortais em potencial

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo na mesma



Sai do arquivo as 12:00hs, porque era sábado dia que funciona até este horário, e resolvi que iria andando porque queria conhecer a Av. Júlio Nyerere. Sai da Rua da França, onde fica o portão do Campus da Universidade Eduardo Mondlane, onde está o barracão do arquivo, e segui pela Avenida Kenneth Kaunda. Rapaz, que surpresa!

Esta Avenida, do lado direito de quem vem da Vladimir Lenine é o bicho. É uma avenida de duas pistas largas, separadas por um canteiro no meio. Começou a aparecer muitas casas boas, mas muito boas mesmo, casas enormes, com dois ou mais andares, bem arquitetadas, parecia que eu tinha saído do Maputo, que até então conhecia.

A Avenida está limpa, não há lixo acumulado, nem tampouco contentores abarrotados de lixo derramando a podridão pela rua. Continuo a andar, vejo muitos seguranças, como sempre, alguns estão dormindo, outros coçando o pé, só alguns poucos estão realmente fazendo o seu serviço corretamente. Todos estão fardados, as fardas são das cores mais diversas, sinal de que existem muitas empresas de “segurança sonolenta” por estas bandas, todos mostram na cintura, pendurada no cinto, um par de algemas; deve ser para facilitar o trabalho de quem rouba, pois além de surpreender o segurança dormindo, ainda tem o privilégio de algemá-lo com a sua própria algema.

A grande maioria dos seguranças é raquítica. Acho que se aparecer um negão, ou um menino mais forte, eles se mijam todo e botam para correr, mas vá lá: tem segurança. A quantidade, entretanto, naquele espaço me chama atenção e eu começo a olhar mais atenciosamente para as casas. Descubro a razão: Ali estão casas onde funcionam embaixadas e casas de moradores abastados e dos próprios cônsules e embaixadores.

As Embaixadas se sucedem: Bélgica, Brasil, Espanha, as duas últimas unidas e separadas apenas pela cerca eletrificada. O Atlântico foi completamente engolido pelo Indico. Muitas outras instituições: tudo gradeados. São fortalezas, parecem prisões fortificadas, tudo esta fechado, de movimento só os seguranças, isto quando não estão em estado letárgico.

Uma estrangeira, acho eu, porque loura de olhos claros, roupa bem diferente da que se costuma ver aqui, sai de uma garagem com o carro e sai do carro para fechar a garagem, claro que o carro é um jeep último modelo, lindo por sinal! Entra no carro e se pica.

Continuo a andar e mais fortalezas aparecem de todos os dois lados da rua. Certamente para demonstrar que quem está dentro não quer sair dali e que quem esta fora deve ai permanecer: não são bem vindos. Fico imaginando se será assim em dias de expediente.

Começo a ver o mar, aliás, já disse isto: aqui é melhor ver o mar do alto, ou então de alguma esplanada, porque ai não se vê a pobreza e nem a sujeira.

Continuo a descida olhando o mar. Chego a uma espécie de rotunda, porque aquilo não é porra de nada, e vejo uma indicação para a Sommerschield (não está escrito errado não). Resolvo ir por ali, porque já sabia que este local é na praia e que era o lugar chique da cidade, até tentei alugar um flat, que eles assim chamam um apartamento independente que fica não sei se do lado ou nos fundos de uma das casas, por 100 dólares dia, mas não consegui porque já estava ocupado.

Atravesso a Avenida Julio Nyerere com muita dificuldade. Como sempre, não me acostumo mesmo com a porra da mão inglesa. Desço uma ladeira: muitas construções novas, muitos condomínios de luxo. Continuo a descer e, de repente chego, exatamente, a um local onde há um restaurante, que fica na praia, chamado Nossa Casa, onde tinha visto muitos panos pendurados e muito artesanato na rua, e onde estava pensando em ir para comprar umas calças típicas.

Compro uma calça. De início custava 550 meticais, chorei tanto e fui embora que o homem foi atrás de mim e a calça saiu por 300 meticais, embora ainda muito cara, mas a calça era linda, quero dizer,o estampado. Deixe dizer que a calça custou menos de sete euros e meio, aproximadamente 16,00 reais. Estou pensando seriamente em comprar aqui panos e levar para o Brasil para fazer calças ou saias, penso que vou ganhar dinheiro, porque realmente as estampas são lindas e diferentes.

Atravesso para o outro lado da rua, o lado da praia, e sigo pela calçada, se é que se pode chamar isto de calçada. Ha pedaços que a maré levou e tem buracos com avisos de “não passar”, outros são as pedras que estão quebradas, enfim, tudo esburacado e termina ficando perigoso, porque um passo em falso e a cara vai para o chão mesmo.

Vejo muitas pessoas mais adiante e estranho porque estão todos muito vestidos, homens de terno, mulheres bem arrumadas à maneira Moçambicana, claro. Algumas pessoas estão literalmente na praia, num cais que avança para o mar.

Vou me aproximando mais: Surpresa! Tem duas noivas ali, elas e seus convivas e as damas de honra. Acho que as próprias damas recomendam mal a honra da casadoura, porque duas delas, que estão vestidas com roupa de cor vinho, as outras duas estão de azul, cheia de babados, estão descalças e dançam mexendo bem a bunda. É uma dança esquisita, não vejo qualquer sensualidade em dançar com as pernas abertas, como elas fazem, chega a ser feio, quanto pior porque elas estavam de vestido curto.

Uma das noivas está muito longe, já bem perto da água, a outra está ainda na areia e, para fazer pose para a foto, atira-se no pescoço do noivo e dobra as pernas. Uma foto cinematográfica. Hilariante!

São 13.30 e eu não entendo o horário do casamento, mas acho que eles herdaram isto dos portugueses, porque em Lisboa também os casamentos são realizados de dia, deve ser para que o noivo não seja enganado a respeito da beleza da noiva, principalmente aqui, em que se pode correr o risco de só ver a noiva no dia do casamento.

Acho engraçada a estória, mas não consigo explicação para o fato de noivas e convidados estarem ali, penso que deve ser alguma tradição.

Ouço um senhor falar para outros, que já estão reunindo o pessoal para ir embora e aí noto que tem muitos carros no local, inclusive vans.

Sigo em frente. Sinto-me, outra vez, roubada, porque compro duas calças por 500 meticais, e olhe que começou com o cara pedindo 350 por cada uma.

Compro as calças e vou andando em direção ao centro, que está muito longe, mas eu não tenho outro jeito, pois não vou tomar a chapa e não tenho crédito no telemóvel para chamar um taxi.

Vejo muitos carros juntos seguindo um primeiro que está todo enfeitado. Olho rápido; é mais uma noiva, que vai em direção ao mesmo local onde estavam as duas outras.

Mais carros e mais noivas, passaram umas três ou quatro, todas com o seu séquito.

De repente vejo batedores, muitas motos. Um dos motoqueiros grita para mim uma piada que não consegui entender, graças a Deus, por isto olho para o lado e que surpresa! Os batedores estão abrindo caminho para uma limusine branca, que esta toda enfeitada, indicando que ali vão os noivos. Quase não acredito no que vejo uma limusine, mas para meu espanto, a primeira vinha seguida de mais quatro, uma delas vermelha e as outras pretas. Todas com vidros escuros que não permitiam ver nada lá dentro. Não pensem que eu estou brincando, eram limusines mesmo, aqui em Maputo. Não bastasse a limusine, um séquito de carros seguiam o cortejo, muitos jeeps e carros importados lindos: parece que alguém da nata estava se casando.

Fiquei mesmo estupefata! Numa cidade pobre e suja como Maputo, uma cidade cujo governo se diz socialista, vide os nomes das ruas que já indicam a ideologia que os senhores representantes do Governo querem afirmar – Vladimir Lenine; Mao TSE Tung, Ho Chi Mim; Guerra Popular; Karl Max: Engels, Amilcar Cabral, Salvador Allende e muitos outros ,o regime que se quis implantar em Moçambique com Samora Machel em 1975 e a FRELIMO(partido marxista-leninista). O homem passou na Presidência 11 anos, só deixou o cargo por força da própria natureza, faleceu 1986, o que não impediu que a FRELIMO continuasse no poder, embora, hoje exista um outro partido, que lhe faz oposição, a RENAMO- Resistência Nacional de Moçambique). Não percebo, entretanto, como isto funciona aqui em Moçambique, sei sim que em todo e qualquer governo, seja ele socialista, comunista, democrático, ditador, há os que mandam e os que obedecem. Há a burguesia, tão combatida pelos dois primeiros regimes, e a pobreza.

O nome das ruas nada significa, os símbolos colocados na bandeira Moçambicana também não, aliás, os homenageados com os nomes das ruas, certamente devem estar muito aborrecidos com esta homenagem, que nada os dignificam, muito pelo contrário, demonstram que as suas doutrinas foram por demais mal interpretadas, que a mais valia aqui é ser rico, rico mesmo, sem que os pobres possam jamais sair do estado de pobreza em que se encontram. Aliás, um escritor moçambicano, ROCHA, 2006:82-83

“Apesar da orientação ideológica socialista e tal como anteriormente o movimento frentista, o PF continuou a ser uma força heterogênea, com sensibilidades diversas, integrando marxistas e liberais, militares, intelectuais e tecnocratas, muitos deles vendo no Partido uma forma de aceder a lugares e benefícios diversos”[...] As conseqüências desta opção marxista pela FRELIMO, embora se possa reconhecer o seu carácter estatista e modernista, não se fizeram esperar, tanto interna como externamente. A ala marxista era efectivamente hegemônica, mas os ideais socialistas não eram partilhados por parte significativa dos membros do Partido. Por isso a adesão à postura socialista não foi consensual, e alguns críticos tiveram de deixar o Partido, indo alguns dos mais inconformados formar bases de grupos oposicionistas diversos, alguns dos quais vieram a integrar o movimento rebelde que mais tarde se constituiu na Resistência Nacional de Moçambique(RENAMO)” (grifo nosso)

Portanto os pobres vão continuar a revirar o lixo para comer, a vender frutas e verduras nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a vender coisas usadas nas ruas, a roubar as pessoas, enfim, que eles se lenhem para que os ricos, cada vez mais ricos, continuem andando de Limusine, acentuando a diferença, que foi tão combatida na época colonial em relação aos europeus. Mudam os nomes e até mesmo a cor dos dirigentes, o que não muda, exatamente, é a divisão de classe aqui tão bem visível, sendo que o proletariado daqui, não existe, pois o proletariado tem de estar organizado para alcançar os seus objetivos, o que, possivelmente, ainda vai demorar muito, se é que um dia isto ainda possa acontecer. Enquanto isto, Maputo fica mostrando os seus contrastes e Moçambique continua recebendo fundos humanitários para combate a AIDS, para preservação dos animais (elefantes, onças, girafas, macacos, hipopótamos, cobras e muitos outros) e o povo continua a morrer de fome nas ruas, sem emprego, sem assistência, sem dignidade, mas os resorts em Inhaca, nas praias de Inhambane, em Pemba e em tantos outros sitos do país continuam recebendo turistas que saem daqui encantados com as belezas naturais, sem qualquer preocupação com a população, que de uma maneira ou de outra, ainda continua à disposição dos que se julgam superiores.


sábado, 7 de agosto de 2010

Tá com a vista boa? Então enxergue direito...

Está nostálgica. Deve ser porque passou em frente a um bar na Rua do Hotel onde está hospedada, e ouviu uma música do tempo “corno” aí no Brasil. Do tempo em que ela ouvia rádio com um dos irmãos segurando a antena para que a mãe pudesse ouvir a novela, “Jerônimo o Herói do Sertão”, salvo engano; se não esta era “O Direito de Nascer”. Não interessa o nome da novela, o que interessa é o rádio e as músicas que nele tocavam: O ébrio com Vicente Celestino; Senhor da Floresta com Augusto Calheiros; Unforgatable com Nat King Cole, Boêmia com Nelson Gonçalves, Anísio Silva e tantos outros que não vai mesmo lembrar os nomes. As quatro ou cinco da tarde o rádio tinha um concorrente, que era o serviço de alto falante da Cidade, que como já disse uma vez, uma das bocas ficava, exatamente, no poste em frente à sua residência.

Pois, neste alto falante aprendeu uma música, que, salvo engano, era cantada por Adelino Moreira, que, se vocês não sabem, era português do Porto, e compôs muitas músicas para Nelson Gonçalves, talvez por Anísio Silva, este é mais provável, porque a música era da dupla que sabia fazer música de dor de cotovelo, Euvaldo Gouveia e Jair Amorim. Vocês devem ter visto o especial sobre a Dalva de Oliveira e viram como as coisas de corno eram cantadas em versos pelos corneados. Depois disto a música já teve inúmeras regravações, inclusive, por Gal Costa: Olhem que primor de dor de corno: “Alguém me disse que tu andas novamente, de novo amor, nova paixão, todo contente. Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a estas. Este teu jeito de enganar, conheço bem. Pouco me importa que te beijem tantas vezes, e que tu mudes de paixão todos os meses, mas se vai beijar como eu bem sei, fazer sonhar como sonhei, mas sem ter nunca amor igual ao que te dei.”

Viu Bem! Corno é assim. Sabe que o ex parceiro tem outro (a), mas faz uma música desta, como se para ter mesmo um consolo. Então lá se quer saber se alguém beija melhor do que ela? Se alguém sonha os sonhos que ela sonhou melhor? Quer nada! Embora hoje ela não se preocupe com os beijos e a boca tantas vezes beijada, mas sim com a vista, a visão dos outros, daqueles que dão ou deram um “corno”, ou mais, em alguém.

Fica a pensar. Se o corneante dava corno com a visão turva, vendo as coisas um pouco deformadas, imagine agora vendo todos os detalhes. Aí é que vai cornear mais, porque vai ficar procurando sempre melhorar o que tem, embora todos nós saibamos que as aparências enganam, e como enganam. Ninguém traz na cara o que lhe vai ao interior. Alguns, muito poucos, teem o privilégio de, com os olhos, entregarem todo o seu “eu”. São pessoas sensíveis e que não sabem enganar. Os olhos falam mais de que a sua voz. Não é necessário que essas pessoas digam nada a respeito de si em alguns momentos da vida, porque os olhos já dizem tudo. Pessoas que não podem e nem sabem mentir, tem um detector de mentiras dentro de si próprias, por isso não podem enganar nem a si e nem a ninguém.

Sabe ela que ninguém tá entendendo nada desta estória de visão, mas “a quem interessar possa” vai entender, e muito: talvez seja muito tarde para poder ver as coisas com mais clareza, sem a névoa que tomou conta dos seus olhos e do seu interior. Quem deixou de ser visto por causa dos maus olhos, por força da visão turva, primeiro sintoma da catarata, pode não mais estar disponível para ser olhado com a visão restabelecida e, mesmo com o saudosismo das canções, mesmo querendo voltar o tempo, mesmo lembrando do que deveria tá morto e enterrado pode, agora, sofrer da vista e ter a visão turva, já não podendo mais falar com os olhos o que lhe vai na alma e nem enxergar os sinais de quem, agora, é portador de uma excelente visão, ao menos de um dos olhos.

Certamente, um reparo da visão enevoada não mudará a maneira de olhar da pessoa: Claro que não!Uma simples operação na vista não faz com que ela seja retrato da alma, apenas melhora a visão de fora, o interior de cada um continua como sempre, porquanto poucos, muitos poucos, mas poucos mesmo, conseguem, mesmo com problemas de vista acarretados pela idade, refletir com os olhos tudo que se passa no seu interior, da felicidade à mágoa, do ódio ao amor, da tristeza à esperança, mesmo que seja a de “corno” ao cantar ou, ao menos, cantarolar os versos da música cantada por Adelino Moreira,digo Anisio Silva, como esclarecido por um leitor, a quem se agradece, inclusive a dica para mais um texto, porque nada como se falar da "sede"  social dos bairros periíericos..  

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As três irmãs

Quando estive interna, conheci três irmãs que moravam no colégio. Uma delas muito mais velha que eu.Na época, para mim, era como se fosse quase minha mãe, embora ela não tivesse nem 30 anos. Eu tinha 10 a 11 anos e quem tinha mais de 25 para mim, creiam, àquela época, já era velha; outra com uns vinte e poucos e a terceira, mais nova, devia ter uns 16 a 17.

Diziam que elas eram irmãs, mas eu as achava tão diferentes que nunca acreditei, talvez pelo fato de serem órfãs e morarem mesmo com as freiras, fabricaram aquele parentesco, possivelmente, irmãs em Cristo.

A mais velha era uma mulher magra, não muito alta, tinha os cabelos chegados para o ruivo, não sei se eram pintados. Trabalhava fora do colégio e, portanto, estava sempre muito bem vestida. Ela já não dormia no dormitório; ficava numa parte do colégio em que moravam senhoras solteiras que trabalhavam e não tinham parentes na cidade. Era uma pessoa que não se podia dizer bonita, mas tinha lá o seu charme. Tinha um sotaque diferente na fala e, acho que por isso mesmo, tinha o apelido de “paulista”. Creiam em Deus! Passei quatro anos interna nesse colégio e nunca soube o nome desta senhora, aliás, continuo sem saber.

A irmã seguinte, ou seja; a do meio, chamava-se Gardênia, olhem que nome! Como colocaram este nome na criatura? Era baixinha tinha o cabelo castanho muito claro, chegando já para o louro, olhos claros e usava óculos. Era muito séria e tomava conta, junto com Zoraide, uma outra loura imensa e feia, da fileira do dormitório do lado direito; o meu lado. Não me lembro de ter visto esta moça feliz, saltitante, dando risada. Era compenetrada, cumpria as suas obrigações exemplarmente e nunca dava muita chance de aproximações, penso que estava sendo educada para virar mais uma irmã de caridade, sem caridade e sem graça.

A terceira chamava-se Georniete, nunca entendi nome tão estranho. Era alta, magra, loura dos cabelos encaracolados, brilhantes e lindos. Tinha olhos bem azuis, mas não conseguia ser uma pessoa bonita. Era simplesmente interessante. Por ser a mais jovem das três, era vigiada pelas duas mais velhas e cerceada em todos os momentos para evitar qualquer deslize. Ela não viveu a sua juventude porque não lhe deixaram,embora fique difícil viver em um internato em qualquer fase da vida. Espero que, mesmo com este nome tenha arrumado um marido, falo isto porque era o sonho de muitas internas, mui principalmente destas que eram órfãs e criadas pelas irmãs. O casamento era uma espécie de conquista de uma “liberdade”.

Salvo engano, Gardênia aprendia pintura, por sinal, uma das coisas que eu mais queria na vida à época, mas que era impossível para mim, pois as aulas eram pagas, porque o ensino era explorado por uma pessoa que não pertencia à escola. Olhei tanto o pessoal a aprender a pintar, isto aos dias de sábado quando tinha tempo, que terminei aprendendo a reproduzir, aliás, era o que era ali ensinando. Vi reprodução da reprodução, da reprodução dos Girassóis de Van Gogh ser ali feita por uma aluna, acho que de nome Eliane, e não só por ela, tanto que a reprodução, da reprodução, da reprodução que servia de modelo, estava toda gasta: os girassóis quase desfolhados e pálidos. Devia ser por isso que as reproduções ali feitas eram tão ruins. A professora de pintura era uma senhora que mais podia ensinar bruxaria, de tão feia que era, aliás, neste particular, competia com a irmã que tomava conta da rouparia: uma freira baixa, de bigodes, com um sinal do lado direito do rosto, bem perto da boca, que lhe acentuava a feiúra: deve ter sido por isso que resolveu ser irmã de caridade e trabalhar na rouparia, onde quase sempre estava escondida. Com aquela feiúra, entretanto, podia realmente voar, como fazem as bruxas, com uma diferença: ela ia ser levada pelo vento que impulsionaria os dois vértices formados por uma porra de um chapéu horrível que as freiras usavam, do tipo que era usado pela Noviça Voadora. Lembram do filme? Aquele que foi estrelado por Shelly Fields. Acho eu. Eram asas na cabeça.

Não me lembro se a Georniete também aprendia pintura, acho que não, ela era muito agitada para poder ficar tanto tempo parada em frente a uma tela e com tantos tubinhos de tintas na sua frente.

Lembrei destas três porque tinha uma vontade danada de saber o que foi feito delas. Será que as duas menores casaram? Viraram professoras e continuaram na própria escola? Viraram freiras? Fugiram do colégio? Esta última, se eu fosse uma delas, seria a opção escolhida.

E a Paulista! O que será que lhe aconteceu? Já morreu? Ainda vive? Será que, por um completo golpe de sorte, se casou? Olhe que se estiverem vivas, todas três já passaram dos 60, devem ter agora 75, 65,61 respectivamente.

Pois é. Não sei se só aconteceu isto comigo. Quando deixei o colégio nunca mais soube de nenhuma das pessoas dali. Um dia, por total acaso, encontrei Zoraide, que com toda a sua feiúra conseguiu se casar. Quando ela me disse isto, passei a acreditar que ninguém, por pior aparência que tenha, pode perder a esperança de encontrar um par, ainda que seja para completar a própria feiúra, ou diminuí-la um pouco, porque quando se encontra alguém mais feio de que nós mesmos, a nossa própria feiúra diminui, somos até capazes de acreditar que somos bonitos. O certo é que não sei de ninguém, que também, com certeza, não sabem de mim, e se souberem, por fazer a ligação do nome com a minha figura, certamente não acreditam que se trata daquela menina que dava tanto trabalho a todos no internato, aquela que quase foi expulsa por chamar freira de vaca, por desobedecer ordens e por, enfim, aos 10 11 anos, contrariar a ordem estabelecida e que, por isso mesmo, ninguém acreditava que seria “alguém” na vida.

Bom!Não acredito que nenhuma das pessoas aqui citadas vai ler isto, mas, se, por uma coincidência qualquer, isto acontecer, não duvidem: esta pessoa sou eu, aquela menina que vocês conheceram, que se fez notar pelos “erros”. A Esmeralda da portaria da escola, a bell girl do internato.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uma Maçaroca! Ou será Massaroca?

Vinha andando pela Avenida 24 de julho, uma confusão, continuo sem entender esta porra de mão inglesa. Me faz uma tremenda confusão. Fico olhando para o lado errado e esqueço, literalmente, de que lado que os carros vem, mas tenho que andar na cidade e me arrisco, a qualquer momento, ser atropelada. Tem uma porra de uma avenida então que é uma miséria, fico olhando para todos os lados sem entender nada; carros parados e o sinal vermelho para todos, pedestres e carros, vejo as pessoas tranquilamente atravessando e não percebo nada. Fico me perguntando se a mão inglesa muda também os sinais internacionais de trânsito? Acho que vou ver isto no código internacional de trânsito, me sinto uma verdadeira idiota.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Amigas inseparáveis! Será?

Eram três amigas quase inseparáveis, tinha uma quarta, que era apenas uma abelhuda, nada mais que isto.

Chamavam-se Lu, Tina e Geo. Duas delas, Lu e Gel, eram esquisitas, ficavam estranhas com a roupa de anarruga que tinham de vestir. Lu vestia a verde, Gel a azul ou rosa. É que a cor fazia diferença entre os graus escolares e idades. As mais velhas e que já estavam no curso pedagógico vestiam azul; as que estavam no ginásio vestiam verde. Era alguma coisa assim.

A roupa era um robe até o joelho, que tinha um cinto do mesmo padrão. Era este cinto que dava um jeitinho melhor no corpo de quem já tinha ele melhor mesmo, do contrário fazia parecer que a pessoa era um saco amarrado pela cintura.

Tina ficava bem com esta roupa, o mesmo acontecendo quando estava com a farda da escola, blusa branca e saia de machos azuis, sapato vulcabras colegial e meias. Era do tipo que qualquer coisa lhe caia bem. As outras duas, coitadas, pareciam não se adaptar a roupa alguma, não nasceram para vestir saias ou vestidos. Lu era uma mulher feia, morena cara de cavalo enorme, cabelos bem pretos e cheios, o que bem aumentava o tamanho do rosto, porque tinha um corte para lá de esquisito. Os olhos eram bem negros. Era mais ou menos alta e andava meio curvada e tinha as pernas meio tortas, aliás, andando, fazia questão de acentuar isto.

Geo era uma espécie de loura. Cortava o cabelo bem curtinho, mas curtinho mesmo. Usava óculos e tinha os olhos mais para o claro. Tinha estatura média, talvez um pouco maior que Lu. Também ficava muito estranha usando saia, pois tinha as pernas tortas, não tinha bunda e andava, também, com uma curvatura nos ombros.

Tina não! Tina era mesmo uma mulher para homem algum botar defeito. Pernas grossas, coxas duras e grossas. Não era magra, mas nada tinha de gorda. Tinha cintura fina, braços roliços. Um rosto bonito de mulher, não era de bonequinha. O cabelo era no ombro e tinha uma tonalidade castanha claro, já chegando para o mel. Os olhos eram verdes. Era mesmo uma beleza de fêmea, e ela bem sabia disto.

Andavam sempre as três. A abelhuda achava estranho, pois as duas outras faziam tudo que a Tina queria, era como se fosse um jogo, quem me der mais me leva.

E era um tal de ir buscar café quentinho, leite, trocar pão com outra pessoa porque ela gostava de pão mais queimado, fazer os deveres de casa, neste particular Geo levava a vantagem, pois já era quase uma professora.

A vida ia indo sempre assim. A abelhuda, porque era muito jovem mesmo, achava aquilo tudo estranho, mas não questionava muito nada, até porque, como a diferença de idade entre ela e as três era imensa, ninguém lhe daria qualquer satisfação, fosse ela boa ou ruim, satisfatória ou não. Elas lhe toleravam ali porque gostavam dela e também porque, depois a abelhuda percebeu, era muito conveniente ter quatro pessoas e não só as três de sempre, dava menos nas vistas.

Um dia estavam as três numa mesa tomando café. Havia uma coisa qualquer no ar, que a abelhuda não percebia o que era, mas sabia que algo estava acontecendo. Foi para a mesa delas, mas a Geo pediu que ela saísse porque elas estavam conversando uma coisa séria. Saiu de perto, mas ficou na espreita, afinal era uma abelhuda e tinha de agir como convinha a uma.

As três discutiam. A Geo falava, a Lu retrucava, a Tina dizia algo sem se alterar. As outras duas estavam bem alteradas, pareciam que queriam se comer. Saia faísca para todos os lados. Tina, de vez em quando, fazia sinal para elas falarem mais baixo, mas a discussão ganhava mais calor a cada momento. Tanto Lu quanto Geo tinham as xícaras de café em frente a si. Em um dado momento Geo pega a xícara e atiça com café e tudo na cara de Lu. O café estava quente e quase faz um estrago daqueles na cara da outra, que também, ato continuo, jogou a sua xícara na Geo. O mangue se formou. Tina estava transtornada e gritava para elas pararem, as duas estavam se pegando, quando as freiras, e olhe que foram bem umas cinco, se aproximaram correndo tentando tirar uma de cima da outra. Um verdadeiro carnaval. Todas as internas pararam o café para assistir a cena. As irmãs quiseram tirá-las do local, mas era impossível, todas queriam ver aquilo e também era preciso acabar com aquela briga que podia terminar em tragédia, e elas preferiram se ocupar disto.

O jardineiro é chamado, ali era necessária a força de um homem para controlar os outros dois, que agora mostravam mesmo toda sua força masculina, de macho que lutava pela sua fêmea.

Resultado: Lu expulsa, Geo, porque estava mesmo formando-se em professora, terminou o curso externa, e Tina, a causadora de tudo, mas que não tinha brigado nem nada, não tinha feito absolutamente nada, isto é, que as irmãs tivessem percebido, isto em relação ás vias de fato, porque as freiras sabiam perfeitamente que ela era o pivot daquilo tudo, ela era o troféu que estava sendo disputado pelas outras duas, sairia da escola no final do ano, após o término do ano letivo.

Para a abelhuda não sobrou nada, a não ser, anos depois, entender o que tinha se passado naquele dia. Quando entendeu tudo percebeu o risco que correu andando com as três na sua inocência, que não era vista como tal, por tantos quantos sabiam do caso entre as três internas.

É mesmo assim. O internato tem dessas. As paredes dos internatos têm muitos segredos, muitos deles nunca serão divulgados, mas há sempre um “Boca do Inferno” atento, e um dia, quem sabe...!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resenha da vida alheia


Estavam num restaurante de nome ESCORPIÃO na Feira Popular de Maputo. O nome do restaurante já não recomenda bem, pois lembrem que escorpião, além de ser venenoso, mata com o rabo, aliás, era o que parecia não faltar naquela mulher.

O homem nem sequer olhava para ela. Olhava para tudo, para a televisão, para quem passava, para frente, para o lado contrário, mas nunca para o lado direito onde ela estava.

Ela era uma negra, parecia usar peruca, o que é bem normal em Moçambique, era feia e tinha uma testa enorme. A peruca estava colocada quase no meio da cabeça, fazendo com que a testa parecesse maior. As unhas enormes, “a La Du Carmo”, com esmalte bem vermelho, um contraste da porra com a cor da sua pele. Usava um casaco preto, que não dava para ver a roupa que estava vestindo. Não dava para saber do corpo porque estava sentada, mas parecia ser gorda, e a calcular pela aparência e por tudo já visto em Maputo, devia ter uma bunda característica da maioria das mulheres daqui, enorme e cheia de culote e celulite.

O homem era magro e parecia ter um corpo másculo e bem feito, entretanto não dá para garantir, porque não levantou.

Ela usava uma aliança na mão esquerda, que realçava ainda mais, tanto a cor própria quanto as das unhas à “La Du Carmo”.

Estava há umas quatro mesas da deles e tentava captar a conversa pelos lábios da mulher.

Ela falava de uma maneira que, pela intuição feminina que temos, nós as mulheres, parecia querer saber algo do senhor, uma resposta, uma justificativa para alguma coisa que fazia parte da relação deles.

O olhar dela era incisivo! Ela não desviava o olhar da face do homem enquanto falava, mas o cidadão nem mesmo levantava a cabeça.

Por um momento a leitura dos lábios dá a impressão que ela diz:

- Quero uma explicação, sei que nos damos bem na cama!

Portanto, não era este o motivo do problema para ela, e ela queria saber qual. Parecia estar tentando se segurar, controlar a situação sem perder a classe.

As mãos se juntam e batem na mesa em um gesto nervoso.

O homem nem se abala, quando muito sorri cinicamente, é o que parece, pois não da para ver todo o seu rosto de onde estava.

A mulher continua a falar, a gesticular, a olhar para ele fixamente.

Ele na mesma postura

De novo, um novo gesto e as pontas dos dedos agora batem repetidas vezes na mesa, era como se a mulher quisesse acompanhar com os dedos o seu raciocínio verbalizado.

Os dedos fazem um desenho na mesma, não é um desenho premeditado, é apenas um caminho para ela poder aliviar a tensão, é como se os dedos e a forma que eles desenhavam lhe ajudassem a dizer o que lhe ia na alma naquele momento.

A comida chega. Agora o homem se mexe porque vai comer, nada além disso. A mulher continua a falar. Questiona-o; o seu rosto é uma interrogação só. Pergunta e quer resposta, olha-o, como sempre, fixamente.

O sacana, olha já o julgamento feminino, não tá nem aí, continua a comer na dele.

Ela dá um sorriso irônico, como se quisesse dizer que não acredita em nada que ele possa dizer.

Os olhos abrem-se mais e ela fala com alguma ironia mesmo. Não dá para perceber o que. A mulher quase não mastiga, porque não para de falar um minuto sequer, é sempre falando, argumentando. Nem mesmo se o cara quisesse dizer alguma coisa poderia, ela não dava tempo.

A conta chegou, tem de ser paga, mas não se quer perder nenhum lance. Fica-se e, num guardanapo, começa-se a descrever a cena.

Não há mais dúvidas: Tá pagando a conta e vê o cara mostrar o visor do telefone para a mulher. Ela coloca um pouco a cabeça para trás para olhar o tele móvel: Quem é? Não se vê e nem se ouve a resposta, mas o cara faz um gesto com a mão, como se quisesse indicar que era a mesma pessoa que tinha ligado antes. Ela olha o visor outra vez e não diz nada. Apenas sorri ironicamente balançando a cabeça. Era como se disse em boa gíria “não tô comendo nada disso”.

A expressão dela muda, a fala fica mais incisiva, o olhar procura o dele incessantemente, mas o cara não se arrisca, sabe perfeitamente que o seu olhar pode demonstrar a realidade cruel que ela, apesar de tudo, de tantos questionamentos não queria saber, ou melhor, ter a certeza.

O rosto contrai-se, agora expressa aborrecimento, entretanto, ela não para de comer.

Tinha mesmo que ir embora, precisava sair dali; não só porque já pagara a conta, como também, porque o homem que está sentado na mesa junta à dela, começa a chupar os dentes, e isto, nem mesmo a resenha da vida dos outros, levar-lhe-ia a suportar.

Levanta-se e pensa: vou passar bem junto a mesa deles para ver se capto alguma coisa. Neste momento o homem faz um gesto e vê-se a aliança na mão esquerda, aliás, impossível não ver, o dourado faz mesmo contraste com a pele negra e aparece muito, aliado ao fato de que a grossura dela jamais deixaria que ela passasse despercebida. No entanto, parece que de nada adiantou, ou adianta, tanto brilho: as outras não se importam com isso, tampouco ele, com certeza.

Passa pela mesa deles, mas não ouve nada, ela parece ser uma pessoa educada, fala baixo, mas não dá para ter dúvidas: ali estava uma relação a terminar, e a terminar como muitas outras, por causa de alguma outra, MÁ-PUTA.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Maputa da vida!

Maputo acumula decepções. Hoje tive várias. A primeira delas foi chegar ao local onde funciona o Arquivo Histórico de Moçambique e ter a noticia de que as fontes primárias não se encontram ali, e sim em um depósito no campus da Universidade.

Isto não seria qualquer problema, se eu não tivesse ligado n vezes para o arquivo, enviado mensagens dizendo o que queria, enfim, tivesse tentando saber tudo antes da chegada, a fim de não perder tempo.

domingo, 25 de julho de 2010

Chegada em Maputo

Ela chega cansada, mas ainda tem que esperar as autoridades do país permitirem a sua entrada, embora já tivesse o visto fornecido pelo Consulado em Portugal.

Não tem jeito, pega a fila para estrangeiros. Tudo é manual, não ha qualquer meio eletrônico para concessão do visto ou confirmação dele. Tem de esperar na fila imensa que se formou. Somente três funcionários em dois guichês, que mais parecem barracas de feira armadas em local coberto.
Passam pessoas na sua frente; a funcionaria levanta para atender um seu conhecido, ou melhor, para facilitar-lhe as coisas. O homem passa na frente de todo mundo e sem qualquer protocolo. É impressionante!

Passada a primeira etapa, uma segunda. O controle da bagagem. No aeroporto uma só esteira. A sua mala foi uma das últimas a chegar, passou, mais ou menos, 2 horas a esperar que, num processo completamente manual, as malas fossem tiradas do avião e chegassem até o desembarque.
Não encontrou carrinho de bagagem. AH! Detalhe: O carro de bagagem parece um grande carro de transporte de cargas em supermercados. Somente conseguiu um depois que quase todos os passageiros do vôo pegaram as suas bagagens.

Assim que pegou o carrinho um senhor se aproxima e, sem pedir nada e sem a sua licença, começa a empurrar o carro. Ela tenta tomar o carro da sua mão, mas ele insiste e diz que vai ajudá-la a passar no controle de bagagem, caso contrário ela vai pagar algum dinheiro ao pessoal. Ela diz: Não vou pagar nada porque não tenho nada de errado na minha bagagem, portanto podem abrir e fazer o que quiserem. O homem insiste e a bagagem é retirada do carro e colocada na única máquina do raios-X. Quando a bagagem sai do outro lado alguém lhe diz que ela foi selecionada, o homem lhe puxa e diz que o acompanhe, ela diz não. O homem continua a empurrar o carro e ela tentando tomar-lhe das mãos. A funcionária diz: O que é isto, então a mala foi selecionada e vão levando-a embora. Ela para e pergunta a funcionária, é para colocar a mala onde? O homem fala alguma coisa com a funcionária em uma língua que não entende, e a funcionária diz que podem ir.

Ela continua a tentar tomar o carro da mão do homem que fala, mais uma vez, que se ele não estivesse ali ela ia pagar muito dinheiro. Ele segue em direção à fila de taxis. Quando coloca a mala no bagageiro diz que quer cinco euros, ela dá risada e diz que não tem e que, ainda que tivesse não pagaria porque era muito caro. Tira uma moeda de dois euros e dá ao homem que se aborrece. Ela nem liga e entra no taxi e diz o nome do hotel.

O taxi não tem taxímetro ou tabela de preços, ela pergunta o homem o preço e ele diz trezentos meticais. Não acha caro e nem barato, porque não consegue entender muito bem o valor da moeda do país, mas ainda que fosse bem caro, ela pagaria qualquer coisa, pois estava muito cansada, a viagem tinha sido péssima. Não conseguira dormir nada, a companheira de viagem era uma mulher que resolvera atualizar o seu trabalho no avião, alguma coisa relativa a um projeto de produção de “sunflower”. Para quem não sabe: Girassol. A luz ficou acesa durante quase todo o percurso

Passou por muitas ruas feias, sujas, sem calçamento. Muita pobreza e a surpresa da mão inglesa. Sentiu uma sensação terrível, estranha. O motorista do lado contrário, no lugar do carona. Passar marcha com a mão esquerda! Ela acha que nunca conseguiria. Pior que isso, foi atravessar a rua sem saber para que lado olhar, muito estranho mesmo.

Enfim, chega ao hotel. Há um indiano que é o “manager”, and as a manager, He doesn`t speak portuguese. Ela acha graça: Como é que num país de língua oficial portuguesa há um gerente que não fala tal língua. Bom, tenta se comunicar e descobre que os funcionários outros são moçambicanos e falam português, claro, como bons lusófonos que são, embora todos continuem, entre si, a falarem os seus dialetos.
Chega ao quarto, nada de especial, mas nada de estranho, um quarto normal. Dá-se por feliz pelo ar condicionado.

Toma banho e dorme até uma hora da tarde. É hora de levantar e ir ver a cidade e onde estava localizada em relação ao Arquivo Histórico, para onde terá de ir muitas vezes. Pede informação e segue em frente. Acha estranha a informação, porque pelo mapa ela esta indo em direção completamente contrária.

Para e vê um rapaz parado na rua, pede licença e pergunta-lhe se ele sabe onde é a Rua Araújo. O rapaz lhe olha e cai na risada, mas ele ri muito mesmo e nem consegue responder. Ela já sabia o motivo de tanta risada: É que a Rua Araujo, como era chamada antigamente a Rua do Bagamoio, para onde ela se dirige, era um local de prostituição. Ela explica-lhe entre risos que quer ir para o Arquivo Histórico, que, infelizmente, funciona naquele local. Ele chama uma senhora que está dentro de uma loja e lhe diz que ela está procurando a Rua Araujo. A senhora sorri e lhe explica que ela vá direito: quando chegar a Vladimir Lenine, desça à esquerda e vai chegar até a baixa; lá ela entra na Timor Leste e vai dar numa praça da fortaleza e lá vai encontrar a Rua do Bagamoio.

Ela agradece e vai seguir quando a senhora diz: Nós vamos para aquele lado, venha que nos lhe levamos até um local mais próximo. Ela entra no carro, e novamente a mesma sensação estranha, o volante no outro lado. O rapaz dirige e se chama Jorge, a senhora diz que se chama Biba. Perguntam-lhe o que esta a fazer em Moçambique e ela diz, eles acham interessante e a mulher lhe diz que ela vai encontrar o que procura no arquivo. Descem a rua e deixam-na na Marginal, em frente ao mar, na Baía de Maputo. Antes, porém, a senhora lhe dá o número do telefone para que ela entre em contato, porque eles têm uma moto, uma espécie de taxi de três rodas e se ela precisar dar uma volta na cidade é um bom meio.

Ela caminha um pouco pela praia, mas não se arrisca muito, vai até um prédio que fica na orla e que impede de passar para o outro lado, para tal ela teria de contorná-lo. Não se arrisca e volta. Encontra uma faixa dizendo que ali existe uma feira do Egito. Para, entra e fica fascinada com as coisas, mas tudo que gosta é muito caro. Pergunta por um conjunto de esfinges douradas e alguém lhe diz: Three thousands. Toma um susto, aquilo não poderia ser tão caro, ou então entendera errado. Pergunta de novo. O homem diz: three thousand in... and one hundred. Continua sem entender, até que cai a ficha. Três mil em meticais e cem dólares em dólares. Acha caro do mesmo jeito e não compra, embora as três esfinges sejam lindas. Vê vestidos de mangas, alguns muito bonitos, outros inusáveis. Há perfumes, essenciais egípcias, tudo aromas falsificados de perfumes bastante conhecidos. Cloé, azarro, Calvin Klein. Dá risada e sai do local, o homem queria que ela experimentasse todos. Fica enjoada.

Segue olhando a feira, que é bem pequena. Muitos móveis egípcios, todos com muito dourado. Algumas peças lindas, outras de extremo mau gosto. Encontra uma brasileira do Pará, que vê o seu sotaque e lhe pergunta se é brasileira. A mulher lhe deseja uma boa estada em Maputo.
Compra um chaveiro com uma esfinge, uma pintura em papiro, um vidro todo desenhado em dourado e vai embora dali pelo mesmo caminho.

Já tem muitos carros parados no lado da praia, fica impressionada com a quantidade de jeeps. Música alta e muitos jovens. Vendem-se cervejas e refrigerantes, ela não se arrisca, Parece tudo muito sujo.
Cansada, ainda, resolve ir embora, mas primeiro tenta comprar crédito para o telemóvel. Compra, mas o tel. não fala, continua sem chamar. Dá uma volta no shopping “Centre”, não entende porque se escreve assim, vai ao mercado tentar comprar frutas. Não percebe, mas não encontra frutas boas, também não vê alface e nem qualquer outra folha.

Compra pão, queijo e mortadela. Não vê presunto. Uma lata de palmito, milho, feijão frade e atum, leva para o hotel, é o que vai comer à noite, com certeza.

Quando sai do “shopping centre” vê á área de alimentação que fica ao lado, na área externa, senta-se, toma uma cerveja que tem o nome de “florentina”, cerveja autenticamente moçambicana, não é mal, toma duas e pede um prato no restaurante em frente. Uma mistura de legumes e vegetais: cogumelo- carne-alface-cenoura-pimentões. Não gosta e deixa metade. Paga e sai, vai para o hotel. Toma um taxi e se assusta, ela podia ter ido caminhando, é muito perto, mas ainda assim o taxi lhe custa 150 meticais, o que é muito pela distância. O motorista é simpático e ela lhe pede um cartão. O nome dele é Tony, ela agradece e entra no hotel. Encontra o “manager” e pergunta-lhe como acessar a internet do quarto. Ele pede a funcionaria para dizer-lhe para ela trazer o PC para que ele possa fazer configuração. Ela sobe e traz o PC, ele tenta lhe explicar em inglês, ela diz que não está entendendo nada, mas enfim, conseguem. Depois de tudo certo, internet funcionando, ela pergunta: Every time I want to access net I have to came here in the receptcion? O Manager morre de rir e diz que não. Que agora ela pode acessar a qualquer hora que é só colocar a senha que ele lhe dá.

Sobe para o quarto com a net funcionando. Entra no quarto e vai dormir.

As oito alguém bate na porta. Quando ela abre, ainda sonolenta e assustada, pois não conhece ninguém e nem tampouco tinha pedido nada na recepção, alguém lhe pergunta: Tem roupa para lavar? ...

É mole ou quer mais?

sábado, 17 de julho de 2010

Madrinha X 3

Nasceu em setembro, segunda filha de um casal transatlântico: pai espanhol de Galícia, mãe baiana de Cachoeira.

O primeiro filho deles fora uma mulher, bem vinda, claro, como todos os primeiros filhos. O pai queria um homem, como todos os pais, mas veio uma mulher e, como primeiro filho, esperado, curtido, desejado, ficou tudo bem. Deram-lhe o nome da avó paterna, uma espanhola que viu os seus filhos deixarem a terra, um a um, a fugir de uma guerra civil, que acabava com a juventude masculina da Espanha.

Três anos depois, uma nova gravidez. Aí sim, imperdoável, tinha de ser um rapaz, para receber o nome do pai, ser macho, tornar o genitor orgulhoso.

Àquela época o sexo do bebê era mesmo uma surpresa, ficava por conta, tão somente, das adivinhações e das crendices. Se a barriga era pontuda, era homem, se a barriga era arrendondada, seria mulher. Se a mulher, durante a gravidez, tivesse muita azia, o bêbê seria cabeludo. Muitos outros “ses” davam a indicação do sexo da criatura que estava sendo formada.

Nove meses de espera e incertezas. As roupas, se para homens, azuis; se para mulheres, rosa. Na dúvida, branco e verde resolviam, quem sabe nascia um bissexual.

O certo é que, num dia de setembro, após três idas diferentes ao hospital espanhol, que ainda existe e fica num dos mais aprazíveis lugares de Salvador, na Barra, entre o Porto e o Farol, numa localização espetacular e uma visão dos deuses, nasce o segundo filho do casal.

Ansiedade dos pais! Qual o sexo do bebê? Á enfermeira anuncia: É UMA MENINA!

Que decepção para o genitor, que nem mesmo tinha se preocupado com o nome que iria dar ao rebento se mulher fosse, porque o desejo do filho homem era tamanho e a perpertualidade de um nome espanhol horroso, talvez único em toda a Espanha e no Brasil, neste último então é que seria mesmo único, pois ninguém normal teria a idéia de colocar aquele nome em uma criança, que não se preocupara com isso.

Nasceu a criatura em um parto difícil, pois veio de bunda. Por isso, talvez, a sua estrela tenha apagado naquele momento. Pense aí: alguém nascer já de bunda para o mundo. Pois, desde ali, já se fizera notar e indicar que seria um pouco diferente dos demais.

Bom, feliz ou infelizmente, a criatura nasceu sadia, mas tinha de ser registrada para passar a existir oficialmente, e aí? Qual seria o nome daquele troço que ali estava frustrando os sonhos dos pais de terem um filho homem?

A mãe, porque a primeira filha tinha o nome da avó paterna, decidiu colocar, agora, o nome da sua própria mãe. Felizmente que o pai não concordou, porque com aquele nome, se já a consideram “uma mulher de verdade”, aí é que seria mesmo, de fato e de direito. A música popular por Ataulfo Alves que o diga, pior ainda a versão do pessoal do sambão da faculdade de direito: Ficaria sendo a mulher de verdade, a que não fazia exigência, a que seria a subserviente, e que sempre estaria disposta a agradar o seu homem em todos os sentidos.

O genitor não concordou, não queria esse nome, sugeriu outro; um bem espanhol e que também a faria única e iluminada: O nome seria “LUZ”, mas não uma luz qualquer, a luz seria “DIVINA”. Pense aí gente: Uma pessoa ser chamada de “LUZ DIVINA”.

Genitora não concorda. Não se chega a um bom termo.

A notícia do nascimento já havia se espalhado e a madrinha já estava arranjada, mas isto era independente do rebento ser homem ou mulher, tinha sido escolhida há muito. Seria uma tia-mãe do genitor, aquela que o trouxe da Espanha e com quem ele e os irmãos conviveram durante muito tempo. Uma espanhola galega, pequenina, que vivia para o lar e para o seu marido e sobrinhos, e sobrinhos netos, mas que não saia de casa para nada.

As visitas começaram a chegar, e a discussão pelo nome não acabava. De repente chega uma prima do genitor, uma que tinha um nome de uma pedra preciosa de muito valor e que já era madrinha da primeira filha do casal. Uma mulher forte, grande, bonita. A discussão acaba: escolheram o nome da criaturinha, seria aquele, o nome daquela prima. Uma pedra verde. A prima, feliz, fica emocionada, o seu nome naquele ser pequenino, que atenção dos pais. Descobriu que era importante para eles e fica muita agradecida pelo gesto dos primos, sente-se meio protetora da criança, uma madrinha, talvez.

Dia do batizado. Igreja da Conceição da Praia. La estava a criança, já oficialmente registrada com o seu belo nome de uma pedra preciosa, aliás, preciosissíma.

A madrinha escolhida, por não sair de casa, mandou a sua representante, uma tia solteirona que pensava ser a poderosa, aliás, faleceu querendo controlar a vida de todos, o que fez, inclusive com os padrinhos do rebento, eles que o digam e que a perdoem onde estiverem.

A representante tomou ares de titular, carregou a menina durante a cerimônia e fez a sua representação da melhor maneira possível. Resultado desta representação solene: Ela tomou ares de madrinha mesmo e se comportou como tal, ali e alhures e por todo o tempo, durante e depois.

Assim, aquela pedra preciosa, que já nascera de bunda, e, portanto, já marcara a sua diferença, passa a ter três madrinhas: A oficial que, por não sair de casa, era de direito, mas não de fato; a representante, que era de fato, mas não de direito, e uma que nem era de fato e nem de direito, mas se elegeu como tal por causa do nome que colocaram na criança, sua xará.

Esta particularidade lhe gerou, no seio familiar, muitas brigas e invejas, todos os primos tinham inveja dela, porque ela ganhava presente, nas datas em que estes eram obrigatórios, de três madrinhas: Páscoa, Natal, aniversário, tudo sempre multiplicado por três.

Talvez por isso, tenha crescido com tanta responsabilidade, tudo na sua vida multiplicado por três. A única coisa que ainda não foi multiplicado por três, isto em termos de entrada, porque em termos de saída o multiplicador conseguiu crescer muito mais, foi o dinheiro. Ah! Também uma outra coisa ainda não se multiplicou por três: Os maridos! Mas ela ainda tem tempo de colocar isto em ordem...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma visita quente


Estava, como sempre, sozinha em casa. Lia um livro deitada na rede e levantou-se para beber água. Quando chegou à cozinha, um susto daqueles: Um homem alto, quase 1,90, todo vestido de branco, roupas finas, parecia calça de linho tipo pijama e camisa de cambraia de linho, uma roupa solta e bem estilosa. Os cabelos grisalhos muito bem cortados, mas com muito estilo, caiam-lhe no rosto, uma sandália tipo pescador, aquelas usadas pelos apóstolos de Cristo lembram? Os olhos de um azul tão denso, que nem chegavam a ser bonitos, com um grande e assustador detalhe: não tinham pupilas. Tudo era azul.

Ela assustou-se e deu um grito. Ele lhe fez sinal com o dedo na boca para que ela se calasse, e foi entrando na cozinha, ela, dando de costas, terminou por se bater na geladeira, ficara ali, encurralada, e o homem se aproximando mais e mais.

Quase colado com ela ele parou e a olhou com aqueles olhos despupilados, horríveis

Ela balbuciou: - Quem é você? E o que quer na minha casa? Como você entrou aqui? Cadê o cachorro?

Ele deu risada e disse: - Minha querida, uma pergunta de cada vez. Não se apresse, porque temos muito a conversar. Já já você vai saber quem sou, o que quero, e por que estou aqui.

Falava manso e ela começou, apesar de tremendo e temendo, ficar um pouco menos assustada.

- Vamos, sente-se. Você estava lendo na rede, portanto, pode voltar para lá que eu fico ali conversando com você.

-Não quero! Você é um homem, eu estou na minha casa, sou casada e os vizinhos podem nos ver.

-Bobagem, os vizinhos não conseguem me ver, não se preocupe

-Como não podem lhe ver, ali é a varanda que dá para a rua, para o muro da casa ao lado, enfim, qualquer movimentação das pessoas e eles vêem o que se passa aqui em casa.

-Pois é! Um defeito que você tem de jogar para o alto. Não se preocupe com os que as pessoas acham ou dizem: Você não tem que dar satisfações a ninguém. Já tá bem grandinha para isto.

- Quem é você para me dizer estas coisas? Quem disse que dou satisfação da minha vida aos outros?

-Ora, você às vezes se passa como agora, não é uma mulher tão inteligente como pensa a ser. Você acabou de demonstrar que liga, e muito, para a opinião dos outros, mas isto não interessa agora e nem vem ao caso, vamos conversar. Se não quiser sentar na rede, sente em outro lugar, eu vou tá aqui mesmo, pois hoje você não me escapa.

Começou a se preocupar novamente: " O que ele queria dizer com de hoje você não escapa. Quem era aquela porra Meu Deus?"

Logo que teve este pensamento o homem vira-se para ela, e os olhos já não estavam azuis, pareciam duas bolas de fogo. – Para que você esta pensando nele? Neste momento sou eu e você e ele não vai se meter. Não pense e nem fale o nome dele enquanto eu estiver aqui.

- Ela não entendeu nada, não havia falado em nome de pessoa nenhuma. Assustou-se com aquele olhar de fogo e com as palavras ditas entre dentes e com muita raiva.

- Falar em nome de quem?Eu não disse nada!

-Não disse mais pensou, a sua voz já tinha voltado ao normal, e olhe que era uma voz quente, macia, gostosa de ouvir. – Esta pessoa não merece o seu pensamento nem qualquer suplica, porque não gosta de você. Olhe a sua vida como está. Você tem quase sessenta anos, está marcada pelo tempo, está só, não conta com ninguém, está sem dinheiro, tem dificuldades financeiras, continua ajudando muitos e sem nada receber em troca. Por que então pensar nele ou questionar alguma coisa com ele?

Cada hora que passava ela entendia menos aquela situação.

O homem, já agora bem sentado na varanda, olhava para ela sorridente e dizia- A sua casa é linda! Mas você vai perdê-la pela sua idiotice. Você é muita boba, deixa-se enganar facilmente, e por isso vai perder o que tem e ainda o que conseguir, porque as pessoas te usam e você vai permitindo. Falo de todos que passaram por sua vida. Não vou citar nomes porque você bem sabe do que estou falando. Você idiota, e o outro, a quem você chama, deixando que tudo isto aconteça com você, sem fazer porra nenhuma. Até quando você vai esperar que “ele” resolva os seus problemas?

- Quem é você? Por que esta a me dizer tudo isto? Como sabe tanto de mim?

-Eu te acompanho querida, aliás, acompanho todos. Tenho disputado por toda a minha vida um espaço com “aquele” a que você chama, ou melhor, todos chamam. Tenho boas chances com alguns, com outros perco, mas não desisto, neste aspecto, sou como você, que toma tanta cacetada, mas não desiste desta mania idiota de ser “boazinha”. Para que ser boazinha? Para ter reconhecimento de todos? Para ser apontada como exemplo? Para que todos digam que você é uma pessoa com um grande coração? Idiotice mesmo, você deixou a vida passar preocupando-se com os outros. Deixou se endividar para saldar compromissos alheios. Você, para compensar uns de perdas irrecuperáveis, transformou pessoas de sua intimidade em verdadeiros parasitas. Você bem sabe do que estou falando, não vou citar nomes para que você não fique, com esta sua sensibilidade exagerada, melindrada, aliás, coisa que você adora. Ficar melindrada. É mais uma satisfação para os outros? Ou é algum tipo de jogo que você joga para enganar as pessoas? Ou é uma coisa atávica?

-Eu, enganar as pessoas?

-Sim minha querida! Você engana bem as pessoas, porque você não queria ser nada disto. Você bem queria ser uma pessoa completamente fria, insensível, egoísta, materialista, arrogante, prepotente, vingativa, aliás, como deveria, até mesmo pela profissão que escolheu e é por isso que estou aqui, para te ajudar a conseguir todas estas qualidades que lhe faltam.

-Qualidades! Você esta me propondo ajudar-me a ser um “não ser”?

-Lá vem você com idiotices! Não se cansa? Com tanta porrada que a vida já lhe deu, que aquele “outro” permitiu que você tomasse, e ainda vem me falar em “não ser”? Olhe á sua volta, tirando as pessoas que não tem mesmo para onde ir por completa falta de tudo, olhe bem as outras a quem você ajudou e que estão se dando bem: O que eles fazem por você? Nada. Quantas vezes você precisou de algum favor que envolvesse dinheiro, não que você não pudesse pagar, mas sim porque no momento você não estava presente. Quem te ajudou? Salvo uns poucos, muitos poucos, aqueles que têm nomes de Apóstolos, e um santo que não é tão santo assim, ninguém lhe dá nada. Se pudessem, até lhe tiravam mais.

-Não lhe dou o direito de falar assim das pessoas que me rodeiam!

-Quem está lhe pedindo autorização para nada. Eu posso dizer tudo, também acompanho a vida deles e sei os pensamentos: Alguns chegam até a dizer, “Vamos pedir a doutora porque ela tem.” Ela pode. Já viu o salário dela? Não é só isto “otária”, há uma multidão atrás destas pessoas que pensam da mesma maneira. Você é uma sacana que não faz o que poderia fazer, porque não se preocupa com os seus.

-Como é. Você tá louco, aliás, saia da minha casa, ninguém te autorizou a entrar e, muito menos, me dizer tanta merda.

-Merda o que? Você sabe que é verdade. Você tem ao seu redor muitas pessoas que, também como você, se julgam boas; boas da maneira que eles acham que é ser bom, ou seja: tudo para mim e para os meus, e se possível tirar um pouco do outro vou fazê-lo, porque o outro pode. Quantas pessoas já lhe traíram? Quer que eu enumere? Eu sei de tudo, seja de traição de homem, de amigos, de conhecidos, vizinhos. Eu to te dizendo, eu sei de tudo e vejo tudo, ganho algumas batalhas contra “aquele”, mas você já notou que posso sair mesmo vencedor em muitos casos, mui principalmente com pessoas que lhe rodeiam. Você não sabe, nunca soube escolher bem amigos, conhecidos, companheiros. Deixou que muitas pessoas entrassem na sua vida para te magoarem muito. Deixou que tanta coisa acontecesse com você que até eu, que adoro uma sacanagem, uma miséria, erros, falsidades, estou saindo em sua defesa. Cansei de ver você explorada, infeliz, sacaneada, traída. Acho mesmo que você não merece. Por isso vim te ajudar. Se seguir os meus conselhos vais ter uma vida maravilhosa. As pessoas vão te dar o merecido valor.

-Não quero sua ajuda, não sei quem você é, mas parece que você é aparentado com o “Satanás”!

-Kakakakakakakakakakaka! Até que enfim hein! Pensei que você nunca ia matar a charada! Sou eu mesmo querida! Viu que posso estar em muitos lugares e influenciando todas as pessoas? Viu como é fácil me infiltrar na vida deles. Você não, você eu tive que vim e me apresentar a você da maneira que você gosta, para que me desse ouvidos. Você sempre me tirou de letra do seu espaço, até mesmo quando dava algumas decisões medíocres. Vibrei quando você, tão boazinha, tão humaninha, teve a coragem de dizer que aquele povo que virou churrasco não tinha quaisquer direitos, pelos menos na sua área. Vibrei, mas depois me aborreci seriamente com você, porque, afinal, você tinha razão, não estava fazendo qualquer sacanagem, eles é que queriam fazer. Vibrei quando você falou do velho surdo, mas, olhando de novo tudo o que fez, fiquei, mais uma vez frustrado, porque você tinha razão, aquele era um velho chato e inconveniente, o que eu achava ótimo, pois, agia de acordo com os meus padrões. Você não me dava motivos de orgulho, não se apresentava como uma boa filha, uma merda. Mas,mesmo assim, mesmo com tantas futucadas, você não se fazia revelar como eu queria, me criando todo o tipo de dificuldades.

-Tá maluco? Saia daqui, não quero mais ouvir você falar, não quero mesmo.

- Não to maluco nada. Deixe eu te lembrar mais coisas, para que você perceba bem o quanto foi idiota.

-Não quero ouvir mais nada, me deixa em paz? Já que você quer me ajudar, o melhor a fazer é sair daqui.

-Nem pensar querida. Se eu sair daqui agora o muito que você vai fazer, idiotamente como sempre, é ficar chorando ai pelos cantos maldizendo a sua “sorte”. Não, vou ficar aqui e lhe dizer mais coisas. Tenha certeza que para o seu próprio bem. Já lhe disse, cansei de ver você só tomando na cabeça, nem eu, Diabo, agüento ver isto mais. Quer saber: você, toda “boazinha”, deu, ou melhor, deixou que pessoas entrassem na sua casa. Sabe o que elas fizeram? Trouxeram-me para dentro dela, e eu fiquei aqui, não sai mais, gostei do ambiente. Enquanto eles estiveram nela, isto aqui era mesmo o meu espaço, um inferno. Todos querendo tirar de um só, todos explorando o outro, todos querendo tirar vantagens. Enterraram coisas, plantaram coisas, e depois, você, de bobeira, entra nela, de peito aberto, sem quaisquer precauções. O que aconteceu? Quer que eu fale? Quando foi que a sua vida começou a mudar literalmente em relação ao “amor”? Pense um pouco? O outro que andava com você, mais esperto, mais íntimo meu, não gostava dos desafetos, mas...

-Vá à porra, me deixa em paz!

-Oh querida, este seu palavreado não lhe ajuda em nada, é apenas criticado pelas pessoas, nada mais, você que dá tanto valor a opinião alheia, devia parar com isto, dar-lhes menos um motivo para falarem de você. Ninguém acha engraçado, lhe fazem criticas. Pensa que isto e coisa minha? Qual nada, com você eu não tenho chance mesmo. Isto é apenas mais uma das suas idiotices, talvez para parecer o que não é, como se você precisasse de alguma coisa para ser notada, respeitada, etc. Você não precisa de nada, você “é” porque nasceu já sendo, não precisou ser fabricada, não se esqueça disto. Você nunca será um “não ser”, porque você realmente “É”. Até as pessoas que não gostam de você, não se engane, não porque, infelizmente, você fez nada para lhes tirar alguma coisa, ou alguma sacanagem, mas porque você “E” o que eles jamais serão. Eles sabem disto e, por isso mesmo, não gostam e tem os sentimentos que eu gostaria que você tivesse para fazer parte da minha turma: Inveja, mesquinhez, miserabilidade, ciúme.

-Acho bom você parar, to ficando muito cansada desta sua conversa.

-Mais uma só. Quando você viu seu”amado” com uma pessoa no fusca: lembra disto? Olhe que isto tem muito tempo. Você andou até o meio da rua. Eu atrás de você vibrando, ela vai fazer uma merda, vai quebrar o carro, vai bater no cara, enfim, fazer tudo que uma pessoa normal, que nem precisava estar de mim acompanhada faria. O que você fez e me aborreceu bastante: Voltou e ficou em pé, parecendo um poste, olhando aquilo tudo, chorando, bem verdade, mas quieta. Depois ficou orgulhosa a dizer que quem saiu foi ele. Porra nenhuma, ele fez o que quis fazer: te humilhou, te sacaneou, e você quieta, sem reação e eu, mais uma vez, vencido. Você tinha de ter arrebentado tudo. Pelo menos ia sair no jornal.

-Por favor, vá embora. Não quero mais esta conversa, já chega o que passei, não vou sofrer duas vezes.

-Sofrer! Pois é: eu é que não agüento mais ver você se martirizar, sofrer, se acabar. Gosto de pessoas bonitas, “gostosas”, pelo menos que assim se acham, mas você me decepciona a todo o momento, pois não adianta ser “boazinha” por dentro, esta marmelada que ensinam: “que as pessoas são feias por fora e bonitas por dentro”. Não é assim, e você bem sabe disto, o que interessa é o que aparece, e você não esta se cuidando. Seja fútil: vá para as academias pela manhã, pela tarde e, se possível, à noite. Vista roupas caras, as pessoas gostam de marcas, lhe dão o valor pelo que você usa, vá à restaurantes finos, freqüente as barracas de praia da moda, faça uma semana de spar, mas comente com todos isto, não se esqueça de falar muito sobre isto, compre óculos da Prada, Armani, Kalvin Klein. Vá morar em um flat, tenha carro bonito, se possível com um motorista a sua disposição, faça cruzeiros. Porra de estudar mais, estudar para que? De que adianta um título de doutor se você não tem nem com quem partilhar esta emoção? Para que este saber se as pessoas, nem sabem o que você sabe e nem querem saber por que não interessa falar “de pretos”. Larga esta porra toda. Vá se endividar mais, agora, com você, para que ao menos, depois da morte, quando você for encontrar comigo, justifique a sua chegada lá pelas minhas bandas. Deixe dívidas para que, aqueles que lhe tiraram tudo, inclusive a sua dignidade, paguem por elas e não tenham direito a nada do que você conseguiu com o seu suor, que infelizmente, não foi resultado da minha companhia quentinha. Faça tudo o que lhe der na telha. Seja cruel, diga às pessoas o que você gostaria que elas ouvissem. Deixe de dar dinheiro a familiares, eles que se virem; você já fez demais. Fico puto com todas estas boas ações suas, boas ações que me afastam de você, mas não me deixam tão distante que não perceba o mal que isto sempre lhe fez. Olhe! agora quem cansou fui eu. Você parece não querer entender que eu, somente eu, posso te ajudar. Veja se agora, depois de mais de meio século pedindo ajuda “àquele”, você pode me dar uma chance. Tenho certeza que você vai ser feliz, porque eu posso lhe dar isto, Você merece!

Desapareu. E ela ficou na sua rede a pensar. O que foi isto? Um sonho? Minha consciência? Será mesmo que vale a pena, ao menos, repensar tudo isto?

O cachorro chegou junto dela, estava todo arrepiado. Da porta da cozinha ele, agora já com a sua veste peculiar, gargalhava. Te fisguei! Agora você é minha, não ha mais como separar-nos e, descaradamente, mostrando todo o corpo nu, disse: Voltarei á noite, pode me esperar, queira você ou não,vou mesmo lhe ensinar o que é ser feliz.



quinta-feira, 1 de julho de 2010

EISBEIN MIT SAUERKRAUT


Em dezembro de 2008 foi a Berlim, Alemanha. Estava eufórica, afinal, depois de mais de 25 anos ia comer, outra vez, um autêntico e saboroso EISBEIN. Não sabem o que é isso? Digo-vos: É uma típica comida alemã feita com joelho de porco cozido acompanhado com o legitimo chucrute, aqueles repolho cortado bem fininho e bem avinagrado, delicioso e com um condimento chamado “zimbro”.
No avião já ia imaginando como seria aquele encontro com o prato que comeu pela primeira vez em um restaurante típico alemão, mas no Brasil, em uma estrada que liga Santa Catarina ao Rio Grande do Sul. Achou uma maravilha, mas nunca mais encontrou tal prato em lugar nenhum por onde passou, também, morando na Bahia, se encontrasse qualquer coisa parecida, certamente, estaria temperado com azeite de dendê, àquela época.